“Esse não”: Presidente Cristina Kirchner não quer que seu vice atual, Julio Cobos, presida a cerimônia de sua segunda posse, dia 10 de dezembro.
A presidente Cristina Kirchner, reeleita nas eleições de outubro passado, não deseja a presença de seu próprio vice-presidente, Julio Cobos, na posse de seu segundo mandato. Cristina, que considera o vice um “traidor”, quer driblar a Constituição argentina e evitar que Cobos – que também acumula o cargo de presidente do Senado – faça a leitura de seu juramento presidencial. No entanto, os assessores jurídicos da Casa Rosada estão elaborando estratégias para modificar a tradicional cerimônia, marcada para o dia 10 de dezembro.
O argumento do governo é que Cristina, por ser reeleita, sucede a si própria. Portanto, afirmam no palácio presidencial, ela própria poderia ler seu juramento. Na sequência, Cristina pegaria de cima da mesa da presidência do Senado a faixa e o bastão presidencial que ela teria ali colocado segundos antes do juramento.
Mas, os historiadores recordam que o caso mais recente de reeleição, o de Carlos Menem em 1995, implicou em uma cerimônia na qual o presidente do Senado (coincidentemente, seu próprio irmão, Eduardo Menem) tomou seu juramento.
A Constituição argentina determina que o vice-presidente da República é o presidente do Senado. Neste posto, em julho de 2008, Cobos, com seu voto de Minerva, desempatou a votação sobre o “impostaço agrário” que a presidente Cristina queria aprovar. “Meu voto não é positivo”, disse Cobos na ocasião, derrubando o projeto de lei do governo Kirchner. Desde então, a presidente Cristina nunca mais falou com seu vice e o ignora em todas as cerimônias públicas.
Em diversas ocasiões os ministros de Cristina exigiram a renúncia do vice. No entanto, Cobos resistiu às pressões.
Rumores no âmbito político indicam que o governo pretenderia que Cobos renuncie a seu cargo minutos antes da posse, de forma a permitir que outra autoridade institucional tome o juramento de Cristina.
Os assessores de Cobos sustentam que por enquanto não foram notificados sobre qualquer alteração da cerimônia de posse.
No entanto, na última semana os sinais foram mais explícitos:
- O ministro da Economia, Amado Boudou, vice-presidente eleito de Cristina, disse publicamente que não quer Cobos “ao redor” na posse da presidente reeleita.
- O deputado kirchnerista Edgardo Depetri alertou Cobos publicamente: “ele deve pular fora e não tentar tomar o juramento da presidente” Cristina.
Cobos, assustado – ou precavido – indicou há poucos dias que não teria problemas em ficar fora da cerimônia, caso façam um pedido oficial desde a Casa Rosada.
Vice-presidente Julio Cleto Cobos. Charge de El Niño Rodríguez. Site do artista:http://www.elninorodriguez.com/
VICE POLÊMICO - Em 2007, Cobos – na época governador da província de Mendoza – foi escolhido pelo então presidente Nestor Kirchner para ser o vice de sua mulher. Representante dos “Radicais-K” (denominação dos integrantes do setor dissidente da União Cívica Radical, alinhado com o casal Kirchner), Cobos era chamado ironicamente pelos peronistas de “mosquinha morta”, por causa de seu nulo carisma e falta de influência política.
Mas, o protagonismo decisivo de Cobos na derrubada do “impostaço agrário” de Cristina disparou a popularidade do vice, que durante dois anos teve uma aprovação popular que duplicava a da própria presidente (no entanto, sem timing assumir protagonismo político caiu de forma gradual e persistente nas pesquisas, até deixar de ter importância…Hoje em dia Cobos carece de qualquer tipo de influência política).
O próprio Kirchner comentou no final de 2008 que todos os dias, no café da manhã, a presidente Cristina lhe recriminava: “olha o vice que você me colocou!”.
Para os próximos quatro anos Cristina optou por um vice de comprovada fidelidade, o atual ministro da Economia, Amado Boudou, roqueiro nas horas vagas (e também nas horas de trabalho).
Boudou, daqui a 4 anos, quando conclua o segundo mandato de Cristina Kirchner, faria o mesmo que a Constituição Nacional argentina determina, e – tal como Cobos tinha a intenção de fazer (originalmente) – tomará o juramento do sucessor ou sucessora da atual presidente.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Nestor Kirchner foi eleito em 2003 com 22% dos votos. Em 2007 colocou a máquina do Estado argentino para eleger sua própria esposa, a então senadora Cristina Kirchner, como sua sucessora presidencial. Até outubro do ano passado Nestor – considerado o verdadeiro poder no governo da mulher – era o candidato do casal presidencial para as eleições de 2011.
Desta forma, implementava-se o comentado plano “4+4+4+4”. Isto é, Néstor seguido de Cristina, seguido de Néstor novamente, seguido de Cristina mais uma vez, para completar um período de 16 anos. Mas, Kirchner morreu no dia 27 de outubro de 2010. Viúva, a saída para o governo foi a de uma reeleição presidencial de Cristina. O chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, disse há duas semanas que o kirchnerismo prepara-se para governar a Argentina durante os próximos “60 anos”.
A presidente Cristina Kirchner deu a largada à corrida eleitoral com objetivo de conseguir o terceiro mandato presidencial do kirchnerismo. Na noite da terça-feira ela acabou com o suspense que havia feito nos últimos meses e oficializou sua candidatura à reeleição em outubro. Nesta quarta-feira o cenário político argentino estava em polvorosa na expectativa da definição do candidato a vice-presidente, já que este despontaria como seu virtual sucessor, na ausência da possibilidade constitucional de disputar uma segunda reeleição em 2015. Os analistas políticos destacavam que a presidente, além de estar blindada contra os diversos escândalos de corrupção que assolam seu governo, está sendo favorecida pela recuperação econômica, além de uma fragmentação sem precedentes dos partidos de oposição.
Os analistas também ressaltam que Cristina é a favorita nas pesquisas de opinião pública, com uma ampla vantagem sobre os candidatos da oposição.
Caso vença nas urnas, Cristina emplacará o terceiro mandato do kirchnerismo, inciado em 2003 com seu marido, o presidente Nestor Kirchner (2003-2007). O segundo mandato do kirchnerismo foi protagonizado por Cristina, que sucedeu a seu próprio cônjuge, algo inédito na História mundial da democracia. O plano inicial do casal presidencial, até outubro do ano passado, era de uma candidatura de Kirchner para as eleições de 2011. No entanto, sua inesperada morte por um fulminante ataque cardíaco há oito meses, levou Cristina a tentar a sucessão de si própria.
O analista político e sociólogo Carlos Fara, da consultoria Fara e Associados, disse ontem ao Estado que suas pesquisas indicam que Cristina teria 47% das intenções de voto. Outros 18% estariam destinados a Ricardo Alfonsín, filho do ex-presidente Raúl Alfonsín (1983-89) e candidato da União Cívica Radical (UCR), de centro. Outros 14% dos votos seriam absorvidos pelo ex-presidente Eduardo Duhalde, que lidera uma das facções do peronismo dissidente. A deputada Elisa Carrió, candidata da Coalizão Cívica, de centro-esquerda, obteria 9% dos votos, proporção significativamente inferior aos 25% que conseguiu nas eleições de 2007, quando ficou em segundo lugar. Outros 7% dos votos ficariam nas mãos de Hermes Binner, governador da província de Santa Fe.
Com estes resultados, Cristina venceria no primeiro turno, já que no sui generis sistema eleitoral argentino, um candidato vence se conseguir mais de 45% dos votos. Outra alternativa é que obtenha pelo menos 40% dos votos, sempre que o segundo colocado esteja dez pontos percentuais atrás.
Com valores similares à pesquisa de Fara, a consultoria Ceop indica que Cristina contaria com 48,2% das intenções de voto, enquanto Alfonsín possui 12,8%. O ex-presidente Duhalde teria 7,5%, enquanto que o governador de San Luis, Alberto Rodríguez Saá teria 5,5%. Carrió obteria 5,9%.
No en tanto, uma pesquisa da consultoria Management & Fit indicou que Cristina conta com 33,4%. Mas, Alfonsín teria menos da metade de sua intenção de voto, já que teria 15,3%. Duhalde obteria 5,8%, enquanto que Rodríguez Saá conseguiria 7%. Elisa Carrió ficaria com 4%.
Segundo Fara, “independentemente das variações que os números possam ter nos próximos meses, é praticamente uma certeza de que Cristina Kirchner ganhará na primeiro turno em outubro”. O analista destacou que as eventuais variações que podem ocorrer “é a somatória de dois ou três assuntos que possam remover alguns pontos da presidnete. Mas, aí a discussão é sobre qual a amplitude desses votos que poderia perder”.
Fara considera que entre os fatores que provocariam perda de votos está “a crescente inflação, uma atitude soberba do governo – tal como ocorreu em outras ocasiões – além dos escândalos de corrupção. Mas, embora acumulados, esses fatores não provocariam uma derrota do governo”.
“O fato é que estamos registrando os níveis mais altos de otimismo sobre o futuro econômico nos últimos oito anos, graças à obras públicas, entre outros. Matematicamente Cristina Kirchner poderia até obter alguns votos a mais dos 45% conseguidos em 2007”.
O vice-presidente argentino, Julio Cleto Cobos, que rachou com o governo Kirchner em 2008. Cristina agora busca um vice de total fidelidade e alinhamento automático, já que este poderia tornar-se seu sucessor. Charge de El Niño Rodríguez. Site do artista:http://www.elninorodriguez.com/
A SÍNDROME DE COBOS - As especulações no âmbito político indicam que uma potencial vice de Cristina seria sua cunhada, a ministra da Ação Social, Alicia Kirchner, irmã do ex-presidente Néstor Kirchner, que morreu em outubro passado de um ataque cardíaco fulminante. Os rumores também indicam que o vice poderia ser um governador do norte da Argentina, onde o kirchnerismo possui um reduto eleitoral. Entre os nomes mais citados estão o governador do Chaco, Jorge Capitanich, considerado um “ultra-kirchnerista”; Sergio Urribarri, de Entre Rios; e José Alperovich, de Tucumán.
Outras especulações – baseadas nas declarações realizadas durante seu discurso de lançamento, quando ressaltou que pretendia ser “uma ponte e as novas gerações” – reforçaram os boatos de que o futuro candidato a vice poderia ser um dos integrantes da jovem geração de seu gabinete, entre eles o ministro da Economia, Amado Boudou, e o secretário de Comunicação, Juan Abal Medina.
Além disso, na lista dos “vice-presidenciáveis” também desponta o nome de Carlos Zanini, o secretário jurídico do governo, um kirchnerista histórico, já que assessora os Kirchners desde os anos 80. Outro histórico é o deputado Nicolas Fernández, da província de Santa Cruz, aliado há um quarto de século.
Os analistas destacam que este vice será crucial, já que ao contrário dos tempos em que Nestor Kirchner estava vivo, Cristina não contará com seu marido para uma eventual alternância no poder. Desta forma, os analistas sustentam que o vice terá status de “sucessor” de Cristina.
A presidente também quer evitar a “síndrome de Cobos”, em alusão a seu atual vice-presidente, Julio Cobos, da UCR, que rachou com o governo Kirchner em 2008 quando, na categoria de presidente do Senado, com seu voto de Minerva provocou a derrota do governo na votação do “impostaço agrário”. Embora pressionado pela presidente, Cobos recusou-se a renunciar, fato que lhe valeu a denominação de “traidor”. Segundo os analistas, desta vez Cristina buscará um vice de alinhamento automático e que exiba uma “blindagem de fidelidade” à presidente.
A intriga sobre o vice terminará neste sábado, quando vence o prazo para o registro do nome que acompanhará Cristina na chapa presidencial.
Cristina Kirchner, do partido Justicialista, sublegenda Frente pela Vitória
Ricardo Alfonsín, União Cívica Radical (UCR)
Elisa Carrió, Coalizão Cívica
Hermes Binner, Partido Socialista
Eduardo Duhalde, Partido Justicialista, sublegenda União Popular
Alberto Rodríguez Saá, Partido Justicialista, sublegenda Peronismo Federal
Jorge Altamira, Partido Operário
Desistiram da corrida presidencial
O vice-presidente Juio Cobos, da UCR
O prefeito Maurício Macri, do Proposta Republicana
O deputado e cineasta Fernando Solanas, do Projeto Sul
SISTEMA ELEITORAL ARGENTINO E SEU SUI GENERIS SEGUNDO TURNO
Ao contrário de outros países, nos quais para vencer no primeiro turno é preciso 50% mais um dos votos, no sui generis sistema eleitoral argentino, para vencer na etapa inicial das eleições presidenciais basta obter 40% dos votos com uma vantagem de 10% sobre o segundo colocado. A outra opção é a de obter 45% dos votos, proporção suficiente para conseguir a vitória de forma automática.
O primeiro turno está marcado para o dia 23 de outubro. O segundo turno tem data para o 20 de novembro.
A posse do novo presidente será no dia 10 de dezembro.
Charge de jornal da Catalunha mostra o casal com uma única faixa presidencial.
PERANTE “EFEITO VIÚVA”, OPOSIÇÃO APRESENTA-SE FRAGMENTADA E IRRECONCILIÁVEL
“Efeito viúva” é a denominação do clima de compaixão que grandes setores da população argentina sentem pela presidente Cristina Kirchner, cujo marido, o ex-presidente Nestor Kirchner, morreu de um ataque cardíaco fulminante em outubro do ano passado. Em quase todos os discursos públicos que proferiu desde a morte de seu marido a presidente Cristina faz constantes alusões a Kirchner. Ostentando rigorosa vestimenta escura em sinal de luto, ela sustenta que seu marido, desde o além, marca seu caminho político.
Coincidentemente, desde a morte de Kirchner, Cristina disparou nas pesquisas de opinião pública.
“Estamos vendo um espetáculo de circo, um relato de um ato fictício. É óbvio que Cristina Kirchner está mentindo quando chora na frente dos pobres. O vestido preto forma parte de uma cena semiótica. O luto forma parte desse disfarce”, dispara Elisa Carrió, uma das candidatas presidenciais da oposição.
Mariel Fornoni, da consultoria de opinião pública Management & Fit, afirmou ao Estado que “o efeito viúva deveria começar a diluir-se por causa de todos os escândalos de corrupção que apareceram e continuam aparecendo”. Segundo Fornoni, “a presidente continua utilizando o nome do ex-presidente Kirchner em seus discursos. E com certeza continuará fazendo isso”. A analista sustenta que os casos de corrupção estão afetando a imagem da presidente Cristina.
No entanto, o analista político Carlos Fara afirmou ao Estado que “o efeito viúva já passou. As pessoas não votam mais por condolências”.
Quatro pinguins: Plano original dos Kirchners era um mandato de Néstor, um segundo de Cristina, um terceiro de Néstor e um quarto de Cristina. Mas, a morte de Néstor alterou os planos. Cristina só poderá disputar uma reeleição. Se quiser uma segunda reeleição, terá que mudar a Constituição. Em 1999 o então presidente Carlos Menem tentou arrancar da Corte Suprema um parecer favorável a seus planos de segunda reeleição, denominada ironicamente de “la re-reelección” ou simplesmente, “la re-re”.
FRAGMENTADA – Os diversos escândalos de corrupção que envolvem integrantes e ex-integrantes do governo Kirchner não teriam suficiente impacto para levar a presidente Cristina à uma derrota nas urnas em outubro. Segundo os analistas, a recuperação econômica – subsidiada amplamente pelo Estado argentino – seria o fator crucial para que os escândalos tenham pouco peso político atualmente.
Os candidatos da oposição são Ricardo Alfonsín, da UCR; Elisa Carrió, da Coalizão Cívica; o socialista Hermes Binner, os peronistas dissidentes Eduardo Duhalde e Alberto Rodríguez Saá, além do trotskista Jorge Altamira, irmão de Luis Favre, ex-marido da ex-prefeita Marta Suplicy. Mas, apesar de algumas negociações, os diversos candidatos não conseguiram formar alianças para enfrentar o governo.
Segundo Fornoni, a oposição continuará fragmentada: “a realidade é que ainda não deram mostras de poder articular-se”.
“Não acho que a oposição se unirá. Houve várias tentativas de coalizões, todas fracassadas. Não imagino nem Binner e Carrió fazendo uma aliança com a UCR”, sustentou Fara.
Cristina e Néstor na charge do cartunista argentino El Niño Rodríguez. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/
A TEMPO DA COPA AMÉRICA E DAS ELEIÇÕES, CRISTINA LANÇA O “TV PARA TODOS”
Televisores baratos nas vitrines das lojas argentinas a tempo da Copa América, que começa no dia 3 de julho na cidade de La Plata, um dos principais redutos eleitorais do governo. Este foi o pontapé inicial da presidente Cristina Kirchner para começar sua campanha eleitoral. No anúncio feito em rede nacional de TV – junto com seu lançamento à reeleição – a presidente Cristina ressaltou que o programa governamental “TV para todos” (também chamado de “LCD para todos”) implicará na venda, a partir da sexta-feira da semana que vem, de 200 mil televisores de alta definição LCD de 32 polegadas com um aparelho acoplado que permitirá captar os sinais de TV digital.
“Sou uma presidente que não gosta de uma Argentina para poucos, mas sim, para muitos”, argumentou em defesa da distribuição de créditos do estatal Banco de la Nación para a compra dos televisores, que serão vendidos por US$ 675. A compra pode ser feita em até 60 vezes, isto é, cinco anos, coincidindo com as eleições presidenciais de 2015. “É pão e circo com molho eleitoral, vinculado à Copa América”, criticou o economista Gabriel Rubinztein.
Cristina também anunciou a licitação de 110 sinais de TV em todo o país para empresas privadas. Outros 110 sinais serão distribuídos de forma direta aos governos das províncias, universidades públicas, além de ONGs, setor onde o governo possui grande influência.
O quarteto de Pinguins da série televisiva originada no filme “Madagascar” assistem TV.
“PARA TODOS” - No último ano e meio o governo Kirchner lançou diversos programas sob a égide do “para todos”, que implica em produtos a preços mais acessíveis para a maioria da população. Desta forma, já anunciou o “carne para todos” (cortes de carne bovina a valores mais baixos do que a média do mercado); “milanesas para todos” (programa de distribuição com preços baixos do corte de bife à milanesa, um dos pratos mais populares do país).
Além disso, lançou o “futebol para todos” (estatização das transmissões dos jogos de futebol, que passaram dos canais de TV a cabo a serem veiculados no canal estatal 7, uma TV aberta). Até 2019 o governo desembolsará US$ 150 milhões por ano para a Associação de Futebol da Argentina (AFA) e os clubes em troca dos direitos de transmissão.
Há poucos meses a presidente anunciou o “botijões para todos” (gás em botijão mais barato para os setores da população que não possuem gás encanado); e merluza para todos (o peixe marítimo mais popular na gastronomia argentina), entre outros programas de subsídios.
A oposição acusa o governo de fazer “populismo” com estes programas e ressaltam que, na prática, não passam de subsídios para obter dividendos políticos para as eleições presidenciais de outubro.

Oposição afirma que programa de LDC para todos trata-se de espetáculo para distrair população dos problemas do país, além de servir para publicidade para o governo. “É pão e circo com molho eleitoral, vinculado à Copa América”, criticou o economista Gabriel Rubinztein. Charge de El Niño Rodríguez – “Kirchner crooner”. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/
Nossa semana borgiana foi brevemente interrompida para colocar a postagem acima sobre o lançamento de Cristina Kirchner. Na próxima postagem voltaremos à programação original e encerraremos a semana sobre JL Borges com uma postagem sobre os “Mitos borgianos: Georgie e Mick Jagger”.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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Vice-presidente Julio Cobos ilustrado pelo cartunista argentino El Niño Rodríguez. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/
Pacato, low profile e supostamente inofensivo, o vice-presidente Julio Cesar Cleto Cobos era considerado o parceiro ideal para a chapa de Cristina Kirchner em 2007, quando o então presidente Néstor Kirchner preparava uma sucessão protagonizada pela própria cônjuge. Na época, Cobos rachou com seu partido, a União Cívica Radical (UCR), de oposição, para entrar na chapa governista. Ele e seus dissidentes foram ironicamente batizados de “Radicais-K”, em alusão à inicial do casal presidencial. Na época Cobos era visto como uma “mosquinha morta” – um vice-presidente sem ambições – que não implicava em riscos para o casal Kirchner.
No entanto, a parceria entre o vice e a presidente durou apenas oito meses. Com o passar do tempo, Cobos começou a divergir da política econômica do casal Kirchner. Mas, o racha consolidou-se em julho de 2008 quando Cobos, na categoria de presidente do Senado, derrubou com seu voto de Minerva o impopular projeto de lei de “impostaço agrário” da presidente Cristina.
O “impostaço” havia gerado um locaute sem precedentes dos ruralistas, além de panelaços da classe média nas grandes cidades em apoio inédito aos agricultores.
Seu voto contra o casal Kirchner transformou Cobos em uma figura popular, algo raro para um vice-presidente argentino.
As frases por ele pronunciadas na sessão do Senado – com dramático nervosismo – para explicar sua decisão de votar contra a própria presidente foram rapidamente estampadas em camisetas que foram sucesso de vendas na internet.
“A História me julgará”, “Meu voto não é positivo” e “Este é o momento mais difícil de minha vida”, entre outros, foram os dizeres que transformaram-se um hit em 24 horas. Imagens do “voto não-positivo”, aqui.
O merchandising da denominada “Cobosmania” também esteve presente nas canecas que ostentam as frases que levaram o antes desconhecido vice à categoria de superestrela da política argentina em 2008. Uma pesquisa da consultoria D’Alessio Irol indicou na época que 75% dos argentinos aprovam o gesto de Cobos de votar contra o governo Cristina.
Imediatamente Cobos foi isolado pelos Kirchners, que o consideraram um “traidor”. A presidente Cristina não fala com ele desde 2008. Com frequência integrantes do governo pedem sua renúncia e o acusam de estar por trás de uma “conspiração” que supostamente reuniria ruralistas e partidos da oposição para implementar um hipotético “golpe de Estado”. No entanto, Cobos resistiu a todas as pressões, alegando que, como vice, também havia sido eleito pelo voto popular.
Tempos de boas relações com a presidente Cristina Kirchner acabaram em 2008.
Entre 2008 e 2009 C0bos foi considerado a grande alternativa para derrotar Kirchner nas urnas. No entanto, de lá para cá Cobos perdeu protagonismo, já que não se posicionava claramente como candidato da oposição, além de continuar no cargo de vice-presidente de um governo ao qual posicionava-se contra.
Os analistas indicam que Cobos errou em sua estratégia, já que – segundo eles – deveria ter deixado o cargo e firmar sua posição como líder da oposição contra os Kirchners.
A atitude vacilante de Cobos foi o foco da imitação do vice feita no programa ”Gran cuñado” (Grande Cunhado), uma paródia do Gran Hermano (Big Brother). O programa, em 2009, ironizava os principais políticos argentinos, incluindo o casal Kirchner. Acima, na foto o imitador de Cobos em “Gran Cuñado”.
Mas, Cobos vacilou no meio da feroz – e dinâmica – arena política argentina. Isso levou vários simpatizantes e aliados a desertar de suas fileiras. Simultaneamente começaram a aparecer outras candidaturas dentro da UCR.
Uma delas foi o senador Ernesto Sanz, outrora aliado mas atualmente rival na UCR, que conseguiu maior visibilidade graças aos intensos debates que agitaram o Parlamento entre 2008 e 2010. De quebra, a figura de Cobos começou a enfrentar a concorrência de outro correligionário, Ricardo Alfonsín, filho do ex-presidente Raúl Alfonsín.
O resultado foi que desde 2009 Cobos gradualmente passou a um segundo plano nas especulações sobre presidenciáveis na Argentina.
No entanto, apesar da perda de terreno dentro das fileiras opositoras ainda é um nome de peso como presidenciável.
Cobos costuma participar de maratonas. Ao fundo, a Casa Rosada, o palácio de governo onde está “el sillón de Rivadavia”, a cadeira presidencial que ambiciona conquistar nas eleições de outubro.
TRINCHEIRA - Filho de um portenho e uma bonaerense, Cobos, nascido em 1955, foi o primeiro mendocino da família. Seu pai, militante peronista, mudou-se à Mendoza para fugir da repressão do golpe que derrubou o presidente Juan Domingo Perón em 1955. Décadas depois, seu pai – fanático torcedor do River Plate – lamentaria, com ironia: “minha vida só tem duas desgraças: um filho radical e um neto do Boca Juniors”. Cobos estudou no Liceu Militar e depois entrou na Universidade Tecnológica de Mendoza, onde se formou em Engenharia Civil. Ali conheceu sua esposa, também engenheira.
Em 1978, quando a Argentina quase entrou em guerra com o Chile pela disputa do canal de Beagle, foi designado tenente e esteve em uma trincheira esperando o ataque chileno na Cordilheira dos Andes (a guerra não aconteceu; paradoxalmente, hoje é um dos principais interessados na integração do Mercosul com o Chile).
Depois, trabalhou na atividade privada e foi reitor da Universidade. Apolítico, só em 1991 entrou na UCR, quando foi convocado para trabalhar primeiro na prefeitura e depois no governo provincial no comando das obras públicas. Em 2003, diante do descrédito popular com os políticos tradicionais, a figura de Cobos apareceu como uma opção “técnica”, com jeito de “administrador”. Na ocasião, derrotou o candidato de Kirchner.
Gosto pela aventura: Há poucos anos Cobos atravessou a Cordilheira dos Andes com uma mula (foto do acervo do vice-presidente)
Aventureiro, Cobos gosta de fazer trekkings (atravessou a Cordilheira com uma mula) e acompanha o filho a concertos de rock. Mas, ao mesmo tempo, é sóbrio e discreto. Não beija bebês, mas se detém, no meio de sua corrida diária (corre sozinho, sem guarda-costas), para conversar com os pedestres. Seu escritório na época em que era governador de Mendoza, no austero edifício do governo, não mostrava luxos. A primeira coisa que exibia com orgulho, quando o entrevistei em 2006, é a foto dos três filhos.
Seu ídolo político é o ex-presidente Arturo Frondizi (1958-62), que tal como Cobos, protagonizou uma dissidência da UCR que obteve o respaldo (embora temporário) peronista. Admira o ex-presidente chileno Ricardo Lagos. Define-se como “progressista-liberal a favor da inclusão social”.
Na área de política exterior considera que os governos argentinos deveriam fazer maiores esforços para que o Mercosul tenha mais institucionalidade. “Hoje funciona como alfândega imperfeita”, lamenta.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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A sala principal do Teatro Colón está totalmente reformada, após anos de intensas obras (foto de divulgação da Secretaria de Cultura da cidade de B.Aires)
Resumo da opereta
O Teatro Colón, a maior sala de ópera da América Latina (que segundo especialistas da lírica, conta com a melhor acústica para o gênero), será reinaugurado nesta segunda-feira à noite. Ainda não abriu suas portas e já é o foco de uma disputa digna de uma opereta de Franz Léhar ambientada em um inventado país dos Bálcãs.
Cristina Kirchner, irritada com o prefeito Maurício Macri, não irá à principal festividade das celebrações do dia 25 de maio, a data nacional, no Teatro Colón, símbolo da cultura argentina.
Por outro lado, a presidente não convidou ao banquete da terça-feira o vice-presidente Julio Cobos, com quem está brigada desde que ele, que também ocupa a presidência do Senado, votou contra o governo em 2008. O banquete será na Casa Rosada, o palácio presidencial.
De quebra, a presidente Cristina tampouco convidou os ex-presidentes argentinos ainda vivos desde a volta da democracia, em 1983.
O país contará com celebrações paralelas para o Bicentenário: a presidente Cristina, com o banquete na Casa Rosada e um Te Deum em Luján, o prefeito Macri com sua gala no teatro Colón; o cardeal Bergoglio com um Te Deum na catedral portenha, e até o governador de San Luis, Alberto Rodríguez Saá, que construiu uma réplica do Cabildo de Buenos Aires (edifício que foi o foco da Revolução de Maio) para fazer seus próprios festejos.
O Bicentenário argentino, longe de mostrar unidade política, exibe um país profundamente dividido, sem fatores externos que causem as divergências.
O colunista político Adrián Ventura, ironizou com amargura: “talvez no Tricentenário não estaremos pior do que agora…”
Personagens
- Cristina Kirchner, presidente, que chegou à Casa Rosada em 2007 como sucessora do próprio marido. Seus críticos afirmam que comporta-se como fosse uma diva de ópera.
- Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires, opositor dos Kirchners, ex-presidente do Boca Juniors e filho do empresário Franco Macri (o pai de Macri, por seu lado, é enfático simpatizante dos Kirchners desde 2004).
- Néstor Kirchner, ex-presidente (2003-2007), marido da presidente, secretário-geral da Unasul, presidente do partido Peronista e considerado o verdadeiro poder dentro do governo da esposa.
- Julio Cobos, vice-presidente que rachou com a presidente Cristina em julho de 2008. Considerado “mosquinha morta” quando foi escolhido para o posto de vice (Kirchner o escolheu para ser vice da esposa), agora é “presidenciável” da oposição. Macri não gosta dele, pois o prefeito portenho também ambiciona ser candidato da oposição nas eleições presidenciais de 2011.
Cenários: Teatro Colón, Casa Rosada, residência oficial de Olivos, prefeitura portenha.
Época: Os dias prévios ao 25 de maio de 2010. O 25 de maio é a data nacional, o dia da Revolução de Maio de 1810, quando iniciou o processo de rebeliões e guerras que levaria à independência do país em 1816. Na terça-feira que vem a Argentina celebrará o Bicentenário da Revolução de Maio. A data está gerando uma série de debates na sociedade sobre os acertos e os erros do país ao longo dos últimos 100 anos. O quiproquó político dos últimos dias deu um toque amargo às reflexões sobre o futuro da Argentina.
Libreto
Ato 1 – Macri fala demais
Mauricio Macri, na quinta-feira, a poucos dias da reinauguração do Teatro Colón, comenta com a imprensa como será quando a presidente Cristina for à sessão de gala na ópera na segunda-feira à noite: “se ela for com seu consorte (o ex-presidente Kirchner) terei que sentar ao lado dele. Mas isso não me deixa contente…”.
Macri, nos dias prévios, havia criticado o governo Kirchner pela investigação sobre o envolvimento do prefeito em uma serie de grampos telefônicos. Macri está sendo investigado pelo juiz Norberto Oyarbide, que nos últimos meses teria favorecido os Kirchners em diversos casos, segundo acusa a oposição.
Dentro da administração Macri alguns assessores admitem que o uso da palavra “consorte” não foi exatamente “conveniente”.
Ato 2 – Cristina perde a pose e se irrita
Cristina Kirchner coloca tom de drama na trama e afirma que não comparecerá ao Teatro Colón. Irritada – ou simulando estar irritada – a presidente envia uma carta ao prefeito Macri na qual indica que “a incrível catarata de ofensas que proferiu durante a última semana, chegando neste dia a manifestações públicas que desqualificam de forma pessoal, marcam um limite que não estou disposta a atravessar”.
No final, com ironia, disparou: “desfrute o senhor tranquilo e sem as presenças incômodas na noite do 24 de maio”.
Analistas políticos afirmam que, se bem a presidente Cristina costuma ter ataques de raiva pelos motivos da mais variada magnitude, neste caso a observação de Macri (sobre sentar ao lado de Kirchner) teria sido útil como argumento para não ir ao Colón.
Motivo: a festa do Colón é organizada por Macri, integrante da oposição. E, comparecer ao Teatro, onde Macri é o anfitrião, seria conceder-lhe alguns dividendos políticos que Cristina não pretendia dar.
Ato 3 – Imbroglio cresce e Cristina não atende o telefone
Macri tenta impedir a ausência da presidente do principal evento das celebrações do Bicentenário argentino para evitar um fiasco da imagem do país e afirma a Cristina Kirchner que lamenta sua decisão. Macri pede a Cristina Kirchner que “deixe de lado das diferenças e esteja à altura da História, que nos transcende”.
O chefe do gabinete de ministros da presidente Cristina, Aníbal Fernández, que nas últimas duas semanas manteve discussões ‘políticas’ em público com uma vedette do teatro de revista, uma modelo de passarelas – entre outras – afirma que a presidente não irá de forma alguma ao Colón. Nem ela nem outros integrantes do governo. Desta forma, ao redor de 200 entradas ficam sem dono para a noite de gala.
Na sequência, Macri telefonou à presidente Cristina na Casa Rosada. Mas, os assessores da presidente explicaram que não estava ai.
Depois, telefonou à residência oficial de Olivos. Mas, os assessores que ali estavam sustentaram que a presidente estava em uma “reunião”.
O chefe do gabinete do prefeito Macri, Horacio Rodríguez Larreta, fez um apelo na noite da sexta-feira à presidente: “por favor pense nisso..ainda existe tempo (para mudar de ideia)”. Depois, com ironia Larreta arrematou, afirmando que se Cristina for ao Colón, poderá passar “a imagem de unidade (nacional) pelo menos por um dia”.
Intermezzo com mais imbroglios e peculiaridades ![]()
No meio deste imbróglio operístico, o vice-presidente da República, Julio Cobos, recorda que não foi convidado para o banquete de gala da terça-feira na Casa Rosada o palácio presidencial, onde a presidente Cristina receberá 200 convidados especiais, entres eles o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Cobos, como vice-presidente, deveria ser convidado (independente do conflito entre ele e o casal Kirchner). Mas, os Kirchners não querem o detestado vice-presidente por perto.
Cobos irá ao Colón, onde não irá Cristina por vontade própria.
Macri disse que embora Cristina não compareça ao Colón, ele irá ao banquete da Casa Rosada apesar da indisposição da presidente de tê-lo por perto.
Mas, além de Cobos, a presidente Cristina Kirchner .- embora seja uma festa nacional que possui maior relevância pelos 200 anos celebrados – não convidou nenhum dos ex-presidentes civis argentinos ainda vivos (Carlos Menem, Fernando De la Rúa, Adolfo Rodríguez Saá, Eduardo Duhalde), com os quais não possui boas relações. A única exceção é o próprio marido, o ex-presidente Kirchner.
E, no meio de todo este quiproquó e comédia de enredos, o presidente do Uruguai, José Mujica, ex-guerrilheiro tupamaro, confirmou que estará presente na noite de gala do Colón, sem se importar com o conflito entre a presidente Cristina e o prefeito Macri.
Mujica, amante do teatro e da música clássica (além do tango), estará no Colón, e concidentemente, sentará ao lado do vice-presidente argentino, Julio Cobos.
No dia seguinte, no 25, Mujica sentará à mesa de Cristina Kirchner, na Casa Rosada, no banquete do bicentenário.
Ato 4 – Deus seria peronista
Na sexta-feira à noite, a presidente Cristina foi à avenida 9 de Julio inaugurar a exposição sobre o bicentenário organizada pelo governo federal. Ali, sem vacilar, afirmou de forma mística: “Deus quis que eu fosse presidente neste bicentenário!”
Ato 5 – Grand Finale, Todos contra todos
Ainda está para acontecer. Na segunda-feira à noite o prefeito Macri receberá 2.400 convidados para a gala do Colón.
No dia seguinte, a presidente Cristina celebra o 25 de maio em si.
Ela irá a um Te Deum, na catedral de Luján, na província de Buenos Aires, onde o bispo local é um dos integrantes do clero com os quais ainda não brigou.
Cristina descartou a cerimônia religiosa na catedral de Buenos Aires (que albergou a maior parte dos Te Deums dos últimos dois séculos), pois mantém uma relação tensa com o cardeal e primaz da Argentina, Jorge Bergoglio. Este, por seu lado, irritado com o descaso da presidente Cristina Kirchner, fará seu próprio Te Deum.
ANÁLISE DA OPERETA: Os analistas políticos criticam a decisão da presidente Cristina. E tampouco poupam Macri de críticas. A socióloga Beatriz Sarlo, no artigo “Brigas que carecem de grandeza” publicado neste sábado no jornal “La Nación”, indica que “não era previsível que ao chegar ao balanço do bicentenário estivéssemos ocupados com brigas cujos motivos carecem de qualquer exemplo”.
Segundo Sarlo, a frase de Macri sobre Kirchner (sobre sentar ao lado dele) é uma demonstração de que o prefeito portenho “acredita que pode comportar-se como se fosse o pai de uma namorada cujos sogros não lhe agradam”.
Sarlo sustenta que ele, falando como chefe de governo de Buenos Aires, não deve declarar que não está contente em receber o marido da presidente no dia 25 de maio no Colón. “Ninguém lhe pede que diga que sentar ao lado de Néstor Kirchner seja seu sonho. Ninguém lhe pede que exagere um tom amistoso que não sente..simplesmente, um político em funções de governo cala a boca”.
Sarlo também critica a presidente Cristina e diz que ela só não vai ao Te Deum na catedral para não encontrar o cardeal Bergoglio ali.
Segundo Sarlo, os motivos destas atitudes “que seriam caricaturescos se não afetassem a vida pública, tem a ver com o pior lado do estilo político nacional”.
O link para a coluna de Beatriz Sarlo, aqui.
LUNFARDO sobre os imbróglios
Ao longo do último século – entre o centenário e o bicentenário – o lunfardo (gíria) portenha acumulou uma longa lista de palavras para designar conflitos, abacaxis e imbroglios da vida cotidiana. Muitas destas palavras podem ser usadas para referir-se aos pepinos políticos que embalam as celebrações do bicentenário.
Aqui segue uma pequena lista usada intensamente pelos portenhos nos últimos dias:
Balurdo: Problema, confusão. Balurdo é uma palavra antiga do lunfardo, que originalmente referia-se a um amontoado de trapos ou papéis. Seu sentido original era o de “mentira”, de alguém que tenta vender gato por lebre. A palavra, como muitas do lunfardo, origina-se do italiano ‘balordo’ (tonto), que com o touch genovês muito presente em Buenos Aires, transformou a letra ‘o’ em ‘u’.
Despelote: Confusão, bagunça. Para indicar um despelote de intensidade existe a expressão “flor de despelote”. Exemplo: “Cristina y Macri armaron flor de despelote”.
Quilombo: Em seu uso no século XIX referia-se aos quilombos rebeldes surgidos no Brasil. Mas, com o passar do tempo o significado original foi perdido e transformou-se em sinônimo de ‘bordel’. Nos últimos 50 anos mutou novamente e passou a equivaler a ‘bagunça’ ou ‘imbróglio’ de considerável magnitude.
A palavra “bolonqui” é uma adaptação do lunfardo ‘quilombo’, já que a gíria local também coloca várias palavras “al revés” (ao contrário). No denominado ‘vesre’ (a palavra espanhola “revés” ao contrário), “bolonqui” é uma forma de dizer “quilombo”.
De cuarta, De quinta: Usado para referir-se que algo é “de quarta categoria” ou “de quinta categoria”. Exemplo: “La actitud de Cristina y Macri es de cuarta…”.
A coisa está russa, dizem no Brasil para explicar que certa situação exibe certo grau de dificuldade para os protagonistas e pessoas envolvidas.
Essa expressão surgiu no Brasil nos anos 20 como uma referência à situação da Rússia na crise de 1917 e na guerra civil que ocorreu na sequência (e também refere-se à desastrosa campanha militar russa na Primeira Guerra Mundial, quando os generais russos cometeram uma infinidade de mancadas)
Em resumo, a coisa está russa na política argentina.
RUSSO E RUSSA: E, já que falamos em russos, a palavra ‘russo’ foi (e ainda é) usada na Argentina para designar os integrantes da comunidade judaica, que no início do século XX, quando milhares de imigrantes judeus fugiam dos pogroms na Rússia.
Assim foi chamado na infância o pianista e maestro Daniel Baremboim, nascido em Buenos Aires em 1942, filho de uma família judaica de origem russo.

Daniel Barenboim, que além da música erudita, divulgou também Piazzolla e Zequinha de Abreu na Europa. Um link do Youtube com este argentino regendo Tico-Tico no Fubá, de José ‘Zequinha’ Gomes de Abreu (1880-1935). Aqui.
Quando tinha 10 anos, seus pais mudaram-se para Israel. Posteriormente estudou na Áustria e, com o passar das décadas, transformou-se em um dos principais maestros do mundo. Entre as orquestras que costuma dirigir está a Filarmônica de Berlim e a orquestra do Alla Scala de Milão.
Barenboim criou uma orquestra de judeus israelenses, palestinos e árabes. Em 2008 tornou-se a primeira pessoa no mundo a contar com a cidadania israelense e palestina (honorária) ao mesmo tempo.
Bom, Barenboim, que era chamado de “rusito” (russinho) quando era criança em Buenos Aires, lançou um CD supimpa com uma russa (russa de verdade, da Rússia, mais especificamente, de Krasnodar), a cantora lírica Anna Netrebko (Анна Юрьевна Нетребко). Netrebko está atraindo o público jovem para a ópera com seu carisma e espontaneidade.
O CD é “In the still of the night”, pela Deutsche Grammophon, onde ‘la’ Netrebko e Barenboim (aqui, como pianista), revelam a beleza e a melancolia das canções russas de Nicolai Rimsky-Korsakov e de Pyotr Ilyich Tchaikovsky, além de uma de Antonín Dvořák e de outra de Richard Strauss.
E, driblando a opereta da política argentina, voltamos ao Colón.
Nesse teatro, uma fantástica sala de ópera, Barenboim (mas sem Anna Netrebko, infelizmente) se apresentará no dia 25 de agosto com a orquestra do Divã Ocidental-Oriental (formada pelos jovens israelenses, palestinos e árabes). E, no dia 30 de agosto, com o coro e orquestra do Scala.

Anna Netrebko, parceira do último CD do argentino-israelense Daniel Barenboim. A bela russa em um trecho de Rusalka, de Dvorak, “A canção da lua”. Aqui.

Sobre os próximos dias:
Domingo - Neste domingo, caso demore em responder os comentários, desculpem vosso blogueiro, mas é meu aniversário número 44 (falta muito para meu próprio centenário…) e estarei em celebração.
Segunda-feira: Nesta 2af teremos uma ampla postagem sobre o Bicentenário.
E mais um bônus track: Daniel Barenboim, em B.Aires, rege “Libertango”, de Astor Piazzolla. Aqui!
Abraços a todos, bom fim de semana!
PS: Ok, não resisti. Vou colocar outro link do Barenboim, com a Filarmônica de Berlim tocando ”El Firulete”, de Mariano Mores. Supimpa, batuta, tri-legal.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão
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