ir para o conteúdo
 • 

Ariel Palacios

 bloglugowikimedia

Fernando Lugo, ex-bispo, atual presidente do Paraguai, teme um golpe contra seu governo

blog1hand-prawo2Os líderes dos partidos da oposição no Paraguai dispararam intensas críticas contra as declarações que o presidente Fernando Lugo fez sobre supostas tentativas de armar um golpe de Estado contra seu governo. As declarações, segundo informações extraoficiais, teriam sido feitas pelo presidente paraguaio a seus colegas sul-americanos durante a reunião de cúpula da União de Nações Sul-americanas (Unasul), realizada na semana passada em Cardales, a 70 quilômetros de Buenos Aires. Na cúpula, o ex-presidente argentino Néstor Kirchner (2003-2007), eleito para o posto de secretário-geral da Unasul, teria prometido assumir como própria “a causa do Paraguai”. Kirchner, segundo as informações publicadas pelo jornal portenho “Ámbito Financiero”, destacou que Lugo sofre um “sério conflito com seu vice-presidente, Federico Franco”.

Lugo chegou ao poder em 2008, após derrotar o partido Colorado, que havia estado 61 anos ininterruptos no poder. Mas, para chegar ao Palácio de López, o palácio presidencial, Lugo – que não contava com uma estrutura partidária de peso própria – pactuou uma turbulenta aliança com o conservador Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), além de partidos de esquerda.

O PLRA – que propiciou a Lugo mais de 60% dos votos que a coalizão teve nas eleições presidenciais – é representado pelo vice Federico Franco, com o qual o presidente mantém uma tensa relação desde antes da própria posse. Franco sempre criticou Lugo por ter colocado poucos representantes do PLRA no gabinete presidencial.

O ex-presidente Nicanor Duarte Frutos (2003-2008), representante do partido Colorado, de oposição, afirmou ao jornal “ABC Color” que as declarações de Lugo a seus colegas da região sobre um complô “é um relato farsante”. Segundo Duarte Frutos, “Lugo tem uma enorme fraqueza por sua falta de capacidade de construir consensos políticos básicos. Por causa dessa fraqueza tenta instalar no imaginário internacional o relato farsante de conspiração golpista”.

O analista político Bernardino Cano Radil disse ao Estado que “um golpe de Estado é absolutamente inviável no Paraguai. Nem as Forças Armadas, nem os partidos políticos estão pensando nisso. É apenas propaganda do governo para justificar sua incapacidade de poder negociar. O presidente não quer sentar para conversar com as principais forças do Parlamento, sequer com seu vice”.

GUERRILHA – O foco mais recente da crise entre Lugo e Franco foi gerado pela suposta guerrilha do autodenominado Exército do Povo Paraguaio (EPP), responsável por uma série de sequestros e roubos na região norte do país nos últimos dois anos. Lugo, para combater o EPP, declarou estado de exceção em cinco departamentos (equivalentes a estados) e enviou tropas do Exército para perseguir e deter os integrantes da suposta guerrilha.

No entanto, o vice-presidente Franco afirmou que a declaração de estado de exceção era um exagero que constituía um “show midiático”.

O ministro do Interior do Paraguai, Rafael Filizzola, em entrevista ao Estado na sexta-feira à noite em Buenos Aires, afirmou que o EPP “não é uma guerrilha…é um grupo de criminosos. São pessoas armadas, perigosas. Mas, não é nem um exército nem uma guerrilha. Não são capazes nem de desestabilizar o país, nem muito menos de atentar contra as instituições democráticas. Mas, repito que não é um problema que deva ser minimizado, pois são pessoas muito bem treinadas, que já roubaram, sequestraram e assassinaram”.

Filizzola, que pertence ao pequeno Partido Democrático Progressista, que integra a coalizão de Lugo, criticou setores “que estão perdendo seus privilégios” (em alusão ao partido Colorado) que estão utilizando o surgimento do EPP para “aproveitar-se da situação”: “precisamos colocar este problema em um contexto histórico. Estamos superando uma História de décadas de hegemonia de um partido político. Isso significou que pessoas que por muito tempo desfrutaram de privilégios políticos que agora os estão perdendo. O EPP e outros assuntos são usados para fazer ataques políticos ao governo Lugo. O EPP como tal não tem possibilidade de colocar em risco a vigência das instituições democráticas. Mas, sim, existem setores radicalizados que estão perdendo seus privilégios e estão aproveitando-se da situação”.

blogviuvamourning

Uma viúva: “Valentina de Milão, chorando pela morte de seu marido Louis de Orléans” (ao redor de 1802). Obra no Museu Hermitage, em São Petersburgo. Quadro de François Fleury-Richard (1777-1852).

‘TER VICE É COMO DORMIR COM A VÍUVA’

“Ter um vice é como dormir com a própria viúva” é uma das definições existentes sobre o cargo de vice-presidente, em alusão à pessoa que só adquirirá a herança política – isto é, o cargo máximo de uma república – quando o presidente falece, renuncia ou é removido. No Paraguai, no entanto, o posto de vice-presidente foi costumeiramente denominado de “vaso de flores”, já que considera-se que sua função é meramente decorativa.

O país não teve vice-presidente durante toda a ditadura do general Alfredo Stroessner (de 1954 a 1989), além da primeira presidência com a volta da democracia, a de Andrés Rodríguez (1989-93), que desconfiado dos vices, tal como seu antecessor, preferiu não implantar o cargo. A partir de 1994 o Paraguai passou a contar com o posto.

Um vice, Luis María Argaña, terminou seus dias de forma trágica, já que foi assassinado com o corpo cravejado de balas, em 1999, quando estava há menos de um ano no posto. Sua morte ainda está submersa em especulações, já que existem diversas teorias para o crime. No entanto, todas possuem um ponto em comum, o de que a trágica morte de Argaña servia para desestabilizar o governo do presidente Raul Cubas Grau, que teve que abandonar o cargo – e o país – poucos dias após o assassinato.

VICE ARGENTINO – No entanto, na Argentina os vices tiveram maior protagonismo em crises. Esse foi o caso de Isabelita Perón, vice de seu próprio marido, o presidente Juan Domingo Perón, que assumiu a presidência do país quando este faleceu em 1974. Seu governo foi caótico e acabou com o golpe de Estado de 1976.

Após a volta da democracia vários presidentes tiveram relações conturbadas com seus vices. Esse foi o caso de Carlos ‘Chacho’ Álvarez, vice do presidente Fernando De la Rúa, que no ano 2000 renunciou depois que este não demonstrou interesse em avançar com as investigações sobre um escândalo no Senado. Sua renúncia deu início à desconfiança dos mercados sobre o país, que em pouco mais de um ano afundou na pior crise de sua História, a de 2001-2002.

O atual vice argentino, Julio Cobos, integrante da União Cívica Radical (UCR), foi o escolhido pelo casal Kirchner para ser o vice na chapa de Cristina Kirchner em 2007. No entanto, em julho de 2008 ele rompeu com os Kirchners ao declarar respaldo aos ruralistas, que estavam em conflito com o governo. De lá para cá, a popularidade de Cobos cresceu de forma exponencial. Para irritação dos Kirchners, o outrora pacato vice atualmente é um dos presidenciáveis mais cotados para as eleições de 2011.

 blogviuvalegre2

Cena de “A Viúva Alegre”, do compositor austro-húngaro Franz Léhar. Ali vemos Hanna Glawari, a personagem protagonista, intensamente paparicada. E já que estamos em ritmo de opereta, um link do Youtube para uma famosa cena desta obra, aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

blog1vinhetalendonewsstand3 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão 

Gustavo Chacra (Nova York): http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/ 
Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/ 
Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trevisan/ 
Adriana Carranca (Pelo Mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carranca/ 

……………………………………………………………………………………………………
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico
).

…………………………………………………………………………………………………

Comentários (5)| Comente!

  • A + A -

 bloglkirchnercristina

Esta é a primeira vez na História do mundo que – simultaneamente – uma chefe de Estado (Cristina Kirchner) tem um cônjuge (Néstor Kirchner) no comando de um organismo internacional (foto da presidência da República)

Personagem: Néstor Kirchner, ex-presidente argentino, esposo da atual presidente argentina (Cristina Kirchner)

Entidade: União das Nações Sul-americanas (Unasul), que reúne doze países da América do Sul (Peculiaridade: a Argentina ainda não aprovou a criação da Unasul). 

Posto: Secretário-geral da Unasul, cargo de dois anos de mandato, teoricamente de dedicação exclusiva. Isto é, teria que abandonar os cargos de deputado federal e de presidente do partido Justicialista (Peronista). Mas, nesta terça-feira à noite, cinco horas após ter sido designado secretário-geral da Unasul, Kirchner participou de uma sessão da Câmara de Deputados.

Requisitos: Capacidade de consenso para lidar com crises internas da América do Sul e aptidão para representar a região perante governos de outras regiões.

Sede da Unasul: Quito, capital do Equador.  Sede, pero no mucho, já que Rafael Correa, presidente equatoriano, disse que a sede pode ser transferida provisoriamente para Buenos Aires, para facilitar a vida de Kirchner.

Argumento em defesa de Kirchner: “Ele conhece o continente” (presidente Lula)

Argumento contra Kirchner: “Em vez de integrar, vai desintegrar. Sua cultura é a do confronto” (ex-presidente Duhalde)

blog1hand-prawo2O ex–presidente Néstor Kirchner, famoso por sua falta de tato e tendência ao confronto, foi eleito nesta terça-feira para o cargo de Secretário-geral da União de Nações Sul-americanas (Unasul) com a missão de aprofundar a integração dos países da região. Kirchner – que já acumula o cargo de deputado e presidente do partido Justicialista (Peronista) – foi eleito por consenso entre os doze governos sul-americanos para um mandato de dois anos, renovável por uma única vez. 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva proclamou seu apoio de forma enfática. “Penso que a designação do companheiro Kirchner na Secretaria-geral da Unasul é uma consolidação” para esta entidade, “já que ele conhece o continente”, afirmou. “Ele está 100% apto para ser secretário-geral”, arrematou.

GUINESS BOOK - Esta é a primeira vez na História do mundo que – simultaneamente – uma chefe de Estado (Cristina Kirchner) tem um cônjuge (Néstor Kirchner) no comando de um organismo internacional. De quebra, a Argentina, além de ficar no comando da Unasul, também estará na chefia do Mercosul, pois a secretaria-geral do bloco do Cone Sul está desde o ano passado nas mãos do argentino Agustín Colombo Sierra.

O Uruguai havia sido o principal obstáculo para a aprovação de Kirchner nos últimos dois anos. Por trás da resistência uruguaia à essa designação estava o conflito que o país possui desde 2005 com a Argentina, cujo pivô é a fábrica de celulose Botnia, instalada sobre as margens uruguaias do rio Uruguai, na fronteira dos dois países. Para protestar contra a fábrica, manifestantes argentinos – respaldados por Kirchner – realizam há quatro anos piquetes de forma ininterrupta na fronteira que impedem a livre entrada de mercadorias no Uruguai. No entanto, com o intuito de desativar o conflito, o presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, afirmou que apoiaria a designação de Kirchner, “apesar do alto custo político” que isso lhe causaria no cenário político interno. 

Mas, longe de celebrar a designação de um argentino, a eleição de Kirchner foi criticada intensamente por seus próprios compatriotas, entre eles o ex-presidente provisório Eduardo Duhalde (2002-2003) – um dos defensores da criação da Unasul em seus primórdios em 2004 – que sustentam que o temperamental Kirchner só causará mais problemas dentro da região. “Kirchner não vai integrar a América do Sul…ele é um fator de desintegraçao”.

Na terça-feira, o tradicional jornal “la Nación” dedicou seu editorial para analisar a eleição de Kirchner para a Unasul. Em alusão aos vários casos de corrupção dos quais o ex-presidente é suspeito, o jornal afirma que “seria triste que o primeiro presidente da Unasul fosse atingido por um escândalo”. Em tom fúnebre, o “La Nación” indica que “a unção do ex-presidente argentino será um réquiem para a Unasul”.

Aqui vai um link do jornal La Nación, desta quarta-feira, sobre a polêmica da dedicação exclusiva (ou não) de Kirchner à secretaria, aqui.

O presidente chileno, Sebastián Piñera, que debutou em sua primeira cúpula internacional, apoiou a candidatura de Kirchner, mas foi na contra-mão das tradicionais declarações de intenções sobre “sonhos latino-americanos” das cúpulas regionais ao ressaltar que a região deve estabelecer “metas ambiciosas” para intensificar a integração. “É preciso diferenciar sonhos de projetos. Os sonhos não possuem prazos nem metas. Nós precisamos projetos!”.

 bloamericadosul

Segundo ex-presidente Eduardo Duhalde, Kirchner, será fator de desintegração regional . Mapa que mostra como era a região há um século.

ESTILO K: CONFRONTOS E ALERGIA A PROTOCOLO

“Não cheguei ao governo para ficar indo de cocktail em cocktail”. A frase foi disparada em 2004 pelo então presidente Néstor Kirchner para explicar suas costumeiras ausências em recepções a presidentes de outros países, reuniões com empresários, além de cúpulas internacionais. Naquele ano recusou-se a ir à reunião de presidentes em Cusco, no Peru, na qual seria criada a Comunidade Sul-americana de Nações, que em 2008 adquiriria o nome de Unasul.

De lá para cá, Kichner continuou exibindo aversão a todo tipo de convescotes presidenciais. Seus assessores, ao longo destes anos, confessaram em diversas oportunidades: “ele não suporta essas formalidades”. Paradoxalmente, Kirchner foi eleito secretário-geral da Unasul para propiciar “mais institucionalidade” à essa organização internacional.

Na lista de vítimas da aversão de Kirchner ao protocolo e boas maneiras esteve a Petrobrás, que em 2004 foi alvo de dois adiamentos da assinatura de um acordo de ampliação de um gasoduto. Carly Fiorina, na época a CEO mundial da Hewlett Packard, esperou 40 minutos sentada em um corredor da Casa Rosada por uma reunião com Kirchner até que foi informada – sem maiores explicações – que o encontro havia sido cancelado.

 blogputin

Presidentes e empresários foram vítimas do desprezo de Kirchner. O então presidente Vladimir Vladimirovich Putin, ou, Владимир Владимирович Путин (no alfabeto de Nikolái Andréyevich Rimsky-Korsakov e de María Yúrievna Sharápova), esperou por Kirchner inutilmente. A culpa do atraso: um quitute tcheco.

Os reis da Espanha – o país que protagonizou os maiores investimentos estrangeiros na Argentina – também foram alvo de Kirchner, que os deixou esperando duas horas na cidade de Rosario.

O presidente chinês, Hu Jintao, em sua única visita à Argentina foi tratado com desprezo por Kirchner, que, no encontro oficial na Casa Rosada, mostrou desalinho, com direito à paletó desabotoado e mocassins sem lustrar.

O presidente do Vietnã, Tran Duc Lueong, em sua visita à Buenos Aires, ficou esperando Kirchner no jantar oficial (que o próprio Kirchner havia convocado). No entanto, não deu as caras. Seus assessores explicaram que estava doente. Mas, fontes do governo confirmaram que Kirchner havia estado trabalhando no palácio presidencial até altas horas da noite. 

Kirchner também protagonizou um desplante com o então presidente Vladimir Putin. O argentino havia pedido um encontro com russo no aeroporto de Moscou, onde faria uma escala técnica entre Praga e Beijing. No entanto, o avião de Kirchner não apareceu na hora marcada. Putin, depois de esperar, voltou – furioso – para o Kremlin.

A comitiva argentina, na ocasião, alegou que problemas climáticos haviam atrasado o voo entre Praga e Moscou. Mas, os mapas meteorológicos do dia indicam que o trecho entre a capitais tcheca e russa era um “céu de brigadeiro”. Extraoficialmente, fontes do governo admitem que o atraso de Kirchner em Praga foi causado pela degustação de quitutes tchecos em um emblemático restaurante da cidade, que o então presidente argentino insistiu em experimentar.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também  foi vítimas das repentinas mudanças de humor de Kirchner. Esse foi o caso de uma cúpula de presidentes dos países do Grupo do Rio, realizada no Rio de Janeiro. Kirchner foi esperado para a reunião, à qual só comunicou que faltaria no próprio dia do encerramento. Desde que Kirchner chegou ao poder em 2003, os argentinos denominam essa forma de ser de “estilo K”.

PRESIDENTE DE UM CLUBE DO QUAL NÃO É SÓCIO

 bloggrouchomarxgreat_comedians

O cômico Groucho Marx dizia que nunca aceitaria pertencer a clube que o aceitasse de sócio. Charge do genial Al Hirschfeld (1903-2003) que mostra, da esquerda para a direita, CW Fields, Charles Chaplin, Buster Keaton e o citado Groucho.

 blog1vinhetas44A União de Nações Sul-americanas teve na terça-feira o paradoxo de eleger como secretário-geral do bloco um cidadão de um país que ainda não ratificou em seu Parlamento o tratado da Unasul.

A Câmara de Deputados da Argentina ainda não aprovou como lei o tratado que estabelece a criação dessa entidade regional. “É como ser presidente de um clube do qual ainda não é sócio”, disse um diplomata de um país do Mercosul ao Estado, em alusão à insistência de Kirchner em tornar-se secretário-geral da Unasul.

Tempo para a aprovação houve de sobra, já que o governo remeteu o tratado de formação da Unasul para ratificação parlamentar em setembro de 2008. Em dezembro daquele ano o Senado argentino aprovou o tratado. Mas, ficou pendente a ratificação da Câmara de Deputados.

Maioria para aprovar o tratado também existiu na maior parte desse período, já que entre setembro de 2008 e dezembro do ano passado o governo da presidente Cristina Kirchner – uma enfática defensora da Unasul – contou com maioria na Câmara de Deputados.

Somente quatro dos doze países da Unasul aprovaram o tratado que a cria.

OCIOSAS - Em dezembro de 2004, quando os presidentes da América do Sul reuniram-se em Cusco, no Peru, para formar a Comunidade Sul-americana de Nações (posteriormente denominada de Unasul), o então presidente Kirchner – que na época não concordava com sua criação, preferiu não participar. Uma semana antes da reunião, Kirchner deixou claro o motivo: “só vou a cúpulas que considero importantes”. O chanceler de Kirchner, Rafael Bielsa, arrematou o argumento de seu chefe: “algumas cúpulas são um pouquinho ociosas…”.

 DA ‘CASA’ À ‘UNASUL’

blog1vinhetas44Em dezembro 2004, durante a terceira reunião de presidentes sul-americanos, na peruana cidade de Cusco, foi criada uma organização paralela às outras entidades regionais (como o Mercosul e a Comunidade Andina). Desta forma, inaugurou-se a Comunidade Sul-americana de Nações.

A sigla, no início, tornou-se assunto de debate, já que no Brasil foi “CASA”, enquanto que nos outros países adotou-se a designação “CSN”. Em abril de 2007 os presidentes da região, com a intenção de mostrar mais integração, decidiram mudar seu nome para “Unasul” (“Unasur”, para os países hispano-falantes; “Usan” na Guiana, onde fala-se o inglês e “Uzan” no Suriname, onde o idioma é o holandês).

 A Unasul é composta pelos 12 países da América do Sul: a Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Suriname e Guiana (a ex-Guiana Britânica). As únicas exclusões da Unsaul na América do Sul são a Guiana Francesa (departamento de além-mar da França) e as Ilhas Malvinas (administradas pela Grã-Bretanha).

A suposta praticidade da Unasul como organização supranacional criada com a intenção de aprofundar a integração econômica, política e  de defesa da região é constante alvo de críticas por parte de partidos da oposição dos vários governos da região, que consideram que este organismo só acrescenta mais burocracia regional.

O tratado de criação da Unasul estipula que a sede do quartel-general será em Quito, Equador. Por outro lado, a sede do futuro “Parlamento da América do Sul” estará na cidade boliviana de Cochabamba, enquanto que o edifício do “Banco do Sul está, por insistência do presidente Hugo Chávez, em Caracas, Venezuela.

Desde sua criação, a Unasul respaldou o presidente Evo Morales para evitar movimentos autonomistas na Bolívia e suavizou as tensões fronteiriças entre a Colômbia e a Venezuela em 2009.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

blog1vinhetalendonewsstand3 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão 

Gustavo Chacra (Nova York): http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/ 
Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/ 
Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trevisan/
Adriana Carranca (Pelo Mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carranca/ 

……………………………………………………………………………………………………
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico
).

…………………………………………………………………………………………………

Comentários (25)| Comente!

  • A + A -

blogkirchnersorri

Kirchner, considerado o verdadeiro poder do governo de sua esposa e sucessora, Cristina Kirchner, pretende ter um cargo internacional

 

blog1mao3O ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), atual deputado – e considerado o verdadeiro poder no governo de sua esposa, a presidente Cristina Kirchner – contaria com o respaldo da maioria dos presidentes dos países da América do Sul para transformar-se no secretário-geral da Unasul, entidade supranacional criada em 2007 com a intenção de aprofundar a integração econômica e política da região. O mais recente respaldo concedido a Kirchner provém do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O apoio do governo brasileiro à candidatura de Kirchner – conhecido por ter pouco tato, ausência de diplomacia e por sua aversão a reuniões internacionais – foi anunciado dias atrás pelo governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, homem de confiança do casal presidencial. Scioli, ex-vice-presidente da república (2003-2007), afirmou em Nova York: “a administração do Brasil deu seu respaldo a Kirchner”.

O plano é que Kirchner seja entronizado no comando da Unasul na reunião de cúpula que esta entidade regional realizará nos dias 4 e 5 de maio em Buenos Aires.

Nesse conclave, além da candidatura de Kirchner, os presidentes discutiriam a formação de um fundo de ajuda sul-americano para o Haiti. O encontro também servirá para debater que posição a Unasul assumirá perante o governo do novo presidente de Honduras, Porfírio Lobo, ainda não reconhecido por vários países da América do Sul.

O sonho de Kirchner de ter um cargo internacional conta com o respaldo explícito do presidente boliviano Evo Morales, além do venezuelano Hugo Chávez e do equatoriano Rafael Correa. Outros países da região concordam com a essa candidatura, embora sem tom enfático.

blogchaveztanque

O presidente venezuelano Hugo Chávez é um dos mais entusiastas defensores da candidatura de Kirchner

O Uruguai foi o único empecilho declarado contra Kirchner ao longo dos últimos dois anos por causa da tensão diplomática entre o governo argentino e o presidente uruguaio Tabaré Vázquez (que vetou a escolha de Kirchner).

No entanto, o novo presidente do Uruguai, José Mujica, que tomou posse em março, segundo informações extraoficiais, teria indicado à presidente Cristina Kirchner que não teria obstáculos contra a candidatura de seu esposo. 

Oficialmente, o governo uruguaio ainda não confirmou que respaldará Kirchner. Fontes diplomáticas indicam que o governo uruguaio está esperando nesta terça-feira a definição na corte internacional de Haia sobre o conflito que o país mantém com a Argentina por causa da fábrica de celulose da empresa finlandesa Bótnia, instalada nas margens uruguaias do rio Uruguai, na fronteira de ambos países.

Caso o parecer seja favorável ao Uruguai (e na hipótese que a presidente Cristina o acate) o presidente Mujica apoiaria a candidatura de Kirchner.

Mas, na semana passada, o chanceler equatoriano Ricardo Patiño indicou que a unanimidade não seria necessária para colocar Kirchner no posto de secretário-geral. Segundo ele, o “ideal” é que a pessoa eleita pelos membros da Unasul seja eleito de forma unânime…mas, caso isso não seja possível, será consagrado quem conseguir maior número de adesões.

Atualmente, o único candidato é Kirchner.

blogvinhetas19 Sobre o conflito Uruguai-Argentina: O governo uruguaio está irritado com Kirchner, pois ele, desde 2005, apoiou os manifestantes argentinos que fazem piquetes nas pontes que ligam a Argentina com o Uruguai. Os manifestantes protestam contra o funcionamento da fábrica de celulose Botnia, do lado uruguaio da fronteira, alegando que a empresa polui o rio Uruguai, que divide os dois países.

Os manifestantes argentinos bloqueiam uma das pontes de forma ininterrupta, há quase quatro anos, impedindo a passagem de pessoas, bens e veículos.

O Uruguai levou o caso à Corte Internacional de Haia, alegando que os piqueteiros argentinos, com a conivência da Casa Rosada, viola o direito de livre circulação do Mercosul.

blogvinhetas41TRANSFERÊNCIA TEMPORÁRIA – A certeza da eleição de Kirchner é uma certeza no círculo do ex-presidente. Assessores do ex-presidente avaliam reciclar um edifício governamental abandonado da rua Juncal, na área central de Buenos Aires, para que Kirchner ali instale a secretaria-geral da entidade.

O Secretariado permanente da Unasul, quando seja estabelecido, ficará em Quito, Equador. Mas Rafael Correa, amigo de Kirchner, estaria de acordo na transferência temporária da sede para Buenos Aires.

Atualmente, a Unasul conta com presidentes pro-tempore, de um ano de duração. O posto é ocupado, de forma rotativa, pelos presidentes dos países que integram a entidade. O objetivo do posto de Secretário-Geral é de que a entidade conte com alguém que se ocupe de forma executiva da estrutura.

A duração do mandato é de um ano. A não ser que as regras sejam modificadas.

 

blogkirchnerunasul4

Kirchner, um dia antes de passar a presidência para a esposa em dezembro de 2007, reunido com presidentes sul-americanos para a assinatura da ata de criação do Banco do Sul (foto da presidência da República)

blogvinhetas41COQUETÉIS, AUSÊNCIA PARLAMENTAR E PERGUNTAS – Diplomatas consultados pelo Estado ressaltam que Kirchner não se enquadra no papel de um líder regional para armar consensos e desativar crises, já que não tem papas na língua e aplica a estratégia de ‘bater primeiro para conversar depois’. Eles ressaltaram que o próprio possui aversão às cúpulas. “Não gosto de ir por aí de coquetel em coquetel”, disse Kirchner durante seu governo.

No entanto, em Buenos Aires, no âmbito político também comenta-se que Kirchner não se adapta à sua nova função, isto é, a de deputado federal (foi eleito em junho e tomou posse em dezembro). O marido da presidente Cristina só foi à sessão de juramento do cargo e à abertura do ano parlamentar. Nunca mais colocou os pés no plenário, apesar do salário que recebe para desempenhar a função (seu colega ex-presidente, Carlos Menem, atualmente senador, tampouco costuma dedicar-se às atividades de seu cargo, embora também seja pago para estar no plenário).

O regulamento da Unasul determina que a pessoa escolhida para coordenar essa entidade sul-americana não poderá intervir na política nacional de seu país. Isso levou os analistas em Buenos Aires a perguntar: “Kirchner conseguirá conter a si próprio e não intervir na política argentina?”

blog1vinhetas44 ORIGENS

A Unasul é composta pelos 12 países da América do Sul: a Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Suriname e Guiana (a ex-Guiana Britânica). As únicas exclusões da Unasul na América do Sul são a Guiana Francesa (departamento de além-mar da França) e as Ilhas Malvinas (pertencente à Grã-Bretanha).

 A Unasul foi criada em 2007 com a intenção de aprofundar a integração econômica e política da região. Ela foi constituída formalmente em maio deste ano em Brasília. Sua antecessora foi a Comunidade Sul-americana de Nações (CSN), fundada em 2004.

A suposta praticidade da Unasul como organização supranacional é constante alvo de críticas por parte de partidos da oposição dos vários governos da região, que consideram que este organismo só acrescenta mais burocracia regional.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico
).

Comentários (21)| Comente!

  • A + A -

Arquivo

..Revistas satíricas da Argentina

Blogs do Estadão