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Ariel Palacios

Cristina Kirchner teria hoje uma vitória esmagadora nas urnas. Ilustração do cartunista argentino “El Niño Rodríguez”. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/ 

“Hegemonia kirchnerista” e “hiperpresidencialismo” são as expressões que integrantes da oposição usam para definir o cenário político que surgiria neste domingo com a virtual reeleição da presidente Cristina Kirchner. Segundo as pesquisas a presidente Cristina Kirchner venceria com uma proporção que oscilaria entre 51% e 57% dos votos, embora alguns analistas afirmem que poderia chegar aos 60%. Nenhum partido da oposição conseguiria, sozinho, na melhor das hipóteses, mais de 17% dos votos, segundo os prognósticos dos analistas de opinião pública. Os argentinos também irão às urnas para renovar o Parlamento e os governos provinciais.

A presidente, que nos últimos dois anos – após a derrota nas eleições parlamentares de 2009 – havia ficado em minoria no Parlamento, conseguiria (com parlamentares próprios e os aliados) uma confortável maioria em ambas câmaras. Em seu eventual novo mandato Cristina teria uma margem de manobra política que nenhum governo teve desde o presidente Juan Domingo Perón nos anos 50.

Desta forma, a presidente Cristina conseguiria para o kirchnerismo outros quatro anos no poder. Somados ao período de governo de seu marido, o ex-presidente Nestor Kirchner (2003-2007) e os quatro anos do primeiro mandato de Cristina, esta reeleição possibilitaria um total de doze anos de kirchnerismo na Argentina. Isso implicaria no período mais prolongado na História argentina de um mesmo grupo político no poder de forma ininterrupta nos últimos 150 anos.

A hegemonia que surgiria hoje nas urnas está gerando um clima político favorável aos planos de setores do governo de tentar uma reforma constitucional que permita uma segunda reeleição de Cristina em 2015.

“Uma democracia real na Argentina baseia-se na reeleição indefinida”, sustentou na semana passada durante uma conferência em Buenos Aires Ernesto Laclau, filósofo preferido de Cristina, que transformou-se no mentor ideológico do governo. Laclau, que reside parte do ano em Londres e é professor em Essex, Inglaterra, afirmou que “quando se constrói toda a possibilidade de um processo de mudanças ao redor de um nome determinado, se esse nome desaparece, o sistema fica vulnerável”.

Segundo o filósofo – que agora conta com um programa no “Encuentro”, o estatal canal de TV cultural – “se a Cristina se eternizar” no poder “não será algo que vá contra o sistema democrático”.

“Cristina Eterna” é a proposta de filósofo que transformou-se em mentor intelectual do kirchnerismo. Cristina seria reeleita hoje para o terceiro mandato do kirchnerismo. A idéia é um quarto mandato “Pinguim”. Pelo menos, “pra começar” (acima, os quatro pinguins do filme “Madagascar”).

PARLAMENTO - Na Câmara, Cristina Kirchner, por intermédio de seu partido, o Justicialista (Peronista), em conjunto com seus aliados, passaria das atuais 116 cadeiras para um total de 132. Os partidos da oposição, em conjunto, cairiam das atuais 141 cadeiras para 125.

No Senado o governo havia ficado em minoria após as eleições parlamentares de 2009. No entanto, ao longo do último ano conseguiu atrair os votos de dois senadores, um deles o ex-arquiinimigo do casal Kirchner, o ex-presidente e senador Carlos Menem. Desta forma, atualmente possui 37 cadeiras, contra as 35 da oposição. Mas, após as eleições deste domingo, o governo Kirchner conseguiria aumentar seu peso na câmara alta para 38 cadeiras. A oposição cairia de 35 para 34 senadores.

O professor de relações internacionais da Universidade Católica Argentina (UCA) e especialista em meios de comunicação Jorge Liotti disse ao Estado que além de “aprofundar o modelo econômico” o governo tem a ambição de “aproveitar a ausência de contra-pesos políticos da oposição para ocupar maiores espaços de poder”. Neste contexto, segundo Liotti, “o governo considera que o diálogo com a oposição é desnecessário”.

ÊXODO - Os analistas não descartam que as proporções a favor da presidente Cristina, especialmente na Câmara de Deputados, aumentem mais nos próximos meses, já que prevêm um êxodo de integrantes da oposição para o governo. Nas últimas semanas, diversos peronistas dissidentes deixaram de lado suas antigas diferenças com a presidente Cristina e voltaram para o seio do governo, que – pragmaticamente, sem rancor político – os recebeu com os braços abertos.

A oposição, enquanto isso, amarga a expectativa de uma derrota assegurada. No entanto, alguns líderes já pensam no futuro a médio prazo, como Ricardo Alfonsín, candidato presidencial da UCR, que declarou ontem que “será difícil conseguir um segundo turno nas presidenciais. Mas, nas eleições parlamentares de 2013 chegaremos cabeça a cabeça. E nas presidenciais de 2015 seremos uma opção firme de governo”.

Outros, como o prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, do partido de centro-direita Proposta Republicana (Pro), estrategicamente deixaram de lado o confronto e optaram por declarar “todo o apoio” à presidente Cristina.

PROVÍNCIAS - Das 24 províncias argentinas 14 já realizaram suas eleições desde março passado, fora de sincronia com as presidenciais de hoje, dia no qual os argentinos de outras nove províncias irão às urnas para concluir a definição do mapa dos governadores do país.

Cristina, por vias diretas, ficaria com o controle de 17 (de um total de 24) províncias, número que indicaria a melhor performance do peronismo em um quarto de século.

No entanto, outras três – Neuquén, Chubut, Tierra del Fuego – embora nas mãos da oposição, estão nas mãos de governadores que já declararam seu alinhamento pragmático com o governo Kirchner. Desta forma, a presidente teria o controle direto ou indireto de 83% das províncias da Argentina.

E, para embalar este domingo, um pouco de música:

Mercedes Sosa canta “Todo cambia” (na genial cena de Habemus Papa, de Nani Moretti). Aqui.

“Libertango” de Astor Piazzolla. Na versão de Yo-Yo Ma e Nestor Marconi. Aqui.

Mais um Piazzolla, “Adiós Nonino”, com o próprio don Astor e a sinfônica da Rádio de Koln, Alemanha. Aqui.

Mais tango: Edmundo Rivero canta “Te lo digo por tu bien”. É lunfardo puro. Aqui.

Carlos Gardel cantando “Chorra” (Ladra), irônico tango que relata a história de uma profissional do ramo. Aqui.

Outra pérola de Edmundo Rivero: “Araca la cana” (Olha aí a polícia). Aqui. 

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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A Patagônia no distante século XVI. Neste mapa que não está em posição norte-sul (aparece “deitado”), Tierra del Fuego está à esquerda, enquanto que Santa Cruz está à direita. Ali podemos ver a imagem de dois índios patagones, que, segundo a lenda, eram gigantescos, muito mais altos que os conquistadores europeus. Na realidade, a mítica altura dos índios patagones (na realidade, a outrora vasta tribo tehuelche), não passava de uma espécie de “superfaturamento” dos relatos dos viajantes que visitavam este recôndito pedaço do planeta. Meio milênio depois deste mapa, os superfaturamentos passaram a ser de outro tipo.

 província de Santa Cruz, feudo político do casal Kirchner há duas décadas, está sendo amplamente privilegiada com fundos especiais da presidência da República, segundo indicou um relatório do Instituto de Investigações sobre a Realidade Argentina e Latinoamericana (Ieral) da Fundação Mediterrânea. A instituição, com base em números oficiais, sustenta que a província de Santa Cruz recebeu desde 2003 (ano em que Nestor Kirchner foi eleito presidente) até 2010 fundos para obras públicas com um volume equivalente a 20.893 pesos (US$ 5.071) por cada habitante.

Desta forma, o volume de dinheiro destinado a Santa Cruz é 32 vezes maior que os fundos para obras remetidos pela União à província de Buenos Aires, a maior da Argentina, que recebeu o equivalente a 644,40 pesos (US$ 156,40). O governo silencia sobre a ajuda fornecida à Santa Cruz, que, graças aos royalties pela exploração de gás e petróleo, além do turismo e dos subsídios estatais, conta com a maior renda per capita da Argentina, com US$ 32 mil por santacrucenho.

A província transformou-se no feudo político doex-presidente Kirchner em1991, quando foi eleito governador. Com sua morte, em outubro do ano passado, o controle da política local passou à viúva, apresidente Cristina Kirchner.

Geograficamente, a província de Santa Cruz é a segunda maior da Argentina, com 8,77% do território nacional, atrás da província de Buenos Aires, que representa 11,06%. No entanto, Santa Cruz ocupa o segundo lugar no ranking de menor população, já que em sua árida área concentram-se somente 272 mil habitantes, o equivalente a apenas 0,68% do total da população argentina.

“Nunca antes um presidente argentino beneficioutanto sua própria província com fundos presidenciais como fizeram os Kirchners com Santa Cruz”, afirmou ao EstadoLuis Majul, autor de “O Dono”, best-seller que relata as negociatas dos Kirchner na província.

Pinguins (e um lêmur incluído) maravilhados com grandes riquezas. Os plumíferos ilustrados acima são os piguins de Madagascar, filme que virou série.

PINGUINS E PINGUINEIRA – Antes da chegadade Kirchner à presidência Santa Cruz tinha nulo peso na política argentina. No entanto, nos últimos oito anos transformou-se em um lugar de alta influência, já que os mais importantes ministros do gabinete da presidente Cristina são dessa província ou de outras áreas vizinhas da Patagônia.

Os funcionários patagônios da administração Kirchner são apelidados de “pinguins”, a ave que predomina nas costas do sul da Argentina. O grupo destes funcionários que tomam as principais decisões governamentais é denominado ironicamente de “a pinguineira”.

Outros integrantes do governo Kirchner não nascidos ou criados na Patagônia tentaram nos últimos anos “patagonizar-se”, comprando casas na cidadede El Calafate, na província de Santa Cruz. O vilarejo, a 2800 quilômetrosde Buenos Aires,é o lugar de relax da presidente Cristina, que ali costuma passar seus fins de semana.

Um pouco de arquivo. Os vários casos dos pinguins.

 ais detalhes sobre Santa Cruz, terra de irregularidades

A HIDRELÉTRICA, O AMIGO E O LAGO – O partido Coalizão Cívica, de oposição, denunciou no ano passado que existem irregularidades na indenização de terras que serão alagadas pelo lago de uma hidrelétrica na província de Santa Cruz. Segundo a denúncia, o empresário Lázaro Báez, amigo dos Kirchners (e sócio em diversos empreendimentos) comprou 182 mil hectares de terras que serão alagadas pela represa La Barrancosa.

A Coalizão Cívica ressalta que a empresa de Báez, a Austral Construções, “predomina” no setor de obras públicas em Santa Cruz. Além disso, sustenta que o amigo dos Kirchners sabia “de forma antecipada” qual seria a área alagada.

Além disso, uma estrada inaugurada pela presidente Cristina em El Calafate apresentaria sinais de superfaturamento no asfalto, já que cada quilômetro de asfalto custaria US$ 780 mil. No entanto, por cada quilômetro realizado por outras empresas em diversas províncias argentinas os preços oscilam entre US$ 77 mil (na província de Buenos Aires) e US$ 337 mil (em áreas complexas da província de Mendoza).

Os “superfaturados” índios patagones em gravura do início do século XVII

TERMELÉTRICA SUPERFATURADA - O juiz federal Claudio Bonadío comanda uma investigação sobre as suspeitas de que o governo Kirchner teria permitido superfaturamento na construção da usina termelétrica de carvão de Río Turbio, localizada a 278 quilômetros da capital da provínciade Santa Cruz, Río Gallegos.

Após a contratação das obras, o custo da termelétrica – de 240 megawatts – ficou na faixa de US$ 2,68 bilhões, substancialmente superior ao valor originalmente anunciado no orçamento, de US$ 1,5 bilhão. Segundo especialistas, a usina de Río Turbio custará 300% vezes a mais do que o custo médio internacional de uma obra do gênero. Além disso, custaria 174% a mais do que o volume investido no Chile para uma usina similar, em Puchuncaví.

A denúncia de superfaturamento feita por parlamentares da oposição indica que em Río Turbio a instalação de cada megawatt implicaria em US$ 3,4 milhões. A comparação com Puchuncaví chama a atenção, já que cada megawatt instalado na usina chilena implicou em um desembolso de apenas US$ 1,2 milhão.

FUNDOS, CAPITAL E JUROS – O caso mais famoso de uso irregular de fundos envolvendo Santa Cruz é o dos fundos provinciais que Kirchner, nos anos 90, quando era governador, remeteu a bancos no exterior. No total, Kirchner teria enviado mais de US$ 500 milhões para fora do país, principalmente para a Suíça. Em 2007 Kirchner e Cristina afirmaram que os fundos voltaram ao país.

Mas, lideranças da Oposição afirmam que não há provas consistentes do retorno desse dinheiro. Os opositores também sustentam que os juros acumulados ao longo de vários anos teriam aumentado o volume dos fundos para mais de US$ 1 bilhão. No entanto, o paradeiro desse margem adicional é desconhecido.

TERRENOS E SOBRINHA – Em 2006 os Kirchners compraram da prefeitura de El Calafate – onde governam seus aliados – um terreno de 20 mil metros quadrados, que estava sendo vendido por US$ 34 mil.

Em 2008 os Kirchners revenderam o terreno por US$ 1,65 milhão à uma rede de supermercados. A valorização sem precedentes do terreno despertou a atenção da mídia e da oposição. No entanto, a investigação sobre o caso foi paralisada, já que ficou nas mãos da sobrinha docasal Kirchner, a promotora Natalia Mercado, filha de Alicia Kirchner, ministra da Ação Social, irmã do ex-presidente Néstor Kirchner.

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

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 As ilhas Malvinas, o arquipélago do Atlântico Sul habitado por 3 mil pessoas e 1 milhão de pinguins, com 15 mil minas explosivas deixadas pelos argentinos após sua derrota na guerra pela posse das ilhas em 1982, poderiam estar assentadas sobre reservas de mais de 18 bilhões de barris de petróleo.

 blog1vinhetasmarca1 A presidente Cristina Kirchner obteve nesta segunda-feira em Cancún, México, o respaldo verbal dos presidentes latino-americanos e do Caribe para pedir à Grã-Bretanha a devolução das ilhas Malvinas à Argentina. “Vamos insistir em nossa reivindicação! É imperativo da Constituição Nacional, que indica que é obrigação de todos os governos o caráter imprescritível e irrenunciável da soberania dessas ilhas”, exclamou Cristina Kirchner perante 33 presidentes da região que participaram da reunião de cúpula em Cancún, México.

Mas, enquanto Cristina discursava enfaticamente à beira das cálidas águas do Golfo do México, a milhares de quilômetros dali, no agitado e gélido Atlântico Sul, a 100 quilômetros ao norte das Malvinas, os operários da companhia Desire Petroleum ignoravam os apelos latino-americanos de “soberania regional” pronunciados na riviera mexicana e começavam a exploração do solo marítimo. Ali esperam encontrar petróleo, o pivô da nova crise diplomática e comercial entre Buenos Aires e Londres.

O desolado arquipélago, ocupado pelos argentinos durante 13 anos (entre 1820 e 1833), e em mãos britânicas há 177 anos (desde 1833), é reivindicado como “território argentino” por Buenos Aires. A presidente Cristina quer impedir a exploração petrolífera das ilhas, já que considera que as riquezas naturais do arquipélago “pertencem” à Argentina.

Em Ushuaia, capital da província de Terra do Fogo, sob cuja teórica jurisdição estão as Malvinas, a governadora Fabiana Ríos definiu o clima: “estamos nos sentindo vítimas de um roubo por parte da Grã-Bretanha!”.

Mas, os ilheus – descendentes de ingleses, escoceses e galeses denominados de “kelpers” – que há seis gerações ocupam as Malvinas, consideram que possuem totais direitos de explorar o arquipélago como quiserem. “As perfurações continuarão tal como estavam planejadas. As pressões argentinas não afetarão as operações previstas”, afirmaram representantes do governo local das Malvinas.

Nos anos 90 os kelpers haviam autorizado a exploração petrolífera de sua zona marítima. Mas, até agora, nada havia sido encontrado. No entanto, estimativas atuais indicam que as ilhas estariam sobre uma imensa reserva de petróleo.

Os cálculos sobre as reservas variam desde os mais céticos 8 bilhões de barris, passando pelos 18 bilhões estimados pelos especialistas das empresas envolvidas na exploração; até os otimistas 60 bilhões que os kelpers alegam que existem nos mares ao redor de suas ilhas, volume que transformariam o arquipélago em uma espécie de “Golfo Pérsico do Atlântico Sul”.

Tal magnitude de reservas deixam o governo Kirchner com inveja, já que as reservas no território continental da Argentina (país que em breve perderia sua autossuficiência petrolífera) atualmente são de apenas 2,6 bilhões de barris.

AUTONOMIA – No dia 1 de janeiro de 2009 entrou em vigência uma nova Constituição das Malvinas, designadas de “Falklands” pelos ingleses. Essa Carta Magna reforça a democracia local, fato que preocupa o governo argentino. O temor é que os “kelpers” avancem em direção à autonomia, e, eventualmente, à independência do arquipélago. Atualmente, o arquipélago possui o status de “território d’além-mar” da Grã-Bretanha.

Analistas em Buenos Aires e Londres afirmam que a eventual descoberta de petróleo nas ilhas poderia entusiasmar os kelpers a proclamar sua independência. Dessa forma, as reivindicações argentinas sobre o arquipélago poderiam perder respaldo na ONU.

PORTOS – Há duas semanas a presidente Cristina decretou que cada navio que passe por portos argentinos rumo às Malvinas deverá contar com autorização prévia.

A ideia é impedir que insumos para a extração petrolífera cheguem às ilhas, fato que elevaria os custos da atividade. Mas, especialistas afirmam que apesar disso, a extração nas ilhas será lucrativa sempre que o preço do barril do petróleo seja superior a US$ 25 (atualmente está em US$ 77).

No entanto, as ilhas não ficarão bloqueadas pela Argentina, já que somente seu acesso pelo lado oeste do arquipélago tem divisa com o mar territorial argentino. Desta forma, os navios podem aproximar-se das Malvinas pelo norte, leste e sul.

Além disso, embora a passagem pelos portos argentinos implique em eventuais complicações burocráticas ou impedimentos (se os produtos forem considerados “insumos” para a extração petrolífera) as ilhas poderão ser abastecidas como fazem costumeiramente, por intermédio dos portos do Chile, Uruguai e África do Sul, os países mais próximos das ilhas depois da Argentina.

De quebra, os britânicos contam com as bases das ilhas de Ascensão e Tristão da Cunha.

Em Port Stanley, representantes do governo local ressaltaram que os kelpers estão acostumados a viver sob “boicote” argentino desde 1982. “Sobrevivemos até agora sem a Argentina. Podemos continuar assim”, explicaram. Atualmente, 60% da receita das Malvinas provém da pesca.

De quebra, os kelpers não perdem uma oportunidade para criticar a presidente Cristina.

Em um artigo publicado no “Daily Mail”, Lisa Watson, ex-diretora do jornal “Penguin News”, de Port Stanley, capital das ilhas, definiu a Argentina como “o vizinho do Inferno” e ressaltou que os habitantes das Malvinas chamam Cristina Kirchner de “a velha cara de plástico”, em alusão às cirurgias estéticas e as aplicações de botox supostamente realizadas pela presidente argentina.

BLOQUEIO - O analista de geopolítica Claudio Fantini, autor do livro “Os deuses da guerra”, afirmou ao Estado que a medida da presidente Cristina “não se trata de um bloqueio naval”, mas sim, “uma política de complicar a exploração que a Grã-Bretanha pretende fazer sem consultar previamente a Argentina. Esta é a mínima reação que o governo argentino deve ter com a Grã-Bretanha”.

Fantini ressalta que a medida produziria maior efeito se ela fosse acompanhada por decisões similares por parte do Uruguai e o Chile: “se esses dois países tampouco emprestassem seus portos, complicaria as coisas para a Grã-Bretanha”.

O analista não acredita que a eventual descoberta de petróleo levaria os kelpers a aspirar a independência da Grã-Bretanha. “Mas, se isso acontecesse, complicaria tudo para a Argentina”, afirma.

No entanto, o sociólogo Vicente Palermo, autor de “Sal nas feridas”, sobre a Guerra das Malvinas, ressaltou ao Estado que a política “teimosa” do governo e a “cega obsessão de recuperar as ilhas” acaba “reforçando a desconfiança dos kelpers” com a Argentina e complicam a reaproximação com as ilhas.

VÍNCULOS – Antes da guerra de 1982, o vínculo entre o arquipélago e a Argentina era intenso. As ilhas eram abastecidas com gasolina da estatal argentina YPF, jovens kelpers tinham bolsas de estudo para fazer o segundo grau em Buenos Aires, La Plata ou na cidade patagônia de Comodoro Rivadavia.

Além disso, em casos graves de saúde, os kelpers transportavam-se até o continente por via aérea para submeter-se a cirurgias em hospitais argentinos.

No entanto, o conflito bélico criou desconfianças dos kelpers em relação aos argentinos. Simultaneamente, os diversos governos em Buenos Aires desde o fim da guerra fizeram o possível para causar restrições ao abastecimento das ilhas.

“A Argentina possui poucos meios de ação perante esta situação”, declarou o analista geopolítico Jorge Castro. O vice-chanceler Victorio Tacetti também indicou que seria necessário paciência: “nós, argentinos, temos que nos acostumar a pensar a longo prazo. Não podemos esperar ter resultados amanhã ou daqui a dois dias”.

O francês conde de Bougainville fundou o primeiro vilarejo nas 'Malouines'

O francês conde de Bougainville fundou o primeiro vilarejo nas 'Malouines'

QUEM VIU, QUEM BATIZOU, QUEM COLONIZOU, QUEM TOMOU POSSE, QUEM CONQUISTOU:

1520 – O espanhol Esteban Gómez, capitão de um dos navios da frota de Fernão de Magalhães, vê de longe umas ilhas que poderiam ser as Malvinas.

1592 – O inglês John Davis, capitão do Desire, realiza uma suposta observação das ilhas.

1598 - O navegante holandês Sebald van Weerdt avista as ilhas (é a primeira observação confirmada do arquipélago).

1690 – Primeiro desembarque nas ilhas, realizado pelo inglês John Strong, que as batiza de Falklands, em homenagem ao sobrenome do patrocinador de sua expedição.

1763 – Franceses do porto de Saint-Malo, comandados pelo conde de Bougainville, desembarcam nas ilhas e as denominam “Malouines”. Um ano depois, estabelecem uma colônia. Fundam o vilarejo de Port Louis.

1765 – Do outro lado das ilhas, os britânicos também se instalam. 

1767 – Os franceses fazem um acordo com a Espanha e deixam as ilhas

1769-1790 – Inglaterra e Espanha disputam as ilhas. Os ingleses decidem partir

1811 – No meio das lutas de independência na América do Sul, os espanhóis partem e abandonam as ilhas, que ficam totalmente abandonadas durante quase uma década.

1820 – Buenos Aires envia um mercenário dos EUA reocupar as ilhas em nome do novo governo independente. Mas, a ocupação das ilhas, na prática, só começou em 1827, quando Buenos Aires enviou colonos. A anteriormente francesa Port Louis é rebatizada como Puerto Soledad.

1833 – Um navio britânico, a fragata Clio, expulsa os argentinos. A Grã-Bretanha coloniza as ilhas com escoceses, galeses e irlandeses. Puerto Soledad transforma-se em “Puerto Stanley”.

1966 – O grupo nacionalista argentino sequestra um DC4, pousa nas Malvinas e declara a reconquista das ilhas. O grupo é imediatamente desarmado pelas autoridades britânicas

1982 – No dia 2 de abril, tropas argentinas desembarcam por ordem do ditador Leopoldo Galtieri nas ilhas. No primeiro dia Galtieri rebatiza Port Stanley de Puerto Soledad, o nome original do vilarejo. No segundo dia muda de ideia e o re-re-batiza de Puerto Rivero. No terceiro dia, mais uma vez muda de ideia e re-re-re-batiza o aglomerado urbano de Puerto Argentino.
Mas, as forças argentinas – basicamente compostas por recrutas do serviço militar, sem equipamento adequado para a guerra no frio – são derrotadas pelas tropas enviadas pela primeira-ministra britânica Margareth Thatcher.
No dia 14 de junho, o general Menéndez, assina a rendição das forças argentinas.
Diversas denúncias feitas por ex-combatentes ao longo de 2007 e 2008 indicaram que oficiais argentinos, que haviam participado da repressão no continente durante a Ditadura, aplicaram torturas em seus próprios soldados durante a Guerra das Malvinas. Uma das modalidades era o ‘estacamiento’, isto é, amarrar com estacas um soldado sobre o solo gelado, e deixá-lo ali durante um dia inteiro.

1989 – Carlos Menem toma posse da presidência da República prometendo reconquistas as Malvinas “a ferro e fogo”. Logo depois, muda de ideia começa a “política de sedução”, uma forma sutil de aproximar-se da Grã-Bretanha, sem declarações de agressividade.

1995 a 1999 – A “política de sedução” inclui o envio de bichinhos de pelúcia da Argentina para os 3 mil habitantes das ilhas e vídeos de desenhos animados que inspirem, segundo o chanceler Guido Di Tella, “os valores da amizade”. Os kelpers enviam os bichos de pelúcia e os vídeos às crianças órfãs da guerra da Bósnia.

1999 – Depois de 17 anos de proibição, Londres permite que argentinos possam visitar as ilhas.

2007 – O presidente Néstor Kirchner lança ofensiva diplomática e comercial agressiva para reaver as Malvinas.

2009 – Crise diplomática retorna com inicio das explorações petrolíferas realizadas por empresas britânicas nas Malvinas. 

ESTATÍSTICAS DA GUERRA

blogmalvinasgaltiericopo

Ditador LF Galtieri, conhecido por seu intenso approach ao scotch

Duração do conflito bélico: 74 dias (dos quais 33 dias de combate em terra)
Argentinos mortos em combate: 649
Feridos argentinos: 1.068
Prisioneiros argentinos: 11.313 

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Britânicos mortos em combate: 258
Feridos britânicos: 777
Prisioneiros britânicos: 59

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Kelpers mortos durante os combates: 3 (morreram nos últimos dias da guerra por causa de bombardeios britânicos a Port Stanley)

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- 40% das cirurgias realizadas pelos médicos britânicos durante a guerra foram feitas em soldados argentinos.

 SUICÍDIOS
Os centros de veteranos indicam que desde o fim da guerra, mais de 450 ex-soldados suicidaram-se por estarem mergulhados em profundo estado de depressão.
Esse número é superior ao de soldados mortos em batalhas nas ilhas, que foram um total de 326; outros 323 morreram quando um submarino britânico torpedeou o cruzador General Belgrano.

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