Tirinha do genial, sarcástico e ácido – e delirante – cartunista argentino Gustavo Sala, que ilustra o suposto rendez-vous Borges/Jagger. Nela, o roqueiro encontra casualmente Borges no hall de um hotel e diz: “Mestre! Que maravilha encontra-lo aqui. Li toda sua obra e o admire profundamente… Sou Mick Jagger, dos Rolling Stones”. Borges responde sorrindo: “Adoro os Rolling Stones! Principalmente ao canção Yellow Submarine”. Jagger fica fulo da vida e retruca: “Yellow Submarine é dos Beatles. No fim das contas, você, Bioy Casares, é meio panaca”. Agora é Borges que fica furioso com a confusão com Bioy e responde: “Eu sou Borges! Ta de gozação, cabeça de cacete?”. Jagger se afasta dizendo “Velho forro (gíria chula para preservativo, mas neste caso com equivalência para “imbecil”)!”. Borges resmunga: “Careta!”. O blog do cartunista, aqui.
Caras e caros,
Estava pendente há semanas a última postagem da “Semana borgiana de Os Hermanos” (para recordar os 25 anos do falecimento do escritor Jorge Luis Borges). Mas, por causa da cobertura da cúpula do Mercosul em Assunção, da crise do River Plate, do lançamento oficial da candidatura de Cristina Kirchner à reeleição presidencial, e do início da Copa América (acompanhada de forte conteúdo político), o epílogo da semana borgiana foi adiada e novamente adiada.
O escritor Jorge Luis Borges admirava o roqueiro Mick Jagger, líder dos Rolling Stones?
Pelo menos isso é o que Maria Kodama, ex-aluna e ex-secretária do escritor, que casou-se com ele meses antes da morte de Borges em junho de 1986, me disse em uma entrevista no final de 1995, poucos meses depois que desembarquei em Buenos Aires.
Anos depois Kodama explicou a um jornal europeu que Borges preferia Pink Floyd e que sabia os diálogos de “The Wall” de memória. “Ele gostava muito de sua música, pois dizia que tinha uma força especial e que o fazia sentir-se bem”. Segundo Kodama, nos aniversários de Borges não cantavam o tradicional “parabéns pra você”, mas sim “The Wall”.
O assunto roqueiro ficou fora da agenda de Kodama até poucos anos atrás, quando ela voltou a falar sobre a conexão O Aleph-Satisfaction.
Desta vez, ela ampliou a versão do rendez-vous entre a eminência da literatura e o bardo do rock, afirmando que ela e o escritor estavam sentados no hall de um hotel na Europa quando entrou Mick Jagger.
O roqueiro vê Borges, e deleitado pelo encontro, ajoelha-se na frente de Borges e diz: “mestre, que maravilha encontrá-lo, o senhor não sabe quando o admiro. Li toda sua obra”.
Borges, que já estava cego, pergunta: “e o sr, quem é?”
O roqueiro responde: “Mick Jagger”.
Borges exclama: “Mick Jagger! Um dos Rolling Stones”.
Segundo Kodama, a conversa continuou assim:
- Mas como, mestre, o sr, me conhece?
- Sim, sim, o conheço através de Maria, que permitiu que eu o descobrisse.
A afirmação de Kodama sempre me chamou a atenção. Mais ainda depois da entrevista que fiz com ela após ter desembarcado em Buenos Aires em 1995. E mais ainda depois de ficar sabendo as peculiares circunstâncias de seu casamento feito por um cônsul paraguaio … que não era cônsul nem paraguaio (para mais detalhes, ver a anterior postagem sobre Borges, aqui). Ao longo destes anos, em todas as ocasiões nas quais entrevistava amigos de Borges ou seus estudiosos, perguntava se esta história tinha sentido.
A afirmação de Kodama sempre me chamou a atenção. Mais ainda depois da entrevista que fiz com ela após ter desembarcado em Buenos Aires em 1995. E mais ainda depois de ficar sabendo as peculiares circunstâncias de seu casamento feito por um cônsul paraguaio … que não era cônsul nem paraguaio (para mais detalhes, ver a anterior postagem sobre Borges, aqui). Ao longo destes anos, em todas as ocasiões nas quais entrevistava amigos de Borges ou seus estudiosos, perguntava se esta história tinha sentido.
O primeiro foi seu amigo e escritor Adolfo Bioy Casares, que riu quando lhe perguntei se Borges apreciava o rock. Bioy me disse que a tinha a sensação de que Kodama estava tentando fazer o escritor parecer “juvenil”.
“Ele não ouvia rock, posso garantir”, afirmou.
Anos depois, ao terminar uma entrevista com Fani Uveda, empregada da família Borges durante mais de quatro décadas, também fiz a pergunta sobre Jagger e seu gênero musical.
Fani, que tinha poucos anos de vida pela frente, levantou as sobrancelhas, surpreendida pela pergunta. “Não, o senhor Borges não ouvia rock. Nunca”, disse categórica. “Ele nem sabia quais eram os cantores de rock”, arrematou.
Há poucas semanas entrevistei Maria Esther Vázquez, biógrafa e amiga de Borges, fiz a pergunta clássica que fiz nestes anos todos a amigos e conhecidos de Borges. A resposta foi: “Besteira”.
“Borges não gostava de rock. Mas gostava dos blues, dos tristes spirituals. E além disso, Borges não tinha ouvido musical algum. Cantava o hino nacional com a mesma melodia que podia cantar o tango El Pollito (O Franguinho)”.
O Tango “El pollito”, aqui.
E também aqui.
E aqui.
E para encerrar este galináceo tango, na versão da Orquestra Típica Budapest, aqui.
Segundo Vázquez, “Borges gostava das milongas (versão mais rápida do tango, menos sofisticadas). E gostava dos primeiros tangos, sem letras. No entanto, uma vez, nos EUA, estávamos em um auditório quando tocaram o tango “Nostalgias”. Subitamente, ouvi alguém chorando. Olhei para o lado, e vi que era Borges. Emocionara-se pela música, que a estava ouvindo tão longe de sua terra”.
Alejandro Vaccaro, presidente da Sociedade Argentina de Escritores (Sade), ri quando ouve a consulta sobre Borges-Jagger: “É um disparate. As pessoas tem o direito de dizer qualquer coisa que quiserem. Mas essa história dos Rolling Stones é um disparate”.
“Além disso, Borges não tinha sequer rádio em sua casa, nem TV. E nem um toca-fita ou tocadisco”, explica Vaccaro. “Parece que uma vez, na Europa, os dois se viram em um hotel. Jagger o cumprimentou. Ele era um admirador de Borges. Jagger havia participado de um filme, Performance, no qual lia um trecho de um conto de Borges. Talvez Borges, por cortesia, disse que gostava dele. Mas só isso. Borges, com certeza, não ouvia os Rolling Stones”.
Filme com Robert Redford e Jane Fonda, “Descalços no parque”, tem um quê do não-borgiano poema de Nadine Stair/Strain
INSTANTES
Outro mito sobre Borges é suposta poesia “Instantes”, que tece uma longa lista de atividades que a pessoa que o escreve diz que gostaria de ter feito antes de morrer. Nesse poema, em tom de “auto-ajuda”, a pessoa indica que possui 85 anos e que desejaria ter comido mais sorvete, caminhar sob a chuva, etc. A confusão começou imediatamente após a morte do escritor, quando foi divulgado em todo o mundo um poema que celeremente pipocou em posters em quartos de repúblicas estudantis, cartões de parabéns, marcadores de livros e nos cadernos de colegiais.
Muitos leitores consideraram automaticamente que este era um real poema de Borges, mais ainda porque o autor cita a idade de 85 anos no texto (Borges morreu aos 86, em 1986). Isto é, como se fosse um texto que Borges teria preparado pouco antes de morrer.
Talvez tenha sido o poema “de Borges” mais conhecido em todo o planeta. Mas, na realidade era da poetisa Nadine Stair, de Louisville, Kentucky, EUA. Essa peça foi publicada em 1978.
Bom, o problema é que não existe nenhuma Nadine Stair…
Existia sim, uma Nadine Strain na mesma cidade.
E, quando o texto de Stair/Strain foi publicado, ela tinha 85 anos, a idade citada no poema.
Este é o poema da polêmica, em espanhol:
Si pudiera vivir nuevamente mi vida.
En la próxima trataría de cometer más errores.
No intentaría ser tan perfecto, me relajaría más.
Sería más tonto de lo que he sido, de hecho
tomaría muy pocas cosas con seriedad.
Sería menos higiénico.
Correría más riesgos, haría más viajes, contemplaría
más atardeceres, subiría más montañas, nadaría más ríos.
Iría a más lugares adonde nunca he ido, comería
más helados y menos habas, tendría más problemas
reales y menos imaginarios.
Yo fui una de esas personas que vivió sensata y prolíficamente
cada minuto de su vida; claro que tuve momentos de alegría.
Pero si pudiera volver atrás trataría de tener
solamente buenos momentos.
Por si no lo saben, de eso está hecha la vida, sólo de momentos;
no te pierdas el ahora.
Yo era uno de esos que nunca iban a ninguna parte sin termómetro,
una bolsa de agua caliente, un paraguas y un paracaídas;
Si pudiera volver a vivir, viajaría más liviano.
Si pudiera volver a vivir comenzaría a andar descalzo a principios
de la primavera y seguiría así hasta concluir el otoño.
Daría más vueltas en calesita, contemplaría más amaneceres
y jugaría con más niños, si tuviera otra vez la vida por delante.
Pero ya tengo 85 años y sé que me estoy muriendo.
O suposto poema borgiano espalhou-se pelo mundo, levando o próprio integrante do U-2, o irlandês Bono, a falar sobre o poema durante o programa Teleton, na TV mexicana em 2005, citando Borges como o autor real. Pior: disse que Borges era um escritor chileno….
A própria escritora mexicana Elena Poniatowska, uma das mais respeitadas intelectuais de seu país, também caiu na armadilha de Stair/Strain (mas ela sabia que Borges era argentino).
Caricatura do cartunista (e poeta nas horas vagas) americano Don Herold, autor da – eventual – primeira versão do polêmico “Instantes”
E, quando a coisa parece saborosa…a história fica mais interessante! Acontece que o caricaturista Don Herold havia escrito no distante 1953 o poema “If I had my life to live over”, publicado no Reader’s Digest de outubro daquele ano, que é, praticamente, a base do poema de Stair/Strain-Borges:
I had my life to live over, I would try to make more mistakes. I would relax. I would be sillier than I have been this trip. I know of very few things that I would take seriously. I would be less hygienic. I would go more places. I would climb more mountains and swim more rivers. I would eat more ice cream and less bran.
Mais detalhes sobre Stair/Strain e Herold, aqui.
E aqui.
EPITÁFIO
E agora, para encerrar, lhes deixo um artigo do amigo e escritor colombiano Hector Abad Faciolince, que trata de uns poemas supostamente atribuídos a Borges… mas que seriam, na realidade, poemas de Borges. De Jorge Luis Borges, mesmo.
Desta forma, estes poemas fazem o caminho contrário de Nadine Stair/Strain, que foram encarados primeiro como textos verdadeiramente borgianos para serem posteriormente desmascarados.
Neste caso da pesquisa feita por Faciolince os poemas foram inicialmente considerados de Borges e posteriormente foram tachados de falsos… mas, anos depois, o escritor colombiano e outros intelectuais chegaram à conclusão que eram da pena do autor de “O Aleph”.
O poema, intitulado “Epitáfio”, era este:
Faciolince o encontrou no bolso de seu pai, um médico sanitarista que trabalhava com políticas públicas, assassinado em um atentado na violenta Medellín em agosto de 1987. O escritor colocou as linhas do poema achado no bolso e atribuído a Borges na lápide de seu pai.
Mais detalhes, aqui.
e aqui.
E mais, aqui.
EPÍLOGO
Na conversa com Vaccaro, o biógrafo e colecionador de Borges me disse que está trabalhando em outro projeto – “Borges, textos secretos e as falsas atribuições” – que reunirá, além de pequenas obras quase desconhecidas (ou esquecidas), os “falsos Borges”. No caso da pesquisa de Faciolince, Vaccaro considera que é uma investigação séria e que os poemas são verdadeiros.
“Durante muitos anos juntei textos pouco conhecidos de Borges, como o famoso folheto sobre a leite coalhada que fez com Bioy Casares”, disse. No entanto, ainda não há prazo para que essa obre chegue às livrarias: “não trabalho com datas nem pressa”.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
Jorge Luis Borges e María Kodama durante uma viagem no início dos anos 70. Nesta semana completaram-se 25 anos da morto do escritor na cidade de Genebra, Suíça, no dia 14 de junho de 1986. Esta postagem é parte da “Semana Borgiana” de nosso blog.
O lugar do derradeiro descanso do escritor argentino Jorge Luis Borges foi objeto de intensa polêmica ao longo do último quarto de século. A discussão começou meses antes da morte do escritor – que estava com um câncer terminal – quando seus amigos descobriram que sua secretária, Maria Kodama, havia levado Borges embora da Argentina e casado com ele por procuração por intermédio de Gustavo Grament Berres, que apresentava-se como cônsul paraguaio em Genebra.
A saída de Buenos Aires foi às pressas, e Borges mal pode se despedir de seus amigos, de quem Kodama já o estava isolando nos últimos meses.
O suposto cônsul registrou o casamento no desconhecido vilarejo de Colonia Rojas Silva, Paraguai. Mas, a trama tornou-se intrincadamente borgiana quando jornalistas argentinos que investigavam o misterioso casamento descobriram que o nome original do ex-cônsul era Benjamin Levi Avzarradel. Ele teria nascido na Argentina, mas havia sido adotado por um casal de uruguaios na tardia idade de 29 anos.
Para complicar, o governo paraguaio não reconhecia Grament Berres nem como cônsul nem como cidadão paraguaio. “É uma coisa estranha…Kodama apresenta-se atualmente, para qualquer tipo de documentação, como ‘solteira’ e não como viúva”, afirmou Alejandro Vaccaro, biógrafo de Borges e presidente da Sociedade Argentina de Escritores, enquanto – sentado em um café no bairro da Recoleta – levantava na minha frente uma sobrancelha em sinal de sutil desconfiança sobre a ex-aluna do escritor.
Mas apesar de casados, no testamento Borges definia Kodama somente como “a boa amiga”.
Antes de morrer, o escritor preparou um novo testamento, modificando radicalmente o anterior. Na versão antiga, Borges que não teve filhos, deixava quase tudo à sua irmã e sobrinhos e a Fani Uveda, sua fiel governanta durante quatro décadas. Na nova versão, Kodama transformou-se na única herdeira, a quem foi destinada todo o dinheiro, direitos de autor, objetos de arte e manuscritos.
Sobre as supostas irregularidades do casamento Borges-Kodama há um interessante artigo publicado pelo jornalista argentino Juan Gasparini, que reside na Suíça desde os tempos da ditadura argentina. O artigo, aqui.
Os falecidos ditadores Stroessner e Franco. No meio, Gramont Berres. Ou, Benjamin Levi Avzarradel
CASAMENTO – As suspeitas sobre o casamento dos dois aumentam quando se conhece o passado do cônsul. Gramont Berres sustenta que foi designado embaixador especial pelo ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner em 1983. No entanto, não possui qualquer documentação que prove que teve formalmente esse cargo.
Em 1991 foi detido nos EUA acusado de falsificação de documentos, e, à pedido da Suíça, foi extraditado para ali. O governo paraguaio sustenta que o problema não é com ele, já que não reconhece Grament Berres nem como cônsul nem como cidadão. No entanto, ao cônsul não lhe faltam fotos em roupas de gala com o ex-ditador Stroessner e o falecido caudilho espanhol Francisco Franco.
Gramont Berres voltou às páginas dos jornais ao longo da última meia década. Não em Buenos Aires ou Genebra, mas sim em Assunção, Paraguai, onde o governo do país o acusa de ter vendido no Velho Continente títulos da dívida nacional emitidos de forma fraudulenta. O Paraguai rechaça usar os cofres públicos para pagar uma dívida de US$ 85 milhões contraída por Gramont Berres. O caso foi levado à Justiça internacional e ainda percorre os tribunais europeus.
Voltando à Buenos Aires: a possibilidade de que o casamento de Borges e Kodama tenha sido falso soma-se à possibilidade de que possa ser anulado: o escritor casou-se nos final dos anos 60 com Elsa Astete. O casamento durou três penosos anos, e, como até fins dos anos 80 o divórcio não existia na Argentina (foi aprovado pelo Parlamento argentino em 1987, um ano após sua morte), Borges somente pode obter a separação de corpos e bens.
Este é um link para uma matéria do jornalista Jorge Camarassa sobre Astete, aqui.
Uma cópia da polêmica certidão de casamento feita no interior do Paraguai
Elsa nada pode opinar sobre isso entre o final dos anos 90 e a virada do século, já que estava esclerosada, internada em um asilo. Ou seja: o casamento com Kodama não é reconhecido pela lei argentina, e dependendo da veracidade do casamento via Gramont Berres, correria o risco de tampouco ser reconhecido pela lei do Paraguai e Suíça.
Se por acaso Borges e sua ex-aluna nunca se casaram (ou se o casamento não é válido), que direito teria Kodama de decidir o enterro em Genebra e insistir na permanência do autor de “O Aleph” nessa cidade?
Neste último quarto de século os “direitos” de Kodama sobre Borges foram discutidos em todos os aspectos, mesmo o da vida íntima. Segundo diversas testemunhas, Kodama nunca viveu na mesma casa de Borges em Buenos Aires, e nas inúmeras viagens que realizavam, sempre dormiam em quartos separados. Uma dedução generalizada é que Borges, sozinho e com medo de morrer dependendo de outros para suas necessidades mais básicas, aceitava tudo o que Kodama lhe impunha.
Túmulo de Borges em Genebra, Suíça. A lápide ostenta uma parafernália de símbolos, tal como uma nave viking, guerreiros com lanças, uma cruz de Gales, seu nome completo, além de uma legenda em anglo-saxão. Segundo me disse Maria Ester Vázquez, amiga e biógrafa de Borges, a legenda do túmulo genebrino “And ne forhtedon na” (“E não deverias temer”) é uma fútil recomendação para alguém como Borges”. Segundo ela, o desejo do escritor, expresso em seus versos “Só peço as duas abstratas datas e o esquecimento”, não foi levado em conta. “É uma lápide curiosa e complicada. A única coisa que falta ali…é uma frase da Mafalda!”, dispara com ironia.
MORTE - No dia 14 de junho de 1986, em Genebra, Borges faleceu de um câncer no fígado. Por determinação de Kodama o escritor foi enterrado no cemitério de Plainpalais, na vizinhança dos túmulos do líder presbiteriano João Calvino e do filósofo Erasmo de Rotterdam (décadas depois, ali seria a morada eterna do diplomata brasileiro Sergio Vieira de Melo). No entanto, Borges nunca escreveu uma linha que ratificasse um hipotético desejo de ali ser enterrado.
Durante as duas e meia últimas décadas os amigos de Borges, em uníssono, afirmam que Georgie – como o chamavam carinhosamente – queria ser enterrado em Buenos Aires, mais especificamente, no histórico cemitério da Recoleta, no mausoléu de sua família.
“Borges nunca quis ser enterrado fora de Buenos Aires”, me disse em entrevista em 1999 o escritor Adolfo Bioy Casaras, seu amigo por meio século.
Fani Uveda, empregada dos Borges durante décadas, concordou com Bioy em uma conversa comigo em 2005, poucos meses antes de morrer. “O senhor Borges queria ser enterrado na Recoleta”, disse.
Além dos amigos, os acadêmicos destacam que Borges, em vários de seus poemas deixou claro que pretendia passar o repouso eterno na Recoleta. Os especialistas citam o poema “O Fazedor”, no qual Borges refere-se a seu futuro descanso em Buenos Aires: “Quando eu esteja guardado na Recoleta / em uma casa cor de cimento”. Em “Fervor de Buenos Aires”, Borges indica: “Estas coisas pensei sobre a Recoleta / o lugar de minhas cinzas”.
Outro fator que reforça a teoria de que Borges pretendia ser enterrado na Argentina é que em 1982 deu uma procuração à sua amiga Sara Kriner para proceder com sua cremação após sua morte. Um ano antes de morrer Borges chamou o zelador do cemitério para que lhe fizesse um orçamento para preparar o mausoléu na Recoleta para um lugar para suas cinzas.
Kodama defende-se afirmando que Borges, antes de morrer, expressou que desejava ser enterrado “na neutra Suíça”.
Vaccaro não descarta que um dia o corpo de Borges retorne ao país: “talvez ele volte quando a passagem do tempo faça que estas paixões se acalmem. A Argentina tem uma forte tradição de repatriar seus homens célebres, como Carlos Gardel e o general José de San Martín, mortos no exterior”.
Túmulo da família Borges na Recoleta. Este lugar foi objeto de diversos poemas de J.L.Borges.
OS INCORRIGÍVEIS E O ENTERRO PORTENHO
“Os peronistas são são bons, nem ruins…são incorrigíveis”. A frase é de Borges, que tinha com os seguidores do general e presidente Juan Domingo Perón uma relação de elevada tensão. Em 1946, para humilhá-lo – e tentar calar sua refinada ironia com o novo governo – os peronistas removeram Borges de seu posto de diretor de biblioteca e o designaram “inspetor de galinhas e ovos” em feiras públicas. Nos anos seguintes, o Peronismo colocou sua irmã e mãe na cadeia.
Mas, no início de 2007, décadas após esses eventos, um grupo de parlamentares peronistas anunciou que pretendia trazer o corpo do escritor – enterrado em Genebra – para realizar um funeral em Buenos Aires.
O projeto da deputada María Beatriz Lenz, aliada da peronista presidente Cristina Kirchner, causou intensa polêmica no âmbito acadêmico. O projeto de lei contou na ocasião com o respaldo da Sociedade Argentina de Escritores (Sade), presidida por Alejandro Vaccaro.
Kodama enfureceu-se na ocasião: “ninguém me consultou sobre isso. É uma falta de respeito”.
“Borges é um ícone dos argentinos. Trazer o corpo de Borges é algo que devemos fazer pelos argentinos e também pelo próprio Borges”, afirmou Vaccaro na época. Ele argumenta que o desejo do escritor era ser enterrado na Recoleta, no mausoléu de sua família.
Para isso, os defensores de um funeral portenho para o escritor citam poemas como “A Recoleta”, onde dizia: “O anterior, escutado, lido, meditado, o realizei na Recoleta, ao lado do próprio lugar onde hão de me enterrar”.
Os peronistas eram incorrigíveis, embora pragmáticos. Os colunistas das páginas culturais destacaram que os peronistas preferiram esquecer as velhas rixas de lado e apostar no colossal business que é ter Borges, ícone da literatura, enterrado em Buenos Aires.
Borges e sua mãe, Leonor, em Londres em 1963. Ela foi seus olhos, secretária e respaldo permanente até sua morte, em meados dos anos 70, aos 99 anos. Kodama entrou no vácuo deixado pela forte personalidade de Leonor Acevedo de Borges.
“SOU UM CALEIDOSCÓPIO” (entrevista que fiz em 1995 com Maria Kodama para o Caderno 2 do Estadão )
Maria Kodama é suave e áspera ao mesmo tempo, um misto de delicadeza do nô e da agressividade do tango. Controlada, com total conhecimento de sua imagem, Kodama evita que se calcule sua idade. Por isso foge de perguntas capciosas como “qual é seu signo no horóscopo chinês?”. Depois de enfrentar as críticas de amigos de Jorge Luis Borges, que a viam como uma aproveitadora por seu casamento com o escritor, muito mais velho do que ela, finalmente conseguiu inaugurar em Buenos Aires a Fundação Internacional que leva o nome do escritor que nunca recebeu o Nobel.
- Foi difícil conseguir implantar a Fundação? O governo argentino não colaborou…
- Não, mas eu não pedi nada. É uma questão minha, de princípios. Recebi uma educação japonesa, tenho que lutar para conseguir as coisas. O importante é o esforço pessoal.
- Seu pai era japonês?
- Não falo muito sobre minha família…
- No Brasil a colônia japonesa é a maior do mundo. Gostariam de saber mais sobre a sra., conhecida por ser a única figura da intelectualidade argentina de origem nipônica…
- Hummm…Bem…meu pai era da região de Tóquio. Pensava ir aos EUA depois que seus pais haviam falecido. Um amigo perguntou porque não ia para a Argentina. Ele veio para cá, e em uma reunião conheceu minha mãe. Ela o viu e disse “vou me casar com ele”.
- Em que ano seu pai veio? (tentando descobrir a idade de M.K.)
- Não sei, nem se fala sobre isso.
- Logo em seguida ele se casou com sua mãe?
- Meu pai era muito boa-pinta. Separaram-se quando era muito pequena. Coisas das paixões fulminantes…
- Quando conheceu Borges?
- O conheci quando criança, desde os 16. Estava no colegial e me dava aulas introdutórias de anglo-saxão. Depois ditava algumas de suas coisas e lia para mim. Era algo na categoria de amiga, de aluna, de discípula. Nunca fui secretária de Borges, como a imprensa insiste em dizer. Depois quando cresci dava aulas de castelhano, ganhava bem e isso me permitia adequar os horários para ter tempo com Borges. Ad honorem, por prazer.
- Seu pai foi uma espécie de mentor intelectual?
- Meu pai era químico, mas me iniciou no amor pela literatura e a música. Borges dizia que meu pai me tinha educado para ele. Quando começamos a viajar, descobri que Borges tinha um conhecimento pictórico enorme. Descrevia as paisagens e fruíamos isso através de uma recordação comum, o que meu pai me havia ensinado e o que Borges havia visto antes da cegueira.
- Seu pai conheceu Borges?
- Quando terminei o colegial quis me levar para o Japão. Não falava o japonês, não queria ir. Borges o convenceu para que me deixasse aqui.
- Borges lhe dava aulas no colegial?
- Era meu professor particular. O conheci por meio de um amigo de meu pai, quando tinha 12 anos. Este senhor pensou que se conhecia alguém como Borges seria importante para minha educação.
- Esta foi a primeira vez que ouviu falar de Borges?
- Quando tinha cinco anos leram para mim “Caesar and Cleopatra”. Gostava de seu amor e paixão. A figura de César era avassaladora, o conquistador, o gênio. Na mesma época me leram um poema de Borges. Era “Two English Poems” . A linha que ficou para sempre é “I am trying to bribe you…”
- …“With danger, with uncertainty, with defeat” (estou tentando te enganar, com perigo, incerteza, com derrota). É meu verso preferido também.
- (Ri) Impresionou-me como essa pessoa podia ser todo o contrário de César. Um, o conquistador; o outro, oferecendo à mulher amada a incerteza…
- Que dizia Borges de su predileção por este verso?
- Borges tinha ciúmes (ri). Dizia que era apaixonada por César. Não gosto de Bernard Shaw . “Você, María, está paixonada por Shaw”, dizia Borges. “O que a levou a sentir atração por Julio César não foi outra coisa que as palavras de Shaw en J.C”.
- Borges era ciumento?
- Era ciumento à sua forma. Éramos verdadeiros personagens.
- Borges foi o amor de sua vida?
- Creio que sim, ele é a minha vida.
- E a senhora, a dele…
- Não sei, mas suponho que sim. Suponho que essas coisas são eternas.
- Em “Siete Noches”, Borges fala da sonoridade do inglês e cita um verso, “I will love you for ever and a day”. Sente isso?
- “…Para sempre e ainda um dia depois”. Era uma citação de Keats, creio….Sim, é o que sinto.
- Gosta do tango como Borges gostava?
- Não gosto. Borges dizia que eu pertencia a uma geração que não escutava tango. Gosto, como ele, das milongas, pois possuem um ritmo alegre, ágil.
- Rock. O que Borges pensava?
- Gostava dos Beatles e dos Rolling Stones. No Palace de Madrid encontramos Mick Jagger, que se aproximou para lhe dizer que o admirava. “Quem é o senhor?” perguntou Borges. “Sou Mick Jagger”, disse o cantor. “Ah…o dos Rolling Stones”, disse Borges. Jagger quase desmaiou.
- Porque nunca publicou seus próprios relatos e poemas em forma de livro?
- Escrevo contos, publicados em revistas literárias. Livros, ainda não. Mas o farei, quando fique em liberdade.
- E porque nunca publicou livro algum?
- Porque ao estilo japonês, nunca quis publicar durante a vida de Borges. Isso teria produzido un conflito.
- Seus contos são borgianos?
- Quando publiquei meu primeiro conto a reação de Borges foi de encantamento: “Todos esperavam um conto em meu estilo e foi diferente”.
- Enfrentou preconceitos com seu casamento com Borges?
- Não, caso contrário não estaria aqui. Houve reação por parte de senhoras abandonadas, viúvas, deseperadas. Parecia que era a primeira mulher na Argentina que se casava com um homem separado.
- Nunca sentiu racismo na sociedade argentina?
- Nunca, a primeira vez que o senti isso foi em um escritor que me chamava “a japonesa”. O embaixador do Japão chegou a me perguntar se havia nascido lá. Quem disse isso era uma pessoa com ressentimentos.
- Na cabeceira de Borges estavam Blake, Donne e Kipling. Quem tem em seu criado-mudo?
- Gosto muito de Blake, Donne…
- Qual Donne, o da fase mais erótica ou da religiosa?
- …Ambas. Adoro essa mudança. Gosto da Ilíada, um livro extraordinário com o qual pode-se aprender muitas coisas sobre a conduta humana.
- Como se definiria a si mesma, sra. Kodama?
- Eu não sei como sou. Em geral definimos aos outros. Sou como um caleidoscópio; de acordo com o olho e o desenho interior, vou mudando.
Borges ouve e Kodama lê.
O ETERNO RETORNO DAS REEDIÇÕES (matéria publicada em 1995)
Quase dez anos após a morte de Jorge Luis Borges, a reedição de obras que ele não desejava ver republicadas torna-se realidade. Como Max Brod, amigo de Kafka que trai sua promessa no leito de morte do amigo e postumamente publica a obra do escritor tcheco, Maria Kodama reedita um Borges secreto. A pergunta que paira no âmbito intelectual de Buenos Aires é “até onde é válida a vontade póstuma dos escritores?”.
Primeiro foi a publicação de “El Idioma de los Argentinos”, obra da juventude que Borges havia repudiado. Kodama, sua viúva, autorizou sua reedição. Poucos exemplares da edição original restavam. A fome por esse livro era tanta que poucos repudiaram o ato de Kodama, que ia contra a vontade de Borges.
Depois veio a publicação de “Borges en Revista Multicolor”. A obra recolhe relatos, resenhas e traduções que o autor de “Ficciones” e “El Aleph” escreveu durante sua estadia no suplemento cultural do jornal “Crítica”: a “Revista Multicolor de los Sábados”.
A colaboração borgiana durou pouco mais de um ano, o período de vida da publicação. O jornal exigia qualidade, mas dentro de uma linha editorial que pudesse interessar ao grande público. Borges começou como secretário. Logo chegou a co-diretor. Sua participação é esteticamente antípoda ao resto de sua obra. O jornal era sensacionalista e Borges, que precisava sustentar a família (seu pai havia falecido pouco antes) se dispunha a fazer qualquer coisa. Ele mesmo diria anos depois: “Nunca pensei reunir esses trabalhos em um só volume. Esses artigos iam destinados ao consumo popular através das páginas de “Crítica” e eram tremendamente pitorescos”.
Nessa época Borges era desconhecido da imesa maioria dos leitores argentinos. Só os seus amigos sabiam de seu valor. Quando a revista fechou foi organizado um banquete para comemorar: Borges não teria mais que escrever “lixo”.
O autor de “O Aleph”e “Ficciones”, segundo o jornalista Marcos Mayer, “sempre teve muito presente o marco e o suporte em que publicava. Soube encontrar o tom e imaginar um leitor com o qual podia chegar a sintonizar. Talvez a mesma atitude de seu tão criticado acesso aos meios. Borges amava tanto os livros como para supor que sua paixão por Stevenson ou Chesterton ou Cervantes tinha que ser compartilhada pelos outros”.
Mayer, estudioso do tema borgiano sustenta que “ele não recusava nem aceitava a lógica que lhe ofereciam os diversos meios em que trabalhou. Propunha uma nova versão desse meios para que suas paixões – que supunha universais, sem mais argumentos que suas leituras – encontrassem algum ponto de encontro possível. Para que isto não acontecesse não podia pensar em termos de cultura alta e baixa. Borges soube falar dos paradoxos do pensamento para o sensacionalista e populista jornal “Crítica” e sobre dizeres nos para-choques de caminhões para a elitista ‘Sur”.
A FAVOR
“Inteligência e força”. Assim Maria Kodama, viúva do escritor, define a característica principal dos textos publicados. Mais do que recusa em reeditar, Borges teria sido indiferente com estes livros. Eles circulavam por meio de fotocópias e as manipulações que a crítica fazia com estas obras. No próprio prólogo do livro Kodama sustenta que “alguém que se aproxima a um livro é o suficientemente sensível e inteligente para encontrar seu autor em liberdade. Creio que qualquer leitor, apesar dos defeitos de estilo destas obras – estilo que Borges repudiou depois -, pode sentir a força, a inteligência com que o autor trata estes temas que serão aperfeiçoados, refutados ou aprofundados em sua obra, esculpida ao longo do tempo com uma perfeição incrível”.
CONTRA
“De forma alguma”. Determinado em defender a vontade do seu grande amigo, o escritor Adolfo Bioy Casares, autor de “La Invención de Morel” e co-autor com Borges de “Seis Problemas para Don Isidoro Parodi” considera que os herdeiros devem respeitar a decisão e não publicá-los sob nenhum ponto de vista e por motivo algum. Para os estudiosos de Historia da Literatura podem ser atrativos. Para o leitor comum, não.
Fani, a fiel criada dos Borges
BENFEITOR SALVA GOVERNANTA DE BORGES DA MISÉRIA (entrevista que fiz em 1999 com Fani Uveda, a governanta da família Borges)
Um pequeno altar, com fotos de Jorge Luis Borges, é a única coisa que restou do autor de “Ficções” a Epifanía Uveda, 77 anos, governanta dos Borges durante mais da metade de sua vida. “Fani”, como era chamada carinhosamente, passou de cuidar dos detalhes mínimos da vida de Borges, a estar sem uma casa própria e na miséria.
Pouco antes de falecer em Genebra, Borges modificou seu testamento. Na versão anterior, Fani herdaria metade de seus bens e ficaria com o famoso apartamento da rua Maipú, onde havia cuidado da mãe de Borges e do próprio durante 40 anos. A outra metade, seria dos sobrinhos de Borges e de Maria Kodama.
Misteriosamente, oito dias antes de morrer, modificou seu testamento, tornando Kodama única herdeira. A ex-aluna e ex-secretária transformada em viúva expulsou a ex-governanta, cobrando-lhe até o condomínio dos cinco meses passados desde a partida para a Suíça. Anos depois, a ponto de ir morar em uma favela, Fani colocou uns sapatinhos da infância de Borges à venda. Um colecionador, Alejandro Vaccaro, soube disso, e se dispôs a ajudá-la: colocou Fani na sede de uma associação vinculada ao Clube Boca Juniors. Ali ela limpa o lugar e tem casa e comida.
Vaccaro fica indignado quando fala sobre o caso: “Kodama foi nojenta com Fani”, disse ao Estado. E especula sobre uma possibilidade: “vou dizer algo que nunca disse. Se Fani tivesse sido um pouco mais inteligente, Borges teria se casado com ela. Como aconteceu com Proust e sua governanta Celeste. Se Fani não tivesse sido a mulher simples e honesta que sempre foi, teria feito isso”.
Na casa decorada com bandeiras do time do Boca, ela falou ao Estado, e sustentou, da mesma forma que Bioy Casares afirmava, que Borges não queria partir para a Suíça com Kodama.
No dia que ia viajar, Fani foi avisá-lo que o carro que ia levá-lo ao aeroporto havia chegado. “Não quero ir, Fani”, disse Borges. “Se eu for, morrerei por lá”. Nesse momento, Fani sustenta que entrou Kodama, que ao ouvi-lo, ameaçou: “eu vou embora e não volto mais”. Assustado, Borges concordou, e foi colocado às pressas dentro do carro. “Foi embora sem me dar adeus. Isso vai me doer por toda a vida”, diz.
Segundo ela, Borges tentou o suicídio um dia que Kodama bateu a porta de casa dizendo que nunca mais o veria. Borges encheu a banheira de água fervendo, e pretendeu matar-se entrando ali. Foi só colocar os pés, e desistiu. “Coitado, ficou cheio de bolhas e sentindo-se ridículo”, diz.
Falando sobre Borges como se estivesse vivo, ela sustenta que “ele se apaixona sempre”. E aproveita para contar uma anedota sobre Borges e as mulheres: “após a cerimônia de casamento com Elsa Astete foram na casa da mãe de Borges. Nessa mesma noite, haviam ocorrido protestos nas ruas da cidade. A mãe pediu que eles ficassem e dormissem ali. Elsa negou-se. Como ia passar sua noite de núpcias na casa da sogra? Ela e Borges discutiram e Elsa foi embora sozinha. Mesmo casado, Borges ficou essa primeira noite na casa da mãe.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
“Louvado seja o amor em que não há possuidor nem possuída, mas os dois se entregam” dizia o escritor argentino Jorge Luis Borges.
Aproveitamos o dia dos namorados para colocar uma série de poemas de amor, comentários feitos em entrevistas e pensamentos esparsos sobre o amor e a paixão pronunciados pelo escritor argentino Jorge Luis Borges.
Nesta terça-feira completam-se 25 anos de seu falecimento em Genebra. Estão convidados a voltar ao blog nesse dia, para ver uma ampla postagem sobre o autor de “O Aleph”.
Apaixonar-se é criar uma religião cujo deus é falível. “O Encontro com Beatriz”, 1949
Vale a pena ser infeliz muitas vezes para ser feliz um minuto. Petit, 1980.
Estar apaixonado é perceber o único que há em cada pessoa, esse único que não pode se comunicar a não ser por meio de hipérboles ou de metáforas. “Assim escrevo meus contos”, 1981
Apaixonar-se é produzir uma mitologia particular e fazer do universo uma alusão à única pessoa indubitável. Contraviento, 1984.
Parece que esta época tem se afastado de todas as versões do amor…parece que o amor é algo que deve ser justificado, o que é raríssimo, porque a ninguém se lhe ocorre justificar o mar, ou um pôr do sol, ou uma montanha: não necessitam ser justificados. ABC, 1986.
POEMAS
O ENAMORADO 1977
Luas, marfins, instrumentos, rosas,
Lâmpadas e a linha de Dürer,
As nove cifras e o mutável zero,
Devo fingir que no passado foram
Persépolis e Roma e que uma areia
Sutil mediu a sorte da ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.
Devo fingir as armas e a pira
da epopeia e os pesados mares
Que roem da Terra os pilares.
Devo fingir que há outros. É mentira.
Só tu és. Tu, minha desventura
E minha ventura, inesgotável e pura.
TWO ENGLISH POEMS 1964
To Beatriz Bibiloni Webster de Bullrich
The big wave brought you.
Words, any words, your laughter; and you so lazily
and incessantly beautiful. We talked and you
have forgotten the words.
(…)
Your profile turned away, the sounds that go to
make your name, the lilt of your laghter;
these are illustrious toys you have left me.
(…)
I must get at you, somehow: I put away those
illustrious toys you have left me, I want your
hidden look, your real smile – That lonely,
mocking smile your cool mirror knows.
II
What can I hold you with?
I offer you lean streets, desperate sunsets, the
moon of the jagged suburbs.
(…) I offer you explanations of yourself, tehories about yourself, authentic and surprising news of yourself.
I can give you may loneliness, my darkness, the
hunger of my heart; I am trying to bribe you
with uncertainty, with danger, with defeat.
A ESPERA
Antes que toque a apressada campainha
E abram as portas e entres, oh esperada
Pela ansiedade, o universo tem
que ter executado uma infinita
série de atos concretos.
Ninguém pode computar essa vertigem,
a cifra daquilo que multiplicam os espelhos,
de sombras que se alongam e regressam,
de passos que divergem e convergem.
A areia não sabia numerá-los.
(Em meu peito, o relógio de sangue mede
O temerário tempo da espera).
Antes que chegues,
Um monge tem que sonhar com uma âncora,
Um tigre tem que morrer em Sumatra,
Nove homens têm que morrer em Bornéu.
Borges e umas groupies no final dos anos 60
LE REGRET D’HERACLITE
Eu, que tantos homens tenho sido, nunca fui
aquele em cujo amor desfalecia Matilde Urbach.
Gaspar Camerarius, em Deliciae Poetarum Borussiae, VII,16.
FRAGMENTOS DE UN EVANGELIO APÓCRIFO (ELOGIO DE LA SOMBRA)
50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor.
É uma sorte que existam; e existem quase mais do que eu. São seres muito mais práticas. Bienek, 1965
Imaginar uma mulher é um ato de fé. Milleret, 1970
No século XIX, Ibsen assombrou toda a Europa com sua “Casa de Bonecas”. Nessa comédia, Nora Helmer deixa seu lar para viver sua própria vida. Em Paris tiveram que lhe acrescentar um amante para que essa decisão não fosse um escândalo. Em Londres e em Berlim, fizeram que se arrependesse e voltasse à casa.
Sou, evidentemente, feminista. É uma insensatez não sê-lo. Nos Estados Unidos ser feminista é algo que não exige explicações. Em nossa América ainda há muito que fazer. Para um homem há algo mágico em todas as mulheres. Montenegro, 1983
Muitos mais sensatas que os homens e a prova está na história universal. Oscar Wilde tinha razão ao dizer que o universal era uma série de crônicas policiais. Em todas essas crônicas – guerras, conflitos, confrontos, etc. – a mulher foi sempre mais sensata que o homem. Conde, 1985
Em uma entrevista perguntaram a Borges:
“Que imagem tem das mulheres?”
Borges respondeu: “A mesma que todo mundo…A mulher é algo tão vago, são tão diferentes uma das outras, não se pode generalizar”.
Apesar de meus 82 anos, elas continuam a ocupar (um lugar em minha vida), porque, de uma maneira ou de outra, a gente se sente jovem (…)com a idade os homens perdem a capacidade de amar. Com a idade eles perdem a capacidade de mentir. Mas eu não perdi, com a idade, a capacidade de me surpreender com tudo.
Enganam-se aqueles que pensam que não conheci o amor. Posso afirmar que tenho vivido enamorado. O primeiro amor (ideal, certamente) de minha vida foi uma atriz, Ava Gardner. Costumava ver seus filmes duas vezes por dia. Tão logo terminava a sessão, desejava que chegasse o dia seguinte para voltar a vê-la. O amor exige provas. Provas sobrenaturais. (Peicovich, E. 1988, 27)
Adolfo Bioy Casares disse, após a morte de Borges que seu amigo “passou a vida enamorado, sofrendo muitíssimas vezes”, No entanto, não aceitava levar o amor para a literatura. “Borges tinha uma postura quase puritana contra o amor”.
BÔNUS TRACK
“Enamorar-se é criar uma religião cujo deus é falível” (Do prólogo à Divina Comédia. Buenos Aires, 1949).
“Infinitamente existiu Beatriz para Dante; Dante, muito pouco, talvez nada, para Beatriz” ( Do prólogo à Divina Comédia. Buenos Aires, 1949).
“A amizade não é menos misteriosa que o amor e que qualquer das outras facetas desta confusão que é a vida” (O Informe de Brodie, 1970).
“O matrimônio é um destino pobre para a mulher” (1980)
“O coito é aquele momento da felicidade em que cada um é dois, a união em que nos perdemos logo no sonho” (1980).
“Escrevi “Ulrica”, um conto de amor, porque agora posso fazê-lo; porque perdi o pudor” (1980).
Borges fala sobre o amor e a amizade, aqui.
E, nada da ver com o autor de “O Informe de Brodie” e “A História da Eternidade”, “Love is a many splendored thing”, do filme homônimo, por Nat King Cole, aqui.
E, falando em filmaços românticos, “An affair to remember”, do filme do mesmo nome, cantada pela genial Deborah Kerr, uma das mais emblemáticas ruivas do cinema mundial, aqui.
E – para terminar – do mesmo filme, minha cena preferida, quando Cary Grant visita a avó no sul da França em companhia de Deborah Kerr. Aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
O escritor argentino Jorge Luis Borges poderia ter morrido atropelado em uma rua londrina por uma brincadeira do colega cubano Guillermo Cabrera Infante nos anos 70. Uma noite os dois caminhavam juntos na direção da praça Berkeley quando o escritor cubano, suspeitando que o colega argentino não era um cego verdadeiro, mas apenas um farsante para “emular Milton e Homero”, decidiu deixar Borges sozinho no meio de uma rua com intenso tráfego de automóveis. Os táxis e carros esquivavam o autor de “Ficções” e “O Informe de Brodie”, enquanto este – sozinho – continuava lentamente atravessando a rua. “Borges estava impassível, talvez devido à sua condição de discípulo do (bispo e filósofo George) Berkeley. Isto é, já que ele não via os carros, estes não existiam. Corri para resgatar Borges e o levei a um lugar seguro”, explicou posteriormente Cabrera Infante.
Este causo – junto com outros 332 – foram recopilados pelo escritor e jornalista argentino Mario Paoletti em “O outro Borges – Anedotário completo” – recém-lançado em Buenos Aires pela editora Emecé. A maior parte dos “causos” mostram as irônicas opiniões – e atitudes – de Borges sobre religião, literatura, política e religião, entre vários outros assuntos. Segundo Paoletti, nenhum outro escritor no mundo hispano-americano gerou tantos “causos” como Borges. “Não é impossível que isto se transforme em um subgênero literário”, diz.
BLEFE – No livro, Paoletti conta duas cenas vistas pelo escritor Blas Matamoros nos EUA com Borges. Em uma delas, uma pessoa diz ao escritor argentino: “Borges, o senhor é um blefe”. Borges respondeu: “sim, mas leve em conta que é involuntário…”.
Na outra cena um estudante contestador grita ao escritor: “você, Borges, está morto!”. Borges retrucou: “é verdade, só existe um erro nas datas”.
DEUS, A VIRGEM E O MOTOR – O editor polonês-americano Walter Bara, da editora McGraw-Hill conta a yBorges que havia estado em um avião que quase estatelou-se no chão porque um de seus motores havia desprendido da fuselagem. No entanto, depois de uma vertiginosa queda, o piloto conseguiu equilibrar o avião e aterrissar. Bara cumprimentou o piloto efusivamente. Mas, os outros passageiros ficaram zangados com ele, já que atribuíam a salvação de suas vidas à uma medalhinha da Virgem Maria que uma das passageiras pegou em sua maleta quando o avião caía. Borges ouviu o relato e comentou: “isto é, Deus havia ordenado que o motor se soltasse e que eles morressem. Mas, graças a um apelo à Virgem, intervém um subalterno de Deus (a Virgem em questão) e muda os planos. Como alguém pode pensar assim?”.
Borges empunha um pequeno punhal para uma cena de um documentário rodado nos anos 70 na Argentina. Para ver o trailer desse documentário, “Borges, um destino sul-americano” (no 1:21 min. está a imagem acima), clique aqui.
SINCERIDADE E CALOR – Em um dia de calor sufocante Borges chega à casa do amigo e escritor Adolfo Bioy Casares, na elegante rua Posadas, no bairro da Recoleta, para almoçar (costume que manteve durante décadas, todos os dias). Os almoços eram embalados por conversas sobre filosofia e literatura. Mas, ao entrar, cumprimenta o amigo e diz: “o calor é o assunto natural. Sejamos sinceros: falemos sobre o calor”.
LUGAR ERRADO – Adolfo Bioy Casares, Silvina Ocampo (mulher de Bioy) e Borges vão a um velório. Mas, não encontram a casa. E de quebra, não lembram do nome do morto. Outro dia, o trio vai a um lugar onde Borges terá que proferir uma palestra. No entanto, entram, por engano, na casa errada, onde está sendo celebrado um casamento. Cumprimentam todas as pessoas e só percebem que a conferência não é ali quando os noivos aparecem.
SINCERIDADE E ESTADO – Durante uma entrevista à revista portenha “Siete Días” em 1973 o jornalista conversava com Borges sobre as modalidades de Estados.
- Sr. Borges, que tipo de Estado desejaria?
- Um Estado mínimo, que não fosse notado. Morei na Suíça cinco anos e ali ninguém sabia o nome do presidente.
- A abolição do Estado que o senhor propõe tem muito a ver com o anarquismo.
- Sim, exato, com o anarquismo de Spencer, por exemplo. Mas não sei se somos suficientemente civilizados para chegar ali.
- Acredita seriamente que tal Estado é factível?
- Evidentemente. Mas, uma coisa é verdade: será preciso esperar 200 ou 300 anos.
- E enquanto isso, Borges?
- Enquanto isso a gente se f…
SER OU NÃO SER – O livro conta que em uma ocasião o poeta Eduardo González Lanuza, amigo de Borges desde a adolescência, caminhava pela rua Florida, em pleno centro portenho, quando repentinamente vê o autor de “O Aleph” sozinho, no meio da multidão que caminha apressada. Borges, cego, estava com sua bengala no meio-fio, esperando para atravessar a rua. O poeta coloca a mão em cima do ombro do amigo e diz: “Borges, sou eu, González Lanuza”. Borges gira a cabeça e após uns segundos, responde: “é muito provável”.
GASTRONOMIA – Paoletti relata que em uma entrevista em Roma um jornalista europeu tentava colocar Borges em uma situação constrangedora. Mas, como não conseguia, recorreu a uma pergunta que considerou que seria muito provocante: “em seu país ainda existem canibais?”. Borges, imediatamente, respondeu: “já não existem mais… devoramos todos eles”.
Borges e Beppo. O gato – ao qual o autor dedicou vários poemas – não era seu, mas sim, de sua empregada, Fanny. Quando Beppo morreu, os dois o enterraram em um cantinho da praça San Martín, a um quarteirão do edifício onde Borges morava (na esquina das ruas Maipú e Marcelo T. de Alvear).
SÉCULO – Um jornalista entrevista Borges em Paris em um estúdio de gravação. Em meio à conversa, o jornalista pergunta a Borges:
- O sr. percebe que é um dos grandes escritores deste século?
Borges fica quieto durante uns segundos e responde:
- É que este foi um século muito medíocre…
METAFORICÍDIO – O livro também conta como Borges um dia foi ao banco, onde uma funcionária lhe disse: “embora eu saiba (de memória) qual é seu saldo bancário, vou verificá-lo, pois não gostaria de dizer uma coisa e que seja outra”. Borges depois relatou ao amigo Esteban Peicovich: “essa senhorita acabou de assassinar a metáfora”.
CASTELO – Paoletti também conta – baseado no relato do poeta José Bergamin – que nos anos 50 Borges foi à Montevidéu para uma série de conferências. Mas, antes de iniciar, começou a colocar sobre a mesa uma pilha de livros. No entanto, ao longo da palestra, não usou nenhum dos livros ali colocados. Ao terminar a conferência Bergamín aproximou-se de Borges e perguntou qual havia sido a utilidade de tantos volumes que não consultou. Borges respondeu: “eu os uso como ameia”.
Borges, ilustrado pelo cartunista uruguaio Alberto Breccia para o comic “Perramus”, no qual o escritor envolve-se em uma delirante trama política-policial de realismo fantástico.
PREMATURA – Anos antes da morte de Borges em 1986 na Suíça, os jornais franceses, além do New York Times, publicaram a notícia de que ele havia morrido. Preocupado, o ensaísta Ulysses Petit de Murat tentou entrar em contato Borges, até que conseguiu encontrá-lo e confirmar que estava vivo. Murat expressou a Borges seu desagrado pela “notícia apócrifa de sua morte”. Borges corrigiu: “apócrifa não…somente prematura”.
Borges fala sobre “o rigor da ciência”. Aqui.
JLB recita seu poema “Everness”. Aqui.
E o “Poema de los dones”, aqui.
Em uma entrevista Borges sustenta que “o barroco é uma soberba do escritor”. Aqui.
E minha conferência preferida, “A Cegueira”, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
“Xul Solar criou várias cosmogonias.. em uma única tarde!”. Frase de Jorge Luis Borges sobre seu amigo e pintor Xul Solar.
Aproveitamos que nesta semana ocorreu seu aniversário de nascimento, no dia 14 de dezembro, para contar algo sobre esta rica personalidade.
O adjetivo “excêntrico” é insuficiente para descrever o pintor argentino Xul Solar, nome artístico de Oscar Agustín Alejandro Shulz Solari (1887-1963), um dos emblemas das artes plásticas de seu país no século XX.
Durante sua estadia em Paris, para onde partiu quando tinha 24 anos (ia por apenas um mês em 1912 e acabou ficando 12 anos), bebeu das fontes dos movimentos cubista, o futurismo, o fauvismo, o expressionismo e o surrealismo.
Seu estilo é definido com certa frequência como “surrealista”. No entanto, diversos especialistas preferem classificar sua obra como “fantástica”. Ocasionalmente – e a grosso modo – é comparado com o alemão Paul Klee, a quem Xul Solar admirava. Em outras circunstâncias os especialistas afirmam que sua obra recorda a arte ruprestre.
Seus quadros – plenos de figuras oníricas e com cores marcantes – mostram edifícios, casas, astros, escadas, máscaras, figuras pré-colombianas, bandeiras e uma série de símbolos das mais diversas religiões.
Acima, o retrato do polifacético artista
Amigo dos escritores Jorge Luis Borges (que o apresenta ao mundo literário portenho) e de Leopoldo Marechal (que o inclui em seu livro, “Adán Buenosayres” como o personagem Schultze), Xul Solar foi um dos fundadores da revista Martín Fierro, crucial no âmbito da literatura e das artes plásticas na Argentina nos anos 20.
Tal como um homem do Renascimento, Xul Solar era especialista em uma miríade de assuntos. O pintor conhecia profundamente sobre teologia de diversas religiões e estudava astrologia e filosofia.
De quebra, filho de um lituano de origem alemã e de uma italiana piemontesa, Xul Solar era fascinado por idiomas.
O fascínio pelas línguas o levou a criar o “neo-criollo”, que misturava o espanhol, o português, o inglês, francês, grego e sânscrito, além de um touch de argentinismos.
Xul Solar, além de criar novos caracteres para seu idioma, escreveu o “San Signos”, que reúne 64 escritos baseados nos hexagramas do I Ching.
Posteriormente, quis criar um idioma que fosse mais “universal” e projetou a “pan-língua”, que tem bases na matemática, na astrologia, artes visuais e música. Um idioma puramente monossilábico… e sem gramática.
Mais detalhes sobre a “pan-língua”, aqui.
Segundo Borges, Xul Solar “era um homem versado em todas as disciplinas, curioso de todos os arcanos, pai de escrituras, de linguagens, de utopias, de mitologias e astrólogo, perfeito na indulgente ironia e na generosa amizade.. Xul Solar é um dos acontecimentos mais singulares de nossa época”.
Xul Solar também criou um “pan-xadrez”, com complexas regras que implicavam em relações com constelações e os signos do zodíaco.
O ‘pan-xadrez’ contava com 200 peças feitas com madeira de cabo de vassoura que eram movimentadas em um tabuleiro de 12 por 12 quadros.
Em vez de representar guerreiros – como no xadrez tradicional, de origem indiano – as peças simbolizam corpos e seres astrológicos. Neste jogo, duas peças (e até três) podem ocupar o mesmo quadro. As peças começam o jogo fora do tabuleiro. De quebra, o jogo também incluia o uso de 24 cartas de tarô modificadas.
Seu lar, situado na rua Laprida, número 1212, é atualmente a sede do museu Xul Solar, que exibe grande parte de sua obra.
Mas, nada melhor do que deixar uma descrição mais detalhada de Xul Solar a cargo de Borges, seu amigo. Em setembro de 1980 fez uma conferência em Buenos Aires sobre Xul Solar. O texto, aqui.
Segundo Borges, Xul Solar “era único… talvez cada indivíduo seja único. Mas nele notava-se mais essa unicidade. O compararia com William Blak, precisamente, já que William Blake foi um místico como ele, foi um visionário e um grande poeta, além de grande artista plástico”.
O escritor e amigo sustentava que “quase todos nós vivemos aceitando o universo, aceitando tradições, conformando-se com as coisas. No entanto, Xul vivia recriando o universo. O recriava a cada momento”.
E aqui, a própria definição que Xul Solar fazia de si próprio (no original, em espanhol): “Alejandro Xul Solar, pintor, escribidor y pocas cosas más, duodecimal y catrólico (ca –cabalista, tro – astrológico, co –coísta o cooperador). Recreador, no inventor, campeón mundial de panajedrez y otros serios juegos que casi nadie juega; padre de una panlengua, que quiere ser perfecta y casi nadie habla, y padrino de otra lengua vulgar sin vulgo; autor de grafías platiútiles que casi nadie lee; exegeta de doce (+ una total) religiones y filosofías que casi nadie escucha. Esto que parece negativo, deviene (werde) positivo con un adverbio: aún, y un casi: creciente”.
“Enterro”, obra de 1914. Esta aquarela sobre papel é um exemplo das “dimensões” da obra de Xul Solar, que geralmente pintava sobre superfícies pequenas. Esta pintura tem 27 cms de altura e 36 cms de largura.
E para encerrar, o site do Museu Xul Solar, aqui.
Já que falamos em idiomas, Louis Armstrong se diverte cantando em…italiano(?). Aqui.
E por falar em Armstrong, um vídeo com ele e Sinatra, aqui.
E nada a ver, Francesco Saverio Germiniani, outro mestre do barroco italiano, que viveu entre 1687 e 1762. Seu concerto grosso para dois violinos e cello, Opus 3, número 3. Aqui.
E voltando a B.Aires, Francisco Canaro, um dos emblemas do tango no Rio da Prata nos anos 30, 40 e 50, interpreta “Candombe criollo”, que mostra bem a herança cultural afro-platina. Canaro, que nasceu no Uruguai, fez a maior parte de sua carreira na Argentina. Aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
………………………………………………………………………………………………………………………………..
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
……………………………………………………………………………………………………………………………….

Manuel “Manucho” Mujica Láinez, o dândi pop que teria assoprado 100 velinhas neste fim de semana. Não o fez. Mas, em troca, nos deixou dezenas de livros nos quais podemos apreciar sua elegante e sutilmente irônica prosa.
Se estivesse vivo, “Manucho”, como era chamado por seus amigos e fãs, teria completado neste sábado dia 11 de setembro 100 anos de vida.
Mas, esse centenário não foi possível, já que Manuel Mujica Láinez deixou de escrever – e simultaneamente também de viver – em 1984, no dia 21 de abril.
Nos quase 74 anos em que esteve vivo, Manucho desfrutou cada dia. Com calma ou intensamente. Mas os desfrutou. Seu joie de vivre fica claro em suas entrevistas, cartas aos amigos, conversas com seus conhecidos e nos livros que escreveu.
Mujica Láinez teve uma vida social intensa. Dândi, vestia-se com coletes chamativos, gostava de usar monóculo e bengalas ricamente ornamentadas. Mostrava um look frívolo, enquanto sua obra tinha grande profundidade.
Apesar da significativa dedicação de tempo à pose e aparecer, encontrou horas para escrever mais de 30 livros, além de centenas de ensaios sobre literatura e arte. Sua forma ‘dândi’ de ser acabou sendo mais conhecida que sua própria obra. Mas, atualmente está sendo redescoberto.
Generoso e aberto às novas tendências, Mujica Láinez respaldou escritores e artistas dos pop anos 60, embora não fosse integrante dessa corrente.
Admirador de Proust, Mujica Láinez, tal como o autor de “Em busca do tempo perdido”, apreciava os detalhes. Simultaneamente, era capaz de descrever cenas monumentais, embora de forma sóbria. ‘Manucho’ preocupava-se pela beleza de cada frase que escrevia.
Sua obra-prima foi “Bomarzo”, novela histórica que relata a história do nobre corcunda Pier Francesco Orsini.
“Bomarzo” é um de meus livros preferidos. Quando o li, a primeira vez, só havia lido um conto de Mujica Láinez (casualmente, um conto que transcorre no Rio de Janeiro sobre Carlota Joaquina e um fiel criado anão que a estimula a ir à Buenos Aires, capital do vice-reinado do Prata na época) e não sabia nada da trama do Duque de Bomarzo. Foi um deleite da primeira à última página!

Mujica Láinez também é conhecido pelos contos de seu livro “Misteriosa Buenos Aires”, onde explora lendas da cidade ao longo dos séculos.
Em 1967 foi alvo da censura do ditador e general Juan Carlos Onganía, que proibiu a versão operística de seu livro “Bomarzo”.
A ópera, composta por um dos grandes compositores eruditos do século XX na Argentina, Alberto Ginastera, teve grande sucesso em Nova York.
Mas, foi considerada demasiado “erótica” pelo católico “La Morsa” (A Morsa), como era chamado o ditador.
Especialistas argumentam que, mais do que a ópera em sim, Onganía estava incomodado pela personalidade ambígua e bissexual de Mujica Láinez.
(Foto da Fundação Mujica Láinez, cuja sede está na província de Córdoba, onde o autor passou seus últimos anos de vida)
Manuel Mujica Láinez manteve saborosas conversas com um de seus melhores amigos, Jorge Luis Borges.
Em uma delas, de 1980, gravada para ser emitida em um programa de rádio portenho (que nunca foi ao ar), Mujica Láinez perguntou a ‘Georgie’ (forma como Borges era chamado pelos amigos) se acreditava no Paraíso e no Inferno. Borges comentou que acreditava em ambos de forma “literária”. Borges explicou que entre as descrições do Paraíso e do Inferno feitas por Dante Alighieri e Milton, optava pelas do italiano. Motivo: “é mais preciso, concreto”.
Mujica Laínez respondeu: “Georgie, você sempre se definiu como ateu”.
Borges respondeu: “acho que sou agnóstico. Não tenho certeza. É tão esquisito este mundo, que tudo poderia ser possível nele, até mesmo a Santíssima Trindade….”.
Depois, brincaram sobre a fortíssima presença italiana na Argentina (51% dos argentinos possui um antepassado italiano, proporção única entre todos os países do continente americano), que influenciou a forma de falar, a culinária e até a política.
Mujica Láinez – Eu não tenho sangue italiano. E tampouco você, Georgie, nada de sangue italiano, não é?
Borges – Sim, às vezes sinto que sou um estrangeiro em Buenos Aires…
Em outra, publicada no jornal “La Nación” em 1977, Mujica Laínez e o amigo ironizavam sobre o começo da transformação do bairro de San Telmo em um bairro arrumado para ser “turístico” com a perda de sua espontaneidade
Borges - Acho que conserva-se algo da Buenos Aires de minha infância no bairro Sul. A Buenos Aires que eu alcancei era o que agora se chama bairro Sul; casas baixas, com águas furtadas, com pátios, poços d’água, o que agora corresponde a San Telmo.
Mujica Láinez - Meu querido, às vezes existem vantagens em não ver (em alusão à cegueira de Borges)...você está vendo o San Telmo que nós conhecemos. San Telmo agora é outro… que se disfarçou de San Telmo.

Conversas com ‘Manucho’ eram sempre saborosas, recheadas de ironias e sutilezas
![]()
Na sequência, estão em dez partes a entrevista que concedeu em 1976 à Televisão Espanhola (TVE).
Parte 1, aqui.
Parte 2, aqui.
Parte 3, aqui.
Parte 4, aqui.
Parte 5, aqui.
Parte 6, aqui.
Parte 7, aqui.
Parte 8, aqui.
Parte 9, aqui.
Parte 10, aqui.

E aqui, o conto “El hombrecito del azulejo” (O homenzinho do azulejo), publicado em 1951 dentro do livro “Misteriosa Buenos Aires”. A história transcorre em 1875.
Esta noche será la crisis.
Sí responde el doctor Eduardo Wilde ; hemos hecho cuanto pudimos.
Veremos mañana. Tiene que pasar esta noche. . . Hay que esperar…
Y salen en silencio. A sus amigos del club, a sus compañeros de la Facultad, del Lazareto y del Hospital del Alto de San Telmo, les hubiera costado reconocerles, tan serios van, tan ensimismados, porque son dos hombres famosos por su buen humor, que en el primero se expresa con farsas estudiantiles y en ef segundo con chisporroteos de ironía mordaz.
Cierran la puerta de calle sin ruido y sus pasos se apagan en la noche. Detrás, en el gran patio que la luna enjalbega, la Muerte aguarda, sentada en el brocal del pozo. Ha oído el comentario y en su calavera flota una mueca que hace las veces de sonrisa. También lo oyó el hombrecito del azulejo.
El hombrecito del azulejo es un ser singular. Nació en Francia, en Desvres, departamento del Paso de Calais, y vino a Buenos Aires por equivocación. Sus manufactureros, los Fourmaintraux, no lo destinaban aquí, pero lo incluyeron por error dentro de uno de los cajones rotulados para la capital argentina, e hizo el viaje, embalado prolijamente el único distinto de los azulejos del lote. Los demás, los que ahora lo acompañan en el zócalo, son azules corno él, con dibujos geométricos estampados cuya tonalidad se deslíe hacia el blanco def centro lechoso, pero ninguno se honra con su diseño: el de un hombrecito azul, barbudo, con calzas antiguas, gorro de duende y un bastón en la mano derecha. Cuando el obrero que ornamentaba el zaguán porteño topó con él, lo dejó aparte, porque su presencia intrusa interrumpía el friso; mas luego le hizo falta un azulejo para completar y lo colocó en un extremo, junto a la historiada cancela que separa zaguán y patio, pensando que nadie lo descubriría. Y el tiempo transcurrió sin que ninguno notara que entre los baldosines había uno, disimulado por la penumbra de la galería, tan diverso. Entraban los lecheros, los pescadores, los vendedores de escobas y plumeros hechos por los indios pampas; depositaban en el suelo sus hondos canastos, y no se percataban del menudo extranjero del zócalo. Otras veces eran las señoronas de visita las que atravesaban el zaguán y tampoco lo veían, ni lo veían las chinas crinudas que pelaban la pava a la puerta aprovechando la hora en que el ama rezaba el rosario en la Iglesia de San Miguel. Hasta que un día la casa se vendió y entre sus nuevos habitantes hubo un niño, quien lo halló de inmediato.
Ese niño, ese Daniel a quien la Muerte atisba ahora desde el brocal, fue en seguida su amigo. Le apasionó el misterio del hombrecito del azulejo, de ese diminuto ser que tiene por dominio un cuadrado con diez centímetros por lado, y que sin duda vive ahí por razones muy extraordinarias y muy secretas. Le dio un nombre. Lo llamó Martinito, en recuerdo del gaucho don Martín que le regaló un petiso cuando estuvieron en la estancia de su tío materno, en Arrecifes, y que se le parece vagamente, pues lleva como él unos largos bigotes caídos y una barba en punta y hasta posee un bastón hecho con una rama de manzano.
¡Martinito! ¡Martinito!
El niño lo llama al despertarse, y arrastra a la gata gruñona para que lo salude. Martinito es el compañero de su soledad. Daniel se acurruca en el suelo junto a él y le habla durante horas, mientras la sombra teje en el suelo la minuciosa telaraña de la cancela, recortando sus orlas y paneles y sus finos elementos vegetales, con la medialuna del montante donde hay una pequeña lira.
Martinito, agradecido a quien comparte su aislamiento, le escucha desde su silencio azul, mientras las pardas van y vienen, descalzas, por el zaguán y por el patio que en verano huele a jazmines del país y en invierno, sutilmente, al sahumerio encendido en el brasero de la sala.
Pero ahora el niño está enfermo, muy enfermo. Ya lo declararon al salir los doctores de barba rubia. Y la Muerte espera en el brocal.
El hombrecito se asoma desde su escondite y la espía. En el patio lunado, donde las macetas tienen la lividez de los espectros, y los hierros del aljibe se levantan como una extraña fuente imnóvil, la Muerte evoca las litografías del mexicano José Guadalupe Posada, ese que tantas “calaveras, ejemplos y corridos” ilustró durante la dictadura de Porfirio Díaz, pues como en ciertos dibujos macabros del mestizo está vestida como si fuera una gran señora, que por otra parte lo es.
Martinito estudia su traje negro de revuelta cola, con muchos botones y cintas, y a gorra emplumada que un moño de crespón sostiene bajo el maxilar y estudia su cráneo terrible, más pavoroso que ei de los mortales porque es la calavera de la propia Muerte y fosforece con verde resplandor. Y ve que la Muerte bosteza.
Ni un rumor se oye en la casa. E1 ama recomendó a todos que caminaran rozando apenas el suelo, como si fueran ángeles, para no despertar a Daniel, y las pardas se han reunido a rezar quedamente en el otro patio, en tanto que la señora v sus hermanas lloran con los pañuelos apretados sobre los labios, en el cuarto def enfermo, donde algún bicho zumba como si pidiera silencio, alrededor de la única lámpara encendida.
Martinito piensa que el niño, su amigo, va a morir, y le late el frágil corazón de cerámica. Ya nadie acudirá cantando a su escondite del zaguán; nadie le traerá los juguetes nuevos, para mostrárselos y que conversen con él. Quedará solo una vez más, mucho más solo ahora que sabe lo que es la ternura.
La Muerte, entretanto, balancea las piernas magras en el brocal poliédrico de mármol que ornan anclas y delfines. El hombrecito da un paso y abandona su cuadrado refugio. Va hacia el patio, pequeño peregrino azul que atraviesa los hierros de la cancela asombrada, apoyándose en el bastón. Los gatos a quienes trastorna la proximidad de la Muerte, cesan de maullar: es insólita la presencia del personaje que podría dormir en la palma de la mano de un chico; tan insólita como la de la enlutada mujer sin ojos. Allá abajo, en el pozo profundo, la gran tortuga que lo habita adivina que algo extraño sucede en la superficie,y saca la cabeza del caparazón.
La Muerte se hastía entre las enredaderas tenebrosas, mientras aguarda la hora fija en que se descalzará los mitones fúnebres para cumplir su función. Desprende el relojito que cuelga sobre su pecho fláccido y al que una guadaña sirve de minutero, mira la hora y vuelve a bostezar. Entonces advierte a sus pies al enano del azulejo, que se ha quitado el bonete y hace una reverencia de Francia.
Madame la Mort…
A la Muerte le gusta, súbitamente, que le hablen en francés. Eso la aleja del modesto patio de una casa criolla perfumada con alhucema y benjuí; la aleja de una ciudad donde, a poco que se ande por la calle, es imposible no cruzarse con cuarteadores y con vendedores de empanadas. Porque esta Muerte, la Muerte de Daniel, no es la gran Muerte, como se pensará, la Muerte que las gobierna a todas, sino una de tantas Muertes, una Muerte de barrio, exactamente la Muerte del barrio de San Miguel en Buenos Aires, y al oírse dirigir la palabra en francés, cuando no lo esperaba, y por un caballero tan atildado, ha sentido crecer su jerarquía en el lúgubre escalafón. Es hermoso que la llamen a una así: “Madame la Mort.” Eso la aproxima en el parentesco a otras Muertes mucho más ilustres, que sólo conoce de fama, y que aparecen junto al baldaquino de los reyes agonizantes, reinas ellas mismas de corona y cetro, en el momento en que los embajadores y los príncipes calculan las amarguras y las alegrías de las sucesiones históricas.
Madame la Mort…
La Muerte se inclina, estira sus falanges y alza a Martinito. Lo deposita, sacudiéndose como un pájaro, en el brocal.
Al fin reflexiona la huesuda señora pasa algo distinto.
Está acostumbrada a que la reciban con espanto. A cada visita suya, los que pueden verla los gatos, Ios perros, los ratones huyen vertiginosamente o enloquecen la cuadra con sus ladridos, sus chillidos y su agorero maullar. Los otros, los moradores del mundo secreto los personajes pintados en los cuadros, las estatuas de los jardines, las cabezas talladas en los muebles, los espantapájaros, las miniaturas de las porcelanas fingen no enterarse de su cercanía, pero enmudecen como si imaginaran que así va a desentenderse de ellos y de su permanente conspiración temerosa. Y todo, ¿por qué?, ¿porque alguien va a morir?, ¿y eso? Todos moriremos; también morirá la Muerte.
Pero esta vez no. Esta vez las cosas acontecen en forma desconcertante. El hombrecito está sonriendo en el borde del brocal, y la Muerte no ha observado hasta ahora que nadie le sonriera. Y hay más. El hombrecito sonriente se ha puesto a hablar, a hablar simplemente, naturalmente, sin énfasis, sin citas latinas, sin enrostrarle esto o aquello y, sobre todo, sin lágrimas. Y ¿qué le dice?
La Muerte consulta el reloj. Faltan cuarenta y cinco minutos.
Martinito le dice que comprende que su misión debe ser muy aburrida v que si se lo permite la divertirá, y antes que ellá le responda, descontando su respuesta afirmativa, el hombrecito se ha lanzado a referir un complicado cuento que transcurre a mil leguas de allí, allende el mar, en Desvres de Francia. Le explica que ha nacido en Desvres, en casa de los Fourmaintraux, los manufactureros de cerámica. “rue de Poitiers”, y que pudo haber sido de color cobalto, o negro, o carmín oscuro, o amarillo cromo, o verde, u ocre rojo, pero que prefiere este azu] de ultramar. ¿No es cierto? N’est-ce pas? Y le confía cómo vino por error a Buenos Aires y, adelantándose a las réplicas, dando unos saltitos graciosos, le describe las gentes que transitan por el zaguán: la parda enamorada del carnicero; el mendigo que guarda una moneda de oro en la media; el boticario que ha inventado un remedio para la calvicie y que, de tanto repetir demostraciones y ensayarlo en sí mismo, perdió el escaso pelo que le quedaba; el mayoral del tranvía de los hermanos Lacroze, que escolta a la señora hasta la puerta, galantemente, “comme un gentilhomme”, y luego desaparece corneteando…
La Muerte ríe con sus huesos bailoteantes y mira el reloj. Faltan treinta y tres minutos.
Martinito se alisa la barba en punta y, como Buenos Aires ya no le brinda tema y no quiere nombrar a Daniel y a la amistad que los une, por razones diplomáticas, vuelve a hablar de Desvres, del bosque trémulo de hadas, de gnomos y de vampiros, que lo circunda, y de la montaña vecina, donde hay bastiones ruinosos y merodean las hechiceras la noche del sábado. Y habla y habla. Sospecha que a esta Muerte parroquial le agradará la alusión a otras Muertes más aparatosas, sus parientas ricas, y le relata lo que sabe de las grandes Muertes que entraron en Desvres a caballo, hace siglos, armadas de pies a cabeza, al son de los curvos cuernos marciales, “bastante diferentes, n’est-ce pas, de la corneta del mayoral del tránguay”, sitiando castillos e incendiando iglesias, con los normandos, con los ingleses, con los borgoñones.
Todo el patio se ha colmado de sangre y de cadáveres revestidos de cotas de malla. Hay desgarradas banderas con leopardos y flores de lis, que cuelgan de la cancela criolla; hay escudos partidos junto al brocal y yelmos rotos junto a las rejas, en el aldeano sopor de Buenos Aires, porque Martinito narra tan bien que no olvida pormenores. Además no está quieto ni un segundo, y al pintar el episodio más truculento introduce una nota imprevista, bufona, que hace reir a la Muerte del barrio de San Miguel, como cuando inventa la anécdota de ese general gordísimo, tan temido por sus soldados, que osó retar a duelo a Madame la Mort de Normandie, y la Muerte aceptó el duelo, y mientras éste se desarrollaba lla produjo un calor tan intenso que obligó a su adversario a despojarse de sus ropas una a una, hasta que los soldados vieron que su jefe era en verdad un individuo flacucho, que se rellellaba de lanas y plumas, como un almohadón enorme, para fingir su corpulencia.
La Muerte ríe como una histérica, aferrada al forjado coronamiento del aljibe.
Y además… prosigue el hombrecito del azulejo.
Pero la Muerte lanza un grito tan siniestro que muchos se persignan en la ciudad, figurándose que un ave feroz revolotea entre los campanarios. Ha mirado su reloj de nuevo y ha comprobado que el plazo que el destino estableció para Daniel pasó hace cuatro minutos. De un brinco se para en la mitad del patio, y se desespera. ¡Nunca, nunca había sucedido esto, desde que presta servicios en el barrio de San Miguel! ¿Qué sucederá ahora y cómo rendirá cuentas de su imperdonable distracción? Se revuelve, iracunda, trastornando el emplumado sombrero y el moño, y corre hacia Martinito. Martinito es ágil y ha conseguido, a pesar del riesgo y merced a la ayuda de los delfines de mármol adheridos al brocal, descender al patio, y escapa como un escarabajo veloz hacia su azulejo del zaguán. La Muerte lo persigue v lo alcanza en momentos en que pretende disimularse en la monotonía del zócalo. Y lo descubre, muy orondo, apoyado en el bastón, espejeantes las calzas de caballero antiguo.
El se ha salvado castañeteando los dientes amarillos de la Muerte, pero tú morirás por él.
Se arranca el mitón derecho y desliza la falange sobre el pequeño cuadrado, en el que se diseña una fisura que se va agrandando; la cerámica se quiebra en dos trozos que caen al suelo. La Muerte los recoge, se acerca al aljibe y los arroja en su interior, donde provocan una tos breve al agua quieta y despabilan a la vieja tortuga errnitaña. Luego se va, rabiosa, arrastrando los encajes lúgubres. Aun tiene rnucho que hacer y esta noche nadie volverá a burlarse de ella.
Los dos médicos jóvenes regresan por la mañana. En cuanto entran en la habitación de Daniel se percatan del cambio ocurrido. La enfermedad hizo crisis como presumían. El niño abre los ojos, y su madre y sus tías lloran, pero esta vez es de júbilo. El doctor Pirovano y el doctor Wilde se sientan a la cabecera del enfermo. Al rato, las señoras se han contagiado del optimismo que emana de su buen humor. Ambos son ingeniosos, ambos están desprovistos de solemnidad, a pesar de que el primero dicta la cátedra de histología y anatomía patológica y de que el segundo es profesor de medicina legal y toxicología, también en Ia Facultad de Buenos Aires. Ahora lo único que quieren es que Daniel sonría. Pirovano se acuerda del tiempo no muy lejano en que urdía chascos pintorescos, cuando era secretario del disparatado Club del Esqueleto, en la Farmacia del Cóndor de Oro, y cambiaba los letreros de las puertas, robaba los faroles de las fondas y las linternas de los serenos, echaba municiones en las orejas de los caballos de los lecheros y enseñaba insolencias a los loros. Daniel sonríe por fin y Eduardo Wilde le acaricia la frente, nostálgico, porque ha compartido es a vida de estudiantes felices, que le parece remota, soñada, irreal.
Una semana más tarde, el chico sale al patio. Alza en brazos a la gata gris y se apresura, titubeando todavía, a visitar a su amigo Martinito. Su estupor y su desconsuelo corren por la casa, al advertir la ausencia del hombrecito y que hay un hueco en el lugar del azulejo extraño. Madre y tías, criadas y cocinera, se consultan inútilmente. Nadie sabe nada. Revolucionan las habitaciones, en pos de un indicio, sin hallarlo. Daniel llora sin cesar. Se aproxima al brocal del aljibe, llorando, llorando, y logra encaramarse y asomarse a su interior. Allá dentro todo es una fresca sombra y ni siquiera se distingue a la tortuga, de modo que menos aun se ven los fragmentos del azulejo que en el fondo descansan. Lo único que el pozo le ofrece es su propia imagen, reflejada en un espejo oscuro, la imagen de un niño que llora.
El tiempo camina, remolón, y Daniel no olvida al hombrecito. Un dia vienen a Ia casa dos hombres con baldes, cepillos y escobas. Son los encargados de limpiar el pozo, y como en cada oportunidad en que cumplen su tarea, ese es día de fiesta para las pardas, a quienes deslumbra el ajetreo de los mulatos cantores que, semidesnudos, bajan a la cavidad profunda y se están ahí largo espacio, baldeando y fregando. Los muchachos de la cuadra acuden. Saben que verán a la tortuga, quien sólo entonces aparece por el patio, pesadota, perdida como un anacoreta a quien de pronto trasladaran a un palacio de losas en ajedrez. Y Daniel es el más entusiasmado, pero aIgo enturbia su alegría, pues hoy no le será dado, como el año anterior, presentar la tortuga a Martinito. En eso cavila hasta que, repentinamente, uno de los hombres grita, desde la hondura, con voz de caverna:
¡Ahí va algo, abarájenlo!
Y el chico recibe en las manos tendidas el azulejo intacto, con su hombrecito en el medio; intacto, porque si un enano francés estampado en una cerámica puede burlar a la Muerte, es justo que también puedan burlarla las lágrimas de un niño.
De novo, o homenzinho do azulejo.
E para encerrar, Mujica Láinez autografa um livro.


PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
……………………………………………………………………………………………………
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
…………………………………………………………………………………………………..

O presidente Marcelo T. de Alvear (1922-28), inaugurando um monumento nos parques de Palermo, nos anos 20. A Argentina vivia anos dourados que durariam outras cinco décadas.
1810 – No dia 25 de maio ocorre o ponto culminante da Revolução de Maio. Nesse dia, com a destituição do vice-rei Baltasar Hidalgo de Cisneros, acaba na prática o governo espanhol no então vice-reinado do Rio da Prata. No entanto, o país não proclama a independência, pois, a ideia era – enquanto viam o desenrolar dos acontecimentos (a Espanha estava ocupada pelas tropas napoleônicas e o rei espanhol preso por ordem do imperador francês) – realizar uma espécie de autogoverno, já que o governo central espanhola estava suspenso. Os rebeldes proclamavam sua lealdade a Fernando VII, enquanto analisavam alternativas (inclusive, uma alternativa monárquica com Carlota Joaquina..isso mesmo, a esposa de Dom João VI e mãe do futuro Dom Pedro I).
Rebeliões, contra-rebeliões e lutas internas começaram a pipocar em todo o território (o assunto é tremendamente mais complexo, mas tento resumi-lo desta forma…mais detalhes, neste artigo da Wikipedia, aqui. No caso de livros, recomendo os de Félix Luna e os de Luis Alberto Romero sobre o assunto).
“Cabildo aberto de 1810”, do pintor Juan Manuel Blanes (1830-1901)
1816 – Com o passar do tempo, com a restituição do rei da Espanha e a derrota de Napoleão na Europa, o cenário na América do Sul precisava de definições. Ficou claro para os comandantes da rebelião de que existiam as condições e conveniências para a independência total. Após batalhas contra a antiga metrópole, as províncias se reúnem para proclamar a independência, na cidade de Tucumán, no dia 9 de julho (para mais detalhes, este artigo da Wikipedia, aqui ).
Por este motivo, a Argentina conta com duas datas nacionais: o 25 de maio e o 9 de julho. As duas datas são homenageadas com duas avenidas em Buenos Aires: a avenida de Mayo (que vai da Casa Rosada à Praça do Congresso) e a 9 de Julio (que atravessa a avenida de Mayo pela metade e corta o centro em duas partes, ligando os bairros de Constitución e Retiro).
Há 200 anos, quando Buenos Aires efervescia com a Revolução de Maio, a área que pouco tempo depois se transformaria na Argentina, era a menor economia da América do Sul, atrás das outras colônias espanholas na região, e do próprio Brasil, que dois anos antes havia recebido a família real portuguesa.
Um século depois, isto é, há 100 anos, quando a Argentina celebrou o centenário da ‘Revolução de Maio’ de 1810 – o início do processo da independência – o país não se parecia em nada ao que havia sido dez décadas antes.
Em 1910 a Argentina estava no ponto culminante de seu prestígio internacional. Na época, a Argentina representava 50% de todo o PIB latino-americano; Buenos Aires – cujas ruas eram decoradas com estátuas importadas da França (além de edifícios inteiros, tijolos por tijolo) – era chamada de “a Paris da América do Sul” e o próprio país – que recebia uma intensa migração europeia – era considerado um “pedaço da Europa” incrustado na América do Sul.
Escritores em todo o mundo consideravam que a Argentina – na época o décimo PIB per capita mundial – rivalizaria em pouco tempo com os EUA. Os argentinos exibiam exuberante otimismo e acreditavam que o país estava destinado a um futuro brilhante.
“Em 1910, a pátria festejou seu centenário. Era a celebração de um povo que havia encontrado seu lugar na História”, sustenta o ex-embaixador em Paris, Juan Archibaldo Lanús, em seu livro “Aquele Apogeu”. Segundo ele, em apenas uma geração o país passou de ser o cenário dos últimos “malones” (ataques de tribos indígenas) a ter o primeiro metrô da América Latina.
Duas semanas antes do centenário, o jornal “La Prensa” estampava uma pergunta em seu editorial: “como poderia fracassar um país dotado de tal sorte?”.

Iconografia do centenário mostrava um país confiante no futuro
- Mas, o cenário do bicentenário é diametralmente oposto ao imaginado pelos argentinos e pelo “La Prensa” em 1910, embora o governo da presidente Cristina Kirchner tente mostrar otimismo com o slogan “Fomos capazes, somos capazes” para as celebrações da data, que está sendo recordada desde o sábado festividades que incluem desfiles militares, shows de tango e rock.
- Atualmente a Argentina representa 10% do PIB latino-americano, e perdeu para o Brasil o posto de líder regional. Além disso, o país caiu para o quinquagésimo posto do PIB per capita mundial. Longe de aspirar um nível social “europeu” (que exibiu até o final dos anos 80), os sociólogos afirmam que a Argentina aproxima-se cada vez mais do padrão latino-americano de profundas divisões sociais. O porto de Buenos Aires, o segundo em movimento nas Américas atualmente corre o risco de ser superado pelo de Montevidéu.
Em 1910 a cidade de Buenos Aires tinha mais teatros que Paris. “Uma grande cidade da Europa”, categorizou o presidente francês Georges Clemenceau. Mas a melhor definição talvez seja a do brilhantemente cínico escritor francês André Malraux, que a definiu como “a capital de um império imaginário”.
Buenos Aires…em 2010! Assim era imaginada em 1910 pelo ilustrador Arturo Eusevi, na revista PBT
TRÊS PRESIDENTES – A analista de opinião pública Graciela Römer disse ao Estado que “dois de cada três argentinos acreditam que a geração de seus avós vivia melhor do que a deles. Sobre o futuro, somente uma de cada três pessoas acha que seus filhos viverão melhor. O otimismo de 100 anos atrás não existe mais. Antigamente era uma certeza que com educação, esforço e sacrifício subia-se na vida. Hoje não mais. Atualmente, ‘viver melhor’ é simplesmente não cair na pobreza”.
Em 1916 o país teve as primeiras eleições com voto secreto e universal. No entanto, em 1930 iniciou uma série de golpes de Estado, complementados com crises financeiras sem paralelo na região, trocas abruptas de políticas econômicas.
De lá para cá, somente três presidentes eleitos livremente nas urnas puderam completar seus mandatos.
Outro dado mais sombrio: Desde 1930, ano do primeiro golpe de Estado, o país nunca mais teve uma sequência ininterrupta de dois presidentes civis eleitos nas urnas que completassem seus mandatos. O último caso foi o de Hipólito Yrigoyen (1916-22) e Marcelo T. de Alvear (1922-28).
Caso a presidente Cristina Kirchner complete seu mandato, esta será a primeira vez que isso ocorre desde a sequência Yrigoyen-Alvear. Neste caso, serão dois presidentes diferentes em sequência: Néstor Kirchner e Cristina Kirchner (embora com a peculiaridade de serem marido e mulher que se sucederam).
E sequer os militares conseguiram completar os mandatos que previam (exceto o general Jorge Rafael Videla, que concluiu os cinco anos previstos… até os militares derrubaram seus próprios colegas com outros golpes).

O cartunista Daniel Paz, do “Página 12″, ironiza sobre as crises e as oportunidades da Argentina
INSTABILIDADE - A socióloga Beatriz Sarlo disse ao Estado que a Argentina, nos últimos 100 anos, sofreu “a marca maldita dos golpes de Estado, que começaram em 1930 e foram até 1976. Metade desse século vivemos em constante instabilidade política”.
Os economistas argentinos não conseguem consenso sobre o momento do início da decadência. Alguns sustentam que foi em 1930, com a quebra da institucionalidade; outros acreditam que a culpa foi do governo do intervencionista Juan Domingo Perón; enquanto que um terceiro grupo afirma que foi a política econômica caótica da ditadura de 1976-83. Mas, já em 1969 o país causava estupefação para o economista russo-americano Simon Kuznets, que tentou enquadrar o imprevisível país: “existem três tipos de países no mundo. Os normais, o Japão…e a Argentina!”. (a frase é erroneamente atribuída ao amigo de Kuznets, Paul Samuelson).

Kuznets, ao receber o Nobel de Economia, em 1971, das mãos do rei Gustavo VI Adolfo da Suécia
EXILADOS – A decadência econômica e política também teria sido causada pelos exílios, que levaram consigo la crème de la crème dos profissionais e da classe política. Nos anos 50, partiram os intelectuais, pressionados pelo governo peronista. Nos anos 60, emigraram 3 mil cientistas perseguidos pelos militares. Na turbulenta década de 70 partiram profissionais, intelectuais e lideranças políticas. A fins dos anos 80 foram embora milhares de pessoas, pressionadas pela hiperinflação.
Desde meados dos 90, dezenas de milhares partiram por causa do avanço da pobreza. Calcula-se, extraoficialmente, que 1 milhão de argentinos – quase todos mão de obra qualificada – deixaram o país nos últimos 30 anos.
MODELO BRASILEIRO - Enquanto que em 1910 o modelo a seguir era a Grã-Bretanha e a França, nos últimos anos políticos, empresários e de forma geral, a população, começou a encarar o Brasil como um modelo a seguir.
O ex-vice-ministro da Economia, Orlando Ferreres, me disse que ao contrário do Brasil, a Argentina “careceu de estratégias de longo prazo”. Segundo o economista, por este motivo o país vive um cenário no qual até a carne – símbolo nacional – possui uma presença cada vez maior do Brasil: “frigoríficos argentinos são comprados por empresas brasileiras, com respaldo do BNDES, organismo que invejamos, sem similar na Argentina”.
O sociólogo Carlos Fara me comentou que “há 50 anos o Brasil era um país rural, sem indústrias, enquanto que a Argentina já contava com uma classe média de segunda geração, além de prêmios Nobel. O Brasil cresce de forma persistente e representa hoje para a Argentina o sonho daquilo que podia ter sido e não foi”.

Borges, um ácido analista da sociedade argentina, desenhado por Alberto Breccia
PROBLEMAS E ESPERANÇAS - A persistência de crises políticas e econômicas não começou com a crise sem precedentes de 2001-2002, no governo de Fernando De la Rúa (1999-2001). Nem com o de seu antecessor, Carlos Menem (1989-99). Ela teria começado décadas antes. “Este é um país que no segundo século de independência, destruiu tudo o que fez no primeiro”, me disse o think tank Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nueva Mayoría.
O analista, e muitos outros, tentam explicar o que aconteceu para que ocorresse este “grande fracasso nacional”, que tornou a Argentina um dos poucos países que passou do primeiro mundo ao terceiro em poucas décadas.
“Como pode ser que uma nação como esta, beneficiada com invejáveis recursos naturais e humanos, não consiga reverter este lento e melancólico declínio em direção à insignificância?”. Esta foi a pergunta feita há poucos anos por um dos principais estudiosos sobre o país, Nicholas Shumway, da Universidade de Austin, Texas.
Shumway tem a teoria de que existe um fator normalmente esquecido: “a peculiar mentalidade divisória”. O think tank americano considera que o país fracassou na criação de um marco ideológico de união e consenso, caso contrário do Brasil.
O falecido escritor Jorge Luis Borges, costumava dizer que os argentinos eram “brilhantes individualmente, mas coletivamente são um fracasso”. Além de individualistas incorrigíveis, segundo Borges (e outros analistas, ensaístas e historiadores) também padeceriam de outro problema, afirma o sociólogo Guillermo O’Donell: “temos um enorme talento autodestrutivo, somos o espetáculo mundial da auto-destruição”.
No entanto… a crise de 2001-2002 também serviu para que as novas gerações repensassem o país construído (ou destruído) pela geração dos pais. Jovens empresários argentinos, na contra-mão das duas gerações anteriores, investem e apostam no país. De quebra, conseguem fazer que, apesar dos trancos e barrancos, a economia funcione (e, levando em conta que o país teve seis graves crises econômicas desde 1975, a capacidade de recuperação é – no mínimo – invejável).
A cultura está sendo reativada de forma ininterrupta desde a crise da virada do século. O cinema argentino - apesar da crise econômica - se vira e lança filmes todos os anos que competem em festivais internacionais, tal como o recente - “El secreto de sus ojos”, de Juan José Campanella, vencedor, entre outros prêmios, do Oscar de melhor filme estrangeiro (cenas, aqui).
O tango passou por uma renovação e um revival. Longe do estilo tradicional, o tango novo é embalado ao ritmo do techno, como o Bajofondo e outras orquestras. Entre os expoentes está o músico Gustavo Santaolalla (algo de sua obra, aqui), que além de criar um novo estilo e respaldar os jovens músicos, resgata os veteranos compositores (como em “Café de los maestros”, aqui).
Ou, ainda, revisões sobre o tango tradicional, como o caso da carismática Dolores Solá. Neste link, cantando “Que querés con ese loro”. Aqui.
A política, gradualmente, começa a contar com jovens líderes de 20 e 30 anos, que, ao contrário de seus veteranos, aceitam conversar entre si e trocar ideias. Jovens da esquerda, centro e direita mostram disposição ao diálogo, elemento escasso na geração atual de governantes.

O teatro Colón exibe sua restauração. Na foto, a platéia, os camarotes e no forro do teto, a pintura de Raúl Soldi (mais sobre o pintor, aqui)
DA DECADÊNCIA À GLÓRIA RECUPERADA: O COLÓN REABRE SUAS PORTAS EM GRANDE ESTILO
Foram necessários sete anos de árduo trabalho de reformas, diversos adiamentos, trocas de planos e uma miríade de greves e controvérsias políticas. Mas, finalmente, o Teatro Colón – a maior sala de ópera da América Latina e a primeira em qualidade acústica do planeta – reabrirá suas portas. A reinauguração ocorre nesta segunda-feira, dia 24, véspera da data nacional do 25 de maio.
Para esta festa, o Colón receberá 2.400 convidados especiais, entre elas a nata da intelectualidade argentina, representantes da classe política, o empresariado, além do corpo diplomático em peso. O governo, embora convidado, anunciou semana passada que não comparecerá. O motivo está explicado no post anterior, este aqui.
O Teatro Colón estava em estado lamentável. Arquitetos que me guiaram em uma visita às obras indicaram que o estado do teatro era “terrível”, já que as instalações elétricas antes da reforma eram “antiquadas” (algumas, com mais de meio século de instalação) e a falta de sistema de segurança colocavam o edifício em risco de incêndio.
Goteiras estavam espalhadas em diversas áreas do edifício, enquanto que diversos camarins estavam inundados por encanamentos estourados.
A apresentação da reinauguração – o primeiro ato da ópera “La Bohème”, de Giacomo Puccini, e trechos do balé “O lago dos cisnes”, de Pyotr Illyich Tchaikosvky – será transmitida pelo canal de TV Trece para todo o país. Além disso, 60 mil portenhos poderão ver a apresentação do lado de fora do teatro, em imensos telões colocados estrategicamente sobre a avenida 9 de Julio.
Na noite de gala da reinauguração, a Orquestra Filarmônica de Buenos Aires será dirigida pelo maestro Javier Logioia Orbe.
Ao longo deste ano o Colón contará com figuras de peso mundial como os maestros Zubin Metha (que regerá a Filarmônica de Munique) e Daniel Barenboim (com a orquestra e coro do Scalla de Milão).
O violoncelista Yo Yo Ma, acompanhado pela pianista Kathryn Scott abrirá o ciclo internacional no dia 11 de junho. No total, as estrelas estrangeiras realizarão oito concertos até dezembro.
O ciclo nacional, com a orquestra do Colón, começa sua temporada de 18 concertos no dia 3 de junho.

OBRAS - As obras implicaram no trabalho de uma equipe de 1.500 pessoas que reformaram 60 mil metros quadrados do Colón. No total, o governo da cidade de Buenos Aires desembolsou US$ 90 milhões para realizar a maior reforma da História do teatro, que ao longo de 102 anos de vida, só havia passado por duas reciclagens parciais.
As obras iniciaram em 2001, com um plano. Em 2003 tudo foi modificado, e as obras foram retomadas com um novo plano (o atual).
Em 2006, perante a polêmica sobre o lerdo andamento das obras, o teatro foi fechado para o público, dando início ao intensivo plano de recuperação que mantiveria a essência arquitetônica do edifício. As obras inicialmente estavam previstas para concluir em 2008, centenário do Colón.
Mas, perante a impossibilidade de cumprir com os prazos – confrontos políticos, basicamente – as celebrações do centenário do teatro foram realizadas no Luna Park, espaço destinado a lutas de boxe e musicais, sem acústica adequada (é impossível qualquer apresentação ali sem microfones).
Furioso, o maestro Daniel Barenboim, contratado para a ocasião, disparou: “a esses responsáveis e irresponsáveis, deixem de lado suas ambições, que são de pouco valor comparados com aquilo que o Colón representa”.
O prefeito Maurício Macri decidiu colocar uma nova data: 2010, ano do bicentenário da Revolução de Maio.
ACÚSTICA – O Instituto Takenaka do Japão indica que o Colón ocupa o primeiro posto no ranking mundial de acústica lírica (seguido pela Semperoper de Dresden e o Scalla de Milão). Estrelas da ópera mundial sabiam que passar pelo Colón era uma prova de fogo, já que qualquer erro era perfeitamente ouvido pelo exigente público.
Por esse motivo, os restauradores realizaram as obras com cautela, para evitar modificações na qualidade do som. O procedimento adotado foi o de “despir” (remover todos os elementos) a sala de ópera em diversas etapas para medir, a cada uma, o impacto acústico.
Isto é, removiam as poltronas e mediam a acústica; retiravam o tecido que cobria os camarotes, e a acústica era novamente medida.
Por este motivo, os restauradores tentaram manter o mesmo revestimento têxtil de cortinas e poltronas (e o tipo de recheio destas), o tipo de assoalho, entre outros, para evitar qualquer alteração que pudesse modificar a famosa acústica do teatro.
“O Colón possui uma das acústicas mais perfeitas do Universo”, afirma o filósofo e ensaísta Marcos Aguinis, ex-ministro de Cultura e autor do livro “O atroz encanto de ser argentino”. Segundo ele, “o Colón, metaforicamente, é um Stradivarius de incalculável valor”.
E, o spot publicitário sobre a reabertura do Colón (que eu achei genial). O link, aqui.

PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão
……………………………………………………………………………………………………
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
…………………………………………………………………………………………………
2012
2011
2010
2009