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Orlando Brito conta a história da foto de Tom Jobim

Armando Fávaro

27 fevereiro 2014 | 13:21

Maestro Tom Jobim.
Pedra do Arpoador, na Praia de Ipanema, no Rio, outubro de 1984

Eu era editor da Veja, em São Paulo, e a revista tinha uma reportagem de capa com o maestro Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. A matéria estava resolvida com as fotos que tínhamos, mas faltava o essencial, justamente a imagem que iria para a capa. Elio Gaspari, nosso diretor-de-redação queria uma fotografia fora do convencional, que chamasse a atenção do leitor logo no primeiro contato com a revista, ou seja, a capa. Disse-me: - Ouse, meu caro, seja ousado.

Então liguei para o Flávio Pinheiro, o chefe da sucursal da Veja no Rio. E pedi-lhe propusesse ao Tom que posasse para nós em Ipanema. O maestro aceitou. Pedimos que fosse bem cedinho, por volta das sete da matina, para evitar um enxame de pessoas a vê-lo. Para nossa surpresa, Tom disse sim novamente. Só me restou voar às pressas de Sampa para o Rio. Providenciou-se o aluguel de um piano, esse ai, e o levamos para o Arpoador. Levamos não, seis carregadores o suportaram nas costas. (Destaco esse detalhe, lembrado pelo dileto Woile Guimarães).

O sol brilhante conspirou a nosso favor. E pouco antes das sete da matina lá estava Antonio Carlos, tal e qual havíamos sonhado. Enquanto eu fazia as fotos, Tom tocou várias músicas. Várias, “O samba do avião”, “Garota de Ipanema” e outras mais. A certa altura, o senti com uma certa timidez ou desconforto. Eu mesmo achava a cena um tanto ousada para um sujeito tão contido quanto Tom. Ao percebê-lo encabulado, aproximei-me. E tivemos o seguinte diálogo:
- Qual é mesmo sua graça?, perguntou-me
- Brito, Orlando Brito, respondi-lhe.
- Brito, Orlando Brito, eu não sou o …, disse-me baixinho. (Não vou dizer nome do pianista famoso por delicadeza e respeito ao Tom e ao próprio artista citado)
- Tom, Tom Jobim, confie em mim. Creia no meu bom gosto. Não vou lhe transformar em Fulano de Tal, lhe assegurei.

E seguimos fotografando. Não durou muito, uns quinze ou vinte minutos, talvez. Ao final, quando dei o trabalho por completo, agradeci. Ele se levantou do banquinho e preparou-se para tomar seu carro, um Voyage creme. Mas antes de deixar a praia, voltou ao piano e disse:
- Faltou uma canção.
E mandou, sem cantar: Manhã, tão bonita manhã…
E olha que “Manhã de carnaval”, nem é de sua autoria. É composição de Luiz Bonfá e Antonio Maria.

Quanto terminou, levantou-se, deu uma piscadinha para um grupo de jovens senhoras que observava a cena da calçada, entrou no seu automóvel de cor creme, colocou um chapéu de palhinha e saiu, devagarinho, ele mesmo dirigindo.
Acho que gostou, porque na segunda feira-seguinte, quando viu a revista telefonou para nós na Veja e agradeceu. Nem acreditei que Tom Jobim fosse ter lembrança para isto. Teve.

A foto abaixo faz parte do material produzido.

Orlando Brito

O maestro Tom Jobim por Orlando Brito