Ariel Palacios - Estadao.com.br
ir para o conteúdo
 • 

Ariel Palacios

Foto que mostra a mão esquerda amarrada de uma vítima dos voos da morte. O corpo foi fotografado nas areias de uma praia uruguaia.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) entregou nesta quinta-feira 130 fotos inéditas de vítimas dos denominados “voos da morte”, denominação dos voos que a aeronáutica naval argentina realizava durante a ditadura militar (1976-83) sobre o rio da Prata e o mar para jogar nas águas os prisioneiros, ainda vivos, desde os aviões. A maior parte dos cadáveres dos prisioneiros políticos argentinos encontrados naquela época foram levados pela correnteza às costas do Uruguai, cujo governo acreditava no início que eram vítimas de um naufrágio de um navio asiático.

Além das fotografias – de alta qualidade – a CIDH enviou à Buenos Aires relatórios dos anos 70 da Guarda Costeira e dos serviços de inteligência do Uruguai sobre a descoberta dos corpos nas praias uruguaias.

O material também contém mapas indicando onde os corpos foram encontrados. A maior parte dos cadáveres apareceram nas praias entre as cidades de Colônia (sobre o rio da Prata) e La Paloma (no oceano Atlântico).

As fotografias mostram pessoas nuas, a maioria com as mãos e os pés amarrados com cordas. Os militares argentinos teriam amarrado os prisioneiros para evitar distúrbios dentro dos aviões, além de impedir que tivessem qualquer chance de nadar, em caso de sobrevivência quando eram arremessadas desde os aviões.

Os corpos também exibem marcas de torturas, como fraturas ósseas múltiplas no tórax e membros, além de crânios esfacelados. Os cadáveres exibem marcas de choques elétricos.

Em vários casos, especialmente mulheres, os cadáveres tinham marcas de perfurações feitas com objetos pontiagudos em seus púbis e ânus. Outra foto mostra um homem que havia sido castrado com um certeiro corte de faca pouco tempo antes de sua morte.

O material fotográfico e os relatórios feitos na época pela Guarda-Marinha do Uruguai foram entregues ontem ao juiz federal Sérgio Torres, responsável pelas investigações e o julgamento dos envolvidos no “mega-processo ESMA”, denominação do processo que envolve dezenas de ex-torturadores da Escola de Mecânica da Armada (ESMA).

Os arquivos confidenciais, que pertencem ao relatório secreto realizado pela CIDH entre 1979 e 1980 na Argentina e no Uruguai, foram encontrados em novembro pelo juiz Torres dentro de 65 caixas na sede da Comissão Interamericana, nos EUA.

Ao ver os primeiros relatórios Torres fez algumas fotocópias. Mas, depois, ao perceber que ali poderia estar material que pudesse comprovar a existência dos “voos da morte”, solicitou à CIDH o material original.

O secretário-executivo da CIDH, Santiago Cantón, declarou que estes documentos possuem alto valor, já que até agora, todas as provas sobre os voos da morte eram depoimentos.

Os integrantes atuais da CIDH não sabem qual é a origem dos documentos encontrados. No entanto, suspeitam que poderiam ter sido entregues pelo ex-marinheiro e fotógrafo da Marinha uruguaia, Daniel Rey Piuma, que – chocado pelos horrores da ditadura de seu país (1973-85), desertou e fugiu para o Brasil. Posteriormente pediu asilo na Holanda, onde reside. Piuma teria escapado do Uruguai com material fotográfico que teria entregue a representantes do CIDH no Brasil na época.

A revelação da documentação é uma atitude inédita da CIDH, que pela primeira vez abre seus arquivos confidenciais para seu uso em um processo na Justiça. Além disso, os documentos poderiam gerar um pedido da Justiça argentina ao Estado uruguaio para que Montevidéu desclassifique os documentos relacionados à descoberta de corpos de argentinos nas costas do Uruguai nos tempos da ditadura.

Estimativas de ONG argentinas e de organismos internacionais como a Anistia Internacional indicam que a ditadura argentina assassinou 30 mil civis. Destes, 5 mil teriam passado pela ESMA. Menos de 150 sobreviveram às torturas e os fuzilamentos feitos pelos oficiais da Marinha.

A ESMA era comandada pelo almirante Emilio Massera, definido pelo escritor Miguel Bonasso como “o serial killer com sorriso de Gardel”, em alusão à sua crueldade e personalidade esquizofrênica. Massera morreu em novembro do ano passado, após uma década em estado vegetativo.

Floreal, aos 14 anos, pouco antes de ser sequestrado, torturado nas mãos e genitais e finalmente empalado vivo.

EMPALADO VIVO - Uma das fotos, relativas a três corpos encontrados no dia 22 de abril de 1976, quase um mês após o golpe que deu início à ditadura argentina, mostra o cadáver de um jovem com a marca de uma tatuagem com as letras “FA”. Segundo a Equipe Argentina de Antropologia Legista – responsável pela identificação de centenas de corpos de desaparecidos nos últimos anos – a foto seria do cadáver do adolescente Floreal Avellaneda, sequestrado no dia 15 de abril. O corpo, com a tatuagem que o jovem havia feito, foi encontrado pelos uruguaios e enterrado em Montevidéu. Posteriormente sua família foi informada sobre a descoberta do corpo do garoto.

Filho de um casal de sindicalistas militantes do Partido Comunista, Floreal, que tinha 14 anos quando foi sequestrado, sofreu torturas nas mãos e genitais. Depois, foi empalado vivo.

Mapa da Guarda Costeira do Uruguai que mostra a origem dos corpos encontrados no litoral uruguaio.

CORPOS NAS PRAIAS - Na época do surgimento dos primeiros cadáveres, a ditadura militar uruguaia acreditou que tratavam-se de pessoas afogadas em um naufrágio de um navio asiático. Os militares confundiram no início que eram de etnias orientais, pois os corpos estavam “amarelos”. Mas, posteriormente perceberam que tratavam-se de ocidentais.

Nos anos seguintes os militares em Montevidéu reclamaram aos colegas argentinos em Buenos Aires que o surgimentos de corpos em suas praias estavam causando constrangimentos ao regime, além de pânico nos turistas, que deparavam-se com os cadáveres trazidos pela maré. A partir dali, os pilotos argentinos deixaram de arremessar os prisioneiros na área do rio da Prata começaram a fazer voos até o mar. No entanto, as correntes marítimas continuaram levando os corpos às costas uruguaias.

VALOR DOS DOCUMENTOS - Valeria Barbuto, diretora da área de pesquisa do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), disse ao Estado que a revelação das fotos e documentos por parte da CIDH é “fantástico”, pois “demonstra que ainda existem muitos documentos que ainda não conhecemos e que podem ser de utilidade para a memória e as investigações na Justiça”. Segundo ela, “esta contribuição de documentos confere mais solidez aos processos na Justiça” sobre os crimes da ditadura.

Barbuto sustentou que o real valor destes documentos “poderá ser avaliado ao longo das próximas semanas”. Segundo ela, o material entregue pela Comissão Interamericana “servirá para provar que os voos da morte eram uma sistemática da ditadura e não algo circunstancial”.

A representante do CELS considera que a desclassificação dos documentos da CIDH estimulará que vários países da região acelerem o processo de abertura de seus arquivos sobre os períodos das ditaduras no Cone Sul.

DITADURA ARGENTINA APLICOU VÁRIOS MÉTODOS PARA ELIMINAR PRISIONEIROS

Tal como os funcionários do Terceiro Reich que recorreram aos fornos crematórios para eliminar os prisioneiros dos campos de concentração – como forma rápida de eliminar os vestígios dos corpos dos judeus massacrados – a ditadura argentina optou pelos “voos da morte” como uma de suas modalidades preferidas para “desaparecer” as pessoas sequestradas.

Adolfo Scilingo, ex-capitão da Marinha que em 1995, arrependido de sua participação nos “voos da morte”, revelou que 4.400 pessoas foram assassinadas ao serem arremessadas no rio da Prata e no mar desde os aviões da Marinha. Scilingo, condenado a 640 anos de prisão pelos tribunais da Espanha por crimes contra a Humanidade, sustentou que os voos da morte não eram um procedimento circunstancial, mas sim, parte de um plano de grande escala de eliminação dos corpos dos desaparecidos.

Além da Armada argentina, a Aeronáutica e o Exército também realizaram “voos da morte”, embora em menor escala, já que estas duas forças preferiam o enterro dos cadáveres em fossas comuns clandestinas. Na quarta-feira, na província de Tucumán, no norte da Argentina, a Justiça revelou a descoberta de uma fossa comum com quinze corpos de desaparecidos da ditadura.

Um dos corpos encontrados foi o do ex-senador Guillermo Vargas Ainasse, que foi sequestrado pelos militares em abril de 1976, aos 35 anos. A Equipe de Antropologia Legista fez um exame de DNA

A ditadura argentina também amarrava prisioneiros e os dinamitava vivos, além de fuzilamentos em massa.

A fossa comum com os esqueletos dos desaparecidos da ditadura na província de Tucumán.

PROTAGONISTA DOS VOOS FALAVA COM O ‘PEQUENO JESUS’ - Um dos criadores dos “voos da morte” foi o capitão de corveta Jorge “Tigre” Acosta, uma das “estrelas” da ESMA. O oficial, que falava sozinho à noite, em delírio místico explicava aos colegas e prisioneiros que mantinha longas conversas noturnas com “Jesucito” (O pequeno Jesus), ao qual perguntava qual dos prisioneiros deveria torturar no dia seguinte e jogar dos aviões.

Acosta – famoso pelos requintes de crueldade que aplicava aos detidos – também foi um dos principais sequestradores dos bebês de prisioneiras da ESMA, em cuja maternidade clandestina nasceram mais de cem bebês.

Em outubro passado, Acosta, acusado de violar diversas prisioneiras, foi condenado à prisão perpétua por seus crimes durante a ditadura. 

 Mudando de assunto: Na segunda-feira que vem, dia 19, às 17h, a TV Estadão fará um debate sobre a Primavera Árabe com Reginaldo Nasser e Heni Ozi Cukier, moderado pelo Lameirinhas. O debate será transmitido ao vivo no portal e permitirá participação em tempo real dos internautas pelo Twitter, Facebook, email e pelo Radar Global.

Mais informações, aqui.

As perguntas para o debate poderm ser enviadas aqui: estadaointer@gmail.com

 

ara encerrar esta semana, de Ludwig van Beethoven, Sétima Sinfonia, 2º movimento. Com o maestro Leonard Bernstein, que rege a Weiner Philharmoniker.

.

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

E, the last but not the least, siga o @inter_estadão, o Twitter da editoria de Internacional do estadão.com.br .
Conheça também os blogs da equipe de Internacional do portal correspondentes, colunistas e repórteres. 
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. 
.………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Não é permitido postar links de vídeos. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (2)| Comente!

 

A Câmara de Deputados do Uruguai rejeitou na madrugada desta sexta-feira a anulação da Lei de Caducidade Punitiva do Estado, denominação da lei de anistia aplicada aos ex-integrantes da ditadura militar (1973-85) que foram responsáveis por torturas, sequestros e assassinatos de civis.

Os debates foram intensos: ao longo de 14 horas, 50 do total de 99 deputados pronunciaram discursos defendendo e atacando a anulação do perdão aos militares.

O resultado foi um empate. 49 a 49 votos,

Isso implicou na rejeição automática do projeto de lei.

Do lado de fora do edifício do Parlamento, entre 3 mil e 4 mil pessoas acotovelavam-se para esperar o resultado. Muitas delas estavam em vigília desde a véspera. Minutos após o encerramento da sessão, o clima era de frustração nas ruas ao redor do Parlamento.

A Frente Ampla, a coalizão de centro-esquerda do governo do presidente José Mujica, contava com uma maioria ajustada para vencer a votação, já que possui 50 do total de 99 deputados.

No entanto, foi um parlamentar do próprio governo, Victor Semproni – líder sindical e guerrilheiro nos anos 70, que foi torturado pelos militares – que permitiu o empate.

Durante os debates Semproni argumentou que a anulação da anistia “pisoteava os dois plebiscitos (de 1989 e 2009)” que confirmaram a aplicação do perdão aos ex-integrantes da ditadura. Semproni havia anunciado na semana passada que votaria contra a anulação do perdão.

O empate implica na rejeição do projeto de lei. Mas, pelo fato de ter sido previamente aprovado pelo Senado em abril, o projeto terá que ser submetido à Assembléia Geral (a reunião extraordinária da Câmara com o Senado).

No entanto, a Frente Ampla não teria condições de aprová-lo, já que isso requer dois terços dos votos (87 de um total de 130), proporção que não possui.

PLEBISCITOS – O foco dos debates que agitaram o âmbito político do país foram a relevância (ou não) e a legitimidade (ou não, de acordo com alguns setores) dos dois plebiscitos realizados em duas décadas que confirmaram a anistia.

No primeiro plebiscito, em 1989, o respaldo à lei de anistia, aprovada pelo Parlamento em 1986, contou com 57% dos votos. No segundo, em 2009, 53% dos uruguaios votaram a favor da permanência do perdão aos ex-integrantes da ditadura.

OBJETIVO - A iniciativa de anulação do perdão aos militares – com o objetivo de permitir a investigação dos crimes da ditadura e o julgamento dos responsáveis – foi da autoria de grande parte da Frente Ampla.

POLÊMICAS - Mas, a idéia suscitou polêmicas dentro da coalizão desde o começo, já que diversos integrantes – entre eles o presidente José Mujica (ele próprio, um ex-guerrilheiro tupamaro torturado pela ditadura) – argumentavam que a Frente Ampla não podia ignorar os resultados de dois plebiscitos realizados nas últimas duas décadas.

Mujica deixou claro que não respaldava a iniciativa e que era preciso “olhar para o futuro”. Na quarta-feira, véspera da votação na Câmara, durante as celebrações do dia do Exército, Mujica afirmou que “existem mães que choram pelos ossos de seus filhos, muita dor e injustiça. Mas, não podemos transferir às novas gerações de militares as frustrações de nossa geração”.

Dias antes, o ex-guerrilheiro tupamaro havia alertado para o risco de que a Frente Ampla, com sua insistência na aprovação da anulação do perdão, “fabrique uma esplêndida espada para que a oposição nos decapite”.

No entanto, Mujica também declarou que não vetaria a anulação, caso tivesse sido aprovada.

A polêmica começou a ficar intensa em abril, quando o Senado aprovou o fim do perdão por 17 votos contra 16.

Na ocasião surgiram as primeiras dissidências quando o senador frenteamplista Aparício Saravia não respaldou o projeto, enquanto que o ex-líder guerrilheiro e senador Eleutério Fernández Huidobro, torturado durante o regime militar, votou a favor da anulação por fidelidade partidária. No entanto, minutos depois renunciou à sua vaga. “Esta anulação é um erro garrafal da esquerda”, disse Huidobro.

Nos últimos anos, diversos setores políticos alegaram que a lei de anistia de 1986 era “ambígua”, pois impedia o julgamento dos militares, mas não a investigação sobre seus crimes.

O deputado Felipe Michelini, da Frente Ampla, filho do senador Zelmar Michelini, assassinado em Buenos Aires em 1976 por um comando argentino-uruguaio que agia dentro do Plano Condor, afirmou que “é preciso eliminar essa lei definitivamente do ordenamento jurídico uruguaio”. Michelini argumenta que anulação da anistia implica no “fim da impunidade”. Segundo ele, levar os militares envolvidos nos crimes ao banco dos réus está relacionado com o respeito dos “direitos da vida das pessoas, direitos humanos intransferíveis”.

 Bordaberry, em 1973. O ditador civil, de direita, é o que está na extrema-esquerda da foto.

DADOS, NÚMEROS E NEOLOGISMOS DA DITADURA URUGUAIA

Torturados – A ditadura torturou 4.700 civis ao longo de doze anos de ditadura, iniciada em 1973.

Suicidas – Dos prisioneiros torturados, oito presos suicidaram-se para evitar a continuação da tortura.

Assassinados em solo uruguaio - Os militares teriam sido responsáveis pelo assassinato de 34 civis dentro do território uruguaio.

Assassinados no exterior - Dentro do “Plano Cóndor”, denominação do esquema de colaboração das ditaduras do Cone Sul, os militares participaram dos assassinatos de outros 106 uruguaios fora do território do país, a maior parte dos quais na Argentina.

Lei de Caducidade Punitiva do Estado - Em 1986, um ano após a volta da democracia, pressionado pelos militares, que ameaçavam levantes nos quartéis, o presidente Julio Maria Sanguinetti (1985-90) encaminhou o projeto da Lei de Caducidade Punitiva do Estado ao Parlamento, onde foi aprovada. A lei – que amparava somente s crimes da ditadura cometidos dentro do país – foi confirmada por plebiscitos em 1989 e 2009.

Dribles à lei de Caducidade Punitiva do Estado - Ao longo da última meia década, parentes das vítimas conseguiram driblar a lei de anistia levando ex-integrantes da ditadura ao bancos dos réus pelos crimes cometidos fora do país, que não estavam contemplados no perdão aos militares. Esse foi o caso dos ex-presidentes Juan María Bordaberry e Gregorio Alvarez. Ambos foram colocados na prisão por envolvimento nos casos de uruguaios assassinados no exterior.

Bordaberrização - O fazendeiro Juan María Bordaberry foi eleito nas urnas em 1972 pelo partido Colorado. Em 1973, as forças armadas deram um golpe mas mantiveram o civil Bordaberry no posto. Ele foi removido do cargo em 1976, um ano antes do final formal de seu mandato, previsto para 1977.

Embora breve no poder, Bordaberry conseguiu emplacar seu sobrenome como um termo das ciências políticas, já que “bordaberrização” refere-se a uma ditadura militar que pretende ter aparência democrática e para isso deixa (ou coloca) um presidente civil no cargo formal da presidência.

No dia 28 de abril o ex-espião Enrique Arancibia Clavel foi encontrado morto em seu apartamento no centro portenho. No dia seguinte foi impossível publicar a postagem sobre o caso, já que morreu o escritor Ernesto Sábato. Mas, aproveitando que o assunto hoje são ditaduras, recupero o material que estava preparado desde aquela manhã na qual faleceu o autor de “Sobre heróis e tumbas”.

COM 20 PUNHALADAS, MORRE EX-ESPIÃO DE PINOCHET

  

Arancibia Clavel, que havia assassinado dois chefes do exército chileno, foi morto em Buenos Aires

Vinte profundas punhaladas no peito, mandíbula, pescoço e nas costas acabaram com a vida de Enrique Arancibia Clavel, ex-assassino e ex-espião do governo do ex-ditador chileno Augusto RampíPinochet (1973-90). O corpo do ex-integrante da Dina – o serviço secreto da ditadura chilena – foi encontrado coberto de sangue ressecada em seu apartamento na rua Lavalle, em pleno centro de Buenos Aires. A primeira pessoa em encontrar o cadáver do protagonista de diversos atos terroristas foi seu namorado, um jovem de vinte e poucos anos. Nas horas seguintes, o assassinato do ex-torturador era o assunto preferido dos vizinhos do prédio e de todo o quarteirão. Um deles pontificou: “a la pucha… o chileno tinha mais facadas do que furos em um coador de macarrão”.

Muitos anos antes de ser comparado com um utensílio de cozinha, Arancibia Clavel foi o organizador do atentado que em 1974 na rua Malabia, no bairro de Palermo, matou o general Carlos Prats, ex-chefe do Exército do Chile durante o governo do presidente socialista Salvador Allende (1970-74), e sua esposa, Sofia Cuthbert. A bomba que matou o casal exilado em Buenos Aires havia sido colocada sob o veículo dos Prats pelo americano Michael Townley, agente da CIA que nos anos 80 delatou perante a Justiça dos EUA seu ex-colega chileno. A explosão espalhou os pedaços dos corpos dos Prats em um raio de 50 metros.

Arancibia Clavel também havia sido o autor do assassinato do anterior comandante em chefe do exército chileno, o general René Schneider, em 1970, em Santiago do Chile. Schneider havia resistido às pressões para protagonizar um golpe de Estado que impedisse a posse de Salvador Allende.

 

Fotos do atentado contra Prats

Quatro anos após o assassinato de Prats, Arancibia Clavel – um dos espiões preferidos de Pinochet – recebeu a missão de descobrir detalhes dos planos militares das forças armadas argentinas, que estavam prestes a entrar em guerra com o Chile por causa da disputa do canal de Beagle.

Descoberto em 1978 Buenos Aires, foi preso. No entanto, poucos anos depois foi beneficiado com uma anistia. A partir dali, Arancibia Clavel optou por permanecer em Buenos Aires.

No entanto, em 1996, foi detido pela Justiça argentina pelo crime cometido 22 anos antes em Buenos. Pelo assassinato de Prats e sua esposa foi condenado à prisão perpétua. Na época, o caso estabeleceu precedentes jurídicos para a reabertura de processos contra ex-integrantes da ditadura na região, já que a Corte Suprema argentina determinou que o assassinato fora um crime contra a Humanidade, e portanto, não prescrevia.

No entanto, em 2007 conseguiu a liberdade condicional. De lá para cá, vivia da renda do aluguel de três veículos que havia transformado em táxis e morava em um quarteirão famoso por estar coalhado de pequenos escritórios de empresas-fantasma e de estabelecimentos de prestação de serviços sexuais.

A polícia em Buenos Aires deteve dois “táxi-boys”, isto é, “garotos de programa”, suspeitos de terem assassinado o ex-espião, que constantemente requeria serviços sexuais masculinos em seu apartamento. Tudo indica que os dois rapazes teriam roubado US$ 40 mil do autor da morte do general Prats.

 

Retrato do torturador quando jovem: Arancibia nos anos 70

REPERCUSSÕES – No dia seguinte à notícia, no Chile, a filha do general Prats, Cecília, afirmou que a família não falará sobre o assassinato do assassino de seu pai. No entanto, disse que estava “impactada” pela morte do ex-espião.

Mireya García, da organização Parentes de Detidos-desaparecidos, de defesa dos Direitos Humanos, ressaltou que, “paradoxalmente, queremos que os violadores dos Direitos Humanos vivam muitos anos para que tenham tempo de pagar suas culpas perante a Justiça”. Segundo ela, “é sempre um revés quando os responsáveis dos crimes não estão mais aqui, já que as investigações não podem continuar avançando”.

O NETO, O ESCARRO E O OUTRO DEFUNTO - Francisco Quadrado Prats, neto do general Prats, ficou famoso em dezembro de 2006 quando foi ao velório do general Pinochet e escarrou sobre o rosto do mandante do assassinato de seu avô. Após cuspir sobre o corpo do ex-ditador que também havia ordenado a morte de 3 mil civis e a tortura de outros 30 mil, o neto de Prats foi atacado por uma multidão furiosa de simpatizantes pinochetistas e teve que sair protegido pela guarda militar.

O jovem argumentou que o objetivo de sua cuspida foi o de “mostrar desprezo pelo assassino de meus avós. Além disso, foi porque fiquei chocado ao ver todas as honrarias que ele recebeu por parte do Exército. E esta era minha última oportunidade de passar diante de Pinochet”.  

AMIGOS DE PINOCHET: O general A.Ramón Pinochet possuía uma troupe de amigos peculiares. Um deles foi o alemão Paul Schaefer, que ostentava os títulos de nazista e pedófilo. Para mais detalhes, veja esta postagem do ano passado, aqui. 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (15)| Comente!

 

Antes do massacre realizado em Realengo nesta quinta-feira, a Argentina havia ostentado a triste marca do principal chacina de estudantes protagonizado dentro de uma escola na América do Sul (fora de um contexto de repressão de ditaduras militares). O fato ocorreu em 2004, na então pacata cidade patagônica de Carmen de Patagones.

“Hoje será um lindo dia”. A frase foi pronunciada pelo costumeiramente taciturno Rafael Soldich, de 15 anos, ao entrar às 7:45 horas da manhã do dia 28 de setembro de 2004 na sala de aula da escola pública “Malvinas Argentinas”, no centro de Carmen de Patagones. No entanto, Rafael não se referia ao clima ensolarado da primavera naquela pacata cidade patagônica. A sarcástica frase foi o prelúdio de um massacre, já que após fechar os lábios, o adolescente desajeitado sacou uma pistola 9 milímetros da jaqueta e começou a disparar.

Desta forma, Rafael protagonizou o maior massacre realizado por um estudante secundarista dentro de um escola na Argentina.

Após matar três colegas – duas meninas e um menino, assassinados com certeiros tiros no estômago – trocou o pente de balas e iniciou uma nova rodada de disparos, ferindo cinco outros estudantes.

No entanto, quando o segundo pente ficou travado, Rafael, disposto a continuar a matança por qualquer meio, tirou de um bolso do colete militar que ostentava uma faca “estilo Rambo”. Mas, logo em seguida, sentou em um banquinho e começou a chorar. Minutos depois, em meio à choro das crianças, o barulho das sirenes das ambulâncias e aos gritos dos policiais, entregou-se às forças de segurança.

Horas depois, o pai de Rafael, um suboficial da Patrulha Marítima, de quem seu filho roubou a arma com a qual cometeu o massacre, estava emocionalmente perturbado. Aos prantos, pedia perdão pelos assassinatos. “Ele chorava sem parar”, relatou na época o prefeito da cidade, Ricardo Curetti.

Carmen de Patagones, na fronteira norte da desolada Patagônia, era uma cidade de 25 mil habitantes que dificilmente aparecia na mídia argentina.

Na ocasião, o ministro da Educação, Daniel Filmus, alertou: “é preciso evitar que as armas fiquem ao alcance das crianças. Existem 1,5 milhão de lares neste país nos quais existem armas, por diferentes motivos”.

Um dia após os assassinatos na Patagônia, Rick Cosmun, porta-voz da Columbine High Scholl, nos EUA, recomendou aos pais dos alunos da escola de Carmen de Patagones que era preciso voltar à normalidade. Segundo Cosmun, “é preciso retornar às aulas rapidamente, por mais doloroso que seja”.

A Columbine High Scholl ficou famosa anos atrás pelo massacre realizado por dois estudantes de tendências neonazistas. A dupla assassinou doze colegas e depois cometeu suicídio. O caso foi imortalizado no cinema pelo documentário “Bowling for Columbine”, do cineasta Michael Moore.

Anos depois, quando Rafael chegou à maioridade, a Justiça arquivou o caso e declarou a inimputabilidade do jovem. Depois de passar por uma série de centros psiquiátricos na periferia de Buenos Aires, Rafael desapareceu. Especulações indicam que assumiu uma nova identidade e perdeu-se no meio dos milhões de pessoas da metrópole portenha. Os parentes das vítimas em Carmen de Patagones continuam pedindo justiça.

O massacre em Carmen de Patagones foi definido pelos meios de comunicação argentinos como uma “matança à americana”, em alusão aos freqüentes assassinatos do gênero que ocorrem nos Estados Unidos.

Na época de Patagones a mídia argentina também recordou o caso de Javier Romero, um adolescente que no ano 2000 assassinou a tiros um colega da escola e feriu gravemente outro. Javier era o alvo de gozações dos estudantes, que o chamavam de “Pantriste” (Pão-triste), em referência a um personagem de desenhos animados que tinha uma permanente cara de fracassado. Ao disparar, Javier gritou: “agora vocês vão me respeitar!”.

ASSASSINO ERA ‘TÍMIDO’ E NÃO GOSTAVA DOS APELIDOS: Rafael Soldich, o autor da matança de Carmen de Patagones, era considerado um rapaz “tímido” por seus colegas e professores.

Carlos Diego, o delegado local, afirmou que nunca havia imaginado que no meio de sua carreira policial se depararia com um massacre de tal magnitude entre estudantes. Segundo o delegado, o jovem disparou 13 tiros, dos quais nove atingiram seus colegas.

Ele e os outros policiais também ficaram estarrecidos ao ver que a carteira de Rafael, na sala de aula, tinha as seguintes frases, escritas com sua esferográfica: “caso alguém encontre o sentido da vida, que o escreva aqui” e “a coisa mais sensata que a Humanidade pode fazer é o suicídio”.

Os colegas de Rafael e seus professores informaram que era um rapaz “introspectivo” e que nunca havia tido qualquer tipo de atitude violenta. Seus pais, afirmam, estavam no meio de um divórcio que o deprimia. Seus colegas costumavam gozá-lo, chamando-o de “tragalibros” (um “caxias”). Nos últimos tempos, o jovem vestia-se com roupas de cor preta. Segundo seus colegas, um dos estudantes, definido como “o gozador da turma”, colocou-lhe o apelidos de “dark”, fato que teria irritado Rafael.

Poucos meses antes do massacre Rafael fez um trabalho escolar, que, com o título “Terrorismo Escolar”, era baseado no documentário “Bowling in Columbine”. O rapaz conseguiu uma nota “9” por seu detalhado trabalho.

     

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (29)| Comente!

blogmujicafusca

Mujica, o espartano presidente do Uruguai em seu veículo pessoal (e único patrimônio). No Uruguai, bem como em vários outros países de língua espanhola (não em todos), o fusca é chamado de ‘escarabajo’ (escaravelho). Nos países anglo-saxões, de ‘beetle’ (escaravelho). O termo ‘fusca’ é uma corruptela de ‘Volks’ (por Volkswagen).

blog1dedo3Um escangalhado fusca modelo 1987 com valor estimado em US$ 1.900 é o único patrimônio do presidente do Uruguai, José ‘Pepe’ Mujica, segundo indica sua declaração oficial de bens apresentada à Junta de Transparência e Ética Pública. O espartano ex-guerrilheiro tupamaro, ex-senador, ex-ministro e floricultor comprou o fusca em 2004. Até esse ano – durante duas décadas – ele utilizou uma lambreta para deslocar-se em Montevidéu.

O uso desse pequeno veículo causou surpresa em 1994, quando foi eleito deputado federal. Na ocasião, um guarda do estacionamento do Senado viu que um senhor de aspecto desalinhado, com  capacete, que descia da lambreta e aproximou-se dele e disse: “aqui não pode estacionar, não. ..por acaso o sr. pretende ficar aí muito tempo?”. Mujica (que havia estado 13 anos preso e torturado durante a ditadura militar), removeu o capacete (só então foi reconhecido pelo guarda) e disse em tom brincalhão: “bom, se os milicos não me tiram daqui, penso ficar pelo menos cinco anos…”. 

A chácara onde Mujica mora, em Rincón del Cerro, no lado oeste de Montevidéu, está no nome de sua esposa, a senadora Lucia Topolansky.

A senadora, também uma ex-guerrilheira, ressaltou que nem ela nem seu esposo possuem cartões de crédito nem contas bancárias: “somos antiquados”.

O salário que Mujica – um socialista de 75 anos definido de “amigável” com os mercados – recebe como presidente, de US$ 11.545, por decisão pessoal é destinada em sua maior parte a obras sociais. Essa é uma política em prática desde os anos 90 por parte dos parlamentares e ministros que integram a coalizão de governo Frente Ampla, de centro-esquerda. 

Neste caso, Mujica doa 70% de seu salário de presidente para o Plano de Moradias Populares.

Mujica, nas horas livres, sobe no trator e prepara a terra da chácara, onde planta flores e hortaliças, a principal fonte de rende

Mais sobre Mujica (mais especificamente sobre seu sucesso com o empresariado) aqui. E, sobre sua vitória eleitoral no ano passado, aqui.

blogmujicavespa2

Mujica e Lucia Topolansky, nos anos 90, na intrépida vespa

blog1vinheta78

SEXO ANAL: EM CASO DE VITÓRIA DA SELEÇÃO DE MARADONA

 blogsexoanalwarren_cup2

Promessa de manager da seleção acrescenta-se à de Maradona, que jura que correrá nu ao redor do Obelisco.  Na ilustração, a famosa Taça Warren, uma peça romana de prata do primeiro século desta era, que ilustra a cópula anal. A peça foi encontrada pelos arquélogos perto de Bittir, Israel. Está no museu britânico.

blog1dedo2b Do outro lado do rio da Prata, enquanto isso, o assunto não são as declarações de bens presidenciais, mas sim as declarações de Carlos Salvador Bilardo, manager da seleção argentina, que prometeu publicamente que, em caso de vitória de seu país na Copa do Mundo na África do Sul, está disposto a ter sexo anal.

Bilardo, o segundo homem na hierarquia da seleção argentina depois do técnico Diego Armando Maradona, indicou que aceitará que o jogador protagonista do gol da hipotética vitória argentina seja o encarregado de praticar-lhe sexo anal. As declarações de Bilardo foram realizadas no canal de TV “Telefé” ao apresentador Matías Martín, no programa “Vértigo” (Vertigem).

“Se a Argentina for campeão, não me importa”, explicou Bilardo, para ressaltar que considera mais importante a obtenção da Copa do que a oferta de seu esfíncter anal.

Perante o olhar estupefato de Martín, que o entrevistava, Bilardo – médico de profissão e ex-técnico da seleção argentina de 1986 e 1990 – aprofundou sua explicação indicando que estava consciente que o sexo anal poderia implicar em dor. “Mas como o senhor sabe disso?”, inquiriu Martín. “Sei porque fazíamos retoscopias…e não sabe como os jogadores gritavam!”, ilustrou Bilardo, impassível.

POSIÇÕES APTAS PARA A COPA - Bilardo também recomendou aos jogadores argentinos que, na hora de manter relações sexuais, optem na posição de baixo. “Que eles deixem que as moças fiquem em cima. Elas são jovens, e portanto, que elas façam o trabalho”, ressaltou, para justificar a coreografia sexual que considera mais adequada para os tempos de Copa do Mundo.

Há duas semanas o técnico da seleção, Diego Armando Maradona, prometeu que em caso de conquistar o troféu da FIFA retirará sua vestimenta e correrá “en bolas” (expressão da gíria hispano-americana para referir-se à nudez) ao redor do Obelisco, o monumento-símbolo da cidade de Buenos Aires.

A série de promessas também expandiu-se mais além dos envolvidos de forma direta com o futebol. Esse foi o caso de uma das principais sex symbols do país, a modelo e playmate Luciana Salazar, que comprometeu-se a posar totalmente nua na frente do Obelisco em caso de vitória da Argentina na África do Sul.

blogbilardo1986-b

Bilardo (o do sexo anal), com D.A.Maradona (o do sexo oral), em 1986, durante a Copa do México

SEXO ORAL – Bilardo fez referências ao sexo anal nesta semana. Mas, no ano passado, foi a vez do técnico DA Maradona de gerar polêmica com sua proposta de sexo oral aos jornalistas que cobriam o decisivo jogo da seleção argentina contra o Uruguai.

“Podem me chupar…e continuar chupando”, disse Maradona em frase direcionada aos jornalistas argentinos, que nos últimos meses desferiram intensas críticas contra a forma como Maradona treinava os “muchachos” da seleção.

Depois, reiterou o convite: “que a mamem” (“mamar” é a expressão usada em alguns países hispano-falantes, entre eles a Argentina, para designar a prática do sexo oral).

Em menos de uma hora, Maradona repetiu três vezes sua proposta de fellatio com os jornalistas, aos quais também chamou de “filhos da p…”.

De quebra, ao ser consultado por um jornalista de Buenos Aires, Maradona, antes de responder a pergunta, observou com outra referência sexual: “você tem uma dentro”.

blogfellatiomoche2

Representação de fellatio em vaso de cerâmica da cultura Moche (civilização do norte peruano que floresceu entre o ano 100 a.C e o ano 800 d.C). Peça arqueológica exibida no Museu Larco, em Lima. A obra é do ano 300 de nossa era.
Fellatio provém do latim fellātus, particípio passado do verbo ‘fellāre’, isto é, ’sugar’.

E embaixo, outra escultura moche, desta vez, representando o sexo anal

blogsexoanalmoche

Para mais detalhes sobre Maradona e o fellatio, aqui.

XXXXXXvinhetas7

blog1dedo2bCLARÍN COM LOOK RENOVADO – O jornal Clarín renovou na semana passada seu look no site na web. Com a reforma, o www.clarin.com  coloca (ao contrário da versão anterior) as notícias em ordem de importância (antes, pesava mais a ordem cronológica, fato que fazia que os leitores não vissem logo de cara as notícias que importavam).

Os blogs também foram renovados, com um look mais organizado.

Entre os meus preferidos está o de Juan Pablo Meneses. É imperdível a série que fez no ano passado sobre as vacas (isso mesmo, o emblemático quadrúpede mamífero que tantas alegrias propicia para a economia e a gastronomia local). O link para seu blog, aqui.

Outro blog, de tons mais literários, é o do jornalista Miguel Wiñazki, aqui (e é o pai de Nicolás Wiñazki, um jovem jornalista da área política, dono de impecável texto, que por enquanto – infelizmente – não possui um blog no jornal):

Em matéria de sites, ainda prefiro o do “La Nación”, que considero melhor organizado ( www.lanacion.com.ar ).

E está o site do jornal “Infobae” (www.infobae.com ), que embora cultive um peculiar sensacionalismo (e tem um mix de tom de direita, ao mesmo tempo que respalda enfaticamente o governo da presidente Cristina Kirchner), possui o mérito de ser o mais veloz de todos para atualizar as notícias.

Outros sites recomendados sobre notícias da Argentina, Uruguai e Paraguai estão do lado direito deste blog, na lista de links.

E aqui, lhes deixo os links de uns geniais cartunistas argentinos:

Niño Rodríguez: http://www.elninorodriguez.com/

Lucas Varela: http://lucasvarela.blogspot.com/

Liniers: http://www.porliniers.com/

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

blog1vinhetalendonewsstand3 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão 

Gustavo Chacra (Nova York): http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/ 
Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/ 
Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trevisan/ 
Adriana Carranca (Pelo Mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carranca/ 

……………………………………………………………………………………………………
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários.
Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico
).

……………………………………………………………………………………………….. 

Comentários (38)| Comente!

blogkirchnersorri

Kirchner, considerado o verdadeiro poder do governo de sua esposa e sucessora, Cristina Kirchner, pretende ter um cargo internacional

 

blog1mao3O ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), atual deputado – e considerado o verdadeiro poder no governo de sua esposa, a presidente Cristina Kirchner – contaria com o respaldo da maioria dos presidentes dos países da América do Sul para transformar-se no secretário-geral da Unasul, entidade supranacional criada em 2007 com a intenção de aprofundar a integração econômica e política da região. O mais recente respaldo concedido a Kirchner provém do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O apoio do governo brasileiro à candidatura de Kirchner – conhecido por ter pouco tato, ausência de diplomacia e por sua aversão a reuniões internacionais – foi anunciado dias atrás pelo governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, homem de confiança do casal presidencial. Scioli, ex-vice-presidente da república (2003-2007), afirmou em Nova York: “a administração do Brasil deu seu respaldo a Kirchner”.

O plano é que Kirchner seja entronizado no comando da Unasul na reunião de cúpula que esta entidade regional realizará nos dias 4 e 5 de maio em Buenos Aires.

Nesse conclave, além da candidatura de Kirchner, os presidentes discutiriam a formação de um fundo de ajuda sul-americano para o Haiti. O encontro também servirá para debater que posição a Unasul assumirá perante o governo do novo presidente de Honduras, Porfírio Lobo, ainda não reconhecido por vários países da América do Sul.

O sonho de Kirchner de ter um cargo internacional conta com o respaldo explícito do presidente boliviano Evo Morales, além do venezuelano Hugo Chávez e do equatoriano Rafael Correa. Outros países da região concordam com a essa candidatura, embora sem tom enfático.

blogchaveztanque

O presidente venezuelano Hugo Chávez é um dos mais entusiastas defensores da candidatura de Kirchner

O Uruguai foi o único empecilho declarado contra Kirchner ao longo dos últimos dois anos por causa da tensão diplomática entre o governo argentino e o presidente uruguaio Tabaré Vázquez (que vetou a escolha de Kirchner).

No entanto, o novo presidente do Uruguai, José Mujica, que tomou posse em março, segundo informações extraoficiais, teria indicado à presidente Cristina Kirchner que não teria obstáculos contra a candidatura de seu esposo. 

Oficialmente, o governo uruguaio ainda não confirmou que respaldará Kirchner. Fontes diplomáticas indicam que o governo uruguaio está esperando nesta terça-feira a definição na corte internacional de Haia sobre o conflito que o país mantém com a Argentina por causa da fábrica de celulose da empresa finlandesa Bótnia, instalada nas margens uruguaias do rio Uruguai, na fronteira de ambos países.

Caso o parecer seja favorável ao Uruguai (e na hipótese que a presidente Cristina o acate) o presidente Mujica apoiaria a candidatura de Kirchner.

Mas, na semana passada, o chanceler equatoriano Ricardo Patiño indicou que a unanimidade não seria necessária para colocar Kirchner no posto de secretário-geral. Segundo ele, o “ideal” é que a pessoa eleita pelos membros da Unasul seja eleito de forma unânime…mas, caso isso não seja possível, será consagrado quem conseguir maior número de adesões.

Atualmente, o único candidato é Kirchner.

blogvinhetas19 Sobre o conflito Uruguai-Argentina: O governo uruguaio está irritado com Kirchner, pois ele, desde 2005, apoiou os manifestantes argentinos que fazem piquetes nas pontes que ligam a Argentina com o Uruguai. Os manifestantes protestam contra o funcionamento da fábrica de celulose Botnia, do lado uruguaio da fronteira, alegando que a empresa polui o rio Uruguai, que divide os dois países.

Os manifestantes argentinos bloqueiam uma das pontes de forma ininterrupta, há quase quatro anos, impedindo a passagem de pessoas, bens e veículos.

O Uruguai levou o caso à Corte Internacional de Haia, alegando que os piqueteiros argentinos, com a conivência da Casa Rosada, viola o direito de livre circulação do Mercosul.

blogvinhetas41TRANSFERÊNCIA TEMPORÁRIA – A certeza da eleição de Kirchner é uma certeza no círculo do ex-presidente. Assessores do ex-presidente avaliam reciclar um edifício governamental abandonado da rua Juncal, na área central de Buenos Aires, para que Kirchner ali instale a secretaria-geral da entidade.

O Secretariado permanente da Unasul, quando seja estabelecido, ficará em Quito, Equador. Mas Rafael Correa, amigo de Kirchner, estaria de acordo na transferência temporária da sede para Buenos Aires.

Atualmente, a Unasul conta com presidentes pro-tempore, de um ano de duração. O posto é ocupado, de forma rotativa, pelos presidentes dos países que integram a entidade. O objetivo do posto de Secretário-Geral é de que a entidade conte com alguém que se ocupe de forma executiva da estrutura.

A duração do mandato é de um ano. A não ser que as regras sejam modificadas.

 

blogkirchnerunasul4

Kirchner, um dia antes de passar a presidência para a esposa em dezembro de 2007, reunido com presidentes sul-americanos para a assinatura da ata de criação do Banco do Sul (foto da presidência da República)

blogvinhetas41COQUETÉIS, AUSÊNCIA PARLAMENTAR E PERGUNTAS – Diplomatas consultados pelo Estado ressaltam que Kirchner não se enquadra no papel de um líder regional para armar consensos e desativar crises, já que não tem papas na língua e aplica a estratégia de ‘bater primeiro para conversar depois’. Eles ressaltaram que o próprio possui aversão às cúpulas. “Não gosto de ir por aí de coquetel em coquetel”, disse Kirchner durante seu governo.

No entanto, em Buenos Aires, no âmbito político também comenta-se que Kirchner não se adapta à sua nova função, isto é, a de deputado federal (foi eleito em junho e tomou posse em dezembro). O marido da presidente Cristina só foi à sessão de juramento do cargo e à abertura do ano parlamentar. Nunca mais colocou os pés no plenário, apesar do salário que recebe para desempenhar a função (seu colega ex-presidente, Carlos Menem, atualmente senador, tampouco costuma dedicar-se às atividades de seu cargo, embora também seja pago para estar no plenário).

O regulamento da Unasul determina que a pessoa escolhida para coordenar essa entidade sul-americana não poderá intervir na política nacional de seu país. Isso levou os analistas em Buenos Aires a perguntar: “Kirchner conseguirá conter a si próprio e não intervir na política argentina?”

blog1vinhetas44 ORIGENS

A Unasul é composta pelos 12 países da América do Sul: a Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Suriname e Guiana (a ex-Guiana Britânica). As únicas exclusões da Unasul na América do Sul são a Guiana Francesa (departamento de além-mar da França) e as Ilhas Malvinas (pertencente à Grã-Bretanha).

 A Unasul foi criada em 2007 com a intenção de aprofundar a integração econômica e política da região. Ela foi constituída formalmente em maio deste ano em Brasília. Sua antecessora foi a Comunidade Sul-americana de Nações (CSN), fundada em 2004.

A suposta praticidade da Unasul como organização supranacional é constante alvo de críticas por parte de partidos da oposição dos vários governos da região, que consideram que este organismo só acrescenta mais burocracia regional.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico
).

Comentários (21)| Comente!

Arquivo

..Revistas satíricas da Argentina

Blogs do Estadão