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Ariel Palacios

 

Mapa da Província de Buenos Aires no distante anno domini de 1833, Desde aquela época a maior parte dos embates polítcos argentinos foram definidos no pedaço.

  reeleição do prefeito portenho Maurício Macri, com 64,25% dos votos, constituiu neste domingo um duro golpe para o governo da presidente Cristina Kirchner, cujo candidato, Daniel Filmus, ficou quase 30 pontos percentuais abaixo, com 35,75%. Nesta segunda-feira o governo tentava recuperar-se do baque e minimizava o eventual impacto nacional que a vitória de Macri, líder do partido Proposta Republicana (PRO), de centro-direita – que não tem candidato presidencial próprio – poderia ter sobre as eleições presidenciais marcadas para o dia 23 de outubro.

“A cidade de Buenos Aires sempre foi um distrito difícil para nós. Os resultados do domingo nos mostram como a primeira força em todo o país, além da primeira força de oposição na capital federal”, argumentou ontem o chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández.

Apesar da derrota portenha, a principal batalha política será “bonaerense”, isto é, a que será deflagrada na província de Buenos Aires, que concentra mais de 37% do total do eleitorado nacional. Nesse distrito, que supera amplamente os outros colégios eleitorais argentinos (o segundo maior distrito é o de Córdoba, com 8,7% do total do eleitorado, enquanto que o terceiro é a cidade de Buenos Aires,com 8,6%), o governo Kirchner está colocando todos seus esforços para obter uma vitória nacional contundente no primeiro turno.

Desta forma, Cristina evitaria o fantasma da segunda fase nas urnas, a primeira que ocorreria desde que a implantação do sistema de dois turnos há 40 anos.

Ontem, menosde 12horas depois da derrota portenha, o governador bonaerense, Daniel Scioli, aliado dapresidente Cristina, deslanchou sua campanha publicitária para a reeleição na província. Mas, apesar da mobilização geral do governo federal para destinar verbas especiais e planos assistencialistas, o território bonaerense é um distrito complicado, onde os prefeitos – considerados os verdadeiros “barões” da província – com frequência mudam suas lealdades.

O cenário bonaerense é mutável. Nas eleições de 2007 Cristina Kirchner conseguiu 45,9% na província de Buenos Aires, proporção que lhe permitiu conseguir uma vitória nacional. Mas, há apenas dois anos, nas eleições parlamentares de 2009, seu marido, o ex-presidente NestorKirchner– junto com os deputados do governo – ficaram em segundo lugar, com 32% dos votos.

 Mapa da Argentina com o território “eleitoral” à esquerda… e o território normal, geográficamente convencional, à direita. O mapa mostra o “peso” ou “dimensão” eleitoral de cada província argentina. A província de Buenos Aires aparece como o pedaço mais “suculento” de todo o país.

ONAERENSES - A analista política Mariel Fornoni disse ao Estado que a vitória da oposição em território portenho não se transfere de forma equivalente às eleições presidenciais. “No entanto, a derrota do governo no domingo refuta a ideia que os ministrosde Cristina haviam instalado nos meses prévios sobre uma suposta ‘invencibilidade’ do governo e de que as presidenciais já estavam ganhas. A principal mudança gerada pelas eleições portenhas é a de cortar esse enunciado de que tudo estava resolvido de forma antecipada”.

Segundo Fornoni, o principal campo de batalha será a provínciade Buenos Aires,onde cada cinco pontos percentuais de aumento de votos a favorde Cristina Kirchnerrepresentam 1,5% a mais na votação nacional.

A analistadestaca que o governo está atarefando-se em conquistar o eleitorado bonaerense, que possui um grande número de indecisos. “Mas, ainda é muito cedo para prever como será essa batalha”.

Também com cautela, Luis Majul, colunista político e autor do best-seller “Ele e ela” – sobre as tramas políticas e empresariais do casal Kirchner – afirma que as recentes derrotas eleitorais dos aliadosde Cristina “não servem de prenúncio de uma eventual derrota da presidente”.

Segundo o complexo e sui generis sistema eleitoral argentino, um candidato presidencial, para vencer no primeiro turno de forma automática, precisa ficar na pole position com 45% dos votos. Outra alternativa do sistema argentino é que o candidato consiga 40% com uma margem de dez pontos percentuais sobre o segundo colocado.

Levando em conta que o segundo colocado nas pesquisas, o deputadoRicardo Alfonsín, da União Cívica Radical (UCR), que integra a coalizão União para o Desenvolvimento Social (Udeso), está abaixo dos 30%, Cristina poderia vencer com apenas 40% dos votos.

No entanto, segundo um levantamento realizado pelo jornal portenho “Perfil”, para chegar a essa faixa de eleitores, Cristina teria que conseguir pelo menos 40% dos votos na província de Buenos Aires.

ROVÍNCIAS – Mais da metade das vinte e quatro províncias argentinas já foram às urnas para definir seus novos governadores. Desde março passado a oposição venceu nas províncias de Chubut, Neuquén, Terra do Fogo, Santa Fe e a cidade de Buenos Aires. Mas, o kirchnerismo ganhou nas provínciasde Salta, La Rioja,Misiones e Catamarca. No entanto, na Terra do Fogo, Neuquén e Chubut, apesar da derrota do kirchnerismo, os vencedores, da oposição, declararam sua simpatia pela presidente Cristina.

Fotograma do primeiro spot publicitário oficial de Cristina Kirchner para as convenções partidárias.

 RISTINA DEIXA LUTO EM SPOT PUBLICITÁRIO

Apresidente Cristina protagonizadesde este fim de semana o primeiro spot publicitário oficial de sua candidatura à reeleição. No vídeo, de 47 segundos, não há propostas de campanha, nem promessas ou exibição das obras de seu governo. A mensagem está concentrada no apelo emocional aos jovens da Argentina – ao redor de 9 milhões de pessoas entre os 18 e 38 anos – que representam um terço do total do eleitorado.

A sequência de imagens encerra-se com apresidente Cristina,de costas, discursando em tom épico para a multidão que a ovaciona.

No final do spot, Cristina aparecede branco, como se tivesse deixado para trás os momentos de luto e passado a encarar uma nova etapa de sua vida política e pessoal. A presidente ficou viúva no dia 27 de outubro do ano passado, quando seu marido e ex-presidente Nestor Kirchner morreu de um ataque cardíaco fulminante. Desde sua morte, Cristina ostentou vestimentas preta de forma rigorosa, todos os dias.

O spot integra a publicidade que os candidatos estão realizando de olho nas eleições das convenções partidárias que oficializarão os candidatos presidenciais no dia 14 de agosto.

As primárias, cujo motivo original era o de definir o candidato presidencial de cada partido, passaram a ser um mero trâmite burocrático para convalidar os candidatos únicos que cada grupo político possui. No entanto, estas eleições partidárias – voluntárias e abertas a todo o eleitorado – agora estão sendo encaradas como uma “semifinal” das presidenciais de outubro.

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

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Presidente Cristina E.Fernández de Kirchner. Ela disputará a reeleição no dia 23 de outubro. No meio do caminho passará por vários testes eleitorais prévios. No domingo da semana passada perdeu as eleições na província de Santa Fe. Ontem, a derrota foi na capital do país, Buenos Aires. No domingo que vem ocorreria uma nova derrota, já que o kirchnerismo não conta com um candidato próprio na segunda maior província do país.

Neste domingo apresidente Cristina Kirchner esteve no meio de três importantes testes nas urnas. Ontem, o candidato do governo Kirchner perdeu no segundo turno das eleições para prefeito na cidade de Buenos Aires. O vitorioso foi o prefeito Maurício Macri, de oposição, que obteve sua reeleição com uma folgada margem, com 64,25% dos votos, enquanto que seu rival, o ex-ministro da Educação e atual senador, Daniel Filmus, conseguiu 35,75%. No domingo passado o candidato kirchnerista ao governo da província de Santa Fe, Agustín Rossi, braço-direito da presidente na Câmara de Deputados, apesar da mobilização do aparato do governo federal, amargou um inesperado terceiro lugar, com apenas 22,4% dos votos.

No domingo que vem será a vez do teste eleitoral em Córdoba, que também elegerá governador onde o kirchnerismo não contava com um candidato próprio, criando um cenário onde o comando do segundo maior distrito eleitoral do país poderia ficar nas mãos dos socialistas, da União Cívica Radical ou do peronismo dissidente.

No entanto, o governo Kirchner tentou reverter o cenário, já que repentinamente, na quarta-feira, a Casa Rosada ordenou que o kirchnerismo respalde o ex-governador José Manuel dela Sota, representante do peronismo dissidente, que havia rachado com a peronista presidente Cristina há meses. No entanto, o próprio De la Sota e seus aliados fizeram questão de manter distância do “abraço de urso” conjuntural. Mas, como “nunca se sabe o que o futuro depara”, tampouco partiu para o confronto. De la Sota dispara críticas específicas contra Cristina Kirchner. Mas, não leva as coisas a um ponto de “no return”.

PESOS - A província de Santa Fe representa 8,55% dos votos nacionais, enquanto que a cidade de Buenos Aires possui 8,6% e a província de Córdoba equivale a 8,71%. Juntos, estes três distritos equivalem a 25,86% do total do eleitorado argentino, além de aglutinar 41% do PIB nacional.

Mas, na prática, o principal campo de batalha será a província de Buenos Aires, governada por Daniel Scioli, um aliado que não inspira muita confiança à presidente Cristina. No entanto, na falta de outros nomes, o governo está apostando suas principais cartas na reeleição do governador bonaerense, já que sua província, que concentra 37% do eleitorado nacional, costuma definir o vitorioso nas eleições presidenciais. Ali, a eleição será no mesmo dia da presidencial.

 

 Batalhas eleitorais argentinos estão ficando cada vez mais “quentes”. No quadro acima, outra sessão de sopapos bélicos históricos: o “Epísódio do cerco de Zaragoza. Assalto do mosteiro de Santa Engracia”. O autor, o barão Louis-François Lejeune. 1827.

PRIMEIRO TURNO PRESIDENCIAL - Até o mês passado grande parte dos analistas políticos e pesquisas de opinião pública indicavam que a presidente Cristina teria chances de vencer no primeiro turno das eleições presidenciais. Segundo o sui generis sistema argentino, criado em 1994 pelo então presidente Carlos Menem, caso o primeiro colocado consiga 40% dos votos com uma diferença de 10 pontos percentuais sobre o segundo colocado, pode ser entronizado como vitorioso. Esta possibilidade era considerada seriamente, já que o segundo colocado nas pesquisas, Ricardo Alfonsín, da União Cívica Radical (UCR), não passa de 25% dos votos nas pesquisas mais favoráveis.

Além disso, o sistema eleitoral também determina que a vitória está garantida para o candidato que consiga pelo menos 45% dos votos.

Mas, nos últimos dias começaram a pairar dúvidas na própria Casa Rosada sobre as chancesde Cristina alcançar a faixa de 40% no primeiro turno. Informações extra-oficiais sustentam que o governo teme um grande volume de votos em branco, o recuo estratégico de aliados outrora confiáveis e o ressurgimento dos protestos ruralistas nas semanas prévias às eleições.

Entre os fatores que azedaram o otimismo do governo estiveram a derrota no primeiro turno portenho, o terceiro lugar em Santa Fe, as perspectivas de dificuldades em Córdoba e osconflitos sociais na província de Jujuy, governada pelo kirchnerista Walter Barrionuevo, nos quais morreram quatro pessoas.

CÔMICO - Em Santa Fe, domingo passado, o vencedor nas eleições provinciais foi o socialista Antonio Bonfatti, do Partido Socialista, que teve 38,7%. O segundo lugar, para surpresa do governo Kirchner, ficou nas mãos do cômico e imitador Miguel Del Sel, um novato na política, candidato do Proposta Republicana (o partido do prefeito portenho Maurício Macri). O humorista, crítico da presidente Cristina, ficou nos calcanhares de Bonfatti, arrebatando 35,17%.

 Para começar a semana, o argentino Eduardo Falú, “Memorias de um tiempo vivo”. Aqui.

 …E a Sicilienne, para cello e piano, op. 78, do francês Gabriel Fauré. Aqui.

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Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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E falando em batalhas, aqui acima a batalha por Buenos Aires no distante 1536. Na ilustração do aventureiro alemão Ulrich Schmiedel, que acompanhava Pedro de Mendoza, o conquistador – e fundador de Buenos Aires (da primeira fundação) – aparecem tropas espanholas e índios querandíes em plena pancadaria. Na ocasião, os espanhóis levaram uma baita corça, a incipiente cidade foi queimada e só puderam voltar para um segundo turno de conquista em 1580, quando B.Aires – ou “Biéi” no jargão atual – foi re-fundada.

  governo da presidente Cristina Kirchnerserá submetido neste domingo a um duro teste nas urnas que definirá o futuro prefeito da cidade de Buenos Aires, sede do poder político, financeiro, sindical e cultural do país, além de ser o cenário dos principais protestos sociais da Argentina. Este teste, um a mais da série quea Argentina terá até as eleições presidenciais de outubro, promete um voto ostensivo de rejeição dos portenhos com o denominado “modelo kirchnerista”. Segundo as pesquisas, os eleitores da capital reelegeriam o atual prefeito, Maurício Macri, líder do partido de centro-direita Proposta Republicana (PRO), de oposição.

As projeções da consultoria de opinião pública Poliarquia sustentam que Macri obteria 63,6% dos votos. O candidato do kirchnerista Frente pela Vitória (uma sublegenda do Partido Justicialista), o ex-ministro esenador Daniel Filmus, contaria com 36,4%. Uma proporção similar é apontada pela consultoria Management & Fit, que indica que Macri teria 63,5%, enquanto que Filmus receberia 36,5% dos votos.

Desde o primeiro turno, quando obteve 47% dos votos, Macri mobilizou o aparato de governo para aumentar a margem de votos sobre Filmus, cuja imagem foi prejudicada pelo “Caso Schocklender”, o escândalo de corrupção que envolve o governo Kirchner com a organização de defesa dos direitos humanos das Mães da Praça de Mayo e o desvio de fundos para a construção de casas populares. Para não ficar identificada com a eventual derrotade Filmus, apresidente Cristina ficou ausente do trecho final da campanha.

A eventual vitóriade Macri reforçasuas aspirações de ser candidato presidencial em 2015. O prefeito, embora ainda não tenha definido qual candidato da oposição respaldará nas eleições presidenciais de outubro, é apontado como o principal “cabo eleitoral” para tentar levar Cristina Kirchner – a favorita nas pesquisas – a um segundo turno nas urnas.

Nesta foto de 2009 Macri participa do programa “Gran Cuñado”, uma paródia do “Gran Hermano” (Big Brother). Nesse programa um grupo de atores imitavam os principais políticos do país, como se fosse um reality show. Na foto, um exemplo de meta-paródia: ali aparece, por um lado, Macri imitando Freddy Mercuri e por outro, seu imitador imitando Macri imitando o intérprete de “We are de champions” e “Radio Ga-ga”. O real Macri é o da esquerda.

REFEITO, EVENTUAL FUTURO PRESIDENCIÁVEL E O QUASE MORTAL BIGODE - Filho do empresárioFranco Macri, ícone do capitalismo argentino nos anos 80 e 90, Maurício começou a ficar conhecido do grande público quando, depois de ter deixado as empresas familiares (segundo as más línguas, por péssimo desempenho como administrador), independizou-se da figura paterna e foi eleito presidente do Boca Juniors em 1995.

Durante uma década Macri tornou o Boca em uma máquina de marketing esportivo. Em 2004 foi candidato à prefeitura mas foi derrotado por Aníbal Ibarra. Um ano depois foi eleito deputado mas quase não participou da sessões parlamentares. Diversos analistas o indicam como um político “preguiçoso”, já que em diversas ocasiões Macri desinteressou-se do partido, para voltar a ocupar-se tempos depois. Em 2007 disputou novamente a prefeitura portenha, vencendo com 61,9% dos votos.

Nos últimos quatro anos Macri foio centrode uma série de escândalos de corrupção, desde o grampo telefônico a líderes políticos e sociais da capital, até superfaturamento em obras públicas.

Seus críticos afirmam que Macri é um representante da “Nova Direita”, apresentada com figurino “cool”. Os analistas políticos o rotulam de “centro-direita”. No entanto, o prefeito afirma que é “de centro”.

A imagem de Macri tambémficou marcada por suas eventuais trapalhadas, que fazem a delícia dos caricaturistas. Uma das últimas ocorreu em novembro passado, quando – durante sua festa de casamento com a empresária de moda Juliana Awada – Macri, vestido com a capa de Freddie Mercuri (é um fanático declarado do defunto cantor), fez um cover do líder do Queen.

No entanto, o show foi bruscamente interrompido quando o prefeito engoliu o bigode postiço que usava para imitar o autor do hit “We are the champions”.

As pessoas presentes afirmam que Macri quase morreu ao engasgar com o bigode postiço, tornando-se o primeiro político argentino a passar por uma situação de tal categoria.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Buenos Aires teve um cotidiano agitado desde sua primeira fundação em 1536 (a segunda foi em 1580 pelo basco Juan de Garay, junto com nove espanhóis e 75 paraguaios.). Do lado esquerdo da gravura, a cidade incipiente, cercada por uma paliçada com a qual os espanhóis tentavam driblar os ataques dos índios querandíes. Em meio ao caos que tomou conta do vilarejo que era sitiado com freqüência, a comida era escassíssima. Uns homens, culpados de roubar comida, foram condenados a morte e enforcados. Os outros integrantes da expedição, famintos, não hesitaram em cortar alguns pedaços dos condenados (que na gravura apearecem sem as pernas). A ilustração é do peculiar aventureiro Ulrich Schmiedel, que acompanhava o conquistador – e fundador de Buenos Aires (da primeira fundação) – Pedro de Mendoza. Mendoza abotoou o paletó de madeira no meio da viagem de volta à Espanha por uma arrasadora sífilis. Schmiedel, que também havia passado pelas costas do Brasil (visita também imortalizada com interessantíssimas gravuras). Schmidel voltou à Alemanha (Sacro Império Romano-Germânico na época) onde morreu em 1579. O livro do aventureiro, com ilustrações e texto sobre sua viagens no Brasil e Argentina chama-se “Wahrhaftige Historien. Einer Wunderbaren Schiffahrt / welche Ulrich Schmiedel von Straubing / von Anno 1534 biß Anno 1554 in Americam oder Neuwewelt / bey Brasilia und Rio della Plata gethan. …”. Ach so! A ilustração é de domínio público, já que Herr Schmiedel morreu há mais de 70 anos…

ATOS, NÚMEROS E PECULIARIDADES DE BUENOS AIRES E DESTA ELEIÇÃO

CANDIDATOS

A cidade conta com 12 candidatos a prefeito. Os principais, de acordo com as pesquisas, são:

Mauricio Macri, do Proposta Republicana (PRO), de centro-direita, de 32% a 40% das intenções de votos.

Daniel Filmus, da sublegenda peronista Frente pela Vitória, de centro-esquerda, oscila entre os 18% e 30% dos votos.

Fernando “Pino” Solanas, do Projeto Sul, de esquerda, de 8% a 14% dos votos.

ELEIÇÕES, CARGOS EM DISPUTA

- Prefeito e vice-prefeito

- Metade das cadeiras de deputados estaduais (a cidade é um distrito federal)

- Representantes das “Comunas” (subdivisões dos bairros da cidade) 

CIDADE DE BUENOS AIRES

- A capital argentina possui 2,89 milhão de habitantes (menos do que tinha em 1945, quando a população era de 3,2 milhões).

- No total, residem na cidade 2,46 milhões de eleitores portenhos.

- A cidade possui 8,6% do total do eleitorado nacional. É o terceiro maior colégio eleitoral depois da província de Buenos Aires (37,3% dos eleitores) e da província de Córdoba (8,7%)

- Buenos Aires caracteriza-se pelo voto anti-peronista.

- Buenos Aires concentra o poder político, empresarial, sindical, além de ser o principal centro cultural do país e o cenário das manifestações sociais.

ois milhões e quatrocentos mil eleitores portenhos – caracterizados por seu voto volátil – irão neste domingo às urnas para definir o futuro governo da cidade de Buenos Aires. A disputa pela prefeitura está sendo protagonizada por quinze candidatos que pretendem administrar a cidade que concentra o poder político, empresarial, financeiro, sindical, além de ser o centro cultural da Argentina e o foco das crônicas manifestações populares.

No campo de guerra portenho confrontam-se o prefeito Maurício Macri, do partido Proposta Republicana (PRO), de centro-direita, que tenta a reeleição e é o favorito nas pesquisas para obter a pole position neste primeiro turno. O ex-presidente do clube Boca Juniors era cotado até o ano passado como um dos principais presidenciáveis da oposição.

No entanto, o PRO, que está centralizado na figura de Macri, arriscava-se a perder a capital argentina caso ele não fosse candidato a um novo mandato. Desta forma, o prefeito adiou por outros quatro anos suas ambições de sair do elegante edifício francês da prefeitura, atravessar a Praça de Mayo e entrar na Casa Rosada para ser o presidente da República. Seu marqueteiro, o equatoriano Jaime Duran Barba, afirma que neste domingo à noite Macri fará “seu primeiro discurso de olho nas presidenciais de 2015”.

Para tentar derrotar Macri a presidente Cristina Kirchner determinou que seu ex-ministro da Educação, o senador Daniel Filmus, seria o candidato da Frente pela Vitória, a sublegenda kirchnerista do Partido Justicialista (Peronista).

A presidente mobilizou seu gabinete para respaldar o único candidato com relativas chances que seus aliados possuíam na cidade, caracterizada pelo rechaço à figura da presidente Cristina e seu marido e ex-presidente Nestor Kirchner, falecido no ano passado.

No entanto, ela não se engajou pessoalmente na campanha de Filmus no primeiro turno destas eleições, que está em segundo lugar nas pesquisas. A expectativa é que ocorra um intenso engajamento da presidente no eventual – e quase assegurado – segundo turno.

Além deles, também almeja conquistar o governo da maior cidade do país o cineasta Fernando “Pino” Solanas, do partido de esquerda Projeto Sul. Solanas argumenta que representa o “socialismo verdadeiro”, acusa o governo Kirchner de “falso progressismo”, enquanto que ataca Macri, definindo-o de “direitista”. O cineasta rejeita as pesquisas que o colocam em terceiro lugar e afirma que receberá o “voto silencioso” dos portenhos.

Os restantes 12 candidatos, entre os quais está o ex-prefeito Jorge Telerman, o ex-ministro da Defesa Ricardo López Murphy e o ex-árbitro de futebol Javier Castrilli, constituem – juntos com os indecisos e os que pretendem votar em branco ou anular – em 20% nas pesquisas.

No entanto, os votos destes e de Solanas (caso este não consiga seu desejo de passar para o segundo turno) serão disputados por Macri e Filmus na seguinte etapa eleitoral, que ocorreria no dia 31 de julho.

   

OLÁTIL – Os analistas consideram que eleitorado portenho é extremamente volátil, independente e refratário aos governos federais. Roberto Bacman, diretor da empresa de pesquisa de opinião pública Ceop, admitiu ao Estado: “Buenos Aires é uma cidade muito esquisita”. Além disso, o clientelismo – frequente nas províncias do interior – não tem peso significativo na cidade.

Sobre a marca da volatilidade portenha, um dos principais colunistas políticos do país, Joaquín Morales Sola, do jornal “La Nación”, ressalta que em 1996 e 1999 os portenhos concederam a Fernando De la Rua amplas vitórias nas respectivas eleições para a prefeitura e para a presidência da República. Mas, foram os próprios portenhos que em 2001 – com os panelaços e protestos nas ruas – provocaram a queda de De la Rua.

Perante a hipótese de um segundo turno – que todos os candidatos admitem – o governo Kirchner está colocando grande esforço para vencer na próxima etapa em Buenos Aires, já que uma eventual conquista da prefeitura portenha constituiria em um duro golpe à oposição.

Além disso, uma eventual vitória kirchnerista implicaria uma mudança drástica na história eleitoral portenha, onde o peronismo só ganhou uma eleição, em 1992, quando o governo de Carlos Menem estava em seu apogeu de popularidade. No entanto, os analistas destacam que as eleições portenhas “criam clima mas não antecipam resultado nacional algum”.

ERFIS DOS PRINCIPAIS CANDIDATOS A PREFEITO DA CAPITAL ARGENTINA

MAURÍCIO MACRI – Filho do empresário ítalo-argentino Franco Macri, ícone do capitalismo argentino nos anos 80 e 90, Maurício nasceu em 1959. No início dos anos 90 trabalhou durante um breve período nas empresas do pai, das quais foi afastado – segundo as más línguas – por péssimo desempenho como administrador. Em 1995 independizou-se da figura paterna e foi eleito presidente do Boca Juniors. No comando do time – transformado em uma máquina de marketing esportivo – tornou-se uma figura conhecida do grande público. No final dos anos 90 começou a flertar com a política, aproximando-se do então presidente Carlos Menem (1989-99). Em 2003 criou seu partido, o Compromisso pela Mudança (CpC), que desde 2005 integra a coalizão Proposta Republicana (PRO). Macri define-se de “centro”.

Mas, analistas – além de seus críticos – afirmam que trata-se da “Nova Direita” apresentada com figurino “cool”.

Diversos analistas o indicam como um político “preguiçoso”, já que em diversas ocasiões Macri desinteressou-se do partido, para voltar a ocupar-se tempos depois.

Em 2005 foi eleito deputado, mas quase não apareceu no Parlamento. Após vencer as eleições da prefeitura em junho de 2007, em vez de consolidar-se como líder da oposição, saiu de férias. Os efeitos dessa “preguiça” ficaram evidentes quatro meses depois, nas eleições parlamentares e presidenciais, quando seu partido caiu dos 61,9% dos votos obtidos em junho na cidade de Buenos Aires – seu principal reduto – para somente 12% dos votos portenhos. 

Nas eleições parlamentares de 2009 o PRO somente obteve 30% dos votos na cidade governada por Macri.

Em 2007 foi candidato a prefeito. No confronto contra o candidato do governo Kirchner, Daniel Filmus (no qual votou seu pai, Franco Macri), Maurício venceu com 61% dos votos no segundo turno. Mas, nas eleições parlamentares de 2009 seu partido conseguiu apenas 30% dos votos portenhos.

Em novembro passado, durante sua festa de casamento com a empresária do setor de moda Juliana Awada, Maurício subiu no palco do salão de festas e – vestido com a capa de Freddie Mercuri – fez um cover do líder do Queen. No entanto, a imitação do autor de hits como “We are the champions” foi interrompida quando – com o suor – o bigode postiço que ostentava para emular o cantor deslizou sobre seu lábio superior e rapidamente foi parar em sua garganta interrompendo a interpretação de “Love of my life”. As pessoas presentes afirmam que Macri quase morreu ao engolir e engasgar com o bigode postiço, tornando-se o primeiro político argentino a passar por uma situação de tal categoria.

DANIEL FILMUS – Nascido em 1955, Filmus estudou sociologia e pedagogia na Universidade de Buenos Aires, além de fazer um mestrado na Universidade Federal Fluminense no Rio de Janeiro. Nos anos 70 teve uma breve passagem pela juventude do Partido Comunista. Mas, entre 1989 e 1992 ocupou diversos cargos secundários durante o governo do peronista Carlos Menem, de centro-direita. No entanto, desvinculou-se do menemismo, tornando-se crítico de suas tendências privatizantes. Em 2003 aceitou a oferta do presidente Nestor Kirchner (2003-2007) para ocupar o cargo de ministro da Educação.

Em 2007 Kirchner e sua esposa, Cristina, optaram pela boa imagem de Filmus como ministro para lançá-lo candidato a prefeito da cidade de Buenos Aires, distrito eleitoral costumeiramente refratário ao Partido Justicialista (Peronista).

Durante a campanha, perante as pesquisas que indicavam que seria derrotado por Macri, Filmus apelou a um slogan que os publicitários consideraram “desesperado”: “Vote em Filmus – Nada é impossível”.

Apesar da derrota, seu nome continuou sendo cotado como eventual futuro candidato do governo para a disputa da capital argentina. Em maio passado, a presidente Cristina Kirchner decidiu que dos três candidatos do governo para a cidade, o que melhor despontava nas pesquisas era Filmus. Desta forma descartou o ministro do Trabalho, Carlos Tomada (que tornou-se o vice-prefeito da chapa) e o ministro da Economia, Amado Boudou (que foi colocado como vice na chapa presidencial da própria Cristina Kirchner)

É um dos poucos ex-integrantes do gabinete Kirchner não envolvido em escândalos de corrupção.

FERNANDO SOLANAS - Solanas, que define-se como o “real” representante da esquerda argentina, acusa a presidente Cristina Kirchner de ser uma “falsa” esquerdista e de ser aliada dos capitais estrangeiros, entre os quais companhias telefônicas e mineradoras.

Aos 75 anos, o parlamentar e diretor de filmes cult como “Tangos, o exílio de Gardel”, é o líder do Projeto Sul, partido que reúne representantes da esquerda, de setores do sindicalismo e de organizações de defesa dos Direitos Humanos.

O líder do Projeto Sul propôs “desterrar a pobreza” e “instalar a ética pública no Estado argentino”.

Solanas, casado com a atriz brasileira Ângela Correa, conseguiu 25% dos votos na cidade de Buenos Aires nas eleições parlamentares de 2009, despontando como fenômeno político. Ele já havia sido duas vezes candidato à presidência da Argentina (1995 e 2007), sem no entanto conseguir votos expressivos.

Nos últimos três anos oscilou entre respaldar algumas medidas do governo Kirchner, como a Lei de Mídia, a estatização do sistema previdenciário e da Aerolíneas Argentinas, e criticá-lo em outras, como a reabertura da reestruturação da dívida com os credores privados que estava em estado de calote e na intervenção do Banco Central. “A política de Cristina Kirchner é de super-direita”, dispara Solanas.

PELIDOS DE BUENOS AIRES

A cidade é chamada de diversas formas:

- Baires (aplicada pelos jovens)

- Cidade Autônoma de Buenos Aires (ou a sigla CABA)

- Capital Federal (ou Cap.Fed.)

- A Paris da América do Sul

- A Rainha do Rio da Prata

A cidade foi fundada com o nome de Real de Nuestra Señora Santa Maria del Buen Ayre. Essa havia sido a promessa de Pedro de Mendoza à Padroeira dos Navegantes que estava na Fraternidade dos Marinheiros de Triana, um dos bairros de Sevilha, na Espanha.

“Buen Ayre” era a versão castelhanizada do nome da Virgem de Bonaria, que os padres mercedários veneravam em um santuário em Cagliari, na ilha da Sardenha. Esta virgem, por seu lado, também era venerada em Cádiz, Espanha.

Na segunda fundação a cidade recebeu o nome de “Ciudad de la Trinidad”. Mas o porto (só a área do porto) foi designado “Santa Maria del los Buenos Ayres”. No entanto, este último nome teve mais “punch” entre os portenhos e dali toda  cidade passou a ser Buenos Ayres. E finalmente, Buenos Aires.

 EXTRA! EXTRA!

- BOCA DE URNA

Caras e caros, as primeiras bocas de urna indicam que haverá segundo turno no dia 31 de julho, já que Macri teria oscilado entre 43% e 46% dos votos, enquanto que Filmus ficaria na faixa dos 30% aos 33%. 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Maurício Macri, filho do empresário ítalo-argentino Franco Macri – um ícone do capitalismo argentino nos anos 80 e 90 – nasceu em 1959 em Tandil, no interior da província de Buenos Aires. Desde que era um jovem engenheiro foi encarado como o herdeiro do grupo Socma. Mas, após trabalhar um breve período nas empresas do pai, foi afastado – segundo as más línguas – por ser péssimo administrador. Na época, foi suspeito de ter realizado contrabando de carros desde o Uruguai por intermédio das empresas.

Em 1995, decidido a ter uma vida independente do pai, Maurício transformou-se em presidente do Boca Juniors. No comando do time – que transformou em uma máquina de marketing esportivo – tornou-se uma figura conhecida do grande público.

No final dos anos 90 começou a flertar com a política, aproximando-se do então presidente Carlos Menem (1989-99).

Em 2003 criou seu partido, o Compromisso pela Mudança (CpC), que desde 2005 integra a coalizão de centro-direita Proposta Republicana (PRO).

Diversos analistas o indicam como um político “preguiçoso”, já que em diversas ocasiões Macri desinteressou-se do partido, para voltar a ocupar-se tempos depois.

Em 2005 foi eleito deputado, mas quase não apareceu no Parlamento.

Após vencer as eleições da prefeitura em junho de 2007, em vez de consolidar-se como líder da oposição, saiu de férias. Os efeitos dessa “preguiça” ficaram evidentes quatro meses depois, nas eleições parlamentares e presidenciais, quando seu partido caiu dos 61,9% dos votos obtidos em junho na cidade de Buenos Aires – seu principal reduto – para somente 12% dos votos portenhos. 

Nas eleições parlamentares de 2009 o PRO somente obteve 30% dos votos na cidade governada por Macri.

Nesta semana o  prefeito indicou que pretende ser candidato presidencial .

Franco Macri, pai de Maurício e ícone do capitalismo argentino dos menemistas anos 90. Desde 2004 transformou-se em um ativo defensor da política econômica do governo Kirchner. É uma espécie de “guru” da presidente Cristina Kirchner sobre investimentos da China. Famoso por ser playboy, Franco Macri teve uma longa lista de namoradas de quatro décadas a meio século mais novas que ele. Modelos e atrizes integram sua lista de conquistas.

O PAI - O prefeito enfrenta insólitos percalços. Um deles é gerado por seu próprio pai, Franco Macri, que declarou em meados de 2010 que “pelo lado afetivo, votaria em meu filho. Mas, se votar de forma racional, votaria em Néstor Kirchner”.

O empresário não esconde que considera o filho prefeito um garoto mimado e não perde oportunidades para tecer elogios rasgados sobre o casal presidencial. Dias depois das declarações de Franco, Maurício – que anos atrás definiu o pai como “meu principal inimigo” – apareceu com um olho roxo. Os boatos indicavam que era o fruto de uma briga com seu irmão Mariano, que está do lado do pai.

Gabriela Cerruti, autora de “El Pibe” (O Garoto), biografia não-autorizada do prefeito, sustenta que Macri “não passa de um homem que quis ser empresário de sucesso, fracassou, e refugiou-se no Boca Juniors e na política para fugir do pai todo-poderoso”.

Pai e filho possuem discussões pendentes. Segundo a revista “Notícias”, Franco sustenta que o filho tentou remover de suas mãos empresas do grupo. Do lado de Maurício, segundo a publicação, as pessoas do círculo do prefeito indicam que o tempo do octogenário Franco “já acabou” e que o empresário não se resigna a uma aposentadoria.

Macri designou em 2009 Jorge Palacios como chefe da polícia metropolitana. Mas, o ex-delegado é suspeito de desde meados dos anos 90 de ter escondido provas sobre o atentado da AMIA, ocorrido em 1994. No ataque terrorista morreram 85 pessoas. Outras 300 foram feridas ou mutiladas. Macri teve que recuar um mês e meio depois da designação, e removeu Palacios do posto. Analistas indicaram que o caso foi uma demonstração da falta de tato do prefeito para assuntos espinhosos. Acima, pessoas caminham sobre sobre os escombros da AMIA, tentando encontrar sobreviventes.

GRAMPOS – No início de 2010 Macri foi acusado de ordenar grampos telefônicos para espionar políticos. O juiz Norberto Oyarbide – que indicou que 400 pessoas foram espionadas por um grupo de policiais comandado pelo então delegado Jorge “Fino” Palacios – sustentou que “existe uma verdadeira Gestapo” em Buenos Aires, em alusão à polícia secreta do Terceiro Reich.

Um dos alvos da espionagem – focalizada na área financeira dos espionados – foi Sergio Burstein, ativo líder dos parentes das vítimas do atentado realizado em 1994 contra a associação beneficente judaica AMIA.

Entre as pessoas espionadas estavam o próprio braço-direito de Macri, Horacio Rodríguez Larreta (seu chefe de gabinete), parlamentares da oposição e empresários envolvidos em um escândalo de corrupção do setor farmacêutico. Bartolomé Mitre, proprietário do tradicional jornal “La Nación” também foi espionado.

O ex-delegado Palacios possui fama controvertida, já que é suspeito de ter escondido provas sobre o atentado da AMIA em 1994. No ataque terrorista morreram 85 pessoas. Outras 300 foram feridas ou mutiladas.

Em julho de 2009 Palacios foi designado chefe da nova polícia metropolitana criada por Macri. Mas, um mês e meio depois, perante a forte reação da comunidade judaica argentina, Palacios teve que deixar o posto.

Desde o primeiro semestre de 2010 Macri está à beira do julgamento político e do risco de impeachment.

Na mesma época a vida de Macri ficou também complicada por outro confuso episódio, envolvendo seu ex-cunhado, Néstor Leonardo, parapsicólogo de profissão. O ex-esposo da irmã de Macri acusou o prefeito de ordenar o grampo seus telefones. No dia seguinte, o ex-cunhado foi alvo de uma misteriosa tentativa de assalto. O advogado de Leonardo explicou de forma peculiar: “foi uma tentativa de 80% de assassinato”.

O ano 2010 não foi bolinho para o prefeito. Representante dos setores conservadores portenhos, Macri optou por dar um respaldo light à lei que autorizava casamento entre pessoas do mesmo sexo. A decisão de apoio – embora cautelosa – provocou uma forte reação negativa da cúpula da Igreja Católica.

De quebra, de agosto a novembro desse ano a cidade foi abalada por manifestações de estudantes que ocupam mais de trinta escolas e faculdades para protestar pelo péssimo estado dos edifícios dos estabelecimentos escolares. Os protestos incluíram uma manifestação de 40 mil jovens que marcharam no centro portenho para protestar contra Macri e a presidente Cristina Kirchner.

No meio de crises Macri reage com viagens. Assim ocorreu com o surgimento do risco de julgamento político, quando optou por esquiar na Cordilheira dos Andes. Enquanto os estudantes ocupavam estabelecimentos educativos, o prefeito partiu rumo à Roma.

MORTES – Em dezembro a cidade foi abalada pela ocupação do Parque Indo-americano, no extremo sudoeste de Buenos Aires, por parte de pessoas sem-teto, além de outras provenientes de favelas da região. Macri tentou remover os ocupantes com sua recém-inaugurada polícia metropolitana e a polícia federal. A manobra terminou em pancadaria transmitida ao vivo pela TV para todo o país.

Nos dias seguintes a situação complicou-se com a morte de vários imigrantes bolivianos e paraguaios durante os incidentes. Os imigrantes foram mortos pelas forças de segurança federal e municipal, fato que causou perda de imagem para ambos governos. Além disso, os moradores do bairro vizinho ao parque, Villa Soldati, reagiram com fúria à presença dos imigrantes e espancaram centenas deles. Desta forma, durante uma semana, o canto sudoeste de Buenos Aires, preterido sempre pelos governos local e nacional, foi o cenário de batalhas campais entre civis.

Macri teve que implorar ajuda à presidente Cristina Kirchner, que após um período prolongado, finalmente concordou em enviar as tropas da Gendarmería ao lugar dos incidentes.

 O zanzibariano (ou zanzibariense?) Farrokh Bulsara, aliás o barítono Freddie Mercury (1946 – 1991), é o ídolo musical do prefeito portenho Maurício Macri.

QUEEN E BIGODE – Macri tampouco escapa dos vexames públicos. Em novembro, durante sua festa de casamento com a elegante empresária do setor de moda Juliana Awada, o prefeito subiu no palco do salão de festas e – vestido com a capa de Freddie Mercury – fez um cover do defunto líder do Queen (Macri, fanático declarado do Queen celebrou vários highlights de sua vida – entre as quais vitórias eleitorais – pulando e cantando como Mercury).

No entanto, a imitação do autor de hits como “We are the champions” foi interrompida inesperadamente quando – com o suor – o bigode postiço que ostentava para emular o defunto cantor deslizou sobre seu lábio superior e rapidamente foi parar em sua garganta interrompendo sua interpretação de “Love of my life”.

Macri quase morreu ao engolir e engasgar com o bigode postiço, tornando-se o primeiro político argentino a passar por uma situação de tal categoria.

Entre os convidados do casamento correu o irônico comentário: “foi o espírito de Freddie Mercury que fez isso, para que Maurício não cante mais!”.

À esquerda, Macri imita Freddie Mercury…enquanto que à direita um imitador imita Macri fazendo a imitação de Mercury. A cena transcorreu em 2009 em “Gran Cuñado”, uma paródia do programa “Gran Hermano” (Big Brother).  

Macri (não no casamento, mas sim na festa de seus 50 anos) entoa um dos hits do líder do Queen. O vídeo, aqui.

   

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Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Néstor Kirchner, já primeiro-cavalheiro, faz discurso em defesa do governo da mulher e sucessora. O ex-presidente, considerado o verdadeiro poder no governo de Cristina Fernández de Kirchner, morreu em outubro passado. Sua morte alterou o mapa político do país. A nova configuração dessa cartografia do poder ainda não está clara (foto da presidência da República).

A presidente Cristina Kirchner completou em dezembro três anos de governo. Ela também começou a reta final de seu mandato, já que restam-lhe pouco mais de 340 dias na Casa Rosada, o palácio presidencial. No entanto, a intenção do governo é que Cristina não se restrinja a este ano que lhe resta e que dispute as eleições presidenciais previstas para daqui a dez meses. Ao longo das últimas semanas diversos ministros de seu gabinete afirmaram que ela é a candidata.

O chanceler Héctor Timerman declarou que “não vislumbra outro candidato” e que a presidente é a “opção natural” do governo. Timerman sustentou que a candidatura de Cristina Kirchner expressa “a vontade do povo argentino”.

De quebra, diversos governadores respaldaram sua reeleição, além de centenas de prefeitos peronistas que reuniram-se com ela em meados de dezembro na residência oficial de Olivos.

Este também será o primeiro ano que a presidente Cristina passa sem seu marido e antecessor no cargo, o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), considerado o verdadeiro poder no governo da mulher até sua morte, ocorrida no dia 27 de outubro. Na manhã desse dia Kirchner sofreu um ataque cardíaco fulminante.

De lá para cá o governo passou por uma primeira etapa de paralisia pela morte do líder, que centralizava todas as decisões, da política à economia. Depois, ficou desorientado, com o surgimento de brigas entre ministros, que antes eram disciplinados pelo temperamental Kirchner. Para complicar, surgiu o escândalo WikiLeaks, com telegramas americanos que indicavam que a secretária de Estado dos EUA. Hillary Clinton, estava preocupada pela “saúde mental” da presidente argentina e perguntava a seus diplomatas quais “remédios” ela tomava.

Mas, entre meados de novembro e início de dezembro, perante a apatia da oposição, a presidente Cristina começou a dar uma guinada que incluiu a moderação do discurso; a reaproximação com o FMI (organismo que seu marido abominava) e uma leve redução dos decibéis de críticas à imprensa.

Os analistas afirmam que o ano que resta de mandato de Cristina Kirchner poderá ser significativamente diferente aos três anos anteriores, marcados pela presença do marido.

ALTOS E BAIXOS E ALTOS - Mariel Fornoni, diretora da consultoria Management & Fit afirmou ao Estado que Cristina Kirchner havia começado relativa recuperação de sua imagem em setembro graças à recuperação econômica. Mas, em outubro, a morte de seu marido, o consequente período de luto – o denominado “fator viúva” – e um comportamento mais “moderado” de Cristina melhoraram drasticamente a imagem da presidente.

No entanto, depois dos incidentes ocorridos no dia 10 de dezembro, quando três imigrantes bolivianos e paraguaios foram mortos pelas forças de segurança – e centenas de outros foram espancados por moradores do bairro portenho de Villa Soldati (perante a omissão do governo federal) – a imagem da presidente voltou a cair.

Os incidentes – que incluíram as ocupações de uma dezena de terrenos em várias áreas da Grande Buenos Aires e da cidade de Buenos Aires por parte de milhares de favelados e sem-teto – abalaram tanto o governo Kirchner como o prefeito portenho Maurício Macri, da oposição.

Mas, segundo a consultoria Poliarquia, entre altos e baixos, a presidente Cristina encerrou o ano melhor do que começou.

A pesquisa da Poliarquia – que não chegou a medir o impacto dos recentes conflitos sociais – indica que sua imagem negativa caiu 30 pontos, enquanto que sua imagem positiva melhorou em 36 pontos.

Dessa alta, 20 pontos foram obtidos imediatamente após a morte de Kirchner em outubro. O resto da alta foi conseguido de forma gradual ao longo do ano.

Desta forma, a presidente Cristina conta hoje com 57% de imagem positiva e 21% de imagem negativa.

Cristina Kirchner optou, na cúpula de Mar del Plata, por não aceitar o pedido do presidente venezuelano Hugo Chávez de fazer uma condenação pública dos EUA por causa do escândalo WikiLeaks.

“MODERAÇÃO”“Cristina está moderando seu discurso e reduziu as críticas à imprensa. Durante a cúpula ibero-americana em Mar del Plata, no início do mês, ela ficou mais do lado do Chile e do Brasil, que preferiam moderação com os EUA pelo escândalo WikiLeaks, distante dos países ‘bolivarianos’ como a Venezuela, Bolívia e Equador, que queriam uma condenação conjunta”, afirma Fornoni. “Ora, Cristina é muito mais racional do que Néstor Kirchner”, em referência aos acessos de raiva e medidas que o ex-presidente tomava por questões passionais.

“Parece que Cristina tinha um plano na cabeça que estava em stand by enquanto Kirchner  estava vivo”, afirma ao Estado o colunista político Carlos Pagni, do jornal “La Nación”.

Segundo Pagni, a morte de Kirchner remove de cima do governo um “passivo eleitoral”: “Kirchner era um péssimo candidato para as eleições presidenciais de 2011. Ele possivelmente teria levado o kirchnerismo à derrota. O governo perdeu um grande passivo, enquanto que a oposição perdeu um grande ativo com sua morte. A oposição terá que se reorganizar, já que todos cresciam nas pesquisas só pelo fato de opor-se a Kirchner. Isso acabou”.

Em sintonia, Fornoni afirma que “a oposição, com a morte de Kirchner, está desorientada. Era mais fácil bater no governo quando Kirchner estava vivo. E, para complicar a situação, a oposição não está conseguindo seduzir a população”.

Pagni considera que o governo tentará ser moderado nos próximos tempos, ao contrário dos anos anteriores, quando Kirchner pairava sobre a administração de Cristina: “se tivessem me perguntado antes da morte de Kirchner quantas crises políticas de grande tamanho ele provocaria antes de dezembro do ano que vem, eu teria respondido ‘umas três’. Mas, atualmente, não vejo as possibilidades dessas grandes crises. Kirchner era uma máquina de produzir furações e maremotos em um vaso de flores, como a crise com o campo, a remoção do presidente do Banco Central. Isso não vai ocorrer mais desse jeito”.

 

Santiago Kovadloff analisa prós e contras dos primeiros três anos de governo Cristina

CRISTINA KIRCHNER É CAUDILHA PROVINCIANA COM TOQUES DE VANGUARDA, DIZ FILÓSOFO

“A presidente Cristina Kirchner teve três anos de governo peculiar. Ela teve atitudes de vanguarda ao mesmo tempo de atitudes conservadoras, caudilhescas e provincianas”. A frase é do filósofo e ensaísta argentino Santiago Kovadloff, que em entrevista ao Estado analisou os três anos de governo da presidente Cristina e as perspectivas para o último ano de seu mandato. 

Estado – Como definiria o estilo de governar de Cristina?

Kovadlof – Para consolidar o poder que alcançaram em 2003, os Kirchner seguiram um procedimento de capitalizar a fragilidade institucional que existia na época a favor de uma liderança fortemente pessoal. De lá para cá houve uma alta concentração do Poder Executivo, a permanente crítica e ofensa da oposição, a exploração da cultura caudilhesca em detrimento das instituições republicanas. Desde que Cristina assumiu o poder em 2007,  ela esteve sob forte influência de seu esposo. No entanto, desde a morte de Kirchner desponta uma Cristina livre do peso do marido, que mostra mais moderação e emite sinais de que não é tão “kirchnerista”, de forma a conquistar setores da classe média que a rejeitavam…

Estado – A sociedade vai acreditar em uma “deskirchnerização” de Cristina?

Kovalodff – Veremos se a sociedade vai encarar isso como uma mudança real ou se somente será algo superficial. Mas, se a oposição não emitir sinais claros de que é capaz de superar suas divergências internas, é bem possível que boa parte do empresariado e da opinião pública respaldem a candidatura de Cristina.

Estado – Considera que a oposição conseguiria unir suas forças?

Kovadloff – Se a intenção de voto para Cristina no primeiro turno não for muito elevada, a oposição poderá ter o luxo de desfrutar de sua fragmentação. Mas, se as chances de Cristina forem elevadas, a oposição precisará de um candidato de consenso. No entanto, tal como o cenário desponta, os riscos de que a oposição faça acordos de forma apressada são maiores do que a possibilidade de que a convergência seja o resultado de um acordo longamente meditado.

Estado – Uma coisa é que a oposição una forças e ganhe a eleição. Mas outra é que tentar governar nos quatro anos seguintes..

Kovadloff – São dois passos sucessivos e não necessariamente complementares…

Estado – Quais os pontos positivos e negativos destes três anos de governo?

Kovadloff  - O governo tem vários pontos positivos, embora isso não altere sua orientação despótica e caudilhista. Cristina criou programas para ajudar famílias pobres, manteve a Corte Suprema que recebeu, respaldou leis de vanguarda como o casamento de pessoas do mesmo sexo, além de criar o ministério de ciência e tecnologia e estimular a cultura nacional. Ela também reaproximou-se dos EUA e reforçou a aliança com o Brasil. Não são conquistas conjunturais. São estruturais. Mas, ao mesmo tempo, seu governo foi espantosamente retardatário, ao ser sectário com todos aqueles que não concordam 100% com a presidente, o desinteresse pelo diálogo com a oposição, as pressões à imprensa, suas alianças com os conservadores caudilhos do norte do país, a corrupção. Este governo foi de uma insularidade provinciana…

  

GOVERNADORES E AS ELEIÇÕES ANTECIPADAS – As 24 províncias argentinas (incluindo o distrito federal) possuem algumas peculiaridades que as tornam diferentes aos estados brasileiros. Embora economicamente elas possuam uma maior dependência do governo federal, elas são mais autônomas no que concerne ao lado eleitoral. Desta forma, uma assembleia legislativa de uma província “X” pode determinar uma modificação das normas sobre reeleição de governadores.

Isto é, enquanto que a constituição nacional permite apenas uma reeleição presidencial consecutiva, existem várias constituições provinciais que permitem reeleições indefinidas. Outras não permitem reeleição alguma. E outras, como no sistema presidencial, permitem apenas uma reeleição.

Essa autonomia também vale na hora de marcar a data das eleições para governador. Cada província tem o direito de marcar a eleição provincial na data em que quiser.

Este direito será usado intensamente neste ano, já que onze províncias (pelo menos) deixaram claro que pretendem “desdobrar” as eleições. Isto é, fazer as eleições provinciais antes das eleições presidenciais.

Este desdobramento indica que os governadores (tanto do governo como da oposição( consideram que o cenário político para as eleições presidenciais é de total incerteza. E portanto, preferem evitar riscos de ‘afundar’ junto com o governo ou com a oposição em outubro. 

OPOSIÇÃO COMEÇA A APRESENTAR CANDIDATURAS

Em julho do ano passado, quando a presidente Cristina Kirchner sofreu uma fragorosa derrota nas eleições parlamentares, obtendo somente 30% dos votos contra 70% da totalidade dos partidos da oposição, os analistas e a opinião pública acreditavam que os diversos partidos críticos da administração kirchnerista organizariam uma frente sólida contra o governo. Na época, a expectativa era que dali apareceria um candidato presidencial de consenso para a sucessão da presidente Cristina.

Mas, um ano e meio depois, o cenário é diametralmente outro. Ciumentos uns dos outros, os líderes dos principais partidos da oposição – a União Cívica Radical (UCR), de centro; a Coalizão Cívica, de centro-esquerda; o Projeto Sul, de esquerda, e a Proposta Republicana e o peronismo dissidente, de centro-direita – foram incapazes de negociar o consenso.

De quebra, não conseguiram formar um bloco consistente contra o governo no Parlamento. “O governo é minoria no Congresso, mas está unido. A oposição é maioria, mas está dividida e não possui uma liderança que articule suas ações”, disse ao Estado o analista político Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos Nueva Mayoría.

Neste contexto de profundas divisões e troca de acusações, os partidos de oposição aproveitaram o último mês do ano para anunciar seus pré-candidatos presidenciais.

No início de dezembro, o primeiro foi Ricardo Alfonsín – filho do ex-presidente Raúl Alfonsín – que lançou sua candidatura pela União Cívica Radical (UCR), de centro. Uma semana depois foi a vez do principal líder da esquerda, o diretor de cinema e deputado Fernando “Pino” Solanas, do partido Projeto Sul.

A deputada Elisa Carrió, conhecida como “a caçadora de corruptos”, por sua constante denúncia de casos de corrupção, líder da Coalizão Cívica, de centro, que pretendia lançar sua pré-candidatura em janeiro, antecipou seus planos e também anunciou seu lançamento em dezembro.

O ex-presidente provisório Eduardo Duhalde (2002-2003) também apresentou sua pré-candidatura à presidência da República, pouco antes do Natal.

Duhalde, um dos líderes do Peronismo Federal, também denominado de “Peronismo dissidente”, de oposição ao governo da presidente Cristina Kirchner, integra o setor do partido Justicialista (Peronista) que reúne os peronistas insatisfeitos com o governo Kirchner.

Dias antes de seu lançamento a presidente Cristina sugeriu que o ex-presidente estava por trás dos incidentes nas ocupações de terrenos na cidade de Buenos Aires e na Grande Buenos Aires por parte de favelados e sem-teto. Segundo ela, o Duhalde “apadrinhou” os incidentes. Duhalde retrucou: “há cinco anos tentam me culpar de tudo o que acontece no país”.

O prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, do Proposta Republicana, de centro-direita, deu sinais a seus correligionários nos últimos dias de que não disputaria a presidência da República. Ele tentaria a reeleição da prefeitura portenha em 2011. No entanto, dias depois Macri – famoso por oscilar com frequência – mudou de ideia e anunciou que possui mais “vocação de presidente” do que de tentar uma reeleição para a prefeitura.

No entanto, todo este cenário poderia ser bastante alterado em caso de eventual retirada da candidatura da presidente Cristina (seus ministros a estão empurrando para a reeleição, mas ela ainda não se pronunciou sobre o caso). Os analistas destacam que será preciso avaliar como nos próximos meses pesará no lado emocional da presidente a ausência do defunto marido.

No caso de retirada da candidatura de Cristina especula-se no nome do governador de Buenos Aires, Daniel Scioli, como candidato do governo à presidência. Scioli, que já foi o vice de Néstor Kirchner, é encarado como um candidato que poderia gerar um retorno de diversos peronistas dissidentes. Uma espécie de nome de consenso que – sem gerar grande entusiasmo – seria útil para ocupar a presidência da República enquanto as forças peronistas se reacomodam e definem o surgimento de um novo caudilho.

Os analistas também destacam que o silêncio de Cristina sobre sua própria candidatura poderia ser uma estratégia para esperar uma época mais próxima às eleições para oficializar seu lançamento. Uma espécie de golpe de efeito para atordoar a oposição.

PRESIDENCIÁVEIS

CENTRO/CENTRO-ESQUERDA/com touchs de centro-direita

- Pelo partido Peronista, ou mais especificamente pela sub-legenda Frente para a Vitória

Cristina Kirchner

(e Daniel Scioli, caso a presidente Cristina não se apresente à reeleição)

CENTRO

- Pela União Cívica Radical (UCR)

Julio Cobos

Ricardo Alfonsín

Ernesto Sanz

- Pela Coalizão Cívica

Elisa Carrió

CENTRO-ESQUERDA

- Pelo Socialismo

Hermes Binner

CENTRO-DIREITA

- Pelo Peronismo dissidente

Eduardo Duhalde

Carlos Reutemann (embora semanas atrás, mais uma vez, disse que não seria candidato e afastou-se do Peronismo Federal ou ‘dissidente’)

Felipe Solá

Mario das Neves

 

- Pelo Proposta Republicana (Pro)

Maurício Macri 

ESQUERDA

- Pelo Projeto Sul

Fernando ‘Pino’ Solanas

Independentes (candidatos sem chance alguma de passar de 2% das intenções de voto, embora afirmem que serão candidatos)

- Carlos Menem

- Alberto Rodríguez Sáa

 A partir desta 3afeira – a não ser por caso de força maior – teremos os perfis dos vários candidatos presidenciais que estão despontando (com chances ou sem chances):

Começaremos por Elisa Carrió na 3afeira

Eduardo Duhalde será na 4afeira

Maurício Macri na 5afeira

Julio Cobos, Ricardo Alfonsín e Ernesto Sanz serão na 6afeira

Fernando ‘Pino’ Solanas e Hermes Binner no sábado

E Carlos Reutemann, Carlos Menem e outros peronistas dissidentes no domingo.

   

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Bairro de Villa Soldati, em plena capital argentina, é cenário de batalha campal. Moradores atacam e matam imigrantes bolivianos e paraguaios. Prefeito Macri acusa presidente Cristina de omissão e de permitir massacre, governo federal acusa governo municipal de xenofobia e de incapacidade de lidar com crise. Todos contra todos, tal como nesta gravura de 1550 do geógrafo alemão Sebastian Munster, que mostra monstros marinhos tentando matar uns aos outros.

RESUMO: Na semana passada surgiu um assentamento no parque Indo-americano. Moradores de Villa Soldati, em protesto contra a presença desse grupo, iniciaram protestos que transformaram-se em um dia em ataques violentos. Trinta pessoas, a maioria imigrantes, foram feridas nos incidentes. Quatro imigrantes foram assassinados no meio dos choques, segundo sistema médico SAME. Mas, governo federal e municipal, inimigos políticos, discordam e afirmam que foram três mortos.

As cenas de violência protagonizadas pelos habitantes da classe média baixa de V.Soldati gerou a sensação de que ali poderia ocorrer um mini-pogrom.

Durante três dias, o governo da presidente Cristina Kirchner – apesar da emergência – nada fez para impedir os ataques dos moradores de Soldati contra os imigrantes. No mesmo período, o governo do prefeito Maurício Macri tampouco enviou a maior parte de suas forças de segurança para impedir o caos e separar os dois grupos em choque.

Desde o fim de semana existe uma calmaria aparente na área, quando o governo finalmente enviou a Gendarmería (corpo especial de segurança, especializado em dissipar manifestações e rebeliões sociais) ao parque.

A Gendarmería cercou o assentamento. Por um lado, não permite que entrem moradores para agredir ou queimar os barracos dos imigrantes, tal como ocorreu durante a semana. Por outro lado, não permite que os integrantes do assentamento entrem com materiais de construção para edificar suas casas.

 - Nenhuma pessoa responsável pelas mortes está detida…

COMEÇO DA CRISE

 Cenário: Parque Indo-americano, em Villa Soldati, na área sudoeste da cidade de Buenos Aires. O bairro está dentro das fronteiras portenhas, sob administração do prefeito Maurício Macri, de oposição. V.Soldati é um bairro de classe média baixa. Dentro de seus limites existem três favelas pequenas.

Na área do parque também está um bairro de casas populares construídas para300 famílias do bairro Los Piletones pela organização de defesa dos Direitos Humanos das Mães da Praça de Mayo, cuja líder é Hebe de Bonafini, há vários anos aliada do governo Kirchner.

 Estopim: Na 2afeira, Sergio Schocklender, braço-direito da líder das Mães da Praça de Mayo Hebe de Bonafini, solicitou o auxílio da Polícia Metropolitana porque “narco-traficantes armados tentaram ocupar a tiros a área da construção” das casas construídas pelas Mães da Praça de Mayo. “Eram os narcos das favelas mais conhecidas. Queriam ocupar as casas e nos ameaçavam matar se não fôssemos embora dali”, disse Schocklender. “Uns espertalhões que queriam ocupar as moradias que estavamos construindo”. O integrante das Mães criticou Macri e que disse que em vez de remover os integrantes do assentamento, “a polícia da prefeitura ficava vigiando apenas os bairros de Palermo, Puerto Madero e o norte da cidade”. Schocklender, que antes da ameaça de ocupação do bairro da organização que integra era a favor de assentamentos, nesta semana disse que “não se pode permitir que em cada praça ou terreno seja montada uma favela”. Segundo ele, os “narcos” haviam enganado centenas de pessoas para que se instalassem nos terrenos vizinhos do parque.

 Primeiros choques: Na terça-feira, após o pedido de Schocklender, a Polícia Federal e a Polícia Metropolitana foram ao parque Indo-americano para despejar as famílias que ali haviam instalado-se.

Os integrantes do assentamento responderam com pedradas e tentaram fazer barricadas de pneus em chamas para evitar o despejo. A Polícia Federal espancou com fúria os imigrantes, que foram removidos do lugar.

O saldo do choque nesse dia: dois mortos, Bernardo Salgueiro e Rosemarie Puja. Foram mortos com tiros de armas usadas pela Polícia Federal.

 Mais choques: Na quarta-feira de manhã, mil famílias, de diversas favelas portenhas da área e também da Grande Buenos Aires, instalaram-se novamente nos lotes que haviam marcado nos dias anteriores no parque Indo-americano. O grupo organizou-se e fez um cadastramento das pessoas que eram da área. Eles também indicam que pretendiam negociar com a prefeitura um plano de moradias, em troca de deixar o assentamento. Nesse dia também surgiram denúncias de que dentro do assentamento várias pessoas estavam vendendo os lotes marcados a outras pessoas que não eram do grupo original.

A Polícia, nesse momento, sumiu.

O cenário complicou-se quando moradores do bairro de Villa Soldati começaram a protestar contra a presença dos imigrantes no parque. Na ocasião começaram os gritos xenófobos e as primeiras agressões físicas.

À tarde, a situação estava descontrolada.

 Choques mais intensos: Na quinta-feira as manifestações dos moradores de Villa Soldati cresceram e ficaram mais violentas. Homens armados, encapuzados, atacaram os imigrantes.

Nesse dia morreu um terceiro imigrante com um tiro.

A Polícia Federal, comandada pelo governo Kirchner, e a Polícia Metropolitana, comandada pelo prefeito Macri, ausentaram-se do cenário de violência desatada.

 Área liberada: Na sexta-feira no fim da tarde a área era “área liberada” para a ação de grupos que continuaram atacando os imigrantes. Villa Soldati transformou-se no cenário de uma batalha campal.

De manhã, a viúva de uma das vítimas chorava perante as câmeras de TV a morte do marido. Um morador do bairro, robusto, de cabeça rapada e segurando um pit-bull pela correia, sem se importar com o estado da viúva, lhe gritava: “Vai embora daqui! Vá pedir uma casa para a presidente em El Calafate (trata-se de um acolhedor vilarejo na Patagônia onde a presidente Cristina possui uma luxuosa casa para passar os fins de semana)”.

À noite, o prefeito Maurício Macri pediu auxílio ao governo federal, alegando que a polícia metropolitana, recém-criada, não possui força suficiente para debelar a rebelião surgida em Villa Soldati e impedir que os moradores do bairro ataquem os imigrantes.

Os integrantes do governo da presidente Cristina Kirchner deixaram claro que não pretendiam ajudar Macri e o culpavam de ter permitido que a crise ficasse fora de controle.

Sem a presença das forças de segurança, os imigrantes imploraram aos jornalistas que cobriam os incidentes não fossem embora dali, já que eram sua única garantia do crescimento do ataque. Os jornalistas também foram ameaçados pelos moradores de Villa Soldatti.

Vários imigrantes foram internados em hospitais com feridas de bala na cabeça e nas pernas. Os disparados teriam sido feitos pelos moradores do bairro. 

 FESTA E MASSACRE – Como se estivesse em outro planeta – enquanto imigrantes estavam sendo espancados e assassinados a três quilômetros de distância da Casa Rosada – a presidente Cristina Kirchner, com a presença do juiz espanhol Baltasar Garzón e o neto de Luther Martin King, celebrava o dia internacional dos Direitos Humanos. A data também coincidia com o terceiro aniversários de sua posse como presidente.

Na ocasião, Cristina Kirchner, em discurso em rede nacional de TV, afirmou que não utilizaria a Polícia Federal para reprimir protestos sociais. Os moradores de Villa Soldati e bairros vizinhos interpretaram as declarações da presidente como um sinal de que os imigrantes não seriam removidos do parque.

Minutos depois, milhares de pessoas do bairro fecharam o cerco sobre o assentamento, espancando cidadãos bolivianos, além de queimar as tendas que haviam montado no parque.

Os moradores de Villa Soldati – dezenas dos quais encapuzados – também atacaram jornalistas e destruíram câmaras de TV. Os imigrantes tentaram defender-se com paus e pedras, enquanto os moradores de Villa Soldati atacaram os integrantes do assentamento com armas de fogo.

Depois, o SAME, o sistema de emergência médica pública, anunciou a morte de um quarto integrante do assentamento.

 Sua morte, segundo relato dos enfermeiros e do médico que o acompanhava: a ambulância conseguiu a duras penas entrar no lugar, pegou o jovem, que havia sido gravemente ferido, e começou a sair dali. Mas, quando estava quase saindo, foi apedrejada pelos moradores, que detiveram a ambulância, removeram o ferido, e apontaram com uma arma em sua cabeça.

O médico, perante a cena, teve um pré-enfarte mas sobreviveu. A ambulância teve que sair dali sem o ferido. O corpo dessa pessoa nunca mais apareceu. Ninguém sabe se foi assassinado na sequência e seu corpo foi escondido ou se, ferido, conseguiu refugiar-se em algum lugar.

CAOS E TROCA DE ACUSAÇÕES – No meio do caos que tomou conta de Villa Soldati, a presidente Cristina, na Casa Rosada, indicava que não tomaria medidas contra os imigrantes, pois não era um “governo xenófobo”.

No entanto, tampouco tomava providências para impedir o massacre de imigrantes nas mãos de moradores dos bairros vizinhos e de hooligans.

Na contra-mão, o prefeito Maurício Macri, criticava a presidente Cristina, acusando-a de “omissão”: “o governo diz que não há policiais para enviar a Villa Soldati por causa do risco de desguarnecer o resto da cidade. Mas, neste exato instante, centenas de policiais estão fazendo a segurança de um show de rock para celebrar os três anos de governo da presidente”.

Cristina criticava Macri, Macri criticava Cristina. Enquanto isso, os moradores de Villa Soldati, com a participação de vários elementos integrantes de torcidas organizadas, continuavam os ataques aos imigrantes aos gritos de “fora os estrangeiros”.

NOBEL, CRÍTICAS A MACRI E CRISTINA: O Prêmio Nobel da Paz de 1980, o argentino Adolfo Pérez Esquivel, acusou o governo da presidente Cristina e o prefeito Macri de “ausentes”: “os governos federal e municipal devem buscar uma solução imediata!”.

 NESTE FIM DE SEMANA, CENÁRIO

No sábado durante o dia, a Gendarmería finalmente apareceu no lugar dos crimes e posicionou-se ao redor do assentamento, separando os imigrantes dos moradores de Villa Soldati.

A chuva intensa que caiu sobre a cidade colaborou para impedir as manifestações.

O cenário, neste domingo, permanecia igual.

A Gendarmería pretende realizar um censo dos integrantes do assentamento nesta 2afeira. Também estava em andamento uma tentativa de conseguir “conciliação” entre o assentamento e o bairro.

 

QUEM É QUEM, QUEM GANHA E QUEM PERDE E OUTROS DETALHES

INTEGRANTES DOS GRUPOS DE ATAQUE – No primeiro dia, o grupo que manifestava-se contra o assentamento eram basicamente os moradores do bairro de Villa Soldati. Nos dias seguintes o grupo aumentou com a participação de moradores da vizinha Villa Lugano e de outros bairros do sudoeste portenho. Denúncias dos jornais portenhos indicam que também existiam no grupo de atacantes…

a)      integrantes de “barrabravas” (hooligans) de times de B.Aires e da Grande Buenos Aires vinculados ao governo Kirchner.

b)      integrantes de “barrabravas” (hooligans) de times de B.Aires e da Grande Buenos Aires vinculados ao governo Macri.

INTEGRANTES DO ASSENTAMENTO – Maioria de imigrantes da Bolívia e Paraguai, além de argentinos. Eles argumentam que são trabalhadores e negam que tenham tentado tomar os terrenos das Mães da Praça de Mayo, foco original do conflito que posteriormente foi ampliado para o resto da área.

POSIÇÕES

KIRCHNER: O governo da presidente Cristina Kirchner tem a política de não reprimir manifestações na área mais “sensível” do país, isto é, a Grande Buenos Aires, onde concentra-se a maior parte do eleitorado do país, os formadores de opinião, os meios de comunicação, etc (embora protagonize a repressão em áreas distantes da capital argentina).

MACRI: O governo do prefeito Maurício Macri teve a política de criar uma polícia própria, alegando que a criminalidade aumentou e que não pode ficar dependendo da Polícia Federal, controlada pelo governo federal.

A criação da polícia portenha foi controversa, pois Macri convidou figuras de passado obscuro para participar da organização da força de segurança.

De quebra, a polícia de Macri ainda é pequena e não está preparada para casos de grande magnitude, tal como o mini-pogrom do parque Indo-americano.

ASSENTAMENTO: “Não iremos embora!”. Com estas determinadas palavras, Alejandro Salvatierra, um dos líderes do grupo de imigrantes que ocupam o parque Indo-americano deixou claro que pretende resistir ao despejo.

MORADORES: O fim de semana de chuva acalmou os ânimos e a presença da Gendarmería havia intimidado os setores mais agressivos. Mas, não descartavam no bairro voltar ao ataque caso o assentamento perdure nas próximas semanas.

QUEM PERDE E QUEM GANHA:

- MACRI: É o grande perdedor desta crise. Perde poder político e está perdendo imagem na opinião pública. Ele demorou em responder à crise, não esteve presente no lugar da violência, não satisfez as demandas dos moradores de Soldati nem as demandas dos integrantes do assentamento. A imagem havia sido ridicularizada quando, no mês passado, durante sua festa de casamento, ao protagonizar um ‘cover’ de Freddie Mercuri, engoliu sem querer o bigode postiço, que quase o sufocou-

Macri é o principal líder do partido Proposta Republicana (PRO), de centro-direita, de oposição.

- KIRCHNER: A presidente Cristina Kirchner ganha na área política, depois de ter feito o prefeito Macri implorar ajuda. Mas, perde em imagem, já que estava em plena celebração do dia dos Direitos Humanos enquanto na fronteira da cidade o caos imperava. Não enviou forças federais quando era necessário impedir a violência e as mortes que se alastravam a cada minuto.

MORADORES DE SOLDATI: Os moradores dizem que, com a permanência do assentamento, seus imóveis ficam desvalorizados. Eles argumentam que o assentamento será um foco de ladrões. Ganham ou perdem com esta crise? Isso dependerá do desenlace que ainda poder demorar dias ou semanas.

ASSENTAMENTO: Os integrantes do assentamento afirmam que são trabalhadores e que precisam de um lugar para morar. Eles também sustentam que estão dispostos a pagar terrenos em parcelas. Ganham ou perdem? Se conseguirem permanecer no lugar, é uma vitória a curto prazo, com eventuais problemas a médio e longo prazo, já que no futuro poderão ser alvo de novos ataques dos moradores de Soldati.

FÚRIA: Quatro das onze ambulâncias que tentaram na sexta-feira à noite entrar no parque foram impedidas pelos moradores do bairro Villa Soldati. As ambulâncias foram apedrejadas. Em um dos casos, os moradores retiram um imigrante ferido à força da ambulância que o transportava e o executam com tiro na cabeça.

Jornalistas que cobriam o conflito também foram agredidos pelos moradores.

PECULIARIDADES POLÍTICAS:

O governo da Bolívia reclamou oficialmente das posições “xenófobas” do prefeito Macri.

Mas, não reclamou ao governo Kirchner, seu aliado, sobre a ausência de forças federais para proteger os imigrantes que estavam sendo atacados.

POLÊMICAS SOBRE XENOFOBIAS

Detalhes sobre as declarações do prefeito Macri sobre o que ele denomina de “descontrolada imigração”, aqui.

A líder das Mães da Praça de Mayo, Hebe de Bonafini, no ano passado, inesperadamente expressou opiniões xenófobas na Praça de Mayo, quando tentou expulsar imigrantes bolivianos que protestavam na frente da Casa Rosada pela violência da Polícia Federal, que havia morto o imigrante Juvelio Aguayo Pérez, de 29 anos. “Fora daqui, bolivianos de m… a praça é nossa!”. Aqui.

ARGUMENTOS DE SETORES E CONTRA-ARGUMENTOS SOBRE IMIGRAÇÃO

- No meio desta crise, diversos setores pronunciaram-se contra a entrada de imigrantes no país.

Entre eles, uns setores pronunciavam-se contra a entrada de todos os imigrantes, com o argumento de “Argentina para os argentinos”.

Outros setores alegavam que a imigração poderia continuar, embora com menor flexibilidade que a existente atualmente (as barreiras para entrar na Argentina são as mais flexíveis em todo o Cone Sul).

- Os setores que defendem a imigração (ou pelo menos o fim aos ataques aos imigrantes) recordaram que todos os políticos argentinos são descendentes de imigrantes (recentes ou de várias gerações). O economista Lucas Llach, em sua coluna no jornal “La Nación” criticou o braço-direito de Macri, Horacio Rodríguez Larreta (que havia pronunciado críticas contra a imigração): “é por acaso Rodríguez Larreta um diaguita?”.

Diaguita é o nome de um amplo grupo indígena existente no sopé da Cordilheira dos Andes. Llach ironizava com o fato desse político não contar com antepassados indígenas, mas sim, de imigrantes espanhóis. Isto é, imigrantes, no fim das contas.

E, outra interessante coluna que este economista escreveu sobre este assunto, ao recordar que Buenos Aires foi fundada definitivamente, em 1586, por um pequeno grupo de espanhóis comandados por um basco e um grande grupo de paraguaios que desceram de Assunção pelo rio Paraná até o rio da Prata.

Na época, B.Aires dependia de Assunção. E Assunção dependia do comando das autoridades espanholas na área, Lima, no Peru. Aqui. 

DADOS

- Alguns setores contrários à entrada de imigrantes no país alegam que a cidade de Buenos Aires cresceu de forma excessiva nos últimos anos, que está “entupida” e que não há lugar para mais ninguém. Esse, inclusive, é o argumento de vários integrantes do governo municipal. Mas, a realidade é que a cidade “encolheu”.

Dentro de suas fronteiras – a avenida General Paz (uma espécie de “Avenida Marginal” portenha) e o rio Riachuelo – a cidade passou de 3,2 milhões em 1945 para 2,7 milhões no ano 2000.

- Esses setores também costumam afirmar que a maior parte dos crimes são cometidos por imigrantes. No entanto, diversas estatísticas desde os anos 90 indicam que os imigrantes possuem – proporcionalmente – uma menor porcentagem de incidência do que os nativos no contexto geral da criminalidade. 

 E, para encerrar, um pouco de civilização: o segundo movimento da Sinfonia Número 7 de Ludwig van Beethoven, com a Filarmônica de Berlim. Aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Ilustração mostra Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, mestre da diplomacia no século XIX. O diplomata francês costumava dizer que “a palavra foi dada ao homem para que possa encobrir seu pensamento”. Isso valeu até o affaire Wikileaks. E, ao lado de Talleyrand, Sigmund Freud, pai da psicanálise. O autor de “Totem e tabu” entre outras obras tem a ver com as tentativas da diplomacia americana de desvendar a psique da presidente Cristina Kirchner. Além dos neurônios de Cristina, as vísceras de Kirchner também eram foco de interesse dos EUA.

“Ineptos” em política externa, “paranoicos” com o poder e “ciumentos” das atenções que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguia do governo dos Estados Unidos. Assim eram encarados pela diplomacia americana a presidente Cristina Kirchner e seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), segundo revelaram os telegramas entre a embaixada americana em Buenos Aires e a Secretaria de Estado dos EUA em Washington divulgados pela WikiLeaks. Os Kirchners eram denominados ironicamente pela diplomacia americana de “first couple” (o primeiro casal).

Segundo os telegramas Washington considerava que Néstor Kichner tinha “duas caras”, tal como “o Dr. Jekyll e Mr. Hyde”. A avaliação dos diplomatas americanos sustentava que o “estilo K” – denominação da forma de governar do casal – era “errático” e caracterizado pela “tensão extrema no curto prazo”. Eles também consideravam que o casal presidencial era “impermeável aos conselhos alheios e muito paranoicos em relação ao poder”.

Em várias ocasiões as fontes de informações sobre os Kirchners foram os próprios ministros do gabinete presidencial. Um deles, com opiniões cáusticas, era o ex-chefe do gabinete de ministros, Sérgio Massa, que disse à embaixada americana que Kirchner era “psicopata, um monstro e um covarde”.

Massa também teria afirmado que o governo de Cristina seria melhor sem a presença de Néstor Kirchner, que faleceu de um ataque cardíaco fulminante há um mês. Na terça-feira Massa desmentiu que tivesse feito essas declarações e ressaltou que não tinha contatos com a embaixada dos EUA.

Cérebro visto de baixo, em ilustração do século XVIII. Conexões sinápticas da presidente Cristina Kirchner despertavam curiosidade no Departamento de Estado nos EUA.

 SAÚDE MENTAL  E MEDICAMENTOS DE CRISTINA - As informações também revelam que a “saúde mental” de Cristina Kirchner era ponto de interesse para a diplomacia americana nos últimos dias de dezembro de 2009, quando nesse âmbito surgiram perguntas sobre os efeitos do estresse na mente da presidente argentina. No telegrama, assinado por “Clinton” (e portanto, atribuído à secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton), a diplomacia americana faz perguntas como “de que forma controla Cristina Kirchner seus nervos e sua ansiedade? Como afeta o estresse sua conduta com seus assessores e seu processo de decisões?” e “que medicamentos (Cristina Kirchner) toma?”.

Em Buenos Aires os comentários entre a população sobre uma eventual bipolaridade (ou situação similar com palavras, digamos, menos científicas) da presidente argentina eram comuns desde de sua posse em dezembro de 2007. 

 O CÓLON IRRITÁVEL E A POLÍTICA – A saúde do ex-presidente Kirchner, considerado em Buenos Aires o verdadeiro poder no governo da mulher, também era o foco de interesse, já que os telegramas continham perguntas sobre a magnitude de seus complicados problemas gastrointestinais, mais especificamente, sobre seu “cólon irritável”.

A resposta à inquietude americana veio do círculo mais íntimo do casal presidencial, o secretário de Assuntos Legais, Carlos Zannini, amigo dos Kirchners desde os tempos da faculdade: “Kirchner age de acordo com seu estado de saúde, que se exacerba e determina suas emoções e psicologia. Sofre há anos de irritação intestinal”.

Segundo a diplomacia americana, os problemas intestinais de Kirchner explicam uma personalidade “obsessivo-compulsiva” e provocam “a falta de atenção às longas cerimônias protocolares ou com os horários inflexíveis, que não permitiriam que Kirchner tivesse um acesso rápido aos banheiros”.

Vísceras e vizinhanças em ilustração de gravura de livro médico do século XIX. As vísceras de Kirchner, mais especifícamente seu cólon irritável, eram foco de interesse da diplomacia americana.

 A POSE É DE ESQUERDA, MAS A ATITUDE É ‘PRAGMÁTICA’ – Segundo os telegramas, Washington considera que o governo Kirchner, apesar da pose de esquerda e da proximidade com o presidente venezuelano Hugo Chávez, age de forma “pragmática”: “suas simpatias pela esquerda estão completamente subordinadas a seus interesses políticos e ambições pessoais”.

Os documentos sustentam que “a Argentina não ficará mais bolivariana, já que Cristina Kirchner procura claramente qualquer oportunidade para associar-se com o presidente Obama. A intensidade desse desejo abre oportunidades para os EUA”.

Evo Morales e Hugo Chávez, com figurino tipicamente andino durante conclave presidencial. O segundo não teria influência sobre os Kirchners, na avaliação da diplomacia americana. O primeiro poderia ser abrandado pelos Kirchners, analisavam os diplomatas em Washington, baseados em afirmações da presidente Cristina.

 BOLÍVIA: ARGENTINA OFERECE AJUDA PARA ABRANDAR EVO - O duplo discurso com os países vizinhos e as tentativas de Cristina para aproximar-se dos EUA evidenciam-se pela promessa de ajuda a Obama para conter os ímpetos revolucionários do presidente equatoriano Rafael Correa e tornar mais flexível o presidente boliviano Evo Morales. “Evo não é pessoa fácil, nos informa CFK (Cristina Fernández de Kirchner)”, indica um telegrama que também ressalta que “CFK afirma que a Argentina cooperará com os EUA na Bolívia, mas temos que ser cuidadosos para que não pareça que existe uma operação política contra o governo, devido às suspeitas de Evo”.

O governo boliviano optou por desacreditar os telegramas americanos revelados pelo WikiLeaks sobre a Bolívia. “Não levamos isso a sério, pois podem existir erros”, disse o porta-voz presidencial em La Paz, Iván Canelas.

No entanto, embora negue o conteúdo existente sobre a Bolívia, o vice-presidente Alvaro García Lineras considera como verdadeiras as informações surgidas sobre outros países. “Celebro que estas informações tenham sido publicadas. Celebro que o mundo fique conhecendo de fontes próprias aquilo que dizíamos há tempos. Tudo aquilo que denunciávamos está agora totalmente comprovado“, disse o vice.

 CRISTINA, COM CIÚMES DE LULA - Segundo os telegramas a presidente Cristina considerava que merecia mais atenção dos EUA e melindrava-se por ficar em segundo plano, atrás do Brasil. “Cristina diz que é difícil entender porque o presidente Lula obteve uma entrevista com o presidente Obama, apesar de que o Brasil votou contra no Organismo Internacional de Energia Atômica (OIEA) e de que Lula reuniu-se com (o presidente iraniano Mahmoud) Ahmadinejad, enquanto que nega uma entrevista com ela, que mantém uma forte posição contra o Irã na OIEA e na luta contra o terrorismo”.

Os telegramas indicam que o chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, lamentou ao secretário de Estado adjunto dos EUA, Arturo Valenzuela, que a relação dos EUA com o Brasil e o Chile fosse encarada como mais positiva. “É especialmente doloroso, pois a presidente Cristina sempre apoiou Obama”, reclamou Fernández, segundo a WikiLeaks.

 

Falando em ciúmes, o dito cujo sentimento, representado acima neste trecho da pintura “Allegoria del trionfo di Venere” (Alegoria do  triunfo de Vênus), de Angelo Bronzino. A obra, realizada entre 1540 e 1545, está na National Gallery, Londres.

 CRISTINA, SUBMETIDA PELO MARIDO - Mais telegramas revelados pelo Wikileaks divulgados ontem (terça-feira) à noite pelo jornal “El País” indicam que o ex-chefe do gabinete de ministros, Sergio Massa – homem de confiança do casal presidencial – disse a diplomatas americanos em Buenos Aires que Néstor Kirchner comandava o governo e que a presidente Cristina Kirchner cumpria ordens”. Segundo Massa, atualmente prefeito da cidade de Tigre, a presidente estava “submetida” por seu marido.

 ARGENTINA NÃO SERÁ VENEZUELA - Massa também indicou que os Kirchners não possuíam qualquer chance de vencer as eleições presidenciais de 2011. Além disso, tentou tranquilizar os americanos ao afirmar que a Argentina não estava no caminho “bolivariano”: “apesar de todos os problemas que a Argentina tem, o país não é a Venezuela. Sua sociedade é mais educada, tem uma ampla classe média e sua economia é muito mais complexa que o monocultivo petrolífero de Caracas. Argentina, explicou (Massa), não permitirá que os Kirchners consolidem seu poder com um governo mais autocrático”.

No documento a embaixada americana indica que a esposa de Massa, Malena Galmarini, fez diversas vezes sinais para que seu marido se calasse. No entanto, não teve sucesso.

 PREFEITO MANIQUEÍSTA E BRUSCO - Os telegramas também indicam que a embaixadora dos EUA, Vilma Martínez, em novembro de 2009 relatou que o encontro que teve na época com o prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, de oposição, não foi agradável. Segundo a embaixadora, Macri é “brusco”, possui uma “visão maniqueísta do mundo” e “incomoda-se com as sutilezas das comunicações interpessoais”.

A diplomata americana considerou no telegrama que Macri “compartilha essas características controvertidas com o ex-presidente Kirchner, seu rival político”.

E, um pequeno acréscimo, só de background (nada a ver com o Wikileaks): na semana passada – antes do escândalo Wikileaks – o prefeito Macri, do partido de centro-direita Proposta Republicana (PRO), foi alvo de ácidas piadas, já que durante sua festa de casamento, ao fazer uma imitação de Freddie Mercuri (o prefeito é fã de carteirinha desse cantor nascido na ilha de Zanzibar, filho de indianos) colocou um bigode postiço e, enquanto cantava uma passagem de um hit da estrela do Queen, engoliu esse artefato capilar que estava aderido a seu lábio superior. O prefeito da maior cidade argentina engasgou seriamente com o bigode, fato que assustou os convidados. Finalmente, foi salvo por um assessor.

Freddie Mercuri, apesar de sua vasta imaginação – e que nunca teve o prazer de ver este escândalo do Wikileaks - talvez nunca pensou que no extremo sul do planeta um prefeito o imitaria e quase morreria engasgado com um bigode postiço.

 SILÊNCIO – O silêncio do governo argentino foi interrompido ontem (terça-feira) de manhã pelo embaixador do país na ONU, Jorge Argüello, que afirmou que a divulgação dos telegramas diplomáticos “são um assunto muito delicado que colocará o governo dos EUA em uma situação embaraçosa”. Argüello afirmou que ainda falta conhecer “a maior parte” das informações.

Na capital argentina o ministro da Economia, Amado Boudou, não fez avaliações sobre os detalhes contidos nos telegramas sobre a Argentina. Mas, indicou genericamente que “possuem alto nível de babaquices”.

Em Buenos Aires existe expectativa de que o escândalo sobre os telegramas seja um dos principais assuntos da cúpula de chefes de Estado e de governo dos países iberoamericanos, que será realizada na sexta-feira e sábado na cidade de Mar del Plata.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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blogpiranesi1

Ruínas ilustradas por Giovanni Battista Piranesi (1720-1778), o batuta artista italiano do settecento. As escolas portenhas não estão muito longe disso.

blog1dedo2bEstudantes do ensino médio e superior protagonizaram nas últimas semanas inéditos protestos simultâneos contra o prefeito Maurício Macri, da oposição, e do governo da presidente Cristina Kirchner. Na terça-feira da semana passada os estudantes bloquearam vinte ruas em diversos pontos da capital argentina para manifestar-se contra o que denominam de “péssimas condições” da estrutura dos edifícios de escolas e faculdades em Buenos Aires.

Além de colapsar o trânsito portenho, os estudantes ocuparam ao longo dos últimos 38 dias um total de vinte e oito escolas, quatro faculdades e outras seis instituições educativas.

Em um comunicado, a Federação Universitária de Buenos Aires (Fuba) afirmou que a crise da educação pública é responsabilidade do governo municipal e federal.

Os estudantes reclamam do péssimo estado dos antigos edifícios das escolas e faculdades portenhas, a maioria das quais são edifícios neo-clássicos construídos na primeira metade do século vinte.

Segundo eles, desde o início deste ano houve queda de forros dos tetos de escolas, somados à vários anos acumulados de goteiras a granel, a ausência de aquecimento em meio dos piores invernos dos últimos tempos, ausência de quadros-negros e giz, entre outros problemas.

O prefeito Macri prometeu um plano de obras para as escolas, mas os estudantes, céticos, afirmam que não acreditam em suas promessas.

No meio da crise dos estudantes, Macri viajou à Roma, deixando seus secretários a cargo de um conflito que continuou sua escalada. O prefeito só voltou à cidade depois que um desabamento em uma discoteca causou a morte de suas adolescentes. Para complicar, em vez de telefonar às famílias das vítimas, o prefeito enviou condolências via twitter. Moderno, mas pouco adequado no meio de um luto.

A personalidade – e psique – do prefeito foi foco de debates no último mês. Gabriela Cerruti, autora de “El Pibe” (O Garoto), biografia não-autorizada do prefeito, sustenta que Macri “não passa de um homem que quis ser empresário de sucesso, fracassou, e refugiou-se no Boca Juniors e na política para fugir do pai todo-poderoso”. O pai em questão é o empresário Franco Macri, ícone do capitalismo argentino dos anos 90. Macri senior afirmou recentemente que tem afeto pelo filho…mas prefere votar nos Kirchners.

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TIRO CONTRA - A presidente Cristina Kirchner – cuja psique também é foco de debates há alguns anos – também tornou-se alvo das manifestações estudantis na semana passada, quando tentou aproveitar a ocasião para criticar Macri – um dos líderes da oposição – ao declarar “respaldo” aos estudantes.

Os analistas políticos destacaram que o plano da presidente era o de ter influência no novo movimento estudantil, onde a estrutura do governista Partido Justicialista (Peronista) é fraca (no movimento estudantil predominam os partidos da esquerda tradicional, que consideram os Kirchners meros ‘burgueses’ e os militantes estudantis da União Cívica Radical, de centro).

No entanto, o efeito do respaldo da presidente Cristina foi oposto ao que ela previa, já que os líderes estudantis declararam que Cristina Kirchner não os representa. A partir dali, a presidente também começou a ser alvo de críticas dos estudantes.

Alejandro Lipcovich, um dos presidentes da Federação de Estudantes da Universidade de Buenos Aires (Fuba), disparou contra o governo do casal Kirchner: “Néstor Kirchner teve que fazer um comício fechado lá dentro do Luna Park…nós podemos nos manifestar nas ruas, nas praças. Cristina Kirchner faz demagogia barata. Eu digo para a presidente: ‘cala a boca!’.

O chefe do gabinete de ministros do governo Kirchner, Aníbal Fernández, confirmou – irritado – sua oposição à mobilização dos estudantes que ocupam escolas e faculdades: “continuou pensando que essas ocupações não servem para nada”.

A Coordenação de Estudantes Secundaristas (Cues) realizou na quinta-feira uma marcha de protesto que reuniu 40 mil jovens na avenida de Mayo.

Nesse dia comemoraram-se os 34 anos da “Noche de los lápices” (Noite dos lápis), denominação da operação militar, no primeiro ano da ditadura, de sequestro, tortura e assassinato de alunos de segundo grau. Os estudantes haviam sido torturados e assassinados por pedir a redução das tarifas de ônibus para estudantes.

Em meio à crise na cidade de Buenos Aires – e com a imagem pública em queda – o prefeito Macri, do partido de centro-direita Proposta Republicana (Pro) confirmou que será candidato presidencial nas eleições do ano que vem.

Nesta quarta-feira os estudantes tomaram o Colégio Nacional Buenos Aires, o principal da Argentina.

GRADES ANTI-TEENAGERS – Nesta quinta os estudantes secundaristas, junto com setores universitários, realizaram mais marchas de protesto na capital do país. Uma delas foi feita na frente do Ministério da Educação. Ali, no final da tarde, os alunos – principalmente liderados pelos estudantes do Colégio Nacional Buenos Aires, de tendência de esquerda – protestaram contra Cristina Kirchner. Diversos alunos ostentavam cartazes com dizeres alusivos ao estilo “Louis Vuitton” da presidente argentina.

A manifestação foi pacífica. No entanto, o ministro Alberto Sileoni recusou-se a receber os estudantes. O edifício foi protegido dos adolescentes por carros de jatos d’água da Polícia Federal e grades para impedir o acesso dos jovens.

 blog1vinhetas25 

blogvinhetaanjoscorneta1 E já que falamos dos estudantes, um clássico de Mercedes Sosa sobre estes jovens:

“Me gustan los estudiantes”aqui. 

Outra versão dessa canção escrita pela poetista e cantora chilena Violeta Parra. Nesta caso, por um grupo de Puerto Rico (com um ritmo mais ‘caribenho’). Aqui. 

blog1vinheta71bE Piazzolla, em polonês, por Marta Górnicka, cantando “Ciudades”, aqui. 

 Os tangos em polonês não ficam bem? Aqui.

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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blogcolon1 

A sala principal do Teatro Colón está totalmente reformada, após anos de intensas obras (foto de divulgação da Secretaria de Cultura da cidade de B.Aires)

Resumo da opereta

blog1dedo3O Teatro Colón, a maior sala de ópera da América Latina (que segundo especialistas da lírica, conta com a melhor acústica para o gênero), será reinaugurado nesta segunda-feira à noite. Ainda não abriu suas portas e já é o foco de uma disputa digna de uma opereta de Franz Léhar ambientada em um inventado país dos Bálcãs.

Cristina Kirchner, irritada com o prefeito Maurício Macri, não irá à principal festividade das celebrações do dia 25 de maio, a data nacional, no Teatro Colón, símbolo da cultura argentina.

Por outro lado, a presidente não convidou ao banquete da terça-feira o vice-presidente Julio Cobos, com quem está brigada desde que ele, que também ocupa a presidência do Senado, votou contra o governo em 2008. O banquete será na Casa Rosada, o palácio presidencial.

De quebra, a presidente Cristina tampouco convidou os ex-presidentes argentinos ainda vivos desde a volta da democracia, em 1983. 

O país contará com celebrações paralelas para o Bicentenário: a presidente Cristina, com o banquete na Casa Rosada e um Te Deum em Luján, o prefeito Macri com sua gala no teatro Colón; o cardeal Bergoglio com um Te Deum na catedral portenha, e até o governador de San Luis, Alberto Rodríguez Saá, que construiu uma réplica do Cabildo de Buenos Aires (edifício que foi o foco da Revolução de Maio) para fazer seus próprios festejos.

O Bicentenário argentino, longe de mostrar  unidade política, exibe um país profundamente dividido, sem fatores externos que causem as divergências.

O colunista político Adrián Ventura, ironizou com amargura: “talvez no Tricentenário não estaremos pior do que agora…”

Personagens

- Cristina Kirchner, presidente, que chegou à Casa Rosada em 2007 como sucessora do próprio marido. Seus críticos afirmam que comporta-se como fosse uma diva de ópera.

- Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires, opositor dos Kirchners, ex-presidente do Boca Juniors e filho do empresário Franco Macri (o pai de Macri, por seu lado, é enfático simpatizante dos Kirchners desde 2004). 

- Néstor Kirchner, ex-presidente (2003-2007), marido da presidente, secretário-geral da Unasul, presidente do partido Peronista e considerado o verdadeiro poder dentro do governo da esposa.

- Julio Cobos, vice-presidente que rachou com a presidente Cristina em julho de 2008. Considerado “mosquinha morta” quando foi escolhido para o posto de vice (Kirchner o escolheu para ser vice da esposa), agora é “presidenciável” da oposição. Macri não gosta dele, pois o prefeito portenho também ambiciona ser candidato da oposição nas eleições presidenciais de 2011.

Cenários: Teatro Colón, Casa Rosada, residência oficial de Olivos, prefeitura portenha.

Época: Os dias prévios ao 25 de maio de 2010. O 25 de maio é a data nacional, o dia da Revolução de Maio de 1810, quando iniciou o processo de rebeliões e guerras que levaria à independência do país em 1816. Na terça-feira que vem a Argentina celebrará o Bicentenário da Revolução de Maio. A data está gerando uma série de debates na sociedade sobre os acertos e os erros do país ao longo dos últimos 100 anos. O quiproquó político dos últimos dias deu um toque amargo às reflexões sobre o futuro da Argentina.

blog1vinheta51Libreto

Ato 1 – Macri fala demais

Mauricio Macri, na quinta-feira, a poucos dias da reinauguração do Teatro Colón, comenta com a imprensa como será quando a presidente Cristina for à sessão de gala na ópera na segunda-feira à noite: “se ela for com seu consorte (o ex-presidente Kirchner) terei que sentar ao lado dele. Mas isso não me deixa contente…”.

Macri, nos dias prévios, havia criticado o governo Kirchner pela investigação sobre o envolvimento do prefeito em uma serie de grampos telefônicos. Macri está sendo investigado pelo juiz Norberto Oyarbide, que nos últimos meses teria favorecido os Kirchners em diversos casos, segundo acusa a oposição.

Dentro da administração Macri alguns assessores admitem que o uso da palavra “consorte” não foi exatamente “conveniente”.

Ato 2 – Cristina perde a pose e se irrita

Cristina Kirchner coloca tom de drama na trama e afirma que não comparecerá ao Teatro Colón. Irritada – ou simulando estar irritada – a presidente envia uma carta ao prefeito Macri na qual indica que “a incrível catarata de ofensas que proferiu durante a última semana, chegando neste dia a manifestações públicas que desqualificam de forma pessoal, marcam um limite que não estou disposta a atravessar”.

No final, com ironia, disparou: “desfrute o senhor tranquilo e sem as presenças incômodas na noite do 24 de maio”.

Analistas políticos afirmam que, se bem a presidente Cristina costuma ter ataques de raiva pelos motivos da mais variada magnitude, neste caso a observação de Macri (sobre sentar ao lado de Kirchner) teria sido útil como argumento para não ir ao Colón.

Motivo: a festa do Colón é organizada por Macri, integrante da oposição. E, comparecer ao Teatro, onde Macri é o anfitrião, seria conceder-lhe alguns dividendos políticos que Cristina não pretendia dar.

Ato 3 – Imbroglio cresce e Cristina não atende o telefone

Macri tenta impedir a ausência da presidente do principal evento das celebrações do Bicentenário argentino para evitar um fiasco da imagem do país e afirma a Cristina Kirchner que lamenta sua decisão. Macri pede a Cristina Kirchner que “deixe de lado das diferenças e esteja à altura da História, que nos transcende”.

O chefe do gabinete de ministros da presidente Cristina, Aníbal Fernández, que nas últimas duas semanas manteve discussões ‘políticas’ em público com uma vedette do teatro de revista, uma modelo de passarelas – entre outras – afirma que a presidente não irá de forma alguma ao Colón. Nem ela nem outros integrantes do governo. Desta forma, ao redor de 200 entradas ficam sem dono para a noite de gala.

Na sequência, Macri telefonou à presidente Cristina na Casa Rosada. Mas, os assessores da presidente explicaram que não estava ai.

Depois, telefonou à residência oficial de Olivos. Mas, os assessores que ali estavam sustentaram que a presidente estava em uma “reunião”.

O chefe do gabinete do prefeito Macri, Horacio Rodríguez Larreta, fez um apelo na noite da sexta-feira à presidente: “por favor pense nisso..ainda existe tempo (para mudar de ideia)”. Depois, com ironia Larreta arrematou, afirmando que se Cristina for ao Colón, poderá passar “a imagem de unidade (nacional) pelo menos por um dia”.

blog1vinheta60 Intermezzo com mais imbroglios e peculiaridades blog1vinheta60

No meio deste imbróglio operístico, o vice-presidente da República, Julio Cobos, recorda que não foi convidado para o banquete de gala da terça-feira na Casa Rosada o palácio presidencial, onde a presidente Cristina receberá 200 convidados especiais, entres eles o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Cobos, como vice-presidente, deveria ser convidado (independente do conflito entre ele e o casal Kirchner). Mas, os Kirchners não querem o detestado vice-presidente por perto.

Cobos irá ao Colón, onde não irá Cristina por vontade própria.

Macri disse que embora Cristina não compareça ao Colón, ele irá ao banquete da Casa Rosada apesar da indisposição da presidente de tê-lo por perto.

Mas, além de Cobos, a presidente Cristina Kirchner .- embora seja uma festa nacional que possui maior relevância pelos 200 anos celebrados – não convidou nenhum dos ex-presidentes civis argentinos ainda vivos (Carlos Menem, Fernando De la Rúa, Adolfo Rodríguez Saá, Eduardo Duhalde), com os quais não possui boas relações. A única exceção é o próprio marido, o ex-presidente Kirchner.

E, no meio de todo este quiproquó e comédia de enredos, o presidente do Uruguai, José Mujica, ex-guerrilheiro tupamaro, confirmou que estará presente na noite de gala do Colón, sem se importar com o conflito entre a presidente Cristina e o prefeito Macri.

Mujica, amante do teatro e da música clássica (além do tango), estará no Colón, e concidentemente, sentará ao lado do vice-presidente argentino, Julio Cobos.

No dia seguinte, no 25, Mujica sentará à mesa de Cristina Kirchner, na Casa Rosada, no banquete do bicentenário. 

Ato 4 – Deus seria peronista

Na sexta-feira à noite, a presidente Cristina foi à avenida 9 de Julio inaugurar a exposição sobre o bicentenário organizada pelo governo federal. Ali, sem vacilar, afirmou de forma mística: “Deus quis que eu fosse presidente neste bicentenário!”

Ato 5 – Grand Finale, Todos contra todos

Ainda está para acontecer. Na segunda-feira à noite o prefeito Macri receberá 2.400 convidados para a gala do Colón.

No dia seguinte, a presidente Cristina celebra o 25 de maio em si.

Ela irá a um Te Deum, na catedral de Luján, na província de Buenos Aires, onde o bispo local é um dos integrantes do clero com os quais ainda não brigou.

Cristina descartou a cerimônia religiosa na catedral de Buenos Aires (que albergou a maior parte dos Te Deums dos últimos dois séculos), pois mantém uma relação tensa com o cardeal e primaz da Argentina, Jorge Bergoglio. Este, por seu lado, irritado com o descaso da presidente Cristina Kirchner, fará seu próprio Te Deum. 

blog1vinheta50ANÁLISE DA OPERETA: Os analistas políticos criticam a decisão da presidente Cristina. E tampouco poupam Macri de críticas. A socióloga Beatriz Sarlo, no artigo “Brigas que carecem de grandeza” publicado neste sábado no jornal “La Nación”, indica que “não era previsível que ao chegar ao balanço do bicentenário estivéssemos ocupados com brigas cujos motivos carecem de qualquer exemplo”.

Segundo Sarlo, a frase de Macri sobre Kirchner (sobre sentar ao lado dele) é uma demonstração de que o prefeito portenho “acredita que pode comportar-se como se fosse o pai de uma namorada cujos sogros não lhe agradam”.

Sarlo sustenta que ele, falando como chefe de governo de Buenos Aires, não deve declarar que não está contente em receber o marido da presidente no dia 25 de maio no Colón. “Ninguém lhe pede que diga que sentar ao lado de Néstor Kirchner seja seu sonho. Ninguém lhe pede que exagere um tom amistoso que não sente..simplesmente, um político em funções de governo cala a boca”.

Sarlo também critica a presidente Cristina e diz que ela só não vai ao Te Deum na catedral para não encontrar o cardeal Bergoglio ali.

Segundo Sarlo, os motivos destas atitudes “que seriam caricaturescos se não afetassem a vida pública, tem a ver com o pior lado do estilo político nacional”.

blog1vinheta57 O link para a coluna de Beatriz Sarlo, aqui. 

blog1dedo2bLUNFARDO sobre os imbróglios

Ao longo do último século – entre o centenário e o bicentenário – o lunfardo (gíria) portenha acumulou uma longa lista de palavras para designar conflitos, abacaxis e imbroglios da vida cotidiana. Muitas destas palavras podem ser usadas para referir-se aos pepinos políticos que embalam as celebrações do bicentenário.

Aqui segue uma pequena lista usada intensamente pelos portenhos nos últimos dias: 

Balurdo: Problema, confusão. Balurdo é uma palavra antiga do lunfardo, que originalmente referia-se a um amontoado de trapos ou papéis. Seu sentido original era o de “mentira”, de alguém que tenta vender gato por lebre. A palavra, como muitas do lunfardo, origina-se do italiano ‘balordo’ (tonto), que com o touch genovês muito presente em Buenos Aires, transformou a letra ‘o’ em ‘u’.

Despelote: Confusão, bagunça. Para indicar um despelote de intensidade existe a expressão “flor de despelote”. Exemplo: “Cristina y Macri armaron flor de despelote”. 

Quilombo: Em seu uso no século XIX referia-se aos quilombos rebeldes surgidos no Brasil. Mas, com o passar do tempo o significado original foi perdido e transformou-se em sinônimo de ‘bordel’. Nos últimos 50 anos mutou novamente e passou a equivaler a ‘bagunça’ ou ‘imbróglio’ de considerável magnitude.

A palavra “bolonqui” é uma adaptação do lunfardo ‘quilombo’, já que a gíria local também coloca várias palavras “al revés” (ao contrário). No denominado ‘vesre’ (a palavra espanhola “revés” ao contrário), “bolonqui” é uma forma de dizer “quilombo”.

De cuarta, De quinta: Usado para referir-se que algo é “de quarta categoria” ou “de quinta categoria”. Exemplo: “La actitud de Cristina y Macri es de cuarta…”

A coisa está russa, dizem no Brasil para explicar que certa situação exibe certo grau de dificuldade para os protagonistas e pessoas envolvidas.

Essa expressão surgiu no Brasil nos anos 20 como uma referência à situação da Rússia na crise de 1917 e na guerra civil que ocorreu na sequência (e também refere-se à desastrosa campanha militar russa na Primeira Guerra Mundial, quando os generais russos cometeram uma infinidade de mancadas)

Em resumo, a coisa está russa na política argentina.

 blog1vinheta56RUSSO E RUSSA: E, já que falamos em russos, a palavra ‘russo’ foi (e ainda é) usada na Argentina para designar os integrantes da comunidade judaica, que no início do século XX, quando milhares de imigrantes judeus fugiam dos pogroms na Rússia.

Assim foi chamado na infância o pianista e maestro Daniel Baremboim, nascido em Buenos Aires em 1942, filho de uma família judaica de origem russo.

blogdaniel_barenboim

Daniel Barenboim, que além da música erudita, divulgou também Piazzolla e Zequinha de Abreu na Europa. Um link do Youtube com este argentino regendo Tico-Tico no Fubá, de José ‘Zequinha’ Gomes de Abreu (1880-1935).  Aqui.

Quando tinha 10 anos, seus pais mudaram-se para Israel. Posteriormente estudou na Áustria e, com o passar das décadas, transformou-se em um dos principais maestros do mundo. Entre as orquestras que costuma dirigir está a Filarmônica de Berlim e a orquestra do Alla Scala de Milão.

Barenboim criou uma orquestra de judeus israelenses, palestinos e árabes. Em 2008 tornou-se a primeira pessoa no mundo a contar com a cidadania israelense e palestina (honorária) ao mesmo tempo.

Bom, Barenboim, que era chamado de “rusito” (russinho) quando era criança em Buenos Aires, lançou um CD supimpa com uma russa (russa de verdade, da Rússia, mais especificamente, de Krasnodar), a cantora lírica Anna Netrebko (Анна Юрьевна Нетребко). Netrebko está atraindo o público jovem para a ópera com seu carisma e espontaneidade.

O CD é “In the still of the night”, pela Deutsche Grammophon, onde ‘la’ Netrebko e Barenboim (aqui, como pianista), revelam a beleza e a melancolia das canções russas de Nicolai Rimsky-Korsakov e de Pyotr Ilyich Tchaikovsky, além de uma de Antonín Dvořák e de outra de Richard Strauss.

E, driblando a opereta da política argentina, voltamos ao Colón.

Nesse teatro, uma fantástica sala de ópera, Barenboim (mas sem Anna Netrebko, infelizmente) se apresentará no dia 25 de agosto com a orquestra do Divã Ocidental-Oriental (formada pelos jovens israelenses, palestinos e árabes). E, no dia 30 de agosto, com o coro e orquestra do Scala.

blogannanetrebko1

Anna Netrebko, parceira do último CD do argentino-israelense Daniel Barenboim. A bela russa em um trecho de Rusalka, de Dvorak, “A canção da lua”. Aqui.

blog1vinhetas5

Sobre os próximos dias:

Domingo - Neste domingo, caso demore em responder os comentários, desculpem vosso blogueiro, mas é meu aniversário número 44 (falta muito para meu próprio centenário…) e estarei em celebração.

Segunda-feira: Nesta 2af teremos uma ampla postagem sobre o Bicentenário.

blog1vinheta55 E mais um bônus track: Daniel Barenboim, em B.Aires, rege “Libertango”, de Astor Piazzolla. Aqui!

Abraços a todos, bom fim de semana!

PS: Ok, não resisti. Vou colocar outro link do Barenboim, com a Filarmônica de Berlim tocando ”El Firulete”, de Mariano Mores. Supimpa, batuta, tri-legal.

Aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Gustavo Chacra (Nova York): http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/ 
Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/ 
Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trevisan/ 
Adriana Carranca (Pelo Mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carranca/ 

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