Passageiros do sistema ferroviário da área metropolitana portenha viajam como sardinhas em uma lata. Desta forma, quando acontece um acidente, o acotovelamento dentro dos vagões magnifica o número de vítimas mortais.
Um trem da ferrovia Sarmiento descarrilou nesta quarta-feira de manhã ao entrar na estação de Once, no bairro de Balvanera, no macro-centro portenho, e bater contra a gare.
O choque – que transformou os vagões em uma massa de ferragens deforme – provocou a morte de 49 pessoas (48 adultos e uma criança). Outros 550 passageiros foram feridos. A maior parte das mortes ocorreu no primeiro e o segundo vagão.
O decadente sistema ferroviário argentino – e especialmente a linha Sarmiento – é famoso por “comprimir” os passageiros nos vagões como se fossem sardinhas em uma lata.
Quase todos passageiros do acidente desta quarta-feira conseguiram sair sozinhos dos vagões – ou foram removidos com ajuda de policiais e civis – nos primeiros minutos. No entanto, 60 pessoas ficaram presas nas ferragens durante quatro horas.
Rubén Sobrero, líder do sindicato dos ferroviários, afirmou que era um “dia de luto”. O sindicalista criticou o governo e as empresas de trensa pelo péssimo estado do sistema. Segundo ele, há anos a organização denuncia “a falta de investimentos” nas ferrovias e na manutenção de trens e vagões.
Os trens da linha Sarmiento são envelhecidos Toshibas dos anos 50 e 60, importados do Japão. Os passageiros costumam reclamar desde os anos 90 – época na qual o sistema de ferrovias foi privatizado pelo então presidente Carlos Menem (1989-99) – sobre a péssima qualidade de manutenção dos vagões e locomotivas.
O deputado e cineasta Fernando “Pino” Solanas, do partido de oposição Projeto Sul, afirmou que “há vários anos que a presidente Cristina Kirchner escuta, lê e vê estas denúncias e nada faz…”. Segundo Solanas, a falta de responsabilidade sobre o sistema ferroviário começou nos tempos de Menem e continua no governo atual.
Nos últimos 10 anos, em diversas ocasiões passageiros furiosos com os atrasos e as péssimas condições de transporte incendiaram vagões dos trens das diversas linhas ferroviárias que ligam a capital argentina com os municípios de sua região metropolitana.
Ao longo do último ano os sucateados trens portenhos protagonizaram cinco acidentes graves (incluindo o da estação Once), dois deles com vítimas fatais. No total, esses acidentes acumularam 780 feridos, além de 65 mortos.
O pior acidente da História da Argentina ocorreu em 1970, quando dois trens chocaram. Na ocasião morreram 200 pessoas.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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