O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) desembarcará em Buenos Aires ao redor do dia 10 de outubro – na reta final da campanha eleitoral argentina – para uma reunião com a presidente Cristina Kirchner e respaldar sua aspiração a permanecer mais quatro anos no poder. “Lula sente grande respeito por Cristina”, disse o deputado Edgardo Depetri, que sucedeu o ex-presidente Nestor Kirchner(2003-2007) em sua cadeira de deputado após sua morte em outubro passado.
O plano do governo argentino é que Lula – ao longo de vários dias – seja a estrela principal de vários eventos políticos, entre os quais um comício que será realizado no Teatro Coliseo, no elegante bairro da Recoleta. O comício contará com a presença dos militantes de “La Cámpora”, o grupo ultra-kirchnerista que reúne a geração de políticos da faixa dos 20 aos 40 anos e que defende maior intervenção do Estado na economia.
Diversas pesquisas realizadas anualmente desde 2003 indicam que o ex-presidente brasileiro – considerado na Argentina como um “cabo eleitoral de luxo” – possui melhor imagem popular entre os argentinos do que os próprios políticos nativos, além de ser considerado “referente” regional por um amplo leque ideológico, que – paradoxalmente – vai desde a centro-direita à esquerda da Argentina.
A confirmação da visita de Lula foi realizada pelo embaixador Oscar Laborde, representante especial do Departamento para a Integração e a Participação Social da Chancelaria argentina. Segundo Laborde, a ideia de Lula é a viajar à Buenos Aires para respaldar a reeleição de Cristina e explicar a 450 empresários brasileiros instalados na Argentina “os motivos pelos quais é preciso que continue o projeto (de governo Kirchner)”.
A eleição presidencial argentina será poucos dias depois da visita de Lula, no dia 23 de outubro. As pesquisas indicam que Cristina é a favorita, com mais de 50% das intenções de voto.
Em abril de2003, a pedido do então presidente Eduardo Duhalde, Lula recebeu seu delfim, Néstor Kirchner, em Brasília para respaldar sua candidatura contra o ex-presidente Carlos Menem nas eleições presidenciais daquele ano.
Em 2007 Lula respaldou declaradamente a candidatura da senadora e primeira-dama (“primeira-cidadã”, segundo ela disse publicamente) Cristina Kirchner à sucessão de Menem.
No início deste ano Duhalde, considerado “inimigo” do casal Kirchner desde 2005, convidou Lula para participar do lançamento de um livro seu em Mar del Plata. No entanto, o ex-presidente brasileiro declinou o convite. Desta forma, esta será a primeira visita de Lula à Argentina na condição de ex-presidente.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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2011: Perón beberica um cafezinho na rua Áustria (foto de Ariel Palacios)
O peronismo, esse complexo e multifacético movimento político que embala de forma intermitente a sociedade argentina há 65 anos, está presente em uma série de bares, cafés e restaurantes na cidade de Buenos Aires. Os peronistas não gostam da comparação, mas os colunistas gastronômicos portenhos indicam que estes estabelecimentos são uma espécie de “Hard Rock Café” do Peronismo, já que suas paredes ostentam fotografias, documentos, posters e objetos do presidente e general Juan Domingo Perón e sua esposa Eva Duarte de Perón, mais conhecida como “Evita”, o casal superstar dessa peculiar ideologia que engloba a esquerda, o centro e a direita.
Estes cafés, decorados com a memorabilia peronista, tornaram-se points de reunião de militantes, integrantes do governo e de curiosos turistas que visitam esses cafés.
O mais recente é o “Perón-Perón restó bar”, inaugurado há um mês e meio, que acumula uma série de objetos dos tempos em que Juan Domingo Perón era vivo, além de Evita. O cliente, enquanto saboreia pratos com nomes relativos ao peronismo (e também com nomes irônicos sobre os inimigos do peronismo), poderá ouvir música lounge, ocasionalmente interrompida por enfáticos discursos de Evita.
O bar – que conta com uma loja de lembranças que incluem estatuetas de Perón e camisetas – também possui elementos alusivos à presidente Cristina Kirchner, a atual peronista no comando do país.
No menu do lugar está o prato de frios “General Pedro Eugenio Aramburu”. O militar, um furibundo anti-peronista, foi o autor do plano de esconder o corpo de Evita em 1955 (além de torturas e massacres de peronistas). Em 1970 o então recém-criado grupo guerrilheiro Montonero – de ideologia cristã-nacionalista-peronista – debutou suas atividades com o sequestro de Aramburu. Dias depois, o fuzilou, transformando-o, segundo a gíria portenha, em um “fiambre”, palavra usada para referir-se ao corpo de um morto (“presunto”, no Brasil).
A barra do “Perón-Perón Restó Bar” exibe profusão de iconografia peronista
O “Perón-Perón” também exibe quadros do emblemático artista plástico dos anos 60 e 70, Ricardo Carpani.
O “Um café com Perón” está na calle Áustria 2601, no bairro da Recoleta. Ao entrar no salão principal o cliente se deparará com a figura do próprio Perón tomando um cafezinho entre uma pausa e outro do exercício do poder. Mas, não se trata de um fantasma de “El Conductor”, e sim, uma estátua em tamanho natural e colorida que surpreende por seu realismo.
O café está decorado com ilustrações da época de Perón e Evita, fotografias e alguns objetos. Uma pequena lojinha vende lembranças do casal mais polêmico da História argentina.
O sobrado onde está o estabelecimento está ao lado da Biblioteca Nacional, em cujo terreno, até 1955, estava o Palácio Unzué, a antiga residência presidencial. O café era a antiga casa dos mordomos do palácio. Essa foi a única construção que permaneceu intacta, já que os militares que derrubaram Perón nos anos 50 ordenaram a destruição do palácio Unzué, já que queriam evitar que se transformasse em ponto de peregrinação da militância peronista, pois ali havia morrido Evita em 1952.
Altar para idolatrar Evita no Perón-Perón, no bairro de Palermo
No entanto, o pioneiro da série de peronistas temáticos foi “El General”, fundado em em 2005 no bairro de Monserrat, em pleno centro portenho. Seguindo a multiplicidade de correntes internas do movimento fundado por Perón, os quatro donos dividiam-se entre duhaldistas e kirchnerinistas
Sobre as divergências internas do Peronismo, o próprio Perón costumava dizer, com ironia, que “nós, peronistas, somos como os gatos… quando ouvem a gente gritando, como se estivéssemos brigando, na verdade estamos nos reproduzindo”.
No entanto, ao contrário da frase de Perón, os sócios – de tendências políticas peronistas irreconciliáveis – separaram-se em meio a violentas brigas e e deixaram o restaurante afundar em um mar de dívidas. Mas, os trabalhadores do estabelecimento formaram uma cooperativa e recriaram o restaurante, atualmente na avenida Belgrano 350.
A entrada do “El General”, na avenida Belgrano, no bairro de Monserrat
O prato principal da casa é o substancial “pastel de papas”, equivalente argentino à torta madalena, prato preferido do general Perón. Outra especialidade é o “bife de chorizo” feito com vinho malbec.
O restaurante é frequentado por líderes sindicais, secretários de Estado e parlamentares, entre outros. Sempre, durante o almoço, o ambiente é embalado pela Marcha Peronista. Nesse momento, todos os convivas levantam de suas cadeiras e entoam a emblemática melodia.
Sobre a barra do “Un café con Perón” uma garrafa do vinho “Justicialista”, que ostenta as efígies de JD.Perón e de E.D.dePerón. Ao fundo, um grupo de peronistas históricos conversam sobre o café e os tempos atuais.
O “Juan Domingo Resto Bar” está na cidade de La Plata, a 57 quilômetros de Buenos Aires. O ponto forte do bar é o jardim, onde está um mural que representa a Praça de Mayo no dia 17 de outubro de 1945, dia em que os trabalhadores foram às ruas pedir a liberação de seu líder.
Bares e cafés: endereços e telefones
“El General”: avenida Belgrano, 350. Telefone: 4343 7601
“Perón Perón”: rua Carranza 2225. Telefone: 4777 6194
“Un café com Perón”: calle Áustria, 2601. Telefone: 4802 8010
“Juan Domingo Restó Bar”: calle 58, 823 (entre as ruas 11 e 12). Telefone: ( 0221) 427 0136
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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O modus operandi dos batedores de carteira é assaz antigo. A ilustração acima é “Cena de um mercado com roubo”, da pintora parisiense Louise Moillon (1615-1674). Na pintura vemos como no lado direito do quadro uma mulher – batedora de carteiras – age subrepticiamente no meio de um mercado em Paris. Na postagem de hoje não falaremos de Paris, França… mas sim da “Paris da América do Sul”, apelido que outrora ostentava Buenos Aires.
A capital argentina ainda é uma das mais seguras da América Latina. No entanto, a criminalidade aumentou de forma persistente desde a crise de 2001-2002. Além dos denominados “amigos do alheio”, o cotidiano dos argentinos – e dos turistas – é embalado por outros problemas, entre os quais táxis picaretas, problemas constantes nos caixas eletrônicos, greves freqüentes nos aeroportos e a crescente falta de troco nos comércios.
A cidade é genial… só é preciso estar preparado para algumas circunstâncias.
‘CALLE’ FLORIDA TORNOU-SE PARAÍSO DOS BATEDORES DE CARTEIRA
Decadente desde os anos 90, a “calle” Florida”, o outrora elegante calçadão cêntrico portenho, “point” durante décadas das compras, transformou-se em uma via na qual, além de turistas e trabalhadores dos escritórios do centro, acotovelam-se camelôs, dançarinos de tango que exibem seu virtuosismo aos estrangeiros, “estátuas vivas”, mendigos e músicos (de violinistas a intérpretes da harpa paraguaia, passando pelos bandoneonistas). Este cenário de elevada aglomeração de pedestres – somado ao aumento da criminalidade no país e a crise das forças de segurança – tornou a Florida no paraíso dos batedores de carteiras que aproveitam o grande fluxo de pessoas – especialmente distraídos turistas – para surrupiar dinheiro, joias e documentos dos pedestres. Em média, de 20 a 30 pessoas são roubadas diariamente nessa rua, de acordo com as denúncias feitas à Polícia, que consistiriam em uma pequena parte do total ocorrido.
Cena do filme “Pickpocket”, de Robert Bresson, de 1959. O filme mostra um jovem parisiense – Michel – que mora em um sórdido quarto e começa a entrar na delinquência. Rapidamente, Michel (com personalidade que recorda “Crime e castigo”, de F.Dostoyeviski) transforma-se em um hábil batedor de carteiras. Um filmaço.
Héctor López Moreno, presidente da Associação de Amigos da Calle Florida, lamente: “é uma pena, pois uma pessoa que visita a Argentina, quando volta a seu país, uma de suas principais lembranças será a do roubo que sofreu”.
Os comerciantes da Florida calculam que os batedores estão reunidos em quinze grupos – compostos por um número de integrantes que oscila em média de dois a cinco ladrões – que operam ao longo dos treze quarteirões entre as avenidas de Mayo e Santa Fe. No entanto, o trecho mais visado pelos batedores de carteiras são os cinco quarteirões que estão entre a rua Sarmiento e a avenida Córdoba.
Os batedores de carteiras, além de agir na via pública, também operam dentro de lojas com espaço exíguo na hora que estão cheias de compradores.
Calle Florida: calçadão do centro portenho atrai turistas brasileiros, europeus e americanos. E também os batedores de carteira, que agem com excepcional destreza. Os ladrões não discriminam nacionalidades e também assolam os bolsos de seus compatriotas argentinos.
VÍTIMAS – Uma parte substancial dos turistas provenientes do Brasil que são furtados em Buenos Aires foram vítimas na ‘calle’ Florida, que costuma ficar abarrotada de pedestres entre as 10:00 e as 20:00 horas durante os dias úteis.
O consulado do Brasil não recebe denúncias de roubos. No entanto, realiza os trâmites do documento denominado “autorização de retorno ao Brasil” (o “ARB”, de emissão gratuita, utilizado para o retorno ao país) para os casos de roubo ou perda desse documento durante sua estadia na cidade.
Não existem estatísticas diferenciadas sobre passaportes roubados ou perdidos. No entanto, no total, em 2009 o consulado recebeu 1.385 pedidos de ARBs. Em 2010 o volume subiu para 2.800. Em janeiro deste ano o consulado recebeu 394 pedidos, enquanto que em fevereiro chegaram a 173.
O volume de pessoas que perderam seus documentos (muitos dos quais roubados) é pequeno, se comparado ao fluxo estimado de 1 milhão de turistas brasileiros na Argentina para 2011.
CASOS – A mato-grossense Susana Neves, que passeava ontem (quinta-feira) pelo bairro da Recoleta disse ao Estado que esta é a segunda vez que visita a capital argentina. “Desta vez tomei as devidas precauções. Mas, na primeira, ano passado, furtaram minha câmera de fotos, que estava dentro de minha bolsa. Foi na Florida, quando estava olhando uma vitrine. Fiquei com muita raiva e xinguei os argentinos. Mas, depois pensei em todas as vezes que fui roubada no Brasil, e aí passou. Nesta segunda viagem estou alerta para aproveitar esta cidade deliciosa”.
Carlos Fontana, um curitibano que visita Buenos Aires com frequência, também foi alvo dos dedos leves dos batedores portenhos de carteira. “Esbarraram em mim no Caminito. Mas, pediram desculpas com tanta educação que nem desconfiei. Ao sentar em um bar notei que haviam surrupiado o passaporte e dinheiro que tinha no bolso da camisa. Ir na polícia foi perda de tempo. Polícia no Brasil pode ser vagal. Mas na Argentina é muito mais. Foi besteira minha sair com o passaporte na rua. Por sorte tinha o RG no hotel”, afirmou ao Estado.
Outra cena de “Pickpocket”, de 1959.
PONTOS DE ATUAÇÃO – Alguns pontos da cidade muito frequentados por turistas são o paraíso dos batedores de carteiras, entre eles:
- A Rua Florida: entupida em quase todos os horários – e cheia de turistas distraídos – é um prato-cheio para os batedores. Algumas das paralelas da rua Florida tampouco são recomendáveis.
- A Avenida 9 de Julio: a ampla avenida – e seu baixo policiamento – permite uma fuga rápida dos assaltantes.
- O Caminito: as redondezas da famosa rua “colorida” no bairro da Boca (que praticamente é somente frequentada por turistas, já que os próprios portenhos a consideram um mero clichê) também estão cheias de batedores, que conseguem esconder-se facilmente nos cortiços da área.
- Recoleta: o mais elegante bairro de Buenos Aires é alvo da ação dos “moto-chorros” (“moto-bandidos). Atenção para motos nas quais o motorista leva alguém na garupa. A pessoa que vai atrás é quem geralmente arrebata bolsas, relógios ou pacotes dos transeuntes.
Outra modalidade de roubo é o “truque da mostarda”, na qual um ladrão joga com uma bisnaga um pouco de mostarda nas costas ou no braço de alguém, sem que este perceba. Um segundo ladrão, cúmplice, passa ao lado da pessoa e a adverte: “ei, a senhora está com uma mancha de mostarda nas costas”. O ladrão prontifica-se para ajudar e rouba (ou seu colega ladrão) a vítima.
O filme “Nueve reinas” (Nove Rainhas), protagonizado pelo ator Ricardo Darín (no papel de um calejado picareta) exibe uma didática demonstração da ampla variedade de trapaças e roubos exercidos em Buenos Aires.
Aeroporto de Ezeiza. Sua atividade é frequentemente interrompida por bizantinas greves. De quebra, além das paralisações inesperadas e das demoras colossais nos voos, a denominada ”máfia de Ezeiza” - grupo dedicado a roubar as malas dos passageiros – sempre pode amargar uma viagem ao chegar a B.Aires.
NOTAS FALSAS, CAIXAS ELETRÔNICOS QUE NÃO FUNCIONAM, TAXISTAS ”TRUCHOS” E AEROPORTOS EM CONSTANTE COLAPSO EMBALAM COTIDIANO PORTENHO
TÁXIS E TAXISTAS – Existem várias modalidades de táxis em Buenos Aires. Uma delas é a dos rádio-táxis, que propiciam a segurança de que o motorista está em um veículo com licença específica e podem ser contratados para uma viagem por intermédio de um número telefônico (além de ser pego na rua). Outra modalide é a dos autônomos, isto é, motoristas de longa data, donos de seus próprios veículos. Além destes exista a “mandataria”, isto é, uma empresa que aluga táxis por uma jornada para um motorista sem registro na empresa. Geralmente estes motoristas alugam táxis para um dia de biscates e devolvem o veículo à empresa no fim do dia. Neste caso, os riscos de roubos ou irregularidades é maior do que nos outros sistemas.
Entre as irregularidades clássicas estão o troco em dinheiro falso aos passageiros (turistas ou estrangeiros). Outro formato de trapaça é quando o motorista pega rápido a nota entregue pelo passageiro e a troca por uma do mesmo valor, mas falsa, e diz “ei, esta nota é falsa”. O passageiro pega a nota falsa e entrega uma nova nota verdadeira ao motorista.
Outra modalidade é a das viagens mais longas do que as devidas (um circuito mais complexo e comprido do que a viagem prevista) para enganar os passageiros (geralmente turistas estrangeiros e argentinos do interior do país).
Outro risco é que o taxista, com voz camarada, proponha fechar um preço para o trajeto desejado com antecipação.
Muitos taxistas “truchos” (picaretas, na gíria portenha) esquecem de ligar o taxímetro e dizem com tom ingênuo: “ops! Esqueci de ligar o aparelho. Mas, custa X”. O problema é que esse valor “X” costuma ser ser superior à realidade.
DINHEIRO FALSO - Os especialistas e a Polícia Federal estimam que o total de notas falsas equivalem a 3% do total do circulante argentino, isto é, ao redor de 296 milhões de pesos (US$ 78 milhões). Os pontos mais frequentes para que os distribuidores repassem as cédulas falsas são táxis, remises (carros de aluguel), bares e restaurantes. Os argentinos são o alvo cotidiano dos falsificadores locais. No entanto, em temporadas de grandes contingentes de turistas estrangeiros, pouco familiarizados com as notas de pesos, os distribuidores direcionam seus esforços para esse desprevenido público.
Do total de cédulas falsas aprendidas pela Polícia, 60% são imitações das notas de 100 pesos. Outros 18% correspondem a imitações de cédulas de 50 pesos. O surgimento de cédulas falsas também ocorre com relativa frequência em caixas eletrônicos, já que nos bancos não existe um mecanismo que evite totalmente a entrega de notas falsas.
Além da falsificação de pesos argentinos, os falsificadores em Buenos Aires também especializaram-se em dólares. No ano passado a Polícia prendeu um falsário que até havia preparado notas de um milhão de dólares, cédulas que não existem, que repassava para suas vítimas com o argumento de que eram usadas somente para altas operações dentro do terriório dos EUA.
FORÇAS DE SEGURANÇA – Pedir ajuda às forças de segurança em caso de roubo costuma ser frustante, já que uma parte substancial de seus integrantes possuem ventres avantajados (“zapán”, na gíria portenha) que impedem uma assegurada perseguição dos ladrões. Diversas denúncias indicam que integrantes das forças de segurança possuem acordos com batedores de carteira.
AEROPORTOS E MÁFIAS – O aeroporto de Ezeiza, o maior do país, destinado aos voos internacionais, é famoso pela “máfia de Ezeiza”, denominação do grupo de trabalhadores do lugar que dedica-se a roubar (total ou parcialmente) a bagagem dos passageiros. O alvo principal são as maletas de mulheres, já que dali furtam perfumes, cremes, bijouterias e presentes de forma geral. Eles cortam as malas com canivetes ou violam os zípers.
Os costumeiros atrasos nos voos e as greves repentinas dos cinco rivais sindicatos de aeronáuticos propiciam a ocasião adequada para que as bagagens fiquem longo tempo fora da vista dos passageiros, ao alcance da “máfia”. As companhias aéras, quando recebem as reclamações, costumam desvencilhar-se dos passageiros com a entrega de formulários que dificilmente chegam a resultados práticos.
No aeroporto metropolitano do Aeroparque o volume de roubos de bagagens é menor. Embora seja primordialmente destinado ao voos internos, ali partem alguns voos para o Brasil e Uruguai.
GREVES – O sistema aéreo – especialmente a companhia estatal Aerolíneas Argentinas – é assolado por frequentes paralisações. Além das greves para pedir aumentos salariais, as paralisações também ocorrem por brigas entre sindicatos rivais. Em dezembro uma troca de tapas entre um piloto e um co-piloto da Aerolíneas Argentinas, pertencentes a sindicatos rivais, gerou um piquete de um dos grupos, causando a paralisação de todos os voos em Ezeiza.
CAIXAS ELETRÔNICOS – O sistema de caixas eletrônicos nunca teve grande expansão na Argentina, já que boa parte da população, desconfiada dos bancos (o país sofreu uma miríade de falências repentinas de instituições financeiras, além de vários confiscos bancários ordenados pelos governos de plantão) não está bancarizada. Os constantes conflitos entre bancos e o sindicato dos bancários geram atrasos no abastecimento dos caixas eletrônicos. Os piores dias para retirar cash dos caixas são os fins de semana e feriados.
FALTA DE TROCO – A falta de troco tornou-se uma constante na Argentina, já que por causa da escalada da inflação o governo destina a maior parte da emissão realizada pela Casa da Moeda para as notas de 100 pesos (as de maior valor numérico). Desta forma, cada vez são mais escassas as notas de 2, 5, 10 e 20 pesos. O governo rejeita a ideia de imprimir notas com maior valor numérico. Portanto, a tendência de falta de troco tende a permanecer.
Depois de quinze anos residindo como correspondente internacional do Estado na capital argentina me acostumei a driblar (ou, pelo menos, a tentar) os eventuais inconvenientes do cotidiano. Além de enfrentar uma burocracia digna dos livros de Franz Kafka em todo tipo de cenário que envolva as forças de segurança e a defesa do consumidor, é preciso também enfrentar as circunstanciais trapaças. Apesar dos cuidados, fui vítima de várias, entre elas as notas falsas. Em uma ocasião, em um táxi eu explicava para um casal de amigos a quantidade considerável de pesos falsos em circulação. Ao descer, o taxista me deu de troco uma nota, que, duas quadras depois, usei para comprar uma garrafa de água. No entanto, o dono do quiosque pegou a nota, olhou à contraluz e disparou: “mas isto é falso”.
Em outra ocasião recebi, no meio de um bolo de notas, uma cédula que parecia ser uma de 50. No entanto, só a ponta superior direita da nota ostentava esse valor numérico. O resto da nota, escondida no meio das outras, era de uma mera cédula de dois pesos.
Além disso, padeci a “máfia de Ezeiza”, que roubaram minhas malas quatro vezes. Em todas as ocasiões recuperei as malas. No entanto, sabendo que a defesa do consumidor aqui é puramente simbólica, foi à custa de permanecer no aeroporto e tornar-se para os funcionários no mais insuportável dos passageiros. Ajuda muito se você fizer aquela cara enlouquecida de Jack Nicholson em “O iluminado” ou de Antony Hopkins em “O silêncio dos inocentes”.
O Consulado do Brasil em Buenos Aires fornece uma detalhada lista de informações aos turistas brasileiros. Aqui.
No meio da lista é muito útil o quesito “Recomendações aos turistas brasileiros”.
Calle Florida, em 1937.
Cena do filme Pickpocket, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Meu monumento preferido em Buenos Aires, o “Monumento a La Carta Magna y las Cuatro Regiones Argentinas” (Monumento à Carta Magna e as Quatro Regiões Argentinas), erroneamente chamado de “monumento dos espanhóis” ou “monumento aos espanhóis”. Está na esquina das avenidas Libertador e Sarmiento.
No topo do monumento está a estátua da República, e na base, além de uma reprodução do Preâmbulo da Constituição Nacional, há grandes esculturas que representam (e possuem os nomes embaixo) os Andes, o Prata, a Pampa e o Chaco.
A alusão à Espanha consiste em uma referência explícita (A Nação Argentina em seu primeiro centenário, por Espanha e seus filhos), além de outras indiretas (“Uno mismo, el idioma”, “De una misma estirpe” e “Grandes sus destinos”).
Os turistas brasileiros já fazem parte da paisagem portenha: eles constituíram 41% do total de 696 mil visitantes estrangeiros que entraram por via aérea na Argentina no terceiro trimestre deste ano. Dados do ministério do Turismo e do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) indicam que a proporção de brasileiros é amplamente superior ao peso de turistas de outros países, já que em um distante segundo lugar, com 28,4%, posicionam-se os visitantes do resto da América Latina. Os europeus representaram 16,8% do total de turistas no trimestre passado, enquanto que os visitantes dos Estados Unidos e Canadá constituíram 9,2%.
Leonardo Boto, secretário-executivo do Instituto Nacional de Promoção Turística afirmou que a Argentina é o lugar da primeira viagem ao exterior para 83% dos brasileiros que viajam fora do Brasil. “Esse já é um hábito da nova classe média do país”, sustenta.
Entre janeiro e setembro deste ano, do total dos 1,93 milhão de turistas que visitaram a Argentina, 646 mil eram provenientes do Brasil.
Os brasileiros transformaram-se no novo fenômeno do turismo no país, já que em décadas anteriores eram um grupo pequeno em relação a turistas provenientes de outras partes do mundo.
Na contra-mão, os argentinos possuem três décadas e meia de tradição de viagens constantes ao Brasil. Dados extraoficiais fornecidos por fontes diplomáticas ao Estado indicam que um terço de todos os argentinos “já esteve em algum momento de sua vida no Brasil”.
Jorge Luis Borges e seu amigo Adolfo Bioy Casares gostavam de levar seus amigos à ponte Alsina. Meio na piada, meio a sério. Explicações (e mais detalhes sobre o turismo borgiano), aqui.
TEMPO E GASTO - Os turistas estrangeiros gastaram US$ 2,4 bilhões na Argentina entre janeiro e setembro, o equivalente a 31% a mais do que no mesmo período do ano passado.
Os estrangeiros ficam em média 10,9 dias e gastam US$ 107,40 diariamente. Os europeus integram o grupo de turistas que costumam permanecer mais tempo no país – em média 22,3 dias – mas gastam somente US$ 74,80.
Na contra-mão, os brasileiros ficam menos tempo, em média 5,8 dias, mas gastam mais, já que desembolsam US$ 168, para alegria dos comerciantes de roupas de couro da rua Florida, das lojas de marcas nacionais e internacionais das avenidas Santa Fe e Alvear, além dos outlets da avenida Córdoba.
Detalhe das esculturas em cima do edifício do Congresso Nacional
O famoso “deme dos” que nos anos 90 – tempos da conversibilidade econômica da paridade um a um entre o peso e o dólar – os argentinos pronunciavam em todo o continente, desde Búzios até Miami, agora possuem uma versão em português, o “me dê dois”. A frase está sendo aplicada intensamente em Buenos Aires, cidade que, por seu look europeu, jantares embalados com suculentas carnes e regados com vinho, e – especialmente – seus produtos baratos, tornou-se um ímã para os turistas brasileiros.
Segundo dados da Global Blue, empresa que tem a concessão da devolução do Imposto de Valor Agregado (IVA) das compras feitas pelos turistas estrangeiros na Argentina, os brasileiros estão consumindo de forma crescente em Buenos Aires. Os dados da empresa indicam que em setembro os brasileiros compraram 214% a mais do que no mesmo mês do ano passado.
Do total de compras feitas por estrangeiros no país (e que vão atrás do sistema de devolução), os brasileiros são responsáveis por 45%. Neste caso, os produtos Made in Argentina mais procurados são as roupas de couro (23% das compras), roupas para mulheres (16%) e calçados (11%). As roupas masculinas ficam em quarto lugar, com 9%. Vinhos e chocolates concentram 5% das compras.
Segundo o Instituto Nacional de Promoção Turística (Inprotur) do total de turistas brasileiros, 30,5% hospeda-se em hotéis de uma, duas e três estrelas. Outros 54,3% hospedam-se em hotéis de quatro e cinco estrelas. Do total, 7,9% ficam na casa de amigos e parentes.
O ministro do Turismo, Enrique Meyer, anunciou que em 2010 o país receberá um milhão de turistas brasileiros, marca que constituirá um recorde histórico na História argentina. Em 2009 um total de 500 mil brasileiros visitaram o país.
Pasaje Barolo, um marco sui generis da arquitetura em B.Aires. No entanto, pouco conhecido pelos turistas estrangeiros. Mais detalhes sobre esse delirante edifício, aqui.
TANGO - “Os brasileiros são geniais”, exclama Pedro Mejías, vendedor de uma pequena loja de música na rua Guido. “Eles querem CDs de tango eletrônico e de Carlos Gardel, pois aqui custam de 35 pesos (US$ 8,16) para cima, mais baratos do que no Brasil”, explica ao Estado. Depois, sorrindo, acrescenta: “volta e meia aparece algum brasileiro que pede CDs da Evita Perón. Aí tenho que explicar que Evita não era cantora e que ‘Não chores por mim Argentina’ não é tango nem canção argentina…”.
TÁXI – O taxista Juan Pablo Viggiano ressalta o predomínio de brasileiros entre os passageiros estrangeiros que transporta: “do total, devem ser uns 80%”. Enquanto trafega pela avenida Mayo, em pleno centro, Juan Pablo afirma ao Estado que os brasileiros nem bem descem do avião querem logo ver outlets de roupa, shows de tango e restaurantes de carne argentina.
EMPANADAS – Em uma pizzaria localizada ao lado do cemitério da Recoleta, “point” inexorável de visita dos turistas, o garçom Pedro Gesualdi avaliou para o Estado o consumo gastronômico dos brasileiros: “eles adoram empanadas. Principalmente as de carne. E as roquefort, que para eles são uma novidade”. Ao lado, sua colega Johanna Romero, acrescenta: “pois é, mas são meio complicados para deixar gorjetas. A gente precisa explicar que na Argentina, o tal dos 10% do Brasil não está incluído aqui”.
DESCONTINHOS – “São muito simpáticos. Mas puxa! Como insistem com os ‘descontchinhosh’ (diz, imitando o sotaque carioca)!”, reclama com ironia Shirley, a atendente de um quiosque a poucos metros da entrada do cemitério da Recoleta. “Parece que lá estão acostumados a isso. Mas aqui, a gente não pode fazer descontos para o caso que alguém leve 8 ou 9 alfajores. Os preços na Argentina são fixos”, explica ao Estado.
Buenos Aires em 1713. No lugar da Casa Rosada, a fortaleza de B.Aires. Na frente, a atual praça de Mayo. Marcada em vermelho, a rua Florida (na época do mapa, chamada de “calle de San José”). Essa via, embora decadente desde o início dos anos 90, continua atraindo milhares de turistas brasileiros. Mas, desde o início desta década, os visitantes descobriram que existem outras áreas mais interessantes na cidade. No entanto, as agências de turismo (brasileiras e argentinas) ainda insistem em levar os turistas até ali. Nesta semana colocaremos uma postagem sobre os poucos pontos que valem a pena ver nessa rua (e que ficam geralmente ignorados).
NO URUGUAI, BRASILEIROS DESLOCARAM TURISTAS ARGENTINOS - Os brasileiros também estão alterando a tradicional presença argentina em Punta del Este, balneário uruguaio que foi “point” argentino na região há mais de meio século. Segundo o Centro de Hotéis de Punta del Este, do total de turistas que foram neste fim de semana a Punta del Este, 40% eram brasileiros e 35% argentinos. Os restantes 25% eram uruguaios.
No entanto, ao longo do ano, o predomínio ainda é de argentinos. Estes, que eram 80% do total há meia década atualmente constituem 60%. Os brasileiros, desde 2005, cresceram de 15% para 25% do total.
O presidente do Centro, Fernando Massa, afirma que esse fluxo “marca uma tendência que está se afirmando”. Massa sustenta que os brasileiros estão visitando Punta del Este não somente nos feriadões, mas de forma persistente ao longo do ano.
Mafalda, a mais incisiva das menina-filósofa criada por Quino. É sine qua non ir à B.Aires e fazer uma foto com ela, em seu banquinho na esquina das ruas Chile e Defensa (foto de Ariel Palacios).

PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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