1. Usuário
Assine o Estadão
assine

A maior rebelião da história

Rose Saconi

18 fevereiro 2011 | 13:56

Há 10 anos

No dia 18 de fevereiro de 2001, o Primeiro Comando da Capital (PCC), organização criminosa incrustada nos presídios paulistas, desafiou o governo do Estado e promoveu rebeliões em 29 presídios como represália pela transferência, da Casa de Detenção, dos principais chefes do grupo.

Agentes penitenciários e familiares de detentos – homens, mulheres e crianças – foram feitos reféns.  Era um domingo, dia de visita em todos os presídios do Estado.

A ordem da rebelião partiu dos presos considerados do segundo escalão do PCC, recolhidos no Pavilhão 8 da Casa de Detenção e na Penitenciária do Estado. No sábado pela manhã, pelo celular, os representantes do PCC dos demais presídios receberam a determinação que deveriam iniciar a rebelião entre 12 horas e 12h30.

Durante a tarde, noite de sábado e a madrugada de domingo, os grupos se articularam. As conversas pelo celular aumentaram e houve o acerto dos últimos detalhes.

Um preso do Pavilhão 9, onde os reféns da Casa de Detenção ficaram recolhidos, disse pelo celular que a ordem era forçar ao máximo as autoridades para a volta dos líderes do PCC.  O mesmo detento disse que quando os parentes chegaram para a visita na Casa de Detenção, a maioria dos detentos já sabia que pais, mães, irmãos, mulheres, filhos e sobrinhos ficariam no presídio.

Na Detenção, entraram quatro mil adultos e cerca de mil crianças.  Na Penitenciária do Estado, 1.250 adultos e quase mil crianças.  Um número grande de parentes foi impedido de entrar na Penitenciária quando a rebelião começou. “Tivemos de fechar os portões e dispensar as pessoas porque temíamos uma fuga em massa”, explicou o agente penitenciário Reinaldo Perez, que trabalhava na portaria.

No começo da rebelião, dois funcionários da Detenção e duas visitantes desmaiaram, foram liberados pelos presos e medicados no PS Municipal de Santana.  Dois tiros foram disparados para o alto pelos detentos na Penitenciária.

Visitantes. Na porta do presídio, a reportagem do Estado ouviu a manicure Maísa Medeiros, de 33 anos, uma das mais exaltadas.  Ela exibia para os repórteres um cartaz que fez ali mesmo: “Queremos paz.” Ela procurava por notícias do irmão, que estava preso por assalto no Pavilhão 9.  Sua cunhada estava visitando o marido e fora mantida como refém. “Todo mundo já sabia que isso iria acontecer”, disse, sobre o clima tenso dos últimos dias na prisão.

A aposentada Geda Siqueira, de 48 anos, tinha um motivo importante para estar preocupada.  Seu neto, Mateus, na época com apenas 8 meses, era uma das crianças mantidas como refém pelos amotinados.  O menino entrou no presídio com sua mãe para visitar o pai, que estava preso havia três anos. “Tenho certeza que os presos não fariam nada com os visitantes”, disse. “Conheço todos do Pavilhão 7 e eles são como da minha família.”

O governador em exercício, Geraldo Alckmin, afirmou que o Estado não iria permitir que o crime organizado dominasse o sistema penitenciário. “Aqui só há um comando, que é o do governo”, disse firmemente em referência ao Primeiro Comando da Capital (PCC).