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Ariel Palacios

A ’loca’ composição da dupla Astor Piazzolla e Horacio Ferrer

Para encerrar a semana dos 20 anos da morte de Astor Piazzolla, aqui vai esta postagem sobre o ‘backstage’ da criação do ‘Balada para un loco’, uma de suas mais emblemáticas composições.

A longa e frutífera parceria entre o bandonenista argentino Astor Piazzolla e o poeta uruguaio Horacio Ferrer foi uma das mais ‘sinérgicas’ da História do tango do rio da Prata. Um dos mais famosos e saborosos frutos deste trabalho em conjunto foi “Balada para un loco” (Balada para um louco), estreada no dia 15 de novembro de 1969 no Luna Park, em pleno centro portenho, onde transcorria o encerramento do Festival Ibero-americano de Dança e Canção.

Piazzolla havia iniciado a parceria com Ferrer pouco tempo antes deste festival, quando o poeta havia renunciado a um posto que tinha na Universidade da República, em Montevidéu, Uruguai.

Pizzolla, ao ler seus poemas, lhe disse: “isso que você faz na poesia, eu faço com a música. Larga tudo e vem trabalhar comigo”.

A nova dupla começou a preparar a ópera-tango “María de Buenos Aires”. Mas, entre uma pausa e outra, foram assistir no cinema “Rey por inconveniência” (cujo título no original era o Le Roi de Coeur, o Rei de Coração), de 1966, do diretor Phillippe de Broca, que trata de um soldado britânico (interpretado pelo genial Alan Bates) que chega em um vilarejo francês após o final da Primeira Guerra Mundial. Ali só estão os loucos que ficaram soltos do manicômio local.

Ferrer, ao ver o filme, ficou fascinado: “o soldado viu que os loucos tinham um enfoque da vida melhor que aqueles que viviam fora do manicômio”. Isso o inspirou para a figura do louco, protagonista da Balada.

Os dois amigos atarefaram-se na composição da obra, concluída no apartamento que Piazzolla tinha na avenida Libertador 1088, andar 14, apartamento C.

No dia “D” Ferrer levou a letra de Balada para un loco. Piazzolla, fascinado, tocou uma melodia. Parecia que estava em transe.

Mas Ferrer não gostou. “Não tinha o lado romântico e boêmio que a letra requeria”, explicou anos depois.

Piazzolla tentou uma segunda melodia.

Mas, desta vez, foi o próprio Piazzolla que não gostou daquilo que ele próprio havia composto. “Não, não…parece um tango plagiado de Mariano Mores (um tangueiro de fama nos an0os 40 e 50, na ativa até hoje em dia).

Depois, na terceira tentativa, começou colocando alguns acordes de “Adiós Nonino”, e finalmente, com essa base, construiu “Balada para un loco”.

Ferrer começou a recitar seu poema.

Emocionado, quando Ferrer terminou de ler o poema e a melodia foi encerrada, Piazzolla disse com os olhos marejados: “Horácio, temos um míssil em nossas mãos!”

O professor Neurus, o cientista maluco de Trulalá, cidade criada pelo desenhista García Ferré. E ao lado, cantando a canção de Piazzolla-Ferré, Pucho, seu fiel, desastrado cúmplice, amante dos tangos (Pucho sempre canta pelo menos um tango nas tirinhas e especialmente no desenho animado)

Na noite do festival, Amelita Baltar, uma jovem cantora, preparava-se para entoar a canção. Mas, o público estava impaciente. “Vai lavar pratos!”, gritavam alguns espectadores, enquanto Amelita Baltar tremia nervosa, segundo confessou anos depois.

O impaciente público sequer ficou em silêncio quando a jovem cantora – que se tornaria em uma das várias esposas de Piozzolla – começou a pronunciar os primeiros versos do recitativo.

“Las tardecitas de Buenos Aires tienen esse que sé yo, viste? Salgo de casa por Arenales, lo de siempre en la calle y en mí, cuando de repente…”.

Quando terminou, foi ovacionada longamente. Mas, os fãs dos grupos musicais rivais jogaram moedas sobre o palco.

Naquela noite, Amelita estava tão nervosa enquanto cantava, com tal dificuldade para respirar, que, em um momento, respirou fundo (muito fundo)…e o vestido rasgou por trás.

Quando terminou, enquanto era aplaudida, teve que caminhar para trás, até sair do palco.

O festival premiaria naquele dia três categorias; música internacional, música tradicional e tango.

O júri composto por eminências internacionais da música da época. Vinícius de Moraes, a poetisa e cantora peruana Chabuca Granda e o argentino e tangueiro Armando Garrido eram alguns integrantes do tribunal que votou a favor de Piazzolla-Baltar-Ferrer.

Mas, o júri popular convocado pelos organizadores do festival optou pelo tango tradicional “Até o último trem”, de Julio Ahumada e Julio Camillioni.

A obra era interpretada pelo tangueiro com um impressionante registro de barítono, Jorge Sobral.

O “Balada para un loco” não venceu o festival. Mas, na seguinte semana o disco com a canção foi lançado e vendeu 200 mil cópias. Imediatamente o cantor Roberto Goyeneche, encantado com a obra, também a gravou. E a partir dali, ficou famosa em todo o mundo.

Piazzolla morreu há 20 anos, em 1992.

Horacio Ferrer mora no hotel Alvear e é presidente da Academia Nacional do Tango.

A ex-esposa de Piazzolla, Amelita Baltar, apresenta-se com frequência na livraria Clásica y Moderna, na avenida Callao.

Ferrer e Piazzolla em pleno trabalho

TRABALHANDO COM PIAZZOLLA

Há poucos anos me reuni com Horácio Ferrer no café do hotel Alvear para recordar o trabalho de parceria com Piazzolla. “Nós éramos muito parecidos”, me disse o bardo uruguaio. “Ele era de estirpe noturna, boêmia e trabalhadora do tango. E com um sentimento estético que saía por seus poros, pois gostava muito de artes plásticas e arquitetura. Com Piazzolla trabalhávamos direto das 9:00, às 19:00, quando só então tomávamos o primeiro whisky. Minha parceria com ele foi algo preparado pelo destino!”, explicou.

Ferrer considera que o futuro do tango “é sempre imprevisível”. Mas, aberto à todas as possibilidades, Ferrer não descarta que o tango do futuro possa beber na fonte do rock. “É que os rockeiros argentinos estão feitos da mesma substância, da mesma boemia, da mesma linguagem….a longo prazo, o rock deste país irá se tanguificando”.

Horacio Ferrer entoa os versos da balada.

LETRA DE BALADA PARA UN LOCO

(Recitativo)

Las tardecitas de Buenos Aires tienen ese qué sé yo, ¿viste? Salís de tu casa, por Arenales. Lo de siempre: en la calle y en vos. . . Cuando, de repente, de atrás de un árbol, me aparezco yo. Mezcla rara de penúltimo linyera y de primer polizonte en el viaje a Venus: medio melón en la cabeza, las rayas de la camisa pintadas en la piel, dos medias suelas clavadas en los pies, y una banderita de taxi libre levantada en cada mano. ¡Te reís!… Pero sólo vos me ves: porque los maniquíes me guiñan; los semáforos me dan tres luces celestes, y las naranjas del frutero de la esquina me tiran azahares. ¡Vení!, que así, medio bailando y medio volando, me saco el melón para saludarte, te regalo una banderita, y te digo…

(Cantado)

Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao… No ves que va la luna rodando por Callao; que un corso de astronautas y niños, con un vals, me baila alrededor… ¡Bailá! ¡Vení! ¡Volá!

Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao…Yo miro a Buenos Aires del nido de un gorrión; y a vos te vi tan triste… ¡Vení! ¡Volá! ¡Sentí!…el loco berretín que tengo para vos:

¡Loco! ¡Loco! ¡Loco! Cuando anochezca en tu porteña soledad, por la ribera de tu sábana vendré con un poema y un trombón a desvelarte el corazón.

¡Loco! ¡Loco! ¡Loco! Como un acróbata demente saltaré, sobre el abismo de tu escote hasta sentir que enloquecí tu corazón de libertad…

¡Ya vas a ver!

(Recitativo)

Salgamos a volar, querida mía; subite a mi ilusión super-sport, y vamos a correr por las cornisas ¡con una golondrina en el motor!

De Vieytes nos aplauden: “¡Viva! ¡Viva!”, los locos que inventaron el Amor; y un ángel y un soldado y una niña nos dan un valsecito bailador.

Nos sale a saludar la gente linda…

Y loco, pero tuyo, ¡qué sé yo!: provoco campanarios con la risa, y al fin, te miro, y canto a media voz:

(Cantado)

Quereme así, piantao, piantao, piantao…

Trepate a esta ternura de locos que hay en mí, ponete esta peluca de alondras, ¡y volá!

¡Volá conmigo ya! ¡Vení, volá, vení!

Quereme así, piantao, piantao, piantao…

Abrite los amores que vamos a intentar la mágica locura total de revivir…

¡Vení, volá, vení! ¡Trai-lai-la-larará!

(Gritado)

¡Viva! ¡Viva! ¡Viva!

Loca ella y loco yo…

¡Locos! ¡Locos! ¡Locos!

¡Loca ella y loco yo

‘NÃO TEM OS PATINHOS EM FILA”: BREVE GLOSSÁRIO SOBRE OS ‘PIANTAOS’

- Chapita: Pinel. Doidinho. Lelé da cuca. Excêntrico. Usa-se com o verbo “estar”. Alguém “está chapita” Também usa.-se o “re-chapita”. Bem doido.

- Colifato: Louco. Também usa-se a versão abreviada, “colifa”.

- “De la gorra”: Literalmente, “Do boné”. Exemplo, “estás de la gorra si te imaginás que podés usar essa ropa”

- “Del tomate”: Literalmente, “Do tomate”. Exemplo: “vos estás del tomate si crees que el diputado Mutatis de Anchorena va devolver el dinero que robó”

- Fisura, fisurado: Doido. Exemplo: “el fisura de Atilio se fue a Mongolia, a abrir un pet-shop”

- Limado: A palabra provém da prática no automobilismo, de limar a tampa dos cilindros, para propiciar mais potência aos motores. Isto é, o motor fica mais nervoso..mas também mais frágil.

- Pirado: tal como em português.

- Pirucho: variante de pirado.

- Rayado: Literalmente, ‘riscado’, tal como um disco de vinil. “Están rayados???”

- Piantado: louco. “Piantao” é uma forma de falar portenha a mesma gíria portenha de “piantado”. É a palavra usada em um dos mais famosos versos de “Balada para un loco”, música de Astor Piazzolla e letra de Horacio Ferrer (poeta uruguaio que reside há anos em Buenos Aires e é o presidente da Academia Nacional do Tango da Argentina).

EXPRESSÕES SOBRE OS ‘PIANTAOS’

- No tiene los patitos en fila: Não tem os patinhos em fila. Usado para denominar alguém que está pinel. Biruta.

- No tiene todos los caramelos en el frasco: Não tem todos as balas no pote. Também usado para indicar que alguém está um tanto quanto lelé.

- Te faltan un par de jugadores en la cancha? : Faltam em você um par de jogadores no campo? Idem, idem

- Tenés todas las lamparitas encendidas?: Tem todas as lampadinhas acessas? Idem…

- Te llega agua al tanque?: A água chega em teu tanque? Idem, neste caso, em uma pergunta direta à pessoa suspeita de ter alguns parafusos a menos.

Balada para un loco,  com Amelita Baltar, na gravação original de 1969

 Balada para un  loco, con Roberto Goyeneche

 

   

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Em Buenos Aires (Buenos Aires mesmo) Bono degustou fervorosamente a carne bovina local entre um show e outro em La Plata (que ele insistia em chamar “Buenos Aires”). Acima, pacífico boi em ilustração do século XIX.

“Muito feliz de estar em Buenos Aires!”. A frase, exclamada por Bono, líder do grupo U2, foi carinhosamente ignorada pelos fãs, que o ovacionaram apesar da gafe. Bono, na realidade, estava a 57 quilômetros de Buenos Aires, no estádio da pacata cidade de La Plata. Ali, no sábado, onde fez a segunda apresentação em território argentino do tour “360°” o cantor também expressou que não tinha vontade de ir embora do país. Como resposta, os 60 mil fãs que havia aglutinado em La Plata entoaram um longo “Bono no se va…Bono no se va!” (Bono não vai embora, Bono não vai embora!). Na sequência, o irlandês fez uma dissertação apologética sobre as garotas, o tango, a gastronomia argentina e os bairros portenhos de Palermo e San Telmo.

“Son unos bonbones” (“São uns bombons”, expressão argentina usada para exaltar a beleza física das mulheres) proferiu Bono em espanhol – com forte sotaque dublinense – para delírio das fãs e concordância do público masculino.

No entanto, o estádio entrou em frenesi quando Bono convidou uma adolescente da plateia para subir no palco e ajudá-lo a ler em espanhol a letra de “Gracias a la vida”, a canção – segundo o roqueiro irlandês – que é a preferida de todos os integrantes do U2. Junto com a jovem, que coincidentemente sabia a letra de cor e salteado – pronunciou os versos da poetisa e cantora chilena Violeta Parra (1917-1967), que tornaram-se mundialmente famosos na voz da cantora argentina Mercedes Sosa (1935-2009). Apesar dos erros de pronúncia do irlandês – e de algumas falhas na letra – os fãs celebraram a interpretação pitoresca de Bono sobre esta música sul-americana.

Bono, além de paparicar o público nativo, também fez diversas enfáticas defesas dos Direitos Humanos em todo o planeta e realizou uma homenagem à birmanesa Aung San Su Kyi, Prêmio Nobel da Paz de 1991, por sua luta contra a ditadura em seu país. Depois, um grupo de jovens fãs caminharam no palco carregando lanternas com o símbolo da organização Anistia Internacional.

Ontem, domingo, o U2, grupo que em setembro completará 35 anos de existência, fez seu terceiro e derradeiro show na Argentina, antes de partir para o Brasil. 

 

Ludovico teve seu espaço entre Muse e U2. Entre uma banda e outra Bono colocou o primeiro movimento da sexta sinfonia de Ludwig van Beethoven para deleite do blogueiro que vos escreve. Pelo visto, o público também apreciou o inusitado intermezzo musical com esta bicentenária melodia do compositor Made in Bonn. Para ouvir a melodia de LvB, clique aqui.

BEETHOVEN E ROCK - O prelúdio do show foi realizado pela banda inglesa Muse, que – sob o comando de Matthew Bellamy (cuja esposa, a atriz Kate Hudson, esteve em Buenos Aires nos últimos dias para acompanhar o marido) – começou a preparar o clima para o U2.

Após a apresentação da Muse – e antes do início do show do U2 – o público ouviu pelos alto-falantes do estádio a canção “Música ligeira”, do roqueiro argentino Gustavo Cerati, que está em coma por um AVC desde o ano passado. A plateia reagiu com um estrondoso aplauso em agradecimento ao U2 pela homenagem ao músico argentino.

A outra surpresa seguiu na sequência, quando o estádio foi embalado com os acordes do primeiro movimento da sexta sinfonia de Ludwig van Beethoven. Após a bicentenária melodia do compositor alemão houve uma pausa. Na sequência, sob os urros da plateia, entraram no palco Bono, o guitarrista (e também cantor) The Edge, o baixista Adam Clayton e o percussionista Larry Mullen. O pontapé inicial do show do sábado foi a canção “Ever better than the real thing”, marcada pela guitarra de The Edge. Depois, ao longo de duas horas e meia de show, o grupo embalou a noitada com “New Year’s Day”, “Stand by me”, “Bloody Sunday” e “With or without you”, entre outros hits.

Passos de tango. Guia básico para roqueiros irlandeses e resto do planeta.

TANGO, TEQUILA E CRISTINA - Durante sua estadia de uma semana em terras argentinas Bono e seus parceiros do grupo desfrutaram intensamente a noite portenha. O líder do U2 visitou os restaurantes da moda – entre os quais o “Fervor”, no bairro da Recoleta – para degustar quase todas as noites a suculenta carne bovina local. Além disso, foi a refinados shows de tango, entre eles, o “Rojo Tango”, no hotel Faena.

Depois de umas rodadas de tequila Bono e The Edge ensaiaram com as bailarinas do espetáculo alguns passos de tango. As risadas do grupo acordaram o ator americano John Cusack, hospedado no hotel (ele está rodando um filme na cidade), que desceu ao salão de tango e convidou o quarteto irlandês para uns drinques no Library Lounge do estabelecimento.

Durante sua estadia Bono também manteve uma reunião de uma hora com a presidente Cristina Kirchner, sua declarada fã. Bono deu de presente à presidente um reprodutor digital com as canções do grupo. No entanto, saiu da Casa Rosada, o palácio presidencial, sem obséquios da presidente.

PIADINHAS – No sábado, durante o show, Bono também fez piadinhas sobre seus colegas de banda. Segundo ele, Mullen, “quando dança, estamos em problemas”. Sobre Clayton, explicou que “bebeu muito chimarrão em Buenos Aires” e que “teve a companhia de belas argentinas”. Sobre seu guitarrista, fez mistério: “ah, e The Edge… ah…”.

     

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O escritor espanhol Manuel Mayol, quando residia na Argentina nas primeiras décadas do século XX, saía com frequência para noitadas embaladas pelo tango. Para o caso de ser encontrado inconsciente devido à ingestão de significativo volume de etílicos, pedia a quem o visse nesse estado que amarrasse na lapela de seu paletó o cartão acima, que tinha a legenda: “ESTOU DE FARRA – Suplico à pessoa que me encontre ‘en pedo’ (bêbado), amarrar esta etiqueta na casa do botão de meu paletó. ENVIE-ME PARA CASA. Nome: Mayol, Manuel. Endereço: Av. de Mayo 1334 – 3-10. Por favor, não bata na porta, mas sim, toque a campainha e espere que me recebam”. Mayol era o editor da principal revista argentina da época, a “Caras y Caretas”.

blog1dedo2b“Sacar viruta al piso” (tirar lascas do chão) – uma das mais típicas expressões do tango para indicar o frenesi pela dança – marca o espírito que promete tomar conta de Buenos Aires nas próximas duas semanas, já que nesta sexta-feira iniciou o “Tango Buenos Aires, Festival e Campeonato mundial”.

Esta oitava edição do evento contará com shows de dança, apresentações musicais, além de conferencistas que dissertarão sobre as origens, presente e futuro deste ritmo musical que o escritor argentino Jorge Luis Borges costumava definir como “uma forma de caminhar pela vida”.

Mais de 430 casais da Argentina, outros países da América do Sul, Europa e Ásia demonstrarão seus talentos tangueiros neste festival, que concentrará a nata dos dançarinos do tango mundial até o 31 de agosto, dia do encerramento.

As apresentações de dança estarão divididas entre o “tango cenário” (estilo de tango com coreografia elaborada para shows) e o “tango salão” (o tango tradicional, dançado nos salões das tanguerías ou milongas).

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Foto do festival do ano passado. Público ’saca viruta del piso’ durante festival de tango (Crédito: prefeitura da cidade de Buenos Aires)

O Buenos Aires tango contará com 150 shows e atividades gratuitas, entre concertos de tango, shows de dança, conferências, aulas de tango (uma das professoras será uma das estrelas atuais, a dançarina Mora Goodoy) e ciclo de cinema sobre esse ritmo do rio da Prata. Os organizadores afirmam que a ambição é superar a faixa de 300 mil participantes do ano passado.

As finais do campeonato de tango salão e tango cenário serão realizadas nos dias 30 e 31 de agosto no Luna Park, em pleno centro portenho.

O link oficial do Festival de Tango, aqui.

TANGO, DAS ORIGENS AFRICANAS AO TECHNO

Tango platino: O ritmo surgiu às margens do rio da Prata nos bairros dos ex-escravos africanos em Buenos Aires e Montevidéu ao redor de 1850. Na três décadas seguintes foi absorvido pelos argentinos não-africanos, que incorporaram o violão ao ritmo. No final do século dezenove estava totalmente transformado com as influências dos imigrantes italianos, que incluíram o piano, a flauta e o violino. Na mesma época, graças aos imigrantes alemães, entrou em cena o bandoneón. A partir do século vinte tornou-se a música-símbolo da Argentina e do Uruguai. É também um ritmo popular na distante Finlândia, onde o tango chegou com força na década de 20 e desenvolveu-se de forma independente. Para mais detalhes sobre a origem do tango, veja esta postagem, aqui. 

E outra postagem, sobre como continuou o caminho do tango, aqui.

Carlos Gardel: Os argentinos e os franceses afirmam que nasceu em Toulose, França, e migrou com sua mãe para a Argentina aos três anos de idade. Os uruguaios afirmam que Gardel nasceu no interior do Uruguai, na cidade de Tacuarembó. Em seu documento de identidade Gardel se apresenta como nascido no Uruguai. Mas, o próprio Gardel, em seu testamento, afirma que é francês de nascimento. No meio deste imbroglio de informações, a única certeza sobre sua vida pessoal (no que concerne à nacionalidade e preocupações afins sobre passaportes) é que ele passou sua infância, adolescência e parte da vida adulta em Buenos Aires, portanto, “portenho” de criação. E além disso, que morreu em 1935 em um acidente de avião na Colômbia. Seu corpo está enterrado no cemitério portenho de La Chacarita. Para mais detalhes sobre Gardel, esta postagem do ano passado, aqui.

Le Pera, o ítalo-brasileiro-argentino: As letras de maior sucesso de Gardel foram compostas por seu parceiro Alfredo Le Pera, nascido no Brasil, filho de imigrantes italianos (mas, criado desde os três meses de idade na Argentina).

Astor Piazzolla: Este bandoneonista, nascido na cidade de Mar del Plata, que morou parte da infância em Nova York (onde conheceu Carlos Gardel), renovou o tango a partir dos anos 50 (mas com mais ênfase a partir dos 60). Foi a principal corrente de renovação do tango até o surgimento do tango techno. Para mais detalhes de uma das mais famosas melodias de Piazzolla, o “Balada para um loco”, aqui.

Tango techno: Ritmo que renovou o tango. O gênero cresceu em meio à crise social e econômica de 2001-2002. Um dos principais expoentes é o grupo “Bajofondo” e o “Gotán Project”.

Milongas: “Milonga” é um ritmo de tango acelerado, com raízes africanas mais evidentes. No entanto, como estabelecimento, “milonga” significa lugar onde se dança o tango. Exemplo: “ontem à noite fui dançar em uma milonga no centro”.

Consumo: Autoridades portenhas e especialistas afirmam que apesar do tango ser um dos principais símbolos da Argentina no imaginário dos visitantes estrangeiros, ele é consumido por uma faixa que oscila dos 25% aos 30% de habitantes do país. 

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Jorge Luis Borges. Segundo ele, o tango “é uma forma de caminhar pela vida”.

LETRAS DE TANGOS, OS ASSUNTOS TOP FOUR (breve guia):

La Pebeta: La pebeta, a garota. A mulher amada. Ou aquela pela qual estamos inexoravelmente atraídos. Sempre está na nas letras. E em boa parte das canções, ela deixa os protagonistas. O tango “Percanta”, em uma versão techno, aqui.

La vieja, viejita: A velha, a velhinha. Ora, a mãe. Mãe é sempre sagrada. Mas no tango, mais ainda. Sempre trabalha para dar tudo aos filhos. E os filhos, nem sempre percebem isso. Ou percebem quando já são marmanjos. O famoso tango “Silêncio”, aqui.

La barra, los muchachos: A turma, os rapazes. Os amigos de toda a vida. Em “Cafetín de Buenos Aires” os amigos estão muito presentes. Um link do Youtube sobre este tango, aqui.

El barrio: O bairro. O lugar onde os protagonistas nasceram e passaram boa parte de suas vidas. É quase um ‘feudo’ no qual transcorrem as letras. Ou, em vários casos, os tangos transcorrem em outra parte do planeta…mas, sempre chora-se a saudade do bairro. Sobre o amor por um bairro, “Barrio de Tango”, aqui.

Buenos Aires: Buenos Aires é assunto de muitos tangos. É a cidade comme il faut desse ritmo musical. Não é à toa que “Mi Buenos Aires querido” é um dos tangos mais famosos. Mas, o meu preferido, neste caso, é “Anclao en Paris”, no qual o intérprete fala sobre B.Aires, desde a capital francesa. Um link do Youtube com este tango, aqui.

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Rodolfo Mederos, um dos artistas do ano passado, que também estará presente no festival que começou sexta-feira.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Maradona está atrás de qualquer aeronave que leve seus jogadores à África do Sul

Copia de blog1dedo2O técnico argentino Diego Armando Maradona não consegue deter o acúmulo de conflitos, queda de prestígio e problemas de comando a granel a poucas semanas do início da Copa do Mundo na África do Sul. Depois de enfrentar brigas entre seus próprios comandados e críticas de ex-técnicos Maradona admitiu que ainda não sabe como transportará seus jogadores através do Atlântico Sul para que cheguem a tempo de concentrar-se e preparar-se para a Copa. O motivo da angústia de Maradona é que seus assessores – entre eles o manager da seleção, Carlos Bilardo – não compraram as passagens para que o time possa viajar para a África do Sul.

No entanto, conseguir as escassas passagens aéreas que restam para a África do Sul é uma tarefa de Hércules, afirmam os agentes de viagens.

Para evitar a vergonha pública, informações extraoficiais indicam que Maradona deixou claro a Bilardo que não lhe importa viajar em classe turista, onde também colocaria integrantes do corpo técnico, caso fosse necessário. Mas, sustentou que pretende que todos seus “muchachos” (rapazes) façam o trajeto em classe executiva. Para conseguir os lugares, os assessores de Maradona estão até telefonando aos passageiros com passagens compradas, para ver se conseguem convencê-los a trocar a viagem para outro dia.

“Ficou difícil para que Bilardo encontre passagens em cima da hora”, afirmou o técnico sobre o manager, com o qual possui uma relação tensa.

“Acho que viajaremos no dia 26…quero viajar no dia 26”, balbuciou Maradona em declarações à imprensa portenha, ao referir-se a seu desejo de partir na quarta-feira da semana que vem.

Segundo o técnico, não seria adequado viajar nos dias 27 e 28, já que não existem voos com lugares suficientes para a viagem do time em um único bloco, cenário no qual a seleção teria que desembarcar na África do Sul de forma parcelada. No entanto, Maradona prefere evitar esta opção: “não é sério que seis rapazes viagem por um lado, outros seis em um dia diferente e outros dez jogadores em outro dia. Não é sério”.

Maradona também confessou que está “conversando” com “pessoas” com as quais o jogador Carlos Tevez fez uma “aproximação” para ver a possibilidade de que todos os jogadores da  seleção e boa parte da delegação argentina viagem em conjunto em um voo charter.

O presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA), Julio Grondona, enquanto isso, mantém silêncio sobre os imbroglios de “El Diez”.

Na próxima segunda-feira, dia 24, a seleção enfrentará o Canadá para um amistoso no portenho Monumental de River, estádio no qual Maradona já declarou que não gosta de estar.

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PALERMO E A EX – Maradona, além de acumular problemas para transportar a equipe para a África do Sul, as brigas entre seus jogadores, e as recentes acusações de ter “conspirado” contra o ex-técnico Alfio Basile para conseguir o posto de técnico no final de 2008, também enfrenta o risco de ficar sem um de seus jogadores favoritos, Martín Palermo.

O motivo de eventual ausência de Palermo na África do Sul é o processo que a ex-esposa do jogador do Boca Juniors, Lorena Barrichi, abriu contra ele. Os advogados de Lorena, uma ex-modelo que casou-se com Palermo em 2005 iniciaram uma demanda penal por sonegação fiscal contra o jogador, suspeito de não ter declarado a totalidade de seu patrimônio. Desta forma, a Justiça poderia impedir Palermo de sair do país para participar da Copa. 

Copia de blog1dedo2CONFRONTOS E DROGAS - Nas últimas duas semanas Maradona teve uma frenética atividade na mídia. A tensão crescente do técnico com Julio Grondona – presidente da AFA há 31 anos – irritou o filho deste, Humberto Grondona. Em declarações à rádio “La Red”, o filho de Grondona ameaçou, sem sutilezas: “se você ataca meu pai, eu te piso”.

Maradona também participou do programa de auditório da apresentadora Susana Giménez. Ali, jurou que há seis anos não consome drogas, isto é, desde a overdose que em abril de 2004 quase o matou em Buenos Aires, pouco tempo depois de retornar de Cuba.

Na sequência foi o alvo de uma nova polêmica quando o filho do ex-técnico Alfio Basile, Alfio Basile Junior, divulgou pela rede de micro-blogs Twitter que Maradona havia “conspirado” para derrubar seu pai e tomar seu posto de técnico da seleção em 2008.

De quebra, após todos estes quiproquós, Jorge Ribolzi, ex-assessor do ex-técnico Basile, foi categórico ao definir Maradona: “como jogador, foi o melhor que eu vi … como técnico, ele terá que mostrar sua capacidade. Mas, como ser humano, é um lixo de pessoa”.

blog1atençaowydarzenie E ATENÇÃO, FINALMENTE…

Agora há pouco, nesta noite de terça-feira, integrantes do entourage de Maradona anunciaram que os jogadores já possuem uma forma de chegar à África do Sul. Desta forma, a AFA evitou o fiasco sobre as passagens para os jogadores.

Segundo os assessores de Maradona, a seleção partirá no dia 28 de maio, em um voo da South African Airways. O avião partirá do aerporto internacional de Ezeiza nesse dia às 16:45.

Neste avião partirão os 23 jogadores, 10 integrantes do corpo técnico, 16 ajudantes e alguns cartolas.

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BREVE FOFOCAGEM COM BACKGROUND, dos arquivos de ‘Os Hermanos‘:

- Maradona e o fellatio, aqui.

- Maradona sob o olhar de um sociólogo, aqui.

- E um pouco sobre Julio Grondona, o cartola comme il faut, aqui.

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ANÍBAL TROILO, 35 ANOS DE SUA MORTE

E, mudando de assunto radicalmente, hoje completam-se 35 anos da morte de Aníbal “Pichuco” Troilo, considerado um dos maiores compositores do tango.

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Aníbal Troilo, uma espécie de Buda do tango. Ele tocava com a alma.

blog1vinheta50 Um artigo de hoje do jornal “Perfil”, no qual o poeta uruguaio Horacio Ferrer, presidente da Academia Nacional del Tango, relembra o amigo. Aqui.

Uma velha gravação de um programa de TV com Troilo, interpretando “Quejas de bandoneón”. Aqui.

Neste link do Youtube, Troilo com um de seus amigos, Astor Piazzolla, interpretam “Volver”. Aqui.

E neste, para encerrar, um trecho de um documentário sobre Troilo, onde ele, com sua voz áspera, recita “Nocturno a mi barrio”. Para os troilanos xiitas, é o filé-mignon, especialmente na segunda metade do video (onde ele recita) e no último terço, onde está com sua orquestra. Aqui. 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

blog1vinhetalendonewsstand3 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão 

Gustavo Chacra (Nova York): http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/ 
Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/ 
Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trevisan/ 
Adriana Carranca (Pelo Mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carranca/ 

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