Em Buenos Aires (Buenos Aires mesmo) Bono degustou fervorosamente a carne bovina local entre um show e outro em La Plata (que ele insistia em chamar “Buenos Aires”). Acima, pacífico boi em ilustração do século XIX.
“Muito feliz de estar em Buenos Aires!”. A frase, exclamada por Bono, líder do grupo U2, foi carinhosamente ignorada pelos fãs, que o ovacionaram apesar da gafe. Bono, na realidade, estava a 57 quilômetros de Buenos Aires, no estádio da pacata cidade de La Plata. Ali, no sábado, onde fez a segunda apresentação em território argentino do tour “360°” o cantor também expressou que não tinha vontade de ir embora do país. Como resposta, os 60 mil fãs que havia aglutinado em La Plata entoaram um longo “Bono no se va…Bono no se va!” (Bono não vai embora, Bono não vai embora!). Na sequência, o irlandês fez uma dissertação apologética sobre as garotas, o tango, a gastronomia argentina e os bairros portenhos de Palermo e San Telmo.
“Son unos bonbones” (“São uns bombons”, expressão argentina usada para exaltar a beleza física das mulheres) proferiu Bono em espanhol – com forte sotaque dublinense – para delírio das fãs e concordância do público masculino.
No entanto, o estádio entrou em frenesi quando Bono convidou uma adolescente da plateia para subir no palco e ajudá-lo a ler em espanhol a letra de “Gracias a la vida”, a canção – segundo o roqueiro irlandês – que é a preferida de todos os integrantes do U2. Junto com a jovem, que coincidentemente sabia a letra de cor e salteado – pronunciou os versos da poetisa e cantora chilena Violeta Parra (1917-1967), que tornaram-se mundialmente famosos na voz da cantora argentina Mercedes Sosa (1935-2009). Apesar dos erros de pronúncia do irlandês – e de algumas falhas na letra – os fãs celebraram a interpretação pitoresca de Bono sobre esta música sul-americana.
Bono, além de paparicar o público nativo, também fez diversas enfáticas defesas dos Direitos Humanos em todo o planeta e realizou uma homenagem à birmanesa Aung San Su Kyi, Prêmio Nobel da Paz de 1991, por sua luta contra a ditadura em seu país. Depois, um grupo de jovens fãs caminharam no palco carregando lanternas com o símbolo da organização Anistia Internacional.
Ontem, domingo, o U2, grupo que em setembro completará 35 anos de existência, fez seu terceiro e derradeiro show na Argentina, antes de partir para o Brasil.
Ludovico teve seu espaço entre Muse e U2. Entre uma banda e outra Bono colocou o primeiro movimento da sexta sinfonia de Ludwig van Beethoven para deleite do blogueiro que vos escreve. Pelo visto, o público também apreciou o inusitado intermezzo musical com esta bicentenária melodia do compositor Made in Bonn. Para ouvir a melodia de LvB, clique aqui.
BEETHOVEN E ROCK - O prelúdio do show foi realizado pela banda inglesa Muse, que – sob o comando de Matthew Bellamy (cuja esposa, a atriz Kate Hudson, esteve em Buenos Aires nos últimos dias para acompanhar o marido) – começou a preparar o clima para o U2.
Após a apresentação da Muse – e antes do início do show do U2 – o público ouviu pelos alto-falantes do estádio a canção “Música ligeira”, do roqueiro argentino Gustavo Cerati, que está em coma por um AVC desde o ano passado. A plateia reagiu com um estrondoso aplauso em agradecimento ao U2 pela homenagem ao músico argentino.
A outra surpresa seguiu na sequência, quando o estádio foi embalado com os acordes do primeiro movimento da sexta sinfonia de Ludwig van Beethoven. Após a bicentenária melodia do compositor alemão houve uma pausa. Na sequência, sob os urros da plateia, entraram no palco Bono, o guitarrista (e também cantor) The Edge, o baixista Adam Clayton e o percussionista Larry Mullen. O pontapé inicial do show do sábado foi a canção “Ever better than the real thing”, marcada pela guitarra de The Edge. Depois, ao longo de duas horas e meia de show, o grupo embalou a noitada com “New Year’s Day”, “Stand by me”, “Bloody Sunday” e “With or without you”, entre outros hits.
Passos de tango. Guia básico para roqueiros irlandeses e resto do planeta.
TANGO, TEQUILA E CRISTINA - Durante sua estadia de uma semana em terras argentinas Bono e seus parceiros do grupo desfrutaram intensamente a noite portenha. O líder do U2 visitou os restaurantes da moda – entre os quais o “Fervor”, no bairro da Recoleta – para degustar quase todas as noites a suculenta carne bovina local. Além disso, foi a refinados shows de tango, entre eles, o “Rojo Tango”, no hotel Faena.
Depois de umas rodadas de tequila Bono e The Edge ensaiaram com as bailarinas do espetáculo alguns passos de tango. As risadas do grupo acordaram o ator americano John Cusack, hospedado no hotel (ele está rodando um filme na cidade), que desceu ao salão de tango e convidou o quarteto irlandês para uns drinques no Library Lounge do estabelecimento.
Durante sua estadia Bono também manteve uma reunião de uma hora com a presidente Cristina Kirchner, sua declarada fã. Bono deu de presente à presidente um reprodutor digital com as canções do grupo. No entanto, saiu da Casa Rosada, o palácio presidencial, sem obséquios da presidente.
PIADINHAS – No sábado, durante o show, Bono também fez piadinhas sobre seus colegas de banda. Segundo ele, Mullen, “quando dança, estamos em problemas”. Sobre Clayton, explicou que “bebeu muito chimarrão em Buenos Aires” e que “teve a companhia de belas argentinas”. Sobre seu guitarrista, fez mistério: “ah, e The Edge… ah…”.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
Taça de torrontés da adega Colomé, na província de Salta (foto de Ariel Palacios)
“É elemento básico da identidade argentina!”. Com esta exclamação a presidente Cristina Kirchner declarou o vinho como a “bebida nacional” oficial da Argentina. O anúncio sobre o vinho – produto que representa 1,37% do PIB argentino – foi realizado durante uma cerimônia com toda pompa no antigo palácio dos Correios. Desta forma, o vinho argentino passará a ter respaldo oficial e estará presente nas embaixadas e consulados argentinos, eventos governamentais internacionais, além de receber diversos estímulos para a expansão das exportações. “O vinho tem a ver com a cultura de nosso povo”, disse a presidente, que também recomendou – em tom professoral – “beber com moderação”.
A Argentina é quinto maior produtor mundial de vinho, com 1,375 bilhão de litros. Além disso, é o sétimo maior exportador, com 230 milhões de litros. “Só não exportamos mais porque temos um mercado interno muito poderoso”, disse a presidente Cristina. Entre os cinco principais mercados de exportação estão os Estados Unidos, Canadá, Brasil, Grã-Bretanha e Holanda.
O país está no nono lugar em superfície cultivada, com 228 mil hectares. A produção vinícola está concentrada nas províncias de Mendoza, San Juan, Salta, La Rioja, Catamarca, Neuquén e Río Negro. O setor emprega 400 mil pessoas de forma direta e indireta.
No total, existem 400 adegas argentinas disputam o mercado para colocar 3.500 marcas.
Nos primeiros dez meses deste ano as vendas de vinho foram de US$ 2,63 bilhões.
O ministro da Agricultura, Julián Domínguez, afirmou que o volume comercializado neste ano foi de 1,3 bilhão de litros. Do total, 77% foi vendido no mercado interno, enquanto que 23% foi exportado.
AUGE DO MALBEC – No quesito consumo de vinho a Argentina está no sétimo posto no ranking mundial. Em média cada argentino bebe 26,7 litros anuais, segundo dados do Instituto Nacional de Vinícolas. O volume registra uma queda em comparação com o ano 2000, quando os argentinos bebiam 37,7 litros per capita. “Menos, mas melhor qualidade” afirmam os donos das adegas.
Nos últimos anos cresceu a preferência pelos tintos, que passaram de 71% das vendas no mercado interno em 2004 para 77% do total neste ano, segundo uma pesquisa da consultoria CCR elaborada para o Fundo Vinícola. Entre os tintos, as preferências dos argentinos focalizou-se no Malbec e no Cabernet Sauvignon.
A venda dos Malbec disparou em 122% em volume entre 2004 e 2010. Atualmente esta uva representa 21,6% do total de litros de vinho tinto. Há seis anos representava 10,4% do consumo argentino.
O Cabernet Sauvignon está nos calcanhares do Malbec, pois passou no mesmo período de 11,7% para 18%.
A cômica campanha para o consumo do vinho de 2008, aqui
… e aqui.
E esta publicidad dos vinhos Hereford, um spot com um inesperado desfecho, aqui.
Outro, em tom de humor, do vinho Toro, aqui.
Libertango, de Astor Piazzolla, com o “Cello project”, aqui.
Outra vez Libertango, mas com Yo Yo Ma no cello e Néstor Marconi no bandoneón. Aqui.
Do grupo satírico musical “Les Luthiers”, uma composição do eterno Johann Sebastian Mastropiero (o alter ego do grupo): “Candonga de los colectiveros” (uma ácida visão dos portenhos motoristas de ônibus). Aqui.
E nada a ver com tango, mas com duas terras-mães da Argentina, a Espanha e a Itália. Ergo, temos de Luigi Boccherini a ‘Ritirata notturna di Madrid’. Aqui.
E para encerrar, uma tirinha de Quino, com o preguiçoso Felipe. Bom fim de semana a todos!
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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A corrupção tem um marco na arquitetura portenha. Trata-se do colossal edifício que nos anos 40 albergou o antigo Ministério de Obras Públicas e que atualmente é a sede da pasta de Ação Social. O prédio ostenta em uma de suas esquinas o único ‘monumento à propina’ conhecido no planeta. É estátua de um homem que, com pouca sutileza, coloca os dedos abertos estratégicamente para o lado, na espera de uma “molhada de mão”. O arquiteto colocou a estátua como recado futuro sobre as eventuais negociatas que seriam protagonizadas no edifício. O detalhe da mão passou desapercebido durante anos.
O governo da presidente Cristina Kirchner transformou-se no alvo de denúncias de partidos da oposição, que acusam a Casa Rosada – o palácio presidencial – de tentar subornar deputados, oferecendo propinas para que estes facilitassem a aprovação do projeto de Orçamento Nacional na Câmara de Deputados, debatido e votado na madrugada da quinta-feira. Este é o primeiro escândalo de corrupção que envolve a administração da presidente Cristina após a morte de seu marido ex-presidente Néstor Kirchner, considerado o verdadeiro poder no governo de sua mulher.
Duas deputadas afirmaram publicamente que foram alvos de pressões e ofertas de propinas por parte de altos funcionários do governo. As suspeitas foram reforçadas pela constatação de que – coincidentemente – doze deputados de partidos da oposição foram embora misteriosamente do plenário pouco antes da votação, fato que favoreceria o governo.
Diversos parlamentares indicaram à imprensa que haviam recebido de integrantes do governo telefonemas com pressões ou um amplo leque de ofertas que iam desde subornos explícitos a verbas para suas províncias, além de contratos.
“Houve Banelco, mas de Cristina”, disparou a deputada Elisa Carrió, líder da Coalizão Cívica, de oposição, em alusão à marca de um cartão de débito bancário que tornou-se metáfora para designar o pagamento de propinas.
No entanto, a Casa Rosada não conseguiu reunir votos suficientes para aprovar o Orçamento, já que a oposição conseguiu brecar o projeto por 117 votos contra 112. Desta forma, o projeto de Cristina voltou à comissão parlamentar.
O advogado e constitucionalista Ricardo Monner Sans – que denunciou vários escândalos de corrupção dos governos dos ex-presidentes Carlos Menem e Fernando De la Rúa – entrou ontem (sexta-feira) com uma denúncia na Justiça pela suspeita de oferta de subornos. “Integrantes do governo ofereceram de 50 mil pesos (US$ 12,5 mil) para cima. Além disso, propuseram com a frase ‘o que você quiser” aos deputados para que fossem embora do plenário”, disse.
Detalhe da estátua que está no edifício do Ministério da Ação Social, na avenida 9 de Julio, esquina com a ‘calle’ Moreno.
PRESSÕES - Uma das deputadas que denunciou as pressões da Casa Rosada, Elsa Álvarez, da União Cívica Radical (UCR), de centro, denunciou que “um alto integrante do governo” lhe telefonou insistentemente no celular, quando estava no plenário, para pedir que levantasse de sua poltrona, já que para o governo era “sumamente necessário” conseguir a aprovação do Orçamento. Álvarez declarou que dará os nomes na terça-feira.
A outra parlamentar, Cinthya Hotton, única deputada do partido de direita “Valores para meu país” – que denunciou “pressões e oferecimentos” de integrantes do governo – sustentou que apresentará à Justiça o nome das pessoas que “tentaram desviar” seu voto.
PERNA INFLAMADA - Silvia Storni, da UCR, uma das deputadas que saiu antes da votação, explicou sua ausência com o argumento de que havia passado mal durante a sessão, pois tinha uma perna inflamada, “fato que torna difícil que fique sentada muito tempo durante as sessões da Câmara”. No entanto, apesar do problema, a deputada – ao sair da sessão – fez 700 quilômetros até a província de Córdoba, onde reside. “Ehhh…vim para cá porque aqui eu tenho meu plano de saúde”, disse titubeando ao canal de TV “Todo Notícias” quanto teve que explicar sua viagem.
O presidente da UCR, Ernesto Sanz, afirmou que “pedirá explicações” aos oito deputados da UCR que foram embora do plenário antes da votação. Uma postura similar estava sendo aplicada por Federico Pinedo, chefe do bloco do Proposta Republicana (PRO), visivelmente irritado pela saída repentina de quatro de seus deputados do plenário.
O deputado Felipe Solá, do peronismo dissidente, um dos presidenciáveis da oposição, disparou críticas contra o governo, indicando que a Casa Rosada costuma comprar votos com frequência. “Quando o governo precisa conseguir a aprovação de uma lei sai de shopping pelo Congresso”, disse com ironia.
“Corrupt legislation”. Mural de 1896 Elihu Vedder, no hall da principal sala de leitura da Biblioteca do Congresso, no Thomas Jefferson Building, Washington, EUA. A figura central tem uma cornucópia virada para ela própria, enquanto recebe uma propina na balança da Justiça.
CORRUPÇÃO – Mais de uma centena de funcionários do governo de Néstor Kirchner e de Cristina Kirchner foram indiciados na Justiça por supostos envolvimentos em casos de corrupção nos últimos sete anos.
No entanto, em diversos casos o governo está blindado nas investigações feitas pela Justiça. Esse é o caso do processo sobre enriquecimento ilícito dos Kirchners na província de Santa Cruz, que investiga irregularidades na compra de um terreno na cidade de El Calafate em 2006. O terreno foi vendido aos Kirchners pela prefeitura, comandada por um aliado do casal – por US$ 34 mil. O mesmo terreno foi revendido em 2008 por US$ 1,65 milhão.
Mas, a investigação sobre o caso está praticamente paralisada, já que ficou nas mãos da sobrinha do casal Kirchner, a promotora Natalia Mercado, filha de Alicia Kirchner, ministra da Ação Social, irmã do ex-presidente Néstor Kirchner.
Um levantamento realizado pela consultoria KPMG em 2009 entre empresários indicou que as propinas solicitadas costumeiramente por integrantes do governo chegavam a 20% do total das operações. Isso indicava um aumento substancial com as propinas pedidas em 2003, de 15%. A proporção atual implicaria no dobro dos subornos pedidos durante o governo de Carlos Menem nos anos 90, de 10%. No governo de Raúl Alfonsín (1983-89) oscilavam ao redor de 6%.
OPOSIÇÃO ACABA COM A ‘TRÉGUA DO LUTO’
A trégua que a oposição concedeu à presidente Cristina Kirchner após a morte e funeral do ex-presidente Néstor Kirchner (respectivamente nos dias 27 e 29 de outubro) prometia durar até o início do ano novo, segundo diversos analistas consultados pelo Estado. No entanto, o cessar-fogo acabou repentinamente na quinta-feira graças ao surgimento do escândalo de supostos subornos por parte do governo a integrantes da oposição para aprovar a lei de Orçamento Nacional da presidente Cristina.
Ao longo das duas semanas que transcorreram desde a morte de Kirchner, a presidente-viúva obteve uma inédita pausa nas críticas da oposição. Ostentando rigorosamente a cor preta na vestimenta, Cristina – com ar compungido pela morte do marido – ficou isenta das acusações da oposição neste breve período.
“O luto possibilita imunidade, pois inibe a oposição, pois é de mau gosto bater em uma pessoa no período logo após a morte de um cônjuge… é preciso aguardar o momento propício para pular em cima”, diz com ironia o analista político, escritor, polemista e ex-embaixador argentino na Unesco Jorge Asís. “Mas, enquanto Cristina comece a dar mancadas, a oposição pulará na jugular da presidente”, completa.
Kirchner costumava ser o encarregado de enfrentar as denúncias sobre casos de corrupção, articulando a defesa e contraofensiva da Casa Rosada. Obsessivo, o ex-presidente telefonava constantemente a seus aliados para extrair deles lealdade absoluta e cerrar fileiras contra a oposição no Parlamento, onde o governo perdeu a maioria que tinha na derrota eleitoral do ano passado.
A morte do ex-presidente, considerado o verdadeiro poder no governo de sua mulher, deixou seus ministros desarticulados, gerando um cenário de incertezas nos onze meses que restam até as eleições presidenciais do ano que vem.
O escândalo da suposta compra de votos na Câmara surge no momento em que a presidente Cristina estava conseguindo recuperar sua popularidade graças à recuperação da economia e – segundo os analistas – ao fator “compaixão” pela morte do marido.
SUBORNOS E PROPINAS: PEQUENO GLOSSÁRIO
Coima – Suborno preparado, organizado. “Propina”, em espanhol, é usado para “gorjeta”.
La Banelco – Alusão à “Banelco”, marca de um cartão de débito bancário. Surgiu no ano 2000, quando o então ministro do Trabalho, Alberto Flamarique, teria afirmado que resolveria um impasse sobre a votação da polêmica Lei Trabalhista no Senado com “La Banelco”. Ou seja, pagando aos senadores. O termo, usado de forma geral para o pagamento de subornos em empresas e governo, voltou a ser aplicado no caso da suposta compra de votos na Câmara de Deputados por parte do governo de Cristina Kirchner.
Diego – Alusão a “El Diez” (O Dez), apelido do ex-astro do futebol, Diego Armando Maradona, que usava a camiseta número 10. Mas, neste caso, o “Diego” refere-se ao 10% de alguma quantia em jogo. Uma espécie de dízimo periódico.
Celular – Alusão ao prefixo “15” dos telefones celulares na Argentina, e por tabela, referência à comissão de 15% que diversos ministros cobrariam de empresários.
Sobre – “Sobre” é “envelope”. Os subornos são enviados em envelopes.
Cadena de la felicidad – Rede da felicidade. O dia – ou semana – em que são distribuídos os “sobres”.
O genial Joaquín Lavado, a.k.a. Quino, ironiza o sistema de corrupção e a impunidade.
FRASES SOBRE CORRUPÇÃO NA ARGENTINA
- “Para que a Argentina progrida, a gente tem que deixar de roubar pelo menos durante dois anos” (Luis Barrionuevo, um dos principais líderes sindicais do país, nos anos 90).
- “Neste país ninguém faz dinheiro trabalhando” (Luis Barrionuevo, sindicalista).
- “Se fosse pelos antecedentes penais e judiciários, não sobraria ninguém no país” (José Luis Manzano, Ministro do Interior no governo Menem).
- “A economia da Argentina só cresce porque de noite os políticos e empresários estão dormindo e não podem roubar” (estadista francês Georges Clemenceau, após sua visita à Buenos Aires no começo do século vinte).

PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
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Nota de 100 pesos cada vez vale menos. E o governo não pensa emitir uma nota com valor numérico maior, já que nega a escalada inflacionária. Na cédula – que antes comprava muito e agora pouco – o general e presidente Julio Argentino Roca (1843-1914).
A efígie de Julio A. Roca, general e presidente argentino do século dezenove e início da vigésima centúria, está desprestigiada, embora decore as notas de 100 pesos, as de maior numeração em circulação no país há duas décadas. Apesar disso, estas cédulas possuem um poder de compra cada vez menor por causa da escalda inflacionária que assola o país. Segundo o economista Ricardo Delgado, da consultoria Analytica, ao longo da última meia década as notas de 100 pesos sofreram uma desvalorização de mais de 50%. Mas, embora exista a necessidade de notas com maiores números, o governo da presidente Cristina Kirchner – que nega a existência da escalada da inflação – rejeita a ideia de emitir cédulas de 200 ou 500 pesos.
Em 2005 – antes do início da escalada inflacionária – as notas de 100 pesos constituíam 35% do total de notas em circulação na Argentina. Atualmente estas cédulas representam 46% do total do papel-moeda, fato que indica que estas notas estão sendo cada vez mais requisitadas. Cada vez mais o governo emite maior volume de notas de 100 pesos e menos notas de 20 e 50.
Susana Andrada, presidente da Centro de Educação de Consumidores, considera que o Banco Central está tentando evitar a emissão de uma nova nota. Segundo os especialistas, isso implicaria em admitir que o valor da maior nota existente não é suficiente para a maioria das compras realizadas pelos argentinos, e portanto, teria que confessar que a inflação “real” é maior que a “oficial”.
O economista Fausto Spotorno, da consultoria Orlando Ferreres e Associados, afirma que desde a crise de 2001 até junho deste ano a Argentina teve uma inflação acumulada real de 244%. Por esse motivo, afirma, o governo “pelo menos poderia emitir uma nota de 200 pesos”. Andrada, defensora dos consumidores, sustenta que a nota de 100 pesos que no ano 2008 um argentino gastava em três dias, “atualmente a gasta em 24 horas”.

A moeda de 1 peso, a última à direita, não vale para quase nada. Logo, as colegas que estão à sua esquerda…
As moedas de um peso também estão com sua utilidade comprometida. Cada vez mais, sozinhas, não compram ou pagam nada. Atualmente, com um peso uma pessoa pode pagar uma passagem de trem do bairro de Liniers, na fronteira da cidade de Buenos Aires até a estação de Once, no centro da capital. Além disso, o Estado conferiu em um quiosque na estação de trem de Retiro que uma moeda de um peso apenas pode comprar pequenos doces e unidades de balas e chicletes.

Quem quer ser um milionário? O general José de San Martín, em sua versão ‘senior’, na desprestigiada nota de 1 milhão de pesos, emitida no final da última ditadura militar (1976-83). Na época, estas notas foram vendidas nos EUA por um empresário que fez a seguinte publicidade: “Quer ser um milionário? Compre esta nota de 1 milhão de pesos por US$ 10,00! Enviaremos a nota em uma fantástica moldura para que impressione os amigos!”. E falando em “Quem quer ser um milionário”, o irônico “Who wants to be a millionaire”, de Cole Porter. Nesta versão, com Frank Sinatra, no filme do qual também participa Louis Armstrong (o filme é o “High Society”). O link, aqui.
‘OFICIAL’ E ‘REAL’ - O Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) – organismo sob controvertida intervenção federal há mais de três anos – anunciou que a inflação de julho foi de 0,8%. Na contra-mão, economistas independentes, sindicatos não-alinhados com o governo e associações de defesa dos consumidores, afirmam que a administração Kirchner “maquia” o índice e sustentam que a inflação “real” de julho teria sido de 1,7 a 2%.
Segundo a consultoria Estudio Bein a inflação acumulada nos primeiros sete meses deste ano é de 13,5%. A consultoria Ecolatina calcula a alta em 15,6%. Mas, de acordo com os números do governo anunciados há pouco mais de uma semana, a inflação acumulada desde janeiro seria de 6,7%
Desta forma, a inflação registrada pelo governo da presidente Cristina Kirchner, ultrapassa as estimativas feitas no Orçamento Nacional de 2010, no qual calculou uma alta de 6,1%.
Os economistas independentes afirmam que a inflação neste ano será superior a 28%.
Mas, na população, a percepção da inflação é mais dramática que a calculada pelos economistas críticos do governo. Segundo uma pesquisa realizada pelo Centro de Investigação em Finanças da Universidade Torcuato Di Tella, os argentinos esperam uma inflação acumulada de 32,5% para os próximos doze meses.
Enquanto diversos sindicatos conseguirm altas salariais que até quadruplicam a proporção de inflação estimada pelo governo (por via das dúvidas, negociaram nas últimas três semanas altas salariais de até 30%), o discurso oficial da cúpula, isto é, Confederação Geral do Trabalho (CGT) é o de que a inflação argentina é “mínima”.
Segundo Hugo Moyano, secretário-geral da CGT e aliado da presidente Cristina, a atual inflação “está controlada” e “não é prejudicial”.
Cidadão alemão usa notas com valor implodido pela hiper-inflação dos anos 20 como papel de parede. A foto é do acervo do Bundesarchiv.
CUMPRIMENTAM, MAS NÃO COMPRAM - O jornaleiro Juan Carlos Brescia, 60 anos, disse ao Estado que “ri” quando vê os números do governo. “Esses números estão longe da realidade dos trabalhadores”, sustenta, enquanto arruma as revistas em sua banca. “Muitos clientes passam pela frente da banca e dizem ‘oi!’ mas não compram nada por causa da alta de preços”.
Brescia afirma que o aumento de preços e a consequente perda do poder aquisitivo de seus clientes na Recoleta, um bairro de classe média alta e classe alta, provocou uma perda de 50% de suas vendas.
Segundo a Ecolatina, a inflação de 2010 será a maior registrada desde a desvalorização do peso, em 2002, ano em que o índice foi de 40%.
A carne bovina registrou um aumento de 60% no preço desde janeiro. O pão subiu 10% no mesmo período, enquanto que os combustíveis, desde o início deste ano, registraram uma alta de 28% a 40%, dependendo do produto. Neste último caso, na semana passada o governo Kirchner anunciou que aplicará a “Lei de Abastecimento”, de 1974, para punir empresas que aumentem o preço dos combustíveis.
Assustado com a inflação, Brescia tem um consolo: “os clientes não compram mais como antes… mas pelo menos passam na frente da banca e dizem ‘oi!’ “
SENSAÇÃO DE POBREZA – Uma pesquisa do Centro de Economia Regional e Experimental (Cerx) indicou que 72,7% dos argentinos sentem-se “pobres”, já que afirmam que o volume de dinheiro que ganham mensalmente não é suficiente para chegar no fim do mês. A proporção de pessoas que sentem “pobreza subjetiva” – segundo a denominação aplicada pela diretora da Cerx, Victoria Giarrizzo – era de 63,3% no ano passado. Os analistas da consultoria afirmam que por trás desta sensação de pobreza está a crescente inflação.
QUEIJO, OBJETO DE COBIÇA: Neste link, do jornal Perfil, detalhes sobre a cobiça que os cada vez mais caros lácteos estão despertando no nicho profissional dos ladrões. Aqui.
FANTASMA DA INFLAÇÃO ASSOMBRA ARGENTINOS HÁ QUATRO DÉCADAS

General e ditador Juan Carlos “La Morsa” Onganía começou a moda de cortar zeros. De lá para cá 20 presidentes e 43 ministros da economia tentaram combater espiral inflacionária. Charge do irônico Landrú, cartunista que despertou a ira do militar.
Os economistas ressaltam que entre 1890, quando foi instituído o “peso nacional”, até o “peso lei” do final dos anos 60, a Argentina teve estabilidade financeira. Mas, em 1969 o então presidente e ditador general Juan Carlos Onganía decretou a primeira lei que eliminou zeros das notas de pesos, com o intuito de dissimular a escalada inflacionária. De lá para cá, as notas argentinas perderam treze zeros.
Nestes últimos 41 anos o país foi assolado de forma persistente pelo fantasma da inflação, contra o qual tentaram lutar, com escassos resultados, os 20 presidentes que passaram pela Casa Rosada – o palácio presidencial – e os 43 ministros da Economia que ocuparam a pasta.
Em 1989 a Argentina teve sua primeira hiperinflação, que chegou a 4.923,6%. A espiral inflacionária levou Alfonsín à renúncia seis meses antes do fim programado de seu mandato.
Seu sucessor, Carlos Menem (1989-99), tentou de forma errática diversas fórmulas econômicas. O resultado foi um segundo período hiperinflacionário, que chegou a 1.343,9% em 1990.
Nos anos 90, a conversibilidade econômica – que estabelecia a paridade um a um entre o dólar e o peso – apesar dos problemas que trazia em seu bojo, foi respaldada com entusiasmo pelos argentinos, que depois de décadas viam finalmente um período de inflação zero (e até de deflação.
Mas, a conversibilidade naufragou em dezembro de 2001. A inflação só não voltou a galopar de forma imediata porque a economia estava estancada e o poder de compra era quase nulo. Mas, a economia recuperou-se a partir de 2003. E a inflação voltou a aparecer.
Economistas, associações de defesa dos consumidores, empresários e sindicatos afirmam que o casal Kirchner, sem sucesso para deter a inflação, camufla os índices elaborados pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).
Em sarcástica alusão à persistência da inflação na economia argentina, Roberto Dvoskin, professor da Universidade de San Andrés e ex-secretário de Comércio, afirma: “a Argentina é alcoólica em relação à inflação. E o alcoolismo não se cura… administra-se!”.

O ‘La Morsa’ original, J.C.Onganía, militar que – segundo as más línguas – não era famoso por contar com muitas sinapses em sua massa cinzenta.
O desejo incontrolável de escrever “zeros”, aqui.
E um artigo da Times, de 1923, sobre o assunto, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
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O prosciutto, ou o presunto cru, na mira do secretário preferido do casal Kirchner (foto da Wikipedia, de uso irrestrito)
O QUE: Na semana passada o secretário Guillermo Moreno emitiu uma ordem verbal que determinava a proibição da entrada de produtos alimentícios não frescos estrangeiros que rivalizem com seus similares fabricados na Argentina. Esse seria o caso do presunto cru espanhol e o italiano, que disputam o mercado interno com o presunto cru argentino. Outro caso seria o chocolate brasileiro. Os artigos alimentícios importados representam 3% dos produtos presentes nas gôndolas dos supermercados. A medida foi tomada sem avisar previamente os principais sócios comerciais da Argentina.
COMO: A ordem verbal de Moreno não dá detalhes sobre alimentos importados que, mais do que rivalizar, complementam a demanda interna argentina. Esse é o caso do milho brasileiro, que complementa a produção local para abastecer o mercado interno argentino. A ordem de Moreno implica no fim da venda de produtos alimentícios não frescos importados que concorram com os similares locais a partir do dia 1 de junho. A partir do dia 10 de junho os fiscais de Moreno percorrerão supermercados e demais comércios para verificar a aplicação da ordem.
QUEM: Guillermo Moreno, secretário de Comércio Interior e autor das ordens verbais para deter as importações de alimentos, é considerado o homem que faz o “trabalho sujo” da presidente Cristina Kirchner e do ex-presidente Néstor Kirchner. Moreno, desde que assumiu sua pasta em 2005, ficou famoso por seu modus operandi para intimidar empresários: colocar seu revólver sobre a mesa de reuniões, sem dizer palavra alguma. Moreno também costuma telefonar no meio da madrugada para a casa de empresários para pressioná-los. Seu vocabulário é pleno de palavras de baixo calão e alusões sexuais.
Moreno esteve encarregado de impor a política de congelamento de preços, como forma de combater a inflação, cuja escalada o governo Kirchner não conseguia deter. Perante o fracasso do congelamento em diversos setores, em 2007 Moreno interferiu no Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), para realizar uma camuflagem sem precedentes dos índices de inflação, desemprego e PIB.
O secretário conta com um grupo de professores de artes marciais, militantes do partido peronista, com os quais costuma impedir as constantes manifestações dos funcionários do Indec que protestam contra sua intervenção.
Embora seja formalmente subordinado do ministro da Economia, Moreno – protegido dos Kirchners – confrontou-se com diversos ex-ocupantes dessa pasta como se tivesse a mesma hierarquia no gabinete. Por sua capacidade de sobrevivência política, é ironicamente apelidado de “Highlander”, em alusão ao filme no qual um herói escocês torna-se imortal.
PORQUÊ: O governo explica que por trás da medida está a preocupação pelos preços cada vez mais baratos dos importados europeus, além do encolhimento do saldo comercial argentino nos últimos meses.
No entanto, a medida de Moreno, homem “blindado” pelos Kirchners, causa polêmica dentro do próprio governo, já que diversos organismos relacionados com o comércio, como a Secretaria de Indústria e a Administração Nacional de Medicamentos, Alimentos e Tecnologia Médica (ANMAT), estão tentando desvincular-se da polêmica medida.
CONSEQUÊNCIAS: Eventuais retaliações por parte do Brasil e da União Europeia.

Guillermo Moreno, Secretário de Comércio Interior, que impôs ordens verbais contra alimentos é o protegido dos Kirchners. Moreno, adepto da “mão dura comercial”, costuma fazer alarde de possuir genitália de colossais dimensões em reuniões com empresários.
Ilustração do cartunista argentino El Niño Rodríguez (seu site: www.elninorodriguez.com )
A ordem verbal emitida pelo secretário de Comércio Interior da Argentina, Guillermo Moreno, de impedir a partir do dia 1 de junho a comercialização de produtos alimentícios não frescos importados que rivalizem com similares nacionais, está sendo alvo de intensas críticas dentro do próprio país. O cenário é confuso, já que Moreno citou verbalmente apenas alguns produtos que seriam proibidos, mas não emitiu lista escrita alguma. Desta forma, os empresários não sabem exatamente quais produtos serão atingidos.
Um dos poucos produtos citados explicitamente por Moreno é o prosciutto, ou o presunto cru, que a Argentina importa da Espanha e da Itália, e é (nacional ou importado) parte sine qua non das “picadas” (mesa de petiscos) no país.
“Um absurdo a médio e longo prazo” foi a definição disparada pelo ex-ministro da Economia, Roberto Lavagna, que alertou para o risco que a proibição de alimentos poderia causar à indústria nacional. “Evitar a competência implicará que o setor industrial ficará à margem das mudanças mundiais em matéria de tecnologia, produtos e investimentos”, disse.
Os analistas indicam que a medida não faz sentido como “blindagem protecionista” para os fabricantes locais, já que os produtos atingidos pela ordem verbal de Moreno representam uma pequena porção do total das importações feitas pela Argentina.
Segundo estimativas da consultoria Abeceb, os produtos equivaleriam a 1,5% das importações. “Mas, esta é só uma estimativa, já que não sabemos exatamente quais são os produtos afetados”, afirmou o economista Mauricio Claveri, da Abeceb.
Javier González Fraga, ex-presidente do Banco Central, afirmou que a medida é um “grave erro”. Segundo ele, a medida de Moreno implicará, no máximo, a proibição de 5% das importações de alimentos, enquanto que eventuais retaliações poderiam criar obstáculos para parte das exportações argentinas de alimentos, que representam 50% do total produzido no país. “Não dá para entender a lógica do governo”, disse González Fraga.
INCOMPREENSÍVEL - A Câmara de Importadores da Argentina (Cira) protestou contra a medida, considerada arbitrária, e sustenta que já existe mercadoria detida no porto de Buenos Aires. Os principais jornais do país criticaram o governo da presidente Cristina Kirchner pela medida protecionista, afirmando que causará uma reação de retaliação comercial por parte dos países que exportam alimentos para a Argentina. Fontes do setor de supermercados afirmam que já existem problemas para a entrada de milho enlatado e bolachas Made in Brazil.
Jorge Rodrigues Aparício, presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira, declarou que esta crise comercial “é mais complicada do que em outras ocasiões, pois desta vez estamos perante algo que não existe, isto é, perante uma norma puramente verbal”. Segundo Aparício, é “incompreensível que isso tenha acontecido exatamente nos mesmos dias (na semana passada) em que estava sendo realizada em Buenos Aires a reunião de monitoramento comercial entre os dois países. O secretário-executivo do Ministério de Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior, Ivan Ramalho, soube da medida pela imprensa e perguntou sobre ela…mas não teve resposta (das autoridades argentinas)”, disse.
Aparício ressaltou que “para complicar, existe uma situação eleitoral no Brasil. É um momento inconveniente para medidas como esta”.
MÍDIA CRITICA - A mídia argentina, de forma geral, disparou duras críticas contra a medida nacionalista do governo, e alertou sobre a iminente retaliação dos países atingidos. A mídia ressalta que na relação comercial com o Brasil, a Argentina tem muito mais a perder do que o parceiro do Mercosul em caso de retaliações.
A opinião pública também opõe-se à medida do governo Kirchner, que padece de elevados índices de impopularidade. Segundo uma pesquisa do site do jornal “La Nación”, 73,9% dos internautas são contra a proibição das importações.
BONZINHOS - O ministro da Economia, Amado Boudou, defendeu na terça-feira a aplicação de barreiras para impedir a entrada de produtos alimentícios importados similares aos elaborados dentro da Argentina. “Precisamos cuidar do mercado interno e os produtores argentinos”, indicou Bodou em declarações à rádio “La Red”.
Sem entrar em detalhes sobre a ordem verbal do secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, para impedir as importações de milho, presunto cru e massa de tomate, entre outros, Boudou sustentou que a medida era positiva: “essa história de sermos bonzinhos e abrir nossas portas ao mundo, e, por exemplo, depois não podermos exportar limões aos EUA, é uma ideia muito romântica…mas é muito ingênua. A gente precisa deixar de ser inocente nestes assuntos”.
CRÍTICAS – O empresariado disparou uma série de críticas contra a medida de Moreno. Segundo a Coordenadoria das Indústrias de Produtos Alimentícios (Copal), que reúne as principais câmaras do setor, a decisão do governo Kirchner poderá provocar retaliações comerciais por parte de outros países: “toda medida de política comercial interna ou externa tem que respeitar os critérios dos tratados internacionais dos quais a Argentina é parte, já que é uma das garantias necessárias para evitar represálias no comércio mundial”. Segundo a Copal, diversos países já avaliam retaliações contra a Argentina.
ORDENS VERBAIS - Em diversas ocasiões, apesar das pressões políticas, a presidente Cristina recusou-se a demitir seu secretário. Ao longo dos últimos anos, as ordens verbais foram a marca de Moreno, que determinou congelamentos de preços e restrições para a exportação de produtos apenas por intermédio de ligações telefônicas a empresários ou às câmaras setoriais.
Brasil exporta chocolate para a Argentina. O produto poderia ser detido na fronteira caso o governo Kirchner não der marcha à ré. Imagem mostra dois príncipes mixtecas em papo animado enquanto bebericam um dos produtos comme il faut de seu império, o cacau. Ilustração do Códice Nuttall, do século XIV. Em náhuatl o chocolate era denominado de xocolatl; em maia, chocolhá.
SE BRASIL RETALIAR, ARGENTINA SERIA PREJUDICADA INTENSAMENTE – A consultoria argentina Abeceb, especializada em comércio exterior, afirmou nesta quarta-feira que eventuais retaliações do Brasil contra a Argentina – em revide às medidas de probição de importação de alimentos não frescos – poderiam afetar as economias de diversas províncias argentinas.
Segundo a Abeceb, “se nosso principal sócio comercial decidisse aplicar nesta oportunidade as mesmas medidas, o impacto mais significativo cairia diretamente sobre as economias provinciais que exportam ao Brasil”.
A Abeceb ressalta que as compras ao Brasil que poderiam ser suspensas pela ordem verbal do secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, poderiam alcançar um total de US$ 81 milhões. Na contra-mão, eventuais retaliações brasileiras contra a Argentina poderiam provocar ao sócio do Mercosul prejuízos de US$ 351 milhões.
Entre as províncias que ficariam mais fragilizadas por retaliações estão as de Catamarca (que exporta óleo de oliva e azeitonas ao mercado brasileiro) e Santiago del Estero (cebolas). Outras províncias afetadas seriam as de Mendoza e San Juan (vinhos, alhos, ameixas e uvas), além de Neuquén (maçãs e peras). Diversas regiões da província de Buenos Aires, onde são fabricados produtos processados de batatas, também seriam duramente atingidas.

Tomates em lata Made in Brazil também estariam na mira de Moreno
UNIÃO EUROPEIA PEDE FIM DAS MEDIDAS DE RESTRIÇÃO
A delegação da União Europeia em Buenos Aires anunciou nesta quarta-feira no final da tarde que interpelou formalmente as autoridades argentinas sobre as restrições às importações de alimentos. A UE pediu ao governo da presidente Cristina Kirchner que não implemente as medidas anunciadas.
Segundo a UE, “tais restrições, se forem concretizadas, seriam incompatíveis com as normas da OMC e com os compromissos assumidos pela Argentina no marco do G-20”.
A delegação europeia sustenta que “sendo a Argentina um grande exportador de alimentos, tais medidas são inexplicáveis a poucos dias do possível relançamento das negociações comerciais entre a União Europeia e o Mercosul”. Segundo a UE, “tais negociações que a Argentina estimulou” durante sua presidência pro-tempore do Mercosul “tinham precisamente por objetivo aumentar os fluxos de importação e de exportação entre as partes”.
Mais sobre Guillermo Moreno nestas postagens de meses atrás:
Moreno e a inflação, aqui.
Moreno básico, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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