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Ariel Palacios

  

“Todo pasa” (Tudo passa) é a inscrição no anel que ostenta Grondona. Mas, seus críticos ressaltam com ironia “tudo passa…menos Grondona!”

“Don Julio”, como é chamado Julio Grondona, preside com mão de ferro a Associação de Futebol da Argentina (AFA) há 33 anos, desde que foi designado pela ditadura militar (1976-83) para ocupar o posto. Grondona – uma versão “gold” argentina de Ricardo Teixeira - sobreviveu ao longo de mais de três décadas com apenas uma Copa do Mundo conquistada (México 1986), oito greves de jogadores, três paralisações de árbitros, mais de 40 casos de doping dos jogadores da seleção, o surgimento – e o fortalecimento dos “barrabravas” (os hooligans argentinos), além de acusações de corrupção e de vínculos controvertidos com o poder e empresários amigos que possuem negócios comerciais com a AFA. Grondona costuma relativizar os contratempos pronunciando sua frase preferida: “tudo passa”.

 

O todo-poderoso Julio Humberto Grondona, máximo cartola argentino há 33 anos, uma década a mais do que o brasileiro Ricardo Teixeira

“Tudo passa, menos Grondona”, afirmam seus inimigos, já que desde 1979 a AFA teve um único presidente. Mas, a República Argentina está no décimo-terceiro presidente desde aquela época (os generais e ditadores Jorge Rafael Videla, Roberto Viola, Leopoldo Fortunato Galtieri e Reynaldo Bignone, os presidentes civis constitucionais Raúl Alfonsín, Carlos Menem, Fernando De la Rúa, Ramón Puerta, Adolfo Rodríguez Saá, Eduardo Camaño, Eduardo Duhalde, Néstor Kirchner e a atual Cristina Kirchner).

Grondona, inicialmente, seria um presidente provisório. Mas, nos seguintes anos, foi reeleito oito vezes. Somente uma vez enfrentou um opositor, o ex-técnico Teodoro Nitti, em 1991. O rival conseguiu um único voto. Grondona teve 40. Em 2011 foi novamente reeleito. Mas, desta vez a eleição esteve envolvida em um escândalo público, já que o empresário Carlos Ávila tentou realizar uma eleição paralela, sem sucesso. Grondona foi reeleito. Não existem especulações sobre um eventual sucessor de Grondona que não seja o próprio Grondona. 

Grondona, sentado à direita da foto. Na cabeceira da mesa, o então ditador e general JR Videla.

Desde que “Don Julio” está no comando, a AFA teve dez técnicos da seleção (César Luis Menotti, Carlos Salvador Bilardo, Alfio Basile, Daniel Passarella, Marcelo Bielsa, José Pekerman, novamente Alfio Basile, Diego Maradona, Sergio Batista).

Os críticos de Grondona afirmam que ele montou uma estrutura que permitiu a consolidação de “uma AFA rica e clubes pobres”.

O poder de Grondona – que preside a Comissão de Finanças da FIFA – não é apenas nacional, pois possui grande influência internacional. O analista esportivo Ezequiel Fernández Moores, autor de livros sobre negociatas no futebol argentino, disse ao Estado que “Joseph Blatter foi reeleito presidente da FIFA em 2002 graças ao respaldo de Grondona, que foi fundamental”. 

 

Cristina Kirchner e Julio Grondona 

Nos últimos anos Grondona transformou-se no principal aliado do governo da presidente Cristina Kirchner em sua política de conseguir dividendos eleitorais por intermédio do esporte favorito dos argentinos. Grondona foi a peça crucial para que o governo Kirchner implementasse a estatização das transmissões dos jogos, denominada de “Futebol para todos”.

Em 2009 o cartola convenceu os falidos clubes argentinos a aceitar um suculento contrato de US$ 150 milhões anuais até 2019 oferecido pelo governo para ficar com todos os direitos de transmissão do futebol do país. No ano passado, para agradar Cristina, Grondona batizou o prêmio do campeonato nacional de futebol com o nome do ex-presidente Nestor Kirchner, que morreu em outubro de 2010.

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Eva Perón, durante visita em 1947 ao ditador fascista espanhol Francisco Franco. O respaldo de Evita e de Perón – especialmente econômico, além de político - foi crucial naquela período para o generalíssimo ibérico que dizia-se “caudilho de Espanha pela graça de Deus”. Cinco anos depois Evita faleceria. Nos anos seguintes à sua morte o carnaval na Argentina foi suspenso pelo luto imposto pelo governo do viúvo.

A ditadura militar argentina (1976-83) acabou oficialmente com o carnaval argentino em 1977 ao eliminar o feriado de Momo. O ditador e general Jorge Rafael Videla – que temia que guerrilheiros de esquerda pudessem esconder-se atrás dos disfarces, e com isso, supostamente realizar atentados – também proibiu as reuniões públicas destinadas a esse festejo. Além disso, o asceta militar ordenou a proibição dos blocos carnavalescos.

Mas, a presidente Cristina Kirchner – que nos últimos anos fez a revisão de uma série de medidas da ditadura – decretou há poucos meses a reimplantação do feriado de carnaval.

“Queremos que a alegria volte à Argentina!”, disse exultante em setembro a presidente Cristina, perante uma plateia de “murgueros” (denominação dos integrantes dos blocos carnavalescos portenhos) que entoaram a “marcha Peronista” com um ‘touch’ de ritmo carnavalesco.

Desta forma, na semana que vem os argentinos poderão aproveitar o feriado de carnaval pela primeira vez desde 1976.

PRIMEIRO GOLPE - O carnaval argentino recebeu seu primeiro golpe com a morte de Eva Duarte de Perón – mais conhecida como Evita – em 1952. Durante três anos, todos os dias, na mesma hora em que havia falecido, nas rádios os locutores recordavam o falecimento da “mãe dos trabalhadores” e “líder dos descamisados”.

O clima de luto perdurou durante meses, e foi reforçada pela decisão do governo peronista de suspender o carnaval de 1953 e dos dois anos posteriores.

O golpe militar que em setembro de 1955 derrubou Perón restaurou em fevereiro de 1956 o feriado carnavalesco.

Mas, vinte anos depois, a ditadura militar do general Videla revogou o feriado e impediu as festividades. Este segundo duro golpe teve consequências mais permanentes que a morte de Evita. Embora a ditadura tenha acabado sete anos depois (em 1983) o carnaval levou mais de uma década para dar seus primeiros passos de retorno às ruas portenhas.

Videla (à direita) daria o golpe de misericórdia no carnaval argentino em 1976 ao suspender a totalidade dos festejos. As celebrações só ressurgiram – gradualmente – a partir dos anos 90. Na foto, Videla está acompanhado por seu vizinho e partner em assuntos ditatoriais, o general chileno Augusto Ramón Pinochet.

RECUPERAÇÃO - Desde a volta da democracia o carnaval recuperou-se de forma lenta e gradual em Buenos Aires com o surgimento das “murgas” (blocos) em diversos bairros.

Os integrantes das “murgas” dançam ao som do “candombe”, um ritmo de origem africano (remanescente dos tempos em que havia escravos em Buenos Aires) com intensos requebros.

Nos anos 80 existiam somente 15 murgas. Mas na virada do século XXI o número havia subido para mais de 100, compostas por dez mil “murgueros”. Atualmente existem mais de 200 murgas. O respaldo dos governos municipal e federal só apareceu na última década, quando as murgas mostraram que estavam consolidadas.

Murgas portenhas estão em plena recuperação. A cada ano surgem novos blocos.

As murgas concentram-se nos bairros de classe média baixa. Os bailes possuem pequenas dimensões em Buenos Aires, comparado com o Brasil, já que participam poucas centenas de pessoas. Para aumentar a participação, a prefeitura de Buenos Aires projeta recuperar o carnaval de salão, esquecido há décadas, além de outras festividades populares.

Mas, desde 1976 até este ano, em todos os lugares do país os carnavalescos só podiam protagonizar os festejos de Momo nos fins de semana, devido à inexistência do feriado de carnaval.

A presidente Cristina aproveitou a restauração do feriado de carnaval, no final do ano passado, para também anunciar a criação de outros novos feriados. Desta forma, com o decreto presidencial, o número total de dias considerados “feriados nacionais” passou de doze para quinze. A ideia, afirmou Cristina Kirchner, é estimular o turismo.

 Em Gualeguaychú a preferência é pelos carros alegóricos e a inspiração nas plumas e brilhos do carnaval brasileiro.

AO MODO DO BRASIL - Muito antes do Mercosul integrar as economias do Brasil e da Argentina, os habitantes da cidade de Gualeguaychú, na província de Entre Ríos,   importaram um produto tipicamente brasileiro: o carnaval. Desde os anos 60, os foliões argentinos desta região vestem-se com as plumas e lantejoulas típicas das festividades de Momo no Brasil, e desfilam em carros alegóricos.

Os próprios entrerrianos admitem que embora não haja mestres-salas, nem porta-bandeira, e sequer a música seja samba, o carnaval de Gualeguaychú é uma espécie de “irmão caçula” do carnaval carioca.

O carnaval de Gualeguaychú tornou-se um furor nacional nos últimos cinco anos, e é assistido por políticos e atores. As “comparsas” (as “escolas” locais) aproveitaram o sucesso para convidar estrelas da TV, modelos ou cantores para destacar-se. Em Gualeguaychú, existe um lugar para o desfile, inspirado no sambódromo, que denomina-se “Corsódromo”, em alusão a “Corso”, denominação argentina para o desfile ou parada de carnaval.

Nas últimas décadas, a febre do carnaval inspirado no brasileiro, se espalhou pelas pequenas cidades da região: Santa Elena, Concepción, Chajarí e Gualeguay. A preparação das fantasias e dos enredos leva todo o ano.

O lado físico também conta: para estar com os corpos comme il faut, nestas cidades florescem as academias de ginástica, que são escassas no resto do país, mesmo em Buenos Aires (comparado com o imenso volume de academias existentes em São Paulo ou no Rio de Janeiro).

AO MODO INDÍGENA - No norte da Argentina também comemora-se o carnaval, mas com tons indígenas: na região da Puna, na fronteira com a Bolívia, o centro da festa é o “Pujillay”, isto é, o “diabo carnavalesco”, personagem da mitologia local, derivada dos incas. Sepultado desde o final do carnaval do ano anterior, o diabo é desenterrado, dando início às festas, com músicas indígenas e coloridos desfiles pelos vilarejos da região. Nestas festas os participantes mascam folhas de coca e ingerem bebidas feitas com essa planta.

Diabo desenterrado é o foco do carnaval do norte da Argentina. A festança – além das danças típicas – é complementada com suculenta gastronomia.

VOCABULÁRIO:

- Murgas: espécie de blocos

- Corsos: o desfile das murgas

- Candombe (nome que origina-se na palavra candomblé): música que embala as murgas, com ritmo de origem africano.

  E um link do Youtube com Alberto Castillo cantando um candombe-milonga clássico do final dos anos 50: “Siga el baile”. Aqui.

   

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Serpentes atacam os condenados por roubo”, ilustração de Gustave Doré(1832-1883) para a a área do “Inferno” da “Divina Comédia”, de Dante Alighieri (1265-1321).

O Tribunal Federal Número 6 da capital argentina anunciou que no dia 28 de fevereiro começará o julgamento de ex-integrantes da ditadura militar (1976-83) envolvidos no planejamento do sequestros de bebês – popularmente chamado de “roubos de crianças” – durante os sete anos de regime militar. Nesse dia sentarão no banco dos réus em Buenos Aires sete acusados, entre os quais os ex-ditadores Jorge Rafael Videla (autor do golpe de 1976 e primeiro presidente da ditadura) e Reynaldo Bignone (último ditador, antes da volta da democracia).

Processos contra militares envolvidos no sequestro de bebês durante a ditadura não são uma novidade na última meia década na Argentina, já que mais de 30 casos foram levados aos tribunais. No entanto, esta será a primeira vez que o sequestros serão considerados como parte de um plano geral de apropriação das crianças dos desaparecidos políticos para entregá-los a famílias “confiáveis” para a ditadura, que educariam as crianças.

No total, neste julgamento, participarão 80 testemunhas que prestarão depoimento sobre o funcionamento de sete maternidades clandestinas.

“Cáspite!” poderia ter exclamado Karl Wilhelm von Nägeli (1817-1891) ao ouvir a teoria do general Camps sobre genética e subversão. Von Nägeli era um botânico suíço que descobriu os cromossomos. Na ilustração, o cientista, autor de “Pflanzenphysiologische Untersuchungen”.

GENES & SUBVERSÃO - Um dos principais ideólogos do regime militar, o general Ramón Camps, que morreu em 1994, argumentava durante a ditadura que os filhos dos desaparecidos carregavam “genes de subversão”. Segundo ele, para eliminar essa característica precisavam ser criadas por famílias que defendessem o estilo de vida “ocidental e cristão”.

“Os subversivos educam seus filhos na subversão…por isso essa coisa devia ser detida. São subversivos todos aqueles que não se preocupam de fazer de seus filhos bons argentinos”, disse Camps em 1983 à revista espanhola “Tiempo”. Na entrevista o militar indicou que tinha alguns pontos de coincidência com Adolf Hitler, admitiu ser o responsável de 5 mil desaparecidos e de ter aplicado a tortura como método costumeiro.

Ex-ditadores Videla e Bignone sentarão no banco dos réus. Nesta caricatura de Hermenegildo Sábat o general Videla está à extrema esquerda, enquanto que Bignone está na extrema direita. No meio, os já falecidos ex-ditadores Viola e Galtieri.

BEBÊS - As estimativas das Avós da Praça de Mayo indicam que durante a Ditadura ao redor de 500 bebês foram sequestrados, filhos das desaparecidas. Desse total, nos últimos 34 anos foram recuperadas – ou identificadas por suas famílias biológicas – apenas 102 filhos. O paradeiro dos outros 400 bebês é desconhecido.

Grande parte das crianças nasceram em maternidades clandestinas dentro dos centros de tortura da ditadura. Após o parto as crianças eram entregues a famílias de militares sem filhos, policiais ou civis aliados da ditadura. As mães, após a entrega de seus bebês, eram assassinadas pelos militares.

Desde o final dos anos 90 as avós da Praça de Mayo contam com um banco de dados genético para cotejar as amostras de DNA das famílias dos desaparecidos e dos adultos (atualmente na faixa dos 30 aos 34 anos) suspeitos de terem sido sequestrados quando eram recém-nascidos.

O TIGRE E O PEQUENO JESUS – Também estará no banco dos réus o capitão de corveta Jorge ‘Tigre’ Acosta, famoso pelos requintes de crueldade que aplicava aos civis detidos, uma das “estrelas” da ESMA. Ele era um dos principais sequestradores dos bebês de prisioneiras da ESMA. Calcula-se que em sua maternidade clandestina nasceram mais de cem bebês.

Acusado do seqüestro de bebês, torturas e assassinatos, Acosta era apelidado de “tigre” por sua ferocidade. Segundo testemunhas, o capitão de corveta falava sozinho à noite, em delírio místico. O próprio Acosta explicava que conversava com “Jesucito” (O pequeno Jesus), ao qual peguntava qual dos prisoneiros deveria torturar no dia seguinte. Acosta foi um dos criadores dos “vôos da morte” (vôos sobre o rio da Prata ou o mar, desde os quais eram jogados os prisioneiros, ainda vivos).

 

E falando em tigres, a “Chasse au tigre”, de Eugène Delacroix (1798-1863). O quadro, que mostra um feroz tigre que ataca um cavalo e cavaleiro, está no Musée d’Orsay.

FEBRES, SEQUESTRADOR AUSENTE POR MORTE (E O CASO PECULIAR DE SÊMEN NO RETO)

 

Morto por cianureto, Héctor Febres, conhecido por seu sadismo,tinha sêmen no reto quando faleceu.

Um dos ausentes do julgamento sobre sequestro de bebês será ex-Chefe da Guarda Costeira Héctor Febres, notório por seu extremo sadismo, que o levou a torturar bebês e crianças para arrancar confissões dos pais, presos políticos.

Febres morreu no dia 10 de dezembro de 2007, o dia internacional dos Direitos Humanos, que também coincidiu com a posse da nova presidente, Cristina Fernández de Kirchner. Naquele dia a Justiça anunciou que o ex-torturador havia falecido por uma dose cavalar de cianureto.

ESPERMATOZÓIDES MISTERIOSOS & DITADURA - A segunda surpresa surgiu dias depois, quando o jornal “Perfil” denunciou que a autópsia também registrou a presença de sêmen no reto de Febres.

As suspeitas concentram-se sobre uma misteriosa visita masculina que teria jantado com Febres em sua cela na prisão da Guarda-Costeira, onde aguardava o julgamento. Os registros sobre a identidade do homem que o visitou desapareceram. A suspeita é que ele poderia ser o dono do sêmen encontrado no corpo de Febres, além de ter sido o responsável de ter entregue o cianureto (para um caso de suicídio) ou de tê-lo colocado na bebida do ex-torturador (no caso de assassinato).

Às especulações sobre o cianureto acrescentam-se dúvidas sobre a vida sexual do ex-torturador (e de eventuais privilégios concedidos por parte dos carcereiros para que o prisioneiro tivesse permissão para visitas com o fim de coito). Não houve conclusões sobre as hipóteses de relação física consentida (sem preservativos) ou a de que tenha sido violado horas antes de seu falecimento.

As circunstâncias da morte de Febres estão rodeadas de mistério. Ele faleceu cinco dias antes do veredito de seu primeiro julgamento (este teria sido o segundo), fato que levou os organismos de defesa dos Direitos Humanos a suspeitar que foi assassinado por ex-colegas seus como “queima de arquivo”.

As ONGs consideram que Febres – que, ao que tudo indica, seria condenado a 25 anos de prisão – pretendia “contar o que sabia”, especialmente sobre o paradeiro de bebês seqüestrados durante o regime militar.

“SELVA” – Febres, uma das principais figuras da ESMA, era famoso por seu desenfrenado sadismo. Sobreviventes relatam que, quando aplicava choques elétricos nos prisioneiros, ficava “alucinado” e gargalhava enquanto ouvia os gritos dos torturados. Um dos sobreviventes relatou como Febres lhe pediu gentilmente que consertasse o aparelho de choques elétricos, que logo depois utilizaria no próprio prisioneiro.

Na ESMA os torturadores costumavam ter apelidos referentes a animais. Esse era o caso do capitão Jorge Tigre” Acosta e do tenente Alfredo Corvo” Astiz. Mas, Febres era chamado de “Selva”, já que “era o conjunto de todos os animais”. 

E falando em selva, “O leão e o antílope”, de 1905, por Henri Rousseau.

  

 E, saindo do assunto espermático, passando para o musical, para aliviar um pouco a leitura dos terrores cometidos pelos ex-integrantes da ditadura, de Giacomo Puccini, o “Agnus Dei”. Aqui.

E também de Puccini, a irônica ária “Quando m’en vo”, de “La Bohème”. Com a belíssima Anna Netrebko, aqui.

E com Bryn Terfel, “Non piu andrai farfallone amoroso”, das “Bodas de Figaro”, de W.A.Mozart. Aqui.

E nada  a ver com os estilos acima, Fred Buscaglione canta o swing boogie “Teresa non sparare”, hit dos anos 50 na Itália, aqui.

E mais uma versão do “Teresa non sparare”, com a Maxentia Big Band, aqui.

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Nicolaides, general que ordenou a queima dos comprometedores arquivos da ditadura militar argentina

Declarado admirador de Adolf Hitler, o general Cristino Nicolaides morreu neste fim de semana por problemas pulmonares na cidade de Córdoba, onde estava em prisão domiciliar. O general, de 86 anos, foi o autor da ordem direta de queimar os arquivos da ditadura militar argentina (1976-83) que continham informações sobre o paradeiro dos corpos dos desaparecidos, os bebês sequestrados e a estrutura e funcionamento dos centros clandestinos de tortura. A ordem foi emitida em novembro de 1983, um mês antes da volta da democracia, quando Nicolaides era o chefe do Exército durante o governo do general Reynaldo Bignone, o último ditador.

Nos anos anteriores Nicolaides havia sido um dos articuladores do Plano Cóndor, o esquema de intercâmbio de prisioneiros e colaboração de inteligência das ditaduras do Cone Sul nos anos 70.

Um mês antes do fim do regime militar Nicolaides preparou um relatório sobre os mortos da Ditadura, que denominou “Documento Final sobre a Luta contra a Subversão e o Terrorismo”, onde declarava a morte de todos os desaparecidos.

O documento destacava que todas as crianças nascidas em cativeiro estavam mortas.

Em 2007 Nicolaides foi condenado a 25 anos de prisão pelo sequestro e morte – sem julgamento prévio – de integrantes do grupo Montoneros que haviam retornado ao país em plena ditadura para realizar uma “contraofensiva” contra o regime militar.

Em dezembro do ano passado a Justiça comunicou ao militar que teria que voltar ao banco dos réus em fevereiro para ser julgado ao lado de seus ex-colegas de ditadura, os generais e presidentes Jorge Rafael Videla e Reynaldo Bignone, sobre o plano sistemático de sequestro de crianças, filhos dos desaparecidos.

No entanto, há poucas semanas seus advogados convenceram os juízes de que Nicolaides não estava em condições “mentais” de comparecer ao tribunal. Desta forma, poucos dias antes de morrer, o general conseguiu uma dispensa.

Seus parentes mantiveram sigilo sobre sua morte no sábado e somente comunicaram o óbito à Justiça Federal quando o corpo do militar já havia sido cremado no domingo.

Nicolaides era declarado admirador declarado do Führer Adolf Hitler. Acima, o vegetariano e austríaco líder do Terceiro Reich – antes de ser Führer – treina em 1930 sua sui generis gestualidade no estúdio do fotógrafo Heinrich Hoffmann.

MARX E CRISTO - Anticomunista ferrenho, Nicolaides era famoso por frases peculiares sobre o marxismo. “Há uma ação marxista-comunista na esfera internacional, que tem vigência há muito tempo. O marxismo persegue a Humanidade desde 500 anos antes de Cristo”, disse em 1981 durante uma conferência sobre políticos e sindicalistas.

 

Teoria do general argentino indicava que marxismo já existia uns 500 anos antes de Cristo

QUEIMA DE DOCUMENTOS - Pouco antes da volta à democracia, em 1983, no governo do ditador Reynaldo Bignone, o general Cristino Nicolaides ordenou a queima de todos os documentos relativos à repressão implementada pelo regime militar nos sete anos anteriores.

Na ausência de documentos, nos últimos 28 anos a Justiça teve que recorrer a um verdadeiro quebra-cabeça de informações dos sobreviventes dos campos de detenção e tortura, depoimentos de policiais e militares arrependidos, além de vestígios dos ossos das pessoas assassinadas pelo regime que foram identificados por antropólogos.

Entre os poucos papéis encontrados desde 1983 estão uma pequena parte dos arquivos secretos de “La Bonaerense”, a temida polícia da província de Buenos Aires, além de documentos do “Plano Condor” encontrados em Assunção, Paraguai, nos anos 90. 

 

General e ditador Reynaldo Bignone (à direita), acompanhado por seu chefe do Exército, o general Nicolaides (à esquerda).

QUEM É QUEM – O general Bignone foi o presidente da última Junta Militar da Ditadura. Ele governou o país após ter derrubado o general Leopoldo Fortunato Galtieri, cujo fracasso na Guerra das Malvinas (março-junho 1982) provocou sua queda.

Bignone, a contragosto, foi o encarregado de administrar a retirada dos militares do cenário político argentino e preparar as eleições de dezembro de 1983.

Antes de deixar o poder, no entanto, eliminou todos os documentos sobre a repressão e os 30 mil desaparecidos. Nessa destruição no último mês da Ditadura, quando era evidente que venceria o candidato da União Cívica Radical, Raúl Alfonsín, que havia prometido averiguar o paradeiro dos desaparecidos, foram queimadas as listas dos nomes dos mortos e onde haviam sido enterrados.

Além da destruição das evidências documentais, nas últimas semanas Bignone também tentou criar um aparato jurídico que protegesse os repressores dos processos da Justiça que poderiam vir na volta da Democracia. Para isso, decretou a Lei de Pacificação Nacional, onde anistiava todos aqueles que haviam cometido graves violações aos Direitos Humanos. A revogação dessa lei foi a primeira medida que Alfonsín tomou ao chegar ao poder.

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Ex-ditador tentou argumentar – citando Santo Tomás de Aquino – que a ditadura havia feito uma “guerra justa”. Na foto, Videla – acompanhado por uma freira – em visita ao Chile, país na época comandado pelo general Augusto Ramón Pinochet. Nessa época, 1978, a ditadura argentina já havia matado 20 mil do total 30 mil desaparecidos em todo o período do regime militar, além de implantar 540 campos de detenção e tortura (dos mais diversos tamanhos) em todo o país. Paralelamente, Videla ia à missa todas as manhãs.

 ex-ditador e ex-general Jorge Rafael Videla, de 85 anos, passará o resto de seus dias na prisão. Essa foi a determinação do Tribunal Oral Federal Número Um da cidade de Córdoba, na região central do país, condenou à prisão perpétua o arquiteto do golpe de Estado que em março de 1976 implantou uma ditadura que durou sete anos, ao longo dos quais foram torturados e assassinados 30 mil civis.

O tribunal considerou Videla responsável direto de trinta e um assassinatos (camuflados na época como simulacros de fugas) e cinco torturas ocorridos em 1976 na Unidade Penitenciária San Martín, transformada na época em um campo de concentração de prisioneiros políticos nos primeiros meses do regime militar. Os presos haviam sido detidos meses antes, durante a democracia, antes do golpe de Videla.

Organizações de defesa dos Direitos Humanos, que haviam feito uma vigília ao longo do dia do lado de fora do edifício do tribunal em Córdoba, celebraram com estrépito o anúncio da condenação do ex-ditador. Outros 29 ex-integrantes da ditadura envolvidos nos crimes de Córdoba – entre eles o general Luciano Benjamín Menéndez – também foram condenados.

O prêmio Nobel da Paz de 1980, o argentino Adolfo Pérez Esquivel, estava presente na sala do tribunal.

O julgamento trouxe à tona uma série de depoimentos dramáticos, entre eles os de David Andematten, um dos sobreviventes do centro de detenção UP1, que relatou que os militares estupravam constantemente as mulheres detidas.

Na véspera do veredicto Videla havia feito uma prolongada defesa das ações do regime militar e alegou a “necessária crueldade” da ditadura. O ex-ditador também sugeriu que a “sociedade argentina” havia sido cúmplice da ditadura, já que, segundo ele, “não existiam vozes contrárias” ao regime militar. Videla também disse que sua sentença seria “injusta” e que ele era um “bode expiatório”.

 

‘O MAL EM SEU ESTADO PURO’ - María Seoane, que com Vicente Muleiro escreveu “O Ditador”, uma detalhada biografia não-autorizada do ex-general, disse ontem ao Estado – em entrevista telefônica – que “Videla não se arrepende de nada, pois voltaria a matar todos aqueles que matou. Não há nenhum rastro de arrependimento nele. É o mal em estado puro!”

Segundo Seoane, “Videla reunia-se com o chefe de inteligência antes de ir à missa de manhã cedo. Nessas reuniões informava-se sobre quantos inimigos o regime havia assassinado no dia anterior e como estavam funcionando os 540 campos de concentração da ditadura”.

Seoane, autora de diversos livros sobre a História recente argentina, sustenta que Videla e seus sucessores na ditadura (os generais Roberto Viola, Leopoldo Galtieri e Reynaldo Bignone) “não foram os mentores intelectuais do golpe, mas sim o braço armado dos grupos econômicos que respaldaram o golpe militar. Eles fizeram as matanças por dinheiro, para implantar seu modelo econômico. Depois, deram uma roupagem ideológica como o ‘combate ao comunismo’ e essas coisas. Mas, no fundo, era tudo por uma questão de dinheiro”.

 

‘GUERRA JUSTA’ E SANTO TOMÁS - “Uma guerra justa, como dizia Santo Tomás de Aquino”. Com estas palavras, Videla defendeu na terça-feira a atuação de seu governo na repressão de civis considerados “subversivos” pela ditadura. Vestido como um civil, com terno jaquetão, Videla falou com voz firme durante 45 minutos no Tribunal Oral Federal Número Um. Seu discurso foi transmitido ao vivo pelos principais canais de TV do país.

Videla insistiu na teoria de que nos anos 70 a Argentina estava sendo assolada por uma  “guerra interna” provocada por “subversivos estimulados pela União Soviética”. Segundo ele, para defender “o tradicional estilo de vida dos argentinos” foi necessário apelar às forças armadas e “aniquilar” os “grupos terroristas”.

Videla argumentou que lei na época permitia “aniquilar” os “subversivos”: “me nego a aceitar a expressão ‘guerra suja’, pois foi uma guerra limpa, defensiva. Como dizia Santo Tomás, há guerras injustas e justas. E esta foi uma guerra justa”.

Videla, sem citar a censura que imperava durante seu governo e o exílio ou prisão dos opositores, ressaltou que a ditadura “contou com adesão majoritária da população, por isso não houve vozes contra

MENÉNDEZ CONTRAFÁTICO - Poucas horas antes do anúncio dos veredictos, outro dos condenados, o general Luciano Benjamín Menéndez, afirmou que há sete anos (em referência ao período em que foram intensificadas as novas investigações sobre os crimes da ditadura) a Argentina está sob a violação sistemática da Constituição. Já são sete anos de autoritarismo!”.

Menéndez, que está em prisão preventiva desde 2008, já acumulava outras quatro condenações a prisão perpétua.

O general fez um jogo de História contrafática e disse que se o Exército Revolucionário do Povo (ERP, uma guerrilha que não tinha mais de mil integrantes, dos quais apenas um terço estava armado) tivesse vencido a “guerra” contra os militares “tudo seria conduzido por um governo totalitário”. Segundo ele, “os subversivos queriam assaltar o poder para transformar a Argentina em um satélite da Rússia. A subversão tinha como objetivo a alma de nosso povo”.

Menéndez sustentou que os “subversivos” dos anos 70 estão “atualmente no poder” na Argentina.

“EL PROCESO” - Videla organizou o golpe de 24 de março de 1976 que derrubou a presidente María Estela Martínez de Perón, mais conhecida como “Isabelita”. Na época o general batizou o novo regime de “Processo de Reorganização Nacionla”, popularmente conhecido como “El Proceso”. Ele governou a Argentina durante cinco anos (do total de sete da ditadura).

 

“El Turco” Julián dizia que era o Deus do circuito de centros de torturas. Deus, na ilustração de Julius Schnorr von Carolsfeld, 1860.

‘DEUS DA VIDA E DA MORTE’ PASSARÁ RESTO DE SEUS ANOS NA PRISÃO

 O Tribunal Oral Federal Número 2 da capital argentina condenou à prisão perpétua no final da noite da terça-feira o ex-policial Julio “El Turco” Simón, que operava no circuito dos campos de detenção e tortura de El Olimpo, Club Atlético e Banco, onde foram assassinados ao redor de 1.500 civis, entre os quais velhos e crianças. Os ex-torturadores que operavam neste circuito foram acusados de torturas, sequestros, estupros e assassinatos.

O tribunal também deu veredicto sobre outros dezesseis ex-torturadores que atuaram nesse circuito. Do total, onze foram condenadas à perpétua e quatro a 25 anos de prisão. Um dos réus, Juan “Kung Fu” Falcón, por falta de provas suficientes, foi absolvido.

A “estrela” do grupo era Simón, famoso por estuprar as prisioneiras na frente de seus maridos, com a justificativa de que o fazia “pela Pátria”. Ele ficou notório por seu sadismo extremo com os prisioneiros judeus (aos quais empalava com um cabo de vassoura) e deficientes físicos (que costumava jogar do alto de uma escada).

Simón ostentava uma braçadeira com uma suástica durante as sessões de tortura, enquanto ouvia fitas de marchas alemãs e discursos de Adolf Hitler.

BANHEIRO - Durante a leitura de sua sentença Simón quis sair da sala do tribunal. No entanto, os juízes não permitiram que se ausentasse durante a leitura. Simón retrucou que necessitava ir ao banheiro: “mas estou a ponto de urinar em minhas calças!”. A juíza Maria Garrigós de Rébori deu a tréplica: “não pode sair da sala”.

Em seus tempos de glória durante o regime militar, Simón definia a si próprio como “Deus da vida e da morte”.

CÓNDOR - Outro integrante do grupo é o ex-agente de inteligência Raúl Guglielminetti, um dos principais homens do “Plano Cóndor”, como foi denominado o sistema de captura e intercâmbio de prisioneiros políticos e informação entre as Ditaduras do Cone Sul nos anos 70.

Guglielminetti adquiriu notoriedade nas forças de segurança quando – entre 1974 e 1975 – foi o braço direito de Aníbal Gordon, chefe da organização para-militar “Triple A” (Tríplice A). Após o golpe de 1976 ele transformou-se no chefe do poderoso Batalhão 601 de Inteligência. No início dos anos 80 Guglielminetti foi enviado pelos militares para colaborar com os “contras” da Nicarágua, onde especializou-se na lavagem de dinheiro proveniente do narcotráfico.

Guglielminetti foi condenado a 25 anos de prisão.

Além deles também sentou no banco dos réus Ricardo Taddei, que simulava ser um sacerdote católico para ouvir confissões dos prisioneiros, aos quais posteriormente “absolvia” ou “castigava”. O ‘padre’ foi condenado a 25 anos de prisão.

Convescote de ditadores: os colegas Videla e Pinochet em 1978.

CRONOLOGIA DA DITADURA E ASSUNTOS RELATIVOS

1976-1983  – Ditadura Militar

1983 – Volta à democracia

1985 – Início dos julgamentos aos militares

1986 – Rebeliões militares. Primeira lei do perdão, a ‘Ponto Final’

1987 – Mais rebeliões militares. Segunda lei do perdão, a ‘Obediência Devida’

1990 – A última rebelião militar. Indulto às cúpulas militares

1998-99 – Abertura dos processos por sequestros de crianças, crime não incluído nos julgamentos dos anos 80

2005-2007 – Revogação das Leis do Perdão e abertura de novos julgamentos.

E, como fazemos tradicionalmente, recordamos de forma esquemática algumas características da ditadura argentina:

MODALIDADES DE ASSASSINATOS

Formas de assassinar civis, por parte dos militares, durante a Ditadura:

- Jogar pessoas vivas, desde aviões, sobre o rio da Prata ou o Oceano Atlântico.

- Juntar prisioneiros, amarrados, e dinamitá-los.

- Fuzilamento.

- Morte por terríveis torturas

 MODALIDADES DE TORTURAS

- Picana elétrica: criada nos anos 30 na Argentina por Leopoldo Lugones Hijo, filho do escritor Leopoldo Lugones. Era o instrumento para assustar o gado com choques elétricos. Aplicado a seres humanos, tornou-se no instrumento preferido de tortura na Argentina.

- Submarino molhado: afundar a cabeça de uma pessoa em uma tina d’água. Ocasionalmente a tina também estava cheia de excrementos humanos.

- Submarino seco: colocar a cabeça de uma pessoa dentro de um saco de plástico e esperar que ela ficasse quase asfixiada.

- O rato no cólon: colocação de um rato, faminto, no cólon de um homem. Nas mulheres, o rato era colocado na vagina.

Diversas testemunhas indicam que os torturadores argentinos ouviam marchas militares do Terceiro Reich e discursos de Adolf Hitler enquanto torturavam.

OS MORTOS
- Durante a Ditadura, militares e policiais argentinos assassinaram ao redor de 30 mil civis (segundo organismos de defesa dos Direitos Humanos argentinos e organizações internacionais), a maioria dos quais sem militância na guerrilha.
 
- Os militares afirmam que assassinaram “somente” 8 mil civis (segundo declarações do próprio general e ex-ditador Reynaldo Bignone, à TV francesa)
 
- Segundo os próprios militares, a guerrilha e grupos terroristas assassinaram 900 pessoas, a maioria dos quais militares e policiais.
 
BEBÊS
- Durante a Ditadura 500 bebês foram sequestrados, filhos das desaparecidas (segundo dados das Avós da Praça de Mayo)
- 102 crianças desaparecidas foram recuperadas ou identificadas por suas famílias biológicas

FRACASSOS ECONÔMICOS E MILITARES: Além de ter sido a mais sanguinária Ditadura foi um fracasso tanto na área militar como na esfera econômica.

Fiascos Militares:

- Entre 1976 e 1978 a Ditadura colocou quase a totalidade das Forças Armadas para perseguir uma guerrilha que já estava praticamente desmantelada desde antes do golpe, em 1975. Analistas militares destacam que este desvio das Forças Armadas argentinas (que havia iniciado no final dos anos 60 mas intensificou-se a partir do golpe) reduziu drásticamente o profissionalismo dos militares. 

- Em 1978, a Junta Militar argentina levou o país a uma escalada armamentista contra o Chile. Em dezembro daquele ano, a invasão argentina do território chileno foi detida graças à intermediação papal. O custo da corrida armamentista colocou o país em graves problemas financeiros.

- Em 1982, perante uma crise social, perda de sustentabilidade política e problemas econômicos, o então ditador Leopoldo Fortunato Galtieri – famoso por seu intenso approach ao scotch – decidiu invadir as ilhas Malvinas para distrair a atenção da população. Resultado: após um breve período de combate, os oficiais do ditador renderam-se às tropas britânicas.

Desastres econômicos:

- Em sete anos de Ditadura, a dívida externa subiu de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões.

- A inflação do governo civil derrubado pela Ditadura, que era considerada um índice “absurdo alto” pelos militares havia sido de 182% anual. Mas, este índice foi superado pela política econômica caótica da Ditadura, que encerrou sua administração com 343% anual.

- A pobreza disparou de 5% da população argentina para 28%

- A participação da indústria no PIB caiu de 37,5% para 25%, o que equivaleu a um retrocesso dos níveis dos anos 60.

- Além disso, a Ditadura criou uma ciranda financeira, conhecida como “la plata dulce”, ou, “o doce dinheiro”.

- Ao mesmo tempo em que tomavam medidas neoliberais, como a abertura irrestrita das importações, os militares continuavam mantendo imensas estruturas nas empresas estatais, que transformaram-se em cabides de emprego de generais, coronéis e seus parentes.

- Os militares também estatizaram US$ 15 bilhões de dívidas das principais empresas privadas do país (além das filiais argentinas de empresas estrangeiras).

- No meio desse caos econômico, os militares provocaram um déficit fiscal de 15% do PIB.

- A repressão provocou um êxodo de centenas de milhares de profissionais do país. Os militares, em cargos burocráticos, exacerbaram a corrupção na máquina estatal.

‘GUERRA’ OU REBELIÃO LOCALIZADA? – Os militares deram o golpe e instauraram a ditadura mais sanguinária da História da América do Sul (América do Sul, não América Latina) com o argumento (um dos vários) de que a guerrilha controlava grande parte do país. Segundo os ex-integrantes da ditadura, os militares argentinos implementaram uma “guerra”.

No entanto, trata-se de um exagero para justificar os massacres cometidos durante a ditadura.

A pequena guerrilha argentina, mais especificamente o ERP, dominava às duras penas uma pequena porcentagem da província de Tucumán, a menor província da Argentina.

A magnificação da guerrilha foi útil para os militares e também para o prestígio dos guerrilheiros. A nenhum dos dois lados era conveniente admitir a realidade, de que a área controlada pela guerrilha era ínfima.

Os militares e os setores civis que apoiaram o golpe (e os saudosistas daqueles tempos) afirmavam (e ainda afirmam) que o país estava em guerra civil nos nos 70.

Mas, “guerra civil”, rigorosamente, seriam conflitos de proporções mais substanciais, tais como a Guerra da Secessão dos EUA, a Guerra Civil Espanhola, a Guerra Civil Russa logo após a proclamação do Estado Soviético, a Guerra das Duas Rosas (Lancasters versus Yorks, na Inglaterra) ou a Guerra Civil da Grécia após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Ainda: a Guerra Civil da Nicarágua, e a de El Salvador. Isto é: bombardeios de cidades, grandes êxodos de refugiados, centenas de milhares de mortos, uma boa parte de um país controlado por um dos lados, e outra parte controlada por outro lado. Isso não ocorreu na Argentina nos anos 70.

E o humor ácido de Quino sobre os regimes ditatoriais:

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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