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“E ali, a casa onde Hitler morreu…em 1960″

Ariel Palacios

quarta-feira 02/09/09

Capa do livro mostra Hitler, como estátua, na praça principal de Bariloche “Daqui vocês podem ver daqui a Cordilheira dos Andes, o lago Nahuel Huapi…e ali, no meio do bosque, a última residência de Adolf Hitler e Eva Braun. Ali Hitler morreu em 1960″. A insólita frase pode ser pronunciada ocasionalmente pelos guias aos turistas [...]

Guia
Capa do livro mostra Hitler, como estátua, na praça principal de Bariloche

“Daqui vocês podem ver daqui a Cordilheira dos Andes, o lago Nahuel Huapi…e ali, no meio do bosque, a última residência de Adolf Hitler e Eva Braun. Ali Hitler morreu em 1960″. A insólita frase pode ser pronunciada ocasionalmente pelos guias aos turistas que visitam a cidade de Bariloche, na Patagônia, no sul da Argentina. Ali, segundo um polêmico livro, teria se refugiado o tenebroso Führer do Terceiro Reich após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.
Hitler, afirma a obra, não deu um tiro na cabeça (junto com uma cápsula de cianureto que mordeu) na Berlim bombardeada pelos soviéticos. Segundo o livro, teria falecido tranquilamente, anos depois, em Bariloche.

A obra é “Bariloche Nazi – Lugares Históricos Relacionados com o Nacional-Socialismo”, do jornalista e escritor Abel Basti. O livro é um peculiar guia turístico para percorrer o “lado nazista” dessa cidade com look bávaro alpino no sopé dos Andes.

Além da fantasiosa última residência de Hitler, o guia mostra com detalhes as casas e os lugares reais onde passeavam e se reuniam dezenas de criminosos de guerra que comprovadamente passaram pelo país.

Esse é o caso de Erich Priebke e Reinhard Koops – que nos anos 40 e 50 se esconderam nessa cidade. Outros nazistas, como Walter Kutschmann, Josef Schwammberger e Abraham Kipp também teriam passado pelo lugar.

Na época, Bariloche não passava de um vilarejo afastado da civilização, a 13.500 quilômetros das fumegantes ruínas de Berlim.

Ali se esconderam nazistas alemães e austríacos, bem como croatas “ustaschas”, belgas, fascistas italianos e colaboracionistas franceses.

Calcula-se que no pós-guerra, sob o governo do general Juan Domingo Perón, mais de 1.300 criminosos de guerra passaram pela Argentina, muitos dos quais acabaram residindo no país.

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Guia afirma que Hitler morreu tranquilamente na Patagônia

NAZISTAS AO SOPÉ DOS ANDES
“Não estou reivindicando ideologia alguma”, explica o autor do excêntrico “city guide”. Segundo Basti, o livro convida o turista a percorrer Bariloche em uma perspectiva “diferente”, “alternativa” à tradicional. “É para que o leitor conheça como e onde viveram estes sombrios personagens”.

A polêmica do guia começa pela capa, na qual – por meio de uma fotomontagem – aparece uma estátua de Hitler no centro de Bariloche. Dentro, um mapa exibe o “tour nazista”, tal como em Hollywood os mapas mostram as casas das estrelas do show-business.

Diversos comerciantes e políticos locais protestaram contra o livro quando foi lançado, já que não querem que Bariloche tenha a imagem de uma cidade nazista, nem que atraia hordas de militantes de extrema-direita de todo o mundo.
A nazi-guia já conta com cinco edições.

O surgimento do “turismo nazista” na América do Sul causou grande polêmica na comunidade judaica. Segundo representantes da comunidade em Bariloche, a idéia de publicar o livro é “infeliz” e “só pode interessar aos neonazistas”.

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Livro afirma que ditador teria fugido da Alemanha para ‘aposentar-se’ no sopé da Cordilheira dos Andes. Na foto, A.Hitler nos alpes bávaros.

Na Argentina reside a maior comunidade judaica da América Latina, com mais de 500 mil pessoas. Coincidentemente, nesta país também está o maior número de grupos neo-nazistas. Nos anos 30, a Argentina teve o segundo maior partido nazista do mundo, depois da Alemanha, com mais de 60 mil filiados.

Um dos principais protagonistas do nazi-guia é o alemão Erich Priebke, oficial da SS, responsável em 1944 pelo massacre das fossas Ardeatinas, em Roma, onde ordenou o assassinato de 345 civis. Priebke fugiu para a Argentina logo após a guerra, instalando-se em Bariloche. Ali, viveu tranquilamente, sem modificar seu nome, tornando-se uma das pessoas mais “respeitadas” e com grande influência na cidade através da presidência da Associação Cultural Germano-Argentina.

No entanto, uma equipe jornalística o retirou do esquecimento mundial no início dos anos 90. Em 1995 foi extraditado para a Itália. Sua casa e os lugares que frequentava são um dos pontos de interesse do guia.

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Priebke, criminoso de guerra nazista, viveu várias décadas em Bariloche, usando seu nome verdadeiro, sem ser incomodado

Segundo o autor, passaram por Bariloche figuras sinistras do Terceiro Reich como o médico Joseph Mengele; o “cérebro” do holocausto, Adolf Eichmann e até o braço direito dos últimos anos de Hitler, Martin Bormann.

Entre as peculiaridades do livro, Basti mostra fotos de um suposto “bunker” de nazistas no meio dos bosques, que foi misteriosamente dinamitado pelo exército argentino décadas após o fim da Segunda Guerra.

Perto de Bariloche, está o “Berghof” – uma residência no sopé da Cordilheira, no município de Villa La Angostura – que tem o mesmo nome da casa que Hitler tinha nos Alpes da Baviera. Ali, segundo Basti, teriam se refugiado o Führer e sua esposa. Contrariando a maioria dos historiadores, o escritor argentino afirma que o casal não se suicidou em Berlim e que teria fugido para a Patagônia em um submarino.

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Mengele, na extrema esquerda, com outros colegas de métier em uma pausa

livrossBOOM DE LIVROS SOBRE NAZISTAS
Após o final da Segunda Guerra Mundial a Argentina foi um dos refúgios favoritos dos criminosos de guerra nazistas que escapavam da Justiça na Europa. Nos últimos 10 anos, com a detenção de diversos criminosos de guerra nazistas, já octogenários e nonagenários – e a descoberta de novos documentos sobre as atividades dos refugiados do Terceiro Reich no país – a atenção dos argentinos sobre a presença de homens do Führer Adolf Hitler aumentou mais ainda, propiciando vasta produção bibliográfica sobre o assunto.

Desde o ano passado o país vive um novo boom de livros sobre o assunto. Entre as obras, várias relatam a fuga de cientistas nazistas para a Argentina.

Um dos livros está “Mengele – O anjo da morte na América do Sul”, de Jorge Camarassa, um veterano “caçador de nazistas”.

Mengele, conhecido pelo apelido de “Doutor Morte” por suas cruéis experiências com crianças (especialmente gêmeos) e mulheres no campo de concentração de Auschwitz, chegou ao país em 1949.

Camarassa – que seguiu os passos de Mengele pela Argentina, Paraguai e Brasil (onde morreu) – relata no livro que sádico médico passou nos anos 60 pela cidade gaúcha de Cândido Godoy. Ali, sugere Camarassa, o médico nazista teria realizado experiências genéticas que transformaram a cidade no lugar com maior índice de nascimentos de gêmeos em todo o mundo (quatro vezes maior que a média mundial). Os habitantes da cidade negam enfaticamente as suspeitas de Camarassa.

Outro livro, do pesquisador e jornalista Carlos De Nápoli, “Os cientistas nazistas na Argentina”, relata a ida de físicos, químicos e biólogos do Terceiro Reich para o país.

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Bergius, o Nobel que morreu em Buenos Aires

Segundo De Nápoli, a maioria dos cientistas que desembarcaram na Argentina eram de segunda categoria. Mas, havia exceções de destaque, entre eles Friedrich Bergius, Prêmio Nobel da Química de 1931, inventor do petróleo sintetizado a partir do carvão (invento que permitiu prolongar o esforço de guerra alemão por vários anos).

Bergius, que segundo De Nápoli foi um dos autores do Primeiro Plano Qüinquenal do governo Perón, morreu em Buenos Aires em 1949. O Nobel está enterrado no cemitério de La Chacarita.

Outro inventor alemão que refugiou-se na Argentina (mas que aqui passou quase incógnito) foi Reimar Horten, o criador da “asa voadora” alemã, base para posteriores e revolucionários bombardeios americanos, como o Nothrop N-9M.

Maior protagonismo teve o engenheiro Kurt Tank, que projetou o Pulqui, o primeiro avião a jato da América Latina. Desta forma, graças a um de seus cientistas alemães, Perón conseguiu tornar a Argentina o terceiro país no mundo a contar com jatos.

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Kurt Tank projetou e construiu o Pulqui, transformando a Argentina no primeiro país da América Latina a ter caças a jato

No entanto, Perón também foi enganado. Esse foi o caso de Hans Richter, amigo de Tank, que convenceu o general a montar para ele um laboratório em Bariloche onde – prometia – realizaria a fusão nuclear.
Depois de meses sem resultados – e de ter gasto, segundo De Napoli, dezenas de milhões de dólares – Ricther comunicou que havia conseguido realizar a fusão a frio. Perón, transbordando de alegria, fez um anúncio oficial.

Os cientistas argentinos duvidavam dessa descoberta do nazista, principalmente porque Richter recusava-se a abrir seu laboratório para estranhos.
A queda de Perón em 1955 também foi a queda de Richter e a descoberta de que as pesquisas do nazista não passavam de uma cara falcatrua.
Mas, o fiasco serviu para estimular a criação de um comitê que tornou o país, nos anos 60, no primeiro da América Latina a controlar a fusão nuclear.

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Ronald Richter, o cientista que ludibriou Perón. Na foto, Richter com seu anônimo gato

O affaire Richter rendeu um livro, publicado no ano passado, em forma de romance. É “O homem que enganou Perón”, de Daniel Sorín.

livross2dPRODUÇÃO PRÓPRIA
Os nazistas na Argentina publicaram obras próprias, defendendo o Terceiro Reich e reeditando “Mein Kampf” (Minha Luta). Alguns, como o colaboracionista francês Henri Queyratt, integrou-se totalmente (adotou o nome em espanhol de “Enrique”) – tornou-se um dos principais enólogos do país nos anos 70 – e publicou o best-seller “Os bons vinhos argentinos”.
Outros, como Wilfred Von Oven, antigo assessor de imprensa do Ministro Joseph Goebbels, publicou “Quem era Goebbels?”, uma longa e enfática defesa de seu defunto chefe.

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