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Ariel Palacios

 

Nestor Kirchner foi eleito em 2003 com 22% dos votos. Em 2007 colocou a máquina do Estado argentino para eleger sua própria esposa, a então senadora Cristina Kirchner, como sua sucessora presidencial. Até outubro do ano passado Nestor – considerado o verdadeiro poder no governo da mulher – era o candidato do casal presidencial para as eleições de 2011.

Desta forma, implementava-se o comentado plano “4+4+4+4”. Isto é, Néstor seguido de Cristina, seguido de Néstor novamente, seguido de Cristina mais uma vez, para completar um período de 16 anos. Mas, Kirchner morreu no dia 27 de outubro de 2010. Viúva, a saída para o governo foi a de uma reeleição presidencial de Cristina. O chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, disse há duas semanas que o kirchnerismo prepara-se para governar a Argentina durante os próximos “60 anos”.

A presidente Cristina Kirchner deu a largada à corrida eleitoral com objetivo de conseguir o terceiro mandato presidencial do kirchnerismo. Na noite da terça-feira ela acabou com o suspense que havia feito nos últimos meses e oficializou sua candidatura à reeleição em outubro. Nesta quarta-feira o cenário político argentino estava em polvorosa na expectativa da definição do candidato a vice-presidente, já que este despontaria como seu virtual sucessor, na ausência da possibilidade constitucional de disputar uma segunda reeleição em 2015. Os analistas políticos destacavam que a presidente, além de estar blindada contra os diversos escândalos de corrupção que assolam seu governo, está sendo favorecida pela recuperação econômica, além de uma fragmentação sem precedentes dos partidos de oposição.

Os analistas também ressaltam que Cristina é a favorita nas pesquisas de opinião pública, com uma ampla vantagem sobre os candidatos da oposição.

Caso vença nas urnas, Cristina emplacará o terceiro mandato do kirchnerismo, inciado em 2003 com seu marido, o presidente Nestor Kirchner (2003-2007). O segundo mandato do kirchnerismo foi protagonizado por Cristina, que sucedeu a seu próprio cônjuge, algo inédito na História mundial da democracia. O plano inicial do casal presidencial, até outubro do ano passado, era de uma candidatura de Kirchner para as eleições de 2011. No entanto, sua inesperada morte por um fulminante ataque cardíaco há oito meses, levou Cristina a tentar a sucessão de si própria.

O analista político e sociólogo Carlos Fara, da consultoria Fara e Associados, disse ontem ao Estado que suas pesquisas indicam que Cristina teria 47% das intenções de voto. Outros 18% estariam destinados a Ricardo Alfonsín, filho do ex-presidente Raúl Alfonsín (1983-89) e candidato da União Cívica Radical (UCR), de centro. Outros 14% dos votos seriam absorvidos pelo ex-presidente Eduardo Duhalde, que lidera uma das facções do peronismo dissidente. A deputada Elisa Carrió, candidata da Coalizão Cívica, de centro-esquerda, obteria 9% dos votos, proporção significativamente inferior aos 25% que conseguiu nas eleições de 2007, quando ficou em segundo lugar. Outros 7% dos votos ficariam nas mãos de Hermes Binner, governador da província de Santa Fe.

Com estes resultados, Cristina venceria no primeiro turno, já que no sui generis sistema eleitoral argentino, um candidato vence se conseguir mais de 45% dos votos. Outra alternativa é que obtenha pelo menos 40% dos votos, sempre que o segundo colocado esteja dez pontos percentuais atrás.

Com valores similares à pesquisa de Fara, a consultoria Ceop indica que Cristina contaria com 48,2% das intenções de voto, enquanto Alfonsín possui 12,8%. O ex-presidente Duhalde teria 7,5%, enquanto que o governador de San Luis, Alberto Rodríguez Saá teria 5,5%. Carrió obteria 5,9%.

No en tanto, uma pesquisa da consultoria Management & Fit indicou que Cristina conta com 33,4%. Mas, Alfonsín teria menos da metade de sua intenção de voto, já que teria 15,3%. Duhalde obteria 5,8%, enquanto que Rodríguez Saá conseguiria 7%. Elisa Carrió ficaria com 4%.

Segundo Fara, “independentemente das variações que os números possam ter nos próximos meses, é praticamente uma certeza de que Cristina Kirchner ganhará na primeiro turno em outubro”. O analista destacou que as eventuais variações que podem ocorrer “é a somatória de dois ou três assuntos que possam remover alguns pontos da presidnete. Mas, aí a discussão é sobre qual a amplitude desses votos que poderia perder”.

Fara considera que entre os fatores que provocariam perda de votos está “a crescente inflação, uma atitude soberba do governo – tal como ocorreu em outras ocasiões – além dos escândalos de corrupção. Mas, embora acumulados, esses fatores não provocariam uma derrota do governo”.

“O fato é que estamos registrando os níveis mais altos de otimismo sobre o futuro econômico nos últimos oito anos, graças à obras públicas, entre outros. Matematicamente Cristina Kirchner poderia até obter alguns votos a mais dos 45% conseguidos em 2007”.

O vice-presidente argentino, Julio Cleto Cobos, que rachou com o governo Kirchner em 2008. Cristina agora busca um vice de total fidelidade e alinhamento automático, já que este poderia tornar-se seu sucessor. Charge de El Niño Rodríguez. Site do artista:http://www.elninorodriguez.com/

A SÍNDROME DE COBOS - As especulações no âmbito político indicam que uma potencial vice de Cristina seria sua cunhada, a ministra da Ação Social, Alicia Kirchner, irmã do ex-presidente Néstor Kirchner, que morreu em outubro passado de um ataque cardíaco fulminante. Os rumores também indicam que o vice poderia ser um governador do norte da Argentina, onde o kirchnerismo possui um reduto eleitoral. Entre os nomes mais citados estão o governador do Chaco, Jorge Capitanich, considerado um “ultra-kirchnerista”; Sergio Urribarri, de Entre Rios; e José Alperovich, de Tucumán.

Outras especulações – baseadas nas declarações realizadas durante seu discurso de lançamento, quando ressaltou que pretendia ser “uma ponte e as novas gerações” – reforçaram os boatos de que o futuro candidato a vice poderia ser um dos integrantes da jovem geração de seu gabinete, entre eles o ministro da Economia, Amado Boudou, e o secretário de Comunicação, Juan Abal Medina.

Além disso, na lista dos “vice-presidenciáveis” também desponta o nome de Carlos Zanini, o secretário jurídico do governo, um kirchnerista histórico, já que assessora os Kirchners desde os anos 80. Outro histórico é o deputado Nicolas Fernández, da província de Santa Cruz, aliado há um quarto de século.

Os analistas destacam que este vice será crucial, já que ao contrário dos tempos em que Nestor Kirchner estava vivo, Cristina não contará com seu marido para uma eventual alternância no poder. Desta forma, os analistas sustentam que o vice terá status de “sucessor” de Cristina.

A presidente também quer evitar a “síndrome de Cobos”, em alusão a seu atual vice-presidente, Julio Cobos, da UCR, que rachou com o governo Kirchner em 2008 quando, na categoria de presidente do Senado, com seu voto de Minerva provocou a derrota do governo na votação do “impostaço agrário”. Embora pressionado pela presidente, Cobos recusou-se a renunciar, fato que lhe valeu a denominação de “traidor”. Segundo os analistas, desta vez Cristina buscará um vice de alinhamento automático e que exiba uma “blindagem de fidelidade” à presidente.

A intriga sobre o vice terminará neste sábado, quando vence o prazo para o registro do nome que acompanhará Cristina na chapa presidencial. 

  CANDIDATOS PRESIDENCIAIS

Cristina Kirchner, do partido Justicialista, sublegenda Frente pela Vitória

Ricardo Alfonsín, União Cívica Radical (UCR)

Elisa Carrió, Coalizão Cívica

Hermes Binner, Partido Socialista

Eduardo Duhalde, Partido Justicialista, sublegenda União Popular

Alberto Rodríguez Saá, Partido Justicialista, sublegenda Peronismo Federal

Jorge Altamira, Partido Operário 

Desistiram da corrida presidencial

O vice-presidente Juio Cobos, da UCR

O prefeito Maurício Macri, do Proposta Republicana

O deputado e cineasta Fernando Solanas, do Projeto Sul

 SISTEMA ELEITORAL ARGENTINO E SEU SUI GENERIS SEGUNDO TURNO

Ao contrário de outros países, nos quais para vencer no primeiro turno é preciso 50% mais um dos votos, no sui generis sistema eleitoral argentino, para vencer na etapa inicial das eleições presidenciais basta obter 40% dos votos com uma vantagem de 10% sobre o segundo colocado. A outra opção é a de obter 45% dos votos, proporção suficiente para conseguir a vitória de forma automática.

O primeiro turno está marcado para o dia 23 de outubro. O segundo turno tem data para o 20 de novembro.

A posse do novo presidente será no dia 10 de dezembro.

Charge de jornal da Catalunha mostra o casal com uma única faixa presidencial.

PERANTE “EFEITO VIÚVA”, OPOSIÇÃO APRESENTA-SE FRAGMENTADA E IRRECONCILIÁVEL

“Efeito viúva” é a denominação do clima de compaixão que grandes setores da população argentina sentem pela presidente Cristina Kirchner, cujo marido, o ex-presidente Nestor Kirchner, morreu de um ataque cardíaco fulminante em outubro do ano passado. Em quase todos os discursos públicos que proferiu desde a morte de seu marido a presidente Cristina faz constantes alusões a Kirchner. Ostentando rigorosa vestimenta escura em sinal de luto, ela sustenta que seu marido, desde o além, marca seu caminho político.

Coincidentemente, desde a morte de Kirchner, Cristina disparou nas pesquisas de opinião pública.

“Estamos vendo um espetáculo de circo, um relato de um ato fictício. É óbvio que Cristina Kirchner está mentindo quando chora na frente dos pobres. O vestido preto forma parte de uma cena semiótica. O luto forma parte desse disfarce”, dispara Elisa Carrió, uma das candidatas presidenciais da oposição.

Mariel Fornoni, da consultoria de opinião pública Management & Fit, afirmou ao Estado que “o efeito viúva deveria começar a diluir-se por causa de todos os escândalos de corrupção que apareceram e continuam aparecendo”. Segundo Fornoni, “a presidente continua utilizando o nome do ex-presidente Kirchner em seus discursos. E com certeza continuará fazendo isso”. A analista sustenta que os casos de corrupção estão afetando a imagem da presidente Cristina.

No entanto, o analista político Carlos Fara afirmou ao Estado que “o efeito viúva já passou. As pessoas não votam mais por condolências”.

Quatro pinguins: Plano original dos Kirchners era um mandato de Néstor, um segundo de Cristina, um terceiro de Néstor e um quarto de Cristina. Mas, a morte de Néstor alterou os planos. Cristina só poderá disputar uma reeleição. Se quiser uma segunda reeleição, terá que mudar a Constituição. Em 1999 o então presidente Carlos Menem tentou arrancar da Corte Suprema um parecer favorável a seus planos de segunda reeleição, denominada ironicamente de “la re-reelección” ou simplesmente, “la re-re”.

FRAGMENTADA – Os diversos escândalos de corrupção que envolvem integrantes e ex-integrantes do governo Kirchner não teriam suficiente impacto para levar a presidente Cristina à uma derrota nas urnas em outubro. Segundo os analistas, a recuperação econômica – subsidiada amplamente pelo Estado argentino – seria o fator crucial para que os escândalos tenham pouco peso político atualmente.

Os candidatos da oposição são Ricardo Alfonsín, da UCR; Elisa Carrió, da Coalizão Cívica; o socialista Hermes Binner, os peronistas dissidentes Eduardo Duhalde e Alberto Rodríguez Saá, além do trotskista Jorge Altamira, irmão de Luis Favre, ex-marido da ex-prefeita Marta Suplicy. Mas, apesar de algumas negociações, os diversos candidatos não conseguiram formar alianças para enfrentar o governo.

Segundo Fornoni, a oposição continuará fragmentada: “a realidade é que ainda não deram mostras de poder articular-se”.

“Não acho que a oposição se unirá. Houve várias tentativas de coalizões, todas fracassadas. Não imagino nem Binner e Carrió fazendo uma aliança com a UCR”, sustentou Fara. 

Cristina e Néstor na charge do cartunista argentino El Niño Rodríguez. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/

A TEMPO DA COPA AMÉRICA E DAS ELEIÇÕES, CRISTINA LANÇA O “TV PARA TODOS”

Televisores baratos nas vitrines das lojas argentinas a tempo da Copa América, que começa no dia 3 de julho na cidade de La Plata, um dos principais redutos eleitorais do governo. Este foi o pontapé inicial da presidente Cristina Kirchner para começar sua campanha eleitoral. No anúncio feito em rede nacional de TV – junto com seu lançamento à reeleição – a presidente Cristina ressaltou que o programa governamental “TV para todos” (também chamado de “LCD para todos”) implicará na venda, a partir da sexta-feira da semana que vem, de 200 mil televisores de alta definição LCD de 32 polegadas com um aparelho acoplado que permitirá captar os sinais de TV digital.

“Sou uma presidente que não gosta de uma Argentina para poucos, mas sim, para muitos”, argumentou em defesa da distribuição de créditos do estatal Banco de la Nación para a compra dos televisores, que serão vendidos por US$ 675. A compra pode ser feita em até 60 vezes, isto é, cinco anos, coincidindo com as eleições presidenciais de 2015. “É pão e circo com molho eleitoral, vinculado à Copa América”, criticou o economista Gabriel Rubinztein.

Cristina também anunciou a licitação de 110 sinais de TV em todo o país para empresas privadas. Outros 110 sinais serão distribuídos de forma direta aos governos das províncias, universidades públicas, além de ONGs, setor onde o governo possui grande influência.

O quarteto de Pinguins da série televisiva originada no filme “Madagascar” assistem TV.

“PARA TODOS” - No último ano e meio o governo Kirchner lançou diversos programas sob a égide do “para todos”, que implica em produtos a preços mais acessíveis para a maioria da população. Desta forma, já anunciou o “carne para todos” (cortes de carne bovina a valores mais baixos do que a média do mercado); “milanesas para todos” (programa de distribuição com preços baixos do corte de bife à milanesa, um dos pratos mais populares do país).

Além disso, lançou o “futebol para todos” (estatização das transmissões dos jogos de futebol, que passaram dos canais de TV a cabo a serem veiculados no canal estatal 7, uma TV aberta). Até 2019 o governo desembolsará US$ 150 milhões por ano para a Associação de Futebol da Argentina (AFA) e os clubes em troca dos direitos de transmissão.

Há poucos meses a presidente anunciou o “botijões para todos” (gás em botijão mais barato para os setores da população que não possuem gás encanado); e merluza para todos (o peixe marítimo mais popular na gastronomia argentina), entre outros programas de subsídios.

A oposição acusa o governo de fazer “populismo” com estes programas e ressaltam que, na prática, não passam de subsídios para obter dividendos políticos para as eleições presidenciais de outubro.

Oposição afirma que programa de LDC para todos trata-se de espetáculo para distrair população dos problemas do país, além de servir para publicidade para o governo. “É pão e circo com molho eleitoral, vinculado à Copa América”, criticou o economista Gabriel Rubinztein. Charge de El Niño Rodríguez – “Kirchner crooner”. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/

Nossa semana borgiana foi brevemente interrompida para colocar a postagem acima sobre o lançamento de Cristina Kirchner. Na próxima postagem voltaremos à programação original e encerraremos a semana sobre JL Borges com uma postagem sobre os “Mitos borgianos: Georgie e Mick Jagger”.

  

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Do Riachuelo ao Aerolula: O encouraçado brasileiro “Riachuelo”, que transportou Campos Salles do Rio até Buenos Aires. O navio de guerro aparece “estacionado” em Puerto Madero. Na época, os cais haviam sido recém-inaugurados. Um século depois a mesma área seria o point de restaurantes, atualmente entupidos de turistas.

Nesta segunda-feira – longe de Puerto Madero e dos encouraçados de antanho – quando a presidente Dilma Rousseff desembarque do avião presidencial Santos Dumont em Buenos Aires, será do outro lado da cidade, na base aérea do Aeroparque Jorge Newbery, o aeroporto metropolitano portenho.

uas cheias de guirlandas e arcos do triunfo. Esses foram alguns dos elementos que os portenhos colocaram nas ruas da capital argentina para exaltar a visita do presidente do Brasil Manuel Ferraz de Campos Salles à Buenos Aires em outubro de 1900. Na ocasião, 300 mil portenhos (a cidade contava com 1,2 milhão na época, isto é, um de cada quatro habitantes da cidade foi às ruas receber o visitante) urraram o nome do brasileiro nas ruas da cidade, celebrando seu desembarque. Campos Salles dava início às visitas presidenciais brasileiras no exterior.

Campos Salles colocava seus pés em Buenos Aires para retribuir uma visita feita pouco mais de um ano antes, em agosto de 1899, pelo presidente argentino Julio Roca ao Rio de Janeiro. À beira da Bahia de Guanabara, Roca teria dito uma frase histórica, “tudo nos une, nada nos separa”.

A frase, no entanto, é uma daquelas que se encaixam na categoria de ‘se non è vero, è ben trovato’, já que ela seria pronunciada nesse exato formato em 1910, pelo então presidente eleito da Argentina, Roque Sáenz Peña, durante sua visita ao Rio de Janeiro. “Hoje em dia essa afirmação pode parecer banal. Mas na época, foi revolucionária”, me disse o ex-embaixador do Brasil em Buenos Aires, Luiz Felipe de Seixas Correa.

Roca também deixou para os registros históricos uma categórica afirmação (esta, de cunho próprio): “o Brasil e a Argentina devem unir-se por laços da mais íntima amizade, porque juntos serão ricos, fortes, poderosos e livres”.

Com esta visita, o Brasil, depois de 67 anos de monarquia, desejava “republicanizar” sua política externa, atenuando os vínculos com as coroas europeias e privilegiando o espaço sul-americano. 

 

OM TODA A POMPA – Ao contrário das visitas presidenciais atuais – corriqueiras, de apenas 24 horas, com comitivas de poucas dezenas de pessoas, e que muitas vezes passam desapercebidas para o grande público – a viagem de Campos Salles à Buenos Aires no ano seguinte à visita de Roca ao Rio foi em grande estilo. O presidente viajou na companhia de centenas de pessoas, no encouraçado “Riachuelo”, que veio acompanhado de parte da esquadra brasileira, que levava centenas de pessoas que integravam a comitiva presidencial.

Campos Salles permaneceu em Buenos Aires durante uma semana com atividades que incluíram idas à Ópera, ao Hipódromo e diversas recepções com bailes. A ocasião foi tão especial que os dois presidentes foram os protagonistas do primeiro filme rodado na Argentina.

O cinegrafista Eugenio Py gravou as imagens dos dois presidentes conversando em uma escadaria em um palacete portenho. 

 

Chegada de Campos Salles até virou motivo de cartão postal na época da visita. Postal mostra multidão e arco do triunfo no porto.

Depois de Campos Salles passaram várias décadas sem visitas presidenciais brasileiras. Foi necessário esperar até 1935, quando chegou à Buenos Aires o presidente Getúlio Vargas, que aqui reuniu-se com o presidente e general Augustín Justo. Na ocasião, foram assinados 12 acordos bilaterais.

O arquivo da Chancelaria argentina mostra vários dados curiosos sobre a visita de Vargas ao país. Um deles, o desespero da Chancelaria local pela lerdeza da Embaixada argentina no Rio de Janeiro em enviar os dados e fotografias do presidente Vargas para fazer o livro de luxo que celebraria a visita.

Outra peculiaridade teve a pianista Guiomar Novaes como foco, já que o governo brasileiro, a último momento, queria colocá-la de qualquer forma na programação cultural da visita de Vargas à Buenos  Aires. Depois de fortes pressões brasileiras os argentinos deram um jeito e finalmente conseguiram um buraco na agenda das festividades para que ela tocasse no Teatro Cervantes.

O general e presidente Justo à esquerda. À direita, Getúlio Vargas.

M PRESIDENTE FASCINADO – Vargas foi hospedado no Palácio Pereda, no início da elegante Avenida Alvear. Encantado com a mansão, o presidente propôs sua compra, para transformá-la na Embaixada do Brasil. Celedonio Pereda, fazendeiro argentino que havia construído o palacete pouco mais de uma década antes, foi seduzido pelas insistentes ofertas que Vargas fez nos anos seguintes. A compra foi efetivada em maio de 1945, nos derradeiros meses do governo Vargas.

Desde os anos 80 o Palácio Pereda é a residência do embaixador brasileiro. A parte administrativa construída nos anos 80, está perto dali, virando o quarteirão, na rua Cerrito.

Segundo a escritura dos tabeliões Juan e José Toribio, em troca do palácio o governo brasileiro cedeu à família Pereda o prédio da Avenida Callao 1555, até então a embaixada do Brasil, junto com 4 mil toneladas de minério de ferro.

O edifício neo-clássico da sede diplomática localiza-se na frente da Praça Carlos Pellegrini, diante do Jockey Club, quase ao lado da refinada Embaixada da França. Erroneamente, a maioria das pessoas consideram que o palácio está no elegante bairro da Recoleta. Mas, esta começa a três quadras dali. Oficialmente, o palácio está no bairro de Retiro. 

Dutra, acompanhado por Evita Perón. Atrás da primeira-dama argentina, a “Mãe dos pobres”, está a silhueta do general e presidente Juan Domingo Perón.

UTRA E JÂNIO, NA FRONTEIRA - Na seqüência das visitas presidenciais, a seguinte seria a vez do presidente Juan Domingo Perón, que receberia o presidente Eurico Gaspar Dutra em 1947. No entanto, o encontro ocorreria na fronteira, entre a argentina Paso de los Libres e a brasileira Urugaiana (RS). Na ocasião, com a presença de Evita Perón, a primeira-dama argentina, os dois presidentes inauguraram a ponte que liga as duas cidades. Esta seria a primeira entre os dois países, já que ambos lados da fronteira tradicionalmente evitaram a construção de pontes, já que estas podiam servir para a passagem de tropas invasoras do país vizinho.

O trecho da metade da ponte correspondente à Argentina foi inaugurada com o nome de Agustín Justo, ditador da Argentina nos anos 30. Do lado brasileiro, teve o nome do ditador Getúlio Vargas (na época, Vargas somente havia sido ditador; ele ainda não havia sido eleito democraticamente presidente, tal como aconteceria em 1950).

Em abril de 1961 seria realizado o seguinte encontro, também na divisa dos dois países, entre os presidentes Arturo Frondizi e Jânio Quadros. No encontro, os presidentes tiveram opiniões diferentes sobre o contexto regional (a crise de Cuba, a posição perante os EUA) e internacional (a eventual aproximação aos países africanos que começavam a independizar-se e aos países comunistas da Ásia). Mas, assinaram um importante acordo de amizade e consulta. Quadros, que duraria poucos meses no poder, até especulou com Frondizi retirar as tropas brasileiras da área da fronteira com a Argentina, localizadas especialmente no Rio Grande do Sul, e deslocá-las mais para o interior. 

Sorridentes, mas por curto tempo (e por problemas internos): Jânio e Frondizi, na fronteira, no dia 21 de abril de 1961. Jânio duraria quatro meses no poder. Frondizi, 11 meses, antes de ser derrubado pelos militares.

QUINO PRESENTE - Passariam quase duas décadas, quando, en 1980, para apaziguar a tensão surgida entre o Brasil e a Argentina pela construção da hidrelétrica de Itaipu (a obra causava suspicácias no governo argentino e na população do país, que temia que um dia o Brasil poderia abrir suas comportas e alagar várias cidades argentinas), o general João Batista Figueiredo desembarcou em Buenos Aires para reunir-se com o ditador argentino Jorge Rafael Videla. O ditador argentino paparicou o colega brasileiro, que foi presenteado com cavalos Made in Argentina, fato que agradou Figueiredo, um declarado amante da hípica.

De quebra, foi homenageado no estádio do San Lorenzo, time pelo qual Figueiredo havia torcido, quando adolescente, durante o exílio de seu pai, o general Euclides Figueiredo, em Buenos Aires nos anos 30 (o general havia sido exilado pelo governo Vargas por ter participado da revoluçào constitucionalista de 1932).

A visita teve grande impacto, pois foi a terceira viagem de um presidente brasileiro à Argentina em todo o período republicano (os encontros Perón-Dutra e Frondizi-Quadros foram literalmente na fronteira). Videla retribuiu a visita no mesmo ano, indo à Brasília. 

 

Black-tie: Os generais Videla e Figueiredo com suas respectivas primeiras-damas. Figueiredo ganhou cavalo de presente ao visitar Buenos Aires.

NTEGRACIONISTAS E AMIGOS - Depois, em 1985, com ambos países de volta à democracia, o presidente José Sarney reuniu-se com o presidente Raúl Alfonsín sobre a ponte Tancredo Neves (entre a brasileira Foz de Iguaçu e a argentina Puerto Iguazú), inaugurada na ocasião, colocando as bases do futuro Mercosul. O encontro ocorreu nas duas cidades entre os dias 29 e 30 de novembro. No início do século XXI, em homenagem a este passo crucial no aprofundamento das relações entre os dois países, esta última data foi designada o “dia da amizade argentino-brasileira”.

Os dois presidentes assinaram a Declaração Conjunta sobre Política Nuclear. Alfonsín, simbolicamente, visitou Itaipu, que nos dez anos anteriores havia sido a nêmesis para a Argentina.

Em julho de 1986, o presidente brasileiro foi à Argentina. Na ocasião, Alfonsín deu um inesperado gesto de confiança ao receber Sarney e abrir-lhes as portas das instalações atômicas argentinas. Os dois presidentes tornaram-se grandes amigos dali para frente. Eles costumaram realizar visitas mútuas mesmo após terem concluído suas presidências. É o único caso de uma amizade sólida entre presidentes do Brasil e da Argentina que perdurou mesmo após seus períodos de governo. Quando Alfonsín faleceu, em 2009, Sarney foi o único orador estrangeiro a ter a honraria de discursar no enterro.

As cataratas do Iguaçu fazem pose enquanto Sarney e Alfonsín ficam na frente. Foto de 1985 de Victor Bugge, fotógrafo histórico da presidência da República Argentina.

HC, TRADUTOR DE ‘EL TURCO’ – Depois, de Sarney, as visitas presidenciais brasileiras tornaram-se corriqueiras. Foram à Buenos Aires Fernando Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Este último causava profunda inveja no presidente Carlos Menem (1989-99), ao falar com a imprensa argentina em espanhol e com os correspondentes estrangeiros em inglês ou francês. Em diversas ocasiões o políglota FHC serviu de tradutor de coletivas de imprensa para “El Turco”, que era monoglota (o macarrônico inglês de Menem era a delícia dos humoristas argentinos).

FHC continuou visitando Buenos Aires nos anos seguintes ao fim de seu mandato para dar conferências. O ex-presidente continuou tendo tratamento de super-star na mídia e na intelectualidade portenha.

Kirchner, na época em que era presidente; Cristina, nos tempos em que era primeira-dama. E Lula, em seu segundo mandato.

ISITANTE ASSÍDUO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi outro visitante freqüente em seu primeiro e segundo mandato, batendo todos os recordes protagonizados por seus antecessores. Nos primeiros meses de governo, em 2003, visitou o então presidente provisório Eduardo Duhalde (2002-2003), que estava em seus últimos meses de mandato e com quem teve excelente feeling pessoal.

Na seqüência, o anfitrião passou a ser Néstor Kirchner, que tornou-se presidente em maio de 2003. Lula o visitou várias vezes. A partir de dezembro de 2007, os Kirchners continuaram no poder, mas por intermédio da esposa de Néstor, Cristina, que combinou dois encontros presidenciais por semestre com Lula.

O temperamental Kirchner oscilou entre períodos de idílio e de turbulências com Lula. O presidente brasileiro foi pego de supresa várias vezes pelas guinadas drásticas de Kirchner, especialmente as inesperadas medidas protecionistas para – atendendo os pedidos das indústrias nacionais – prevenir as alardeadas – e hipotéticas - “invasões de produtos” Made in Brazil no mercado argentino.

Desta forma, nem todas as ocasiões de visitas de Lula à Buenos Aires e outras cidades argentinas (especialmente para cúpulas do Mercosul) puderam ser definidas de “prazenteiras”. A tensão prevaleceu durante a administração de Néstor Kirchner.

Já com Cristina Kirchner, as cúpulas mantiveram um clima relativamente mais pacífico. Cristina costumava elogiar o empresariado brasileiro, como modelo a ser seguido pela Argentina.

Em todas suas visitas Lula causou frisson na esquerda argentina e exclamações de admiração no establishment portenho. No entanto, o frisson da esquerda foi uma sensação que diminuiu com o passar dos anos, já que setores da esquerda local foram decepcionando-se com a guinada para o centro (ou centro-direita, segundo alguns) do ex-torneiro mecânico. O wishful thinking de que Lula ainda supostamente permanecia - no fundo do coração - um homem socialista, consolava diversos setores progressistas argentinos. Diversas pesquisas, ao longo dos anos, indicaram que se um presidente estrangeiro pudesse ser candidato a presidente na Argentina, Lula venceria outros políticos do exterior, além dos próprios candidatos argentinos.

PRIMEIRA VISITA DE DILMA – A presidente Dilma Rousseff desembarcará em Buenos Aires nesta segunda-feira de manhã, às 11:00 horas, para uma intensa agenda que desenvolverá em poucas horas com sua anfitriã, a presidente Cristina Kirchner, e os ministros argentinos. Embora a visita seja breve, já que a presidente Dilma partirá à tarde, após o almoço de honra que o governo Kirchner organizou no elegante palácio San Martín, sede da chancelaria argentina, o plano de Cristina é o de receber Dilma com toda pompa para este primeiro encontro oficial entre as duas únicas mulheres que atualmente são presidentes na América do Sul.

 

HILIQUE PELO PÃO DE QUEIJO – Segundo fontes diplomáticas brasileiras, no início dos anos 90, durante uma visita à Buenos Aires, acompanhando seu emtão marido - o presidente Fernando Collor de Mello - Rosane Collor teria protagonizado um insólito chilique. A então primeira-dama pediu aos gritos a demissão da cozinheira da Embaixada do Brasil em Buenos Aires. O motivo da exigência da jovem de Canapi era que a quituteira argentina não sabia preparar o brasileiríssimo pão de queijo, na época, um elemento fundamental do regime do café da manhã da então primeira-dama.

Pão de queijo, o quitute da divergência.

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Alfonsín (filho), em uma rara foto na qual imita o gesto de vitória de Alfonsín (pai).

Ricardo Luis Alfonsín é definido com frequência como um semi-clone de seu pais, Raúl Ricardo Alfonsín, presidente da Argentina entre 1983 e 1989. Sua voz e o cabelo (embora com entradas significativamente maiores), além do bigode que ostenta lembram o falecido pai, primeiro presidente civil com a volta da democracia. Ser “filho de” teve seus prós e seus contras, sendo usado tanto para elogiá-lo como para condicioná-lo.

Com certa frequência os fotógrafos pedem que ele faça o gesto clássico de seu pai com os braços semi-esticados e as mãos entrelaçadas em sinal de vitória. Mas, quase sempre, Alfonsín nega-se a fazer o gesto que caracterizou o pai.

Alfonsín filho formou-se como professor na escola normalista de Chascomús, no interior da província de Buenos Aires. Na sequência estudou Direito na Universidade de La Plata e na Universidade de Buenos Aires. Antes de formar-se como advogado sustentava-se economicamente vendendo em fábricas brocas para tornos mecânicos. Na sequência casou com Cecilia Plorutti e teve quatro filhos.

Era o filho de um político de peso na UCR mas não se interessava por política. Até os 32 anos somente lia filosofia (Miguel de Unamuno, José Ortega y Gasset, entre outros).

Mas, em 1983 seu pai foi eleito presidente da República, o primeiro com a volta da democracia. A política tornou-se assunto predominante nas reuniões familiares. Ricardo Alfonsín – que não teve cargo no governo do pai – largou as leituras de filosofia e começou a ler livros de teoria política e conjuntura que resumia para o pai.

Posse de Alfonsín (pai) em dezembro de 1983 foi um evento marcante para o retorno à democracia na América do Sul.

No entanto, apesar de estar rodeado de política, Ricardo Alfonsín só foi candidato em 1999, uma década depois do final do governo paterno. Nesse ano foi eleito deputado provincial. Tinha 47 anos. Era a primeira vez que exercia um cargo público.

Em 2004 sua filha, que estudava na escola primária, morreu com a artéria femoral cortada por um estilhaço de vidro. A morte da criança abalou toda a família. A partir dali – para esquecer a tragédia, dizem alguns analistas – Alfonsín dedicou-se com mais intensidade à carreira política.

A morte de Alfonsín pai, em 2009, causada por um arrasador câncer, teve o efeito de uma catapulta política para Alfonsín filho. No velório – que reuniu 100 mil pessoas no Congresso Nacional – e no funeral a figura do pai defunto foi enaltecida como um exemplo de honestidade e sobriedade, apesar do fracasso econômico dos últimos anos de seu governo.

Nesse momento Alfonsín filho despontou como a eventual figura de consenso que – graças à mística do pai – poderia reunir os divididos setores da UCR.

Nos últimos dias reuniu-se com o líder do partido socialista, o governador da província de Santa Fe, Hermes Binner. Os dois deram a entender que poderiam formar uma chapa que reuniria a UCR com os socialistas.

O sociólogo Gabriel Puricelli considera que entre as virtudes de Alfonsín estão: “sua simplicidade e mensagens diretas. É crítico, mas trata com respeito. Firme, mas não irritadiço. Ele faz oposição de forma leal, seguindo as regras do jogo”.

Por outro lado, Puricelli diz que entre seus defeitos estão: “a falta de gestão executiva e um jeitão bonachão que uma boa parte da cidadania por encarar como potencial fraqueza”.

O cientista político Guillermo O’Donnell ressalta que Alfonsín filho possui uma característica pouco frequente nos políticos: “se ele não sabe algo sobre algum assunto, ele vai e pergunta a quem sabe”.

Alfonsín afirma que espera que o eleitorado supere a ideia de que a UCR “não consegue governar”. Motivos existem de sobra, já que em 1989 o governo da UCR protagonizado por seu pai teve que renunciar quando só faltavam seis meses para o fim de seu mandato, em meio ao tumulto da hiperinflação, as greves gerais convocadas pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) – a central sindical aliada do peronismo – e de rebeliões militares. Em 2001 foi a vez do então presidente Fernando De la Rúa, também da UCR, renunciar em meio à pior crise social da História argentina.

Caso Alfonsín seja eleito, ocorreria um fenômeno que somente aconteceu uma vez na História argentina: pai e filho presidentes. O único caso até agora registrado foi o de Luis Sáenz Peña (1892-1895) e Roque Sáenz Peña (1910-1914). 

Sanz, o senador que ambiciona tornar-se o primeiro presidente do país proveniente da província de Mendoza

ERNESTO SANZ, O SEMI-DESCONHECIDO QUE AMBICIONA A PRESIDÊNCIA: O nome de Ernesto Sanz é cada vez mais pronunciado como um potencial presidenciável para representar UCR. Este senador da província de Mendoza era praticamente desconhecido fora de sua província até que os intensos debates que agitaram o Senado argentino nos últimos três anos – dos quais foi uma das estrelas – o tornaram “menos desconhecido” do grande público.

Diversos setores da UCR passaran a encará-lo como um virtual candidato “novo”, sem vínculos (por parentesco) com o passado, como Alfonsín, ou sem as polêmicas atitudes de “traição” de Cobos (que deixou o partido para passar temporariamente às fileiras kirchneristas…para depois retornar ao partido original).

Formado em Direito, Sanz entrou na política em 1982, quando o país movimentava-se na direção do final da ditadura militar e a volta para a democracia.

Eleito presidente da juventude da UCR de sua província, Sanz fez uma carreira gradual e lenta na política, passando de prefeito de sua cidade, San Rafael, ao posto de senador provincial (na Argentina diversas províncias contam, além da assembleia legislativa, com um mini-senado local). Em 2003 tornou-se senador federal. E em 2009 foi empossado no posto de presidente da UCR.

Sóbrio, sem envolvimentos em casos de corrupção, afirma que pretende criar uma grande comissão que faça um levantamento dos escândalos de subornos e propinas das últimas décadas e levar os responsáveis ao banco dos réus.

Perante a falta de nomes de consenso na oposição, Sanz começou a ser visto nos partidos rivais como uma opção definida como “interessante” para respaldar em um eventual segundo turno presidencial.

Seus críticos, no entanto, afirmam que ele é muito “novo” e que deveria esperar as eleições presidenciais de 2015.

Mais detalhes sobre o partido de Sanz e Alfonsín, a UCR, aqui.

   

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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“Lilita” para os amigos; “La Gorda” segundo seus críticos; e “periférica e provinciana” segundo a própria líder da Coalizão Cívica. Caricatura de El Niño Rodríguez. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/

“Cavaleira templária da República”. Esta é uma das definições aplicadas a Elisa Avelina Carrió, conhecida por sua honestidade – definida como “inquestionável” mesmo por seus rivais – e a visceral luta pela ética (na costumeiramente corrupta política argentina). Desde que entrou na política por acaso em 1994, ela foi considerada o “bastião da pureza republicana” e a principal fonte de denúncias de casos de corrupção dos governos de plantão.

Seus inimigos, ex-colegas e atuais correligionários reconhecem que possui um temperamento político “apaixonado”, “retumbante” e “genial”. Mas, também afirmam que freqüentemente é “precipitada” e “intempestiva”, além de mudar de planos constantemente. Os críticos também a acusam de ser “apocalíptica”, já que constantemente alerta para cenários políticos caóticos.

Carrió nasceu em 1956 na cidade de Resistencia, capital da província do Chaco, no norte do país. Na juventude, graças à sua longilínea figura, foi Miss provincial. Casou-se aos 17 anos e foi mãe pouco depois. Tudo indicava que Elisa Carrió seria uma esposa dócil, tal como milhares no machista norte da Argentina. Mas o destino lhe reservava uma guinada.

Em 1994, seu pai, um caudilho local da União Cívica Radical (UCR), estava doente. Ele pediu à filha que participasse em seu lugar da Constituinte de 1994, que reformaria Carta Magna.

Desta forma, “Lilita”, como era chamada carinhosamente pelos parentes e amigos, largou advocacia e – apadrinhada pelo pai e o ex-presidente Raúl Alfonsín, entrou na política. Esta atividade coincidiu com um aumento exponencial de peso que lhe valeu o apelido de “La Gorda” (A Gorda), utilizado tanto pelos fãs como seus críticos.

“Gorda, provinciana, marginal e periférica”. Normalmente esta seqüência de adjetivos seria proferida por alguém contra um inimigo. No entanto, é a auto-definição que Carrió orgulhosamente ostenta.

Esta robusta parlamentar chacoalhou a política argentina ao denunciar casos de corrupção dos governos dos ex-presidentes Carlos Menem, Fernando De la Rúa e Néstor Kirchner. Além disso – algo insólito neste país – levou as investigações até o final, apesar da oposições dos governos de plantão e de parte da oposição que poderia ser envolvida nos escândalos.

No ano 2000 deixou a UCR e fundou seu próprio partido, o Alternativa por uma República Igualitária (ARI). Depois deixou o partido e criou a Coalizão Cívica, uma união de tecnocratas, políticos e intelectuais que pretendem realizar uma “limpeza ética” da República. Carrió afirma que a Argentina é governada por máfias.

Em 2003 foi candidata presidencial. Nas urnas ficou em quinto lugar, com 14,05% dos votos.

Em 2007, ano da vitória de Cristina Kirchner nas eleições presidenciais, Carrió ficou em segundo lugar, com 23,04% dos votos.

Nas eleições parlamentares de 2009 Carrió formou uma coalizão com a UCR e o Partido Socialista, o Acordo Cívico e Social, que transformou-se na força política mais votada do país. No entanto, em 2010 a própria ‘Lilita’ deixou essa aliança, levando consigo parte de seu partido.

Carrió não esconde seu fervor religioso. Vai à missa diariamente em qualquer parte do mundo em que estiver. Sua casa está cheia de imagens da Virgem Maria. Os analistas afirmam que ela se considera destinada à gesta de limpar a Argentina da corrupção endêmica. São freqüentes as comparações com Joana D’Arc ou a mística freira Juana Inés de la Cruz.

Alternando gíria com elaboradas análises sociológicas, esta leitora de Soren Kierkgaard e Sigmund Freud costuma deixar boquiabertos jornalistas e parlamentares com analogias filosóficas e psicanalíticas sobre a política nativa. 

Søren Kierkegaard, filósofo preferido da presidenciável argentina. Esboço feito em 1840 por Niels Christian Kierkegaard.

CRUZ - Profundamente religiosa, carrega no peito uma anabolizada cruz da Santíssima Trinidade e vai à missa todo dia.

EX-SARTRIANA - “Fui sartriana. Mas agora sou mais para o lado de Kierkgaard…Nunca gostei do poder”.

PREÇOS - “Há preços que nunca vou pagar. Um deles é ter aparato”. 

   

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Juan Domingo Perón, embora defunto há 36 anos, ainda ganha eleições

“Na Argentina, os mortos participam em eleições”. A frase é de Claudio Negrete, autor de “Necromania: História de uma paixão argentina”. Segundo ele, “líderes políticos mortos – carregando a saudade pelo passado – voltarão com força na campanha eleitoral do ano que vem”. O ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), morto na quarta-feira, velado na quinta e enterrado na sexta após um funeral que reuniu dezenas de milhares de pessoas, “já ganhou seu espaço na cultura necrômana nacional. Kirchner acaba de entrar para a galeria dos ilustres mortos que a sociedade argentina se encarregará de manter vivo”, sustenta. “O ex-presidente terá direito a ter santuários, homenagens permanentes, grupos políticos que ostentarão seu nome e continuará liderando atos políticos e marchas”.

O historiador Daniel Balmaceda, autor de “Histórias insólitas da História argentina”, concorda. “Os argentinos costumam ser muito dedicados à necromania, à veneração e utilização política dos mortos”, disse ao Estado.

“Esse é um costume iniciado no final do século dezenove, época na qual as datas nacionais começaram a ser marcadas pelos dias fúnebres. Por exemplo, o ex-presidente Domingo Sarmiento (que implantou o ensino público gratuito) morreu em um dia 11 de setembro. Essa data virou dia do professor. E, o dia em que seu corpo chegou em Buenos Aires para o funeral de Estado, um dia 21 de setembro, transformou-se no dia do estudante! No caso do general Manuel Belgrano, que criou a bandeira argentina, o dia de sua morte, 20 de junho, foi usado para o dia da bandeira”, ilustra o historiador.

Segundo Balmaceda, “a morte de um político importante, na Argentina é considerado o momento em que ele ‘passa à imortalidade’. Isto é, o dia que entrou na glória. Essa pessoa deixa de ser como nós… passa a ser uma espécie de ‘imortal’!”.

 

Néstor Kirchner, morto há menos de um mês, já está sendo usado politicamente. Cartazes espalhados em Buenos Aires ostentam os dizeres “Néstor con Perón, Cristina com el pueblo” (Néstor com Perón, Cristina com o povo). Isto é, Kirchner estaria no além, ao lado de Perón, observando (e celestialmente respaldando) a política de Cristina, que ficou na terra, com “el pueblo”.

Abaixo, fotomontagem que circula na internet, mostra Kirchner sorridente ao lado de Evita e Perón no além. Militantes kirchneristas querem equiparar o recentemente defunto líder com o casal Perón. Diversos ministros e líderes sindicais compararam Kirchner a Perón.

 Com a teoria de que “os mortos na Argentina desfrutam de boa saúde”, Negrete ilustra o efeito dos mortos na política: “Evita vive, Perón vive, Alfonsín vive e Kirchner também”.

 Como se estivesse vivo, as frases do presidente Juan Domingo Perón são citadas diariamente pelos políticos argentinos. Peronistas neoliberais e peronistas esquerdistas usam as mesmas frases – com diferentes interpretações – para justificar medidas políticas. Além disso, a imagem de Perón está presente em comícios e nos cartazes eleitorais, como se o próprio general – morto em 1974 – fosse o candidato.

O uso político dos funerais, embora tenha tido mais destaque entre os integrantes do Partido Justicialista (Peronista), também foi aplicado por outros partidos políticos argentinos.

Balmaceda destaca que o funeral do ex-presidente Raúl Alfonsín, que no ano passado mobilizou mais de 180 mil pessoas (o maior funeral desde a volta da democracia) serviu para resgatar a imagem do ex-presidente morto, além da própria popularidade de seu partido, a União Cívica Radical (UCR), que aproveitou a ocasião para reunir suas forças, divididas até então por uma série de divergências.

De quebra, o funeral catapultou seu filho, Ricardo Alfonsín, ao centro do cenário político. Ele passou de ser quase desconhecido da população a transformar-se em um dos principais presidenciáveis para as eleições de 2011.

 

Funeral de Alfonsín serviu de catapulta para seu quase ignoto filho, Ricardo Alfonsín., que transformou-se em um dos dois principais candidatos de seu partido, a União Cívica Radical (UCR).

MINUTO DE SILÊNCIO DIÁRIO - Eva María Duarte de Perón, mais conhecida como “Evita”, morreu no dia 26 de julho de 1952. A hora de sua morte, 20:25, transformou-se, durante meses, em um momento de silêncio absoluto. “Na rádio faziam um minuto de silêncio todos os dias, durante meses. Quem interrompia o silêncio nas ruas corria o risco de ser preso”, explica ao Estado o historiador Daniel Balmaceda.

Quando Evita morreu, o governo decretou 30 dias de luto nacional. O velório durou 14 dias. O corpo da “Mãe dos pobres” precisou um tratamento químico para evitar sua decomposição . Posteriormente foi embalsamada.

O funeral foi monumental e planejado em cada detalhe por Alejandro Apod, secretário de Propaganda, mais conhecido como o “Goebbels” do presidente Juan Domingo Perón.

Mais de três milhões de pessoas teriam dado o último adeus à mulher do presidente. Perón uso a procissão como um plebiscito fúnebre.

A magnitude das cerimônias fúnebres da “porta-estandarte dos humildes” inspirou, três décadas depois, a ópera rock “Evita”, de Andrew Loyd Weber, que nos anos 90 foi transformada em filme por Alan Parker.

Com sua morte, Evita virou nome de cidade (La Plata, capital da província de Buenos Aires foi rebatizada como “Ciudad Evita”) e província (La Pampa perdeu o nome e foi designada “província Eva Perón”).

Viva, Evita havia sido a principal agente de mobilização de massas. Morta, o nome e a imagem de Evita estava em todos os lugares, servindo de garota propaganda do governo do viúvo, o presidente e general Juan Domingo Perón.

O médico espanhol Pedro Ara, autor da preservação do cadáver de Evita. O especialista observa sua obra.

UM CADÁVER ‘TROFÉU’ – Evita não teve um post-mortem plácido. Primeira integrante do casal a ir para o além, em 1952 foi embalsamada. Em 1955, seu viúvo foi derrubado por um golpe militar. O corpo de Evita foi sequestrado pelos militares a modo de troféu.

Nos meses seguintes, oficiais anti-peronistas vingaram-se violando o corpo embalsamado e urinando sobre ele, além de esfaquear o cadáver e quebrar seu nariz.

Em 1956, o oficial que ficou a cargo de esconder o caixão, o coronel Eugenio Moori Koenig, ordenou ao major Eduardo Arandía que guardasse o corpo. Arandía o escondeu no sótão de sua casa e trancou a porta a chave, sem contar nada à sua esposa, Elvira Herrero.

Uma noite, Elvira, ciumenta de que seu marido guardava algum segredo no sótão, foi abrir a porta. O major, que já estava paranoico (alguns historiadores dizem que estava mentalmente perturbado pela complexa tarefa que lhe cabia) ao ouvir um barulho nessa área da casa, pegou seu revólver. Ao ver uma silhueta na escuridão, atirou, matando com dois tiros sua esposa Elvira, grávida de dois meses. Outros dizem que Arandía estava em pleno pleno delírio, e ao ver a silhueta da esposa, achou que estava vendo o fantasma da própria Evita em sua sala.

Posteriomente os militares decidiram que era melhor escondê-lo longe da Argentina, país onde era considerada “santa” pelos operários. A saída foi enterrá-la em uma igreja em Milão, com nome falso.

Em 1972, quando Perón estava a ponto de voltar para a Argentina, foram realizadas negociações com os militares para reaver o corpo. O grupo guerrilheiro Montoneros, para pressionar as Forças Armadas, sequestrou o corpo do general Eugenio Aramburu (que eles próprios haviam assassinado anos antes). O corpo de Aramburu só apareceu poucas horas antes de Perón pousar em Buenos Aires, já contando com o caixão de Evita.

Em 1974 Perón morreu. Durante dois anos os corpos de Perón e Evita estiveram em uma sala na residência oficial de Olivos. O governo estava nas mãos da terceira esposa de Perón, María Estela ‘Isabelita’ Martínez de Perón. Aconselhada pelo ministro José López Rega, um astrólogo conhecido como “El Brujo” (O Bruxo), Isabelita deitava-se em cima do caixão de Evita para obter desta os “fluidos energéticos” que lhe proporcionariam o carisma do qual carecia.

“El Brujo” pretendia construir um mega-mausoléu em Buenos Aires para enterrar Perón e Evita, que seria coroado por uma estátua mais alta que a da Estátua da Liberdade em Nova York. As britadeiras começaram o trabalho, mas, o golpe de 1976 interrompeu as megalômanas obras. Perón foi colocado em Chacarita e Evita, longe dali, na Recoleta.

Durante três décadas lideranças peronistas pretenderam “reunir” o emblemático casal. Após o tumultuado enterro de Perón no mausoléu de San Vicente no meio do tiroteio, foram por água abaixo as negociações com a família de Evita. “Ela continuará na Recoleta”, afirmaram de forma categórica.

IMAGEM – Com a volta da democracia, em 1983, sua imagem foi novamente usada pelo peronismo para decorar cartazes eleitorais. Passaram mais décadas e Evita continua presente. A presidente Cristina Kirchner costuma discursar sob uma imensa imagem da “protetora dos descamisados”.

 

As mãos do general – que saudaram milhões de frenéticos admiradores – desapareceram há 23 anos. Nunca mais soube-se coisa alguma delas.

MÃOS E TIROTEIO - Uma manhã de julho de 1987 o zelador do Cemitério de Chacarita percebeu que o mausoléu onde estava enterrado Perón havia sido violado. Lá dentro, o corpo do fundador do Peronismo jazia dentro de seu uniforme de gala. Mas, suas mãos – as mais famosas extremidades da História do país, que haviam transformado-se em um símbolo com as quais saudava o povo desde o emblemático balcão da Casa Rosada – não estavam ali. Elas haviam sido decepadas e roubadas. Até hoje seu paradeiro é desconhecido. Também ignora-se o autor da profanação. Nos últimos 23 anos, jamais ocorreram reivindicações do atentado.

Mas, de 1987 para cá o corpo de Perón não descansou em paz. Em 2006 líderes peronistas decidiram levar o corpo a um novo e grande mausoléu em San Vicente, na Grande Buenos Aires.

No dia 17 de outubro – a data peronista par excellence – o féretro foi removido da Chacarita. Milhares de velhos militantes acotovelaram-se para – pela segunda vez na História – dar adeus a Perón.

Mas, sete horas depois o funeral terminava abruptamente. Ao chegar a San Vicente, grupos sindicalistas rivais disputaram a honra de carregar as alças do caixão com um desenfreado tiroteio. Às pressas, a guarda dos granaderos conseguiu colocar o caixão no mausoléu.

CRONOLOGIA DA AGITADA VIDA DE PERÓN COMO CADÁVER

- Juan Domingo Perón morre aos 78 anos no dia 1 de julho de 1974

- Após três dias de velório no Congresso Nacional, é levado à residência oficial de Olivos, e colocado em um salão, ao lado do corpo de Eva Duarte de Perón. Sua esposa, que era sua vice e que assume como presidente, María Estela Martínez de Perón (mais conhecida como Isabelita) decide deixar os corpos ali enquanto planeja a construção de um monumento megalomaníaco, três vezes maior que a estátua da Liberdade, em pleno bairro de Palermo.

- Março de 1976: um golpe militar derruba Isabelita e começa a pensar o que fazer com os dois corpos. No mesmo ano o corpo de Evita é devolvido à família Duarte, e colocado no cemitério da Recoleta. O corpo de Perón é colocado secretamente, no dia 13 de janeiro de 1977, no modesto mausoléu de seu avô, no cemitério de La Chacarita.

- Em 1987 o túmulo de Perón é violado. Suas mãos, cortadas, nunca mais apareceram. Nenhum grupo atribuiu-se esse atentado.

- Em 2002 o então presidente Duhalde e outros líderes peronistas planejam a construção do Mausoléu em San Vicente.

- Em outubro de 2006 o mausoléu está pronto. O corpo de Perón é transportado para San Vicente. O funeral termina em fracasso, em meio a um tiroteio entre sindicalistas.

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