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Ariel Palacios

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A famosa cena da “Ária do catálogo”. Leporello faz a contabilidade das seduções protagonizadas por seu senhor, Din Giovanni (foto da assessoria do Teatro Colón).

blog1dedo4O maestro John Neschling – regendo a Orquestra Estável do Teatro Colón – debutou na terça-feira à noite na capital argentina com a ópera “Don Giovanni”, de Wolfgang Amadeus Mozart. Depois da apresentação em junho de “La Bohème”, de Giàcomo Puccini, esta é a segunda ópera do Colón desde sua reinauguração em maio passado, após sete anos de obras. O regente brasileiro era esperado com grande expectativa na capital argentina. A crítica especializada o definiu como “um diretor musical de luxo” e “o mais destacado diretor de orquestra do Brasil”, além de ressaltar que foi o responsável pela “inédita” projeção internacional da Osesp.

O Colón estava lotado. Mais de um terço do exigente público portenho ostentava smokings e vestidos longos de gala. No entanto, a noite não contou com celebridades, já que estas costumeiramente optam pelas apresentações das sexta-feiras e domingos.

Neschling, com seu rigoroso estilo sóbrio, permitiu que os cantores pudessem exibir-se, sem a concorrência direta da orquestra. O público desta terça-feira – composto principalmente de habitués do Colón e apreciadores da ópera estrangeiros – compreendeu e respaldou o estilo do carioca ex-regente da Osesp, aplaudindo-o com moderado entusiasmo.

Não houve pedidos para bis, o que é costumeiro por parte dos fleumáticos habitués desse teatro. No entanto, para os altamente exigentes padrões do público do Colón, esta moderação pode ser considerada como uma “vitória” na maior sala de ópera da América Latina.

Neschling é uma das várias estrelas convidadas para este ano de reabertura da maior sala de ópera da América Latina. Em junho apresentou-se o violoncelista Yo Yo Ma. Em agosto o teatro contará com a presença do regente argentino-israelense Daniel Barenboim. Em outubro será a vez do indiano Zubin Metha.

blog1vinheta58 APRESENTAÇÕES – As próximas apresentações de ‘Don Giovanni’ ocorrerão neste domingo dia 18; na terça-feira dia 20; na sexta-feira dia 23 e no domingo 25 de julho.

Link do Teatro Colón, aqui. 

blog1dedo2bDRAMMA GIOCOSO - A montagem de “Don Giovanni” – este ‘dramma giocoso’ (drama cômico) – como diriam os italianos para definir o gênero que oscila entre o cômico e o trágico, é do alemão Michael Hempe.

“Esta ópera é a superposição constante da tragédia e da comédia, elas estão todo o tempo juntas. É o caso da ‘ária do catálogo’, no qual a diversão de Leporello é a tragédia de Elvira”, afirmou Hempe, pouco antes da estreia. Segundo o ‘régisseur’, “a dificuldade de fazer um bom ‘Don Giovanni’ ” é o de lidar com a narração musical simultânea em dois níveis criada por Mozart”.

Sob a batuta de Neschling, o personagem de Don Giovanni foi interpretado pelo baixo-barítono italiano Nicola Ulivieri. O fiel criado de Don Giovanni, Leporello, encarregado de salvar seu amo de diversas enrascadas, foi o baixo-barítono argentino Eduardo Chama, que arrancou aplausos do público por sua habilidade nas cenas cômicas, especialmente na ária “Madamina” (mais conhecida pelo nome informal de “A ária do catálogo”) na qual faz um prolongado e irônico censo das fulminantes conquistas de Don Giovanni em diversos países.

A “Ária do catálogo”, mas com Bryn Terfel, já que ainda não há amostras do Don Giovanni regido por Neschling no Colón no Youtube. O link do Youtube, aqui.

PÚBLICO – No intervalo, o Estado consultou pessoas do público sobre a atuação de Neschling e dos cantores. A estudante de arquitetura Estela Garrido estava no ‘poleiro’, o ponto mais distante do palco: “gostei de Neschling, que tem um jeito sóbrio de reger e respeita a ópera. Fiquei curiosa para vê-lo em ação em uma peça sinfônica”. A jovem destacou o desempenho do tenor canadense John Tessier, o mais aplaudido da noite: “tem uma voz honesta, ideal para o papel de Don Octavio”.

Após o final da apresentação, na plateia, Ana Ezcurra, ostentando um elegante casaco de vison ponderou ao Estado: “tudo perfeito. O maestro e a mise-en-scène”. Seu marido, Cláudio, empresário, fez uma observação do physique du rôle dos cantores: “Don Giovanni (Ulivieri) tinha porte atlético, excelente presença cênica e foi verossímil no papel do sedutor. Mas, as camponesas eram magras demais, meio longe da realidade. Mas, pelo menos é menos pior do que ver, como antigamente, uma soprano roliça interpretando uma tísica em La Traviata…”

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Don Octavio promete vingar a morte do pai de sua prometida (foto da assessoria do Teatro Colón).

CLÁSSICO PORTENHO - A ópera de Mozart – cujo nome completo é “Il dissolutto punito, ossia il Don Giovanni” (O disoluto punido, isto é, Don Giovanni) – é um clássico em terras portenhas. A ópera, que estreou no Teatro Estatal de Praga em outubro de 1787, foi apresentado pela primeira vez em 1827 em Buenos Aires, capital na época das Províncias Unidas do Rio da Prata (a Argentina, formalmente, ainda não contava com seu atual nome). Essa apresentação, no Teatro Coliseu – no meio das guerras civis que assolavam o país – foi seguida por outra, em 1869, no velho Teatro Colón.

“Don Giovanni” voltou em grande estilo em 1908, na inauguração do atual Teatro Colón. Na ocasião, o tenor italiano Titta Ruffo interpretou Don Giovanni e o baixo russo Fiódor Chaliapin foi Leporello.

blog1vinheta55b PECULIARES CONEXÕES RUSSO-ITALIANS-ARGENTINAS – Fiódor Ivánovich Chaliapin (em russo, Фёдор Ива́нович Шаля́пин ) nasceu em Kazan, em 1873 e morreu em Paris em 1938. Os especialistas indicam que ele estabeleceu a tradição de uma interpretação ‘natural’ da ópera.

Conexão com a Argentina, além de sua apresentação no Colón no ano de sua inauguração? Ahá! Seu filho, Feodor Chaliapin Jr (1905-1992) foi um ator que trabalhou no filme “O Nome da Rosa” (1986), baseado no livro homônimo do semiólogo e ensaísta italiano Umberto Eco.

Chaliapin Jr. fazia o papel do misterioso “Jorge de Burgos”, o bibliotecário cego, que era uma homenagem do autor do livro ao escritor argentino Jorge Luis Borges.

Connery, isto é, Sean Connery (o emblemático James Bond), que fez o papel de Guilherme de Baskerville, o padre-detetive de “O Nome da Rosa” foi quem insistiu para que Chaliapin Jr. fizesse o papel de Jorge de Burgos. “Ele é genial…mas vai roubar meu show!”, disse Connery.

E Chaliapin Jr também faz o papel de avô no filme “Feitiço da lua”, com a atriz-cantora Cher e Nicholas Cage.

 O genial Chaliapin (o pai, claro) canta a “Ária do Catálogo”. Aqui.

Chaliapin canta “La calunnia”, de “O Barbeiro de Sevilha”, de Gioachino Rossini. Aqui.

 E já que nesta semana foi celebrada a queda da Bastilha, neste link Chaliapin canta “La Marseillaise”. Aqui. 

Mas, a minha versão preferida é a Marselhesa com o espanhol Plácido Domingo. Aqui. 

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Lorenzo da Ponte, autor do libreto de Don Giovanni

LENDA - “Don Giovanni”, composta por Mozart, tem libreto de Lorenzo da Ponte, que inspirou-se na peça de teatro “O enganador de Sevilha e o convidado de pedra”, atribuída ao espanhol Tirso de Molina.

A lenda indica que enquanto Da Ponte preparava o libreto de Don Giovanni, o próprio Giácomo Casanova – amigo do libretista – interveio pessoalmente na preparação do enredo.

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ENTREVISTA COM NESCHLING

E aqui está a entrevista que fiz com o maestro Neschling no dia seguinte à estreia de Don Giovanni:

Estado – Don Giovanni é uma ópera difícil de reger? Pergunto isso, pois Mozart, nesta obra, muda de forma muito rápida o “clima”, do cômico ao dramático…

Neschling - As óperas de Mozart têm essa característica- mudanças abruptas de andamento e de clima. Reger as grandes óperas dele é sempre difícil. E reger ópera e muito diferente de reger o sinfônico. Em princípio é mais difícil, mais complexo. É preciso conhecer o gênero e estar muito bem preparado musical e tecnicamente.

Estado – O que achou da reforma do Colón? Considera que a acústica permanece a mesma?

Neschling - Acho a reforma excelente na parte em que foi feita. Evidentemente há muito por fazer, uma grande parte da infratestrutura do teatro ainda está em obras, mas o principal é que o teatro está funcionando, com todos os problemas. O pior é ter um teatro fechado dutante anos, sem perspectivas de reabrir e sem projeto.

Quanto à acústica, continua formidável. Não regi ópera antes da reforma, mas creio que não poderia ser muito melhor.

Estado - O que achou da reação do público portenho?

Neschling – A reação foi muito calorosa no ensaio geral, na estréia o evento social quase é mais importante do que o musical, e o público parece que sempre é um pouco mais frio. Mas  houve grandes aplausos e bravos no final. Acho que nas próximas récitas a reação será mais imediata.

Estado - Quais são seus planos de trabalho para este ano?

Neschling - Volto ao Brasil para cuidar da minha Companhia Brasileira de Ópera, farei mais umas 20 récitas do Barbeiro de Sevilha por todo o País e ainda vou  à Europa para reger uma Segunda Sinfonia de Mahler em Liège e em Maastricht.

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

blog1vinhetalendonewsstand3 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão 

Gustavo Chacra (Nova York): http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/ 
Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/ 
Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trevisan/ 
Adriana Carranca (Pelo Mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carranca/ 

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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários.
Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico
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O presidente Marcelo T. de Alvear (1922-28), inaugurando um monumento nos parques de Palermo, nos anos 20. A Argentina vivia anos dourados que durariam outras cinco décadas.

blog1dedo2b1810 – No dia 25 de maio ocorre o ponto culminante da Revolução de Maio. Nesse dia, com a destituição do vice-rei Baltasar Hidalgo de Cisneros, acaba na prática o governo espanhol no então vice-reinado do Rio da Prata. No entanto, o país não proclama a independência, pois, a ideia era – enquanto viam o desenrolar dos acontecimentos (a Espanha estava ocupada pelas tropas napoleônicas e o rei espanhol preso por ordem do imperador francês) – realizar uma espécie de autogoverno, já que o governo central espanhola estava suspenso. Os rebeldes proclamavam sua lealdade a Fernando VII, enquanto analisavam alternativas (inclusive, uma alternativa monárquica com Carlota Joaquina..isso mesmo, a esposa de Dom João VI e mãe do futuro Dom Pedro I).

Rebeliões, contra-rebeliões e lutas internas começaram a pipocar em todo o território (o assunto é tremendamente mais complexo, mas tento resumi-lo desta forma…mais detalhes, neste artigo da Wikipedia, aqui. No caso de livros, recomendo os de Félix Luna e os de Luis Alberto Romero sobre o assunto).

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“Cabildo aberto de 1810”, do pintor Juan Manuel Blanes (1830-1901)

blog1dedo2b1816 – Com o passar do tempo, com a restituição do rei da Espanha e a derrota de Napoleão na Europa, o cenário na América do Sul precisava de definições. Ficou claro para os comandantes da rebelião de que existiam as condições e conveniências para a independência total. Após batalhas contra a antiga metrópole, as províncias se reúnem para proclamar a independência, na cidade de Tucumán, no dia 9 de julho (para mais detalhes, este artigo da Wikipedia, aqui ).

Por este motivo, a Argentina conta com duas datas nacionais: o 25 de maio e o 9 de julho. As duas datas são homenageadas com duas avenidas em Buenos Aires: a avenida de Mayo (que vai da Casa Rosada à Praça do Congresso) e a 9 de Julio (que atravessa a avenida de Mayo pela metade e corta o centro em duas partes, ligando os bairros de Constitución e Retiro).

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Há 200 anos, quando Buenos Aires efervescia com a Revolução de Maio, a área que pouco tempo depois se transformaria na Argentina, era a menor economia da América do Sul, atrás das outras colônias espanholas na região, e do próprio Brasil, que dois anos antes havia recebido a família real portuguesa.

Um século depois, isto é, há 100 anos, quando a Argentina celebrou o centenário da ‘Revolução de Maio’ de 1810 – o início do processo da independência – o país não se parecia em nada ao que havia sido dez décadas antes.

Em 1910 a Argentina estava no ponto culminante de seu prestígio internacional. Na época, a Argentina representava 50% de todo o PIB latino-americano; Buenos Aires – cujas ruas eram decoradas com estátuas importadas da França (além de edifícios inteiros, tijolos por tijolo) – era chamada de “a Paris da América do Sul” e o próprio país – que recebia uma intensa migração europeia – era considerado um “pedaço da Europa” incrustado na América do Sul.

Escritores em todo o mundo consideravam que a Argentina – na época o décimo PIB per capita mundial – rivalizaria em pouco tempo com os EUA. Os argentinos exibiam exuberante otimismo e acreditavam que o país estava destinado a um futuro brilhante.

“Em 1910, a pátria festejou seu centenário. Era a celebração de um povo que havia encontrado seu lugar na História”, sustenta o ex-embaixador em Paris, Juan Archibaldo Lanús, em seu livro “Aquele Apogeu”. Segundo ele, em apenas uma geração o país passou de ser o cenário dos últimos “malones” (ataques de tribos indígenas) a ter o primeiro metrô da América Latina.

Duas semanas antes do centenário, o jornal “La Prensa” estampava uma pergunta em seu editorial: “como poderia fracassar um país dotado de tal sorte?”.

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Iconografia do centenário mostrava um país confiante no futuro

blog1vinheta60 - Mas, o cenário do bicentenário é diametralmente oposto ao imaginado pelos argentinos e pelo “La Prensa” em 1910, embora o governo da presidente Cristina Kirchner tente mostrar otimismo com o slogan “Fomos capazes, somos capazes” para as celebrações da data, que está sendo recordada desde o sábado festividades que incluem desfiles militares, shows de tango e rock. 

blog1vinheta60 - Atualmente a Argentina representa 10% do PIB latino-americano, e perdeu para o Brasil o posto de líder regional. Além disso, o país caiu para o quinquagésimo posto do PIB per capita mundial. Longe de aspirar um nível social “europeu” (que exibiu até o final dos anos 80), os sociólogos afirmam que a Argentina aproxima-se cada vez mais do padrão latino-americano de profundas divisões sociais. O porto de Buenos Aires, o segundo em movimento nas Américas atualmente corre o risco de ser superado pelo de Montevidéu.

Em 1910 a cidade de Buenos Aires tinha mais teatros que Paris. “Uma grande cidade da Europa”, categorizou o presidente francês Georges Clemenceau. Mas a melhor definição talvez seja a do brilhantemente cínico escritor francês André Malraux, que a definiu como “a capital de um império imaginário”. 

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Buenos Aires…em 2010! Assim era imaginada em 1910 pelo ilustrador Arturo Eusevi, na revista PBT

blog1vinheta71TRÊS PRESIDENTES – A analista de opinião pública Graciela Römer disse ao Estado que “dois de cada três argentinos acreditam que a geração de seus avós vivia melhor do que a deles. Sobre o futuro, somente uma de cada três pessoas acha que seus filhos viverão melhor. O otimismo de 100 anos atrás não existe mais. Antigamente era uma certeza que com educação, esforço e sacrifício subia-se na vida. Hoje não mais. Atualmente, ‘viver melhor’ é simplesmente não cair na pobreza”.

Em 1916 o país teve as primeiras eleições com voto secreto e universal. No entanto, em 1930 iniciou uma série de golpes de Estado, complementados com crises financeiras sem paralelo na região, trocas abruptas de políticas econômicas.

blog1vinheta63 De lá para cá, somente três presidentes eleitos livremente nas urnas puderam completar seus mandatos.

blog1vinheta57 Outro dado mais sombrio: Desde 1930, ano do primeiro golpe de Estado, o país nunca mais teve uma sequência ininterrupta de dois presidentes civis eleitos nas urnas que completassem seus mandatos. O último caso foi o de Hipólito Yrigoyen (1916-22) e Marcelo T. de Alvear (1922-28).

Caso a presidente Cristina Kirchner complete seu mandato, esta será a primeira vez que isso ocorre desde a sequência Yrigoyen-Alvear. Neste caso, serão dois presidentes diferentes em sequência: Néstor Kirchner e Cristina Kirchner (embora com a peculiaridade de serem marido e mulher que se sucederam).

E sequer os militares conseguiram completar os mandatos que previam (exceto o general Jorge Rafael Videla, que concluiu os cinco anos previstos… até os militares derrubaram seus próprios colegas com outros golpes).

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O cartunista Daniel Paz, do “Página 12″, ironiza sobre as crises e as oportunidades da Argentina

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INSTABILIDADE - A socióloga Beatriz Sarlo disse ao Estado que a Argentina, nos últimos 100 anos, sofreu “a marca maldita dos golpes de Estado, que começaram em 1930 e foram até 1976. Metade desse século vivemos em constante instabilidade política”.

Os economistas argentinos não conseguem consenso sobre o momento do início da decadência. Alguns sustentam que foi em 1930, com a quebra da institucionalidade; outros acreditam que a culpa foi do governo do intervencionista Juan Domingo Perón; enquanto que um terceiro grupo afirma que foi a política econômica caótica da ditadura de 1976-83. Mas, já em 1969 o país causava estupefação para o economista russo-americano Simon Kuznets, que tentou enquadrar o imprevisível país: “existem três tipos de países no mundo. Os normais, o Japão…e a Argentina!”. (a frase é erroneamente atribuída ao amigo de Kuznets, Paul Samuelson).

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Kuznets, ao receber o Nobel de Economia, em 1971, das mãos do rei Gustavo VI Adolfo da Suécia   

blog1vinheta58 EXILADOS – A decadência econômica e política também teria sido causada pelos exílios, que levaram consigo la crème de la crème dos profissionais e da classe política. Nos anos 50, partiram os intelectuais, pressionados pelo governo peronista. Nos anos 60, emigraram 3 mil cientistas perseguidos pelos militares. Na turbulenta década de 70 partiram profissionais, intelectuais e lideranças políticas. A fins dos anos 80 foram embora milhares de pessoas, pressionadas pela hiperinflação.

Desde meados dos 90, dezenas de milhares partiram por causa do avanço da pobreza. Calcula-se, extraoficialmente, que 1 milhão de argentinos – quase todos mão de obra qualificada – deixaram o país nos últimos 30 anos.

blog1vinheta58 MODELO BRASILEIRO - Enquanto que em 1910 o modelo a seguir era a Grã-Bretanha e a França, nos últimos anos políticos, empresários e de forma geral, a população, começou a encarar o Brasil como um modelo a seguir.

O ex-vice-ministro da Economia, Orlando Ferreres, me disse que ao contrário do Brasil, a Argentina “careceu de estratégias de longo prazo”. Segundo o economista, por este motivo o país vive um cenário no qual até a carne – símbolo nacional – possui uma presença cada vez maior do Brasil: “frigoríficos argentinos são comprados por empresas brasileiras, com respaldo do BNDES, organismo que invejamos, sem similar na Argentina”.

O sociólogo Carlos Fara me comentou que “há 50 anos o Brasil era um país rural, sem indústrias, enquanto que a Argentina já contava com uma classe média de segunda geração, além de prêmios Nobel. O Brasil cresce de forma persistente e representa hoje para a Argentina o sonho daquilo que podia ter sido e não foi”.

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Borges, um ácido analista da sociedade argentina, desenhado por Alberto Breccia

blog1vinheta58 PROBLEMAS E ESPERANÇAS - A persistência de crises políticas e econômicas não começou com a crise sem precedentes de 2001-2002, no governo de Fernando De la Rúa (1999-2001). Nem com o de seu antecessor, Carlos Menem (1989-99). Ela teria começado décadas antes. “Este é um país que no segundo século de independência, destruiu tudo o que fez no primeiro”, me disse o think tank Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nueva Mayoría.

O analista, e muitos outros, tentam explicar o que aconteceu para que ocorresse este “grande fracasso nacional”, que tornou a Argentina um dos poucos países que passou do primeiro mundo ao terceiro em poucas décadas.

“Como pode ser que uma nação como esta, beneficiada com invejáveis recursos naturais e humanos, não consiga reverter este lento e melancólico declínio em direção à insignificância?”. Esta foi a pergunta feita há poucos anos por um dos principais estudiosos sobre o país, Nicholas Shumway, da Universidade de Austin, Texas.

Shumway tem a teoria de que existe um fator normalmente esquecido: “a peculiar mentalidade divisória”. O think tank americano considera que o país fracassou na criação de um marco ideológico de união e consenso, caso contrário do Brasil.

O falecido escritor Jorge Luis Borges, costumava dizer que os argentinos eram “brilhantes individualmente, mas coletivamente são um fracasso”.  Além de individualistas incorrigíveis, segundo Borges (e outros analistas, ensaístas e historiadores) também padeceriam de outro problema, afirma o sociólogo Guillermo O’Donell: “temos um enorme talento autodestrutivo, somos o espetáculo mundial da auto-destruição”.

No entanto… a crise de 2001-2002 também serviu para que as novas gerações repensassem o país construído (ou destruído) pela geração dos pais. Jovens empresários argentinos, na contra-mão das duas gerações anteriores, investem e apostam no país. De quebra, conseguem fazer que, apesar dos trancos e barrancos, a economia funcione (e, levando em conta que o país teve seis graves crises econômicas desde 1975, a capacidade de recuperação é – no mínimo – invejável).

A cultura está sendo reativada de forma ininterrupta desde a crise da virada do século. O cinema argentino - apesar da crise econômica - se vira e lança filmes todos os anos que competem em festivais internacionais, tal como o recente - “El secreto de sus ojos”, de Juan José Campanella, vencedor, entre outros prêmios, do Oscar de melhor filme estrangeiro (cenas, aqui).

O tango passou por uma renovação e um revival. Longe do estilo tradicional, o tango novo é embalado ao ritmo do techno, como o Bajofondo e outras orquestras. Entre os expoentes está o músico Gustavo Santaolalla (algo de sua obra, aqui), que além de criar um novo estilo e respaldar os jovens músicos, resgata os veteranos compositores (como em “Café de los maestros”, aqui).

Ou, ainda, revisões sobre o tango tradicional, como o caso da carismática Dolores Solá. Neste link, cantando “Que querés con ese loro”. Aqui.

A política, gradualmente, começa a contar com jovens líderes de 20 e 30 anos, que, ao contrário de seus veteranos, aceitam conversar entre si e trocar ideias. Jovens da esquerda, centro e direita mostram disposição ao diálogo, elemento escasso na geração atual de governantes.blog1vinheta57

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O teatro Colón exibe sua restauração. Na foto, a platéia, os camarotes e no forro do teto, a pintura de Raúl Soldi (mais sobre o pintor, aqui)

DA DECADÊNCIA À GLÓRIA RECUPERADA: O COLÓN REABRE SUAS PORTAS EM GRANDE ESTILO

blog1hand-prawo2 Foram necessários sete anos de árduo trabalho de reformas, diversos adiamentos, trocas de planos e uma miríade de greves e controvérsias políticas. Mas, finalmente, o Teatro Colón – a maior sala de ópera da América Latina e a primeira em qualidade acústica do planeta – reabrirá suas portas. A reinauguração ocorre nesta segunda-feira, dia 24, véspera da data nacional do 25 de maio.

Para esta festa, o Colón receberá 2.400 convidados especiais, entre elas a nata da intelectualidade argentina, representantes da classe política, o empresariado, além do corpo diplomático em peso. O governo, embora convidado, anunciou semana passada que não comparecerá. O motivo está explicado no post anterior, este aqui.

O Teatro Colón estava em estado lamentável.  Arquitetos que me guiaram em uma visita às obras indicaram que o estado do teatro era “terrível”, já que as instalações elétricas antes da reforma eram “antiquadas” (algumas, com mais de meio século de instalação) e a falta de sistema de segurança colocavam o edifício em risco de incêndio.
Goteiras estavam espalhadas em diversas áreas do edifício, enquanto que diversos camarins estavam inundados por encanamentos estourados.

A apresentação da reinauguração –  o primeiro ato da ópera “La Bohème”, de Giacomo Puccini, e trechos do balé “O lago dos cisnes”, de Pyotr Illyich Tchaikosvky – será transmitida pelo canal de TV Trece para todo o país. Além disso, 60 mil portenhos poderão ver a apresentação do lado de fora do teatro, em imensos telões colocados estrategicamente sobre a avenida 9 de Julio.

Na noite de gala da reinauguração, a Orquestra Filarmônica de Buenos Aires será dirigida pelo maestro Javier Logioia Orbe.

Ao longo deste ano o Colón contará com figuras de peso mundial como os maestros Zubin Metha (que regerá a Filarmônica de Munique) e Daniel Barenboim (com a orquestra e coro do Scalla de Milão).

O violoncelista Yo Yo Ma, acompanhado pela pianista Kathryn Scott abrirá o ciclo internacional no dia 11 de junho. No total, as estrelas estrangeiras realizarão oito concertos até dezembro.

O ciclo nacional, com a orquestra do Colón, começa sua temporada de 18 concertos no dia 3 de junho.

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OBRAS - As obras implicaram no trabalho de uma equipe de 1.500 pessoas que reformaram 60 mil metros quadrados do Colón. No total, o governo da cidade de Buenos Aires desembolsou US$ 90 milhões para realizar a maior reforma da História do teatro, que ao longo de 102 anos de vida, só havia passado por duas reciclagens parciais.

As obras iniciaram em 2001, com um plano. Em 2003 tudo foi modificado, e as obras foram retomadas com um novo plano (o atual).

Em 2006, perante a polêmica sobre o lerdo andamento das obras, o teatro foi fechado para o público, dando início ao intensivo plano de recuperação que mantiveria a essência arquitetônica do edifício. As obras inicialmente estavam previstas para concluir em 2008, centenário do Colón.

Mas, perante a impossibilidade de cumprir com os prazos – confrontos políticos, basicamente – as celebrações do centenário do teatro foram realizadas no Luna Park, espaço destinado a lutas de boxe e musicais, sem acústica adequada (é impossível qualquer apresentação ali sem microfones).

Furioso, o maestro Daniel Barenboim, contratado para a ocasião, disparou: “a esses responsáveis e irresponsáveis, deixem de lado suas ambições, que são de pouco valor comparados com aquilo que o Colón representa”.

O prefeito Maurício Macri decidiu colocar uma nova data: 2010, ano do bicentenário da Revolução de Maio.

ACÚSTICA – O Instituto Takenaka do Japão indica que  o Colón ocupa o primeiro posto no ranking mundial de acústica lírica (seguido pela Semperoper de Dresden e o Scalla de Milão). Estrelas da ópera mundial sabiam que passar pelo Colón era uma prova de fogo, já que qualquer erro era perfeitamente ouvido pelo exigente público.

Por esse motivo, os restauradores realizaram as obras com cautela, para evitar modificações na qualidade do som. O procedimento adotado foi o de “despir” (remover todos os elementos) a sala de ópera em diversas etapas para medir, a cada uma, o impacto acústico.

Isto é, removiam as poltronas e mediam a acústica; retiravam o tecido que cobria os camarotes, e a acústica era novamente medida.

Por este motivo, os restauradores tentaram manter o mesmo revestimento têxtil de cortinas e poltronas (e o tipo de recheio destas), o tipo de assoalho, entre outros, para evitar qualquer alteração que pudesse modificar a famosa acústica do teatro.

“O Colón possui uma das acústicas mais perfeitas do Universo”, afirma o filósofo e ensaísta Marcos Aguinis, ex-ministro de Cultura e autor do livro “O atroz encanto de ser argentino”. Segundo ele, “o Colón, metaforicamente, é um Stradivarius de incalculável valor”.

blog1vinheta64 E, o spot publicitário sobre a reabertura do Colón (que eu achei genial). O link, aqui.

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PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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A sala principal do Teatro Colón está totalmente reformada, após anos de intensas obras (foto de divulgação da Secretaria de Cultura da cidade de B.Aires)

Resumo da opereta

blog1dedo3O Teatro Colón, a maior sala de ópera da América Latina (que segundo especialistas da lírica, conta com a melhor acústica para o gênero), será reinaugurado nesta segunda-feira à noite. Ainda não abriu suas portas e já é o foco de uma disputa digna de uma opereta de Franz Léhar ambientada em um inventado país dos Bálcãs.

Cristina Kirchner, irritada com o prefeito Maurício Macri, não irá à principal festividade das celebrações do dia 25 de maio, a data nacional, no Teatro Colón, símbolo da cultura argentina.

Por outro lado, a presidente não convidou ao banquete da terça-feira o vice-presidente Julio Cobos, com quem está brigada desde que ele, que também ocupa a presidência do Senado, votou contra o governo em 2008. O banquete será na Casa Rosada, o palácio presidencial.

De quebra, a presidente Cristina tampouco convidou os ex-presidentes argentinos ainda vivos desde a volta da democracia, em 1983. 

O país contará com celebrações paralelas para o Bicentenário: a presidente Cristina, com o banquete na Casa Rosada e um Te Deum em Luján, o prefeito Macri com sua gala no teatro Colón; o cardeal Bergoglio com um Te Deum na catedral portenha, e até o governador de San Luis, Alberto Rodríguez Saá, que construiu uma réplica do Cabildo de Buenos Aires (edifício que foi o foco da Revolução de Maio) para fazer seus próprios festejos.

O Bicentenário argentino, longe de mostrar  unidade política, exibe um país profundamente dividido, sem fatores externos que causem as divergências.

O colunista político Adrián Ventura, ironizou com amargura: “talvez no Tricentenário não estaremos pior do que agora…”

Personagens

- Cristina Kirchner, presidente, que chegou à Casa Rosada em 2007 como sucessora do próprio marido. Seus críticos afirmam que comporta-se como fosse uma diva de ópera.

- Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires, opositor dos Kirchners, ex-presidente do Boca Juniors e filho do empresário Franco Macri (o pai de Macri, por seu lado, é enfático simpatizante dos Kirchners desde 2004). 

- Néstor Kirchner, ex-presidente (2003-2007), marido da presidente, secretário-geral da Unasul, presidente do partido Peronista e considerado o verdadeiro poder dentro do governo da esposa.

- Julio Cobos, vice-presidente que rachou com a presidente Cristina em julho de 2008. Considerado “mosquinha morta” quando foi escolhido para o posto de vice (Kirchner o escolheu para ser vice da esposa), agora é “presidenciável” da oposição. Macri não gosta dele, pois o prefeito portenho também ambiciona ser candidato da oposição nas eleições presidenciais de 2011.

Cenários: Teatro Colón, Casa Rosada, residência oficial de Olivos, prefeitura portenha.

Época: Os dias prévios ao 25 de maio de 2010. O 25 de maio é a data nacional, o dia da Revolução de Maio de 1810, quando iniciou o processo de rebeliões e guerras que levaria à independência do país em 1816. Na terça-feira que vem a Argentina celebrará o Bicentenário da Revolução de Maio. A data está gerando uma série de debates na sociedade sobre os acertos e os erros do país ao longo dos últimos 100 anos. O quiproquó político dos últimos dias deu um toque amargo às reflexões sobre o futuro da Argentina.

blog1vinheta51Libreto

Ato 1 – Macri fala demais

Mauricio Macri, na quinta-feira, a poucos dias da reinauguração do Teatro Colón, comenta com a imprensa como será quando a presidente Cristina for à sessão de gala na ópera na segunda-feira à noite: “se ela for com seu consorte (o ex-presidente Kirchner) terei que sentar ao lado dele. Mas isso não me deixa contente…”.

Macri, nos dias prévios, havia criticado o governo Kirchner pela investigação sobre o envolvimento do prefeito em uma serie de grampos telefônicos. Macri está sendo investigado pelo juiz Norberto Oyarbide, que nos últimos meses teria favorecido os Kirchners em diversos casos, segundo acusa a oposição.

Dentro da administração Macri alguns assessores admitem que o uso da palavra “consorte” não foi exatamente “conveniente”.

Ato 2 – Cristina perde a pose e se irrita

Cristina Kirchner coloca tom de drama na trama e afirma que não comparecerá ao Teatro Colón. Irritada – ou simulando estar irritada – a presidente envia uma carta ao prefeito Macri na qual indica que “a incrível catarata de ofensas que proferiu durante a última semana, chegando neste dia a manifestações públicas que desqualificam de forma pessoal, marcam um limite que não estou disposta a atravessar”.

No final, com ironia, disparou: “desfrute o senhor tranquilo e sem as presenças incômodas na noite do 24 de maio”.

Analistas políticos afirmam que, se bem a presidente Cristina costuma ter ataques de raiva pelos motivos da mais variada magnitude, neste caso a observação de Macri (sobre sentar ao lado de Kirchner) teria sido útil como argumento para não ir ao Colón.

Motivo: a festa do Colón é organizada por Macri, integrante da oposição. E, comparecer ao Teatro, onde Macri é o anfitrião, seria conceder-lhe alguns dividendos políticos que Cristina não pretendia dar.

Ato 3 – Imbroglio cresce e Cristina não atende o telefone

Macri tenta impedir a ausência da presidente do principal evento das celebrações do Bicentenário argentino para evitar um fiasco da imagem do país e afirma a Cristina Kirchner que lamenta sua decisão. Macri pede a Cristina Kirchner que “deixe de lado das diferenças e esteja à altura da História, que nos transcende”.

O chefe do gabinete de ministros da presidente Cristina, Aníbal Fernández, que nas últimas duas semanas manteve discussões ‘políticas’ em público com uma vedette do teatro de revista, uma modelo de passarelas – entre outras – afirma que a presidente não irá de forma alguma ao Colón. Nem ela nem outros integrantes do governo. Desta forma, ao redor de 200 entradas ficam sem dono para a noite de gala.

Na sequência, Macri telefonou à presidente Cristina na Casa Rosada. Mas, os assessores da presidente explicaram que não estava ai.

Depois, telefonou à residência oficial de Olivos. Mas, os assessores que ali estavam sustentaram que a presidente estava em uma “reunião”.

O chefe do gabinete do prefeito Macri, Horacio Rodríguez Larreta, fez um apelo na noite da sexta-feira à presidente: “por favor pense nisso..ainda existe tempo (para mudar de ideia)”. Depois, com ironia Larreta arrematou, afirmando que se Cristina for ao Colón, poderá passar “a imagem de unidade (nacional) pelo menos por um dia”.

blog1vinheta60 Intermezzo com mais imbroglios e peculiaridades blog1vinheta60

No meio deste imbróglio operístico, o vice-presidente da República, Julio Cobos, recorda que não foi convidado para o banquete de gala da terça-feira na Casa Rosada o palácio presidencial, onde a presidente Cristina receberá 200 convidados especiais, entres eles o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Cobos, como vice-presidente, deveria ser convidado (independente do conflito entre ele e o casal Kirchner). Mas, os Kirchners não querem o detestado vice-presidente por perto.

Cobos irá ao Colón, onde não irá Cristina por vontade própria.

Macri disse que embora Cristina não compareça ao Colón, ele irá ao banquete da Casa Rosada apesar da indisposição da presidente de tê-lo por perto.

Mas, além de Cobos, a presidente Cristina Kirchner .- embora seja uma festa nacional que possui maior relevância pelos 200 anos celebrados – não convidou nenhum dos ex-presidentes civis argentinos ainda vivos (Carlos Menem, Fernando De la Rúa, Adolfo Rodríguez Saá, Eduardo Duhalde), com os quais não possui boas relações. A única exceção é o próprio marido, o ex-presidente Kirchner.

E, no meio de todo este quiproquó e comédia de enredos, o presidente do Uruguai, José Mujica, ex-guerrilheiro tupamaro, confirmou que estará presente na noite de gala do Colón, sem se importar com o conflito entre a presidente Cristina e o prefeito Macri.

Mujica, amante do teatro e da música clássica (além do tango), estará no Colón, e concidentemente, sentará ao lado do vice-presidente argentino, Julio Cobos.

No dia seguinte, no 25, Mujica sentará à mesa de Cristina Kirchner, na Casa Rosada, no banquete do bicentenário. 

Ato 4 – Deus seria peronista

Na sexta-feira à noite, a presidente Cristina foi à avenida 9 de Julio inaugurar a exposição sobre o bicentenário organizada pelo governo federal. Ali, sem vacilar, afirmou de forma mística: “Deus quis que eu fosse presidente neste bicentenário!”

Ato 5 – Grand Finale, Todos contra todos

Ainda está para acontecer. Na segunda-feira à noite o prefeito Macri receberá 2.400 convidados para a gala do Colón.

No dia seguinte, a presidente Cristina celebra o 25 de maio em si.

Ela irá a um Te Deum, na catedral de Luján, na província de Buenos Aires, onde o bispo local é um dos integrantes do clero com os quais ainda não brigou.

Cristina descartou a cerimônia religiosa na catedral de Buenos Aires (que albergou a maior parte dos Te Deums dos últimos dois séculos), pois mantém uma relação tensa com o cardeal e primaz da Argentina, Jorge Bergoglio. Este, por seu lado, irritado com o descaso da presidente Cristina Kirchner, fará seu próprio Te Deum. 

blog1vinheta50ANÁLISE DA OPERETA: Os analistas políticos criticam a decisão da presidente Cristina. E tampouco poupam Macri de críticas. A socióloga Beatriz Sarlo, no artigo “Brigas que carecem de grandeza” publicado neste sábado no jornal “La Nación”, indica que “não era previsível que ao chegar ao balanço do bicentenário estivéssemos ocupados com brigas cujos motivos carecem de qualquer exemplo”.

Segundo Sarlo, a frase de Macri sobre Kirchner (sobre sentar ao lado dele) é uma demonstração de que o prefeito portenho “acredita que pode comportar-se como se fosse o pai de uma namorada cujos sogros não lhe agradam”.

Sarlo sustenta que ele, falando como chefe de governo de Buenos Aires, não deve declarar que não está contente em receber o marido da presidente no dia 25 de maio no Colón. “Ninguém lhe pede que diga que sentar ao lado de Néstor Kirchner seja seu sonho. Ninguém lhe pede que exagere um tom amistoso que não sente..simplesmente, um político em funções de governo cala a boca”.

Sarlo também critica a presidente Cristina e diz que ela só não vai ao Te Deum na catedral para não encontrar o cardeal Bergoglio ali.

Segundo Sarlo, os motivos destas atitudes “que seriam caricaturescos se não afetassem a vida pública, tem a ver com o pior lado do estilo político nacional”.

blog1vinheta57 O link para a coluna de Beatriz Sarlo, aqui. 

blog1dedo2bLUNFARDO sobre os imbróglios

Ao longo do último século – entre o centenário e o bicentenário – o lunfardo (gíria) portenha acumulou uma longa lista de palavras para designar conflitos, abacaxis e imbroglios da vida cotidiana. Muitas destas palavras podem ser usadas para referir-se aos pepinos políticos que embalam as celebrações do bicentenário.

Aqui segue uma pequena lista usada intensamente pelos portenhos nos últimos dias: 

Balurdo: Problema, confusão. Balurdo é uma palavra antiga do lunfardo, que originalmente referia-se a um amontoado de trapos ou papéis. Seu sentido original era o de “mentira”, de alguém que tenta vender gato por lebre. A palavra, como muitas do lunfardo, origina-se do italiano ‘balordo’ (tonto), que com o touch genovês muito presente em Buenos Aires, transformou a letra ‘o’ em ‘u’.

Despelote: Confusão, bagunça. Para indicar um despelote de intensidade existe a expressão “flor de despelote”. Exemplo: “Cristina y Macri armaron flor de despelote”. 

Quilombo: Em seu uso no século XIX referia-se aos quilombos rebeldes surgidos no Brasil. Mas, com o passar do tempo o significado original foi perdido e transformou-se em sinônimo de ‘bordel’. Nos últimos 50 anos mutou novamente e passou a equivaler a ‘bagunça’ ou ‘imbróglio’ de considerável magnitude.

A palavra “bolonqui” é uma adaptação do lunfardo ‘quilombo’, já que a gíria local também coloca várias palavras “al revés” (ao contrário). No denominado ‘vesre’ (a palavra espanhola “revés” ao contrário), “bolonqui” é uma forma de dizer “quilombo”.

De cuarta, De quinta: Usado para referir-se que algo é “de quarta categoria” ou “de quinta categoria”. Exemplo: “La actitud de Cristina y Macri es de cuarta…”

A coisa está russa, dizem no Brasil para explicar que certa situação exibe certo grau de dificuldade para os protagonistas e pessoas envolvidas.

Essa expressão surgiu no Brasil nos anos 20 como uma referência à situação da Rússia na crise de 1917 e na guerra civil que ocorreu na sequência (e também refere-se à desastrosa campanha militar russa na Primeira Guerra Mundial, quando os generais russos cometeram uma infinidade de mancadas)

Em resumo, a coisa está russa na política argentina.

 blog1vinheta56RUSSO E RUSSA: E, já que falamos em russos, a palavra ‘russo’ foi (e ainda é) usada na Argentina para designar os integrantes da comunidade judaica, que no início do século XX, quando milhares de imigrantes judeus fugiam dos pogroms na Rússia.

Assim foi chamado na infância o pianista e maestro Daniel Baremboim, nascido em Buenos Aires em 1942, filho de uma família judaica de origem russo.

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Daniel Barenboim, que além da música erudita, divulgou também Piazzolla e Zequinha de Abreu na Europa. Um link do Youtube com este argentino regendo Tico-Tico no Fubá, de José ‘Zequinha’ Gomes de Abreu (1880-1935).  Aqui.

Quando tinha 10 anos, seus pais mudaram-se para Israel. Posteriormente estudou na Áustria e, com o passar das décadas, transformou-se em um dos principais maestros do mundo. Entre as orquestras que costuma dirigir está a Filarmônica de Berlim e a orquestra do Alla Scala de Milão.

Barenboim criou uma orquestra de judeus israelenses, palestinos e árabes. Em 2008 tornou-se a primeira pessoa no mundo a contar com a cidadania israelense e palestina (honorária) ao mesmo tempo.

Bom, Barenboim, que era chamado de “rusito” (russinho) quando era criança em Buenos Aires, lançou um CD supimpa com uma russa (russa de verdade, da Rússia, mais especificamente, de Krasnodar), a cantora lírica Anna Netrebko (Анна Юрьевна Нетребко). Netrebko está atraindo o público jovem para a ópera com seu carisma e espontaneidade.

O CD é “In the still of the night”, pela Deutsche Grammophon, onde ‘la’ Netrebko e Barenboim (aqui, como pianista), revelam a beleza e a melancolia das canções russas de Nicolai Rimsky-Korsakov e de Pyotr Ilyich Tchaikovsky, além de uma de Antonín Dvořák e de outra de Richard Strauss.

E, driblando a opereta da política argentina, voltamos ao Colón.

Nesse teatro, uma fantástica sala de ópera, Barenboim (mas sem Anna Netrebko, infelizmente) se apresentará no dia 25 de agosto com a orquestra do Divã Ocidental-Oriental (formada pelos jovens israelenses, palestinos e árabes). E, no dia 30 de agosto, com o coro e orquestra do Scala.

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Anna Netrebko, parceira do último CD do argentino-israelense Daniel Barenboim. A bela russa em um trecho de Rusalka, de Dvorak, “A canção da lua”. Aqui.

blog1vinhetas5

Sobre os próximos dias:

Domingo - Neste domingo, caso demore em responder os comentários, desculpem vosso blogueiro, mas é meu aniversário número 44 (falta muito para meu próprio centenário…) e estarei em celebração.

Segunda-feira: Nesta 2af teremos uma ampla postagem sobre o Bicentenário.

blog1vinheta55 E mais um bônus track: Daniel Barenboim, em B.Aires, rege “Libertango”, de Astor Piazzolla. Aqui!

Abraços a todos, bom fim de semana!

PS: Ok, não resisti. Vou colocar outro link do Barenboim, com a Filarmônica de Berlim tocando ”El Firulete”, de Mariano Mores. Supimpa, batuta, tri-legal.

Aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

blog1vinhetalendonewsstand3 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão 

Gustavo Chacra (Nova York): http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/ 
Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/ 
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