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Ariel Palacios

Eva Perón, durante visita em 1947 ao ditador fascista espanhol Francisco Franco. O respaldo de Evita e de Perón – especialmente econômico, além de político - foi crucial naquela período para o generalíssimo ibérico que dizia-se “caudilho de Espanha pela graça de Deus”. Cinco anos depois Evita faleceria. Nos anos seguintes à sua morte o carnaval na Argentina foi suspenso pelo luto imposto pelo governo do viúvo.

A ditadura militar argentina (1976-83) acabou oficialmente com o carnaval argentino em 1977 ao eliminar o feriado de Momo. O ditador e general Jorge Rafael Videla – que temia que guerrilheiros de esquerda pudessem esconder-se atrás dos disfarces, e com isso, supostamente realizar atentados – também proibiu as reuniões públicas destinadas a esse festejo. Além disso, o asceta militar ordenou a proibição dos blocos carnavalescos.

Mas, a presidente Cristina Kirchner – que nos últimos anos fez a revisão de uma série de medidas da ditadura – decretou há poucos meses a reimplantação do feriado de carnaval.

“Queremos que a alegria volte à Argentina!”, disse exultante em setembro a presidente Cristina, perante uma plateia de “murgueros” (denominação dos integrantes dos blocos carnavalescos portenhos) que entoaram a “marcha Peronista” com um ‘touch’ de ritmo carnavalesco.

Desta forma, na semana que vem os argentinos poderão aproveitar o feriado de carnaval pela primeira vez desde 1976.

PRIMEIRO GOLPE - O carnaval argentino recebeu seu primeiro golpe com a morte de Eva Duarte de Perón – mais conhecida como Evita – em 1952. Durante três anos, todos os dias, na mesma hora em que havia falecido, nas rádios os locutores recordavam o falecimento da “mãe dos trabalhadores” e “líder dos descamisados”.

O clima de luto perdurou durante meses, e foi reforçada pela decisão do governo peronista de suspender o carnaval de 1953 e dos dois anos posteriores.

O golpe militar que em setembro de 1955 derrubou Perón restaurou em fevereiro de 1956 o feriado carnavalesco.

Mas, vinte anos depois, a ditadura militar do general Videla revogou o feriado e impediu as festividades. Este segundo duro golpe teve consequências mais permanentes que a morte de Evita. Embora a ditadura tenha acabado sete anos depois (em 1983) o carnaval levou mais de uma década para dar seus primeiros passos de retorno às ruas portenhas.

Videla (à direita) daria o golpe de misericórdia no carnaval argentino em 1976 ao suspender a totalidade dos festejos. As celebrações só ressurgiram – gradualmente – a partir dos anos 90. Na foto, Videla está acompanhado por seu vizinho e partner em assuntos ditatoriais, o general chileno Augusto Ramón Pinochet.

RECUPERAÇÃO - Desde a volta da democracia o carnaval recuperou-se de forma lenta e gradual em Buenos Aires com o surgimento das “murgas” (blocos) em diversos bairros.

Os integrantes das “murgas” dançam ao som do “candombe”, um ritmo de origem africano (remanescente dos tempos em que havia escravos em Buenos Aires) com intensos requebros.

Nos anos 80 existiam somente 15 murgas. Mas na virada do século XXI o número havia subido para mais de 100, compostas por dez mil “murgueros”. Atualmente existem mais de 200 murgas. O respaldo dos governos municipal e federal só apareceu na última década, quando as murgas mostraram que estavam consolidadas.

Murgas portenhas estão em plena recuperação. A cada ano surgem novos blocos.

As murgas concentram-se nos bairros de classe média baixa. Os bailes possuem pequenas dimensões em Buenos Aires, comparado com o Brasil, já que participam poucas centenas de pessoas. Para aumentar a participação, a prefeitura de Buenos Aires projeta recuperar o carnaval de salão, esquecido há décadas, além de outras festividades populares.

Mas, desde 1976 até este ano, em todos os lugares do país os carnavalescos só podiam protagonizar os festejos de Momo nos fins de semana, devido à inexistência do feriado de carnaval.

A presidente Cristina aproveitou a restauração do feriado de carnaval, no final do ano passado, para também anunciar a criação de outros novos feriados. Desta forma, com o decreto presidencial, o número total de dias considerados “feriados nacionais” passou de doze para quinze. A ideia, afirmou Cristina Kirchner, é estimular o turismo.

 Em Gualeguaychú a preferência é pelos carros alegóricos e a inspiração nas plumas e brilhos do carnaval brasileiro.

AO MODO DO BRASIL - Muito antes do Mercosul integrar as economias do Brasil e da Argentina, os habitantes da cidade de Gualeguaychú, na província de Entre Ríos,   importaram um produto tipicamente brasileiro: o carnaval. Desde os anos 60, os foliões argentinos desta região vestem-se com as plumas e lantejoulas típicas das festividades de Momo no Brasil, e desfilam em carros alegóricos.

Os próprios entrerrianos admitem que embora não haja mestres-salas, nem porta-bandeira, e sequer a música seja samba, o carnaval de Gualeguaychú é uma espécie de “irmão caçula” do carnaval carioca.

O carnaval de Gualeguaychú tornou-se um furor nacional nos últimos cinco anos, e é assistido por políticos e atores. As “comparsas” (as “escolas” locais) aproveitaram o sucesso para convidar estrelas da TV, modelos ou cantores para destacar-se. Em Gualeguaychú, existe um lugar para o desfile, inspirado no sambódromo, que denomina-se “Corsódromo”, em alusão a “Corso”, denominação argentina para o desfile ou parada de carnaval.

Nas últimas décadas, a febre do carnaval inspirado no brasileiro, se espalhou pelas pequenas cidades da região: Santa Elena, Concepción, Chajarí e Gualeguay. A preparação das fantasias e dos enredos leva todo o ano.

O lado físico também conta: para estar com os corpos comme il faut, nestas cidades florescem as academias de ginástica, que são escassas no resto do país, mesmo em Buenos Aires (comparado com o imenso volume de academias existentes em São Paulo ou no Rio de Janeiro).

AO MODO INDÍGENA - No norte da Argentina também comemora-se o carnaval, mas com tons indígenas: na região da Puna, na fronteira com a Bolívia, o centro da festa é o “Pujillay”, isto é, o “diabo carnavalesco”, personagem da mitologia local, derivada dos incas. Sepultado desde o final do carnaval do ano anterior, o diabo é desenterrado, dando início às festas, com músicas indígenas e coloridos desfiles pelos vilarejos da região. Nestas festas os participantes mascam folhas de coca e ingerem bebidas feitas com essa planta.

Diabo desenterrado é o foco do carnaval do norte da Argentina. A festança – além das danças típicas – é complementada com suculenta gastronomia.

VOCABULÁRIO:

- Murgas: espécie de blocos

- Corsos: o desfile das murgas

- Candombe (nome que origina-se na palavra candomblé): música que embala as murgas, com ritmo de origem africano.

  E um link do Youtube com Alberto Castillo cantando um candombe-milonga clássico do final dos anos 50: “Siga el baile”. Aqui.

   

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Do Riachuelo ao Aerolula: O encouraçado brasileiro “Riachuelo”, que transportou Campos Salles do Rio até Buenos Aires. O navio de guerro aparece “estacionado” em Puerto Madero. Na época, os cais haviam sido recém-inaugurados. Um século depois a mesma área seria o point de restaurantes, atualmente entupidos de turistas.

Nesta segunda-feira – longe de Puerto Madero e dos encouraçados de antanho – quando a presidente Dilma Rousseff desembarque do avião presidencial Santos Dumont em Buenos Aires, será do outro lado da cidade, na base aérea do Aeroparque Jorge Newbery, o aeroporto metropolitano portenho.

uas cheias de guirlandas e arcos do triunfo. Esses foram alguns dos elementos que os portenhos colocaram nas ruas da capital argentina para exaltar a visita do presidente do Brasil Manuel Ferraz de Campos Salles à Buenos Aires em outubro de 1900. Na ocasião, 300 mil portenhos (a cidade contava com 1,2 milhão na época, isto é, um de cada quatro habitantes da cidade foi às ruas receber o visitante) urraram o nome do brasileiro nas ruas da cidade, celebrando seu desembarque. Campos Salles dava início às visitas presidenciais brasileiras no exterior.

Campos Salles colocava seus pés em Buenos Aires para retribuir uma visita feita pouco mais de um ano antes, em agosto de 1899, pelo presidente argentino Julio Roca ao Rio de Janeiro. À beira da Bahia de Guanabara, Roca teria dito uma frase histórica, “tudo nos une, nada nos separa”.

A frase, no entanto, é uma daquelas que se encaixam na categoria de ‘se non è vero, è ben trovato’, já que ela seria pronunciada nesse exato formato em 1910, pelo então presidente eleito da Argentina, Roque Sáenz Peña, durante sua visita ao Rio de Janeiro. “Hoje em dia essa afirmação pode parecer banal. Mas na época, foi revolucionária”, me disse o ex-embaixador do Brasil em Buenos Aires, Luiz Felipe de Seixas Correa.

Roca também deixou para os registros históricos uma categórica afirmação (esta, de cunho próprio): “o Brasil e a Argentina devem unir-se por laços da mais íntima amizade, porque juntos serão ricos, fortes, poderosos e livres”.

Com esta visita, o Brasil, depois de 67 anos de monarquia, desejava “republicanizar” sua política externa, atenuando os vínculos com as coroas europeias e privilegiando o espaço sul-americano. 

 

OM TODA A POMPA – Ao contrário das visitas presidenciais atuais – corriqueiras, de apenas 24 horas, com comitivas de poucas dezenas de pessoas, e que muitas vezes passam desapercebidas para o grande público – a viagem de Campos Salles à Buenos Aires no ano seguinte à visita de Roca ao Rio foi em grande estilo. O presidente viajou na companhia de centenas de pessoas, no encouraçado “Riachuelo”, que veio acompanhado de parte da esquadra brasileira, que levava centenas de pessoas que integravam a comitiva presidencial.

Campos Salles permaneceu em Buenos Aires durante uma semana com atividades que incluíram idas à Ópera, ao Hipódromo e diversas recepções com bailes. A ocasião foi tão especial que os dois presidentes foram os protagonistas do primeiro filme rodado na Argentina.

O cinegrafista Eugenio Py gravou as imagens dos dois presidentes conversando em uma escadaria em um palacete portenho. 

 

Chegada de Campos Salles até virou motivo de cartão postal na época da visita. Postal mostra multidão e arco do triunfo no porto.

Depois de Campos Salles passaram várias décadas sem visitas presidenciais brasileiras. Foi necessário esperar até 1935, quando chegou à Buenos Aires o presidente Getúlio Vargas, que aqui reuniu-se com o presidente e general Augustín Justo. Na ocasião, foram assinados 12 acordos bilaterais.

O arquivo da Chancelaria argentina mostra vários dados curiosos sobre a visita de Vargas ao país. Um deles, o desespero da Chancelaria local pela lerdeza da Embaixada argentina no Rio de Janeiro em enviar os dados e fotografias do presidente Vargas para fazer o livro de luxo que celebraria a visita.

Outra peculiaridade teve a pianista Guiomar Novaes como foco, já que o governo brasileiro, a último momento, queria colocá-la de qualquer forma na programação cultural da visita de Vargas à Buenos  Aires. Depois de fortes pressões brasileiras os argentinos deram um jeito e finalmente conseguiram um buraco na agenda das festividades para que ela tocasse no Teatro Cervantes.

O general e presidente Justo à esquerda. À direita, Getúlio Vargas.

M PRESIDENTE FASCINADO – Vargas foi hospedado no Palácio Pereda, no início da elegante Avenida Alvear. Encantado com a mansão, o presidente propôs sua compra, para transformá-la na Embaixada do Brasil. Celedonio Pereda, fazendeiro argentino que havia construído o palacete pouco mais de uma década antes, foi seduzido pelas insistentes ofertas que Vargas fez nos anos seguintes. A compra foi efetivada em maio de 1945, nos derradeiros meses do governo Vargas.

Desde os anos 80 o Palácio Pereda é a residência do embaixador brasileiro. A parte administrativa construída nos anos 80, está perto dali, virando o quarteirão, na rua Cerrito.

Segundo a escritura dos tabeliões Juan e José Toribio, em troca do palácio o governo brasileiro cedeu à família Pereda o prédio da Avenida Callao 1555, até então a embaixada do Brasil, junto com 4 mil toneladas de minério de ferro.

O edifício neo-clássico da sede diplomática localiza-se na frente da Praça Carlos Pellegrini, diante do Jockey Club, quase ao lado da refinada Embaixada da França. Erroneamente, a maioria das pessoas consideram que o palácio está no elegante bairro da Recoleta. Mas, esta começa a três quadras dali. Oficialmente, o palácio está no bairro de Retiro. 

Dutra, acompanhado por Evita Perón. Atrás da primeira-dama argentina, a “Mãe dos pobres”, está a silhueta do general e presidente Juan Domingo Perón.

UTRA E JÂNIO, NA FRONTEIRA - Na seqüência das visitas presidenciais, a seguinte seria a vez do presidente Juan Domingo Perón, que receberia o presidente Eurico Gaspar Dutra em 1947. No entanto, o encontro ocorreria na fronteira, entre a argentina Paso de los Libres e a brasileira Urugaiana (RS). Na ocasião, com a presença de Evita Perón, a primeira-dama argentina, os dois presidentes inauguraram a ponte que liga as duas cidades. Esta seria a primeira entre os dois países, já que ambos lados da fronteira tradicionalmente evitaram a construção de pontes, já que estas podiam servir para a passagem de tropas invasoras do país vizinho.

O trecho da metade da ponte correspondente à Argentina foi inaugurada com o nome de Agustín Justo, ditador da Argentina nos anos 30. Do lado brasileiro, teve o nome do ditador Getúlio Vargas (na época, Vargas somente havia sido ditador; ele ainda não havia sido eleito democraticamente presidente, tal como aconteceria em 1950).

Em abril de 1961 seria realizado o seguinte encontro, também na divisa dos dois países, entre os presidentes Arturo Frondizi e Jânio Quadros. No encontro, os presidentes tiveram opiniões diferentes sobre o contexto regional (a crise de Cuba, a posição perante os EUA) e internacional (a eventual aproximação aos países africanos que começavam a independizar-se e aos países comunistas da Ásia). Mas, assinaram um importante acordo de amizade e consulta. Quadros, que duraria poucos meses no poder, até especulou com Frondizi retirar as tropas brasileiras da área da fronteira com a Argentina, localizadas especialmente no Rio Grande do Sul, e deslocá-las mais para o interior. 

Sorridentes, mas por curto tempo (e por problemas internos): Jânio e Frondizi, na fronteira, no dia 21 de abril de 1961. Jânio duraria quatro meses no poder. Frondizi, 11 meses, antes de ser derrubado pelos militares.

QUINO PRESENTE - Passariam quase duas décadas, quando, en 1980, para apaziguar a tensão surgida entre o Brasil e a Argentina pela construção da hidrelétrica de Itaipu (a obra causava suspicácias no governo argentino e na população do país, que temia que um dia o Brasil poderia abrir suas comportas e alagar várias cidades argentinas), o general João Batista Figueiredo desembarcou em Buenos Aires para reunir-se com o ditador argentino Jorge Rafael Videla. O ditador argentino paparicou o colega brasileiro, que foi presenteado com cavalos Made in Argentina, fato que agradou Figueiredo, um declarado amante da hípica.

De quebra, foi homenageado no estádio do San Lorenzo, time pelo qual Figueiredo havia torcido, quando adolescente, durante o exílio de seu pai, o general Euclides Figueiredo, em Buenos Aires nos anos 30 (o general havia sido exilado pelo governo Vargas por ter participado da revoluçào constitucionalista de 1932).

A visita teve grande impacto, pois foi a terceira viagem de um presidente brasileiro à Argentina em todo o período republicano (os encontros Perón-Dutra e Frondizi-Quadros foram literalmente na fronteira). Videla retribuiu a visita no mesmo ano, indo à Brasília. 

 

Black-tie: Os generais Videla e Figueiredo com suas respectivas primeiras-damas. Figueiredo ganhou cavalo de presente ao visitar Buenos Aires.

NTEGRACIONISTAS E AMIGOS - Depois, em 1985, com ambos países de volta à democracia, o presidente José Sarney reuniu-se com o presidente Raúl Alfonsín sobre a ponte Tancredo Neves (entre a brasileira Foz de Iguaçu e a argentina Puerto Iguazú), inaugurada na ocasião, colocando as bases do futuro Mercosul. O encontro ocorreu nas duas cidades entre os dias 29 e 30 de novembro. No início do século XXI, em homenagem a este passo crucial no aprofundamento das relações entre os dois países, esta última data foi designada o “dia da amizade argentino-brasileira”.

Os dois presidentes assinaram a Declaração Conjunta sobre Política Nuclear. Alfonsín, simbolicamente, visitou Itaipu, que nos dez anos anteriores havia sido a nêmesis para a Argentina.

Em julho de 1986, o presidente brasileiro foi à Argentina. Na ocasião, Alfonsín deu um inesperado gesto de confiança ao receber Sarney e abrir-lhes as portas das instalações atômicas argentinas. Os dois presidentes tornaram-se grandes amigos dali para frente. Eles costumaram realizar visitas mútuas mesmo após terem concluído suas presidências. É o único caso de uma amizade sólida entre presidentes do Brasil e da Argentina que perdurou mesmo após seus períodos de governo. Quando Alfonsín faleceu, em 2009, Sarney foi o único orador estrangeiro a ter a honraria de discursar no enterro.

As cataratas do Iguaçu fazem pose enquanto Sarney e Alfonsín ficam na frente. Foto de 1985 de Victor Bugge, fotógrafo histórico da presidência da República Argentina.

HC, TRADUTOR DE ‘EL TURCO’ – Depois, de Sarney, as visitas presidenciais brasileiras tornaram-se corriqueiras. Foram à Buenos Aires Fernando Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Este último causava profunda inveja no presidente Carlos Menem (1989-99), ao falar com a imprensa argentina em espanhol e com os correspondentes estrangeiros em inglês ou francês. Em diversas ocasiões o políglota FHC serviu de tradutor de coletivas de imprensa para “El Turco”, que era monoglota (o macarrônico inglês de Menem era a delícia dos humoristas argentinos).

FHC continuou visitando Buenos Aires nos anos seguintes ao fim de seu mandato para dar conferências. O ex-presidente continuou tendo tratamento de super-star na mídia e na intelectualidade portenha.

Kirchner, na época em que era presidente; Cristina, nos tempos em que era primeira-dama. E Lula, em seu segundo mandato.

ISITANTE ASSÍDUO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi outro visitante freqüente em seu primeiro e segundo mandato, batendo todos os recordes protagonizados por seus antecessores. Nos primeiros meses de governo, em 2003, visitou o então presidente provisório Eduardo Duhalde (2002-2003), que estava em seus últimos meses de mandato e com quem teve excelente feeling pessoal.

Na seqüência, o anfitrião passou a ser Néstor Kirchner, que tornou-se presidente em maio de 2003. Lula o visitou várias vezes. A partir de dezembro de 2007, os Kirchners continuaram no poder, mas por intermédio da esposa de Néstor, Cristina, que combinou dois encontros presidenciais por semestre com Lula.

O temperamental Kirchner oscilou entre períodos de idílio e de turbulências com Lula. O presidente brasileiro foi pego de supresa várias vezes pelas guinadas drásticas de Kirchner, especialmente as inesperadas medidas protecionistas para – atendendo os pedidos das indústrias nacionais – prevenir as alardeadas – e hipotéticas - “invasões de produtos” Made in Brazil no mercado argentino.

Desta forma, nem todas as ocasiões de visitas de Lula à Buenos Aires e outras cidades argentinas (especialmente para cúpulas do Mercosul) puderam ser definidas de “prazenteiras”. A tensão prevaleceu durante a administração de Néstor Kirchner.

Já com Cristina Kirchner, as cúpulas mantiveram um clima relativamente mais pacífico. Cristina costumava elogiar o empresariado brasileiro, como modelo a ser seguido pela Argentina.

Em todas suas visitas Lula causou frisson na esquerda argentina e exclamações de admiração no establishment portenho. No entanto, o frisson da esquerda foi uma sensação que diminuiu com o passar dos anos, já que setores da esquerda local foram decepcionando-se com a guinada para o centro (ou centro-direita, segundo alguns) do ex-torneiro mecânico. O wishful thinking de que Lula ainda supostamente permanecia - no fundo do coração - um homem socialista, consolava diversos setores progressistas argentinos. Diversas pesquisas, ao longo dos anos, indicaram que se um presidente estrangeiro pudesse ser candidato a presidente na Argentina, Lula venceria outros políticos do exterior, além dos próprios candidatos argentinos.

PRIMEIRA VISITA DE DILMA – A presidente Dilma Rousseff desembarcará em Buenos Aires nesta segunda-feira de manhã, às 11:00 horas, para uma intensa agenda que desenvolverá em poucas horas com sua anfitriã, a presidente Cristina Kirchner, e os ministros argentinos. Embora a visita seja breve, já que a presidente Dilma partirá à tarde, após o almoço de honra que o governo Kirchner organizou no elegante palácio San Martín, sede da chancelaria argentina, o plano de Cristina é o de receber Dilma com toda pompa para este primeiro encontro oficial entre as duas únicas mulheres que atualmente são presidentes na América do Sul.

 

HILIQUE PELO PÃO DE QUEIJO – Segundo fontes diplomáticas brasileiras, no início dos anos 90, durante uma visita à Buenos Aires, acompanhando seu emtão marido - o presidente Fernando Collor de Mello - Rosane Collor teria protagonizado um insólito chilique. A então primeira-dama pediu aos gritos a demissão da cozinheira da Embaixada do Brasil em Buenos Aires. O motivo da exigência da jovem de Canapi era que a quituteira argentina não sabia preparar o brasileiríssimo pão de queijo, na época, um elemento fundamental do regime do café da manhã da então primeira-dama.

Pão de queijo, o quitute da divergência.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Solidariedade no vestiário, cuecas e ditadura. Polêmica sobre vitória argentina contra Peru continua gerando polêmica 32 anos depois. General Videla, na foto acima, considerava que vitória na Copa era crucial para imagem de seu regime.

blog1dedo4“Irmãos latino-americanos!”. A voz metálica do general Jorge Rafael Videla, ditador argentino, ressoou dentro do vestiário da seleção peruana no estádio “El Gigante de Arroyito” em Rosario. Era o dia 21 de junho de 1978, há exatamente 32 anos. Os jogadores estavam vestindo-se para entrar no campo em dez minutos contra a seleção da Argentina. Alguns dos peruanos estavam de cuecas. “Não sabia se terminava de me vestir, o que poderia ser interpretado como falta de educação, ou parava o que estava fazendo e se o cumprimentava seminu”, relatou um dos jogadores ao colunista esportivo Ricardo Gotta, autor de “Fomos Campeões”, livro que analisa a polêmica Copa realizada na Argentina.

Na sequência, Videla, explicou Gotta ao Estado, “que era um especialista em toda demonstração mais ou menos explícita de intimidação”, discursou sobre a intensa “solidariedade” entre peruanos e argentinos.

Além da visita do homem mais poderoso da Argentina, que comandava uma sanguinária ditadura iniciada em 1976, que havia assassinado milhares de civis e espalhado centros de tortura clandestinos por todo o país, também estava no vestiário, em silêncio, o ex-Secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, habitué das copas do mundo.

O recado estava dado. Segundo Gotta, vários jogadores sabiam que os militares argentinos poderiam assassiná-los depois do jogo, caso o Peru vencesse, e que colocariam a culpa do “atentado” em algum grupo guerrilheiro (a modalidade de colocar a culpa em algum grupo guerrilheiro era costumeira por parte da ditadura, quando era necessário eliminar alguém. Inclusive, era modalidade à qual se recorria para explicar a ocasional morte de um integrante incômodo do próprio regime militar). Diversos jogadores peruanos saíram ao campo tremendo de medo.

 blogKissinger_Mao2

Poderoso e fanático pelo futebol: Henry Kissinger, mestre da diplomacia americana, foi com Videla ao vestiário dos jogadores peruanos (acima, Kissinger do outro lado do planeta, com Mao Tsé-Tung). Neste link do Youtube, trecho de uma entrevista com Oblitas e quando Videla, junto com Kissinger, entra no estádio, aqui.

Para a seleção argentina o jogo era crucial, pois precisava pelo menos emplacar quatro gols no arco opositor para conseguir a classificação para a final da Copa. Para o Peru, que já estava desclassificado, o jogo era uma despedida. Quando o juiz apitou o término do jogo, os argentinos tinham, além de realizado os gols necessários, também cometido outros dois adicionais.

O placar 6 a 0 gerou suspeitas mundiais. Gotta sustenta que “a Ditadura precisava chegar à final. E ganhar. Senão, teria sido um fracasso não somente esportivo, mas também político. O regime precisava a imagem de um país vencedor”.

Gotta duvida que o goleiro da seleção peruana, Ramón Quiroga (argentino de nascimento mas naturalizado peruano), fosse o responsável pela derrota. “Ele defendeu muitíssimos ataques argentinos. Ao redor de 13 a 15 jogadas que poderiam ter sido gol, mas não foram graças à sua habilidade. Mas, a presença dos argentinos perto do arco era constante”, diz. “Por isso, poderia suspeitar-se mais da atitude dos defensores peruanos (Jaime Duarte, Rodolfo Manso, Roberto Rojas e Héctor Chumpitaz), que cometeram muitos erros”, explica.

‘NÃO FOI NORMAL… FOI ESQUISITO’ - Carlos Del Frave, pesquisador esportivo da cidade de Rosario, ressalta um depoimento do jogador peruano Juan Carlos Oblitas, que indicou que “aquele jogo não foi normal…foi esquisito”.

Oblitas também destacou que a presença de Videla no vestuário “foi terrível…eu estava atrás de uma parede e ali fiquei. Não queria que isso interrompesse minha concentração”.

Ramón Quiroga, apesar dos gols, manteve boa imagem entre os peruanos, e nos anos posteriores tornou-se técnico de vários times. Em 2006 negou que ele ou seus pais (que residiam em Rosario na época do jogo, a poucos quarteirões do estádio) haviam sido ameaçados pela Ditadura. Os outros jogadores peruanos não exibiram sinais de riqueza nos anos seguintes à Copa. Um deles, Manso, empobrecido, emigrou para a Itália, onde trabalhou como caminhoneiro.

Pablo Llonto, autor do livro “A vergonha de todos”, não acredita em “jogo arranjado”: “investiguei todos os rumores sobre o jogo com o Peru. Ninguém tem provas. Mas, de todas formas será o mais longo de toda a História mundial. Nunca antes houve um jogo tão comentado como este, três décadas depois de ocorrido. Além disso, os rumores crescem com o tempo. Acho que foi um jogo que a seleção argentina venceu justamente”

blog1vinheta55b TEORIAS A GRANEL blog1vinheta55b

Se na política as teorias costumam ser abundantes, no futebol, elas superam qualquer limite de combinações. E, quando a política junta-se ao futebol, então temos uma miríade colossal de teorias, das mais realistas às mais mirabolantes.

Aqui reunimos um punhado, algumas das especulações que tornaram-se ao longo dos últimos anos os hits parade das teorias sobre o polêmico jogo Peru versus Argentina:

Teoria número 1 - Videla subornou o próprio governo peruano, comandado pelo general Francisco Morales Bermúdez, com um substancial carregamento de trigo argentino

Teoria número 2 – A Ditadura utilizou um narcotraficante colombiano, Fernando Rodríguez Mondragón como intermediário para realizar um milionário suborno à Federação Peruana de Futebol

Teoria número 3 - A Ditadura pagou US$ 50 mil a todos os jogadores peruanos

Teoria número 4 - A Ditadura pagou US$ 50 mil somente a alguns jogadores peruanos

Teoria número 5 - Os jogadores peruanos foram ameaçados de morte pela Ditadura

Teoria número 6 - Um defensor crucial, Manso, recebeu a proposta de jogar no Vélez Sarsfield, time portenho, em troca de amolecer a defesa

Teoria número 7 - Quiroga foi o único pressionado, pois sua família, que na época morava na Argentina, recebeu ameaças de morte da Ditadura argentina

Teoria número 8 - O futebol é “uma caixinha de surpresas, onde tudo pode acontecer”, isto é, a derrota peruana foi por causas puramente futebolísticas.

blogvidela-copa

Videla celebra conquista da taça da FIFA, no estádio Monumental de Núñez

SELEÇÃO DE 1978 FOI A MELHOR, AFIRMA KEMPES

Mario “El Matador” Kempes foi a personalidade da Copa do Mundo de 1978. Goleador do evento, o sóbrio jogador foi considerado pelos especialistas como o responsável, no gramado, da vitória argentina. Desde Connecticut, EUA, onde trabalha como comentarista esportivo há quatro anos, Kempes falou por telefone com o Estado sobre os 30 anos da Copa realizada na Argentina (esta foi a entrevista que o ex-jogador me concedeu, publicada no Estadão em junho de 2008)

Estado – Como a seleção argentina de 1978 pode ser comparada com as posteriores de seu país?

Kempes – Foi a melhor. A seleção de 1986 foi muito boa, mas a de 1978 era melhor. Na minha, não havia “figuras”. Já em 1986 estava o Diego (Maradona).

Estado – Desde essa copa no México, a Argentina não emplacou mais nenhuma conquista do troféu. Quais poderiam ser os motivos?

Kempes – Por um lado, um motivo é que a concorrência esteve muito forte em todo este tempo. Por outro, poder ser que os técnicos argentinos se acostumaram a chamar todos os jogadores que estão no exterior. Mas, não querendo desmerecer os rapazes, dessa forma não dá para trabalhar direito. É mais fácil quando o técnico pode ver seus jogadores uma vez ou duas por semana. Em 1978, todos os jogadores estavam na Argentina. Menos eu, que vinha de fora. Isso possibilitou um trabalho sério do (técnico Cesar Luis) Menotti.

Estado – Como estavam os adversários da Argentina em 1978?

Kempes – Todos os jogos foram complicados. O primeiro com Hungria, foi suado, talvez por nossa falta de experiência. Outra grande seleção que enfrentamos, que custou muito esforço foi a França, com Platini na cabeça. A Itália, que nos venceu em Rosario. Os italianos são espetaculares, com seu poder ofensivo. E, a seleção brasileira, que, seja lá quais forem seus jogadores, sempre impressionam. Mesmo na Copa de 1994, nos EUA, que era uma seleção ruim, o Brasil foi campeão. Os brasileiros, sempre, de algum modo, vão para a frente!

Estado – O jogo da Argentina com o Peru sempre foi visto como algo imensamente suspeito. Acha que houve suborno ou pressões aos peruanos?

Kempes – Foi um jogo normal. A seleção argentina havia ido ao Peru três meses antes da Copa e havia emplacado, se a memória não me falha, uns 3 gols a 0. Por isso, em 1978, a Argentina, precisando 4 gols, foi ao ataque. A partir do primeiro gol tudo se normalizou. No segundo, começamos a acreditar que dava para chegar à final. Para nós, tudo era esporte. Se houve algo por fora do futebol, eu não sei. Lhe digo isto com a mão no coração: nós, no campo fomos superiores ao Peru. Não dá para acusar nem o Oblitas, o Quiroga ou qualquer outro jogador peruano de qualquer coisa estranha. E muito menos o Quiroga (o goleiro), cujo arco metralhamos constantemente…

Estado – Na comemoração dos 30 anos, é inevitável relacionar a Copa com a Ditadura…

Kempes - Nunca será possível separar isso da Copa. Será uma mancha negra que teremos sobre as costas toda a vida. Nós fomos jogar futebol. Naquela época, somente as famílias dos desaparecidos, que sofreram horrores, é que sabiam o que estava ocorrendo. A imensa maioria dos argentinos não sabíamos de nada. Quando fomos jogar na Copa, fomos pelo futebol. Não fomos jogar para o (general) Videla e sua cambada que estava no poder. Dentro de tudo isso, espero ter possibilitado minutos de felicidade – quem sabe – para essas pessoas que estavam sofrendo. Na época, não imaginávamos que posteriormente envolveriam os jogadores nessa questão política.

Estado – Qual foi seu gol preferido, em toda sua carreira?

Kempes – Ahhhh…(diz, como um suspiro de nostalgia)! Foi em 1978, contra a Polônia, de cabeça. O primeiro gol!

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Logotipo oficial da Copa de 1978 e cartaz francês que pedia o boicote à Copa de 1978 na Argentina

COPA DE 1978 FOI O APOGEU DA DITADURA

blog1dedo41978 foi um ano exuberante para a Ditadura Militar que governava a Argentina há dois anos. O país, em plena ciranda financeira, com dezenas de milhares de turistas argentinos dizendo “deme dos” (me dê dois) nas lojas no exterior, ufanava-se de contar com uma miss mundo, Silvana Suárez, eleita naquele ano; alardeavam o desempenho brilhante do tenista Guillermo Villas nas quadras – e como latin lover (pelo romance com Caroline de Mônaco) – enquanto Carlos Reutemann exibia uma performance de alto nível nas pistas da Fórmula Um.

Como se fosse pouco, a Argentina fazia pose de potência militar regional ao começar a desafiar o Chile à uma guerra pela disputa do Canal de Beagle. No mesmo ano, o país hospedava a Copa do Mundo de futebol. E, de  quebra, em 25 dias de torneio, arrebatava a taça FIFA, para delírio de 25 milhões de argentinos.

Mas, ao mesmo tempo, o país acumulava mais de 20 mil desaparecidos políticos (seriam 30 mil até o final da Ditadura), entre eles velhos e crianças. Mais de 500 centros de detenção e tortura espalhavam-se todo o país. As notícias sobre a inflação, o estancamento industrial, a fragilidade do sistema financeiro, e os mega-escândalos de corrupção eram censuradas pelo regime.

As críticas à seleção estavam proibidas. Expressar um mero “porém” à seleção implicava em desaparecimento assegurado. O país, tal como ocorreria anos depois durante a Guerra das Malvinas (1982), estava ofuscado pelos triunfos.

Mas, com a volta da democracia, os argentinos começam a encarar a Copa de 1978 com visão crítica. Há dois anos, quando completaram-se os 30 anos daquele evento esportivo, organizações de defesa dos Direitos Humanos, políticos, intelectuais e jogadores de futebol realizaram diversas homenagens aos mortos da Ditadura ocorridas durante a Copa. Uma das cerimônias foi realizada no mesmo estádio onde ocorreu a final. Diversos livros sobre a sinistra Copa de 1978 foram lançados nos últimos anos. 

blog1dedo2b‘PATRIOTISMO ESPORTIVO’ - “A Copa de 1978 é o primeiro símbolo de aprovação em massa da Ditadura. O general Jorge Rafael Videla, ditador na época, foi aplaudido pela multidão em estádios repletos. O gasto desvairado na organização da Copa não foi questionado. As denúncias dos exilados e parentes dos desaparecidos foram encaradas como expressões de antipatriotismo”, explicou na ocasião ao Estado o jornalista Pablo Llonto, autor do livro “A vergonha de todos”, onde disseca o fervor popular pelo evento no meio de um regime de terror.

Com a conquista da Copa do Mundo, o general Videla estava em seu ponto de máximo poder. No dia seguinte à final, uma multidão o ovacionou na Praça de Mayo, homenagem praticamente reservada até então aos presidentes civis.

Em 2002, durante uma entrevista, o último ditador do regime, o general Reynaldo Bignone (1982-83), declarou amargurado que a Ditadura havia cometido um grave erro naquela ocasião, momento em que a população estava descontroladamente eufórica: “se tivéssemos convocado eleições naquela hora, teríamos vencido. E ainda hoje estaríamos sendo aplaudidos”.

Grupos de esquerda, exilados e setores da população que sofriam a Ditadura estavam divididos sobre torcer a favor ou contra a seleção. Nas intensas discussões, uns setores alegavam que a vitória da seleção favoreceria a Ditadura. Outros, não pretendiam desprender-se do “patriotismo esportivo” e tentavam argumentar que “política e esportes não estão misturados”.

As famílias de desaparecidos também estavam divididas. Avós da Praça de Mayo, relatavam que enquanto estavam na cozinha chorando o desaparecimento de seus filhos e netos, os maridos, na sala, gritavam os gols.

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ESMA, principal centro de torturas na cidade de Buenos Aires, a poucos quarteirões do estádio do River Plate, onde foi a final da Copa de 1978. ESMA, marcada com a letra A, Estádio Monumental de Núñez, com a letra B.

blog1dedo4HURRAS E TORTURA – Há 32 anos, Graciela Daleo, atualmente catedrática de Direitos Humanos da Universidade de Buenos Aires, era uma ”desaparecida” da Ditadura, detida e torturada na Escola de Mecânica da Armada (ESMA). Desde sua cela - segundo me contou há dois anos, durante uma entrevista em sua casa - escutava os “hurras” da torcida argentina, a dez quarteirões dali, no estádio Monumental de Núñez, onde transcorria a final da Copa (o embate da seleção argentina contra a holandesa). Nas arquibancadas do estádio, poucos imaginariam que a mil metros dali funcionava o mais tenebroso centro de tortura do regime. Na ESMA estiveram presas 5 mil pessoas. Somente 140 sobreviveram.

“Quando ouvi gritos da torcida pela janela, pensei: se eles ganharam, nós perdemos”. Logo depois, um dos mais famosos torturadores, o capitão “Tigre” Acosta entrou na sala dos torturados, exultante: “ganhamos, ganhamos!”.

Sem explicações prévias, Daleo e outra prisioneira foram levadas por guardas para fora da cela e colocadas dentro de um carro onde estavam alguns oficiais. O automóvel saiu pelas ruas onde a multidão celebrava a vitória na Copa.

Daleo não podia acreditar: “Milhares de pessoas saíam de suas casas dançando e gritando de alegria. Sempre havia sonhado com essas multidões, mas celebrando uma revolução social, não uma vitória na Copa!”.

Olhando pela janela aberta do carro, Daleo chorou: “se gritasse que era uma desaparecida, quem daria bola?”

Depois do tour, os torturadores levaram a estupefata Daleo para insólito e bizarro jantar em uma churrascaria abarrotada de pessoas cantando jingles da Copa. Daleo sabia que dali voltaria à prisão e às sessões de tortura.

De volta à ESMA, foi colocada na cela. Nas ruas, os portenhos festejaram a vitória futebolística até o raiar do sol. “Desde aquele momento, não quero saber nada, absolutamente nada sobre as Copas!”, diz Daleo.

blog1dedo2bDE US$ 70 MILHÕES PARA US$ 700 MILHÕES - “Custará somente US$ 70 milhões”, havia prometido o almirante Emilio Massera ao general Videla sobre os gastos da Copa. Mas, o custo final foi de US$ 700 milhões. Os gastos foram criticados como “excessivos” pelo Secretário da Fazenda, Juan Alemann, um economista conservador de renome.

Como represália por suas declarações, segundos depois que a seleção argentina fez o quarto gol contra o Peru (um jogo que definiria a ida do país à final da Copa), uma bomba explodiu na frente da casa de Alemann.

A violência entre integrantes do próprio regime militar por divergências sobre a organização da Copa e a disputa dos fundos foi costumeira. O general Omar Actis, que presidia a entidade que organizaria a Copa, desejava um evento austero. O almirante Carlos Lacoste, vice-presidente da entidade, defendia uma Copa exuberante, com mais estádios e um canal de TV para transmitir a cores novo em folha.

As diferenças foram dissolvidas com o assassinato de Actis, cuja morte foi atribuída a grupos guerrilheiros (que na realidade já haviam sido dizimados). Seu substituto, o general Antonio Merlo, não se opôs ao aumento sideral de gastos desejado por Lacoste. O almirante, posteriormente, foi assessor de finanças da FIFA e seu vice-presidente.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

blog1vinhetalendonewsstand3 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão 

Gustavo Chacra (Nova York): http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/ 
Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/ 
Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trevisan/ 
Adriana Carranca (Pelo Mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carranca/ 

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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários.
Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico
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José ‘Joe’ Alfredo Martínez de Hoz, o ex-ministro da Economia que gerou o fenômeno do ‘deme dos’

 blog1hand-prawo2A Corte Suprema de Justiça anunciou na terça-feira a inconstitucionalidade do indulto concedido em 1990 pelo então presidente Carlos Menem ao ‘mentor’ da política econômica da ditadura (1976-83), o empresário e economista José Alfredo  Martínez de Hoz, popularmente chamado de “Joe”. O indulto de Menem salvou Martínez de Hoz – o mais famoso civil que integrou o regime militar – do processo no qual era acusado do sequestro, detenção ilegal, extorsão e torturas dos empresários Federico e Miguel Gutheim em 1976. A Corte Suprema considerou que crimes contra a Humanidade não podem ser indultados ou anistiados.

Com a declaração de inconstitucionalidade do indulto anunciado pela Corte Suprema, Martínez de Hoz, de 84 anos, voltaria ao banco dos réus. Nesta quinta-feira à tarde o juiz Norberto Oyarbide determinou que Martínez de Hoz não poderá sair do país. A expectativa é que a ordem de prisão seria iminente.

A  presidente Cristina Kirchner e seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner, em diversas ocasiões ao longo dos últimos anos indicaram que esperam com ansiedade o julgamento do ex-ministro da Economia, o qual consideram responsável da disparada do crescimento da dívida externa argentina e do início da decadência industrial do país nos anos 70.

Os Gutheim eram os donos do cotonifício Sadeco SA, aos quais a Ditadura obrigou a fechar um acordo comercial com Hong Kong, no qual Martínez de Hoz tinha especial interesse.

Os Gutheim, que recusavam-se a fazer o negócio no formato desejado pela ditadura (pois prejudicava a empresa), foram retirados das celas em quatro ocasiões para renegociar o contrato com os representantes de Hong Kong de forma favorável às intenções de Martínez de Hoz.

Nas quatro ocasiões foram novamente levados para as celas. Estas idas e vindas foram acompanhadas por um representante da Secretaria de Comércio Exterior e um tabelião.

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Martínez de Hoz e o general e ditador Jorge Rafael Videla (este, atualmente na prisão pela acusação de sequestro de bebês durante a Ditadura)

Na época da detenção dos irmãos Gutheim a ditadura alegou que a prisão dos empresários havia sido realizada “em nome do interesse de assegurar a calma e a ordem pública”. Durante o regime militar ocorreram casos de empresários que foram detidos e torturados para que integrantes do governo confiscassem seus bens e empresas.

O ministro também é suspeito do sequestro e desaparecimento de diretores do Banco de Hurlingham, do Grupo Gravier, além de funcionários do ministério da Economia que tinham acesso a informações confidenciais sobre as negociatas e que discordavam do modus operandi de Martínez de Hoz.

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Martínez de Hoz foi a delícia dos cartunistas argentinos graças a suas amplas orelhas de abano

‘ME DÊ DOIS’

blog1hand-prawo2Martínez de Hoz foi ministro entre 1976 e 1981. Durante sua administração a política econômica foi caótica. O ministro abriu e fechou a economia várias vezes e criou uma ciranda financeira que elevou o valor do peso, que se chamou na Argentina de “la plata dulce” (o dinheiro doce), irônica forma como os argentinos chamaram a ciranda financeira).

Durante parte de sua administração, com uma cotação de US$ 1,00 a 0,63 centavos de peso argentino, os habitantes do país viveram durante vários anos um período de falsa prosperidade econômica, ao longo da qual puderam viajar ao exterior e consumir em grande escala. Nessa época ficou famosa a frase “deme dos” (me dê dois), pronunciada pelos argentinos ao comprar produtos fora do país.

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Cartaz do filme “Plata Dulce”, uma tragicomédia sobre a ciranda financeira criada por Martínez de Hoz

O NEOLIBERAL QUE ESTATIZAVA

blog1vinhetasmarca1 Ao mesmo tempo que aplicou receitas neo-liberais, solidificou a estrutura burocrática das estatais argentinas, usando-as como cabide de empregos para os militares.

Martínez de Hoz, embora fosse formalmente um seguidor enfático da neoliberal Escola de Chicago, paradoxalmente ordenou a estatização da Companhia Italo-Argentina de Eletricidade (CIAE), de capitais suíços.

As peculiaridades desta operação foram várias: por um lado, Martínez de Hoz havia sido diretor dessa empresa privada até o 24 de março de 1976, o dia do golpe de Estado.

Por outro, embora o valor da companhia fosse calculado pelo mercado no máximo em US$ 60 milhões, o Martínez de Hoz fez que o Estado argentino pagasse à diretoria da Ítalo-Argentina na Suíça um total de US$ 394 milhões em troca da estatização.

No meio das negociações de compra por parte da ditadura, um alto funcionário do ministério da Economia, Juan Carlos Casariego de Bel, diretor do Registro de Investimentos Estrangeiros, fez intensas objeções à iminente aquisição da deficitária Ítalo-Argentina e  – segudo seus parentes – negou-se a eliminar evidências da negociata em andamento. Casariego de Bel foi sequestrado pelos militares no dia 15 de junho de 1977. Foi assassinado Seu corpo ainda hoje permanece em paradeiro desconhecido.

Nos anos 80, após o fim da ditadura, um relatório de técnicos da Segba (a estatal de eletricidade) determinou que grande parte das turbinas e dos cabos da Italo-Argentina eram obsoletos. Perante este quadro de equipamento sucateado comprado por Martínez de Hoz, o país teve que recorrer a créditos do BID e Banco Mundial para comprar novo material para substituição.

De quebra, durante a administração de Martínez de Hoz, o déficit fiscal disparou e a dívida externa registrou o maior aumento da História, passando de US$ 7,8 bilhões para US$ 45 bilhões. Além disso, o PIB despencou e a inflação entrou em acelerada escalada.

E, já que estamos perto do período de Copa do Mundo, vale a pena recordar que a Copa do Mundo de 1978, realizada na administração de Martínez de Hoz, tinha um orçamento original de US$ 70 milhões. No entanto, misteriosamente, o custo final foi de US$ 700 milhões.

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Logotipo do evento esportivo no qual a ditadura gastou 10 vezes mais do que aquilo inicialmente planejado.

ESCRAVOS

blogvinhetas19 Martínez de Hoz nasceu anos no seio de uma família de latifundiários, membros do Jockey Club e da Sociedade Rural. Entre seus antepassados estavam alguns dos mais famosos contrabandistas do Rio da Prata e os principais importadores de escravos do Vice-Reinado.

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Martínez de Hoz com o general Albano Harguindeguy, durante uma pausa em uma parada militar (foto do falecido e genial fotógrafo Guillermo Loiacono)

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Gustavo Chacra (Nova York): http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/

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