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Ariel Palacios

Clemente e sua inexorável azeitona

O cartunista argentino Carlos Loiseau, mais conhecido pelo nome artístico “Caloi”, morreu ontem (terça-feira) em Buenos Aires, após vários dias de internação hospitalar por “grave doença”, segundo informaram amigos da família do artista. Caloi, que tinha 63 anos, foi o criador de “Clemente”, um peculiar pato com listas pretas e amarelas no corpo – tal como uma abelha – que não tinha asas nem braços. No entanto, Clemente era um rapaz de um bairro portenho, bom-vivant que amava o futebol, o tango, a política e as mulheres. E fazia psicanálise.

O personagem, que com frequência protagonizava situações surrealistas e delirantes, sempre tinha algum comentário sutilmente irônico na ponta da língua. Clemente era considerado o “alter ego” dos portenhos.

Nas eleições parlamentares de outubro de 2001, quando começava o “que se vayan todos” (que todos vão embora) contra a classe política, dezenas de milhares de votos foram destinados – a modo de protesto – a favor de Clemente.

Em 2004 a prefeitura portenha designou Clemente – publicado ininterruptamente desde 1973 – “patrimônio cultural da cidade de Buenos Aires”.

Clemente tornou-se um sucesso nacional quando, durante a Copa do Mundo de 1978, convocava os argentinos a jogar papel e confete nos estádios. A convocação ia de encontro ao pedido do locutor oficial do regime militar que governava a Argentina na época, que fazia campanha contra o confete nos estádios por ser algo “sujo”.

Uma tarde de abril de 1997 fiz uma entrevista com o cartunista Caloi em sua casa localizada na frente do Parque Lezama, por ocasião dos 25 anos da criação de Clemente. Aqui segue a íntegra da entrevista.

 

Nasceu de uma chocadeira desligada, teve um filho com uma azeitona, voa sem asas e seu corpo é cheio de listras pretas. Ah, sim, jogou no Boca Juniors e fala com todos os erros inimagináveis de ortografia. Namora uma mulata e uma francesa. Foi diplomata na guerra entre as passas e as azeitonas.

O personagem em questão é Clemente, que está soprando 25 velinhas. É o mais portenho dos cartuns. Em sua tirinha do jornal “Clarín”, um olhar de canto de olho e uma perna cruzada, todas as manhãs, são suficientes para Clemente concluir uma análise arguta. Amplo repertório: dos clones ao presidente, de futebol à libido. Seu universo que vai do reles cotidiano ao onírico em poucos segundos. Ou melhor, em poucos quadrinhos.

Ele saiu do tinteiro do cartunista argentino Carlos Loiseau, alias, Caloi, que além de Clemente, dedica-se a apresentar um dos raros programas sobre desenhos animados de arte na TV latino-americana. Aos, domingos, em horário nobre, Caloi desfila la creme de la creme do traço polonês, húngaro, canadense e indiano. Admirador dos irmãos Caruso, Caloi nunca esquece quando os gêmeos mais arteiros do Brasil o levaram a um bar homônimo do filho predileto: “Clemente”. Não saberia dizer onde era. “Cidade confusa, São Paulo!” exclama.

Caloi recebeu o Estado em sua casa de cinco andares na frente do Parque Lezama em uma sala despojada de decoração, mas cheia de inusitados frascos entupidos de rolhas. Ali, ele contou com quantos Clementes se conspira.

Estado – O que é um Clemente?

Caloi – Não há muitos segredos. Trata-se somente de um personagem do absurdo, que tem definição na escala zoológica. Quando me encarregaram a tirinha, pensei criar um personagem que não me escravizasse. É esse o principal fantasma que um desenhista tem na tira diária: ficar prisioneiro de sua própria criação. Todos os personagens até o momento, tinham tido uma profissão ou uma característica psicológica fixa. Isso permitia muito pouco o absurdo. Na minha infância, os personagens de sucesso eram o Piantadino, um sujeito que vivia fugindo da prisão ; o Avivato, que era um espertalhão, que tirava partido de qualquer situação. Cada um com uma característica permanente. Mais tarde, isto mudou. Mafalda revoluciona o âmbito dos personagens. Mas ela mesma está presa à sua própria personalidade. Era uma menina contestatária, que se ligava a outros personagens como Manolito, que se interessava pelos negócios. Susanita, que pensava como uma senhora. Quino obtinha variedade misturando essas características. Eu achava que se tivesse que trabalhar com estas premissas, ia ficar doido. Então fiz algo absurdo, para poder entrar e sair da realidade quando eu quissesse, sem pedir licença a ninguém. E assim apareceu Clemente.

Estado – Mas o protagonista inicial da tirinha era Bartolo…

Caloi – Essa era a idéia inicial. Bartolo andava em um bonde muito especial, sobre uma única roda, pela ruas de Buenos Aires onde ainda existem trilhos. Mas logo percebi que Bartolo também estava ligado a uma visão limitada da realidade porque estava amarrado a uma coisa nostálgica: o bonde. Além disso, dava muito trabalho desenhar um bonde em cada quadrinho. Fui exitinguindo Bartolo em favor do crescimento de Clemente, um personagem secundário. Ele cumpria mais o jogo livre que havia proposto com a realidade e com as etapas que a Argentina ia atravessando. É difícil que uma tira diária se desprenda do peso que a informação tem, e assim, aparece ligado à política, economia, esportes, cultura…

Estado – Esse é um atributo que fez Clemente perdurar e Mafalda não?

Caloi – Quino dediciu terminar a Mafalda, e é incrível a vigência que tem. É tão genial que foi feita durante 10 anos. Há 20 não a desenha. Há outro tipo de tratamento com Clemente, que acompanha as pessoas no andar. Mafalda é uma filósofa.

Estado – Noto que com o passar dos anos, Clemente foi tomando formas mais arredondadas. O mesmo aconteceu com o Pato Donald e muitos outros personagens no mundo inteiro. Quando um personagem amadurece…

Caloi – (interrompendo)…Ele vai engordando (ri). Vamos conseguindo uma síntese. O comparo com a assinatura. Começamos escrevendo todas as letras e o nome compreende-se claramente. Até colocamos pingos nos “i”. Depois, tudo transforma-se no rabisco de algo que foi a escrita do nome. Acho que o personagem vai se aburguesando.

Estado – Para um personagem que tocava a política, como parte do cotidiano, como eram as restrições na época da Ditadura?

Caloi – Tive ameaças telefônicas de morte, e decidi desaparecer um pouco indo para a casa de minha mãe. Mas logo foi ela que começou a me ameaçar, para que fosse embora (ri). Tive restrições, como todo o jornalismo da época. Mesmo notícia de tempestades ou de granizo eram proibidas, por serem más notícias…

Estado – Houve um período onde Clemente era jogador de futebol, do time Boca Juniors…Como chegou a isso?

Caloi – Era seu sonho. Como aquelas crianças que estão jogando sozinhas com uma bola e vão falando como se estivessem transmitindo o jogo. Clemente usava uma camiseta grande demais, tropeçava nela. Mas driblava 10 jogadores e fazia o gol no último minuto. Era de Boca porque Bartolo era de River…como eu. Na Copa de 1978, adquiriu grande notoriedade, pois ultrapassou as fronteiras do jornal, com sua figura aparecendo nos tabuleiros eletrônicos dos estádios.

Estado – Criou a mania argentina de jogar papeizinhos no campo, ou a reforçou?

Caloi – Acho que a reforcei. O locutor oficial da copa, José Muñoz fazia uma campanha contra jogar papéis nos estádios, que era um costume nacional. Antes, tenho que explicar que nós, desenhistas, somos uma raça de sobreviventes, de conspiradores…tigres de papel. Como o “Pasquim” no Brasil, ou a “Codorniz”, na Espanha, estavamos sempre à espreita, para dar uma alfinetada nesse regime. E existia esta coisa tão inocente dos papéis. O governo tinha medo das multidões, que lembravam outros tempos políticos. Começaram então, uma campanha que tratava todo mundo como inadaptado social, para que déssemos a melhor imagem do país para os turistas. Munhoz dizia que os papeizinhos davam a impressão de sujeira. E Clemente começou a dizer que era para jogar mais papel do que nunca, já que essa era a forma que os argentinos tinham de se manifestar.

Estado – Como Clemente lidou com a Guerra das Malvinas ?

Caloi – Alheio. Existia um artificialismo triunfal no qual eu não acreditava e não fiz humor a respeito. Dois dias antes da invasão argentina havia sido realizada uma imensa manifestação contra os militares na Plaza de Mayo. A polícia botou todo mundo para correr, eu incluído. A invasão era um delírio de alguns generais.

Estado – Durante uma época, reduziu Clemente a poucos traços e sua fala era abreviada como anúcio classificado…Era o “Mundo da Síntese”. Como o público reagiu?

Caloi – As pessoas não estavam acostumadas. Mas o segredo de Clemente foi uma lenta elaboração de um código de entendimento com o público. Ele estabeleceu um código em que tudo é sugerido e nada é dito expressamente. O pensamento é completado pelo leitor. No momento mais duro da censura, Clemente fazia algo tão pueril como dar uma piscada, cruzava as perninhas e dizia algo de canto. As pessoas entendiam. Era popular como elas.

Estado – Na TV teve muito sucesso. Porque não permanceu lá ?

Caloi – A TV, para mim, era uma nova linguagem. Começamos timidamente, com bonecos desajeitados tentando ter o estilo Muppets. Eu estava preocupado pelos problemas estéticos, mas as pessoas já cantavam as musiquinhas de Clemente nas ruas. Ele incorporava um público que não era do jornal. Durou três anos, mas depois, acabou, pois aTV precisa renovar permanentemente seus personagens.

Estado – Clemente seria o portenho por excelência?

Caloi – Não era essa a idéia, embora ele possua idéias e pensamentos dos portenhos. É o torcedor de futebol, o pensador, é uma mistura de tudo, como os próprios portenhos.

Estado – De quem possui influências?

Caloi – Quino e Oski. Este era absolutamente original. Ele havia se encarregado de redesenhar toda a natureza em aberta competição com Deus. Seus pássaros, árvores e até o sol eram muito pessoais. Trabalhei nas revistas Patoruzú e Nicabur, onde havia caras que eram grandes construtores de personagens. Calé foi um desenhista que fez uma excelente radiografia da alma portenha dos anos 50 e 60. Quino foi o “joelho” na revolução desses comunicadores. Mafalda tinha mais preocupações além do bairro em que morava. Seu primeiro livro está dedicado ao secretário-geral da ONU, U Thant. Ela era uma garotinha que podia ter insônia por causa do “perigo amarelo”…!

Estado – Poderia contar sua experiência na “Hipotenusa”, uma revista que definiu como “surrealista com o subsídio do Estado”?

Caloi – A “Hipotenusa” surgiu na época da ditadura do general Onganía. Era uma revista arriscada em termos gráficos. Quanto mais ousado fosse o material, mais esquisito, eles publicavam. Durou 15 números, ou seja, bastante. Depois que foi fechada ficamos sabendo que era uma aposta cultural do Estado! (ri)

Estado – Há um desvario de personagens que contracenam com Clemente: pedras filosofais falantes, uma pardal-namorada francesa, uma mulata, o Clementossaurio, seu filho Jacinto, que nasceu de um affaire com uma azeitona…

Caloi – Uma das namoradas de Clemente, a “Mulatona”, é uma colombiana que dança a Cumbia, um ritmo latino. Ela é a coisa telúrica. Por outro lado, Mimi, a pardal francesa, tem a ver com aquele ideal antigo da mulher delicada. O Clementossaurio, o Clemente alado, são desdobramentos de sua personalidade. Lembrei de uma novela de Hermann Hesse, onde o personagem percorria as ruas da cidade com um cartaz onde dizia “Só para loucos”, e era seguido por outros que representavam sua múltipla personalidade.

Na tirinha publicada na manhã de sua morte, Clemente analisava com o filho Jacinto a morte do Universo.

Estado – O que aconselharia aos jovens cartunistas?

Caloi – Que trabalhem muito. Esta é uma época difícil para os jovens. Não existem tantas revistas de humor como quando comecei. Quase parece que têm que pagar para que publiquem seus desenhinhos.

Estado – É mais difícil fazer Humor hoje do que antes ?

Caloi – Pode-se fazer Humor nas piores circunstâncias, nas condições mais adversas, como durante a Ditadura. Nós, cartunistas, somos uma espécie de avis rara que sobrevivem e que ainda, além de tudo, conspiram um pouquinho.

Homenagem do cartunista Liniers a Caloi.

  

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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A mascote da Copa América será o boneco de um “ñandú” (uma espécie de avestruz dos Pampas), batizada de “Suri”. Até o fim de  semana passado a maior parte dos torcedores argentinos desconhecia a existência do símbolo da edição 2011 da Copa América. Os imbróglios do River Plate acabaram monopolizando as atenções desse setor da população. Os índios guaranis chamavam esta ave de “ñandú suri” ou “ñandú churi”. Esta simpática avezinha foi repasto dos gaúchos argentinos, que preferiam os petistos de suas asas e a picanha do ñandú. Acima, foto de ñandú matutando sobre assunto desconhecido com extrema atenção..

De olho no impacto político que o esporte preferido dos argentinos possui no país, a presidente Cristina Kirchner espalhou as doze seleções que participarão da Copa América 2011 em oito cidades. Coincidentemente, quando a Copa foi organizada, meses atrás, seis delas – La Plata, Mendoza, San Juan, Salta, Jujuy e Córdoba – eram capitais de províncias controladas por aliados leais ao governo. Outra delas, Santa Fé, é a capital da província homônima onde o governista Partido Justicialista (Peronista) confronta-se há meia década com os socialistas, que possuem o poder. Ao designar Santa Fé – a cidade do peronista ex-piloto de Fórmula Um Carlos Reutemann, que a presidente Cristina tentou convencer a passar às suas fileiras – o governo e a Associação de Futebol da Argentina (AFA) preteriram a terceira maior cidade do país, Rosário, controlada pelos socialistas (de oposição). Rosario está na mira da presidente Cristina desde 2008, quando tornou-se o foco dos protestos ruralistas contra o governo.

A última da lista é Buenos Aires, controlada pelo prefeito Maurício Macri, de oposição. No entanto, a capital argentina albergará apenas o jogo de encerramento.

Desta forma, além de Rosário e a realização de um único jogo em Buenos Aires, ficou de fora da competição internacional mais importante ocorrida dentro da Argentina em duas décadas o balneário de Mar del Plata, ponto costumeiro de eventos esportivos nacionais e internacionais.

A distribuição não é geograficamente equitativa, já que existe uma concentração de jogos no centro-oeste e noroeste do país. Na escolha das cidades tampouco pesaram os tamanhos de seus estádios (San Juan possui capacidade para apenas 25 mil pessoas, Jujuy conta com 23 mil cadeiras e Salta somente 20 mil).

Umberto Boccioni, um dos expoentes do movimento futurista, e sua obra “Estudo de um jogador de futebol”. Boccioni nasceu em 1882 e morreu em 1916. A obra acima é de 1913.

POPULISMO ESPORTIVO – Analistas políticos acusam a presidente Cristina de aplicar “populismo esportivo” em pleno ano eleitoral. Esse é o caso do think tank Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos Nueva Mayoría, que afirmou ao Estado que “não há dúvida de que o torneio foi encarado com olhos políticos pelo ex-presidente Nestor Kirchner (marido da presidente Cristina e considerado, até sua morte em outubro passado, o verdadeiro poder no governo da mulher), que pensava que um triunfo esportivo argentino nesta Copa reforçaria o governo do ponto de vista eleitoral”.

Ricardo Gotta, editor de esportes no jornal “Tiempo Argentino”, considera que a distribuição das cidades “é algo peculiar, mas está pensada com espírito federalista. Por um lado não é nada prático, pois os times precisarão viajar de um lado para outro continuamente em poucos dias”.

No entanto, Gotta disse ao Estado que “o lado positivo é que esta distribuição permitirá que as pessoas do interior tenham acesso às grandes seleções da região, coisa que costumeiramente não poderiam ver. Além disso, a Copa América levou à modernização de velhos estádios. Sem ela, essas obras talvez nunca teriam sido feitas”.

Fraga argumenta que “desde a Copa de 1978 (organizada pela ditadura e usada politicamente para respaldar o ditador Jorge Rafael Videla) vivemos na época de maior utilização política do futebol. O governo coloca publicidade oficial com fins eleitorais no meio dos jogos, financia as dívidas dos clubes de futebol e organiza e paga as torcidas”.

O denominado “populismo esportivo” do governo também teria ficado evidente no ano passado quando aliados da presidente tentaram convencer o ex-técnico da seleção argentina, Diego Armando Maradona, a integrar as listas de deputados nas eleições de 2011. Embora tenha declinado uma entrada direta na política, Maradona tornou-se ativo cabo eleitoral de Cristina.

Os analistas afirmam que a pedra fundamental do “populismo esportivo” é a estatização das transmissões dos jogos de futebol – batizada pela presidente de “Futebol para todos” – implementada dias após a derrota do governo nas eleições parlamentares de 2009.

Na ocasião, em troca de US$ 150 milhões anuais até 2019 à AFA e aos clubes, o governo ficou com o controle total das transmissões dos jogos, veiculados pelo canal estatal TV Pública. Durante os jogos transmitidos pelo canal, as únicas publicidades consistem na divulgação de obras e leis feitas pelo governo Kirchner.

Ainda dentro da utilização política do futebol, Fraga destaca que o chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, esteve por trás da criação do movimento das “Torcidas Unidas Argentinas”, que organizou os temidos “barrabravas” (hooligans) em uma entidade formal. Seus integrantes são costumeiramente usados nas manifestações políticas do governo.

LCDs PARA TODOS – O governo aproveitou o lançamento oficial da candidatura da presidente Cristina à reeleição em outubro, realizado há dez dias, para também anunciar o programa governamental de subsídios “TV para todos” (também chamado de “LCD para todos”), que implicará na venda, a partir de hoje, de um lote inicial de 200 mil televisores de alta definição LCD de 32 polegadas com um aparelho acoplado que permitirá captar os sinais de TV digital.

Os televisores, que serão vendidos por US$ 675, poderão ser comprados em módicas 60 prestações graças a créditos do estatal Banco de La Nación. Segundo o economista Gabriel Rubinztein, “é pão e circo com molho eleitoral, vinculado à Copa América”.

Mais Boccioni, “La città che sale” (A cidade levanta-se). Está no Museu de Arte Moderno de Nova York.

EM ANOS ELEITORAIS, PROLIFERAÇÃO DE CIDADES – Em 1987 a Argentina – na época sob a presidência de Raúl Alfonsín, caracterizado por sua relativa sobriedade em relação ao futebol – organizou a Copa América com as seleções de dez países participantes em apenas três cidades (Buenos Aires, Córdoba e Rosario). Dois anos depois, foi a vez do Brasil, que distribuiu os jogos de dez times em quatro cidades.

Em 1991, no Chile, a dezena de seleções que participava da Copa concentrou-se em quatro sedes diferentes. Na sequência, em 1993, no Equador, os doze times que participaram espalharam-se em seis cidades. Dois anos mais tarde, no Uruguai, as doze seleções foram colocadas em quatro cidades. Em 1997, na Bolívia, doze times foram distribuídos em cinco sedes. Em 1999 foi a vez do Paraguai, que colocou a dúzia de seleções em quatro cidades.

Na primeira competição do novo século, na Colômbia em 2001 – ano do início de uma dura campanha eleitoral – os doze times foram colocados em sete cidades. Dois anos mais tarde, o governo do presidente peruano Alejandro Toledo, assolado por greves, crises ministeriais e a declaração do Estado de Emergência, distribuiu as doze seleções em sete cidades.

Em 2007, coincidindo com sua ofensiva contra os meios de comunicação e ao surgimento de diversos protestos estudantis contra seu governo, além do agravamento da crise econômica, o presidente venezuelano Hugo Chávez ordenou que o torneio, com doze seleções, fosse distribuído em nove cidades.

Desta forma, com a designação de oito cidades para os jogos da Copa América, a presidente Cristina só perde para a marca de Chávez em 2007.

PERFIL DE GRONDONA, O ALIADO DE CRISTINA PARA O “POPULISMO ESPORTIVO”

Cartola que comanda futebol argentino sobreviveu a nove presidentes civis e quatro ditadores 

Julio Grondona, presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA) é o principal aliado do governo da presidente Cristina Kirchner em sua política de conseguir dividendos eleitorais por intermédio do esporte favorito dos argentinos. Grondona foi a peça crucial para que o governo Kirchner implementasse o “Futebol para todos”.

Em 2009 o cartola convenceu os falidos clubes argentinos a aceitar um suculento contrato de US$ 150 milhões anuais até 2019 oferecido pelo governo para ficar com todos os direitos de transmissão do futebol do país.  

Peça inestimável para a presidente Cristina, Grondona controla a AFA com mão de ferro há 32 anos, desde que foi designado pela ditadura militar (1976-83) para ocupar o posto. Grondona sobreviveu ao longo de mais de três décadas com apenas uma Copa do Mundo conquistada (México 1986), oito greves de jogadores, três paralisações de árbitros, mais de 40 casos de doping dos jogadores da seleção, além de acusações de corrupção e de vínculos controvertidos com o poder e empresários amigos que possuem negócios comerciais com a AFA. Grondona costuma relativizar os contratempos pronunciando sua frase preferida: “tudo passa”.

“Tudo passa, menos Grondona”, afirmam seus inimigos, já que desde 1979 a AFA teve um único presidente. Mas, a República Argentina está no décimo-terceiro presidente desde aquela época (os generais e ditadores Jorge Rafael Videla, Roberto Viola, Leopoldo Fortunato Galtieri e Reynaldo Bignone, os presidentes civis constitucionais Raúl Alfonsín, Carlos Menem, Fernando De la Rúa, Ramón Puerta, Adolfo Rodríguez Saá, Eduardo Camaño, Eduardo Duhalde, Néstor Kirchner e a atual Cristina Kirchner).

Desde que Grondona está no comando, a AFA teve oito técnicos da seleção (César Luis Menotti, Carlos Salvador Bilardo, Alfio Basile, Daniel Passarella, Marcelo Bielsa, José Pekerman, novamente Alfio Basile, Diego Maradona e o atual, Sergio Batista).

Os críticos de Grondona afirmam que ele montou uma estrutura que permitiu a consolidação de “uma AFA rica e clubes pobres”.

O poder de Grondona – que preside a Comissão de Finanças da FIFA – não é apenas nacional, pois possui grande influência internacional. Segundo o analista esportivo Ezequiel Fernández Moores, autor de livros sobre negociatas no futebol argentino, Grondona “foi elemento crucial na reeleição de Joseph Blatter, presidente da FIFA, em 2002”.

Contabilidade: a imagem acima mostra o banqueiro mais poderoso de Flandres, Jakob Fugger, com seu principal contador M.Schwartz. Ao fundo aparecem os dossieres das sucursais de seu banco. A obra, de 1517, está no Herzog-Anton-Ulrich-Museum da cidade alemã de Braunschweig (que teria sido a cidade natal do personagem do Barão de Munchhausen, o Hieronymus Carl Friedrich Freiherr von Münchhausen).

UM POUCO DE CONTABILIDADE FUTEBOLÍSTICA - Esta será a nona Copa América a ser realizada em território argentino. As edições anteriores foram em 1916 (a primeira copa), 1921, 1925, 1929, 1937, 1946, 1959 e 1987. Destas, venceu, na categoria de anfitrião, um total de seis campeonatos. Outras oito copas foram conquistadas pela Argentina nos outros países.

A distância no tempo da última conquista – 18 anos – incomoda a torcida local. Mas, os “hinchas” (torcedores) possuem o consolo de tempos piores. Esse foi o caso dos 32 anos que transcorreram entre 1959 e 1991 sem conquista alguma do troféu regional.

As estimativas dos organizadores é que a Copa América – que começará hoje com o confronto entre as seleções da Argentina e da Bolívia na cidade de La Plata, capital da província de Buenos Aires, é que movimente quase US$ 1 bilhão nos mais variados setores da economia argentina. Esse volume duplica o faturamento obtido no campeonato realizado na Venezuela em 2007, que movimentou US$ 500 milhões.

Os jogos serão transmitidos para 5 bilhões de pessoas em 198 países (11 mais do que os jogos realizados na última Copa América, na Venezuela). Mas, somente 750 mil poderão assistir os jogos, in loco, nos estádios.

Dos doze técnicos das seleções que participarão do Campeonato sete – da Argentina, Bolívia, Chile, Brasil, Venezuela e México – serão “debutantes” nesta Copa. Na contra-mão, o técnico colombiano, Bolillo Gómez, acumula a experiência de quatro copas.

E falando em contabilidade, um retrato de Luca Pacioli (1456-1517), considerado o primeiro autor de um livro sobre contabilidade. Foi o Summa de arithmetica, geometrica, proportioni et proportionalita, impresso em Veneza em 1494. O quadro é atribuído a Jacopo de Barbari (1440-1515). E falando em futebol, na falta de uma esfera, temos no canto superior esquerdo um Rombicuboctaedro pendendo do teto.

CLIMA - O clima sobre a Copa América é relativamente morno, já que a “hinchada” (torcida) argentina estava focalizada nas últimas semanas na possibilidade – concretizada no domingo passado – da insólita queda do River Plate da Primeira para a Segunda Divisão. O interesse pelo campeonato regional só começou a ter um destaque especial nesta semana.

Além disso, a ausência de conquistas desse troféu desde 1987 (um ano depois arrebatar a segunda – e última – Copa do Mundo) criaram um cenário de expectativas moderadas de vitória na edição deste ano nesse campeonato.

A perspectiva de cenas de violência tal como as transcorridas no jogo do River versus Belgrano são baixas, já que isso costuma ocorrer entre torcidas compatriotas e muito menos durante a visita de torcidas estrangeiras.

Mas, caso ocorra violência, segue um trecho da opereta “Os piratas de Pezance”, da dupla Gilbert e Sullivan, alusivo às forças de segurança. Aqui.

EPÍLOGO MUSICAL PARA EMBALAR ESTA SEXTA

E, nada a ver com o assunto acima, um pouco dE Harry James, interpretando “You made me love you”. Aqui.

E uma pitada de Benny Goodman p/embalar a entrada no fim de semana. Aqui, “Sweet Georgia Brown”, show no Japão em 1980. Aqui.

  

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Paródia finlandesa da “Criação de Adão” de Michelangelo Buonarroti mostra uma alterada Mão de Deus capelasistiniana como a Mão do ‘Diez’, isto é, D.A.Maradona (ex-técnico e ex-jogador). Ilustração acima mostra o irônico grafite estampado em uma parede da capital finlandesa, Helsinqui. Mas, desta vez não é “Vox populi, vox Dei”, pois torcida argentina está ateia e rechaça vontade de “Dios” ressuscitar e comandar novamente a seleção. No entanto, Maradona diz que pretende voltar. E que voltará com a ajuda dos Kirchners.

OPERAÇÃO RETORNO - Diego Armando Maradona, outrora chamado de “Dios” (Deus) pela torcida argentina, depara-se atualmente com um cenário de ateísmo futebolístico alastrado em seu país. Nesta sexta-feira, em entrevista ao canal Fox Sports, candidatou-se ao cargo de técnico da seleção de futebol argentina. Mas, as pesquisas realizadas pouco depois da notícia aparecer, indicaram que os argentinos rejeitam o retorno de “Dios”.

Maradona declarou que está “desesperado” e “com muita vontade” de retornar ao posto de técnico da seleção, onde esteve ao longo de 637 dias entre novembro de 2008 e julho de 2010. “Daria minha vida para voltar ao cargo de técnico”, disse.

Quando partiu, em julho passado, disparou uma saraivada de críticas contra Julio Grondona, presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA), que havia rejeitado a permanência de boa parte dos assessores de Maradona. Na ocasião, o ex-técnico chamou Grondona de “traidor” entre vários outros adjetivos (Grondona é o comandante da AFA desde 1978, tempos da ditadura militar; o cartola há dois anos transformou-se em um firme aliado do casal Kirchner).

Um dos motivos principais para a não renovação do contrato de Maradona foi sua determinação em manter todo seu time de assessores. Na ocasião, o ex-astro disse que seria fiel a seus colegas e não permitira a demissão de nenhum deles (seus contratos não foram renovados, junto com a não renovação de Maradona).

Mas, nesta sexta-feira, “El Diez” indicou que poderia voltar ao cargo de técnico sem seus colaboradores. “Isso é algo sobre o qual podemos conversar”, disse o ex-técnico.

Com um tom inesperado, Maradona tentou colocar panos quentes nos entreveros que manteve com o presidente da AFA e afirmou que sabia que “o projeto não existe sem Grondona. Mas o patrão (Grondona) tem que falar comigo… se ele fala comigo, a gente soluciona isso”.

Na semana passada Maradona teve um encontro com a presidente Cristina Kirchner e o ex-presidente Néstor Kirchner na residência de Olivos que rendeu especulações sobre manobras do governo para recolocar “El Pibe de Oro” (O Garoto de Ouro) no cargo. Depois de dias em silêncio Maradona confirmou a intenção dos Kirchners de ver o ex-jogador novamente no posto. “Kirchner disse que estava zangado com a decisão de não me renovar como técnico”, disse Maradona categórico. “Néstor e Cristina foram bem clarinhos nisso”, afirmou.

 

Presidente Cristina Kirchner (da República) e presidente Julio Grondona (da AFA) . Kirchners querem Maradona de volta. Maradona diz que topa conversar com Grondona, a quem haviam chamado de ‘traidor’ há dois meses. A AFA de Grondona, coincidentemente, recebeu verbas extras do governo federal nesta semana.

 ALTERNATIVAS PARA MARADONA – O governo, nas últimas semanas, expressou em diversas ocasiões que desejava que Maradona estivesse no cargo de técnico da seleção durante a Copa América, que será realizada no ano que vem na Argentina. Além disso, circularam rumores provenientes do entourage presidencial que indicavam que os Kirchners planejavam colocar Maradona como Secretário dos Esportes, caso não fosse viável seu retorno ao posto de técnico. Diversos setores do governo sonham em colocar Maradona na lista de deputados federais nas eleições parlamentares e presidenciais do ano que vem.

 PESQUISAS - No entanto, as pesquisas indicam que os argentinos não querem que “Dios” volte a comandar a seleção.

No conservador “La Nación”, os internautas responderam de forma negativa à pesquisa que fazia a pergunta “Diego se desespera por voltar à seleção. Você gostaria que ele volte?”. Na noite desta sexta-feira 5,68% dos internautas diziam que “sim”, queriam Maradona novamente como técnico. Mas, uma avassaladora proporção de 94,32% deixou claro que “não” deseja sua volta.

O jornal “Infobae”, de simpatias governistas e que evitar criticar Maradona, mostrou que os leitores não desejam que o desejo de “El Diez” e dos Kirchners se concretize. À pergunta: “você quer que D.Maradona volte a ser o técnico da seleção nacional?”, 12,04% dos internautas responderam “sim”. Mas, 87,96% indicaram que “não” querem Maradona no cargo outra vez.

No jornal esportivo “Olé” a rejeição a Maradona era um pouco menor que em outras pesquisas. No entanto, exibia uma categórica negativa à hipotética volta de “El Diez” ao posto. Somente 21% apoiavam o retorno de Maradona. Outros 79% eram contra sua volta.

COMO TÉCNICO, REJEIÇÃO CONSTANTE - Maradona – ídolo futebolístico nos anos 80 e nos 90 – ostentou uma constante rejeição como técnico desde que foi designado para o posto por Grondona.

Em 2008, quando tomou posse, 65% dos torcedores não queriam Maradona de forma alguma no comando da seleção. Em novembro de 2009 as pesquisas indicavam que apesar de conseguir de forma suada a classificação para a Copa, 85% dos torcedores exigiam sua remoção. Após a eliminação da Argentina da Copa, 70% exigiam sua retirada.

Camisetas com pensamentos de Maradona foram vendidas na web

MARADONA TÉCNICO – Breve antologia de frases pronunciadas durante os 637 dias da Era Maradona

- “O que busco em meus colaboradores é a lealdade total e que sigam as ordens da mente absoluta, que sou eu” (ao tomar posse como técnico, em novembro de 2008)

- “Que vocês me c… !” (quando, em novembro passado, convidou os jornalistas a praticar sexo oral nele próprio, depois de derrotar o Uruguai e conseguir uma suada classificação da seleção argentina).

- “E que vocês continuem me mamando!” (reiteração do convite para o sexo oral, meia hora após a primeira proposta)

- “Não estou levando muitas coisas na mala…é que a coisa mais importante é aquela que vou trazer da África do Sul” (antes de partir para a Copa, confiante de que voltaria à Buenos Aires com a taça da FIFA).

- “O time é este aqui. Não há motivos para mexer nele!” (categórico, rejeitando sugestões, poucas horas antes de enfrentar a Alemanha nas quartas de final)

- “Se mexerem no cara do almoxarifado, vou embora da seleção” (em julho, quando indicou que só ficaria no cargo de técnico se todos os homens de sua equipe permanecessem em seus respectivos lugares).

Falando em “Dios”, cá está uma reprodução do original de M.Buonarrotti.

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra ).

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blogthe_geographer

“O geógrafo”, óleo em tela de Johannes Vermeer (1632-1675). A obra, pintada entre 1668 e 1669, está no Steadelsches Kunstinstitut, em Frankfurt. Vermeer pintou este quadro para mostrar a influência crescente, na época, do saber científico na Europa.  Segundo as autoridades argentinas, os professores das escolas aproveitarão os jogos da Copa do Mundo para “transmitir noções de geografia e dados culturais” sobre o país anfitrião da Copa e os países das seleções que enfrentarão a Argentina. Mais detalhes sobre esta obra (a de Vermeer), aqui.

blog1mao3“Não podemos dizer às crianças que venham às aulas, exatamente quando a Argentina está colocando a vida em jogo!”. Com estas palavras – ditas em tom dramático – o técnico da seleção argentina de futebol, Diego Armando Maradona – defendeu o plano do governo da presidente Cristina Kirchner de estimular as escolas públicas em todo o país para que “flexibilizem” os horários, de forma que os estudantes possam assistir aos jogos protagonizados pela Argentina durante a Copa do Mundo da África do Sul nas salas de aula.

As enfáticas declarações de Maradona foram pronunciadas durante o lançamento do livro didático que será enviado a 25 mil escolas com diretrizes para os professores sobre como transmitir às crianças aquilo que o governo denomina de “o lado cultural” da Copa.

Segundo Maradona, graças à competição mundial na África do Sul as crianças argentinas poderão “saber quem é Nelson Mandela, que esteve preso mais de 25 anos por defender os direitos na África do Sul”.

Ao lado de Maradona, o ministro da Educação, Alberto Sileoni, afirmou que a Copa do Mundo é “um fato cultural muito importante, uma festa, e pode ter um grande efeito pedagógico”.

Sileoni, fanático do futebol – e que não parava de sorrir ao lado de Maradona – apresentou um argumento ‘moral’ para defender a suspensão das aulas para assistir os jogos da Copa: “é que também aprendem-se valores dentro dos estádios…os alunos sabem que vão na escola não somente para aprender teoremas, mas também para cultivar os valores que são representados pelos jogadores”.

A medida causou intensa polêmica. Comentaristas esportivos e políticos alegaram que a suspensão das aulas para os alunos das escolas argentinas poderia ser aproveitada para aprender geografia – durante os jogos – graças às referências incontáveis que ocorreriam na TV e rádio sobre as seleções rivais da Argentina.

Alguns até argumentaram – recorrendo a Pitágoras e Tales de Mileto – que seria possível aplicar teoremas para fazer alusões entre um escanteio ou um tiro de meta com a geometria durante os jogos assistidos na sala de aula.

No entanto, diversos pedagogos e pais de família duvidam que os alunos fiquem concentrados nas explicações sobre geometria e os principais rios e montanhas da topografia sul-africana, e consideram que a medida não passa de populismo explícito.

 blogpythagoras

Πυθαγόρας ο Σάμιος, isto é, Pitágoras de Samos (circa 580 aC a circa 490 a.C)…

 blogthales

…e o Θαλς Μιλήσιος, nosso batuta Tales de Mileto (639 a.C a 547 a.C), voltam à baila em Buenos Aires, usados em defesa da Copa do Mundo.

Mario Oporto, secretário da Educação da província de Buenos Aires (que concentra 40% dos alunos de todo o país), discordou dos “efeitos culturais” argumentados pelo governo da presidente Cristina Kirchner: “a Copa não gerará um fato pedagógico…não acho que por causa de um jogo as crianças aprendam algo!”.

Mas, pressionado pelo governo Kirchner, o governador bonaerense, Daniel Scioli, aliado do casal presidencial, ordenou a “flexibilização” das atividades escolares durante a Copa, e disse que estão “bem” os eventuais atrasos dos alunos para chegar à escola por causa dos jogos. O motivo, segundo Scioli, é que esse torneio mundial “é um evento cultural e patriótico”.

Na Argentina, as escolas públicas (com raras exceções) estão sob controle das províncias. O governo federal não pode obrigar as províncias a flexibilizar os horários para os dias da Copa. No entanto, nos últimos dias – após relativa resistência – a maioria das províncias aderiu à iniciativa federal.

Gustavo Iaies, presidente da Fundação Centro de Estudos em Políticas Públicas, discorda. Segundo ele, a autorização do governo para que os jogos possam ser assistidos livremente não possui “justificativa pedagógica”.

Iaies sustenta que os alunos, em vez de aprender conteúdos, passarão horas assistindo os jogos. “Ora, essas crianças vão prestar atenção nos jogos, nos resultados, nas torcidas. Como qualquer pessoa, deverão ter que recuperar posteriormente o tempo que iam dedicar para o cumprimento de suas obrigações”.

Os analistas políticos consideram que o Parlamento, que pouco funcionou ao longo deste ano (basicamente por falta de quórum do governista partido Peronista) ficaria totalmente paralisado ao longo de todo o mês que transcorrerá entre o início e o final dos jogos na África do Sul.

blogvinhetas25-c

ESQUERDA E DIREITA UNEM-SE NO CHILE

Do outro lado da Cordilheira dos Andes, a esquerda e a direita do leque político concordam em “flexibilizar” os horários trabalhistas e escolares para que os chilenos possam assistir os jogos disputados por sua seleção nacional.

O caso será debatido nos próximos dias no plenário do Parlamento, onde o deputado socialista Fidel Espinoza apresentou um projeto de lei para permitir que os chilenos possam ver os jogos sem restrições.

“Tivemos um ano péssimo com o terremoto (de 8,8 graus na escala de Richter, que causou a morte de centenas de pessoas e graves prejuízos em fevereiro). Por isso, acreditamos que será uma festa única e fantástica, que queremos aproveitar”, argumentou Espinoza, que – além de destacar a condição sui generis do Chile nesta Copa por causa do sismo – ressaltou que esta é a primeira vez em 12 anos que o Chile participa de uma Copa.

O ministro da Educação, o conservador Joaquín Lavín, costumeiramente um ácido crítico dos socialistas, respaldou enfaticamente o projeto de lei de Fidel Espinoza: “os meninos precisam ver os jogos da Copa!”

 blogvinhetaanjoscorneta1…E já que falamos em Tales de Mileto, segue um link com o grupo musical humorístico argentino Les Luthiers, cantando o “Teorema de Tales”, aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Gustavo Chacra (Nova York): http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/ 
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Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trevisan/
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