Amado Boudou – Aimé para os parentes e amigos – dá uma de Bob Dylan durante um anúncio de medidas econômicas por parte da presidente Cristina Kirchner.
oqueiro, amante das motos Harley Davidson e DJ de festas. Embora pouco costumeiro para um político e um futuro vice-presidente, este é o perfil de Amado Boudou, economista de 48 anos com physique du rôle de galã, que passou da direção do sistema de aposentadorias ao posto de ministro da Economia em 2009. Agora ele é o candidato a vice-presidente na chapa de Cristina Kirchner, que disputa sua reeleição no dia 23 de outubro. Nas últimas semanas, Boudou assumiu a missão de fazer comícios em todo o interior do país, para suavizar a tarefa da presidente Cristina, que na terça-feira, pelo cansaço e estresse, teve um quadro de hipotensão. O ministro aproveita cada ato público para – vestido com camiseta e jeans – mostrar discutidos dotes de guitarrista e encerrar os comícios ao lado da banda de rock “La Mancha de Rolando”.
Caso seja eleito com Cristina – assim indicam as pesquisas, de forma unânime – Boudou, a partir do dia 10 de dezembro, será também o presidente do Senado (na Argentina o vice-presidente da República é o presidente da câmara alta).
Além disso, diversas especulações no âmbito político indicam que a partir de abril do ano que vem Boudou poderia ocupar o cargo de presidente do Partido Justicialista (Peronista), caso a presidente Cristina não aceite o comando partidário oferecido pelas principais autoridades peronistas. O último presidente do partido foi o ex-presidente Nestor Kirchner, que morreu em outubro passado, vítima de um fulminante ataque cardíaco. Depois, o posto foi ocupado de forma provisória pelo governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli.
A eventual designação de Boudou para o comando do peronismo irrita a ala tradicional do movimento político fundado pelo general Juan Domingo Perón há 66 anos. Motivos existem de sobra, já que o bem-apessoado ministro – um recém-chegado no estatizante peronismo – foi durante a maior parte de sua vida um militante da União de Centro Democrático (Ucedé), partido de centro-direita que durante décadas foi o principal reduto do neo-liberalismo argentino. Além disso, foi professor da Universidade do Centro de Estudos Macroeconômicos Argentinos (Ucema), que serviu de “think tank” para as privatizações do governo de Carlos Menem nos anos 90.
Caso a presidente Cristina não consiga uma reforma constitucional que permita uma segunda reeleição (segundo indicam os rumores no âmbito político), Boudou é indicado como o principal “delfim” para sua sucessão.
Velhos integrantes do governo irritam-se com os comentários da presidente sobre Boudou, denominado de “o baby face” do gabinete. “Ele tem 48 anos. Mas parece bem menos, reconheço”, disse Cristina recentemente em um discurso, enquanto sorria olhando para seu futuro vice. O ciúme dos outros ministros foi evidente.
VICE LEAL – Boudou, que não tinha cacife político próprio, demonstra incondicional lealdade a Cristina. Essa é sua vantagem, afirmam os analistas, que destacam que a presidente Cristina buscava essa característica, de forma a evitar os problemas que teve com seu atual vice, Julio Cobos, que rachou com a presidente em julho de 2008, causando a pior crise política da administração Kirchner. Na ocasião, com seu voto de Minerva, Cobos derrubou no Senado o projeto de lei de Cristina que pretendia um “impostaço agrário”. Desde então a ela não fala mais com Cobos, encarado como “traidor”.
“A partir dos fatos que são de público conhecimento, a escolha de um vice é fundamental”, disse Cristina no dia em que anunciou sua escolha por Boudou.
“O principal mérito de Boudou para ser o vice é que ele é leal a Cristina. A presidente quer evitar a ‘Síndrome de Cobos”, afirmou ao Estado a analista política Mariel Fornoni, da consultoria de opinião pública Management & Fit.
Boudou com sua namorada Agustina Kampfer. O casal protagoniza tórridos beijos nas festas.
RUIVA E BEIJOS - Boudou namora a bela e ruiva jornalista Agustina Kampfer, duas décadas mais jovem que o ministro, com a qual protagoniza beijos cinematográficos em festas. “Amado me liga mil vezes por dia”, disse há poucos meses. A jornalista também usa o twitter para tercer elogios sobre o namorado.
O uso intensivo da guitarra e a dedicação intensiva a festas é o alvo de críticas que empresários e economistas disparam contra Boudou. Segundo eles, o ministro não está tomando medidas para blindar o país perante a crise internacional, além de não adotar medidas contra a escalada inflacionária, cuja existência ele nega.
Elisa Carrió, candidata presidencial da Coalizão Cívica, de oposição, comentou ao Estado sobre Boudou: “como ele toca a guitarra!”. O comentário era uma ironia, já que na Argentina a expressão “tocar a guitarra” equivale a “enrolar”.
GOVERNO ROQUEIRO - Boudou ganhou espaço de poder dentro do governo Kirchner quando, em 2008, no comando do sistema previdenciário, propôs ao casal Kirchner a ousada jogada de implementar uma reestatização da totalidade das aposentadorias. Embora o objetivo oficial a longo prazo fosse oferecer garantias para os futuros aposentados, a curto prazo a reestatização permitiu que o governo conte com uma caixa de US$ 25 bilhões extras que são destinados para fazer política.
A medida foi duramente criticada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), as principais agências qualificadoras e por vários setores da oposição de centro e centro-direita.
Recentemente, já candidato a vice, Boudou foi ao programa de auditório “Sabado Bus” e recebeu, em um sorteio, uma moto zero km. Depois, durante o programa, demonstrou seus dotes de guitarrista.
Neste link, a performance do ministro e futuro vice no programa do Telefé, canal que pertence à Telefônica da Espanha. Aqui.
nquanto Nestor Kirchner esteve vivo, o ocupante da pasta de Economia tinha pouco peso, já que o virtual ministro era o próprio ex-presidente. Mas, com a morte de Kirchner, cresceu a influência de Boudou, que tece longas apologias à sua chefe em cada discurso.
Boudou, que aprecia ternos bem-cortados e coleciona canetas-tinteiro, atualmente conta com o respaldo de Hugo Moyano, líder da principal central sindical do país, a CGT e da organização de defesa dos direitos humanos das Mães da Praça de Mayo.
Boudou, rechaça as críticas com ar rebelde. Recentemente, em um entrevista à edição argentina da revista “Rolling Stone” o ministro e eventual futuro vice resumiu a essência da administração Kirchner com uma analogia de rock and roll: “este é um governo muito roqueiro, pois tem esse espírito de atrever-se a mudar as coisas que não gosta”.
AIMÉ - Amado Boudou, chamado de “Aimé” (Amado em francês) por sua família e amigos, estudou no balneário de Mar del Plata, onde formou-se em Economia. Depois de trabalhar como DJ em festas no litoral, o jovem
“Era um playboy naquela época”, afirma ao Estado uma ex-colega de faculdade. Ela formou-se rápido. Mas Boudou levou vários anos a mais. “É que ele estava ocupado com sua militância política na juventude da Ucedé”, explica.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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‘Dragão’ da inflação preocupa cidadãos argentinos. Ilustração mostra dragão japonês, mas da escola chinesa. Século XIX. Bibliothèque des Arts décoratifs, Paris.
Assustados com a escalada de preços, os argentinos acreditam que a inflação acumulada dos próximos doze meses será de 33,7%. Isso é o que indica uma pesquisa feita pela Universidade Di Tella, que investigou as expectativas de inflação da população. A proporção mostra um aumento desde o mês passado, quando a expectativa de inflação para os seguintes doze meses era de 31,4%.
Mas, enquanto a população angustia-se com a persistente alta de preços – que tornou a Argentina o país com a segunda maior inflação do mundo (atrás da Venezuela) – o governo da presidente Cristina Kirchner nega a escalada inflacionária. Segundo o ministro da Economia, Amado Boudou, os alertas sobre a inflação não passam de “conspirações” dos partidos da oposição.
O Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) anunciou na sexta-feira que o índice de inflação de setembro foi de 0,7%. Mas, economistas independentes e organizações de defesa dos consumidores consideram que a inflação oficial está “maquiada” e que o índice “real” é de pelo menos o dobro, já que oscilaria entre 1,6% a 1,8%.
A inflação acumulada desde janeiro, de acordo com os dados do governo, seria de 8,3%. No entanto, para a consultoria Ecolatina a inflação real acumulada nos primeiros nove meses deste ano chegaria a 19,6%.
Dragão que havia sequestrado donzela (a moça da esquerda que está com as mãos amarradas) leva bolachas a granel de santo tolerância zero. Obra de Paolo Uccello, “São Jorge em luta contra o dragão”, de 1470. Quadro exposto na National Gallery, Londres.
Economistas independentes afirmam que 2010 será encerrado com uma inflação que oscilará entre 25% e 30%. Mas, o governo calcula que será no máximo de 9,9%.
No entanto, nas recentes negociações salariais feitas com empresas pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), a maior central sindical do país, alinhada com a administração Kirchner, os sindicalistas exigiram (e obtiveram) altas salariais de 25% a 30%, proporção mais próxima aos cálculos de inflação das consultorias econômicas independentes do que do índice elaborado pelo Indec.
São Miguel, celestial cabra destemido, depois de uns bons sopapos em um dragão (não era o dragão da inflação) prepara-se para abotoar o paletó de madeira do dito cujo monstro com sua afiada peixeira medieval. Quadro de Raffaello Sanzio (1483-1520). Mais detalhes sobre esta obra genial, aqui.
Em 2006, o governo do presidente Néstor Kirchner tentou conter a inflação com o congelamento de preços. Mas, com o fracasso dessa política, em dezembro desse ano iniciou a manipulação de dados. Segundo o jornalista Jorge Lanata, o casal presidencial “não gostava da febre da inflação…por isso, a saída que os Kirchners encontraram foi conseguir um termômetro que indicasse só a febre que eles querem”.
Desde janeiro de 2007 a medição da inflação do Indec, organismo sob férrea – e controvertida – intervenção do governo Kirchner, é alvo de acusações de “maquiagem” por parte de empresários, associações de consumidores, economistas e a própria população, que diariamente depara-se nos comércios com substanciais aumentos de preços e serviços.
Ao longo destes três anos e meio a inflação “maquiada” oscilou entre metade e um terço da inflação calculada por diversos economistas e associações de defesa do consumidor.
Segundo o governo, em 2006 a inflação foi de 9,8%. Mas, de acordo com vários economistas, o índice sofreu uma leve manipulação em dezembro daquele ano. A inflação real teria sido de 10,7%.
Em 2007, com a intervenção intensa do Indec o índice oficial foi de apenas 8,5%. Segundo diversos cálculos de ex-integrantes do Indec, economistas e associações de consumidores, a inflação real esteve ao redor de 25% a 27%.
Em 2008, a inflação, segundo o Indec, foi menor ainda, de 7,2%. Mas, os economistas indicam que estes ao redor de 25%.
Em 2009 o governo disse que a inflação foi de 7,7%. Mas, os economistas afirmam que foi de 14% a 18%.
A “camuflagem” da escalada inflacionária argentina também preocupa a Organização Internacional do Trabalho (OIT), que em setembro anunciou que reconhece a falta de credibilidade do Indec.
O organismo está sob o controle do polêmico secretário de Comércio, Guillermo Moreno, considerado o homem que “faz o trabalho sujo” dos Kirchners na área.
Quase Kirchner…Kircher. Athanasius Kircher, intelectual jesuíta, autor de “A História natural dos dragões”. Acima, “o grande dragão da ilha de Rodes”, que ilustra a obra do clérigo polivalente. E para mais detalhes sobre Kircher, aqui. E melhor ainda, aqui.
Tal como a inflação no cotidiano argentino… A serpente-dragão Quetzalcoatl deglute um asteca desprevenido. No Códice Telleriano-Remensis, que está Bibliothèque nationale de France, em Paris.
ATENÇÃO! Nenhum dragão verdadeiro foi ferido ou prejudicado no decorrer da preparação e publicação desta postagem.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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Nota de 100 pesos cada vez vale menos. E o governo não pensa emitir uma nota com valor numérico maior, já que nega a escalada inflacionária. Na cédula – que antes comprava muito e agora pouco – o general e presidente Julio Argentino Roca (1843-1914).
A efígie de Julio A. Roca, general e presidente argentino do século dezenove e início da vigésima centúria, está desprestigiada, embora decore as notas de 100 pesos, as de maior numeração em circulação no país há duas décadas. Apesar disso, estas cédulas possuem um poder de compra cada vez menor por causa da escalda inflacionária que assola o país. Segundo o economista Ricardo Delgado, da consultoria Analytica, ao longo da última meia década as notas de 100 pesos sofreram uma desvalorização de mais de 50%. Mas, embora exista a necessidade de notas com maiores números, o governo da presidente Cristina Kirchner – que nega a existência da escalada da inflação – rejeita a ideia de emitir cédulas de 200 ou 500 pesos.
Em 2005 – antes do início da escalada inflacionária – as notas de 100 pesos constituíam 35% do total de notas em circulação na Argentina. Atualmente estas cédulas representam 46% do total do papel-moeda, fato que indica que estas notas estão sendo cada vez mais requisitadas. Cada vez mais o governo emite maior volume de notas de 100 pesos e menos notas de 20 e 50.
Susana Andrada, presidente da Centro de Educação de Consumidores, considera que o Banco Central está tentando evitar a emissão de uma nova nota. Segundo os especialistas, isso implicaria em admitir que o valor da maior nota existente não é suficiente para a maioria das compras realizadas pelos argentinos, e portanto, teria que confessar que a inflação “real” é maior que a “oficial”.
O economista Fausto Spotorno, da consultoria Orlando Ferreres e Associados, afirma que desde a crise de 2001 até junho deste ano a Argentina teve uma inflação acumulada real de 244%. Por esse motivo, afirma, o governo “pelo menos poderia emitir uma nota de 200 pesos”. Andrada, defensora dos consumidores, sustenta que a nota de 100 pesos que no ano 2008 um argentino gastava em três dias, “atualmente a gasta em 24 horas”.

A moeda de 1 peso, a última à direita, não vale para quase nada. Logo, as colegas que estão à sua esquerda…
As moedas de um peso também estão com sua utilidade comprometida. Cada vez mais, sozinhas, não compram ou pagam nada. Atualmente, com um peso uma pessoa pode pagar uma passagem de trem do bairro de Liniers, na fronteira da cidade de Buenos Aires até a estação de Once, no centro da capital. Além disso, o Estado conferiu em um quiosque na estação de trem de Retiro que uma moeda de um peso apenas pode comprar pequenos doces e unidades de balas e chicletes.

Quem quer ser um milionário? O general José de San Martín, em sua versão ‘senior’, na desprestigiada nota de 1 milhão de pesos, emitida no final da última ditadura militar (1976-83). Na época, estas notas foram vendidas nos EUA por um empresário que fez a seguinte publicidade: “Quer ser um milionário? Compre esta nota de 1 milhão de pesos por US$ 10,00! Enviaremos a nota em uma fantástica moldura para que impressione os amigos!”. E falando em “Quem quer ser um milionário”, o irônico “Who wants to be a millionaire”, de Cole Porter. Nesta versão, com Frank Sinatra, no filme do qual também participa Louis Armstrong (o filme é o “High Society”). O link, aqui.
‘OFICIAL’ E ‘REAL’ - O Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) – organismo sob controvertida intervenção federal há mais de três anos – anunciou que a inflação de julho foi de 0,8%. Na contra-mão, economistas independentes, sindicatos não-alinhados com o governo e associações de defesa dos consumidores, afirmam que a administração Kirchner “maquia” o índice e sustentam que a inflação “real” de julho teria sido de 1,7 a 2%.
Segundo a consultoria Estudio Bein a inflação acumulada nos primeiros sete meses deste ano é de 13,5%. A consultoria Ecolatina calcula a alta em 15,6%. Mas, de acordo com os números do governo anunciados há pouco mais de uma semana, a inflação acumulada desde janeiro seria de 6,7%
Desta forma, a inflação registrada pelo governo da presidente Cristina Kirchner, ultrapassa as estimativas feitas no Orçamento Nacional de 2010, no qual calculou uma alta de 6,1%.
Os economistas independentes afirmam que a inflação neste ano será superior a 28%.
Mas, na população, a percepção da inflação é mais dramática que a calculada pelos economistas críticos do governo. Segundo uma pesquisa realizada pelo Centro de Investigação em Finanças da Universidade Torcuato Di Tella, os argentinos esperam uma inflação acumulada de 32,5% para os próximos doze meses.
Enquanto diversos sindicatos conseguirm altas salariais que até quadruplicam a proporção de inflação estimada pelo governo (por via das dúvidas, negociaram nas últimas três semanas altas salariais de até 30%), o discurso oficial da cúpula, isto é, Confederação Geral do Trabalho (CGT) é o de que a inflação argentina é “mínima”.
Segundo Hugo Moyano, secretário-geral da CGT e aliado da presidente Cristina, a atual inflação “está controlada” e “não é prejudicial”.
Cidadão alemão usa notas com valor implodido pela hiper-inflação dos anos 20 como papel de parede. A foto é do acervo do Bundesarchiv.
CUMPRIMENTAM, MAS NÃO COMPRAM - O jornaleiro Juan Carlos Brescia, 60 anos, disse ao Estado que “ri” quando vê os números do governo. “Esses números estão longe da realidade dos trabalhadores”, sustenta, enquanto arruma as revistas em sua banca. “Muitos clientes passam pela frente da banca e dizem ‘oi!’ mas não compram nada por causa da alta de preços”.
Brescia afirma que o aumento de preços e a consequente perda do poder aquisitivo de seus clientes na Recoleta, um bairro de classe média alta e classe alta, provocou uma perda de 50% de suas vendas.
Segundo a Ecolatina, a inflação de 2010 será a maior registrada desde a desvalorização do peso, em 2002, ano em que o índice foi de 40%.
A carne bovina registrou um aumento de 60% no preço desde janeiro. O pão subiu 10% no mesmo período, enquanto que os combustíveis, desde o início deste ano, registraram uma alta de 28% a 40%, dependendo do produto. Neste último caso, na semana passada o governo Kirchner anunciou que aplicará a “Lei de Abastecimento”, de 1974, para punir empresas que aumentem o preço dos combustíveis.
Assustado com a inflação, Brescia tem um consolo: “os clientes não compram mais como antes… mas pelo menos passam na frente da banca e dizem ‘oi!’ “
SENSAÇÃO DE POBREZA – Uma pesquisa do Centro de Economia Regional e Experimental (Cerx) indicou que 72,7% dos argentinos sentem-se “pobres”, já que afirmam que o volume de dinheiro que ganham mensalmente não é suficiente para chegar no fim do mês. A proporção de pessoas que sentem “pobreza subjetiva” – segundo a denominação aplicada pela diretora da Cerx, Victoria Giarrizzo – era de 63,3% no ano passado. Os analistas da consultoria afirmam que por trás desta sensação de pobreza está a crescente inflação.
QUEIJO, OBJETO DE COBIÇA: Neste link, do jornal Perfil, detalhes sobre a cobiça que os cada vez mais caros lácteos estão despertando no nicho profissional dos ladrões. Aqui.
FANTASMA DA INFLAÇÃO ASSOMBRA ARGENTINOS HÁ QUATRO DÉCADAS

General e ditador Juan Carlos “La Morsa” Onganía começou a moda de cortar zeros. De lá para cá 20 presidentes e 43 ministros da economia tentaram combater espiral inflacionária. Charge do irônico Landrú, cartunista que despertou a ira do militar.
Os economistas ressaltam que entre 1890, quando foi instituído o “peso nacional”, até o “peso lei” do final dos anos 60, a Argentina teve estabilidade financeira. Mas, em 1969 o então presidente e ditador general Juan Carlos Onganía decretou a primeira lei que eliminou zeros das notas de pesos, com o intuito de dissimular a escalada inflacionária. De lá para cá, as notas argentinas perderam treze zeros.
Nestes últimos 41 anos o país foi assolado de forma persistente pelo fantasma da inflação, contra o qual tentaram lutar, com escassos resultados, os 20 presidentes que passaram pela Casa Rosada – o palácio presidencial – e os 43 ministros da Economia que ocuparam a pasta.
Em 1989 a Argentina teve sua primeira hiperinflação, que chegou a 4.923,6%. A espiral inflacionária levou Alfonsín à renúncia seis meses antes do fim programado de seu mandato.
Seu sucessor, Carlos Menem (1989-99), tentou de forma errática diversas fórmulas econômicas. O resultado foi um segundo período hiperinflacionário, que chegou a 1.343,9% em 1990.
Nos anos 90, a conversibilidade econômica – que estabelecia a paridade um a um entre o dólar e o peso – apesar dos problemas que trazia em seu bojo, foi respaldada com entusiasmo pelos argentinos, que depois de décadas viam finalmente um período de inflação zero (e até de deflação.
Mas, a conversibilidade naufragou em dezembro de 2001. A inflação só não voltou a galopar de forma imediata porque a economia estava estancada e o poder de compra era quase nulo. Mas, a economia recuperou-se a partir de 2003. E a inflação voltou a aparecer.
Economistas, associações de defesa dos consumidores, empresários e sindicatos afirmam que o casal Kirchner, sem sucesso para deter a inflação, camufla os índices elaborados pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).
Em sarcástica alusão à persistência da inflação na economia argentina, Roberto Dvoskin, professor da Universidade de San Andrés e ex-secretário de Comércio, afirma: “a Argentina é alcoólica em relação à inflação. E o alcoolismo não se cura… administra-se!”.

O ‘La Morsa’ original, J.C.Onganía, militar que – segundo as más línguas – não era famoso por contar com muitas sinapses em sua massa cinzenta.
O desejo incontrolável de escrever “zeros”, aqui.
E um artigo da Times, de 1923, sobre o assunto, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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AVISO: Caras e caros leitores-comentaristas. Ontem, dia 8 de março, completamos um ano de blog! Póc! Póc! Póc! Fiuuummm-fiummm! (onomatopéia para fogos de artifício). Foram 125 postagens desde que iniciamos o blog. Isto é, uma a cada três dias. E graças ao blog, pude conhecer vários de vocês. Alguns pelo intercâmbio de opiniões nos comentários, outros por mail, e vários pessoalmente. Esse intercâmbio foi um imenso deleite que continuará ao longo deste ano!
E também lhes aviso que desde ontem também estou em férias. Por isso, ao longo deste mês tentarei colocar os comentários de vocês a cada 4 ou 5 dias. E, na medida do possível, irei respondendo.
Agradeço a vários comentaristas a preocupação que expressaram durante minha cobertura do terremoto no Chile!
Abraços a todos,
Ariel
Vaca é heroína, açougueiro é galã, e governos evitam aumentos do preço da carne para não irritar eleitorado
“A carne bovina é a única droga que qualquer governo argentino jamais proibirá”. A frase, do ensaísta Alan Pauls, ilustra a paixão de seus compatriotas pela carne bovina e o risco que corre qualquer governo em limitar o consumo desse quitute. A carne, para os argentinos, é mais do que um alimento, afirmam os especialistas, que consideram que é um modus vivendi dos habitantes deste país, que devoram 70 quilos per capita por ano, quantidade que os coloca com ampla vantagem na pole position mundial de consumo, acima do Uruguai e EUA. O volume também é significativamente superior ao do Brasil, onde a ingestão é de 36 quilos anuais (o Estado mais “carnívoro” da federação é o RS, com 46 quilos por ano).
Mas, a carne está sob perigo de escassez. No último ano a produção caiu em 25% por causa do confronto dos pecuaristas a presidente Cristina Kirchner. A queda foi agravada por uma inédita seca que assolou o país em 2009 e a falta de ajuda governamental aos produtores. Estes entraram na mira da presidente Cristina, que os acusa de “golpismo”.
O debate sobre a carne está ocupando há semanas as manchetes dos jornais portenhos e é assunto constante nos programas de TV. As associações ruralistas afirmam que a terra do baby beef depararia-se em 2011 com a necessidade de importar carne, pela primeira vez na História. Só nos últimos três anos o preço do quilo da carne cresceu em 180%. Só nos primeiros dois meses deste ano houve uma nova escalda, chegando a um aumento de 35%. O governo, no entanto, afirma que o preço só aumentou 4,5%.
O aumento do custo do quitute nacional irrita cada vez mais os argentinos com a presidente Cristina, colaborando na queda de sua popularidade. Ela reage colocando a culpa nas “excessivas chuvas” e na “cobiça” dos pecuaristas. Recentemente a presidente tentou desviar o consumo dos argentinos para a carne suína, atribundo-lhe poderes afrodisíacos que ela própria teria comprovado empiricamente com seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, dois fins de semana antes deste passar mal e ser operado de uma obstrução na carótida.
Sr. Príncipe, açougueiro-mor do Mercado del Progreso, no bairro de Caballito, prepara-se para cortar um substancial pedaço de bovino falecido
VEGETARIANOS - Os preços sobem, as recessões assolam o país, e os governos tentam desviar o consumo. Mas, nada disso consegue evitar que os argentinos continuem aferrados à carne. “Quando os preços sobem, as pessoas começam a procurar cortes de carne de menor qualidade…mas sempre comem carne!”, afirmou ao Estado Carlos Príncipe, açougueiro do Mercado del Progreso, no bairro de Caballito, onde sua família tem um estabelecimento desde 1938. Terceira geração de açougueiros (seus avós foram açougueiros do conde de Romanones, ministro do rei Alfonso XIII da Espanha) – enquanto afia duas facas como se fossem um sabre – Príncipe sustenta: “neste país, os vegetarianos são uma raridade”. As autoridades reforçam a ideia. Segundo o Instituto de Estímulo e Divulgação da Carne Bovina, “os argentinos são carnívoros por excelência”. Em 2007 o então presidente Néstor Kirchner tentou conter a escalada de preços generalizada. O produto mais visado pelas medidas foi a carne. Kirchner, para reduzir o preço aos consumidores, proibiu as exportações do produto, de forma a redirecioná-lo ao mercado interno.
VACA, A HEROÍNA - Ao contrário de outros países, onde as crianças na escola primária escreviam a redação “Minhas férias”, os alunos argentinos redigiram durante décadas “La Vaca” (A Vaca), uma apologia dessa heroina quadrúpede que propiciava à Argentina riquezas e prestígio mundial por seus baby beefs.
A presença da carne está presente também na gíria portenha, especialmente para designar atração sexual. Esse é o caso da expressão “que lomo!” (que lombo!), para referir-se ao “apetitoso” corpo de um homem ou mulher. Além disso, a presença da carne na cultura também é evidente nas telenovelas, em várias das quais os protagonistas galãs interpretavam açougueiros. No início desta década o churrasco foi o centro do talk show “Um aplauso para o churrasqueiro”, onde o apresentador, Roberto Petinatto, entrevistava seus convidados enquanto preparava os sanguinolentos nacos de carne que posteriormente eram consumidos enquanto respondiam as perguntas.

A vaca raivosa (La vache enragée) de Toulose Lautrec, cartaz de 1896
‘CARNE, NA ARGENTINA, NÃO É CONVENIÊNCIA, MAS SIM CULTURA’
Juan José Becerra não somente ostenta alusões bovinas em seu sobrenome (becerra é ‘bezerra’ em espanhol). Ele também é autor de “A Vaca”, ensaio que disseca a importância econômica, gastronômica, política, cultural e social dos bovinos na Argentina.
Estado – Qual é o espírito do clássico da escolar, a redação “A Vaca”,?
Becerra – O patrão formal dessa redação não obedecia à descrição da vaca como unidade industrial, o que ela verdadeiramente é, mas sim, uma descrição sentimental na qual a pobre besta aparecia como prodígio de bondade. A ideia era que a vaca nos ‘dava’ coisas, como a carne, couro, etc.
Estado – A escassez de carne pode irritar o eleitorado com um governo aqui?
Becerra – Não falaria em ‘eleitores’, mas sim em ‘comensais’. Há uma conexão entre as duas categorias. “O Matadouro”, primeiro texto narrativo de nossa literatura trata de um grupo de pessoas que mata um adversário político no meio de uma proibição da carne em 1830. Pelo menos, na literatura, os argentinos matam se ficarem sem carne bovina. É que comer carne na Argentina não está indicado por uma dieta de conveniências, mas sim pela cultura.
Estado – A carne está tão presente até rendeu telenovelas sobre o assunto…
Becerra – Uma comédia de TV, “De carne somos”, era protagonizada por um açougueiro. Os açougues foram em nossas telas cenários cômicos ligados ao sexo. Em vários filmes aparecem os churrascos como área de ‘descanso narrativo’, mas também como verdade sociológica de um país cujos habitantes volta e meia fazem a pergunta “e quando fazemos um churrasco?”. Em nosso horizonte pode ser que não exista um destino de grandeza…mas sobram churrascos!
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
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