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Ariel Palacios

“Esse não”: Presidente Cristina Kirchner não quer que seu vice atual, Julio Cobos, presida a cerimônia de sua segunda posse, dia 10 de dezembro.

A presidente Cristina Kirchner, reeleita nas eleições de outubro passado, não deseja a presença de seu próprio vice-presidente, Julio Cobos, na posse de seu segundo mandato. Cristina, que considera o vice um “traidor”, quer driblar a Constituição argentina e evitar que Cobos – que também acumula o cargo de presidente do Senado – faça a leitura de seu juramento presidencial. No entanto, os assessores jurídicos da Casa Rosada estão elaborando estratégias para modificar a tradicional cerimônia, marcada para o dia 10 de dezembro.

O argumento do governo é que Cristina, por ser reeleita, sucede a si própria. Portanto, afirmam no palácio presidencial, ela própria poderia ler seu juramento. Na sequência, Cristina pegaria de cima da mesa da presidência do Senado a faixa e o bastão presidencial que ela teria ali colocado segundos antes do juramento.

Mas, os historiadores recordam que o caso mais recente de reeleição, o de Carlos Menem em 1995, implicou em uma cerimônia na qual o presidente do Senado (coincidentemente, seu próprio irmão, Eduardo Menem) tomou seu juramento.

A Constituição argentina determina que o vice-presidente da República é o presidente do Senado. Neste posto, em julho de 2008, Cobos, com seu voto de Minerva, desempatou a votação sobre o “impostaço agrário” que a presidente Cristina queria aprovar. “Meu voto não é positivo”, disse Cobos na ocasião, derrubando o projeto de lei do governo Kirchner. Desde então, a presidente Cristina nunca mais falou com seu vice e o ignora em todas as cerimônias públicas.

Em diversas ocasiões os ministros de Cristina exigiram a renúncia do vice. No entanto, Cobos resistiu às pressões.

Rumores no âmbito político indicam que o governo pretenderia que Cobos renuncie a seu cargo minutos antes da posse, de forma a permitir que outra autoridade institucional tome o juramento de Cristina.

Os assessores de Cobos sustentam que por enquanto não foram notificados sobre qualquer alteração da cerimônia de posse.

No entanto, na última semana os sinais foram mais explícitos:

- O ministro da Economia, Amado Boudou, vice-presidente eleito de Cristina, disse publicamente que não quer Cobos “ao redor” na posse da presidente reeleita.

- O deputado kirchnerista Edgardo Depetri alertou Cobos publicamente: “ele deve pular fora e não tentar tomar o juramento da presidente” Cristina.

Cobos, assustado – ou precavido – indicou há poucos dias que não teria problemas em ficar fora da cerimônia, caso façam um pedido oficial desde a Casa Rosada. 

Vice-presidente Julio Cleto Cobos. Charge de El Niño Rodríguez. Site do artista:http://www.elninorodriguez.com/

VICE POLÊMICO - Em 2007, Cobos – na época governador da província de Mendoza – foi escolhido pelo então presidente Nestor Kirchner para ser o vice de sua mulher. Representante dos “Radicais-K” (denominação dos integrantes do setor dissidente da União Cívica Radical, alinhado com o casal Kirchner), Cobos era chamado ironicamente pelos peronistas de “mosquinha morta”, por causa de seu nulo carisma e falta de influência política.

Mas, o protagonismo decisivo de Cobos na derrubada do “impostaço agrário” de Cristina disparou a popularidade do vice, que durante dois anos teve uma aprovação popular que duplicava a da própria presidente (no entanto, sem timing assumir protagonismo político caiu de forma gradual e persistente nas pesquisas, até deixar de ter importância…Hoje em dia Cobos carece de qualquer tipo de influência política).

O próprio Kirchner comentou no final de 2008 que todos os dias, no café da manhã, a presidente Cristina lhe recriminava: “olha o vice que você me colocou!”.

Para os próximos quatro anos Cristina optou por um vice de comprovada fidelidade, o atual ministro da Economia, Amado Boudou, roqueiro nas horas vagas (e também nas horas de trabalho).

Boudou, daqui a 4 anos, quando conclua o segundo mandato de Cristina Kirchner, faria o mesmo que a Constituição Nacional argentina determina, e – tal como Cobos tinha a intenção de fazer (originalmente) – tomará o juramento do sucessor ou sucessora da atual presidente.

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Amado Boudou – Aimé para os parentes e amigos – dá uma de Bob Dylan durante um anúncio de medidas econômicas por parte da presidente Cristina Kirchner.

oqueiro, amante das motos Harley Davidson e DJ de festas. Embora pouco costumeiro para um político e um futuro vice-presidente, este é o perfil de Amado Boudou, economista de 48 anos com physique du rôle de galã, que passou da direção do sistema de aposentadorias ao posto de ministro da Economia em 2009. Agora ele é o candidato a vice-presidente na chapa de Cristina Kirchner, que disputa sua reeleição no dia 23 de outubro. Nas últimas semanas, Boudou assumiu a missão de fazer comícios em todo o interior do país, para suavizar a tarefa da presidente Cristina, que na terça-feira, pelo cansaço e estresse, teve um quadro de hipotensão. O ministro aproveita cada ato público para – vestido com camiseta e jeans – mostrar discutidos dotes de guitarrista e encerrar os comícios ao lado da banda de rock “La Mancha de Rolando”.

Caso seja eleito com Cristina – assim indicam as pesquisas, de forma unânime – Boudou, a partir do dia 10 de dezembro, será também o presidente do Senado (na Argentina o vice-presidente da República é o presidente da câmara alta).

Além disso, diversas especulações no âmbito político indicam que a partir de abril do ano que vem Boudou poderia ocupar o cargo de presidente do Partido Justicialista (Peronista), caso a presidente Cristina não aceite o comando partidário oferecido pelas principais autoridades peronistas. O último presidente do partido foi o ex-presidente Nestor Kirchner, que morreu em outubro passado, vítima de um fulminante ataque cardíaco. Depois, o posto foi ocupado de forma provisória pelo governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli.

A eventual designação de Boudou para o comando do peronismo irrita a ala tradicional do movimento político fundado pelo general Juan Domingo Perón há 66 anos. Motivos existem de sobra, já que o bem-apessoado ministro – um recém-chegado no estatizante peronismo – foi durante a maior parte de sua vida um militante da União de Centro Democrático (Ucedé), partido de centro-direita que durante décadas foi o principal reduto do neo-liberalismo argentino. Além disso, foi professor da Universidade do Centro de Estudos Macroeconômicos Argentinos (Ucema), que serviu de “think tank” para as privatizações do governo de Carlos Menem nos anos 90.

Caso a presidente Cristina não consiga uma reforma constitucional que permita uma segunda reeleição (segundo indicam os rumores no âmbito político), Boudou é indicado como o principal “delfim” para sua sucessão.

Velhos integrantes do governo irritam-se com os comentários da presidente sobre Boudou, denominado de “o baby face” do gabinete. “Ele tem 48 anos. Mas parece bem menos, reconheço”, disse Cristina recentemente em um discurso, enquanto sorria olhando para seu futuro vice. O ciúme dos outros ministros foi evidente.

VICE LEAL – Boudou, que não tinha cacife político próprio, demonstra incondicional lealdade a Cristina. Essa é sua vantagem, afirmam os analistas, que destacam que a presidente Cristina buscava essa característica, de forma a evitar os problemas que teve com seu atual vice, Julio Cobos, que rachou com a presidente em julho de 2008, causando a pior crise política da administração Kirchner. Na ocasião, com seu voto de Minerva, Cobos derrubou no Senado o projeto de lei de Cristina que pretendia um “impostaço agrário”. Desde então a ela não fala mais com Cobos, encarado como “traidor”.

“A partir dos fatos que são de público conhecimento, a escolha de um vice é fundamental”, disse Cristina no dia em que anunciou sua escolha por Boudou.

“O principal mérito de Boudou para ser o vice é que ele é leal a Cristina. A presidente quer evitar a ‘Síndrome de Cobos”, afirmou ao Estado a analista política Mariel Fornoni, da consultoria de opinião pública Management & Fit.

Boudou com sua namorada Agustina Kampfer. O casal protagoniza tórridos beijos nas festas.

RUIVA E BEIJOS - Boudou namora a bela e ruiva jornalista Agustina Kampfer, duas décadas mais jovem que o ministro, com a qual protagoniza beijos cinematográficos em festas. “Amado me liga mil vezes por dia”, disse há poucos meses. A jornalista também usa o twitter para tercer elogios sobre o namorado.

O uso intensivo da guitarra e a dedicação intensiva a festas é o alvo de críticas que empresários e economistas disparam contra Boudou. Segundo eles, o ministro não está tomando medidas para blindar o país perante a crise internacional, além de não adotar medidas contra a escalada inflacionária, cuja existência ele nega.

Elisa Carrió, candidata presidencial da Coalizão Cívica, de oposição, comentou ao Estado sobre Boudou: “como ele toca a guitarra!”. O comentário era uma ironia, já que na Argentina a expressão “tocar a guitarra” equivale a “enrolar”.

GOVERNO ROQUEIRO - Boudou ganhou espaço de poder dentro do governo Kirchner quando, em 2008, no comando do sistema previdenciário, propôs ao casal Kirchner a ousada jogada de implementar uma reestatização da totalidade das aposentadorias. Embora o objetivo oficial a longo prazo fosse oferecer garantias para os futuros aposentados, a curto prazo a reestatização permitiu que o governo conte com uma caixa de US$ 25 bilhões extras que são destinados para fazer política.

A medida foi duramente criticada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), as principais agências qualificadoras e por vários setores da oposição de centro e centro-direita.

Recentemente, já candidato a vice, Boudou foi ao programa de auditório “Sabado Bus” e recebeu, em um sorteio, uma moto zero km. Depois, durante o programa, demonstrou seus dotes de guitarrista.

Neste link, a performance do ministro e futuro vice no programa do Telefé, canal que pertence à Telefônica da Espanha. Aqui.

nquanto Nestor Kirchner esteve vivo, o ocupante da pasta de Economia tinha pouco peso, já que o virtual ministro era o próprio ex-presidente. Mas, com a morte de Kirchner, cresceu a influência de Boudou, que tece longas apologias à sua chefe em cada discurso.

Boudou, que aprecia ternos bem-cortados e coleciona canetas-tinteiro, atualmente conta com o respaldo de Hugo Moyano, líder da principal central sindical do país, a CGT e da organização de defesa dos direitos humanos das Mães da Praça de Mayo.

Boudou, rechaça as críticas com ar rebelde. Recentemente, em um entrevista à edição argentina da revista “Rolling Stone” o ministro e eventual futuro vice resumiu a essência da administração Kirchner com uma analogia de rock and roll: “este é um governo muito roqueiro, pois tem esse espírito de atrever-se a mudar as coisas que não gosta”.

 

AIMÉ - Amado Boudou, chamado de “Aimé” (Amado em francês) por sua família e amigos, estudou no balneário de Mar del Plata, onde formou-se em Economia. Depois de trabalhar como DJ em festas no litoral, o jovem

“Era um playboy naquela época”, afirma ao Estado uma ex-colega de faculdade. Ela formou-se rápido. Mas Boudou levou vários anos a mais. “É que ele estava ocupado com sua militância política na juventude da Ucedé”, explica.

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

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Vice-presidente Julio Cobos ilustrado pelo cartunista argentino El Niño Rodríguez. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/

Pacato, low profile e supostamente inofensivo, o vice-presidente Julio Cesar Cleto Cobos era considerado o parceiro ideal para a chapa de Cristina Kirchner em 2007, quando o então presidente Néstor Kirchner preparava uma sucessão protagonizada pela própria cônjuge. Na época, Cobos rachou com seu partido, a União Cívica Radical (UCR), de oposição, para entrar na chapa governista. Ele e seus dissidentes foram ironicamente batizados de “Radicais-K”, em alusão à inicial do casal presidencial. Na época Cobos era visto como uma “mosquinha morta” – um vice-presidente sem ambições – que não implicava em riscos para o casal Kirchner.

No entanto, a parceria entre o vice e a presidente durou apenas oito meses. Com o passar do tempo, Cobos começou a divergir da política econômica do casal Kirchner. Mas, o racha consolidou-se em julho de 2008 quando Cobos, na categoria de presidente do Senado, derrubou com seu voto de Minerva o impopular projeto de lei de “impostaço agrário” da presidente Cristina.

O “impostaço” havia gerado um locaute sem precedentes dos ruralistas, além de panelaços da classe média nas grandes cidades em apoio inédito aos agricultores.

Seu voto contra o casal Kirchner transformou Cobos em uma figura popular, algo raro para um vice-presidente argentino.

As frases por ele pronunciadas na sessão do Senado – com dramático nervosismo – para explicar sua decisão de votar contra a própria presidente foram rapidamente estampadas em camisetas que foram sucesso de vendas na internet.

“A História me julgará”, “Meu voto não é positivo” e “Este é o momento mais difícil de minha vida”, entre outros, foram os dizeres que transformaram-se um hit em 24 horas. Imagens do “voto não-positivo”, aqui.

O merchandising da denominada “Cobosmania” também esteve presente nas canecas que ostentam as frases que levaram o antes desconhecido vice à categoria de superestrela da política argentina em 2008. Uma pesquisa da consultoria D’Alessio Irol indicou na época que 75% dos argentinos aprovam o gesto de Cobos de votar contra o governo Cristina.

Imediatamente Cobos foi isolado pelos Kirchners, que o consideraram um “traidor”. A presidente Cristina não fala com ele desde 2008. Com frequência integrantes do governo pedem sua renúncia e o acusam de estar por trás de uma “conspiração” que supostamente reuniria ruralistas e partidos da oposição para implementar um hipotético “golpe de Estado”. No entanto, Cobos resistiu a todas as pressões, alegando que, como vice, também havia sido eleito pelo voto popular.

Tempos de boas relações com a presidente Cristina Kirchner acabaram em 2008.

Entre 2008 e 2009 C0bos foi considerado a grande alternativa para derrotar Kirchner nas urnas. No entanto, de lá para cá Cobos perdeu protagonismo, já que não se posicionava claramente como candidato da oposição, além de continuar no cargo de vice-presidente de um governo ao qual posicionava-se contra.

Os analistas indicam que Cobos errou em sua estratégia, já que – segundo eles – deveria ter deixado o cargo e firmar sua posição como líder da oposição contra os Kirchners.

A atitude vacilante de Cobos foi o foco da imitação do vice feita no programa ”Gran cuñado” (Grande Cunhado), uma paródia do Gran Hermano (Big Brother). O programa, em 2009, ironizava os principais políticos argentinos, incluindo o casal Kirchner. Acima, na foto o imitador de Cobos em “Gran Cuñado”.

Mas, Cobos vacilou no meio da feroz – e dinâmica – arena política argentina. Isso levou vários simpatizantes e aliados a desertar de suas fileiras. Simultaneamente começaram a aparecer outras candidaturas dentro da UCR.

Uma delas foi o senador Ernesto Sanz, outrora aliado mas atualmente rival na UCR, que conseguiu maior visibilidade graças aos intensos debates que agitaram o Parlamento entre 2008 e 2010. De quebra, a figura de Cobos começou a enfrentar a concorrência de outro correligionário, Ricardo Alfonsín, filho do ex-presidente Raúl Alfonsín.

O resultado foi que desde 2009 Cobos gradualmente passou a um segundo plano nas especulações sobre presidenciáveis na Argentina.

No entanto, apesar da perda de terreno dentro das fileiras opositoras ainda é um nome de peso como presidenciável.

 

Cobos costuma participar de maratonas. Ao fundo, a Casa Rosada, o palácio de governo onde está “el sillón de Rivadavia”, a cadeira presidencial que ambiciona conquistar nas eleições de outubro.

TRINCHEIRA - Filho de um portenho e uma bonaerense, Cobos, nascido em 1955, foi o primeiro mendocino da família. Seu pai, militante peronista, mudou-se à Mendoza para fugir da repressão do golpe que derrubou o presidente Juan Domingo Perón em 1955. Décadas depois, seu pai – fanático torcedor do River Plate – lamentaria, com ironia: “minha vida só tem duas desgraças: um filho radical e um neto do Boca Juniors”. Cobos estudou no Liceu Militar e depois entrou na Universidade Tecnológica de Mendoza, onde se formou em Engenharia Civil. Ali conheceu sua esposa, também engenheira.

Em 1978, quando a Argentina quase entrou em guerra com o Chile pela disputa do canal de Beagle, foi designado tenente e esteve em uma trincheira esperando o ataque chileno na Cordilheira dos Andes (a guerra não aconteceu; paradoxalmente, hoje é um dos principais interessados na integração do Mercosul com o Chile).

Depois, trabalhou na atividade privada e foi reitor da Universidade. Apolítico, só em 1991 entrou na UCR, quando foi convocado para trabalhar primeiro na prefeitura e depois no governo provincial no comando das obras públicas. Em 2003, diante do descrédito popular com os políticos tradicionais, a figura de Cobos apareceu como uma opção “técnica”, com jeito de “administrador”. Na ocasião, derrotou o candidato de Kirchner.

Gosto pela aventura: Há poucos anos Cobos atravessou a Cordilheira dos Andes com uma mula (foto do acervo do vice-presidente)

Aventureiro, Cobos gosta de fazer trekkings (atravessou a Cordilheira com uma mula) e acompanha o filho a concertos de rock. Mas, ao mesmo tempo, é sóbrio e discreto. Não beija bebês, mas se detém, no meio de sua corrida diária (corre sozinho, sem guarda-costas), para conversar com os pedestres. Seu escritório na época em que era governador de Mendoza, no austero edifício do governo, não mostrava luxos. A primeira coisa que exibia com orgulho, quando o entrevistei em 2006, é a foto dos três filhos.

Seu ídolo político é o ex-presidente Arturo Frondizi (1958-62), que tal como Cobos, protagonizou uma dissidência da UCR que obteve o respaldo (embora temporário) peronista. Admira o ex-presidente chileno Ricardo Lagos. Define-se como “progressista-liberal a favor da inclusão social”.

Na área de política exterior considera que os governos argentinos deveriam fazer maiores esforços para que o Mercosul tenha mais institucionalidade. “Hoje funciona como alfândega imperfeita”, lamenta. 

   

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Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Fernando Lugo, ex-bispo, atual presidente do Paraguai, teme um golpe contra seu governo

blog1hand-prawo2Os líderes dos partidos da oposição no Paraguai dispararam intensas críticas contra as declarações que o presidente Fernando Lugo fez sobre supostas tentativas de armar um golpe de Estado contra seu governo. As declarações, segundo informações extraoficiais, teriam sido feitas pelo presidente paraguaio a seus colegas sul-americanos durante a reunião de cúpula da União de Nações Sul-americanas (Unasul), realizada na semana passada em Cardales, a 70 quilômetros de Buenos Aires. Na cúpula, o ex-presidente argentino Néstor Kirchner (2003-2007), eleito para o posto de secretário-geral da Unasul, teria prometido assumir como própria “a causa do Paraguai”. Kirchner, segundo as informações publicadas pelo jornal portenho “Ámbito Financiero”, destacou que Lugo sofre um “sério conflito com seu vice-presidente, Federico Franco”.

Lugo chegou ao poder em 2008, após derrotar o partido Colorado, que havia estado 61 anos ininterruptos no poder. Mas, para chegar ao Palácio de López, o palácio presidencial, Lugo – que não contava com uma estrutura partidária de peso própria – pactuou uma turbulenta aliança com o conservador Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), além de partidos de esquerda.

O PLRA – que propiciou a Lugo mais de 60% dos votos que a coalizão teve nas eleições presidenciais – é representado pelo vice Federico Franco, com o qual o presidente mantém uma tensa relação desde antes da própria posse. Franco sempre criticou Lugo por ter colocado poucos representantes do PLRA no gabinete presidencial.

O ex-presidente Nicanor Duarte Frutos (2003-2008), representante do partido Colorado, de oposição, afirmou ao jornal “ABC Color” que as declarações de Lugo a seus colegas da região sobre um complô “é um relato farsante”. Segundo Duarte Frutos, “Lugo tem uma enorme fraqueza por sua falta de capacidade de construir consensos políticos básicos. Por causa dessa fraqueza tenta instalar no imaginário internacional o relato farsante de conspiração golpista”.

O analista político Bernardino Cano Radil disse ao Estado que “um golpe de Estado é absolutamente inviável no Paraguai. Nem as Forças Armadas, nem os partidos políticos estão pensando nisso. É apenas propaganda do governo para justificar sua incapacidade de poder negociar. O presidente não quer sentar para conversar com as principais forças do Parlamento, sequer com seu vice”.

GUERRILHA – O foco mais recente da crise entre Lugo e Franco foi gerado pela suposta guerrilha do autodenominado Exército do Povo Paraguaio (EPP), responsável por uma série de sequestros e roubos na região norte do país nos últimos dois anos. Lugo, para combater o EPP, declarou estado de exceção em cinco departamentos (equivalentes a estados) e enviou tropas do Exército para perseguir e deter os integrantes da suposta guerrilha.

No entanto, o vice-presidente Franco afirmou que a declaração de estado de exceção era um exagero que constituía um “show midiático”.

O ministro do Interior do Paraguai, Rafael Filizzola, em entrevista ao Estado na sexta-feira à noite em Buenos Aires, afirmou que o EPP “não é uma guerrilha…é um grupo de criminosos. São pessoas armadas, perigosas. Mas, não é nem um exército nem uma guerrilha. Não são capazes nem de desestabilizar o país, nem muito menos de atentar contra as instituições democráticas. Mas, repito que não é um problema que deva ser minimizado, pois são pessoas muito bem treinadas, que já roubaram, sequestraram e assassinaram”.

Filizzola, que pertence ao pequeno Partido Democrático Progressista, que integra a coalizão de Lugo, criticou setores “que estão perdendo seus privilégios” (em alusão ao partido Colorado) que estão utilizando o surgimento do EPP para “aproveitar-se da situação”: “precisamos colocar este problema em um contexto histórico. Estamos superando uma História de décadas de hegemonia de um partido político. Isso significou que pessoas que por muito tempo desfrutaram de privilégios políticos que agora os estão perdendo. O EPP e outros assuntos são usados para fazer ataques políticos ao governo Lugo. O EPP como tal não tem possibilidade de colocar em risco a vigência das instituições democráticas. Mas, sim, existem setores radicalizados que estão perdendo seus privilégios e estão aproveitando-se da situação”.

blogviuvamourning

Uma viúva: “Valentina de Milão, chorando pela morte de seu marido Louis de Orléans” (ao redor de 1802). Obra no Museu Hermitage, em São Petersburgo. Quadro de François Fleury-Richard (1777-1852).

‘TER VICE É COMO DORMIR COM A VÍUVA’

“Ter um vice é como dormir com a própria viúva” é uma das definições existentes sobre o cargo de vice-presidente, em alusão à pessoa que só adquirirá a herança política – isto é, o cargo máximo de uma república – quando o presidente falece, renuncia ou é removido. No Paraguai, no entanto, o posto de vice-presidente foi costumeiramente denominado de “vaso de flores”, já que considera-se que sua função é meramente decorativa.

O país não teve vice-presidente durante toda a ditadura do general Alfredo Stroessner (de 1954 a 1989), além da primeira presidência com a volta da democracia, a de Andrés Rodríguez (1989-93), que desconfiado dos vices, tal como seu antecessor, preferiu não implantar o cargo. A partir de 1994 o Paraguai passou a contar com o posto.

Um vice, Luis María Argaña, terminou seus dias de forma trágica, já que foi assassinado com o corpo cravejado de balas, em 1999, quando estava há menos de um ano no posto. Sua morte ainda está submersa em especulações, já que existem diversas teorias para o crime. No entanto, todas possuem um ponto em comum, o de que a trágica morte de Argaña servia para desestabilizar o governo do presidente Raul Cubas Grau, que teve que abandonar o cargo – e o país – poucos dias após o assassinato.

VICE ARGENTINO – No entanto, na Argentina os vices tiveram maior protagonismo em crises. Esse foi o caso de Isabelita Perón, vice de seu próprio marido, o presidente Juan Domingo Perón, que assumiu a presidência do país quando este faleceu em 1974. Seu governo foi caótico e acabou com o golpe de Estado de 1976.

Após a volta da democracia vários presidentes tiveram relações conturbadas com seus vices. Esse foi o caso de Carlos ‘Chacho’ Álvarez, vice do presidente Fernando De la Rúa, que no ano 2000 renunciou depois que este não demonstrou interesse em avançar com as investigações sobre um escândalo no Senado. Sua renúncia deu início à desconfiança dos mercados sobre o país, que em pouco mais de um ano afundou na pior crise de sua História, a de 2001-2002.

O atual vice argentino, Julio Cobos, integrante da União Cívica Radical (UCR), foi o escolhido pelo casal Kirchner para ser o vice na chapa de Cristina Kirchner em 2007. No entanto, em julho de 2008 ele rompeu com os Kirchners ao declarar respaldo aos ruralistas, que estavam em conflito com o governo. De lá para cá, a popularidade de Cobos cresceu de forma exponencial. Para irritação dos Kirchners, o outrora pacato vice atualmente é um dos presidenciáveis mais cotados para as eleições de 2011.

 blogviuvalegre2

Cena de “A Viúva Alegre”, do compositor austro-húngaro Franz Léhar. Ali vemos Hanna Glawari, a personagem protagonista, intensamente paparicada. E já que estamos em ritmo de opereta, um link do Youtube para uma famosa cena desta obra, aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Gustavo Chacra (Nova York): http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/ 
Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/ 
Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trevisan/ 
Adriana Carranca (Pelo Mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carranca/ 

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