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Ariel Palacios

 

Pablo Vázquez, historiador, cientista social e doutor em comunicação, analisa simbologia peronista reutilizada pelo governo Kirchner. Vázquez é autor de “Arturo Jauretche e a comunicação política moderna”, sobre a vida e pensamento de Jauretche, um dos principais pensadores peronistas resgatados pelo governo Kirchner (foto de Ariel Palacios)

O historiador Pablo Vázquez, coordenador do arquivo do Museu Evita, sustenta que o governo da presidente Cristina Kirchner resgatou dos tempos do peronismo clássico o “apelo ao povo” e a “não-intermediação entre líderes e a massa”. Em entrevista ao Estado em seu escritório transbordando de documentos sobre os tempos peronistas, Vázquez explicou que “Cristina deixa claro que é porta-voz de si própria, além de expressar sentimentos e valores daqueles tempos”.

Estado – Nos últimos anos surgiram cafés com memorabilia peronista, tal como se fossem uma espécie de “Hard Rock Cafés” do peronismo, Perón aparece em desenhos animados, Evita é colocada em imensos murais em via pública. O peronismo transformou-se em algo pop?

Vázquez – O Peronismo é uma produção cultural. E, sem dúvida, ficou pop. É que o fato de ser um elemento cotidiano o tornou mais transferível a outros setores que em outras épocas teriam apresentado uma forte rejeição ao peronismo. Talvez, além da imagem do Che Guevara, as figuras de Perón e Eva sejam os únicos que tenham essa massividade na Argentina. Tem a ver com a maneira argentina de nos relacionar com nossos líderes. A crise econômica de 2001-2002 teve uma profunda marca na política argentina. E trouxe saudade pelos tempos peronistas nos quais o Estado era mais presente na economia…

Estado – O peronismo acabou virando assunto de videogame…

Vázquez – Eu vi os videogames e os achei muito divertidos! Como peronista, não é uma ofensa. Neste mundo virtual, dos sentidos e da coisa imediata, o fato de que o peronismo ocupe todos os espaços disponíveis, inclusive na web, em coisas como um videogame, é como uma ponta de lança a mais na batalha cultural. Outras figuras da política argentinas ficaram relegadas. Não há videogames com as figuras da União Cívica Radical (UCR, o rival clássico do peronismo), por exemplo. A imagem de Perón e Eva está hoje em chaveiros, camisetas, posters, isqueiros e adesivos. E, este não é um fenômeno solto no espaço, pois ele está acompanhado de um processo de reindustrialização que lembra os primórdios do peronismo.

Estado – O peronismo, ou mais especificamente sua vertente kirchnerista, nos últimos anos foi mais além de suas fronteiras culturais tradicionais e começou a absorver elementos de fora. Por exemplo, é comum ver em comícios kirchneristas a “Don’t cry for me Argentina” (Não chores por mim Argentina), uma canção de um musical britânico que inclusive é crítico com Evita. Anos atrás, tocar essa canção em um comício na Argentina teria sido heresia para os peronistas tradicionais…

Vázquez – O peronismo, que recorre ao saber e às tradições populares, toma aquilo que lhe serve. Ou, o reutiliza e o ressignifica. Tal como a “antropofagia” brasileira citada por Darcy Ribeiro. Desta forma, pega o “Não chores por mim Argentina” e o usa. Mas, só essa canção específica… o resto do musical não. E é muito comum que nos comícios, além da Marcha Los Muchachos Peronistas toquem o “Não chores por mim”. O peronismo faz essa operação habitual de pegar algo negativo e virar a coisa a seu favor…

E falando em soundtrack peronista, aqui vai…

a) A marcha Los Muchachos Peronistas, com Hugo del Carril. Aqui.

b) O “Don’t cry for me Argentina”, que apareceu na série “Glee” recentemente. Aqui.

c) E em espanhol, “No llores por mi Argentina”, com a argentina Nacha Guevara. Aqui.

d) E de novo a Marcha Los Muchachos Peronistas. Mas, já que o peronismo está “cool”, vamos em ritmo de jazz. Aqui.

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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O caudilho que virou videogame: Tal como Godzilla, que não pede licença para passar, um robótico Juan Domingo Perón arrasa a capital japonesa.

Na “Peronósfera” (o mundo peronista na web) já é possível jogar com o próprio defunto general e presidente Juan Domingo Perón (1946-55 e 1973-74) em diversos games online. Um dos jogos é o “Rise and fall of Mecha-Perón” (Ascenção e queda de Mecha-Perón) que obteve o primeiro lugar em um peculiar concurso – o “Codear” - organizado pela Associação de Desenvolvedores de Videogames da Argentina. O concurso tinha como premissa inventar jogos informáticos nos quais Perón fosse o personagem central.

A trama do jogo é esta: cientistas malucos japoneses construíram um robô gigante em 1945, logo após perder a guerra. E, aproveitaram que Perón estava despontando na distante América do Sul e decidiram que o robô teria sua cara, em sua homenagem.

Mas, a IA (inteligência artificial) do mega-autômata descontrolou-se. E este gigantesco Perón metálico começou a destruir a capital japonesa.

Tal como Godzila costumava flanear pelas ruas da capital do Império do Sol, Perón – neste game – caminha por Tókio arrasando tudo, enquanto diz “justiça social, justiça social” e “companheiro, companheiro”.

Godzilla lançava raios pela boca (além de fogo, dependendo da versão). Este Perón desfere seus mortíferos raios-laser oculares. Aqui, dispara o laser contra um caça-bombardeiro nipônico.

Perón (o robô, evidentemente) conta com poderosos raios-laser que saem de seus olhos calcinando caças da aeronáutica nipônica, além de um “punho ejetável” com o qual destrói edifícios completos.

Os criadores destacaram que o jogo foi criado no final de 2010, meses antes do tsunami que arrasou o norte do Japão em março passado.

“O conceito do jogo apela ao absurdo. Achamos divertido que Perón fosse um robô. Mas, na realidade, não há intenção política”, sustenta um dos criadores, Nicolas Viegas Palermo.

O fundo musical é um remix metal da marcha “Los muchachos peronistas”.

Para brincar com o general, clique aqui.

Gorilas, Perón e Evita. E os choripanes.

O jogo que obteve o segundo lugar foi “Evita e Perón contra os gorilas”. Este jogo online mostra um Perón zumbi descendo de um ônibus na frente de um lugar onde “gorilas” (gíria para denominar os anti-peronistas furibundos) escravizam camponeses (a representação dos gorilas é tal como se fossem os símios citados, embora com cartolas para indicar sua condição “oligarca”).

Neste game, Perón deve resgatar os trabalhadores, colocá-los no ônibus onde haverá “choripán” (o sanduíche popular distribuído pelos políticos a granel nas manifestações) e um refresco e leva-los à Praça de Mayo, centro principal das marchas peronistas. Evita aparece quando tudo dá certo.

Os autores destacaram que o game ironiza tanto os anti-peronistas como os próprios peronistas e suas práticas políticas.

Para jogar o “Evita e Perón contra os gorilas”, clique aqui.

Um link para um vídeo explicativo, aqui.

Cartaz do “Codear”, o concurso que reúne games inspirados nas figuras do peronismo. Na ilustração, Perón e Evita jogam na frente da tela.

E neste outro link, uma postagem deste blog sobre o emblemático “choripán”. Aqui.

Outro jogo é o “Pêndulo Peronauta”, no qual o internauta deve jogar com as idas e vindas de Perón entre operários, burocratas, empresários e operários,. Perón oscilou, ao longo da carreira, entre medidas conservadores e medidas revolucionárias.

Perón costumava explicar a seus ministros e parlamentares como lidar com os vários setores internos do partido (muitas vezes, antagônicos): “a arte de governar é como dirigir um carro: dê o pisca-pisca para a esquerda…mas vire o volante para a direita”.

Para jogar o “Pêndulo”, o link do jogo, aqui.

Durante o concurso, os militantes peronistas presentes (a maioria) encararam os games com humor.

Um link com a marcha Los Muchachos Peronistas interpretada por Hugo del Carril, cantor de tango que também foi ator nos anos 40 e 50. Aqui.

Uma segunda versão, levemente modificada no arranjo. Aqui.

 PARA O HAPPY HOUR: Neste link, a marcha peronista em ritmo de jazz. Aqui.

E falando em Godzilla (ゴジラ,, cuja pronúncia pra valer é Gojira), que é um daikaijū (大怪獣, isto é, grande monstro”), o link para o blog da brilhante colega Heloísa Lupinacci, que juntou um Godzilla argentino e um pato em seu banheiro, aqui (vale a pena ver o resto do blog).

E junto com isso, um breve clip com imagens do Godzilla original, aqui.

Na versão cinematográfica americana de 1998 do filme “Godzilla”, o emblemático Jean Reno (que contracena com Mathew Broderick) é um militar francês que – incógnito – está na Nova York que está sendo arrebentada pelo monstro asiático (ou da Oceania, segundo este filme).

Uma das melhores cenas é quando Jean Reno, que interpreta o oficial francês Philippe Roache, está em seu esconderijo, junto com outros militares franceses de seu comando especial. Um dos ajudantes-de-campo volta da rua, onde havia ido para buscar croissants e café.

Jean Reno pega um donut que o ajudante lhe entrega. “No croissant?”, pergunta em inglês. Então, dá uma bebericada na caneca de café e faz cara de nojo ao sentir o sabor.

O diálogo brevíssimo a seguir é este:

Jean Reno: Você chama isto de café??

Ajudante: Eu chamo isto de América!

 E falando em café… e em Perón, uma postagem sobre os lugares onde Perón virou café (na ilustração, o general, com seu sorriso de Kolynos, tal como diziam na época, beberica um cafezinho), aqui.

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Perón abraça Evita, enquanto seus cabelos platinados voam com o vento (não é a famosa sacada da Casa Rosada). Ícone pop, “Mãe dos pobres” já virou musical, filme, camiseta e caneca. Agora é desenho animado. Em 2D.

“Voltarei e serei milhões” era a apócrifa frase de Evita Perón, supostamente pronunciada poucos minutos antes de sua morte em julho de 1952, provocada por um arrasador câncer. Evita indicava que voltaria da morte como milhões de trabalhadores “descamisados” para tomar o poder. Mas, a famosa – e controvertida – segunda mulher do general e presidente Juan Domingo Perón, constantemente citada como “exemplo a seguir” por parte da presidente Cristina Kirchner, voltará como desenho animado no longa-metragem “Eva da Argentina”, que será dirigido porMaria Seoane, diretora da estatal Rádio Nacional.

A notícia sobre a preparação do filme – que conta com fundos do estatal Banco de La Nación- aparece em plenoperíodo de campanha eleitoral argentina. Em outubro apresidente Cristina, que emula Evita com seus gestos, disputará sua reeleição. Coincidentemente, dias antes será a estreia do filme.

“A obra louva a vida de Evita, defensora dos direitos do trabalhador e das mulheres”, afirmaram os produtores em um comunicado.

Os operários, aos quais Perón chamava de “descamisados”. Décadas depois a mesma expressão seria utilizada por Fernando Collor de Mello.

O filme mostrará a atividade política de Evita de forma romanceada, a relação sentimental com Perón e sua luta contra o câncer. “Este será o primeiro filme de desenhos animados da História política argentina. Nossa proposta é a de plasmar um registro dos seis anos de vida política de Evita, que geraram tantas interpretações”, afirmou Seoane.

O desenho animado em tom de épica terá trilha sonora do argentino Gustavo Santaolalla, músico premiado com o Oscar demelhor trilhas sonoras dos filmes “Babel” e “O segredo de Brokeback Mountain”. A produção do filme que retratará a vida de Evita – uma defensora da intervenção do Estado na economia – estaráa cargo da Azpeitia Cine e do Illusion Studios, empresa que pertence ao Grupo Exxel, fundos de investimento que foi um dos ícones do neoliberalismo dos anos 90 durante o governo de Carlos Menem (1989-99).

 Aristocracia argentina: as vilãs da História, segundo o filme.

MITOS - O filme, que mesclará cenas de imagens da época, também pretende mostrar o ódio das aristocracias portenhas contra a primeira-damaargentina e como os militares que derrubaram o governo de seu marido, em 1955, sequestraram seu corpo embalsamado.

Uma das cenas, no início do filme, mostra como Evita, que era filha extramatrimonial, foi impedida de ver o velório de seu pai pela própria viúva legítima do morto. No entanto, esta versão, imortalizada no musical britânico “Evita”, não teria a ver com a realidade. Isso é o que afirmou há poucos dias Cristina Álvarez, sobrinha-neta de Evita, aliada da presidente Cristina Kirchner, e presidente da Fundação Museu Evita.

Álvarez – cuja avó materna, Blanca Duarte, era irmã de Eva Duarte de Perón – explicou que a mulher oficial do pai de Evita, Juan Duarte, havia falecido em 1922, quatro anos antes do marido. A sobrinha-neta, considerada a detentora do maior número de documentos e memorabilia de sua tia-avó, desmentiu que Evita e seus irmãos, ao contrário do que dizia a lenda, haviam sido expulsos do velório.

Perón e Evita sob o luar que cai na Praça de Mayo. Ao fundo, à esquerda, o Banco de La Nación. À direita, ao fundo, a Casa Rosada. E na direita do fotograma, o desenho de Rodolfo Walsh, jornalista investigativo, que na vida real escreveu sobre o paradeiro do corpo de Evita. Para mais detalhes sobre Walsh, aqui.

CARNE E OSSO – Várias atrizes interpretaram Eva Perón no cinema. A primeira delas foi Faye Dunaway, que em 1981 fez um filme para a TV com James Fiorentino como Perón. Buenos Aires, nesse filme, aparecia como uma cidade de arquitetura colonial da América Central.

Uma década e meia depois, em 1996, foi a vez de Madonna interpretar Evita em uma transposição do musical de Andrew Lloyd Weber ao cinema por intermédio de Alan Parker. Na mesma época, o cinema argentino decidiu produzir um filme próprio sobre a mulher mais famosa da História do país – e com mais detalhes políticos no enredo – e lançou o “Eva Perón: a verdadeira história”, protagonizado pela atriz Esther Goris e dirigido por Juan Carlos Desanzo.

O revival sobre Evita no cinema, na literatura, na estampa de camisetas e caneras, e até como capa de CD de disco music, levou a escritora mexicana Alma Guillermoprieto a afirmar anos atrás: “evidentemente, a vida de Evita acaba de começar!”

 O link para o trailer do filme de Evita, aqui.

 E, para mais detalhes sobre como Evita virou ícone pop e os mitos e fatos sobre a principal figura feminina política do século XX na Argentina, uma postagem de dois anos atrás sobre o assunto, aqui.

 Aproveitamos a ocasião para desejar hoje um estupendo aniversário a nosso comentarista e leitor Lito Portenho, que acompanha o blog desde sua primeira semana!

E como presente especial, um tango diferente: “Papirosen”, com Zully Goldfarb. Aqui.

E aproveitamos para mandar um abraço imenso a todos os amigos… no Dia do Amigo, isto é, hoje!

Ah, quem não está por dentro desta história, pode ver uma postagem ddo ano passado, exatamente sobre esta data, que foi criada por um argentino. Aqui.

 a meu pai, José Elias, que faz aniversário hoje – e que será novamente avô daqui a poucas semanas – um dos tangos com seu cantor preferido, Julio Sosa. Aqui. E mais Julio Sosa, aqui.

E de “yapa” (brinde), mais duas interpretações do emérito uruguaio Julio Sosa, “El Firulete”, uma milonga, ,aqui. …e o tango “Elultimo café”, aqui.

O VERDADEIRO FACEBOOK: Giuseppe Arcimboldi, ou Arcimboldo: acima, seu quadro “O Bibliotecário”, de 1566. Exposto no Castelo Skokloster,

A referência ao pintor milanês do século XVI é só para dizer aos amigos que ainda estou tentando “pegar o jeito” do Facebook,com oqual não tenho muita paciência. Ainda prefiro o mail e o twitter…

Abraços e bom meio de semana a todos!

Ariel

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“Os direitos não se mendigam… conquistam-se!” costumava afirmar Julieta Lanteri, a primeira sufragista da América do Sul.Sua biógrafa, a jornalista Araceli Bellota, a define com estas palavras: “foi uma consciente transgressora”.

 No dia internacional da mulher, conto brevemente a história da primeira sufragista argentina (e da América do Sul, Julieta Lanteri). Depois, passamos ao quadro da crescente violência contra as mulheres na Argentina. E terminamos com um panorama do peso feminino no poder presidencial e parlamentar.

Julieta Lanteri (1873-32) foi uma pioneira das lutas pela igualdade de direitos das mulheres. Sem marido político para respaldar sua carreira, nem fundos estatais, Lanteri foi um símbolo de liberdade nas primeiras décadas do século XX.

Nascida na Itália, desembarcou aos seis anos de idade em Buenos Aires, acompanhada por seus pais.

Aos 18 anos decidiu que estudaria Medicina. No entanto, a profissão estava vetada para as mulheres. Lanteri contornou a proibição com uma permissão especial do decano da faculdade, Leopoldo Montes de Oca.

Entrou na faculdade em 1896 e formou-se em 1907.

Formada, fundou com sua colega Cecilia Grierson a Associação Universitária Argentina. Na sequência, fez seu doutorado em Medicina e Cirurgia.

“Solteirona” para os padrões da época, aos 36 anos ela casou-se com o americano (criado na Espanha) Alberto Renshaw, que não tinha fortuna, nem influências políticas ou intelectuais, e de quebra, era 14 anos mais jovem do que ela.

Na época, Lanteri, que sempre vestia-se impecavelmente de branco, estudava intensamente sobre saúde mental e decidiu candidatar-se para a cátedra de psiquiatria.

Mas, a faculdade negou seu pedido acadêmico com o insólito argumento de que era “estrangeira” (apesar de ter passado a maior parte de sua vida na Argentina).

Lanteri não se intimidou e solicitou a cidadania argentina. Após um ano de lutas, conseguiu a carta de cidadania (a segunda concedida no país).

O seguinte passo foi o de lutar pelo voto, na época um direito somente exercido pelos homens.

Em julho 1911 a prefeitura de Buenos Aires convocou os moradores da cidade para que se registrassem com dados atualizados nas listas de eleitores. A convocação indicava que deviam registrar-se “os cidadãos maiores de idade, residentes na cidade há pelo menos um ano, que tenham um comércio, indústria ou exerçam uma profissão liberal e paguem impostos municipais com valor mínimo de 100 pesos”.

Lanteri percebeu que a norma tinha uma brecha: ela não indicava nada sobre o sexo. Desta forma, um dia depois de conseguir a cidadania argentina, registrou-se nas listas eleitorais, e em novembro de 1911 apresentou-se para votar.

Na contra-mão do murmurinho generalizado e dos protestos de diversos homens que indicaram “indignação” com a presença feminina de Julieta Lanteri na sala de voto, o presidente de mesa Adolfo Saldías afirmou com entusiasmo: “estou alegre de ser quem assinará o documento do primeiro voto de uma mulher neste país e na América do Sul”.

Foi o primeiro e último voto feminino em 40 anos.

A notícia espalhou-se rapidamente, e em poucos dias o assunto era a polêmica da cidade. Na sequência, a Câmara de Vereadores de Buenos Aires emitiu uma lei que proibia explicitamente o voto às mulheres, alegando que os registros dos eleitores era feito com as listas dos registrados para o serviço militar.

Lanteri não se intimidou. Sem vacilar, apresentou-se perante as autoridades militares, exigindo sua admissão para o serviço militar.

Expulsa pelos funcionários dos quartéis, Lanteri foi ao próprio Ministério de Guerra e Marinha pedir ao ministro que fosse aceita como recruta.

A luta de Lanteri prolongou-se ao longo da década. Mas, em 1919, encontrou uma saída: a Constituição Nacional impedia as mulheres de votar… mas não havia impedimento para que fossem eleitas.

Desta forma, criou um partido, o Partido Nacional Feminista, e em abril de 1919 candidatou-se a deputada. Desta forma, tornou-se a primeira mulher a ser candidata na História da Argentina. Não foi eleita. Mas não desistiu de sua luta.

Em 1932 foi atropelada de forma misteriosa em pleno centro portenho, na esquina da avenida Diagonal Norte e da rua Suipacha. Tinha 59 anos e estava enfrentando o governo do general Agustín Justo.

“Os direitos não se mendigam… conquistam-se!” costumava afirmar Julieta Lanteri, a primeira sufragista da América do Sul.

VOTO - A socialista Alicia Moreau de Justo, que fundou em 1918 a União Feminista Nacional, elaborou um projeto de lei em 1932 que estabelecia o sufrágio feminino. No entanto, foi necessário esperar até 1947, quando Eva Perón, cujo marido era o presidente Juan Domingo Perón, ressuscitou a ideia e conseguiu sua aprovação. Desta forma, as argentinas puderam votar em massa em 1951.

 

Nos tempos da Inquisição: Ilustração de 1531 mostra uma mulher, acusada de ser bruxa, sendo queimada em uma fogueira na cidade de Schlitach. A mulher em questão era acusada de ter sido cúmplice do “demônio” no incêndio da cidade, localizada no lado esquerdo da imagem. O livro com ilustração está na Zentralbibliothek, Zurich, Suíça. Atualmente, no século XXI, mulheres continuam sendo queimadas vivas em diversas partes do mundo por seus cônjuges, ex-cônjuges e similares.

 MULHERES QUEIMADAS - O dia internacional das mulheres está tendo na Argentina um sabor amargo, já que desde o início deste ano 13 mulheres foram queimadas por seus cônjuges/namorados/ex-maridos/amantes. Destas, apenas quatro sobreviveram.

O fenômeno está chamando a atenção, já que em todo 2010 o número de mulheres queimadas por homens foi de 11, volume que já estava causando grande preocupação no ano passado.

O fenômeno, afirmam os analistas, parece ter aumentado depois que o baterista Eduardo Vázquez, ex-integrante do grupo de rock “Callejeros”, foi acusado de incinerar sua esposa, Wanda Taddei, em fevereiro do ano passado. Wanda morreu dias depois que seu marido lhe jogasse álcool e acendesse um cigarro ao lado dela. O ato lhe provocou graves queimaduras em 60% do corpo.

O último caso, registrado neste fim de semana, ocorreu na província de Santiago del Estero, A vítima, uma garota de 17 anos, mãe de um bebê de 7 meses, foi queimada por seu namorado, de 22 anos. A jovem, que saiu correndo em chamas de sua casa, foi socorrida pelos vizinhos. O namorado, que está detido, alegou que estava na cama, brincando com o bebê, quando repentinamente viu a mulher “inexplicavelmente” em chamas.

A penúltima vítima, em fevereiro, era de Florencio Varela, na Grande Buenos Aires. Na ocasião o marido da vítima a banhou em acetona e depois lhe jogou um fósforo aceso.

Neste domingo, na província de Santa Fe, outro homem tentou queimar sua namorada, grávida de 8 meses. No entanto, foi salva a tempo por seu cunhado.

Na Argentina no ano passado um total de 260 mulheres foram assassinadas dentro de crimes classificados de “violência de gênero”.

Nos primeiros dois meses deste ano treze mulheres haviam sido assassinadas em toda a Argentina por violência de gênero.

DADOS:

- Do total de mulheres vítimas de violência de gênero, 18% são jovens de menos de 18 anos de idade.

- Do total de mulheres vítimas de violência de gênero, 51% foram alvo dos ataques de cônjuges, ex-cônjuges ou amantes e namorados.

 PESO PRESIDENCIAL – Em 1974 María Estela Martínez de Perón – uma ex-dançarina de cabaré no Panamá – assumiu a presidência da Argentina. Mais conhecida por seu apelido, “Isabelita”, ela chegava ao poder por ser a vice-presidente do marido defunto, Juan Domingo Perón, que no ano anterior havia sido eleito nas urnas.

Isabelita durou menos de dois anos no posto. Controlada pela eminência parda do governo, o ministro José López Rega, Isabelita exerceu uma presidência desorientada e caótica. Foi derrubada por um golpe militar em 1976.

Isabelita, formalmente, foi a primeira mulher presidente da Argentina. No entanto, assumiu por ser a vice do marido.

A primeira mulher a ser eleita diretamente para o cargo de presidente foi Cristina Kirchner, que sucedeu seu próprio marido, Néstor Kirchner, na presidência do país.

Nas eleições que venceu com 45% dos votos, sua principal adversária foi outra mulher, Elisa Carrió, líder da opositora Coalizão Cívica, que obteve 23% dos votos.

Desta forma, as duas mulheres obtiveram juntas 68% dos votos emitidos.

 PESO PARLAMENTAR - Em 1991, durante o governo do presidente Carlos Menem (1989-99), o Congresso Nacional aprovou a lei que determina que os partidos políticos são obrigados a contar com um mínimo de um terço de candidatas mulheres.

Na época, a Câmara de Deputados e o Senado somente contavam com 6% de presença feminina.

Os resultados dessa lei, a primeira desse gênero nas Américas, foram comprovados em 1993. Graças à nova norma, a proporção de mulheres parlamentares subiu para 13,6% em 1993.

Atualmente as mulheres ocupam 38,8% das cadeiras do Senado. Além disso, estão presentes em 36,5% das cadeiras da Câmara de Deputados na Argentina.

 PESO MINISTERIAL - Apesar da presença de uma mulher na presidência da Argentina, o peso feminino no gabinete presidencial é baixo. De um total de 16 pastas a presidente Cristina somente possui três mulheres ministras (uma delas é sua própria cunhada, Alicia Kirchner, ministra que herdou do marido e antecessor, o ex-presidente Néstor Kirchner).

Isto é, o gabinete possui apenas 18,7% de mulheres com hierarquia ministerial.

Além disso, das cinco secretarias de Estado do governo Cristina, nenhuma é comandada por mulheres.

 UM BAIRRO ‘FEMININO’: As ruas de Puerto Madero, bairro criado nos anos 90 em Buenos Aires, conta exclusivamente com ruas com nomes de mulheres argentinas que lutaram pelos direitos de igualdade. Entre elas há médicas, intelectuais, políticas, líderes sociais, escritoras e até heroínas da independência.

Para mais detalhes sobre cada uma delas, clique aqui.

E para terminar a jornada, duas tirinhas de Mafalda… elas são dos anos 60. Mas é impressionante como são vigentes.

   

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Eva Perón, durante visita em 1947 ao ditador fascista espanhol Francisco Franco. O respaldo de Evita e de Perón – especialmente econômico, além de político - foi crucial naquela período para o generalíssimo ibérico que dizia-se “caudilho de Espanha pela graça de Deus”. Cinco anos depois Evita faleceria. Nos anos seguintes à sua morte o carnaval na Argentina foi suspenso pelo luto imposto pelo governo do viúvo.

A ditadura militar argentina (1976-83) acabou oficialmente com o carnaval argentino em 1977 ao eliminar o feriado de Momo. O ditador e general Jorge Rafael Videla – que temia que guerrilheiros de esquerda pudessem esconder-se atrás dos disfarces, e com isso, supostamente realizar atentados – também proibiu as reuniões públicas destinadas a esse festejo. Além disso, o asceta militar ordenou a proibição dos blocos carnavalescos.

Mas, a presidente Cristina Kirchner – que nos últimos anos fez a revisão de uma série de medidas da ditadura – decretou há poucos meses a reimplantação do feriado de carnaval.

“Queremos que a alegria volte à Argentina!”, disse exultante em setembro a presidente Cristina, perante uma plateia de “murgueros” (denominação dos integrantes dos blocos carnavalescos portenhos) que entoaram a “marcha Peronista” com um ‘touch’ de ritmo carnavalesco.

Desta forma, na semana que vem os argentinos poderão aproveitar o feriado de carnaval pela primeira vez desde 1976.

PRIMEIRO GOLPE - O carnaval argentino recebeu seu primeiro golpe com a morte de Eva Duarte de Perón – mais conhecida como Evita – em 1952. Durante três anos, todos os dias, na mesma hora em que havia falecido, nas rádios os locutores recordavam o falecimento da “mãe dos trabalhadores” e “líder dos descamisados”.

O clima de luto perdurou durante meses, e foi reforçada pela decisão do governo peronista de suspender o carnaval de 1953 e dos dois anos posteriores.

O golpe militar que em setembro de 1955 derrubou Perón restaurou em fevereiro de 1956 o feriado carnavalesco.

Mas, vinte anos depois, a ditadura militar do general Videla revogou o feriado e impediu as festividades. Este segundo duro golpe teve consequências mais permanentes que a morte de Evita. Embora a ditadura tenha acabado sete anos depois (em 1983) o carnaval levou mais de uma década para dar seus primeiros passos de retorno às ruas portenhas.

Videla (à direita) daria o golpe de misericórdia no carnaval argentino em 1976 ao suspender a totalidade dos festejos. As celebrações só ressurgiram – gradualmente – a partir dos anos 90. Na foto, Videla está acompanhado por seu vizinho e partner em assuntos ditatoriais, o general chileno Augusto Ramón Pinochet.

RECUPERAÇÃO - Desde a volta da democracia o carnaval recuperou-se de forma lenta e gradual em Buenos Aires com o surgimento das “murgas” (blocos) em diversos bairros.

Os integrantes das “murgas” dançam ao som do “candombe”, um ritmo de origem africano (remanescente dos tempos em que havia escravos em Buenos Aires) com intensos requebros.

Nos anos 80 existiam somente 15 murgas. Mas na virada do século XXI o número havia subido para mais de 100, compostas por dez mil “murgueros”. Atualmente existem mais de 200 murgas. O respaldo dos governos municipal e federal só apareceu na última década, quando as murgas mostraram que estavam consolidadas.

Murgas portenhas estão em plena recuperação. A cada ano surgem novos blocos.

As murgas concentram-se nos bairros de classe média baixa. Os bailes possuem pequenas dimensões em Buenos Aires, comparado com o Brasil, já que participam poucas centenas de pessoas. Para aumentar a participação, a prefeitura de Buenos Aires projeta recuperar o carnaval de salão, esquecido há décadas, além de outras festividades populares.

Mas, desde 1976 até este ano, em todos os lugares do país os carnavalescos só podiam protagonizar os festejos de Momo nos fins de semana, devido à inexistência do feriado de carnaval.

A presidente Cristina aproveitou a restauração do feriado de carnaval, no final do ano passado, para também anunciar a criação de outros novos feriados. Desta forma, com o decreto presidencial, o número total de dias considerados “feriados nacionais” passou de doze para quinze. A ideia, afirmou Cristina Kirchner, é estimular o turismo.

 Em Gualeguaychú a preferência é pelos carros alegóricos e a inspiração nas plumas e brilhos do carnaval brasileiro.

AO MODO DO BRASIL - Muito antes do Mercosul integrar as economias do Brasil e da Argentina, os habitantes da cidade de Gualeguaychú, na província de Entre Ríos,   importaram um produto tipicamente brasileiro: o carnaval. Desde os anos 60, os foliões argentinos desta região vestem-se com as plumas e lantejoulas típicas das festividades de Momo no Brasil, e desfilam em carros alegóricos.

Os próprios entrerrianos admitem que embora não haja mestres-salas, nem porta-bandeira, e sequer a música seja samba, o carnaval de Gualeguaychú é uma espécie de “irmão caçula” do carnaval carioca.

O carnaval de Gualeguaychú tornou-se um furor nacional nos últimos cinco anos, e é assistido por políticos e atores. As “comparsas” (as “escolas” locais) aproveitaram o sucesso para convidar estrelas da TV, modelos ou cantores para destacar-se. Em Gualeguaychú, existe um lugar para o desfile, inspirado no sambódromo, que denomina-se “Corsódromo”, em alusão a “Corso”, denominação argentina para o desfile ou parada de carnaval.

Nas últimas décadas, a febre do carnaval inspirado no brasileiro, se espalhou pelas pequenas cidades da região: Santa Elena, Concepción, Chajarí e Gualeguay. A preparação das fantasias e dos enredos leva todo o ano.

O lado físico também conta: para estar com os corpos comme il faut, nestas cidades florescem as academias de ginástica, que são escassas no resto do país, mesmo em Buenos Aires (comparado com o imenso volume de academias existentes em São Paulo ou no Rio de Janeiro).

AO MODO INDÍGENA - No norte da Argentina também comemora-se o carnaval, mas com tons indígenas: na região da Puna, na fronteira com a Bolívia, o centro da festa é o “Pujillay”, isto é, o “diabo carnavalesco”, personagem da mitologia local, derivada dos incas. Sepultado desde o final do carnaval do ano anterior, o diabo é desenterrado, dando início às festas, com músicas indígenas e coloridos desfiles pelos vilarejos da região. Nestas festas os participantes mascam folhas de coca e ingerem bebidas feitas com essa planta.

Diabo desenterrado é o foco do carnaval do norte da Argentina. A festança – além das danças típicas – é complementada com suculenta gastronomia.

VOCABULÁRIO:

- Murgas: espécie de blocos

- Corsos: o desfile das murgas

- Candombe (nome que origina-se na palavra candomblé): música que embala as murgas, com ritmo de origem africano.

  E um link do Youtube com Alberto Castillo cantando um candombe-milonga clássico do final dos anos 50: “Siga el baile”. Aqui.

   

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Juan Domingo Perón, embora defunto há 36 anos, ainda ganha eleições

“Na Argentina, os mortos participam em eleições”. A frase é de Claudio Negrete, autor de “Necromania: História de uma paixão argentina”. Segundo ele, “líderes políticos mortos – carregando a saudade pelo passado – voltarão com força na campanha eleitoral do ano que vem”. O ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), morto na quarta-feira, velado na quinta e enterrado na sexta após um funeral que reuniu dezenas de milhares de pessoas, “já ganhou seu espaço na cultura necrômana nacional. Kirchner acaba de entrar para a galeria dos ilustres mortos que a sociedade argentina se encarregará de manter vivo”, sustenta. “O ex-presidente terá direito a ter santuários, homenagens permanentes, grupos políticos que ostentarão seu nome e continuará liderando atos políticos e marchas”.

O historiador Daniel Balmaceda, autor de “Histórias insólitas da História argentina”, concorda. “Os argentinos costumam ser muito dedicados à necromania, à veneração e utilização política dos mortos”, disse ao Estado.

“Esse é um costume iniciado no final do século dezenove, época na qual as datas nacionais começaram a ser marcadas pelos dias fúnebres. Por exemplo, o ex-presidente Domingo Sarmiento (que implantou o ensino público gratuito) morreu em um dia 11 de setembro. Essa data virou dia do professor. E, o dia em que seu corpo chegou em Buenos Aires para o funeral de Estado, um dia 21 de setembro, transformou-se no dia do estudante! No caso do general Manuel Belgrano, que criou a bandeira argentina, o dia de sua morte, 20 de junho, foi usado para o dia da bandeira”, ilustra o historiador.

Segundo Balmaceda, “a morte de um político importante, na Argentina é considerado o momento em que ele ‘passa à imortalidade’. Isto é, o dia que entrou na glória. Essa pessoa deixa de ser como nós… passa a ser uma espécie de ‘imortal’!”.

 

Néstor Kirchner, morto há menos de um mês, já está sendo usado politicamente. Cartazes espalhados em Buenos Aires ostentam os dizeres “Néstor con Perón, Cristina com el pueblo” (Néstor com Perón, Cristina com o povo). Isto é, Kirchner estaria no além, ao lado de Perón, observando (e celestialmente respaldando) a política de Cristina, que ficou na terra, com “el pueblo”.

Abaixo, fotomontagem que circula na internet, mostra Kirchner sorridente ao lado de Evita e Perón no além. Militantes kirchneristas querem equiparar o recentemente defunto líder com o casal Perón. Diversos ministros e líderes sindicais compararam Kirchner a Perón.

 Com a teoria de que “os mortos na Argentina desfrutam de boa saúde”, Negrete ilustra o efeito dos mortos na política: “Evita vive, Perón vive, Alfonsín vive e Kirchner também”.

 Como se estivesse vivo, as frases do presidente Juan Domingo Perón são citadas diariamente pelos políticos argentinos. Peronistas neoliberais e peronistas esquerdistas usam as mesmas frases – com diferentes interpretações – para justificar medidas políticas. Além disso, a imagem de Perón está presente em comícios e nos cartazes eleitorais, como se o próprio general – morto em 1974 – fosse o candidato.

O uso político dos funerais, embora tenha tido mais destaque entre os integrantes do Partido Justicialista (Peronista), também foi aplicado por outros partidos políticos argentinos.

Balmaceda destaca que o funeral do ex-presidente Raúl Alfonsín, que no ano passado mobilizou mais de 180 mil pessoas (o maior funeral desde a volta da democracia) serviu para resgatar a imagem do ex-presidente morto, além da própria popularidade de seu partido, a União Cívica Radical (UCR), que aproveitou a ocasião para reunir suas forças, divididas até então por uma série de divergências.

De quebra, o funeral catapultou seu filho, Ricardo Alfonsín, ao centro do cenário político. Ele passou de ser quase desconhecido da população a transformar-se em um dos principais presidenciáveis para as eleições de 2011.

 

Funeral de Alfonsín serviu de catapulta para seu quase ignoto filho, Ricardo Alfonsín., que transformou-se em um dos dois principais candidatos de seu partido, a União Cívica Radical (UCR).

MINUTO DE SILÊNCIO DIÁRIO - Eva María Duarte de Perón, mais conhecida como “Evita”, morreu no dia 26 de julho de 1952. A hora de sua morte, 20:25, transformou-se, durante meses, em um momento de silêncio absoluto. “Na rádio faziam um minuto de silêncio todos os dias, durante meses. Quem interrompia o silêncio nas ruas corria o risco de ser preso”, explica ao Estado o historiador Daniel Balmaceda.

Quando Evita morreu, o governo decretou 30 dias de luto nacional. O velório durou 14 dias. O corpo da “Mãe dos pobres” precisou um tratamento químico para evitar sua decomposição . Posteriormente foi embalsamada.

O funeral foi monumental e planejado em cada detalhe por Alejandro Apod, secretário de Propaganda, mais conhecido como o “Goebbels” do presidente Juan Domingo Perón.

Mais de três milhões de pessoas teriam dado o último adeus à mulher do presidente. Perón uso a procissão como um plebiscito fúnebre.

A magnitude das cerimônias fúnebres da “porta-estandarte dos humildes” inspirou, três décadas depois, a ópera rock “Evita”, de Andrew Loyd Weber, que nos anos 90 foi transformada em filme por Alan Parker.

Com sua morte, Evita virou nome de cidade (La Plata, capital da província de Buenos Aires foi rebatizada como “Ciudad Evita”) e província (La Pampa perdeu o nome e foi designada “província Eva Perón”).

Viva, Evita havia sido a principal agente de mobilização de massas. Morta, o nome e a imagem de Evita estava em todos os lugares, servindo de garota propaganda do governo do viúvo, o presidente e general Juan Domingo Perón.

O médico espanhol Pedro Ara, autor da preservação do cadáver de Evita. O especialista observa sua obra.

UM CADÁVER ‘TROFÉU’ – Evita não teve um post-mortem plácido. Primeira integrante do casal a ir para o além, em 1952 foi embalsamada. Em 1955, seu viúvo foi derrubado por um golpe militar. O corpo de Evita foi sequestrado pelos militares a modo de troféu.

Nos meses seguintes, oficiais anti-peronistas vingaram-se violando o corpo embalsamado e urinando sobre ele, além de esfaquear o cadáver e quebrar seu nariz.

Em 1956, o oficial que ficou a cargo de esconder o caixão, o coronel Eugenio Moori Koenig, ordenou ao major Eduardo Arandía que guardasse o corpo. Arandía o escondeu no sótão de sua casa e trancou a porta a chave, sem contar nada à sua esposa, Elvira Herrero.

Uma noite, Elvira, ciumenta de que seu marido guardava algum segredo no sótão, foi abrir a porta. O major, que já estava paranoico (alguns historiadores dizem que estava mentalmente perturbado pela complexa tarefa que lhe cabia) ao ouvir um barulho nessa área da casa, pegou seu revólver. Ao ver uma silhueta na escuridão, atirou, matando com dois tiros sua esposa Elvira, grávida de dois meses. Outros dizem que Arandía estava em pleno pleno delírio, e ao ver a silhueta da esposa, achou que estava vendo o fantasma da própria Evita em sua sala.

Posteriomente os militares decidiram que era melhor escondê-lo longe da Argentina, país onde era considerada “santa” pelos operários. A saída foi enterrá-la em uma igreja em Milão, com nome falso.

Em 1972, quando Perón estava a ponto de voltar para a Argentina, foram realizadas negociações com os militares para reaver o corpo. O grupo guerrilheiro Montoneros, para pressionar as Forças Armadas, sequestrou o corpo do general Eugenio Aramburu (que eles próprios haviam assassinado anos antes). O corpo de Aramburu só apareceu poucas horas antes de Perón pousar em Buenos Aires, já contando com o caixão de Evita.

Em 1974 Perón morreu. Durante dois anos os corpos de Perón e Evita estiveram em uma sala na residência oficial de Olivos. O governo estava nas mãos da terceira esposa de Perón, María Estela ‘Isabelita’ Martínez de Perón. Aconselhada pelo ministro José López Rega, um astrólogo conhecido como “El Brujo” (O Bruxo), Isabelita deitava-se em cima do caixão de Evita para obter desta os “fluidos energéticos” que lhe proporcionariam o carisma do qual carecia.

“El Brujo” pretendia construir um mega-mausoléu em Buenos Aires para enterrar Perón e Evita, que seria coroado por uma estátua mais alta que a da Estátua da Liberdade em Nova York. As britadeiras começaram o trabalho, mas, o golpe de 1976 interrompeu as megalômanas obras. Perón foi colocado em Chacarita e Evita, longe dali, na Recoleta.

Durante três décadas lideranças peronistas pretenderam “reunir” o emblemático casal. Após o tumultuado enterro de Perón no mausoléu de San Vicente no meio do tiroteio, foram por água abaixo as negociações com a família de Evita. “Ela continuará na Recoleta”, afirmaram de forma categórica.

IMAGEM – Com a volta da democracia, em 1983, sua imagem foi novamente usada pelo peronismo para decorar cartazes eleitorais. Passaram mais décadas e Evita continua presente. A presidente Cristina Kirchner costuma discursar sob uma imensa imagem da “protetora dos descamisados”.

 

As mãos do general – que saudaram milhões de frenéticos admiradores – desapareceram há 23 anos. Nunca mais soube-se coisa alguma delas.

MÃOS E TIROTEIO - Uma manhã de julho de 1987 o zelador do Cemitério de Chacarita percebeu que o mausoléu onde estava enterrado Perón havia sido violado. Lá dentro, o corpo do fundador do Peronismo jazia dentro de seu uniforme de gala. Mas, suas mãos – as mais famosas extremidades da História do país, que haviam transformado-se em um símbolo com as quais saudava o povo desde o emblemático balcão da Casa Rosada – não estavam ali. Elas haviam sido decepadas e roubadas. Até hoje seu paradeiro é desconhecido. Também ignora-se o autor da profanação. Nos últimos 23 anos, jamais ocorreram reivindicações do atentado.

Mas, de 1987 para cá o corpo de Perón não descansou em paz. Em 2006 líderes peronistas decidiram levar o corpo a um novo e grande mausoléu em San Vicente, na Grande Buenos Aires.

No dia 17 de outubro – a data peronista par excellence – o féretro foi removido da Chacarita. Milhares de velhos militantes acotovelaram-se para – pela segunda vez na História – dar adeus a Perón.

Mas, sete horas depois o funeral terminava abruptamente. Ao chegar a San Vicente, grupos sindicalistas rivais disputaram a honra de carregar as alças do caixão com um desenfreado tiroteio. Às pressas, a guarda dos granaderos conseguiu colocar o caixão no mausoléu.

CRONOLOGIA DA AGITADA VIDA DE PERÓN COMO CADÁVER

- Juan Domingo Perón morre aos 78 anos no dia 1 de julho de 1974

- Após três dias de velório no Congresso Nacional, é levado à residência oficial de Olivos, e colocado em um salão, ao lado do corpo de Eva Duarte de Perón. Sua esposa, que era sua vice e que assume como presidente, María Estela Martínez de Perón (mais conhecida como Isabelita) decide deixar os corpos ali enquanto planeja a construção de um monumento megalomaníaco, três vezes maior que a estátua da Liberdade, em pleno bairro de Palermo.

- Março de 1976: um golpe militar derruba Isabelita e começa a pensar o que fazer com os dois corpos. No mesmo ano o corpo de Evita é devolvido à família Duarte, e colocado no cemitério da Recoleta. O corpo de Perón é colocado secretamente, no dia 13 de janeiro de 1977, no modesto mausoléu de seu avô, no cemitério de La Chacarita.

- Em 1987 o túmulo de Perón é violado. Suas mãos, cortadas, nunca mais apareceram. Nenhum grupo atribuiu-se esse atentado.

- Em 2002 o então presidente Duhalde e outros líderes peronistas planejam a construção do Mausoléu em San Vicente.

- Em outubro de 2006 o mausoléu está pronto. O corpo de Perón é transportado para San Vicente. O funeral termina em fracasso, em meio a um tiroteio entre sindicalistas.

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Vários exemplos da letra “A”, a letra da discórdia na Argentina. E agora também no Brasil desde que a presidentE/A eleita Dilma Rousseff indicou que era a primeira presidentA do país (tal como indicam os dicionários Aurélio e Houaiss).  A letra “A” foi objeto de discursos de Cristina Kirchner, que exige ser chamada presidentA. Os especialistas no idioma debatem sobre o uso da letra A no cargo presidencial, já que “presidente” é considerado substantivo de gênero comum (em espanhol).

O debate também gerou discussões sobre medidas concretas para que as mulheres ocupem um espaço real dentro do governo. Dentro do gabinete de ministros de Cristina, as mulheres são minoria: quando tomou posse só existiam 3 mulheres ministras de um total de 12 ministros. Nos últimos três anos criou dois ministérios adicionais. Atualmente, de 14 ministros, as mulheres ocupam somente 3 pastas. Diversos setores que esperavam que sua chegada ao cargo implicasse na despenalização do aborto decepcionaram-se ao ver que Cristina posicionou-se explícitamente contra o assunto.

“Presidenta! Presidentaaa! ‘Presidente’ é ressabio do machismo. Que fique bem claro para vocês. É ‘presidenta’! Podem começar a se acostumar!”. Desta forma, com dedo em riste e marcando a letra “a” da palavra “presidenta, a primeira-dama e senadora Cristina Fernández de Kirchner, fez questão de começar a dar ordens à plateia que participava do comício de lançamento de sua chapa presidencial, em julho de 2007. O público, que gritava em coro “Cristina presidente!” na hora da reprimenda ficou estupefato – e em silêncio – com a bronca da primeira-dama. Na sequência, esticando a letra “a” para destacar a feminilidade da palavra, Cristina arrematou: “presidentaaa!”.

 

Os especialistas no idioma espanhol debatem sobre o uso da letra A no cargo presidencial, já que “presidentE” é considerado substantivo de gênero comum. Eles ressaltaram que, se fosse a situação, os presidentes homens teriam que ser chamados de presidentOs. Exemplo: o ex-presidentO Néstor Kirchner. Outros especialistas não negam isso, mas destacam que existe a opção alternativa, por questões de uso, de presidentA.

 A então candidata à presidência deixava claro que faria questão de ser chamada “presidenta”, no feminino, e não na forma tradicional, neutra – “presidente” (um substantivo de gênero em espanhol) – se vencesse as eleições presidenciais.

Cristina conseguiu 45,6% dos votos e tomou posse no dia 10 de dezembro daquele ano.

Na época, os argentinos/as consideraram que a insistência de Cristina não passava de uma brincadeira de campanha. No entanto, só nos primeiros 45 dias de governo, por ordens diretas suas, a Casa Rosada – o palácio presidencial – rejeitou mais de 300 documentos em cujo cabeçalho e texto aparecia a palavra neutra “presidente” (com “e” final), e não sua versão feminina. Atualmente, todos os documentos ostentam a versão “presidenta” exigida por Cristina.

De lá para cá a presidente – sem possibilitar o opcional – interrompeu políticos e políticas (do próprio governo) que haviam referido-se à ela como “presidente”. “PresidentA, já disse!”, exclamou. Jornalistas (jornalistAs-homens e jornalistAs-mulheres) também passaram por carraspanas sobre a letra final do cargo presidencial.

As reuniões de cúpula do Mercosul e outros convescotes presidenciais também sofreram alterações em seus nomes. Desta forma, a última cúpula do bloco do Cone Sul realizada na Argentina, em San Juan, teve o nome de “Trigésima-nona reunião de cúpula de Chefes e Chefas de Estado do Mercosul e Estados Associados”.

Nos últimos três anos o debate permaneceu. Mas, os juristas afirmam que a Constituição argentina determina que o Poder Executivo será exercido por uma pessoa que ostentará o título de “Presidente da Nação Argentina”.

 

Em meio às discussões sobre o assunto, especialistas no idioma e não-especialistas citaram o exemplo da palavra “estudiante” (estudante), aplicada sem preconceitos a ambos sexos. Vários jornalistas (periodistas, em espanhol) perguntaram nos primeiros meses de governo se teriam que passar a ser jornalistOs (periodistOs) e se os artistAs homens poderiam ser chamados de artistOs. Idem para os comunistas. Por exemplo, o ex-presidentO comunisto cubano Fidel Castro, que aplaudiu emocionado o concerto do violinistO David Oistrakh.

Aliás, falando em Oistrakh, o gênio do violino, uma genial interpretação de “Clair de lune”, de Debussy, aqui.

PERONISMO E MACHISMO - O Peronismo é conhecido por seu machismo. Conta com figuras femininas fortes, mas todas foram esposas de caudilhos. Um dos casos é o de Eva Duarte de Perón, mais conhecida como “Evita”, sobre a qual o marido e presidente – Juan Domingo Perón – dizia: “eu fiz Evita”. A própria Evita havia afirmado que era “uma serva fiel de Perón”.

Os socialistas (com os quais os peronistas não se davam bem e vice-versa) tentavam implementar o voto para as mulheres desde 1919, sem sucesso. Eles indicaram que Perón, ao assinar o decreto presidencial em 1947 para estabelecer o voto feminino, o havia feito por puro interesse eleitoral. Independentemente dos motivos, as mulheres votaram por primeira vez na Argentina em 1951 (em outro âmbito, a lei do divórcio foi aprovada no governo do presidente Raúl Alfonsín em 1987, apesar da férrea oposição da Igreja Católica e do partido Peronista).

Perón foi eleito para seu último governo em 1973. Na chapa presidencial colocou como vice-presidente sua terceira e última esposa, María Estela Martínez de Perón, mais conhecida como ‘Isabelita’ (sem experiência política ou partidária alguma, que o velho caudilho havia conhecido durante parte de seu exílio no Panamá). Isabelita tomou posse em 1974, quando seu marido faleceu. Durante os anos 80 e 90 diversos governadores peronistas colocaram suas esposas como sucessores a eles próprios, especialmente nas empobrecidas províncias do norte do país.

Cristina Kirchner foi designada candidata presidencial por seu marido, Néstor Kirchner, em julho de 2007, sem convenção partidária alguma. Ela venceu as eleições de outubro daquele ano. A segunda colocada nas urnas foi Elisa ‘Lilita’ Carrió, candidata da Coalizão Cívica, de oposição. Juntas, as duas mulheres receberam 68% dos votos válidos (respectivamente, 45,2% e 23%).

MARCAS – Isabelita Perón, embora como vice do marido defunto, foi a primeira mulher na História do mundo ao chegar ao cargo de presidente. Em 1979 a boliviana Lidia Gueiler de Tejada (curiosamente, tia da atriz americana Raquel Welch, cujo pai era um engenheiro aeronático boliviano) chegou ao cargo máximo de seu país ao ocupar, provisoriamente, a presidência da Bolívia (foi derrubada um ano depois por um golpe militar).

A primeira mulher no planeta a chegar à presidência de uma República foi a islandesa Vígdis Finnbogadóttir, em 1980, país vanguardista em leis sociais (bem como a maior parte dos países com os quais relaciona-se culturalmente como Suécia, Dinamarca e Noruega)

A primeira sul-americana a ser eleita nas urnas para a presidência da República foi Michelle Bachelet, no Chile, em 2006.

 Letra “A”, em hieróglifo egípcio.

Letra “A”, em proto-semítico.

h! E temos Mercedes Sosa cantando com o catalão Joan Manuel Serrat “Aquelas pequenas coisas”. Aqui.

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