Começa a contagem regressiva da campanha eleitoral argentina. Faltam exatamente quatro semanas para que os argentinos compareçam às urnas. Os candidatos presidenciais arrancam as folhinhas do calendário por puro costume, afirmam os analistas, já que o resultado do dia 23 de outubro estaria definido desde as primárias do 14 de agosto. “Calendrier républicain” (Calendário Republicano) de 1794 é a ilustração acima, da autoria de Louis-Philibert Debucourt (1755-1832).
Exatamente daqui a quatro semanas, pela sétima vez desde a volta da democracia em 1983, os argentinos irão às urnas para eleger o presidente da República. As pesquisas indicam de forma unânime que Cristina Kirchner seria reeleita com ampla margem de votos (de 52% a 55%) para outros quatro anos no comando da Casa Rosada, o palácio presidencial. A oposição – marcada por profundos antagonismos – além de fracassar em todas as tentativas de armar uma frente comum contra o kirchnerismo nos últimos dois anos, protagonizaria o pior desempenho eleitoral desde a volta da democracia em 1983.
Os analistas ressaltam que o novo mapa do poder na Argentina ficou praticamente definido desde as eleições primárias dos partidos políticos do dia 14 de agosto, quando Cristina obteve 52% dos votos. O segundo colocado, Ricardo Alfonsín, da União Cívica Radical (UCR), ficou 40 pontos percentuais abaixo, com apenas 12,4% dos votos. Nunca antes na História da tumultuada política argentina houve uma diferença de tal magnitude entre o primeiro e o segundo colocado.
Os analistas também destacam com ironia que as primárias foram “a pesquisa de intenção de voto mais cara do mundo”, já que – por ser obrigatória – levou às urnas mais de 70% dos eleitores argentinos.
“A sensação é que estas eleições de outubro serão um mero trâmite burocrático”, sustenta o cientista político Fabian Bosoer, professor de ciências políticas e relações internacionais da Universidade de Buenos Aires.
“Existem sete chapas que candidatam-se formalmente à presidência. Mas, é um torneio cujo resultado principal todos conhecem de forma antecipada”, explica.
Logo após as primárias Alfonsín ficou de cama vários dias por causa de uma pneumonia que, afirmam seus críticos com ironia, agravou-se com “a frieza do eleitorado” nas urnas. O ex-presidente Eduardo Duhalde (2002-2003) – candidato do peronismo dissidente, que ficou em terceiro lugar, com 12,16% – também deprimiu-se com os resultados e refugiou-se em um centro para tratamento antiestresse durante uma semana.
Elisa Carrió, da Coalizão Cívica, que obteve somente 3,2% dos votos (nas presidenciais de 2007, ficou em segundo lugar, com 25%), admitiu com amargura: “97% da sociedade não gosta de mim”. Depois, partiu para mini-férias no México. Ao voltar, praticamente abandonou a campanha eleitoral, para desespero de seus candidatos a deputado.
“Nunca houve uma oposição tão fraca e tão desarticulada”, afirmou ao Estado o analista de opinião pública Carlos Fara. Ele sustenta que nas eleições do dia 23 de outubro Cristina “manterá seu volume de votos e talvez até aumente um pouco. Mas, dificilmente perderia votos”.
No entanto,segundo ele, “haverá uma queda no volume de votos destinados a Alfonsín e Carrió que seriam redirecionados para o socialista Hermes Binner, que nas últimas pesquisas desponta com 14% das intenções de voto. Enquanto isso, os peronistas dissidentes Eduardo Duhalde e Alberto Rodríguez Saá ficariam com a mesma proporação de votos que tiveram nas primárias.
Oposição poderia protagonizar a pior derrota da História do país no dia 23 de outubro. Acima, ilustração que mostra o mês de Brumário, no calendário da Revolução Francesa. O 23 de outubro coincide com o 2 de Brumário. Como cada dia tinha um nome, os franceses colocaram neste o nome de “céleri”, isto é, o aipo (o vegetal).
MATEMÁTICA - O prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, líder do partido Proposta Republicana, de oposição, avaliou as dificuldades para reverter o cenário das primárias: “a matemática é cruel. A diferença de votos do governo com a oposição e as divisões existentes nesta tornam impossível uma eventual derrota de Cristina. Ela venceu nas primárias por méritos próprios e por erros da oposição”.
SALVE-SE QUEM PUDER - Perante o cenário de uma nova catástrofe nas urnas – e com a perspectiva de mais quatro anos de kirchnerismo – a oposição sofreu ao longo deste mês em suas fileiras um êxodo de parlamentares, prefeitos e governadores que começam a aproximar-se da presidente Cristina para oferecer “colaboração” no novo mandato, que é encarado como inexorável. “É um salve-se quem puder”, admitiu em off ao Estado uma deputada federal do peronismo dissidente que começou sua transição do anti-kirchnerismo para um progressivo “filo-kirchnerismo”.
Esse foi o caso do deputado Felipe Solá, um aliado dos Kirchners que depois passou ao Peronismo dissidente. Ele, até o começo deste ano, era pré-candidato presidencial de um dos vários grupos da oposição. Mas, na semana passada, indicou que deixava a oposição. A declaração foi acompanhada de uma série de elogios à presidente. Assim, Solá foi recebido de novo pelo kirchnerismo com elogios e palavras de boas-vindas.
O mesmo cenário está ocorrendo em Córdoba e Santa Fe, com os respectivos líderes dissidentes José Manuel dela Sota e Carlos Reutemann.
“É um salve-se quem puder”, admitiu em off ao Estado uma deputada federal do peronismo dissidente da província de Buenos Aires que começou sua transição do anti-kirchnerismo para um progressivo “filo-kirchnerismo”.
“Fazer o quê”, ela disse, durante uma visita a eleitores em Ramos Mejía, na Grande Buenos Aires. Depois de aceitar um “tereré” (um chimarrão frio, típico doParaguai e donorte da Argentina) de um simpatizante, virou-se para este blogueiro que vos fala, caminhou uns passos pela rua de terra da periferia e parou ao lado de um esgoto ao ar livre. Ali, arrematou falando baixinho: “a realidade é que não tem outro jeito. E, a verdade é que o kirchnerismo recebe de novo qualquer um, se for para aumentar seu poder. Se até aceitaram o (ex-presidente e atual senador Carlos) Menem. Tudo cabe dentro do governo…”
EMPRESÁRIOS - A aproximação a Cristina também ocorre por parte dos industriais, antes arisco com as políticas intervencionistas do governo na economia. Há duas semanas 1.500 empresários a ovacionaram nas celebrações do dia da indústria. “A oposição não conseguiu apresentar uma proposta econômica melhor, somente algumas ideias para combater a inflação”, ilustrou o presidente da União Industrial Argentina (UIA), José Ignácio De Mendiguren. O setor ruralista, que em 2008 gerou a pior crise política do governo de Cristina agora mantém uma relação pacífica com a presidente.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Mapa da Província de Buenos Aires no distante anno domini de 1833, Desde aquela época a maior parte dos embates polítcos argentinos foram definidos no pedaço.
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reeleição do prefeito portenho Maurício Macri, com 64,25% dos votos, constituiu neste domingo um duro golpe para o governo da presidente Cristina Kirchner, cujo candidato, Daniel Filmus, ficou quase 30 pontos percentuais abaixo, com 35,75%. Nesta segunda-feira o governo tentava recuperar-se do baque e minimizava o eventual impacto nacional que a vitória de Macri, líder do partido Proposta Republicana (PRO), de centro-direita – que não tem candidato presidencial próprio – poderia ter sobre as eleições presidenciais marcadas para o dia 23 de outubro.
“A cidade de Buenos Aires sempre foi um distrito difícil para nós. Os resultados do domingo nos mostram como a primeira força em todo o país, além da primeira força de oposição na capital federal”, argumentou ontem o chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández.
Apesar da derrota portenha, a principal batalha política será “bonaerense”, isto é, a que será deflagrada na província de Buenos Aires, que concentra mais de 37% do total do eleitorado nacional. Nesse distrito, que supera amplamente os outros colégios eleitorais argentinos (o segundo maior distrito é o de Córdoba, com 8,7% do total do eleitorado, enquanto que o terceiro é a cidade de Buenos Aires,com 8,6%), o governo Kirchner está colocando todos seus esforços para obter uma vitória nacional contundente no primeiro turno.
Desta forma, Cristina evitaria o fantasma da segunda fase nas urnas, a primeira que ocorreria desde que a implantação do sistema de dois turnos há 40 anos.
Ontem, menosde 12horas depois da derrota portenha, o governador bonaerense, Daniel Scioli, aliado dapresidente Cristina, deslanchou sua campanha publicitária para a reeleição na província. Mas, apesar da mobilização geral do governo federal para destinar verbas especiais e planos assistencialistas, o território bonaerense é um distrito complicado, onde os prefeitos – considerados os verdadeiros “barões” da província – com frequência mudam suas lealdades.
O cenário bonaerense é mutável. Nas eleições de 2007 Cristina Kirchner conseguiu 45,9% na província de Buenos Aires, proporção que lhe permitiu conseguir uma vitória nacional. Mas, há apenas dois anos, nas eleições parlamentares de 2009, seu marido, o ex-presidente NestorKirchner– junto com os deputados do governo – ficaram em segundo lugar, com 32% dos votos.
Mapa da Argentina com o território “eleitoral” à esquerda… e o território normal, geográficamente convencional, à direita. O mapa mostra o “peso” ou “dimensão” eleitoral de cada província argentina. A província de Buenos Aires aparece como o pedaço mais “suculento” de todo o país.
ONAERENSES - A analista política Mariel Fornoni disse ao Estado que a vitória da oposição em território portenho não se transfere de forma equivalente às eleições presidenciais. “No entanto, a derrota do governo no domingo refuta a ideia que os ministrosde Cristina haviam instalado nos meses prévios sobre uma suposta ‘invencibilidade’ do governo e de que as presidenciais já estavam ganhas. A principal mudança gerada pelas eleições portenhas é a de cortar esse enunciado de que tudo estava resolvido de forma antecipada”.
Segundo Fornoni, o principal campo de batalha será a provínciade Buenos Aires,onde cada cinco pontos percentuais de aumento de votos a favorde Cristina Kirchnerrepresentam 1,5% a mais na votação nacional.
A analistadestaca que o governo está atarefando-se em conquistar o eleitorado bonaerense, que possui um grande número de indecisos. “Mas, ainda é muito cedo para prever como será essa batalha”.
Também com cautela, Luis Majul, colunista político e autor do best-seller “Ele e ela” – sobre as tramas políticas e empresariais do casal Kirchner – afirma que as recentes derrotas eleitorais dos aliadosde Cristina “não servem de prenúncio de uma eventual derrota da presidente”.
Segundo o complexo e sui generis sistema eleitoral argentino, um candidato presidencial, para vencer no primeiro turno de forma automática, precisa ficar na pole position com 45% dos votos. Outra alternativa do sistema argentino é que o candidato consiga 40% com uma margem de dez pontos percentuais sobre o segundo colocado.
Levando em conta que o segundo colocado nas pesquisas, o deputadoRicardo Alfonsín, da União Cívica Radical (UCR), que integra a coalizão União para o Desenvolvimento Social (Udeso), está abaixo dos 30%, Cristina poderia vencer com apenas 40% dos votos.
No entanto, segundo um levantamento realizado pelo jornal portenho “Perfil”, para chegar a essa faixa de eleitores, Cristina teria que conseguir pelo menos 40% dos votos na província de Buenos Aires.
ROVÍNCIAS – Mais da metade das vinte e quatro províncias argentinas já foram às urnas para definir seus novos governadores. Desde março passado a oposição venceu nas províncias de Chubut, Neuquén, Terra do Fogo, Santa Fe e a cidade de Buenos Aires. Mas, o kirchnerismo ganhou nas provínciasde Salta, La Rioja,Misiones e Catamarca. No entanto, na Terra do Fogo, Neuquén e Chubut, apesar da derrota do kirchnerismo, os vencedores, da oposição, declararam sua simpatia pela presidente Cristina.
Fotograma do primeiro spot publicitário oficial de Cristina Kirchner para as convenções partidárias.

RISTINA DEIXA LUTO EM SPOT PUBLICITÁRIO
Apresidente Cristina protagonizadesde este fim de semana o primeiro spot publicitário oficial de sua candidatura à reeleição. No vídeo, de 47 segundos, não há propostas de campanha, nem promessas ou exibição das obras de seu governo. A mensagem está concentrada no apelo emocional aos jovens da Argentina – ao redor de 9 milhões de pessoas entre os 18 e 38 anos – que representam um terço do total do eleitorado.
A sequência de imagens encerra-se com apresidente Cristina,de costas, discursando em tom épico para a multidão que a ovaciona.
No final do spot, Cristina aparecede branco, como se tivesse deixado para trás os momentos de luto e passado a encarar uma nova etapa de sua vida política e pessoal. A presidente ficou viúva no dia 27 de outubro do ano passado, quando seu marido e ex-presidente Nestor Kirchner morreu de um ataque cardíaco fulminante. Desde sua morte, Cristina ostentou vestimentas preta de forma rigorosa, todos os dias.
O spot integra a publicidade que os candidatos estão realizando de olho nas eleições das convenções partidárias que oficializarão os candidatos presidenciais no dia 14 de agosto.
As primárias, cujo motivo original era o de definir o candidato presidencial de cada partido, passaram a ser um mero trâmite burocrático para convalidar os candidatos únicos que cada grupo político possui. No entanto, estas eleições partidárias – voluntárias e abertas a todo o eleitorado – agora estão sendo encaradas como uma “semifinal” das presidenciais de outubro.
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
Presidente Cristina E.Fernández de Kirchner. Ela disputará a reeleição no dia 23 de outubro. No meio do caminho passará por vários testes eleitorais prévios. No domingo da semana passada perdeu as eleições na província de Santa Fe. Ontem, a derrota foi na capital do país, Buenos Aires. No domingo que vem ocorreria uma nova derrota, já que o kirchnerismo não conta com um candidato próprio na segunda maior província do país.
Neste domingo apresidente Cristina Kirchner esteve no meio de três importantes testes nas urnas. Ontem, o candidato do governo Kirchner perdeu no segundo turno das eleições para prefeito na cidade de Buenos Aires. O vitorioso foi o prefeito Maurício Macri, de oposição, que obteve sua reeleição com uma folgada margem, com 64,25% dos votos, enquanto que seu rival, o ex-ministro da Educação e atual senador, Daniel Filmus, conseguiu 35,75%. No domingo passado o candidato kirchnerista ao governo da província de Santa Fe, Agustín Rossi, braço-direito da presidente na Câmara de Deputados, apesar da mobilização do aparato do governo federal, amargou um inesperado terceiro lugar, com apenas 22,4% dos votos.
No domingo que vem será a vez do teste eleitoral em Córdoba, que também elegerá governador onde o kirchnerismo não contava com um candidato próprio, criando um cenário onde o comando do segundo maior distrito eleitoral do país poderia ficar nas mãos dos socialistas, da União Cívica Radical ou do peronismo dissidente.
No entanto, o governo Kirchner tentou reverter o cenário, já que repentinamente, na quarta-feira, a Casa Rosada ordenou que o kirchnerismo respalde o ex-governador José Manuel dela Sota, representante do peronismo dissidente, que havia rachado com a peronista presidente Cristina há meses. No entanto, o próprio De la Sota e seus aliados fizeram questão de manter distância do “abraço de urso” conjuntural. Mas, como “nunca se sabe o que o futuro depara”, tampouco partiu para o confronto. De la Sota dispara críticas específicas contra Cristina Kirchner. Mas, não leva as coisas a um ponto de “no return”.
PESOS - A província de Santa Fe representa 8,55% dos votos nacionais, enquanto que a cidade de Buenos Aires possui 8,6% e a província de Córdoba equivale a 8,71%. Juntos, estes três distritos equivalem a 25,86% do total do eleitorado argentino, além de aglutinar 41% do PIB nacional.
Mas, na prática, o principal campo de batalha será a província de Buenos Aires, governada por Daniel Scioli, um aliado que não inspira muita confiança à presidente Cristina. No entanto, na falta de outros nomes, o governo está apostando suas principais cartas na reeleição do governador bonaerense, já que sua província, que concentra 37% do eleitorado nacional, costuma definir o vitorioso nas eleições presidenciais. Ali, a eleição será no mesmo dia da presidencial.
Batalhas eleitorais argentinos estão ficando cada vez mais “quentes”. No quadro acima, outra sessão de sopapos bélicos históricos: o “Epísódio do cerco de Zaragoza. Assalto do mosteiro de Santa Engracia”. O autor, o barão Louis-François Lejeune. 1827.
PRIMEIRO TURNO PRESIDENCIAL - Até o mês passado grande parte dos analistas políticos e pesquisas de opinião pública indicavam que a presidente Cristina teria chances de vencer no primeiro turno das eleições presidenciais. Segundo o sui generis sistema argentino, criado em 1994 pelo então presidente Carlos Menem, caso o primeiro colocado consiga 40% dos votos com uma diferença de 10 pontos percentuais sobre o segundo colocado, pode ser entronizado como vitorioso. Esta possibilidade era considerada seriamente, já que o segundo colocado nas pesquisas, Ricardo Alfonsín, da União Cívica Radical (UCR), não passa de 25% dos votos nas pesquisas mais favoráveis.
Além disso, o sistema eleitoral também determina que a vitória está garantida para o candidato que consiga pelo menos 45% dos votos.
Mas, nos últimos dias começaram a pairar dúvidas na própria Casa Rosada sobre as chancesde Cristina alcançar a faixa de 40% no primeiro turno. Informações extra-oficiais sustentam que o governo teme um grande volume de votos em branco, o recuo estratégico de aliados outrora confiáveis e o ressurgimento dos protestos ruralistas nas semanas prévias às eleições.
Entre os fatores que azedaram o otimismo do governo estiveram a derrota no primeiro turno portenho, o terceiro lugar em Santa Fe, as perspectivas de dificuldades em Córdoba e osconflitos sociais na província de Jujuy, governada pelo kirchnerista Walter Barrionuevo, nos quais morreram quatro pessoas.
CÔMICO - Em Santa Fe, domingo passado, o vencedor nas eleições provinciais foi o socialista Antonio Bonfatti, do Partido Socialista, que teve 38,7%. O segundo lugar, para surpresa do governo Kirchner, ficou nas mãos do cômico e imitador Miguel Del Sel, um novato na política, candidato do Proposta Republicana (o partido do prefeito portenho Maurício Macri). O humorista, crítico da presidente Cristina, ficou nos calcanhares de Bonfatti, arrebatando 35,17%.
Para começar a semana, o argentino Eduardo Falú, “Memorias de um tiempo vivo”. Aqui.
…E a Sicilienne, para cello e piano, op. 78, do francês Gabriel Fauré. Aqui.
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Nestor Kirchner foi eleito em 2003 com 22% dos votos. Em 2007 colocou a máquina do Estado argentino para eleger sua própria esposa, a então senadora Cristina Kirchner, como sua sucessora presidencial. Até outubro do ano passado Nestor – considerado o verdadeiro poder no governo da mulher – era o candidato do casal presidencial para as eleições de 2011.
Desta forma, implementava-se o comentado plano “4+4+4+4”. Isto é, Néstor seguido de Cristina, seguido de Néstor novamente, seguido de Cristina mais uma vez, para completar um período de 16 anos. Mas, Kirchner morreu no dia 27 de outubro de 2010. Viúva, a saída para o governo foi a de uma reeleição presidencial de Cristina. O chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, disse há duas semanas que o kirchnerismo prepara-se para governar a Argentina durante os próximos “60 anos”.
A presidente Cristina Kirchner deu a largada à corrida eleitoral com objetivo de conseguir o terceiro mandato presidencial do kirchnerismo. Na noite da terça-feira ela acabou com o suspense que havia feito nos últimos meses e oficializou sua candidatura à reeleição em outubro. Nesta quarta-feira o cenário político argentino estava em polvorosa na expectativa da definição do candidato a vice-presidente, já que este despontaria como seu virtual sucessor, na ausência da possibilidade constitucional de disputar uma segunda reeleição em 2015. Os analistas políticos destacavam que a presidente, além de estar blindada contra os diversos escândalos de corrupção que assolam seu governo, está sendo favorecida pela recuperação econômica, além de uma fragmentação sem precedentes dos partidos de oposição.
Os analistas também ressaltam que Cristina é a favorita nas pesquisas de opinião pública, com uma ampla vantagem sobre os candidatos da oposição.
Caso vença nas urnas, Cristina emplacará o terceiro mandato do kirchnerismo, inciado em 2003 com seu marido, o presidente Nestor Kirchner (2003-2007). O segundo mandato do kirchnerismo foi protagonizado por Cristina, que sucedeu a seu próprio cônjuge, algo inédito na História mundial da democracia. O plano inicial do casal presidencial, até outubro do ano passado, era de uma candidatura de Kirchner para as eleições de 2011. No entanto, sua inesperada morte por um fulminante ataque cardíaco há oito meses, levou Cristina a tentar a sucessão de si própria.
O analista político e sociólogo Carlos Fara, da consultoria Fara e Associados, disse ontem ao Estado que suas pesquisas indicam que Cristina teria 47% das intenções de voto. Outros 18% estariam destinados a Ricardo Alfonsín, filho do ex-presidente Raúl Alfonsín (1983-89) e candidato da União Cívica Radical (UCR), de centro. Outros 14% dos votos seriam absorvidos pelo ex-presidente Eduardo Duhalde, que lidera uma das facções do peronismo dissidente. A deputada Elisa Carrió, candidata da Coalizão Cívica, de centro-esquerda, obteria 9% dos votos, proporção significativamente inferior aos 25% que conseguiu nas eleições de 2007, quando ficou em segundo lugar. Outros 7% dos votos ficariam nas mãos de Hermes Binner, governador da província de Santa Fe.
Com estes resultados, Cristina venceria no primeiro turno, já que no sui generis sistema eleitoral argentino, um candidato vence se conseguir mais de 45% dos votos. Outra alternativa é que obtenha pelo menos 40% dos votos, sempre que o segundo colocado esteja dez pontos percentuais atrás.
Com valores similares à pesquisa de Fara, a consultoria Ceop indica que Cristina contaria com 48,2% das intenções de voto, enquanto Alfonsín possui 12,8%. O ex-presidente Duhalde teria 7,5%, enquanto que o governador de San Luis, Alberto Rodríguez Saá teria 5,5%. Carrió obteria 5,9%.
No en tanto, uma pesquisa da consultoria Management & Fit indicou que Cristina conta com 33,4%. Mas, Alfonsín teria menos da metade de sua intenção de voto, já que teria 15,3%. Duhalde obteria 5,8%, enquanto que Rodríguez Saá conseguiria 7%. Elisa Carrió ficaria com 4%.
Segundo Fara, “independentemente das variações que os números possam ter nos próximos meses, é praticamente uma certeza de que Cristina Kirchner ganhará na primeiro turno em outubro”. O analista destacou que as eventuais variações que podem ocorrer “é a somatória de dois ou três assuntos que possam remover alguns pontos da presidnete. Mas, aí a discussão é sobre qual a amplitude desses votos que poderia perder”.
Fara considera que entre os fatores que provocariam perda de votos está “a crescente inflação, uma atitude soberba do governo – tal como ocorreu em outras ocasiões – além dos escândalos de corrupção. Mas, embora acumulados, esses fatores não provocariam uma derrota do governo”.
“O fato é que estamos registrando os níveis mais altos de otimismo sobre o futuro econômico nos últimos oito anos, graças à obras públicas, entre outros. Matematicamente Cristina Kirchner poderia até obter alguns votos a mais dos 45% conseguidos em 2007”.
O vice-presidente argentino, Julio Cleto Cobos, que rachou com o governo Kirchner em 2008. Cristina agora busca um vice de total fidelidade e alinhamento automático, já que este poderia tornar-se seu sucessor. Charge de El Niño Rodríguez. Site do artista:http://www.elninorodriguez.com/
A SÍNDROME DE COBOS - As especulações no âmbito político indicam que uma potencial vice de Cristina seria sua cunhada, a ministra da Ação Social, Alicia Kirchner, irmã do ex-presidente Néstor Kirchner, que morreu em outubro passado de um ataque cardíaco fulminante. Os rumores também indicam que o vice poderia ser um governador do norte da Argentina, onde o kirchnerismo possui um reduto eleitoral. Entre os nomes mais citados estão o governador do Chaco, Jorge Capitanich, considerado um “ultra-kirchnerista”; Sergio Urribarri, de Entre Rios; e José Alperovich, de Tucumán.
Outras especulações – baseadas nas declarações realizadas durante seu discurso de lançamento, quando ressaltou que pretendia ser “uma ponte e as novas gerações” – reforçaram os boatos de que o futuro candidato a vice poderia ser um dos integrantes da jovem geração de seu gabinete, entre eles o ministro da Economia, Amado Boudou, e o secretário de Comunicação, Juan Abal Medina.
Além disso, na lista dos “vice-presidenciáveis” também desponta o nome de Carlos Zanini, o secretário jurídico do governo, um kirchnerista histórico, já que assessora os Kirchners desde os anos 80. Outro histórico é o deputado Nicolas Fernández, da província de Santa Cruz, aliado há um quarto de século.
Os analistas destacam que este vice será crucial, já que ao contrário dos tempos em que Nestor Kirchner estava vivo, Cristina não contará com seu marido para uma eventual alternância no poder. Desta forma, os analistas sustentam que o vice terá status de “sucessor” de Cristina.
A presidente também quer evitar a “síndrome de Cobos”, em alusão a seu atual vice-presidente, Julio Cobos, da UCR, que rachou com o governo Kirchner em 2008 quando, na categoria de presidente do Senado, com seu voto de Minerva provocou a derrota do governo na votação do “impostaço agrário”. Embora pressionado pela presidente, Cobos recusou-se a renunciar, fato que lhe valeu a denominação de “traidor”. Segundo os analistas, desta vez Cristina buscará um vice de alinhamento automático e que exiba uma “blindagem de fidelidade” à presidente.
A intriga sobre o vice terminará neste sábado, quando vence o prazo para o registro do nome que acompanhará Cristina na chapa presidencial.
Cristina Kirchner, do partido Justicialista, sublegenda Frente pela Vitória
Ricardo Alfonsín, União Cívica Radical (UCR)
Elisa Carrió, Coalizão Cívica
Hermes Binner, Partido Socialista
Eduardo Duhalde, Partido Justicialista, sublegenda União Popular
Alberto Rodríguez Saá, Partido Justicialista, sublegenda Peronismo Federal
Jorge Altamira, Partido Operário
Desistiram da corrida presidencial
O vice-presidente Juio Cobos, da UCR
O prefeito Maurício Macri, do Proposta Republicana
O deputado e cineasta Fernando Solanas, do Projeto Sul
SISTEMA ELEITORAL ARGENTINO E SEU SUI GENERIS SEGUNDO TURNO
Ao contrário de outros países, nos quais para vencer no primeiro turno é preciso 50% mais um dos votos, no sui generis sistema eleitoral argentino, para vencer na etapa inicial das eleições presidenciais basta obter 40% dos votos com uma vantagem de 10% sobre o segundo colocado. A outra opção é a de obter 45% dos votos, proporção suficiente para conseguir a vitória de forma automática.
O primeiro turno está marcado para o dia 23 de outubro. O segundo turno tem data para o 20 de novembro.
A posse do novo presidente será no dia 10 de dezembro.
Charge de jornal da Catalunha mostra o casal com uma única faixa presidencial.
PERANTE “EFEITO VIÚVA”, OPOSIÇÃO APRESENTA-SE FRAGMENTADA E IRRECONCILIÁVEL
“Efeito viúva” é a denominação do clima de compaixão que grandes setores da população argentina sentem pela presidente Cristina Kirchner, cujo marido, o ex-presidente Nestor Kirchner, morreu de um ataque cardíaco fulminante em outubro do ano passado. Em quase todos os discursos públicos que proferiu desde a morte de seu marido a presidente Cristina faz constantes alusões a Kirchner. Ostentando rigorosa vestimenta escura em sinal de luto, ela sustenta que seu marido, desde o além, marca seu caminho político.
Coincidentemente, desde a morte de Kirchner, Cristina disparou nas pesquisas de opinião pública.
“Estamos vendo um espetáculo de circo, um relato de um ato fictício. É óbvio que Cristina Kirchner está mentindo quando chora na frente dos pobres. O vestido preto forma parte de uma cena semiótica. O luto forma parte desse disfarce”, dispara Elisa Carrió, uma das candidatas presidenciais da oposição.
Mariel Fornoni, da consultoria de opinião pública Management & Fit, afirmou ao Estado que “o efeito viúva deveria começar a diluir-se por causa de todos os escândalos de corrupção que apareceram e continuam aparecendo”. Segundo Fornoni, “a presidente continua utilizando o nome do ex-presidente Kirchner em seus discursos. E com certeza continuará fazendo isso”. A analista sustenta que os casos de corrupção estão afetando a imagem da presidente Cristina.
No entanto, o analista político Carlos Fara afirmou ao Estado que “o efeito viúva já passou. As pessoas não votam mais por condolências”.
Quatro pinguins: Plano original dos Kirchners era um mandato de Néstor, um segundo de Cristina, um terceiro de Néstor e um quarto de Cristina. Mas, a morte de Néstor alterou os planos. Cristina só poderá disputar uma reeleição. Se quiser uma segunda reeleição, terá que mudar a Constituição. Em 1999 o então presidente Carlos Menem tentou arrancar da Corte Suprema um parecer favorável a seus planos de segunda reeleição, denominada ironicamente de “la re-reelección” ou simplesmente, “la re-re”.
FRAGMENTADA – Os diversos escândalos de corrupção que envolvem integrantes e ex-integrantes do governo Kirchner não teriam suficiente impacto para levar a presidente Cristina à uma derrota nas urnas em outubro. Segundo os analistas, a recuperação econômica – subsidiada amplamente pelo Estado argentino – seria o fator crucial para que os escândalos tenham pouco peso político atualmente.
Os candidatos da oposição são Ricardo Alfonsín, da UCR; Elisa Carrió, da Coalizão Cívica; o socialista Hermes Binner, os peronistas dissidentes Eduardo Duhalde e Alberto Rodríguez Saá, além do trotskista Jorge Altamira, irmão de Luis Favre, ex-marido da ex-prefeita Marta Suplicy. Mas, apesar de algumas negociações, os diversos candidatos não conseguiram formar alianças para enfrentar o governo.
Segundo Fornoni, a oposição continuará fragmentada: “a realidade é que ainda não deram mostras de poder articular-se”.
“Não acho que a oposição se unirá. Houve várias tentativas de coalizões, todas fracassadas. Não imagino nem Binner e Carrió fazendo uma aliança com a UCR”, sustentou Fara.
Cristina e Néstor na charge do cartunista argentino El Niño Rodríguez. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/
A TEMPO DA COPA AMÉRICA E DAS ELEIÇÕES, CRISTINA LANÇA O “TV PARA TODOS”
Televisores baratos nas vitrines das lojas argentinas a tempo da Copa América, que começa no dia 3 de julho na cidade de La Plata, um dos principais redutos eleitorais do governo. Este foi o pontapé inicial da presidente Cristina Kirchner para começar sua campanha eleitoral. No anúncio feito em rede nacional de TV – junto com seu lançamento à reeleição – a presidente Cristina ressaltou que o programa governamental “TV para todos” (também chamado de “LCD para todos”) implicará na venda, a partir da sexta-feira da semana que vem, de 200 mil televisores de alta definição LCD de 32 polegadas com um aparelho acoplado que permitirá captar os sinais de TV digital.
“Sou uma presidente que não gosta de uma Argentina para poucos, mas sim, para muitos”, argumentou em defesa da distribuição de créditos do estatal Banco de la Nación para a compra dos televisores, que serão vendidos por US$ 675. A compra pode ser feita em até 60 vezes, isto é, cinco anos, coincidindo com as eleições presidenciais de 2015. “É pão e circo com molho eleitoral, vinculado à Copa América”, criticou o economista Gabriel Rubinztein.
Cristina também anunciou a licitação de 110 sinais de TV em todo o país para empresas privadas. Outros 110 sinais serão distribuídos de forma direta aos governos das províncias, universidades públicas, além de ONGs, setor onde o governo possui grande influência.
O quarteto de Pinguins da série televisiva originada no filme “Madagascar” assistem TV.
“PARA TODOS” - No último ano e meio o governo Kirchner lançou diversos programas sob a égide do “para todos”, que implica em produtos a preços mais acessíveis para a maioria da população. Desta forma, já anunciou o “carne para todos” (cortes de carne bovina a valores mais baixos do que a média do mercado); “milanesas para todos” (programa de distribuição com preços baixos do corte de bife à milanesa, um dos pratos mais populares do país).
Além disso, lançou o “futebol para todos” (estatização das transmissões dos jogos de futebol, que passaram dos canais de TV a cabo a serem veiculados no canal estatal 7, uma TV aberta). Até 2019 o governo desembolsará US$ 150 milhões por ano para a Associação de Futebol da Argentina (AFA) e os clubes em troca dos direitos de transmissão.
Há poucos meses a presidente anunciou o “botijões para todos” (gás em botijão mais barato para os setores da população que não possuem gás encanado); e merluza para todos (o peixe marítimo mais popular na gastronomia argentina), entre outros programas de subsídios.
A oposição acusa o governo de fazer “populismo” com estes programas e ressaltam que, na prática, não passam de subsídios para obter dividendos políticos para as eleições presidenciais de outubro.

Oposição afirma que programa de LDC para todos trata-se de espetáculo para distrair população dos problemas do país, além de servir para publicidade para o governo. “É pão e circo com molho eleitoral, vinculado à Copa América”, criticou o economista Gabriel Rubinztein. Charge de El Niño Rodríguez – “Kirchner crooner”. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/
Nossa semana borgiana foi brevemente interrompida para colocar a postagem acima sobre o lançamento de Cristina Kirchner. Na próxima postagem voltaremos à programação original e encerraremos a semana sobre JL Borges com uma postagem sobre os “Mitos borgianos: Georgie e Mick Jagger”.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Alfonsín (filho), em uma rara foto na qual imita o gesto de vitória de Alfonsín (pai).
Ricardo Luis Alfonsín é definido com frequência como um semi-clone de seu pais, Raúl Ricardo Alfonsín, presidente da Argentina entre 1983 e 1989. Sua voz e o cabelo (embora com entradas significativamente maiores), além do bigode que ostenta lembram o falecido pai, primeiro presidente civil com a volta da democracia. Ser “filho de” teve seus prós e seus contras, sendo usado tanto para elogiá-lo como para condicioná-lo.
Com certa frequência os fotógrafos pedem que ele faça o gesto clássico de seu pai com os braços semi-esticados e as mãos entrelaçadas em sinal de vitória. Mas, quase sempre, Alfonsín nega-se a fazer o gesto que caracterizou o pai.
Alfonsín filho formou-se como professor na escola normalista de Chascomús, no interior da província de Buenos Aires. Na sequência estudou Direito na Universidade de La Plata e na Universidade de Buenos Aires. Antes de formar-se como advogado sustentava-se economicamente vendendo em fábricas brocas para tornos mecânicos. Na sequência casou com Cecilia Plorutti e teve quatro filhos.
Era o filho de um político de peso na UCR mas não se interessava por política. Até os 32 anos somente lia filosofia (Miguel de Unamuno, José Ortega y Gasset, entre outros).
Mas, em 1983 seu pai foi eleito presidente da República, o primeiro com a volta da democracia. A política tornou-se assunto predominante nas reuniões familiares. Ricardo Alfonsín – que não teve cargo no governo do pai – largou as leituras de filosofia e começou a ler livros de teoria política e conjuntura que resumia para o pai.
Posse de Alfonsín (pai) em dezembro de 1983 foi um evento marcante para o retorno à democracia na América do Sul.
No entanto, apesar de estar rodeado de política, Ricardo Alfonsín só foi candidato em 1999, uma década depois do final do governo paterno. Nesse ano foi eleito deputado provincial. Tinha 47 anos. Era a primeira vez que exercia um cargo público.
Em 2004 sua filha, que estudava na escola primária, morreu com a artéria femoral cortada por um estilhaço de vidro. A morte da criança abalou toda a família. A partir dali – para esquecer a tragédia, dizem alguns analistas – Alfonsín dedicou-se com mais intensidade à carreira política.
A morte de Alfonsín pai, em 2009, causada por um arrasador câncer, teve o efeito de uma catapulta política para Alfonsín filho. No velório – que reuniu 100 mil pessoas no Congresso Nacional – e no funeral a figura do pai defunto foi enaltecida como um exemplo de honestidade e sobriedade, apesar do fracasso econômico dos últimos anos de seu governo.
Nesse momento Alfonsín filho despontou como a eventual figura de consenso que – graças à mística do pai – poderia reunir os divididos setores da UCR.
Nos últimos dias reuniu-se com o líder do partido socialista, o governador da província de Santa Fe, Hermes Binner. Os dois deram a entender que poderiam formar uma chapa que reuniria a UCR com os socialistas.
O sociólogo Gabriel Puricelli considera que entre as virtudes de Alfonsín estão: “sua simplicidade e mensagens diretas. É crítico, mas trata com respeito. Firme, mas não irritadiço. Ele faz oposição de forma leal, seguindo as regras do jogo”.
Por outro lado, Puricelli diz que entre seus defeitos estão: “a falta de gestão executiva e um jeitão bonachão que uma boa parte da cidadania por encarar como potencial fraqueza”.
O cientista político Guillermo O’Donnell ressalta que Alfonsín filho possui uma característica pouco frequente nos políticos: “se ele não sabe algo sobre algum assunto, ele vai e pergunta a quem sabe”.
Alfonsín afirma que espera que o eleitorado supere a ideia de que a UCR “não consegue governar”. Motivos existem de sobra, já que em 1989 o governo da UCR protagonizado por seu pai teve que renunciar quando só faltavam seis meses para o fim de seu mandato, em meio ao tumulto da hiperinflação, as greves gerais convocadas pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) – a central sindical aliada do peronismo – e de rebeliões militares. Em 2001 foi a vez do então presidente Fernando De la Rúa, também da UCR, renunciar em meio à pior crise social da História argentina.
Caso Alfonsín seja eleito, ocorreria um fenômeno que somente aconteceu uma vez na História argentina: pai e filho presidentes. O único caso até agora registrado foi o de Luis Sáenz Peña (1892-1895) e Roque Sáenz Peña (1910-1914).
Sanz, o senador que ambiciona tornar-se o primeiro presidente do país proveniente da província de Mendoza
ERNESTO SANZ, O SEMI-DESCONHECIDO QUE AMBICIONA A PRESIDÊNCIA: O nome de Ernesto Sanz é cada vez mais pronunciado como um potencial presidenciável para representar UCR. Este senador da província de Mendoza era praticamente desconhecido fora de sua província até que os intensos debates que agitaram o Senado argentino nos últimos três anos – dos quais foi uma das estrelas – o tornaram “menos desconhecido” do grande público.
Diversos setores da UCR passaran a encará-lo como um virtual candidato “novo”, sem vínculos (por parentesco) com o passado, como Alfonsín, ou sem as polêmicas atitudes de “traição” de Cobos (que deixou o partido para passar temporariamente às fileiras kirchneristas…para depois retornar ao partido original).
Formado em Direito, Sanz entrou na política em 1982, quando o país movimentava-se na direção do final da ditadura militar e a volta para a democracia.
Eleito presidente da juventude da UCR de sua província, Sanz fez uma carreira gradual e lenta na política, passando de prefeito de sua cidade, San Rafael, ao posto de senador provincial (na Argentina diversas províncias contam, além da assembleia legislativa, com um mini-senado local). Em 2003 tornou-se senador federal. E em 2009 foi empossado no posto de presidente da UCR.
Sóbrio, sem envolvimentos em casos de corrupção, afirma que pretende criar uma grande comissão que faça um levantamento dos escândalos de subornos e propinas das últimas décadas e levar os responsáveis ao banco dos réus.
Perante a falta de nomes de consenso na oposição, Sanz começou a ser visto nos partidos rivais como uma opção definida como “interessante” para respaldar em um eventual segundo turno presidencial.
Seus críticos, no entanto, afirmam que ele é muito “novo” e que deveria esperar as eleições presidenciais de 2015.
Mais detalhes sobre o partido de Sanz e Alfonsín, a UCR, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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