A presidente Cristina Kirchner assinou um decreto publicado na segunda-feira no Diário Oficial da Argentina, no qual convoca o Congresso Nacional a realizar sessões extraordinárias para debater e votar uma série de projetos de lei, entre os quais está a declaração de “interesse público” da produção, comercialização e distribuição de papel de jornal em toda a Argentina. A presidente Cristina, no decreto, determinou que esse projeto – entre outros – sejam votados no plenário da Câmara de Deputados e no Senado no máximo até a véspera do Reveillon, dia 30 de dezembro.
O projeto – aprovado na comissão da Câmara nesta terça-feira com uma velocidade nunca antes vista – é um golpe direto aos dois maiores jornais do país, o “Clarín” e o “La Nación”, ambos de posições críticas com o governo.
O projeto poderia ser votado na Câmara de Deputados nesta sexta-feira. Se for aprovado – como tudo indica, graças à maioria do governo no plenário – irá na semana que vem ao Senado.
Se for aprovada, a lei irá na contra-mão da Convenção Americana de Direitos Humanos – o Pacto de San José de Costa Rica – que proíbe expressamente a aplicação de controles sobre papel-jornal.
Alguns setores da oposição – principalmente os partidos de centro e centro-direita – afirmam que o projeto da presidente Cristina não passa de uma “estatização encoberta” da única fábrica de papel de jornal em funcionamento no país.
Atualmente o Clarín possui 49% das ações da Papel Prensa. O Estado argentino é o segundo acionista, com 27,6%. O jornal “La Nación” possui 22,49%. Os restantes 1,05% estão nas mãos de pequenos investidores.
Caso o projeto seja aprovado, o “Clarín” e o “La Nación” serão forçados a vender suas ações, já que as novas normas proíbem que empresas de jornais impressos possam ter ações na “Papel Prensa”.
“Claramente, é um projeto com intencionalidade política. Apesar do impacto que isto pode ter, o governo pretende votá-lo às pressas, antes do fim do ano, com um Parlamento novo, que acabou de tomar posse há poucos dias. Além disso, nenhum meio de comunicação foi convocado às comissões parlamentares para expressar sua opinião sobre o caso”, disseram ontem ao Estado fontes do jornal “Clarín”. “É um confisco encoberto”, sustentaram as fontes, que ressaltaram que o projeto visa, além de um controle estatal sobre o papel de jornal, o favorecimento dos meios de comunicação aliados do governo, o denominado ‘amigopólio’”.
O projeto também determina que qualquer pessoa que tenha mais de 10% de ações de uma empresa de jornal impresso não poderá participar da “Papel Prensa”. Desta forma, fica aberto o caminho para que os novos acionistas sejam empresários de outros setores da economia. Analistas afirmam que donos de empreiteiras, com boa relação com o governo Kirchner, já estão de olho na “Papel Prensa”.
Nos artigos 16 e 41 o projeto determina que o Estado, que possui atualmente 27% das ações da Papel Prensa, poderá ampliar seu capital na empresa.
FISCALIZAÇÃO ESTATAL - Caso o projeto seja transformado em lei o papel de jornal será fiscalizado por uma entidade ainda a ser criada, a Autoridade Federal para o Controle e Acompanhamento da Produção, Distribuição e Comercialização de Papel de pasta de celulose para os jornais (AFePDICop). Esta entidade será comandada por um funcionário, designado pelo Poder Executivo, com um mandato de quatro anos de duração.
O governo Kirchner havia tentado aprovar esse projeto no ano passado, quando estava em minoria no Parlamento. No entanto, desde a semana passada a presidente Cristina conta – somando parlamentares próprios e aliados – com uma confortável maioria para obter a aprovação da lei.
CARTAZES - Neste fim de semana, após a posse de Cristina, reeleita para um segundo mandato que se prolongará até 2015, cartazes com os dizeres “Tchau, Clarín” em letras garrafais foram colocados nas paredes de Buenos Aires.
Os cartazes, de autoria da Juventude Peronista, do Movimento de União Popular e da “Kolina” (grupo político da ministra da Ação Social, Alicia Kirchner, irmã do ex-presidente Nestor Kirchner, morto em outubro de 2010 e cunhada da presidente Cristina), também ostentavam a frase “nenhum monopólio resistirá três governos populares” (alusão ao governo de Kirchner e os dois mandatos de Cristina).
“O FIM” - O jornalista e historiador Jorge Lanata, fundador do jornal “Página 12” na segunda metade dos anos 80, disse ao Estado que a eventual aprovação da declaração de “interesse público” da produção e distribuição de papel de jornal, será “o fim do jornalismo na Argentina”. Segundo Lanata, os governos de plantão poderão determinar maiores quantidades de papel de jornal aos periódicos alinhados ou condescendentes com a Casa Rosada, enquanto que os jornais críticos correriam o risco de receber quantidades mínimas desse insumo.
Lanata foi recentemente apedrejado por militantes kirchneristas enquanto o jornalista participava ao ar livre de um debate sobre liberdade de imprensa na Universidade de Palermo.
Ao longo do ano passado o governo tentou culpar o “Clarín” e o “La Nación” de terem realizado em 1976 uma compra irregular, por intermédio de torturas, durante a ditadura, da “Papel Prensa”. No entanto, nada foi comprovado até o momento.
Um breve interlúdio musical com o argentino-israelense Daniel Barenboim e a Filarmônica de Berlim. Barenboim rege um clássico das milongas argentinas: “Taquito Militar”. Na sequência, a rocambolesca história da Papel Prensa.
A PECULIAR HISTÓRIA DA PAPEL PRENSA
David Graiver, banqueiro de Perón que financiava militares de direita e guerrilheiros de esquerda, morreu misteriosamente no México.
Em 1969 Papel Prensa foi criada por decreto do general Juan Carlos Onganía. Em 1972, quando governava o general Alejandro Lanusse, a empresa foi entregue a Cesar Augusto Civita e à Editora Abril. Em 1973, durante o governo de Juan Domingo Perón, o ministro da Economia, José Ber Gelbard, forçou a venda ao banqueiro David Gravier, aliado do governo peronista. Além desta aliança com Perón o banqueiro também tinha intrincadas relações financeiras com os militares e com o grupo guerrilheiro Montoneros.
Em 1975 os guerrilheiros entregaram a Graiver US$ 17 milhões de um total de US$ 60 milhões obtidos com sequestro dos irmãos Born (os principais milionários da Argentina na época) para que o banqueiro os investisse.
Em 1976 os militares derrubaram o governo de Isabelita Perón. Graiver morreu em agosto de 1976 em estranho acidente de avião no México. Seus bancos na Europa e EUA faliram. Nessa conjuntura complicada, seus herdeiros venderam as ações da Papel Prensa no dia 2 de novembro daquele ano. Um mês depois, os Montoneros pressionaram a víuva para que entregasse o dinheiro que seu falecido marido havia administrado para a guerrilha, ameaçando-a jogar pela janela de seu edifício.
Seis meses depois Papaleo e seu cunhado, Isidoro Graiver, foram detidos pelos militares, acusados de ter o dinheiro do sequestro feito pelos Montoneros. Os militares confiscaram diversos bens da família e torturaram Lídia e Isidoro.
Em 1986 Papaleo prestou depoimento nas investigações realizadas na época sobre crimes da ditadura. Na ocasião afirmou que havia sido detida em março de 1977, meses depois da venda de Papel Prensa. Ela foi indenizada em US$ 84 milhões pelo presidente Raúl Alfonsín pelos confiscos aplicados pelos militares. Na ocasião, Lídia nada reclamou sobre a Papel Prensa.
O surgimento da polêmica sobre Papel Prensa trouxe à tona, além de Lídia Papaleo, seu irmão, Osvaldo, que foi porta-voz em 1975 da então presidente Maria Estela Martinez de Perón, a.k.a. “Isabelita”, viúva de Perón.
Osvaldo Papaleo, que participou abertamente de reuniões políticas com integrantes do kirchnerismo, foi também um dos principais homens de José López Rega, astrólogo e super-ministro da então presidente Isabelita Perón. López Rega criou na época uma força paramilitar de extrema-direita, a “Tríplice A”, com a qual perseguia representantes de partidos da esquerda e da própria ala esquerdista do partido governista, o Justicialista.
OS TIMERMAN - Graiver também havia investido no jornal “La Opinión” e no “La Tarde”, respectivamente de Jacobo Timerman e de Héctor Timerman, pai e filho.
Jacobo, que foi um enfático defensor do golpe de Estado de 1976 (já havia defendido o golpe de 1966, que derrubou o então presidente Arturo Illia), posteriormente foi detido e torturado selvagemente pelos militares, seus ex-aliados. Jacobo foi salvo graças à intervenção pessoal do presidente americano Jimmy Carter.
O filho de Jacobo, Héctor, que também comandou um jornal que respaldou a preparação do golpe militar, transformou-se nos anos 80 em ativista dos direitos humanos. Atualmente é o chanceler do governo Kirchner.
DIFERENTES VERSÕES PARA UMA HISTÓRIA
- Dos jornais Clarín e La Nación
a) Ambas empresas – junto com o já extinto La Razón – afirmam que compraram as ações da família Graiver-Papaleo em novembro de 1976. As torturas, nas quais indicam que não tiveram participação, só começaram em março de 1977.
b) Além disso, o jornal “La Nación” publicou em 2010 uma denúncia feita pelo presidente da diretoria do próprio periódico portenho, Julio Saguier, que indica que Lidia Papaleo de Graiver, a viúva de David Graiver – o falecido dono da empresa Papel Prensa – teria negociado com a presidente Cristina Kirchner e seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner um pagamento para contar outra versão da História sobre a venda em 1976 da companhia, a única produtora de papel de jornal da Argentina.
Saguier afirma que reuniu-se em maio deste ano com Papaleo para um café no elegante Hotel Alvear. Na ocasião, o governo Kirchner já havia deslanchado o confronto com o “Clarín” e o “La Nación” por causa da Papel Prensa. Papaleo aceitou conversar com Saguier por agradecimento à boa relação que teve com seu pai, Julio César Saguier, primeiro prefeito de Buenos Aires com a volta da democracia, em 1983.
Papaleo, nessa conversa, teria confessado a Saguier que os Kirchners lhe ofereceram US$ 200 mil de entrada, caso confirmasse a versão do casal presidencial sobre o caso de Papel Prensa. Mas, na hipótese de que a “operação fosse coroada com sucesso” contra ambos jornais, receberia outros US$ 2 milhões.
Papel Prensa era comandada em meados dos anos 70 pelo banqueiro David Graiver. Mas, com a misteriosa morte deste, em agosto de 1976, em um acidente de avião no norte do México, as ações passaram para sua viúva Lídia, que era psicóloga e mãe da filha de ambos, María Sol Graiver. Em novembro daquele ano, em meio a problemas financeiros provocados pela falência dos bancos do falecido marido, Papaleo vendeu as ações aos jornais “Clarín”, “La Nación” e o “La Razón” (posteriormente extinto).
Na conversa com Saguier a viúva admitiu que precisava do dinheiro oferecido pelos Kirchners, já que sua fortuna havia ficado com sua filha María Sol, com a qual não conversa há anos. Papaleo teria dito a Saguier que o acordo com os Kirchners foi pactuado após três reuniões. Para evitar a filtragem de informações sobre esses encontros realizados na residência presidencialde Olivos, o deputado Carlos Kunkel, amigo de juventude dos Kirchners e um de seus principais homens no Parlamento, levou Papaleo pessoalmente em seu carro.
- Do governo Kirchner
Meses atrás o governo afirmou que Lidia Papaleo foi torturada em novembro de 1976, ocasião na qual foi forçada a vender as ações da empresa.
Depois, perante a polêmica, o governo emitiu uma segunda versão, na qual sustentava que os membros da família Graiver-Papaleo viviam em uma “liberdade ambulatória” e que haviam sido levados à força para a assinatura da venda das ações.
- Da viúva Papaleo (quatro versões diferentes)
a) Na segunda metade dos anos 80 declarou perante a Justiça – durante o julgamento das juntas militares – que havia sido torturada em março-abril de 1977 porque os militares suspeitavam que ela tinha dinheiro da guerrilha Montoneros. Na ocasião, Papaleo não vinculou suas torturas com a venda de Papel Prensa.
b) Nos últimos meses sustentou que foi intimidada e posteriormente detida e torturada para vender as ações de Papel Prensa.
c) Perante a Justiça em La Plata afirmou que enquanto esteve detida pelos militares não saiu da prisão para assinar a venda das ações de Papel Prensa.
d) A mais recente versão é a da conversa com Saguier, na qual teria admitido que receberia dinheiro para inventar um relato favorável às intenções dos Kirchneres.
- De Isidoro Graiver, irmão do falecido David Graiver, torturado no mesmo centro de detenção de Lidia Papaleo
A venda das ações foi em novembro de 1976; prisão e torturas ocorreram em março e abril de 1977. Segundo Isidoro, não há vínculos entre os dois jornais e as torturas contra a família.
- De Gustavo Caraballo, ex-embaixador do governo de Juan Domingo Perón na Unesco
Caraballo afirma que foi torturado junto com Lídia Papaleo de Graiver em 1977, confirmou que as sessões de tortura ocorreram vários meses depois da operação de venda
Presidente argentina tenta conseguir controle da mídia, tal como fundador do peronismo fez há 60 anos. Na foto, Perón abraça o ditador e general paraguaio Alfredo Stroessner.
NA GUERRA CONTRA A IMPRENSA, CRISTINA SEGUE OS PASSOS DE PERÓN
Poucos meses antes de morrer em 1974, o presidente Juan Domingo Perón admitiu: “fui colocado para fora do governo quando tinha todos os meios de comunicação a favor…e ganhei as eleições quanto os tinha todos contra mim!”. Perón referia-se à sua queda, em 1955, época em que ostentava um controle sem precedentes da maioria dos meios de comunicação, e de sua vitoriosa eleição, em 1974, quando a mídia era majoritariamente contra o septuagenário caudilho.
A presidente Cristina Kirchner, afirmam analistas e representantes da oposição, em vez de comportar-se como o Perón dos últimos anos, reprisam a ambição de controle dos meios de comunicação que o caudilho exercia nos anos 40 e 50.
Um dos sinais mais evidentes foi a aprovação – em 2009 – da polêmica lei de radiodifusão – também denominada de “lei de mídia” – que determina maior controle da mídia por parte do governo.
Da mesma forma que os Kirchners tentam atualmente destruir o poder do Grupo Clarín, o maior holding multimídia argentino, Perón e sua esposa Eva colocaram uma série de restrições à mídia privada e armaram uma super-estrutura de meios de comunicação estatais, além de redes privadas de empresários “amigáveis”.
DEFENSIVA E OFENSIVA - Segundo o historiador Eduardo Lazzari, Perón inicialmente tentava defender-se dos ataques da oposição. Mas, logo depois percebeu que a defesa não era suficiente e fechou jornais como “La Prensa”, entregue a sindicalistas fiéis.
Nos dois primeiros governos de Perón (1946-55), grande parte dos donos de meios de comunicação foram pressionados a vender seus jornais, revistas e estações de rádio. Em alguns casos, se os empresários mostrassem obediência, podiam ser designados como diretores de suas ex-empresas, agora estatizadas, de forma a camuflar a compra compulsória realizada pelo governo.
O modus operandi era o de destinar os fundos necessários para essas compras eram provenientes do Instituto Argentina para o Estímulo ao Intercâmbio (Iapi), comandado por Miguel Miranda, um gênio da contabilidade criativa.
MÍDIA ALIADA - O governo peronista contava com um quarteto de redes de comunicação. Além do colossal monopólio estatal, o Alea SA, tinha o respaldo de três grupos nominalmente privados: a editora Heynes, a Associação Promotores de Teleradiodifusão e a editora La Razón, que editava o influente jornal homônimo.
Tal como o governo da presidente Cristina Kirchner fez com o jornal “Clarín” em 2009 ao realizar uma blitz de insólitas proporções da Afip (a receita federal argentina) – as companhias jornalísticas que resistiam ao assédio de Perón eram pressionadas com o Fisco.
O braço inquisidor do governo peronista era a Comissão Bicameral de Atividades Argentinas, comandada pelo ultra-peronista deputado Emilio Visca, que vasculhava os livros de contabilidade dos jornais não alinhados com Perón para ter argumentos para seu fechamento, confisco ou intervenção.
Capas do La Prensa quando havia sido confiscada pelo governo de Perón. Manchetes mostram alinhamento ostensivo com Perón, que havia ficado viúvo (pela segunda vez) com a morte de Eva Perón.
LA PRENSA - Esse foi o caso de “La Prensa”, jornal da aristocrática família Paz – definido pela revista americana “Time” como um dos mais respeitados periódicos do mundo na época – e detestado por Evita Perón, a primeira-dama. O “La Prensa”, cuja tiragem era de 480 mil exemplares, tornou-se alvo de uma campanha do governo a partir de 1947.
O “La Prensa” foi atacado pelas rádios aliadas do governo e enfrentou uma campanha oficial que promovia o boicote da compra de seus exemplares. Os anunciantes eram pressionados para não colocar publicidade nas páginas do “La Prensa”. O racionamento de papel encolheu o jornal das 40 páginas costumeiras a apenas 12. Mas, o jornal, apesar das pressões, continuava saindo às ruas.
Em 1950, o governo confiscou as novas rotativas importadas e as destinou para o “Democracia”, jornal editado pelo próprio Estado argentino. Em 1951 o sindicato dos jornaleiros ameaçou não distribuir mais o periódico.
Na sequência, com a aprovação do Parlamento – no qual o peronismo era maioria – foi confiscado e entregue à Confederação Geral do Trabalho (CGT), a única central sindical autorizada por Perón. O líder do bloco peronista na Câmara, John William Cooke, afirmou que o governo estava contra “La Prensa” porque, segundo ele, o jornal “estava contra os operários e contra os peronistas”.
Outros jornais, como “La Nación” – que já enfrentava o racionamento de papel de jornal, controlado pelo governo – tiveram que moderar suas críticas ao presidente Perón, para evitar correr destino similar ao “La Prensa”.
Com a queda de Perón em 1955, o “La Prensa” voltou às mãos de seus donos originais. No entanto, o jornal nunca mais foi o mesmo, já que durante a intervenção iniciou uma fase de decadência que foi aproveitada por um períodico que começava seus primeiros passos, o “Clarín”, a atual fonte de irritação para o casal Kirchner.
Modelo francesa da década de 1920 posa com vestido feito de papel-jornal.
“Tranqüilo, viejo, tranqüilo”, com Tita Merello:
“Se dice de mi”, também com Tita Merello:
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
Cristina Kirchner, Hugo Moyano e Eva Perón. Foto dos tempos em que os dois vivos (isto é, os dois primeiros citados) eram aliados incondicionais.
O secretário-geral da Confederação do Trabalho (CGT), o caminhoneiro Hugo Moyano, fará uma demonstração de força sindical nesta quinta-feira, quando pretende reunir mais de 80 mil militantes no portenho estádio de Huracán. Moyano, ex-aliado incondicional do governo de Cristina Kirchner, atualmente em rota de colisão com a presidente, exigirá ao governo a concessão de mais subsídios às famílias pobres com filhos. Ele também pedirá a aprovação no Parlamento do projeto de lei elaborado pela CGT que determina distribuição de lucros das empresas entre os trabalhadores.
O projeto, criticado pelo empresariado, era respaldado pelo governo no início do ano, mas a administração Kirchner não contava com maioria no Parlamento. Após as eleições de outubro, a presidente Cristina passou a ter maioria na Câmara e no Senado. No entanto, há poucos dias a presidente Cristina deixou claro que não apoiaria mais essa iniciativa da CGT.
A relação entre a CGT e Cristina ficou mais tensa a partir da cerimônia de posse, neste fim de semana, quando a presidente - em uma crítica inédita a Juan Domingo Perón, fundador do Peronismo (o partido de Cristina) - afirmou que nos tempos de Perón não havia direito à greve, e que portanto, nenhum sindicalista poderia usar a imagem de Perón contra o governo Kirchner.
“Hoje em dia existe direito de greve, mas não de chantagem e de extorsão”, disse Cristina, em alusão direta ao caminhoneiro.
Horas depois, Moyano retrucou: “a presidente está mal-assessorada”.
“A relação do governo com a CGT atravessa um momento difícil”, admitiu nesta segunda-feira Juan Carlos Schmidt, um dos braços direitos de Moyano. Em tom de cobrança ao governo, Schmidt argumentou que Moyano serviu de cabo eleitoral para o governo durante a campanha presidencial: “estivemos ao lado do governo em diversos momentos complicados para sustentar este projeto nacional e popular”.
No entanto, o sindicalista tentou colocar panos quentes sobre a polêmica gerada pela ausência do líder da CGT na posse presidencial da reeleita Cristina Kirchner no sábado: “institucionalmente, a CGT estava representada”.
Diversos setores sindicais afirmam que Cristina, neste segundo mandato, fará “La Gran Menem” (A Grande Menem), isto é, uma guinada para a direita, afastando-se dos sindicatos.
A CGT foi tradicional aliada de todos os governos peronistas, inclusive com cargos nos ministérios e estatais. Esta é a segunda vez em mais de seis décadas que a central sindical entra em rota de colisão com um governo peronista.
PODER - Moyano, o principal respaldo do governo na área social desde os tempos do ex-presidente Nestor Kirchner, está melindrado com Cristina desde o segundo trimestre deste ano, quando ela recusou-se, apesar de seus pedidos, a designar um vice-presidente de origem sindical.
A presidente tampouco concedeu espaço à CGT na lista de candidatos a deputado nas recentes eleições presidenciais e parlamentares. Cristina somente ofereceu um lugar ao filho de Moyano, Facundo, que foi eleito.
O clã Moyano, no entanto, reclama e recorda que no último governo de Juan Domingo Perón os deputados sindicalistas representavam um terço do total dos peronistas no Congresso Nacional.
O melindre ficou evidente na festa da reeleição de Cristina, quando Moyano optou por não comparecer às celebrações. Simultaneamente o governo fez acenos a sindicalistas rivais de Moyano, que pretendem removê-lo do cargo em 2012.
Nos dois primeiros governos do general J.D.Perón não havia direito à greve, disse Cristina Kirchner, em recado direto à CGT. Na foto acima, do início de 1974 (terceiro governo de “El Conductor”), Perón cumprimenta com um sorriso o general e ditador chileno A.R.Pinochet.
TELEFONEMA - Desde a morte do ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) a relação entre a presidente Cristina e Moyano foi marcada pela crescente tensão. Rumores no âmbito político indicam que a presidente coloca no caminhoneiro parte da culpa da morte do marido, já que na noite anterior ao enfarte fulminante que matou Kirchner, o líder da CGT e o ex-presidente mantiveram uma violenta discussão por telefone.
DETALHES - Mais detalhes sobre Moyano e sua relação com o governo, nesta postagem de meses atrás, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
Um sinistro “halloween” que durou vários anos: López Rega, El Brujo (O Bruxo) ao lado de Juan Domingo Perón e Maria Estela “Isabelita” Martínez de Perón. Perón voltou do exílio e governo de 19873 a 1974. Isabelita, que era a vice, assumiu e governou até 1976. López Rega foi o Rasputin argentino na maior parte desse período.
“A História não existe. Somente existem biografias”, disse uma vez Winston Churchill. A frase poderia aplicar-se a um astrólogo que, para a surpresa de todos, modificou os rumos da História argentina: José López Rega, aliás, “El Brujo” (O Bruxo), defunto há 22 anos.
Conhecido como “o Rasputin argentino”, durante grande parte de sua vida López Rega não passou de um obscuro cabo da polícia federal nascido em 1919 cuja única glória pessoal era a de ter sido um ocasional guarda-costas do presidente Juan Domingo Perón em 1951. Anos depois, tentou a sorte como cantor, sem sucesso.
Nos anos 60 mudou de ramo e passou para a astrologia. Ele vivia da publicação de um almanaque que misturava predições com os telefones dos bombeiros e hospitais. Além disso, escrevia livros onde misturava maçonaria com umbanda. Suas obras costumavam permanecer encalhados nas livrarias.
Um dia de 1965 descobriu que María Estela “Isabelita” Martínez de Perón, uma ex-bailarina argentina de cabaré no Panamá, que era a nova esposa do fundador do peronismo, estava em Buenos Aires. Isabelita precisava um grupo de guarda-costas. Seu marido havia ficado em Madri, onde estava exilado.
López Rega procurou Isabelita e a convenceu que seria não somente um excelente guarda-costas, mas também seu secretário pessoal. Rapidamente, também tornou-se no chefe espiritual de Isabelita. Esta, ao voltar a Madri, levou seu “guru” com ela.
Isabelita, que havia sido criada por um padrasto com delírios místicos seguia fervorosamente todas as indicações de López Rega. Em Madri, ele transformou-se na pessoa que controlava o acesso ao líder do peronismo, que embora esclerosado, comandava o maior movimento de massas da América do Sul e planejava seu retorno à Argentina.
“El Brujo” acabou sendo imprescindível para o casal Perón nos seguintes dez anos. Ele impregnou a casa do casal com uma vida onde as cerimônias secretas comandavam suas decisões. Em uma delas, deitou Isabelita em cima do caixão de Evita, a mítica segunda esposa do general. A intenção era que Isabelita (a terceira esposa) “absorvesse” o carismático espírito de Evita.
“Comentava-se que eram amantes”, me disse anos atrás o escritor Tomás Eloy Martínez, que entrevistou Perón em Madri durante seu exílio e viu de perto a influência de López Rega na residência do septuagenário caudilho. “Mas isso nunca aconteceu. Se López Rega tivesse misturado sexo com a política, teria perdido parte de sua influência com Isabelita, que era absolutamente frígida, e desinteressada do sexo”. Além disso, sustentou Martínez, “Perón não teria aceito jamais a suspeita de ser cornudo”.
Em 1973, pressionado nas ruas pela população, pelos sindicatos e os partidos políticos, o regime militar do general Alejandro Lanusse, convocou eleições. Nas urnas venceu o candidato de Perón, Héctor Cámpora. Desde Madri, Perón impôs que seu secretário pessoal e astrólogo fosse ministro.
Eles usam black-tie. O casal Perón com seu mordomo, ministro e astrólogo José “El Brujo” López Rega.
VOLTA PARA BUENOS AIRES - López Rega havia preparado bem seu desembarque no poder: casou sua filha Norma com Raúl Lastiri, um político desconhecido, a quem Perón indicou para a presidência da Câmara de Deputados.
Poucos meses depois, após suspender o exílio de Perón, ”El Brujo” articulou a renúncia de Cámpora e seu vice e enviou o presidente do Senado à uma viagem pela África.
Desta forma, Lastiri tornou-se o primeiro na linha de sucessão. No posto de presidente interino, o genro de López Rega que convocou os argentinos às urnas, mais uma vez. Nestas novas eleições foi eleito o próprio Perón.
Em pouco tempo, “El Brujo” havia deixado de ser um simples guarda-costas. Ele havia passado a ser o onipotente ministro do Bem-Estar Social e a eminência parda do governo.
Simultaneamente, López Rega, integrante da Logia Propaganda Due, mais conhecida como P2, começou a introduzir Licio Gelli, líder da poderosa organização, nos círculos do poder peronista em Buenos Aires. Gelli também tinha conexões intensas com a CIA.
Perón aproximava-se da morte. O poder de “El Brujo” crescia. López Rega não tinha pudor de afirmar aos ministros do gabinete que “Isabelita não existe. É uma criação minha”.
No dia 1 de julho de 1974 Perón teve um ataque cardíaco e morreu. Minutos depois, o médico do general, Jorge Taiana e o ministro da Economia, José Gelbard, viram como López Rega anunciava que ressuscitaria “mi General”. Depois de uma série de gestos “mágicos”, começou a puxar Perón pelos pés, gritando “acorda faraó! Durante cinco mil anos te mantive vivo, e agora tens que despertar”. Após meia hora fazendo passes mágicos, desistiu, alegando que “não havia ambiente para a concentração”.
As picaretagens de López Rega inspiraram Janete Clair para criar o personagem Herculano Quintanilha, figura central da novela “O Astro”, de 1978. Acima, fotograma que mostra Quintanilha vestido ad hoc para interpretar o “bruxo” da novela das oito.
A partir daí, o poder de “El Brujo” cresceu mais: ordenou a depuração dos ministérios, e expandiu a atuação da Tríplice A, organização paramilitar criada por ele que perseguia e matava os integrantes da esquerda peronista. Tornaram-se frequentes os sequestros de políticos e sindicalistas à plena luz do dia. Ao mesmo tempo, estabelecia fortes vínculos com o governo líbio do coronel Muamar Kadafi, que havia tomado o poder apenas 6 anos antes.
Calcula-se que entre 1973 e 1975 a Triplice A foi responsável pela morte confirmada de 418 pessoas, além de ter inaugurado o “desaparecimento” de outras 500 como forma de repressão, modus operandi que seria ampliado pela posterior Ditadura Militar (1976-83). Acreditando que tinha uma missão divina, o próprio “Brujo” definia quem seria assassinado. A Triplice A cometeu mais de 1.500 atos terroristas entre 1973 e 1976.
Nesse intervalo, quis convencer o resto dos argentinos à uma vida mais mística, e ordenou que no elegante Parque Thays fosse erguida uma estranha construção, que o sarcasmo portenho batizou de “o ovo de Ciro”, pois López Rega dizia que dentro do prédio oval havia uma ruína do imperador persa que energizaria o país.
“El Brujo” também recuperou o projeto do “Descamisado” (um “anabolizado” monumento originalmente projetado para servir de mausoléu somente para Evita) e reconfigurou o monumento, que seria um mega-mausoléu em pleno centro portenho para enterrrar Perón e Evita. A obra seria chamada de “O Altar da Pátria”.
López Rega acreditava que o corpo de Evita emanava poderes esotéricos. Ele pretendia inaugurar o monumento com caravanas que iriam, de todas as partes da Argentina em direção à Buenos Aires,levando os corpos de outros heróis da História argentina.
Estes heróis, enterrados em cemitérios em várias partes do país, seriam transferidos para o mega-panteão onde passariam por um novo funeral.
Colocados ao redor do corpo de Evita, segundo López Rega, serviriam para criar um centro-cemitério energético nacional. Diversos historiadores consideram que o próprio López Rega ambicionava um dia ser enterrado ali também (o mega-mausoléu nunca foi concluído).
No entanto, seu reinado pleno, apesar de intenso, durou pouco: um ano depois, no 27 de junho de 1975, a Confederação Geral do Trabalho (CGT) organizou uma mega-manifestação onde pediu sua renúncia. O próprio setor militar desarmou o perigoso exército paralelo de “El Brujo” (e absorveu vários de seus “técnicos”).
López Rega havia feito bons negócios com Kadafi, o qual visitou na Líbia. Acima, Kadafi, aposentado compulsoriamente da profissão de ditador recentemente (e pouco depois enviado para uma visita a Caronte), ao lado de El Brujo, ex-cantor e ministro de Perón. Abaixo, revista publicada pelo partido peronista que elogiava a aliança Argentina-Líbia na primeira metade dos 70. Kadafi, que sabia como lidar com gregos e troianos, havia também treinado integrantes da guerrilha Montonera. Ao mesmo tempo, forneceu armas a López Rega para liquidar a guerrilha.
FUGA, KADAFI, CIRURGIAS E PRISÃO - No dia 11 de julho López Rega renunciou. No dia 18 partiu no avião presidencial com o cargo de “representante pessoal” de Isabelita.
Poucos dias depois, desapareceu em Madri. Na Argentina os rumores sobre seu destino eram variados: estaria na Líbia, sob a proteção de Muamar Kadafi ou que estaria nos EUA, graças à CIA. Falava-se que poderia ter feito uma cirurgia plástica (sobre a relação Kadafi-López Rega é interessante destacar que em janeiro de 1974 El Brujo visitou o líbio em Trípoli, com o qual fechou um acordo oficial de troca de petróleo por produtos agrícolas…mas, investigações realizadas poucos anos depois indicaram que López Rega, além de ter recebido comissões adicionais entre US$ 3 milhões e US$ 10 milhões recebeu de Kadafi um carregamento de armas que foram usadas pela Tríplice A. Essas armas posteriormente foram descobertas no arsenal do Ministério de Ação Social. Os guarda-costas de López Rega também receberam treinamento dos assessores do líder líbio).
Em 1983 a polícia argentina descobriu que López Rega estava em Genebra, mas quando a Interpol chegou, “El Brujo” já havia desaparecido. Dali foi para as Bahamas; mais tarde, para Miami. Em março de 1986, foi detido pelo FBI. Extraditado e levado para a Argentina, López Rega começou a sentir os efeitos da diabete, que o deixou quase cego. No hospital, “El Brujo” negava-se a receber transfusões, paranóico de ser assassinado com sangue envenenado.
Três semanas depois da eleição que levaria Carlos Menem à presidência do país, no dia 9 de junho de 1989, López Rega morreu de um enfisema pulmonar, sem chegar a ser condenado pela Justiça.
Ao contrário do que havia tentado fazer com Perón, ninguém tentou revivê-lo. No meio de uma hiperinflação de 4.700% ao mês, e com a iminente passagem do poder do presidente Raúl Alfonsín para Carlos Menem, seu falecimento passou praticamente desapercebido.
Vinte e dois anos após sua morte, e quase trinta e sete de sua queda do governo, já nada resta de sua estrutura de poder: a maior parte de seus colaboradores integraram a repressão durante a Ditadura, e hoje são rechaçados pela maioria da sociedade. Outros conseguiram camuflar relativamente bem seu passado e continuaram operando dentro do peronismo, até os dias de hoje, inclusive, com presença eventual na Casa Rosada.
A filha de “El Brujo”, Norma, ficou viúva de Lastiri e casou-se duas vezes. Em 1997, pediu ao governo uma indenização similar à recebida pelas pessoas que estiveram presas pela Ditadura (US$ 225 mil), alegando que seu pai havia sido “perseguido” pelo regime militar. O pedido virou motivo de piada, e a Justiça o rechaçou.
O feiticeiro mais tristemente conhecido do país quase transformou-se em uma estrela da Broadway quando, depois do sucesso do musical “Evita” de Andrew Lloy Weber, o compositor norte-americano Christopher Moore fuçou no nicho de mercado da História argentina e decidiu em 1999 realizar “Isabelita, The Last Perón” (Isabelita, a última Perón). Na obra, além do fantasma de Evita, López Rega seria um dos principais personagens. Mas o projeto, que até recebeu na época uma proposta para levar a obra ao cinema ficou engavetado.
Nada a ver com El Brujo López Rega, acima a imagem de Juan Sebastián “La Brujita” (A Bruxinha) Verón.
CURIOSIDADE - Poucos anos depois de sua fuga a figura de López Rega inspirou Janete Clair parcialmente para o personagem Herculano Quintanilha, da novela “O Astro”, que era um picareta que dizia que era astrólogo, e que no último capítulo foge do Brasil e vai para uma república bananeira na América Central. Ali transforma-se no astrólogo de um ditador de cabelo tingido de preto como as asas da graúna (tal como Perón fazia na velhice).
E já que estamos em ritmo de Halloween, “Danse macabre”, de Camille Saint-Saëns, aqui.
E a mesma melodia de nosso querido francês com um clip que evoca Tim Burton. Aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
O caudilho que virou videogame: Tal como Godzilla, que não pede licença para passar, um robótico Juan Domingo Perón arrasa a capital japonesa.
Na “Peronósfera” (o mundo peronista na web) já é possível jogar com o próprio defunto general e presidente Juan Domingo Perón (1946-55 e 1973-74) em diversos games online. Um dos jogos é o “Rise and fall of Mecha-Perón” (Ascenção e queda de Mecha-Perón) que obteve o primeiro lugar em um peculiar concurso – o “Codear” - organizado pela Associação de Desenvolvedores de Videogames da Argentina. O concurso tinha como premissa inventar jogos informáticos nos quais Perón fosse o personagem central.
A trama do jogo é esta: cientistas malucos japoneses construíram um robô gigante em 1945, logo após perder a guerra. E, aproveitaram que Perón estava despontando na distante América do Sul e decidiram que o robô teria sua cara, em sua homenagem.
Mas, a IA (inteligência artificial) do mega-autômata descontrolou-se. E este gigantesco Perón metálico começou a destruir a capital japonesa.
Tal como Godzila costumava flanear pelas ruas da capital do Império do Sol, Perón – neste game – caminha por Tókio arrasando tudo, enquanto diz “justiça social, justiça social” e “companheiro, companheiro”.
Godzilla lançava raios pela boca (além de fogo, dependendo da versão). Este Perón desfere seus mortíferos raios-laser oculares. Aqui, dispara o laser contra um caça-bombardeiro nipônico.
Perón (o robô, evidentemente) conta com poderosos raios-laser que saem de seus olhos calcinando caças da aeronáutica nipônica, além de um “punho ejetável” com o qual destrói edifícios completos.
Os criadores destacaram que o jogo foi criado no final de 2010, meses antes do tsunami que arrasou o norte do Japão em março passado.
“O conceito do jogo apela ao absurdo. Achamos divertido que Perón fosse um robô. Mas, na realidade, não há intenção política”, sustenta um dos criadores, Nicolas Viegas Palermo.
O fundo musical é um remix metal da marcha “Los muchachos peronistas”.
Para brincar com o general, clique aqui.
Gorilas, Perón e Evita. E os choripanes.
O jogo que obteve o segundo lugar foi “Evita e Perón contra os gorilas”. Este jogo online mostra um Perón zumbi descendo de um ônibus na frente de um lugar onde “gorilas” (gíria para denominar os anti-peronistas furibundos) escravizam camponeses (a representação dos gorilas é tal como se fossem os símios citados, embora com cartolas para indicar sua condição “oligarca”).
Neste game, Perón deve resgatar os trabalhadores, colocá-los no ônibus onde haverá “choripán” (o sanduíche popular distribuído pelos políticos a granel nas manifestações) e um refresco e leva-los à Praça de Mayo, centro principal das marchas peronistas. Evita aparece quando tudo dá certo.
Os autores destacaram que o game ironiza tanto os anti-peronistas como os próprios peronistas e suas práticas políticas.
Para jogar o “Evita e Perón contra os gorilas”, clique aqui.
Um link para um vídeo explicativo, aqui.
Cartaz do “Codear”, o concurso que reúne games inspirados nas figuras do peronismo. Na ilustração, Perón e Evita jogam na frente da tela.
E neste outro link, uma postagem deste blog sobre o emblemático “choripán”. Aqui.
Outro jogo é o “Pêndulo Peronauta”, no qual o internauta deve jogar com as idas e vindas de Perón entre operários, burocratas, empresários e operários,. Perón oscilou, ao longo da carreira, entre medidas conservadores e medidas revolucionárias.
Perón costumava explicar a seus ministros e parlamentares como lidar com os vários setores internos do partido (muitas vezes, antagônicos): “a arte de governar é como dirigir um carro: dê o pisca-pisca para a esquerda…mas vire o volante para a direita”.
Para jogar o “Pêndulo”, o link do jogo, aqui.
Durante o concurso, os militantes peronistas presentes (a maioria) encararam os games com humor.
Um link com a marcha Los Muchachos Peronistas interpretada por Hugo del Carril, cantor de tango que também foi ator nos anos 40 e 50. Aqui.
Uma segunda versão, levemente modificada no arranjo. Aqui.
PARA O HAPPY HOUR: Neste link, a marcha peronista em ritmo de jazz. Aqui.
E falando em Godzilla (ゴジラ,, cuja pronúncia pra valer é Gojira), que é um daikaijū (大怪獣, isto é, “grande monstro”), o link para o blog da brilhante colega Heloísa Lupinacci, que juntou um Godzilla argentino e um pato em seu banheiro, aqui (vale a pena ver o resto do blog).
E junto com isso, um breve clip com imagens do Godzilla original, aqui.
Na versão cinematográfica americana de 1998 do filme “Godzilla”, o emblemático Jean Reno (que contracena com Mathew Broderick) é um militar francês que – incógnito – está na Nova York que está sendo arrebentada pelo monstro asiático (ou da Oceania, segundo este filme).
Uma das melhores cenas é quando Jean Reno, que interpreta o oficial francês Philippe Roache, está em seu esconderijo, junto com outros militares franceses de seu comando especial. Um dos ajudantes-de-campo volta da rua, onde havia ido para buscar croissants e café.
Jean Reno pega um donut que o ajudante lhe entrega. “No croissant?”, pergunta em inglês. Então, dá uma bebericada na caneca de café e faz cara de nojo ao sentir o sabor.
O diálogo brevíssimo a seguir é este:
Jean Reno: Você chama isto de café??
Ajudante: Eu chamo isto de América!
E falando em café… e em Perón, uma postagem sobre os lugares onde Perón virou café (na ilustração, o general, com seu sorriso de Kolynos, tal como diziam na época, beberica um cafezinho), aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. O colosso do Rio da Prata: assim teria sido “El Descamisado”, mega-monumento cancelado em 1955 na primeira vez e em 1976 na segunda (nesta, havia mutado levemente, e seria chamado de “Altar da Pátria”). O presidente Juan Domingo Perón queria construir esse monumento para servir de mausoléu para sua segunda esposa, Evita. Nesta terça-feira comemoram-se os 59 anos da morte da ”mãe dos pobres”. Se estivesse viva, Eva Perón teria atualmente 92 anos.
uarenta e cinco metros mais alto que a Estátua da Liberdade, três vezes maior que o Cristo Redentor. Assim teria sido “El Descamisado”, um anabolizado funéreo monumento que contaria com um total de137 metrosde altura, divididos entre 70 metros da colossal base e 67 metros da estátua que representaria um operário peronista.
Seria uma espécie de “Colosso de Rodes” que em vez de estar à beira do mar Egeu, seria instalado à beira do Rio da Prata. Seu objetivo, que variou ao longo de anos de projetos e idas e vindas, foi o de homenagear com o mais alto monumento do planeta a figura de Eva Perón, esposa dogeneral JuanDomingo Perón, chamada popularmente de “Evita” e reverenciada como a “mãe dos pobres” ou a “Porta-estandarte dos humildes”.
A ideia era não somente homenagear Evita, mas também ser o lugar de descanso de seu sarcófago, feito com 400 quilos de prata.
Seria um misto de pirâmide de Quéops com altura quase equivalente à Catedral de Notre Dame. Tudo isso com um look característico das esculturas fascistas na moda na Europa dos anos 30 e 40.
No entanto, todos os verbos relativos ao “Descamisado” ficaram no condicional. Este monumento começou a ser construído mas nunca passou de suas bases de concreto no bairro da Recoleta, em Buenos Aires.
Vídeo que mostra o projeto do monumental “El Descamisado”. Aqui.
PLANO INICIAL – Tudo começou quando Eva Perón voltou de sua viagem à Europa, onde – em Paris – havia visto o túmulo de Napoleão Bonaparte, no Les Invalides.
“Deverá ser o maior (monumento) do mundo! Terá que ter, como ponto culminante, a figura do Descamisado. E nesse monumento faremos o museu do Peronismo. Ali haverá uma cripta na qual descansarão os restos mortais de um descamisado autêntico, daqueles que caíram nas primeiras jornadas da revolução. E ali também espero descansar quando morrer”. Estas palavras, de Evita, foram dirigidas a Leon Tommasi, escultor italiano que estava instalado na Argentina.
Evita, com este monumento, pretendia homenagear o dia 17 de outubro de 1945, a data peronista por excelência. Nesse dia uma multidão de operários foi à Praça de Mayo dar os vivas a Perón, na época secretário do Trabalho, e pedir sua liberação (o popular coronel havia sido detido pelo regime militar que governava o país – e do qual Perón fazia parte – por medo de seu crescente poder e influência sobre as massas).
Evita ressaltou que a entrada ao grande salão deveria ser baixa, para que a elite, quando ali entrasse, tivesse que baixar a cabeça.
Na época Tommasi estava trabalhando no friso greco-romano da Fundação Evita (o prédio construído para a Fundação transformou-se posteriormente na Faculdade de Engenharia, em San Telmo, na avenida Paseo Colón).
Em dezembro de 1951 Tommasi mostrou para Evita a maquete da obra do Descamisado. “É genial porque é grande e simples”, disse a ‘Mãe dos Pobres’, que estava em seus últimos meses de vida, já que estava sendo corroída pelo câncer.
PLANO POSTERIOR - No dia 4 de julho de 1952 o Congresso Nacional aprovou o milionário projeto. Poucos dias depois, no 26 de julho, ela morreu. A partir dali, eternizar Evita – da forma que fosse – começou a ser uma questão de Estado.
Primeiro, Evita foi embalsamada. Mas isso não era suficiente. Os parlamentares peronistas perceberam que o colossal monumento ao Descamisado, inicialmente dedicado ao descamisado desconhecido, teria que transformar-se em um mausoléu dedicado a Evita.
De quebra, o Congresso Nacional determinou que na praça principal de cada província deveria ser instalada uma réplica pequena do monumento ao Descamisado-Evita
O plano foi adaptado e chegou-se à conclusão que o sarcófago de Evita – que seria feitode prata– seria aberto uma vez por ano. Nessa ocasião, o povo poderia ver o corpo embalsamado de Evita, coberto por um vidro.
A estátua do descamisado, no alto do monumento, teria 67 metros de altura e seria coberto de cobre. A estátua mostra um homem com a camisa aberta, em tom de desafio e os punhos fechados e apertados, em uma pose que indica que está alerta. É bastante caucasiano.
No dia 30 de abril de 1955 as imensas bases de cimento estavam colocadas. Perón, em uma cerimônia, deu início à construção da imensa obra.
Vista da paisagem idealizada da instalação do Descamisado, na Recoleta. Do lado esquerdo da foto, o edifício do Automóvil Club, sobre a avenida Libertador. Do lado direito, a faculdade de Direito, sobre a avenida Figueroa Alcorta.
Evita, em imagem idealizada, ostenta o escudo do Partido Peronista
LUGAR – O monumento seria construído em uma parte do Parque Thays entre a avenida Libertador, a avenida Figueroa Alcorta e as ruas Tagle e Libres del Sur.
O lugar escolhido para a instalação do monumento tinha vários motivos. O mais simples, era o de ser uma das poucas áreas livres na área central de Buenos Aires.
Outro fator era o de estar a três quarteirões de distância da residência presidencial, o Palácio Unzué (a residência oficial atual, a quinta de Olivos, só começou a ser usada intensamente pelos presidentes argentinos posteriormente, já que o palácio foi destruído pela ‘Revolução Libertadora’, que derrubou Perón em 1955).
O motivo da destruição do luxuoso palácio, que havia pertencido à uma aristocrática família – os Unzué – era o de evitar que se transformasse em ponto de peregrinação de simpatizantes peronistas, pois essa residência havia sido habitada por Perón e Evita Perón.
Estátua monumental de Evita que foi colocada na frente da Fundação Evita, no Paseo Colón, no bairro de San Telmo. A estátua foi removida em 1955
GOLPE E QUEDA – Em setembro de 1955, os planos de Perón foram interrompidos. O general e presidente, derrubado por militares opositores, teve que fugir para o exílio. Ao voltar, 18 anos depois, Perón estava sendo altamente influenciado por José López Rega, figura que foi definida como “o Rasputin argentino” e que tem a ver com a segunda fase de “El Descamisado”.
Perón saiu formalmente do cenário político pouco depois de voltar à Argentina e ao poder. No dia 1 de julho de 1974,o general e presidente faleceu. Seu lugar seria ocupado por sua vice-presidente (e última esposa), María Estela Martínez de Perón, mais conhecida pelo apelido de “Isabelita”, denominação que usava quando era bailarina de um cabaré no Panamá, onde Perón a viu (mais tarde, tentaria explicar que era integrante de um grupo de danças folclóricas argentinas que estava em tour pela América Central na época em que conheceu o exilado general).
O caixão de prata de Evita. O caríssimo ataúde foi destruído depois da queda de Perón em 1955
ETERNIDADE COMPLICADA – Se existe um casal pode ter a denominação de “dupla dinâmica” na História da Argentina, esse foi o dueto matrimonial composto por Perón e Evita.
Ele era “el primer trabajador” (o primeiro trabalhador) ou “el general”. Ela, a “mãe dos pobres”, “protetora dos descamisados”, ou, simplesmente, no diminutivo “Evita”.
Ela faleceu em 1952. Ele, em 1974. Durante o tempo – breves sete anos – em que estiveram juntos revolucionaram a forma de fazer política neste país.
No entanto, apesar de terem provocado mudanças radicais na Argentina – e uma mitologia que ainda influencia a política atual – os dois maiores mitos do poder neste país repousam separados. Evita está no aristocrático cemitério da Recoleta, enquanto que Perón – que descansava a 40 quarteirões dali, no modesto cemitério da Chacarita, a poucos metros de outro mito popular, Carlos Gardel – agora está em um mausoléu inaugurado há poucos anos na chácara de San Vicente, na Grande Buenos Aires.
Os corpos de Evita e de Perón não tiveram um post-mortem plácido. Evita, a primeira a ir para o além, passou por um rigoroso embalsamamento entre 1952 e 1955. Nesse ano, seu viúvo foi derrubado por um golpe militar de direita.
O corpo de Evita – um troféu – foi seqüestrado pelos militares. Diversos oficiais violaram o corpo embalsamado, a modo de vingança. Depois, decidiram que era melhor escondê-lo longe da Argentina, onde ela era considerada uma “santa” pelos operários. A saída foi enterrá-la em uma igreja em Milão, com um nome falso.
Em 1973, quando estava a ponto de voltar para a Argentina, depois de 18 anos de exílio, Perón fez um acordo com os militares, que devolveram o corpo de Evita.
Mas,o general morreu pouco depois.
Durante dois anos os corpos estiveram repousando em uma sala na residência oficial de Olivos.
José López Rega, um astrólogo conhecido como “El Brujo” (O Bruxo) – e que, de ser o mordomo e secretário do casal Perón no exílio, passou ao cargo de ministro quando voltaram para a Argentina - fazia Isabelita deitava-se em cima do caixão onde estava o corpo de Evita para obter desta os “fluidos energéticos” que lhe proporcionariam o carisma do qual carecia totalmente.
Black-tie: Perón, Isabelita e López Rega.
MAIS UM NOVO PLANO, DE TOM ESOTÉRICO - “El Brujo” recuperou o projeto do “Descamisado” e reconfigurou o monumento, que seria um mega-mausoléu em pleno centro portenho para enterrrar Perón e Evita. A obra seria chamada de “O Altar da Pátria”.
López Rega acreditava que o corpo de Evita emanava poderes esotéricos. Ele pretendia inaugurar o monumento com caravanas que iriam, de todas as partes da Argentina em direção à Buenos Aires, levando os corpos de outros heróis da História argentina.
Estes heróis, enterrados em cemitérios em várias partes do país, seriam transferidos para o mega-panteão onde passariam por um novo funeral.
López Rega tornou-se o “Rasputin” do último governo de Perón. “El Brujo” foi designado ministro da Ação Social, pasta na qual controlava imensos fundos para assistencialismo e respaldar a estrutura da Triple A, organização de extrema-direita que deu o golpe de misericórdia nas instituições argentinas em meados dos anos 70.
Colocados ao redor do corpo de Evita, segundo López Rega, serviriam para criar um centro-cemitério energético nacional. Diversos historiadores consideram que o próprio López Rega ambicionava um dia ser enterrado ali também.
As britadeiras começaram o trabalho (no mesmo lugar onde estava a base de concreto do “Descamisado”). Mas, o golpe militar de 1976 interrompeu as obras. Desta vez, os projetos do mega-monumento foram definitivamente cancelados. O terreno do “Descamisado” agora são parcialmente ocupados por uma escultura metálica, a “Flor”, além do edifício do estatal canal 7, construído pelos militares na época da Copa do Mundo de 1978.
Mas, as atribulações funéreas continuariam…
Evita, como contamos acima, teve um post-mortem turbulento. Mas, em 1977 finalmente foi colocada no aristocrático cemitério da Recoleta, no pequeno mausoléu de sua família. Ali repousa até hoje. Mas, faz mais sucesso com os turistas estrangeiros do que com os próprios visitantes argentinos.
Perón também teve uma posteridade atribulada: em 1987 um grupo desconhecido arrombou a tumba do general e cortou suas mãos. Desta forma, o corpo de Perón permanece com as extremidades decepadas.
De quebra, em 2006, o segundo funeral de Perón terminou em tiroteiro entre grupos de sindicalistas rivais. Todos queriam levar o caixão. Mas, como ocorre com todos os caixões, as alças tem número limitado. Perante esse cenário, integrantes do sindicato dos caminhoneiros, do líder da CGT, Hugo Moyano, e a rival União Operária da Construção Civil (Uocra), protagonizaram a troca de tiros e sessão de pancadaria que acabaram com a cerimônia funerária do fundador do Peronismo. A Guarda dos Granaderos, que acompanhava o cortejo, teve que colocar as pressas o caixão de Perón dentro do mausoléu. O sabre do defunto militar, que ia em cima do féretro, apareceu torto, caído no chão. O quepe do general desapareceu no meio do tumulto e da correria.
Quando o plano do mega-mausoléu para Evita foi apresentado em 1952, estava em plena construção o “Valle de los caídos” – uma espécie de monumento funerário de dimensões ciclópeas ao norte de Madri - onde primeiro foi enterrado José Antonio Primo de Rivera, o fundador da Falange Espanhola, partido fascista desse país. Seu colega ideológico e ditador da Espanha, Francisco Franco, responsável pelo início da Guerra Civil que entre 1936 e 1939 arrasou o país e colocou os espanhóis sob o jugo de um regime que durou até 1975, também foi enterrado ali quando morreu.
O regime de Franco teve o explícito respaldo de Evita e de Perón. Na ilustração acima, Evita discursa ao lado do “generalíssimo” espanhol. Na extrema direita, a esposa do caudilho, Carmen Polo, observa. Na visita que fez à Espanha em 1947, Evita forneceu ajuda financeira e alimentícia que permitiu que o regime franquista sobrevivesse em sua fase mais complicada.
Uma gigantesca Evita observará os costumeiramente anti-peronistas portenhos do alto do ministério da Ação Social. Foto de Ariel Palacios.
ESDE O ALTO, EVITA OBSERVARÁ OS PORTENHOS – A cidadede Buenos Aires sempre foi refratária ao casal Juan Domingo Perón e Evita Perón, e consequentemente, ao próprio peronismo. No entanto, os portenhos terão que conviver com uma dupla imagem monumental de Evita, que “observará” os portenhos desde o alto do edifício do ministério de Ação Social, em pleno centro da capital, no meio da avenida 9 de Julio. A presidente Cristina Kirchner, admiradora de Evita – a quem considera um “exemplo a seguir” – preparava-se nesta terça-feira à noite para inaugurar essa obra com uma cerimônia com toda pompa, que seria acompanhada por uma marcha de organizações sociais que portariam tochas.
A hora escolhida para a cerimônia – 20:25 – tinha um motivo especial, já que foi o momento no qual morreu Evita, há 59 anos.
As duas imagens-mural, feitas em ferro pelo escultor Alejandro Marmo, com assistência do artista plástico Daniel Santoro, decorarão o lado norte e sul do edifício de quase 100 metrosde altura. Cada imagem, que pesa 15 toneladas, tem 31 metrosde altura por 24 de largura.
Do lado sul está a imagem oficial de Evita, imortalizada em quadros, selos do correio argentino e a capa de sua autobiografia “A razão de minha vida” (best-seller nos anos peronistas), que a mostra com seu tradicional coque e joias.
Mas, do lado norte, olhando para o Obelisco, está a imagem de Evita desafiante, bramando no microfone em um discurso, em pose que apresidente Cristina Kirchner gosta de imitar nos comícios. Esta segunda imagem será inagurada no dia 22 de agosto.
O lugar da instalação destas imagens tem motivos de sobra, já que nas portas do ministério, em 1951, Evita fez o maior comício da História da Argentina, no qual reuniu 2 milhões de pessoas. Na ocasião, assolada pelo câncer que a mataria poucos meses depois, anunciou que não poderia ser candidata a vice-presidente de seu marido,o general Perón.
Apesar da elevada simbologia política do mural – que poderá ser visto de várias partes do centro portenho – Marmo e Santoro negam que a obrade magnitude monumental possa transformar-se em uma forma de “realismo estatal peronista”.
alando em defuntos, mais sobre o necrômano assunto em duas postagens dos últimos meses:
Nesta, os mortos bem vivos da política argentina, aqui.
E, nesta outra, o mausoléu de Nestor Kirchner, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
Perón abraça Evita, enquanto seus cabelos platinados voam com o vento (não é a famosa sacada da Casa Rosada). Ícone pop, “Mãe dos pobres” já virou musical, filme, camiseta e caneca. Agora é desenho animado. Em 2D.
“Voltarei e serei milhões” era a apócrifa frase de Evita Perón, supostamente pronunciada poucos minutos antes de sua morte em julho de 1952, provocada por um arrasador câncer. Evita indicava que voltaria da morte como milhões de trabalhadores “descamisados” para tomar o poder. Mas, a famosa – e controvertida – segunda mulher do general e presidente Juan Domingo Perón, constantemente citada como “exemplo a seguir” por parte da presidente Cristina Kirchner, voltará como desenho animado no longa-metragem “Eva da Argentina”, que será dirigido porMaria Seoane, diretora da estatal Rádio Nacional.
A notícia sobre a preparação do filme – que conta com fundos do estatal Banco de La Nación- aparece em plenoperíodo de campanha eleitoral argentina. Em outubro apresidente Cristina, que emula Evita com seus gestos, disputará sua reeleição. Coincidentemente, dias antes será a estreia do filme.
“A obra louva a vida de Evita, defensora dos direitos do trabalhador e das mulheres”, afirmaram os produtores em um comunicado.
Os operários, aos quais Perón chamava de “descamisados”. Décadas depois a mesma expressão seria utilizada por Fernando Collor de Mello.
O filme mostrará a atividade política de Evita de forma romanceada, a relação sentimental com Perón e sua luta contra o câncer. “Este será o primeiro filme de desenhos animados da História política argentina. Nossa proposta é a de plasmar um registro dos seis anos de vida política de Evita, que geraram tantas interpretações”, afirmou Seoane.
O desenho animado em tom de épica terá trilha sonora do argentino Gustavo Santaolalla, músico premiado com o Oscar demelhor trilhas sonoras dos filmes “Babel” e “O segredo de Brokeback Mountain”. A produção do filme que retratará a vida de Evita – uma defensora da intervenção do Estado na economia – estaráa cargo da Azpeitia Cine e do Illusion Studios, empresa que pertence ao Grupo Exxel, fundos de investimento que foi um dos ícones do neoliberalismo dos anos 90 durante o governo de Carlos Menem (1989-99).
Aristocracia argentina: as vilãs da História, segundo o filme.
MITOS - O filme, que mesclará cenas de imagens da época, também pretende mostrar o ódio das aristocracias portenhas contra a primeira-damaargentina e como os militares que derrubaram o governo de seu marido, em 1955, sequestraram seu corpo embalsamado.
Uma das cenas, no início do filme, mostra como Evita, que era filha extramatrimonial, foi impedida de ver o velório de seu pai pela própria viúva legítima do morto. No entanto, esta versão, imortalizada no musical britânico “Evita”, não teria a ver com a realidade. Isso é o que afirmou há poucos dias Cristina Álvarez, sobrinha-neta de Evita, aliada da presidente Cristina Kirchner, e presidente da Fundação Museu Evita.
Álvarez – cuja avó materna, Blanca Duarte, era irmã de Eva Duarte de Perón – explicou que a mulher oficial do pai de Evita, Juan Duarte, havia falecido em 1922, quatro anos antes do marido. A sobrinha-neta, considerada a detentora do maior número de documentos e memorabilia de sua tia-avó, desmentiu que Evita e seus irmãos, ao contrário do que dizia a lenda, haviam sido expulsos do velório.
Perón e Evita sob o luar que cai na Praça de Mayo. Ao fundo, à esquerda, o Banco de La Nación. À direita, ao fundo, a Casa Rosada. E na direita do fotograma, o desenho de Rodolfo Walsh, jornalista investigativo, que na vida real escreveu sobre o paradeiro do corpo de Evita. Para mais detalhes sobre Walsh, aqui.
CARNE E OSSO – Várias atrizes interpretaram Eva Perón no cinema. A primeira delas foi Faye Dunaway, que em 1981 fez um filme para a TV com James Fiorentino como Perón. Buenos Aires, nesse filme, aparecia como uma cidade de arquitetura colonial da América Central.
Uma década e meia depois, em 1996, foi a vez de Madonna interpretar Evita em uma transposição do musical de Andrew Lloyd Weber ao cinema por intermédio de Alan Parker. Na mesma época, o cinema argentino decidiu produzir um filme próprio sobre a mulher mais famosa da História do país – e com mais detalhes políticos no enredo – e lançou o “Eva Perón: a verdadeira história”, protagonizado pela atriz Esther Goris e dirigido por Juan Carlos Desanzo.
O revival sobre Evita no cinema, na literatura, na estampa de camisetas e caneras, e até como capa de CD de disco music, levou a escritora mexicana Alma Guillermoprieto a afirmar anos atrás: “evidentemente, a vida de Evita acaba de começar!”
O link para o trailer do filme de Evita, aqui.
E, para mais detalhes sobre como Evita virou ícone pop e os mitos e fatos sobre a principal figura feminina política do século XX na Argentina, uma postagem de dois anos atrás sobre o assunto, aqui.








Aproveitamos a ocasião para desejar hoje um estupendo aniversário a nosso comentarista e leitor Lito Portenho, que acompanha o blog desde sua primeira semana!
E como presente especial, um tango diferente: “Papirosen”, com Zully Goldfarb. Aqui.
E aproveitamos para mandar um abraço imenso a todos os amigos… no Dia do Amigo, isto é, hoje!
Ah, quem não está por dentro desta história, pode ver uma postagem ddo ano passado, exatamente sobre esta data, que foi criada por um argentino. Aqui.
a meu pai, José Elias, que faz aniversário hoje – e que será novamente avô daqui a poucas semanas – um dos tangos com seu cantor preferido, Julio Sosa. Aqui. E mais Julio Sosa, aqui.
E de “yapa” (brinde), mais duas interpretações do emérito uruguaio Julio Sosa, “El Firulete”, uma milonga, ,aqui. …e o tango “Elultimo café”, aqui.
O VERDADEIRO FACEBOOK: Giuseppe Arcimboldi, ou Arcimboldo: acima, seu quadro “O Bibliotecário”, de 1566. Exposto no Castelo Skokloster,
A referência ao pintor milanês do século XVI é só para dizer aos amigos que ainda estou tentando “pegar o jeito” do Facebook,com oqual não tenho muita paciência. Ainda prefiro o mail e o twitter…
Abraços e bom meio de semana a todos!
Ariel
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
2011: Perón beberica um cafezinho na rua Áustria (foto de Ariel Palacios)
O peronismo, esse complexo e multifacético movimento político que embala de forma intermitente a sociedade argentina há 65 anos, está presente em uma série de bares, cafés e restaurantes na cidade de Buenos Aires. Os peronistas não gostam da comparação, mas os colunistas gastronômicos portenhos indicam que estes estabelecimentos são uma espécie de “Hard Rock Café” do Peronismo, já que suas paredes ostentam fotografias, documentos, posters e objetos do presidente e general Juan Domingo Perón e sua esposa Eva Duarte de Perón, mais conhecida como “Evita”, o casal superstar dessa peculiar ideologia que engloba a esquerda, o centro e a direita.
Estes cafés, decorados com a memorabilia peronista, tornaram-se points de reunião de militantes, integrantes do governo e de curiosos turistas que visitam esses cafés.
O mais recente é o “Perón-Perón restó bar”, inaugurado há um mês e meio, que acumula uma série de objetos dos tempos em que Juan Domingo Perón era vivo, além de Evita. O cliente, enquanto saboreia pratos com nomes relativos ao peronismo (e também com nomes irônicos sobre os inimigos do peronismo), poderá ouvir música lounge, ocasionalmente interrompida por enfáticos discursos de Evita.
O bar – que conta com uma loja de lembranças que incluem estatuetas de Perón e camisetas – também possui elementos alusivos à presidente Cristina Kirchner, a atual peronista no comando do país.
No menu do lugar está o prato de frios “General Pedro Eugenio Aramburu”. O militar, um furibundo anti-peronista, foi o autor do plano de esconder o corpo de Evita em 1955 (além de torturas e massacres de peronistas). Em 1970 o então recém-criado grupo guerrilheiro Montonero – de ideologia cristã-nacionalista-peronista – debutou suas atividades com o sequestro de Aramburu. Dias depois, o fuzilou, transformando-o, segundo a gíria portenha, em um “fiambre”, palavra usada para referir-se ao corpo de um morto (“presunto”, no Brasil).
A barra do “Perón-Perón Restó Bar” exibe profusão de iconografia peronista
O “Perón-Perón” também exibe quadros do emblemático artista plástico dos anos 60 e 70, Ricardo Carpani.
O “Um café com Perón” está na calle Áustria 2601, no bairro da Recoleta. Ao entrar no salão principal o cliente se deparará com a figura do próprio Perón tomando um cafezinho entre uma pausa e outro do exercício do poder. Mas, não se trata de um fantasma de “El Conductor”, e sim, uma estátua em tamanho natural e colorida que surpreende por seu realismo.
O café está decorado com ilustrações da época de Perón e Evita, fotografias e alguns objetos. Uma pequena lojinha vende lembranças do casal mais polêmico da História argentina.
O sobrado onde está o estabelecimento está ao lado da Biblioteca Nacional, em cujo terreno, até 1955, estava o Palácio Unzué, a antiga residência presidencial. O café era a antiga casa dos mordomos do palácio. Essa foi a única construção que permaneceu intacta, já que os militares que derrubaram Perón nos anos 50 ordenaram a destruição do palácio Unzué, já que queriam evitar que se transformasse em ponto de peregrinação da militância peronista, pois ali havia morrido Evita em 1952.
Altar para idolatrar Evita no Perón-Perón, no bairro de Palermo
No entanto, o pioneiro da série de peronistas temáticos foi “El General”, fundado em em 2005 no bairro de Monserrat, em pleno centro portenho. Seguindo a multiplicidade de correntes internas do movimento fundado por Perón, os quatro donos dividiam-se entre duhaldistas e kirchnerinistas
Sobre as divergências internas do Peronismo, o próprio Perón costumava dizer, com ironia, que “nós, peronistas, somos como os gatos… quando ouvem a gente gritando, como se estivéssemos brigando, na verdade estamos nos reproduzindo”.
No entanto, ao contrário da frase de Perón, os sócios – de tendências políticas peronistas irreconciliáveis – separaram-se em meio a violentas brigas e e deixaram o restaurante afundar em um mar de dívidas. Mas, os trabalhadores do estabelecimento formaram uma cooperativa e recriaram o restaurante, atualmente na avenida Belgrano 350.
A entrada do “El General”, na avenida Belgrano, no bairro de Monserrat
O prato principal da casa é o substancial “pastel de papas”, equivalente argentino à torta madalena, prato preferido do general Perón. Outra especialidade é o “bife de chorizo” feito com vinho malbec.
O restaurante é frequentado por líderes sindicais, secretários de Estado e parlamentares, entre outros. Sempre, durante o almoço, o ambiente é embalado pela Marcha Peronista. Nesse momento, todos os convivas levantam de suas cadeiras e entoam a emblemática melodia.
Sobre a barra do “Un café con Perón” uma garrafa do vinho “Justicialista”, que ostenta as efígies de JD.Perón e de E.D.dePerón. Ao fundo, um grupo de peronistas históricos conversam sobre o café e os tempos atuais.
O “Juan Domingo Resto Bar” está na cidade de La Plata, a 57 quilômetros de Buenos Aires. O ponto forte do bar é o jardim, onde está um mural que representa a Praça de Mayo no dia 17 de outubro de 1945, dia em que os trabalhadores foram às ruas pedir a liberação de seu líder.
Bares e cafés: endereços e telefones
“El General”: avenida Belgrano, 350. Telefone: 4343 7601
“Perón Perón”: rua Carranza 2225. Telefone: 4777 6194
“Un café com Perón”: calle Áustria, 2601. Telefone: 4802 8010
“Juan Domingo Restó Bar”: calle 58, 823 (entre as ruas 11 e 12). Telefone: ( 0221) 427 0136
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
“Os direitos não se mendigam… conquistam-se!” costumava afirmar Julieta Lanteri, a primeira sufragista da América do Sul.Sua biógrafa, a jornalista Araceli Bellota, a define com estas palavras: “foi uma consciente transgressora”.
No dia internacional da mulher, conto brevemente a história da primeira sufragista argentina (e da América do Sul, Julieta Lanteri). Depois, passamos ao quadro da crescente violência contra as mulheres na Argentina. E terminamos com um panorama do peso feminino no poder presidencial e parlamentar.
Julieta Lanteri (1873-32) foi uma pioneira das lutas pela igualdade de direitos das mulheres. Sem marido político para respaldar sua carreira, nem fundos estatais, Lanteri foi um símbolo de liberdade nas primeiras décadas do século XX.
Nascida na Itália, desembarcou aos seis anos de idade em Buenos Aires, acompanhada por seus pais.
Aos 18 anos decidiu que estudaria Medicina. No entanto, a profissão estava vetada para as mulheres. Lanteri contornou a proibição com uma permissão especial do decano da faculdade, Leopoldo Montes de Oca.
Entrou na faculdade em 1896 e formou-se em 1907.
Formada, fundou com sua colega Cecilia Grierson a Associação Universitária Argentina. Na sequência, fez seu doutorado em Medicina e Cirurgia.
“Solteirona” para os padrões da época, aos 36 anos ela casou-se com o americano (criado na Espanha) Alberto Renshaw, que não tinha fortuna, nem influências políticas ou intelectuais, e de quebra, era 14 anos mais jovem do que ela.
Na época, Lanteri, que sempre vestia-se impecavelmente de branco, estudava intensamente sobre saúde mental e decidiu candidatar-se para a cátedra de psiquiatria.
Mas, a faculdade negou seu pedido acadêmico com o insólito argumento de que era “estrangeira” (apesar de ter passado a maior parte de sua vida na Argentina).
Lanteri não se intimidou e solicitou a cidadania argentina. Após um ano de lutas, conseguiu a carta de cidadania (a segunda concedida no país).
O seguinte passo foi o de lutar pelo voto, na época um direito somente exercido pelos homens.
Em julho 1911 a prefeitura de Buenos Aires convocou os moradores da cidade para que se registrassem com dados atualizados nas listas de eleitores. A convocação indicava que deviam registrar-se “os cidadãos maiores de idade, residentes na cidade há pelo menos um ano, que tenham um comércio, indústria ou exerçam uma profissão liberal e paguem impostos municipais com valor mínimo de 100 pesos”.
Lanteri percebeu que a norma tinha uma brecha: ela não indicava nada sobre o sexo. Desta forma, um dia depois de conseguir a cidadania argentina, registrou-se nas listas eleitorais, e em novembro de 1911 apresentou-se para votar.
Na contra-mão do murmurinho generalizado e dos protestos de diversos homens que indicaram “indignação” com a presença feminina de Julieta Lanteri na sala de voto, o presidente de mesa Adolfo Saldías afirmou com entusiasmo: “estou alegre de ser quem assinará o documento do primeiro voto de uma mulher neste país e na América do Sul”.
Foi o primeiro e último voto feminino em 40 anos.
A notícia espalhou-se rapidamente, e em poucos dias o assunto era a polêmica da cidade. Na sequência, a Câmara de Vereadores de Buenos Aires emitiu uma lei que proibia explicitamente o voto às mulheres, alegando que os registros dos eleitores era feito com as listas dos registrados para o serviço militar.
Lanteri não se intimidou. Sem vacilar, apresentou-se perante as autoridades militares, exigindo sua admissão para o serviço militar.
Expulsa pelos funcionários dos quartéis, Lanteri foi ao próprio Ministério de Guerra e Marinha pedir ao ministro que fosse aceita como recruta.
A luta de Lanteri prolongou-se ao longo da década. Mas, em 1919, encontrou uma saída: a Constituição Nacional impedia as mulheres de votar… mas não havia impedimento para que fossem eleitas.
Desta forma, criou um partido, o Partido Nacional Feminista, e em abril de 1919 candidatou-se a deputada. Desta forma, tornou-se a primeira mulher a ser candidata na História da Argentina. Não foi eleita. Mas não desistiu de sua luta.
Em 1932 foi atropelada de forma misteriosa em pleno centro portenho, na esquina da avenida Diagonal Norte e da rua Suipacha. Tinha 59 anos e estava enfrentando o governo do general Agustín Justo.
“Os direitos não se mendigam… conquistam-se!” costumava afirmar Julieta Lanteri, a primeira sufragista da América do Sul.
VOTO - A socialista Alicia Moreau de Justo, que fundou em 1918 a União Feminista Nacional, elaborou um projeto de lei em 1932 que estabelecia o sufrágio feminino. No entanto, foi necessário esperar até 1947, quando Eva Perón, cujo marido era o presidente Juan Domingo Perón, ressuscitou a ideia e conseguiu sua aprovação. Desta forma, as argentinas puderam votar em massa em 1951.
Nos tempos da Inquisição: Ilustração de 1531 mostra uma mulher, acusada de ser bruxa, sendo queimada em uma fogueira na cidade de Schlitach. A mulher em questão era acusada de ter sido cúmplice do “demônio” no incêndio da cidade, localizada no lado esquerdo da imagem. O livro com ilustração está na Zentralbibliothek, Zurich, Suíça. Atualmente, no século XXI, mulheres continuam sendo queimadas vivas em diversas partes do mundo por seus cônjuges, ex-cônjuges e similares.
MULHERES QUEIMADAS - O dia internacional das mulheres está tendo na Argentina um sabor amargo, já que desde o início deste ano 13 mulheres foram queimadas por seus cônjuges/namorados/ex-maridos/amantes. Destas, apenas quatro sobreviveram.
O fenômeno está chamando a atenção, já que em todo 2010 o número de mulheres queimadas por homens foi de 11, volume que já estava causando grande preocupação no ano passado.
O fenômeno, afirmam os analistas, parece ter aumentado depois que o baterista Eduardo Vázquez, ex-integrante do grupo de rock “Callejeros”, foi acusado de incinerar sua esposa, Wanda Taddei, em fevereiro do ano passado. Wanda morreu dias depois que seu marido lhe jogasse álcool e acendesse um cigarro ao lado dela. O ato lhe provocou graves queimaduras em 60% do corpo.
O último caso, registrado neste fim de semana, ocorreu na província de Santiago del Estero, A vítima, uma garota de 17 anos, mãe de um bebê de 7 meses, foi queimada por seu namorado, de 22 anos. A jovem, que saiu correndo em chamas de sua casa, foi socorrida pelos vizinhos. O namorado, que está detido, alegou que estava na cama, brincando com o bebê, quando repentinamente viu a mulher “inexplicavelmente” em chamas.
A penúltima vítima, em fevereiro, era de Florencio Varela, na Grande Buenos Aires. Na ocasião o marido da vítima a banhou em acetona e depois lhe jogou um fósforo aceso.
Neste domingo, na província de Santa Fe, outro homem tentou queimar sua namorada, grávida de 8 meses. No entanto, foi salva a tempo por seu cunhado.
Na Argentina no ano passado um total de 260 mulheres foram assassinadas dentro de crimes classificados de “violência de gênero”.
Nos primeiros dois meses deste ano treze mulheres haviam sido assassinadas em toda a Argentina por violência de gênero.
DADOS:
- Do total de mulheres vítimas de violência de gênero, 18% são jovens de menos de 18 anos de idade.
- Do total de mulheres vítimas de violência de gênero, 51% foram alvo dos ataques de cônjuges, ex-cônjuges ou amantes e namorados.
PESO PRESIDENCIAL – Em 1974 María Estela Martínez de Perón – uma ex-dançarina de cabaré no Panamá – assumiu a presidência da Argentina. Mais conhecida por seu apelido, “Isabelita”, ela chegava ao poder por ser a vice-presidente do marido defunto, Juan Domingo Perón, que no ano anterior havia sido eleito nas urnas.
Isabelita durou menos de dois anos no posto. Controlada pela eminência parda do governo, o ministro José López Rega, Isabelita exerceu uma presidência desorientada e caótica. Foi derrubada por um golpe militar em 1976.
Isabelita, formalmente, foi a primeira mulher presidente da Argentina. No entanto, assumiu por ser a vice do marido.
A primeira mulher a ser eleita diretamente para o cargo de presidente foi Cristina Kirchner, que sucedeu seu próprio marido, Néstor Kirchner, na presidência do país.
Nas eleições que venceu com 45% dos votos, sua principal adversária foi outra mulher, Elisa Carrió, líder da opositora Coalizão Cívica, que obteve 23% dos votos.
Desta forma, as duas mulheres obtiveram juntas 68% dos votos emitidos.
PESO PARLAMENTAR - Em 1991, durante o governo do presidente Carlos Menem (1989-99), o Congresso Nacional aprovou a lei que determina que os partidos políticos são obrigados a contar com um mínimo de um terço de candidatas mulheres.
Na época, a Câmara de Deputados e o Senado somente contavam com 6% de presença feminina.
Os resultados dessa lei, a primeira desse gênero nas Américas, foram comprovados em 1993. Graças à nova norma, a proporção de mulheres parlamentares subiu para 13,6% em 1993.
Atualmente as mulheres ocupam 38,8% das cadeiras do Senado. Além disso, estão presentes em 36,5% das cadeiras da Câmara de Deputados na Argentina.
PESO MINISTERIAL - Apesar da presença de uma mulher na presidência da Argentina, o peso feminino no gabinete presidencial é baixo. De um total de 16 pastas a presidente Cristina somente possui três mulheres ministras (uma delas é sua própria cunhada, Alicia Kirchner, ministra que herdou do marido e antecessor, o ex-presidente Néstor Kirchner).
Isto é, o gabinete possui apenas 18,7% de mulheres com hierarquia ministerial.
Além disso, das cinco secretarias de Estado do governo Cristina, nenhuma é comandada por mulheres.
UM BAIRRO ‘FEMININO’: As ruas de Puerto Madero, bairro criado nos anos 90 em Buenos Aires, conta exclusivamente com ruas com nomes de mulheres argentinas que lutaram pelos direitos de igualdade. Entre elas há médicas, intelectuais, políticas, líderes sociais, escritoras e até heroínas da independência.
Para mais detalhes sobre cada uma delas, clique aqui.
E para terminar a jornada, duas tirinhas de Mafalda… elas são dos anos 60. Mas é impressionante como são vigentes.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
Eva Perón, durante visita em 1947 ao ditador fascista espanhol Francisco Franco. O respaldo de Evita e de Perón – especialmente econômico, além de político - foi crucial naquela período para o generalíssimo ibérico que dizia-se “caudilho de Espanha pela graça de Deus”. Cinco anos depois Evita faleceria. Nos anos seguintes à sua morte o carnaval na Argentina foi suspenso pelo luto imposto pelo governo do viúvo.
A ditadura militar argentina (1976-83) acabou oficialmente com o carnaval argentino em 1977 ao eliminar o feriado de Momo. O ditador e general Jorge Rafael Videla – que temia que guerrilheiros de esquerda pudessem esconder-se atrás dos disfarces, e com isso, supostamente realizar atentados – também proibiu as reuniões públicas destinadas a esse festejo. Além disso, o asceta militar ordenou a proibição dos blocos carnavalescos.
Mas, a presidente Cristina Kirchner – que nos últimos anos fez a revisão de uma série de medidas da ditadura – decretou há poucos meses a reimplantação do feriado de carnaval.
“Queremos que a alegria volte à Argentina!”, disse exultante em setembro a presidente Cristina, perante uma plateia de “murgueros” (denominação dos integrantes dos blocos carnavalescos portenhos) que entoaram a “marcha Peronista” com um ‘touch’ de ritmo carnavalesco.
Desta forma, na semana que vem os argentinos poderão aproveitar o feriado de carnaval pela primeira vez desde 1976.
PRIMEIRO GOLPE - O carnaval argentino recebeu seu primeiro golpe com a morte de Eva Duarte de Perón – mais conhecida como Evita – em 1952. Durante três anos, todos os dias, na mesma hora em que havia falecido, nas rádios os locutores recordavam o falecimento da “mãe dos trabalhadores” e “líder dos descamisados”.
O clima de luto perdurou durante meses, e foi reforçada pela decisão do governo peronista de suspender o carnaval de 1953 e dos dois anos posteriores.
O golpe militar que em setembro de 1955 derrubou Perón restaurou em fevereiro de 1956 o feriado carnavalesco.
Mas, vinte anos depois, a ditadura militar do general Videla revogou o feriado e impediu as festividades. Este segundo duro golpe teve consequências mais permanentes que a morte de Evita. Embora a ditadura tenha acabado sete anos depois (em 1983) o carnaval levou mais de uma década para dar seus primeiros passos de retorno às ruas portenhas.
Videla (à direita) daria o golpe de misericórdia no carnaval argentino em 1976 ao suspender a totalidade dos festejos. As celebrações só ressurgiram – gradualmente – a partir dos anos 90. Na foto, Videla está acompanhado por seu vizinho e partner em assuntos ditatoriais, o general chileno Augusto Ramón Pinochet.
RECUPERAÇÃO - Desde a volta da democracia o carnaval recuperou-se de forma lenta e gradual em Buenos Aires com o surgimento das “murgas” (blocos) em diversos bairros.
Os integrantes das “murgas” dançam ao som do “candombe”, um ritmo de origem africano (remanescente dos tempos em que havia escravos em Buenos Aires) com intensos requebros.
Nos anos 80 existiam somente 15 murgas. Mas na virada do século XXI o número havia subido para mais de 100, compostas por dez mil “murgueros”. Atualmente existem mais de 200 murgas. O respaldo dos governos municipal e federal só apareceu na última década, quando as murgas mostraram que estavam consolidadas.
Murgas portenhas estão em plena recuperação. A cada ano surgem novos blocos.
As murgas concentram-se nos bairros de classe média baixa. Os bailes possuem pequenas dimensões em Buenos Aires, comparado com o Brasil, já que participam poucas centenas de pessoas. Para aumentar a participação, a prefeitura de Buenos Aires projeta recuperar o carnaval de salão, esquecido há décadas, além de outras festividades populares.
Mas, desde 1976 até este ano, em todos os lugares do país os carnavalescos só podiam protagonizar os festejos de Momo nos fins de semana, devido à inexistência do feriado de carnaval.
A presidente Cristina aproveitou a restauração do feriado de carnaval, no final do ano passado, para também anunciar a criação de outros novos feriados. Desta forma, com o decreto presidencial, o número total de dias considerados “feriados nacionais” passou de doze para quinze. A ideia, afirmou Cristina Kirchner, é estimular o turismo.
Em Gualeguaychú a preferência é pelos carros alegóricos e a inspiração nas plumas e brilhos do carnaval brasileiro.
AO MODO DO BRASIL - Muito antes do Mercosul integrar as economias do Brasil e da Argentina, os habitantes da cidade de Gualeguaychú, na província de Entre Ríos, importaram um produto tipicamente brasileiro: o carnaval. Desde os anos 60, os foliões argentinos desta região vestem-se com as plumas e lantejoulas típicas das festividades de Momo no Brasil, e desfilam em carros alegóricos.
Os próprios entrerrianos admitem que embora não haja mestres-salas, nem porta-bandeira, e sequer a música seja samba, o carnaval de Gualeguaychú é uma espécie de “irmão caçula” do carnaval carioca.
O carnaval de Gualeguaychú tornou-se um furor nacional nos últimos cinco anos, e é assistido por políticos e atores. As “comparsas” (as “escolas” locais) aproveitaram o sucesso para convidar estrelas da TV, modelos ou cantores para destacar-se. Em Gualeguaychú, existe um lugar para o desfile, inspirado no sambódromo, que denomina-se “Corsódromo”, em alusão a “Corso”, denominação argentina para o desfile ou parada de carnaval.
Nas últimas décadas, a febre do carnaval inspirado no brasileiro, se espalhou pelas pequenas cidades da região: Santa Elena, Concepción, Chajarí e Gualeguay. A preparação das fantasias e dos enredos leva todo o ano.
O lado físico também conta: para estar com os corpos comme il faut, nestas cidades florescem as academias de ginástica, que são escassas no resto do país, mesmo em Buenos Aires (comparado com o imenso volume de academias existentes em São Paulo ou no Rio de Janeiro).
AO MODO INDÍGENA - No norte da Argentina também comemora-se o carnaval, mas com tons indígenas: na região da Puna, na fronteira com a Bolívia, o centro da festa é o “Pujillay”, isto é, o “diabo carnavalesco”, personagem da mitologia local, derivada dos incas. Sepultado desde o final do carnaval do ano anterior, o diabo é desenterrado, dando início às festas, com músicas indígenas e coloridos desfiles pelos vilarejos da região. Nestas festas os participantes mascam folhas de coca e ingerem bebidas feitas com essa planta.
Diabo desenterrado é o foco do carnaval do norte da Argentina. A festança – além das danças típicas – é complementada com suculenta gastronomia.
VOCABULÁRIO:
- Murgas: espécie de blocos
- Corsos: o desfile das murgas
- Candombe (nome que origina-se na palavra candomblé): música que embala as murgas, com ritmo de origem africano.
E um link do Youtube com Alberto Castillo cantando um candombe-milonga clássico do final dos anos 50: “Siga el baile”. Aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
Do Riachuelo ao Aerolula: O encouraçado brasileiro “Riachuelo”, que transportou Campos Salles do Rio até Buenos Aires. O navio de guerro aparece “estacionado” em Puerto Madero. Na época, os cais haviam sido recém-inaugurados. Um século depois a mesma área seria o point de restaurantes, atualmente entupidos de turistas.
Nesta segunda-feira – longe de Puerto Madero e dos encouraçados de antanho – quando a presidente Dilma Rousseff desembarque do avião presidencial Santos Dumont em Buenos Aires, será do outro lado da cidade, na base aérea do Aeroparque Jorge Newbery, o aeroporto metropolitano portenho.
uas cheias de guirlandas e arcos do triunfo. Esses foram alguns dos elementos que os portenhos colocaram nas ruas da capital argentina para exaltar a visita do presidente do Brasil Manuel Ferraz de Campos Salles à Buenos Aires em outubro de 1900. Na ocasião, 300 mil portenhos (a cidade contava com 1,2 milhão na época, isto é, um de cada quatro habitantes da cidade foi às ruas receber o visitante) urraram o nome do brasileiro nas ruas da cidade, celebrando seu desembarque. Campos Salles dava início às visitas presidenciais brasileiras no exterior.
Campos Salles colocava seus pés em Buenos Aires para retribuir uma visita feita pouco mais de um ano antes, em agosto de 1899, pelo presidente argentino Julio Roca ao Rio de Janeiro. À beira da Bahia de Guanabara, Roca teria dito uma frase histórica, “tudo nos une, nada nos separa”.
A frase, no entanto, é uma daquelas que se encaixam na categoria de ‘se non è vero, è ben trovato’, já que ela seria pronunciada nesse exato formato em 1910, pelo então presidente eleito da Argentina, Roque Sáenz Peña, durante sua visita ao Rio de Janeiro. “Hoje em dia essa afirmação pode parecer banal. Mas na época, foi revolucionária”, me disse o ex-embaixador do Brasil em Buenos Aires, Luiz Felipe de Seixas Correa.
Roca também deixou para os registros históricos uma categórica afirmação (esta, de cunho próprio): “o Brasil e a Argentina devem unir-se por laços da mais íntima amizade, porque juntos serão ricos, fortes, poderosos e livres”.
Com esta visita, o Brasil, depois de 67 anos de monarquia, desejava “republicanizar” sua política externa, atenuando os vínculos com as coroas europeias e privilegiando o espaço sul-americano.
OM TODA A POMPA – Ao contrário das visitas presidenciais atuais – corriqueiras, de apenas 24 horas, com comitivas de poucas dezenas de pessoas, e que muitas vezes passam desapercebidas para o grande público – a viagem de Campos Salles à Buenos Aires no ano seguinte à visita de Roca ao Rio foi em grande estilo. O presidente viajou na companhia de centenas de pessoas, no encouraçado “Riachuelo”, que veio acompanhado de parte da esquadra brasileira, que levava centenas de pessoas que integravam a comitiva presidencial.
Campos Salles permaneceu em Buenos Aires durante uma semana com atividades que incluíram idas à Ópera, ao Hipódromo e diversas recepções com bailes. A ocasião foi tão especial que os dois presidentes foram os protagonistas do primeiro filme rodado na Argentina.
O cinegrafista Eugenio Py gravou as imagens dos dois presidentes conversando em uma escadaria em um palacete portenho.
Chegada de Campos Salles até virou motivo de cartão postal na época da visita. Postal mostra multidão e arco do triunfo no porto.
Depois de Campos Salles passaram várias décadas sem visitas presidenciais brasileiras. Foi necessário esperar até 1935, quando chegou à Buenos Aires o presidente Getúlio Vargas, que aqui reuniu-se com o presidente e general Augustín Justo. Na ocasião, foram assinados 12 acordos bilaterais.
O arquivo da Chancelaria argentina mostra vários dados curiosos sobre a visita de Vargas ao país. Um deles, o desespero da Chancelaria local pela lerdeza da Embaixada argentina no Rio de Janeiro em enviar os dados e fotografias do presidente Vargas para fazer o livro de luxo que celebraria a visita.
Outra peculiaridade teve a pianista Guiomar Novaes como foco, já que o governo brasileiro, a último momento, queria colocá-la de qualquer forma na programação cultural da visita de Vargas à Buenos Aires. Depois de fortes pressões brasileiras os argentinos deram um jeito e finalmente conseguiram um buraco na agenda das festividades para que ela tocasse no Teatro Cervantes.
O general e presidente Justo à esquerda. À direita, Getúlio Vargas.
M PRESIDENTE FASCINADO – Vargas foi hospedado no Palácio Pereda, no início da elegante Avenida Alvear. Encantado com a mansão, o presidente propôs sua compra, para transformá-la na Embaixada do Brasil. Celedonio Pereda, fazendeiro argentino que havia construído o palacete pouco mais de uma década antes, foi seduzido pelas insistentes ofertas que Vargas fez nos anos seguintes. A compra foi efetivada em maio de 1945, nos derradeiros meses do governo Vargas.
Desde os anos 80 o Palácio Pereda é a residência do embaixador brasileiro. A parte administrativa construída nos anos 80, está perto dali, virando o quarteirão, na rua Cerrito.
Segundo a escritura dos tabeliões Juan e José Toribio, em troca do palácio o governo brasileiro cedeu à família Pereda o prédio da Avenida Callao 1555, até então a embaixada do Brasil, junto com 4 mil toneladas de minério de ferro.
O edifício neo-clássico da sede diplomática localiza-se na frente da Praça Carlos Pellegrini, diante do Jockey Club, quase ao lado da refinada Embaixada da França. Erroneamente, a maioria das pessoas consideram que o palácio está no elegante bairro da Recoleta. Mas, esta começa a três quadras dali. Oficialmente, o palácio está no bairro de Retiro.
Dutra, acompanhado por Evita Perón. Atrás da primeira-dama argentina, a “Mãe dos pobres”, está a silhueta do general e presidente Juan Domingo Perón.
UTRA E JÂNIO, NA FRONTEIRA - Na seqüência das visitas presidenciais, a seguinte seria a vez do presidente Juan Domingo Perón, que receberia o presidente Eurico Gaspar Dutra em 1947. No entanto, o encontro ocorreria na fronteira, entre a argentina Paso de los Libres e a brasileira Urugaiana (RS). Na ocasião, com a presença de Evita Perón, a primeira-dama argentina, os dois presidentes inauguraram a ponte que liga as duas cidades. Esta seria a primeira entre os dois países, já que ambos lados da fronteira tradicionalmente evitaram a construção de pontes, já que estas podiam servir para a passagem de tropas invasoras do país vizinho.
O trecho da metade da ponte correspondente à Argentina foi inaugurada com o nome de Agustín Justo, ditador da Argentina nos anos 30. Do lado brasileiro, teve o nome do ditador Getúlio Vargas (na época, Vargas somente havia sido ditador; ele ainda não havia sido eleito democraticamente presidente, tal como aconteceria em 1950).
Em abril de 1961 seria realizado o seguinte encontro, também na divisa dos dois países, entre os presidentes Arturo Frondizi e Jânio Quadros. No encontro, os presidentes tiveram opiniões diferentes sobre o contexto regional (a crise de Cuba, a posição perante os EUA) e internacional (a eventual aproximação aos países africanos que começavam a independizar-se e aos países comunistas da Ásia). Mas, assinaram um importante acordo de amizade e consulta. Quadros, que duraria poucos meses no poder, até especulou com Frondizi retirar as tropas brasileiras da área da fronteira com a Argentina, localizadas especialmente no Rio Grande do Sul, e deslocá-las mais para o interior.
Sorridentes, mas por curto tempo (e por problemas internos): Jânio e Frondizi, na fronteira, no dia 21 de abril de 1961. Jânio duraria quatro meses no poder. Frondizi, 11 meses, antes de ser derrubado pelos militares.
QUINO PRESENTE - Passariam quase duas décadas, quando, en 1980, para apaziguar a tensão surgida entre o Brasil e a Argentina pela construção da hidrelétrica de Itaipu (a obra causava suspicácias no governo argentino e na população do país, que temia que um dia o Brasil poderia abrir suas comportas e alagar várias cidades argentinas), o general João Batista Figueiredo desembarcou em Buenos Aires para reunir-se com o ditador argentino Jorge Rafael Videla. O ditador argentino paparicou o colega brasileiro, que foi presenteado com cavalos Made in Argentina, fato que agradou Figueiredo, um declarado amante da hípica.
De quebra, foi homenageado no estádio do San Lorenzo, time pelo qual Figueiredo havia torcido, quando adolescente, durante o exílio de seu pai, o general Euclides Figueiredo, em Buenos Aires nos anos 30 (o general havia sido exilado pelo governo Vargas por ter participado da revoluçào constitucionalista de 1932).
A visita teve grande impacto, pois foi a terceira viagem de um presidente brasileiro à Argentina em todo o período republicano (os encontros Perón-Dutra e Frondizi-Quadros foram literalmente na fronteira). Videla retribuiu a visita no mesmo ano, indo à Brasília.
Black-tie: Os generais Videla e Figueiredo com suas respectivas primeiras-damas. Figueiredo ganhou cavalo de presente ao visitar Buenos Aires.
NTEGRACIONISTAS E AMIGOS - Depois, em 1985, com ambos países de volta à democracia, o presidente José Sarney reuniu-se com o presidente Raúl Alfonsín sobre a ponte Tancredo Neves (entre a brasileira Foz de Iguaçu e a argentina Puerto Iguazú), inaugurada na ocasião, colocando as bases do futuro Mercosul. O encontro ocorreu nas duas cidades entre os dias 29 e 30 de novembro. No início do século XXI, em homenagem a este passo crucial no aprofundamento das relações entre os dois países, esta última data foi designada o “dia da amizade argentino-brasileira”.
Os dois presidentes assinaram a Declaração Conjunta sobre Política Nuclear. Alfonsín, simbolicamente, visitou Itaipu, que nos dez anos anteriores havia sido a nêmesis para a Argentina.
Em julho de 1986, o presidente brasileiro foi à Argentina. Na ocasião, Alfonsín deu um inesperado gesto de confiança ao receber Sarney e abrir-lhes as portas das instalações atômicas argentinas. Os dois presidentes tornaram-se grandes amigos dali para frente. Eles costumaram realizar visitas mútuas mesmo após terem concluído suas presidências. É o único caso de uma amizade sólida entre presidentes do Brasil e da Argentina que perdurou mesmo após seus períodos de governo. Quando Alfonsín faleceu, em 2009, Sarney foi o único orador estrangeiro a ter a honraria de discursar no enterro.
As cataratas do Iguaçu fazem pose enquanto Sarney e Alfonsín ficam na frente. Foto de 1985 de Victor Bugge, fotógrafo histórico da presidência da República Argentina.
HC, TRADUTOR DE ‘EL TURCO’ – Depois, de Sarney, as visitas presidenciais brasileiras tornaram-se corriqueiras. Foram à Buenos Aires Fernando Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Este último causava profunda inveja no presidente Carlos Menem (1989-99), ao falar com a imprensa argentina em espanhol e com os correspondentes estrangeiros em inglês ou francês. Em diversas ocasiões o políglota FHC serviu de tradutor de coletivas de imprensa para “El Turco”, que era monoglota (o macarrônico inglês de Menem era a delícia dos humoristas argentinos).
FHC continuou visitando Buenos Aires nos anos seguintes ao fim de seu mandato para dar conferências. O ex-presidente continuou tendo tratamento de super-star na mídia e na intelectualidade portenha.
Kirchner, na época em que era presidente; Cristina, nos tempos em que era primeira-dama. E Lula, em seu segundo mandato.
ISITANTE ASSÍDUO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi outro visitante freqüente em seu primeiro e segundo mandato, batendo todos os recordes protagonizados por seus antecessores. Nos primeiros meses de governo, em 2003, visitou o então presidente provisório Eduardo Duhalde (2002-2003), que estava em seus últimos meses de mandato e com quem teve excelente feeling pessoal.
Na seqüência, o anfitrião passou a ser Néstor Kirchner, que tornou-se presidente em maio de 2003. Lula o visitou várias vezes. A partir de dezembro de 2007, os Kirchners continuaram no poder, mas por intermédio da esposa de Néstor, Cristina, que combinou dois encontros presidenciais por semestre com Lula.
O temperamental Kirchner oscilou entre períodos de idílio e de turbulências com Lula. O presidente brasileiro foi pego de supresa várias vezes pelas guinadas drásticas de Kirchner, especialmente as inesperadas medidas protecionistas para – atendendo os pedidos das indústrias nacionais – prevenir as alardeadas – e hipotéticas - “invasões de produtos” Made in Brazil no mercado argentino.
Desta forma, nem todas as ocasiões de visitas de Lula à Buenos Aires e outras cidades argentinas (especialmente para cúpulas do Mercosul) puderam ser definidas de “prazenteiras”. A tensão prevaleceu durante a administração de Néstor Kirchner.
Já com Cristina Kirchner, as cúpulas mantiveram um clima relativamente mais pacífico. Cristina costumava elogiar o empresariado brasileiro, como modelo a ser seguido pela Argentina.
Em todas suas visitas Lula causou frisson na esquerda argentina e exclamações de admiração no establishment portenho. No entanto, o frisson da esquerda foi uma sensação que diminuiu com o passar dos anos, já que setores da esquerda local foram decepcionando-se com a guinada para o centro (ou centro-direita, segundo alguns) do ex-torneiro mecânico. O wishful thinking de que Lula ainda supostamente permanecia - no fundo do coração - um homem socialista, consolava diversos setores progressistas argentinos. Diversas pesquisas, ao longo dos anos, indicaram que se um presidente estrangeiro pudesse ser candidato a presidente na Argentina, Lula venceria outros políticos do exterior, além dos próprios candidatos argentinos.
PRIMEIRA VISITA DE DILMA – A presidente Dilma Rousseff desembarcará em Buenos Aires nesta segunda-feira de manhã, às 11:00 horas, para uma intensa agenda que desenvolverá em poucas horas com sua anfitriã, a presidente Cristina Kirchner, e os ministros argentinos. Embora a visita seja breve, já que a presidente Dilma partirá à tarde, após o almoço de honra que o governo Kirchner organizou no elegante palácio San Martín, sede da chancelaria argentina, o plano de Cristina é o de receber Dilma com toda pompa para este primeiro encontro oficial entre as duas únicas mulheres que atualmente são presidentes na América do Sul.
HILIQUE PELO PÃO DE QUEIJO – Segundo fontes diplomáticas brasileiras, no início dos anos 90, durante uma visita à Buenos Aires, acompanhando seu emtão marido - o presidente Fernando Collor de Mello - Rosane Collor teria protagonizado um insólito chilique. A então primeira-dama pediu aos gritos a demissão da cozinheira da Embaixada do Brasil em Buenos Aires. O motivo da exigência da jovem de Canapi era que a quituteira argentina não sabia preparar o brasileiríssimo pão de queijo, na época, um elemento fundamental do regime do café da manhã da então primeira-dama.
Pão de queijo, o quitute da divergência.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
2012
2011
2010
2009