“Os direitos não se mendigam… conquistam-se!” costumava afirmar Julieta Lanteri, a primeira sufragista da América do Sul.Sua biógrafa, a jornalista Araceli Bellota, a define com estas palavras: “foi uma consciente transgressora”.
No dia internacional da mulher, conto brevemente a história da primeira sufragista argentina (e da América do Sul, Julieta Lanteri). Depois, passamos ao quadro da crescente violência contra as mulheres na Argentina. E terminamos com um panorama do peso feminino no poder presidencial e parlamentar.
Julieta Lanteri (1873-32) foi uma pioneira das lutas pela igualdade de direitos das mulheres. Sem marido político para respaldar sua carreira, nem fundos estatais, Lanteri foi um símbolo de liberdade nas primeiras décadas do século XX.
Nascida na Itália, desembarcou aos seis anos de idade em Buenos Aires, acompanhada por seus pais.
Aos 18 anos decidiu que estudaria Medicina. No entanto, a profissão estava vetada para as mulheres. Lanteri contornou a proibição com uma permissão especial do decano da faculdade, Leopoldo Montes de Oca.
Entrou na faculdade em 1896 e formou-se em 1907.
Formada, fundou com sua colega Cecilia Grierson a Associação Universitária Argentina. Na sequência, fez seu doutorado em Medicina e Cirurgia.
“Solteirona” para os padrões da época, aos 36 anos ela casou-se com o americano (criado na Espanha) Alberto Renshaw, que não tinha fortuna, nem influências políticas ou intelectuais, e de quebra, era 14 anos mais jovem do que ela.
Na época, Lanteri, que sempre vestia-se impecavelmente de branco, estudava intensamente sobre saúde mental e decidiu candidatar-se para a cátedra de psiquiatria.
Mas, a faculdade negou seu pedido acadêmico com o insólito argumento de que era “estrangeira” (apesar de ter passado a maior parte de sua vida na Argentina).
Lanteri não se intimidou e solicitou a cidadania argentina. Após um ano de lutas, conseguiu a carta de cidadania (a segunda concedida no país).
O seguinte passo foi o de lutar pelo voto, na época um direito somente exercido pelos homens.
Em julho 1911 a prefeitura de Buenos Aires convocou os moradores da cidade para que se registrassem com dados atualizados nas listas de eleitores. A convocação indicava que deviam registrar-se “os cidadãos maiores de idade, residentes na cidade há pelo menos um ano, que tenham um comércio, indústria ou exerçam uma profissão liberal e paguem impostos municipais com valor mínimo de 100 pesos”.
Lanteri percebeu que a norma tinha uma brecha: ela não indicava nada sobre o sexo. Desta forma, um dia depois de conseguir a cidadania argentina, registrou-se nas listas eleitorais, e em novembro de 1911 apresentou-se para votar.
Na contra-mão do murmurinho generalizado e dos protestos de diversos homens que indicaram “indignação” com a presença feminina de Julieta Lanteri na sala de voto, o presidente de mesa Adolfo Saldías afirmou com entusiasmo: “estou alegre de ser quem assinará o documento do primeiro voto de uma mulher neste país e na América do Sul”.
Foi o primeiro e último voto feminino em 40 anos.
A notícia espalhou-se rapidamente, e em poucos dias o assunto era a polêmica da cidade. Na sequência, a Câmara de Vereadores de Buenos Aires emitiu uma lei que proibia explicitamente o voto às mulheres, alegando que os registros dos eleitores era feito com as listas dos registrados para o serviço militar.
Lanteri não se intimidou. Sem vacilar, apresentou-se perante as autoridades militares, exigindo sua admissão para o serviço militar.
Expulsa pelos funcionários dos quartéis, Lanteri foi ao próprio Ministério de Guerra e Marinha pedir ao ministro que fosse aceita como recruta.
A luta de Lanteri prolongou-se ao longo da década. Mas, em 1919, encontrou uma saída: a Constituição Nacional impedia as mulheres de votar… mas não havia impedimento para que fossem eleitas.
Desta forma, criou um partido, o Partido Nacional Feminista, e em abril de 1919 candidatou-se a deputada. Desta forma, tornou-se a primeira mulher a ser candidata na História da Argentina. Não foi eleita. Mas não desistiu de sua luta.
Em 1932 foi atropelada de forma misteriosa em pleno centro portenho, na esquina da avenida Diagonal Norte e da rua Suipacha. Tinha 59 anos e estava enfrentando o governo do general Agustín Justo.
“Os direitos não se mendigam… conquistam-se!” costumava afirmar Julieta Lanteri, a primeira sufragista da América do Sul.
VOTO - A socialista Alicia Moreau de Justo, que fundou em 1918 a União Feminista Nacional, elaborou um projeto de lei em 1932 que estabelecia o sufrágio feminino. No entanto, foi necessário esperar até 1947, quando Eva Perón, cujo marido era o presidente Juan Domingo Perón, ressuscitou a ideia e conseguiu sua aprovação. Desta forma, as argentinas puderam votar em massa em 1951.
Nos tempos da Inquisição: Ilustração de 1531 mostra uma mulher, acusada de ser bruxa, sendo queimada em uma fogueira na cidade de Schlitach. A mulher em questão era acusada de ter sido cúmplice do “demônio” no incêndio da cidade, localizada no lado esquerdo da imagem. O livro com ilustração está na Zentralbibliothek, Zurich, Suíça. Atualmente, no século XXI, mulheres continuam sendo queimadas vivas em diversas partes do mundo por seus cônjuges, ex-cônjuges e similares.
MULHERES QUEIMADAS - O dia internacional das mulheres está tendo na Argentina um sabor amargo, já que desde o início deste ano 13 mulheres foram queimadas por seus cônjuges/namorados/ex-maridos/amantes. Destas, apenas quatro sobreviveram.
O fenômeno está chamando a atenção, já que em todo 2010 o número de mulheres queimadas por homens foi de 11, volume que já estava causando grande preocupação no ano passado.
O fenômeno, afirmam os analistas, parece ter aumentado depois que o baterista Eduardo Vázquez, ex-integrante do grupo de rock “Callejeros”, foi acusado de incinerar sua esposa, Wanda Taddei, em fevereiro do ano passado. Wanda morreu dias depois que seu marido lhe jogasse álcool e acendesse um cigarro ao lado dela. O ato lhe provocou graves queimaduras em 60% do corpo.
O último caso, registrado neste fim de semana, ocorreu na província de Santiago del Estero, A vítima, uma garota de 17 anos, mãe de um bebê de 7 meses, foi queimada por seu namorado, de 22 anos. A jovem, que saiu correndo em chamas de sua casa, foi socorrida pelos vizinhos. O namorado, que está detido, alegou que estava na cama, brincando com o bebê, quando repentinamente viu a mulher “inexplicavelmente” em chamas.
A penúltima vítima, em fevereiro, era de Florencio Varela, na Grande Buenos Aires. Na ocasião o marido da vítima a banhou em acetona e depois lhe jogou um fósforo aceso.
Neste domingo, na província de Santa Fe, outro homem tentou queimar sua namorada, grávida de 8 meses. No entanto, foi salva a tempo por seu cunhado.
Na Argentina no ano passado um total de 260 mulheres foram assassinadas dentro de crimes classificados de “violência de gênero”.
Nos primeiros dois meses deste ano treze mulheres haviam sido assassinadas em toda a Argentina por violência de gênero.
DADOS:
- Do total de mulheres vítimas de violência de gênero, 18% são jovens de menos de 18 anos de idade.
- Do total de mulheres vítimas de violência de gênero, 51% foram alvo dos ataques de cônjuges, ex-cônjuges ou amantes e namorados.
PESO PRESIDENCIAL – Em 1974 María Estela Martínez de Perón – uma ex-dançarina de cabaré no Panamá – assumiu a presidência da Argentina. Mais conhecida por seu apelido, “Isabelita”, ela chegava ao poder por ser a vice-presidente do marido defunto, Juan Domingo Perón, que no ano anterior havia sido eleito nas urnas.
Isabelita durou menos de dois anos no posto. Controlada pela eminência parda do governo, o ministro José López Rega, Isabelita exerceu uma presidência desorientada e caótica. Foi derrubada por um golpe militar em 1976.
Isabelita, formalmente, foi a primeira mulher presidente da Argentina. No entanto, assumiu por ser a vice do marido.
A primeira mulher a ser eleita diretamente para o cargo de presidente foi Cristina Kirchner, que sucedeu seu próprio marido, Néstor Kirchner, na presidência do país.
Nas eleições que venceu com 45% dos votos, sua principal adversária foi outra mulher, Elisa Carrió, líder da opositora Coalizão Cívica, que obteve 23% dos votos.
Desta forma, as duas mulheres obtiveram juntas 68% dos votos emitidos.
PESO PARLAMENTAR - Em 1991, durante o governo do presidente Carlos Menem (1989-99), o Congresso Nacional aprovou a lei que determina que os partidos políticos são obrigados a contar com um mínimo de um terço de candidatas mulheres.
Na época, a Câmara de Deputados e o Senado somente contavam com 6% de presença feminina.
Os resultados dessa lei, a primeira desse gênero nas Américas, foram comprovados em 1993. Graças à nova norma, a proporção de mulheres parlamentares subiu para 13,6% em 1993.
Atualmente as mulheres ocupam 38,8% das cadeiras do Senado. Além disso, estão presentes em 36,5% das cadeiras da Câmara de Deputados na Argentina.
PESO MINISTERIAL - Apesar da presença de uma mulher na presidência da Argentina, o peso feminino no gabinete presidencial é baixo. De um total de 16 pastas a presidente Cristina somente possui três mulheres ministras (uma delas é sua própria cunhada, Alicia Kirchner, ministra que herdou do marido e antecessor, o ex-presidente Néstor Kirchner).
Isto é, o gabinete possui apenas 18,7% de mulheres com hierarquia ministerial.
Além disso, das cinco secretarias de Estado do governo Cristina, nenhuma é comandada por mulheres.
UM BAIRRO ‘FEMININO’: As ruas de Puerto Madero, bairro criado nos anos 90 em Buenos Aires, conta exclusivamente com ruas com nomes de mulheres argentinas que lutaram pelos direitos de igualdade. Entre elas há médicas, intelectuais, políticas, líderes sociais, escritoras e até heroínas da independência.
Para mais detalhes sobre cada uma delas, clique aqui.
E para terminar a jornada, duas tirinhas de Mafalda… elas são dos anos 60. Mas é impressionante como são vigentes.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Eva Perón, durante visita em 1947 ao ditador fascista espanhol Francisco Franco. O respaldo de Evita e de Perón – especialmente econômico, além de político - foi crucial naquela período para o generalíssimo ibérico que dizia-se “caudilho de Espanha pela graça de Deus”. Cinco anos depois Evita faleceria. Nos anos seguintes à sua morte o carnaval na Argentina foi suspenso pelo luto imposto pelo governo do viúvo.
A ditadura militar argentina (1976-83) acabou oficialmente com o carnaval argentino em 1977 ao eliminar o feriado de Momo. O ditador e general Jorge Rafael Videla – que temia que guerrilheiros de esquerda pudessem esconder-se atrás dos disfarces, e com isso, supostamente realizar atentados – também proibiu as reuniões públicas destinadas a esse festejo. Além disso, o asceta militar ordenou a proibição dos blocos carnavalescos.
Mas, a presidente Cristina Kirchner – que nos últimos anos fez a revisão de uma série de medidas da ditadura – decretou há poucos meses a reimplantação do feriado de carnaval.
“Queremos que a alegria volte à Argentina!”, disse exultante em setembro a presidente Cristina, perante uma plateia de “murgueros” (denominação dos integrantes dos blocos carnavalescos portenhos) que entoaram a “marcha Peronista” com um ‘touch’ de ritmo carnavalesco.
Desta forma, na semana que vem os argentinos poderão aproveitar o feriado de carnaval pela primeira vez desde 1976.
PRIMEIRO GOLPE - O carnaval argentino recebeu seu primeiro golpe com a morte de Eva Duarte de Perón – mais conhecida como Evita – em 1952. Durante três anos, todos os dias, na mesma hora em que havia falecido, nas rádios os locutores recordavam o falecimento da “mãe dos trabalhadores” e “líder dos descamisados”.
O clima de luto perdurou durante meses, e foi reforçada pela decisão do governo peronista de suspender o carnaval de 1953 e dos dois anos posteriores.
O golpe militar que em setembro de 1955 derrubou Perón restaurou em fevereiro de 1956 o feriado carnavalesco.
Mas, vinte anos depois, a ditadura militar do general Videla revogou o feriado e impediu as festividades. Este segundo duro golpe teve consequências mais permanentes que a morte de Evita. Embora a ditadura tenha acabado sete anos depois (em 1983) o carnaval levou mais de uma década para dar seus primeiros passos de retorno às ruas portenhas.
Videla (à direita) daria o golpe de misericórdia no carnaval argentino em 1976 ao suspender a totalidade dos festejos. As celebrações só ressurgiram – gradualmente – a partir dos anos 90. Na foto, Videla está acompanhado por seu vizinho e partner em assuntos ditatoriais, o general chileno Augusto Ramón Pinochet.
RECUPERAÇÃO - Desde a volta da democracia o carnaval recuperou-se de forma lenta e gradual em Buenos Aires com o surgimento das “murgas” (blocos) em diversos bairros.
Os integrantes das “murgas” dançam ao som do “candombe”, um ritmo de origem africano (remanescente dos tempos em que havia escravos em Buenos Aires) com intensos requebros.
Nos anos 80 existiam somente 15 murgas. Mas na virada do século XXI o número havia subido para mais de 100, compostas por dez mil “murgueros”. Atualmente existem mais de 200 murgas. O respaldo dos governos municipal e federal só apareceu na última década, quando as murgas mostraram que estavam consolidadas.
Murgas portenhas estão em plena recuperação. A cada ano surgem novos blocos.
As murgas concentram-se nos bairros de classe média baixa. Os bailes possuem pequenas dimensões em Buenos Aires, comparado com o Brasil, já que participam poucas centenas de pessoas. Para aumentar a participação, a prefeitura de Buenos Aires projeta recuperar o carnaval de salão, esquecido há décadas, além de outras festividades populares.
Mas, desde 1976 até este ano, em todos os lugares do país os carnavalescos só podiam protagonizar os festejos de Momo nos fins de semana, devido à inexistência do feriado de carnaval.
A presidente Cristina aproveitou a restauração do feriado de carnaval, no final do ano passado, para também anunciar a criação de outros novos feriados. Desta forma, com o decreto presidencial, o número total de dias considerados “feriados nacionais” passou de doze para quinze. A ideia, afirmou Cristina Kirchner, é estimular o turismo.
Em Gualeguaychú a preferência é pelos carros alegóricos e a inspiração nas plumas e brilhos do carnaval brasileiro.
AO MODO DO BRASIL - Muito antes do Mercosul integrar as economias do Brasil e da Argentina, os habitantes da cidade de Gualeguaychú, na província de Entre Ríos, importaram um produto tipicamente brasileiro: o carnaval. Desde os anos 60, os foliões argentinos desta região vestem-se com as plumas e lantejoulas típicas das festividades de Momo no Brasil, e desfilam em carros alegóricos.
Os próprios entrerrianos admitem que embora não haja mestres-salas, nem porta-bandeira, e sequer a música seja samba, o carnaval de Gualeguaychú é uma espécie de “irmão caçula” do carnaval carioca.
O carnaval de Gualeguaychú tornou-se um furor nacional nos últimos cinco anos, e é assistido por políticos e atores. As “comparsas” (as “escolas” locais) aproveitaram o sucesso para convidar estrelas da TV, modelos ou cantores para destacar-se. Em Gualeguaychú, existe um lugar para o desfile, inspirado no sambódromo, que denomina-se “Corsódromo”, em alusão a “Corso”, denominação argentina para o desfile ou parada de carnaval.
Nas últimas décadas, a febre do carnaval inspirado no brasileiro, se espalhou pelas pequenas cidades da região: Santa Elena, Concepción, Chajarí e Gualeguay. A preparação das fantasias e dos enredos leva todo o ano.
O lado físico também conta: para estar com os corpos comme il faut, nestas cidades florescem as academias de ginástica, que são escassas no resto do país, mesmo em Buenos Aires (comparado com o imenso volume de academias existentes em São Paulo ou no Rio de Janeiro).
AO MODO INDÍGENA - No norte da Argentina também comemora-se o carnaval, mas com tons indígenas: na região da Puna, na fronteira com a Bolívia, o centro da festa é o “Pujillay”, isto é, o “diabo carnavalesco”, personagem da mitologia local, derivada dos incas. Sepultado desde o final do carnaval do ano anterior, o diabo é desenterrado, dando início às festas, com músicas indígenas e coloridos desfiles pelos vilarejos da região. Nestas festas os participantes mascam folhas de coca e ingerem bebidas feitas com essa planta.
Diabo desenterrado é o foco do carnaval do norte da Argentina. A festança – além das danças típicas – é complementada com suculenta gastronomia.
VOCABULÁRIO:
- Murgas: espécie de blocos
- Corsos: o desfile das murgas
- Candombe (nome que origina-se na palavra candomblé): música que embala as murgas, com ritmo de origem africano.
E um link do Youtube com Alberto Castillo cantando um candombe-milonga clássico do final dos anos 50: “Siga el baile”. Aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Juan Domingo Perón, embora defunto há 36 anos, ainda ganha eleições
“Na Argentina, os mortos participam em eleições”. A frase é de Claudio Negrete, autor de “Necromania: História de uma paixão argentina”. Segundo ele, “líderes políticos mortos – carregando a saudade pelo passado – voltarão com força na campanha eleitoral do ano que vem”. O ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), morto na quarta-feira, velado na quinta e enterrado na sexta após um funeral que reuniu dezenas de milhares de pessoas, “já ganhou seu espaço na cultura necrômana nacional. Kirchner acaba de entrar para a galeria dos ilustres mortos que a sociedade argentina se encarregará de manter vivo”, sustenta. “O ex-presidente terá direito a ter santuários, homenagens permanentes, grupos políticos que ostentarão seu nome e continuará liderando atos políticos e marchas”.
O historiador Daniel Balmaceda, autor de “Histórias insólitas da História argentina”, concorda. “Os argentinos costumam ser muito dedicados à necromania, à veneração e utilização política dos mortos”, disse ao Estado.
“Esse é um costume iniciado no final do século dezenove, época na qual as datas nacionais começaram a ser marcadas pelos dias fúnebres. Por exemplo, o ex-presidente Domingo Sarmiento (que implantou o ensino público gratuito) morreu em um dia 11 de setembro. Essa data virou dia do professor. E, o dia em que seu corpo chegou em Buenos Aires para o funeral de Estado, um dia 21 de setembro, transformou-se no dia do estudante! No caso do general Manuel Belgrano, que criou a bandeira argentina, o dia de sua morte, 20 de junho, foi usado para o dia da bandeira”, ilustra o historiador.
Segundo Balmaceda, “a morte de um político importante, na Argentina é considerado o momento em que ele ‘passa à imortalidade’. Isto é, o dia que entrou na glória. Essa pessoa deixa de ser como nós… passa a ser uma espécie de ‘imortal’!”.
Néstor Kirchner, morto há menos de um mês, já está sendo usado politicamente. Cartazes espalhados em Buenos Aires ostentam os dizeres “Néstor con Perón, Cristina com el pueblo” (Néstor com Perón, Cristina com o povo). Isto é, Kirchner estaria no além, ao lado de Perón, observando (e celestialmente respaldando) a política de Cristina, que ficou na terra, com “el pueblo”.
Abaixo, fotomontagem que circula na internet, mostra Kirchner sorridente ao lado de Evita e Perón no além. Militantes kirchneristas querem equiparar o recentemente defunto líder com o casal Perón. Diversos ministros e líderes sindicais compararam Kirchner a Perón.
Com a teoria de que “os mortos na Argentina desfrutam de boa saúde”, Negrete ilustra o efeito dos mortos na política: “Evita vive, Perón vive, Alfonsín vive e Kirchner também”.
Como se estivesse vivo, as frases do presidente Juan Domingo Perón são citadas diariamente pelos políticos argentinos. Peronistas neoliberais e peronistas esquerdistas usam as mesmas frases – com diferentes interpretações – para justificar medidas políticas. Além disso, a imagem de Perón está presente em comícios e nos cartazes eleitorais, como se o próprio general – morto em 1974 – fosse o candidato.
O uso político dos funerais, embora tenha tido mais destaque entre os integrantes do Partido Justicialista (Peronista), também foi aplicado por outros partidos políticos argentinos.
Balmaceda destaca que o funeral do ex-presidente Raúl Alfonsín, que no ano passado mobilizou mais de 180 mil pessoas (o maior funeral desde a volta da democracia) serviu para resgatar a imagem do ex-presidente morto, além da própria popularidade de seu partido, a União Cívica Radical (UCR), que aproveitou a ocasião para reunir suas forças, divididas até então por uma série de divergências.
De quebra, o funeral catapultou seu filho, Ricardo Alfonsín, ao centro do cenário político. Ele passou de ser quase desconhecido da população a transformar-se em um dos principais presidenciáveis para as eleições de 2011.
Funeral de Alfonsín serviu de catapulta para seu quase ignoto filho, Ricardo Alfonsín., que transformou-se em um dos dois principais candidatos de seu partido, a União Cívica Radical (UCR).
MINUTO DE SILÊNCIO DIÁRIO - Eva María Duarte de Perón, mais conhecida como “Evita”, morreu no dia 26 de julho de 1952. A hora de sua morte, 20:25, transformou-se, durante meses, em um momento de silêncio absoluto. “Na rádio faziam um minuto de silêncio todos os dias, durante meses. Quem interrompia o silêncio nas ruas corria o risco de ser preso”, explica ao Estado o historiador Daniel Balmaceda.
Quando Evita morreu, o governo decretou 30 dias de luto nacional. O velório durou 14 dias. O corpo da “Mãe dos pobres” precisou um tratamento químico para evitar sua decomposição . Posteriormente foi embalsamada.
O funeral foi monumental e planejado em cada detalhe por Alejandro Apod, secretário de Propaganda, mais conhecido como o “Goebbels” do presidente Juan Domingo Perón.
Mais de três milhões de pessoas teriam dado o último adeus à mulher do presidente. Perón uso a procissão como um plebiscito fúnebre.
A magnitude das cerimônias fúnebres da “porta-estandarte dos humildes” inspirou, três décadas depois, a ópera rock “Evita”, de Andrew Loyd Weber, que nos anos 90 foi transformada em filme por Alan Parker.
Com sua morte, Evita virou nome de cidade (La Plata, capital da província de Buenos Aires foi rebatizada como “Ciudad Evita”) e província (La Pampa perdeu o nome e foi designada “província Eva Perón”).
Viva, Evita havia sido a principal agente de mobilização de massas. Morta, o nome e a imagem de Evita estava em todos os lugares, servindo de garota propaganda do governo do viúvo, o presidente e general Juan Domingo Perón.
O médico espanhol Pedro Ara, autor da preservação do cadáver de Evita. O especialista observa sua obra.
UM CADÁVER ‘TROFÉU’ – Evita não teve um post-mortem plácido. Primeira integrante do casal a ir para o além, em 1952 foi embalsamada. Em 1955, seu viúvo foi derrubado por um golpe militar. O corpo de Evita foi sequestrado pelos militares a modo de troféu.
Nos meses seguintes, oficiais anti-peronistas vingaram-se violando o corpo embalsamado e urinando sobre ele, além de esfaquear o cadáver e quebrar seu nariz.
Em 1956, o oficial que ficou a cargo de esconder o caixão, o coronel Eugenio Moori Koenig, ordenou ao major Eduardo Arandía que guardasse o corpo. Arandía o escondeu no sótão de sua casa e trancou a porta a chave, sem contar nada à sua esposa, Elvira Herrero.
Uma noite, Elvira, ciumenta de que seu marido guardava algum segredo no sótão, foi abrir a porta. O major, que já estava paranoico (alguns historiadores dizem que estava mentalmente perturbado pela complexa tarefa que lhe cabia) ao ouvir um barulho nessa área da casa, pegou seu revólver. Ao ver uma silhueta na escuridão, atirou, matando com dois tiros sua esposa Elvira, grávida de dois meses. Outros dizem que Arandía estava em pleno pleno delírio, e ao ver a silhueta da esposa, achou que estava vendo o fantasma da própria Evita em sua sala.
Posteriomente os militares decidiram que era melhor escondê-lo longe da Argentina, país onde era considerada “santa” pelos operários. A saída foi enterrá-la em uma igreja em Milão, com nome falso.
Em 1972, quando Perón estava a ponto de voltar para a Argentina, foram realizadas negociações com os militares para reaver o corpo. O grupo guerrilheiro Montoneros, para pressionar as Forças Armadas, sequestrou o corpo do general Eugenio Aramburu (que eles próprios haviam assassinado anos antes). O corpo de Aramburu só apareceu poucas horas antes de Perón pousar em Buenos Aires, já contando com o caixão de Evita.
Em 1974 Perón morreu. Durante dois anos os corpos de Perón e Evita estiveram em uma sala na residência oficial de Olivos. O governo estava nas mãos da terceira esposa de Perón, María Estela ‘Isabelita’ Martínez de Perón. Aconselhada pelo ministro José López Rega, um astrólogo conhecido como “El Brujo” (O Bruxo), Isabelita deitava-se em cima do caixão de Evita para obter desta os “fluidos energéticos” que lhe proporcionariam o carisma do qual carecia.
“El Brujo” pretendia construir um mega-mausoléu em Buenos Aires para enterrar Perón e Evita, que seria coroado por uma estátua mais alta que a da Estátua da Liberdade em Nova York. As britadeiras começaram o trabalho, mas, o golpe de 1976 interrompeu as megalômanas obras. Perón foi colocado em Chacarita e Evita, longe dali, na Recoleta.
Durante três décadas lideranças peronistas pretenderam “reunir” o emblemático casal. Após o tumultuado enterro de Perón no mausoléu de San Vicente no meio do tiroteio, foram por água abaixo as negociações com a família de Evita. “Ela continuará na Recoleta”, afirmaram de forma categórica.
IMAGEM – Com a volta da democracia, em 1983, sua imagem foi novamente usada pelo peronismo para decorar cartazes eleitorais. Passaram mais décadas e Evita continua presente. A presidente Cristina Kirchner costuma discursar sob uma imensa imagem da “protetora dos descamisados”.
As mãos do general – que saudaram milhões de frenéticos admiradores – desapareceram há 23 anos. Nunca mais soube-se coisa alguma delas.
MÃOS E TIROTEIO - Uma manhã de julho de 1987 o zelador do Cemitério de Chacarita percebeu que o mausoléu onde estava enterrado Perón havia sido violado. Lá dentro, o corpo do fundador do Peronismo jazia dentro de seu uniforme de gala. Mas, suas mãos – as mais famosas extremidades da História do país, que haviam transformado-se em um símbolo com as quais saudava o povo desde o emblemático balcão da Casa Rosada – não estavam ali. Elas haviam sido decepadas e roubadas. Até hoje seu paradeiro é desconhecido. Também ignora-se o autor da profanação. Nos últimos 23 anos, jamais ocorreram reivindicações do atentado.
Mas, de 1987 para cá o corpo de Perón não descansou em paz. Em 2006 líderes peronistas decidiram levar o corpo a um novo e grande mausoléu em San Vicente, na Grande Buenos Aires.
No dia 17 de outubro – a data peronista par excellence – o féretro foi removido da Chacarita. Milhares de velhos militantes acotovelaram-se para – pela segunda vez na História – dar adeus a Perón.
Mas, sete horas depois o funeral terminava abruptamente. Ao chegar a San Vicente, grupos sindicalistas rivais disputaram a honra de carregar as alças do caixão com um desenfreado tiroteio. Às pressas, a guarda dos granaderos conseguiu colocar o caixão no mausoléu.
CRONOLOGIA DA AGITADA VIDA DE PERÓN COMO CADÁVER
- Juan Domingo Perón morre aos 78 anos no dia 1 de julho de 1974
- Após três dias de velório no Congresso Nacional, é levado à residência oficial de Olivos, e colocado em um salão, ao lado do corpo de Eva Duarte de Perón. Sua esposa, que era sua vice e que assume como presidente, María Estela Martínez de Perón (mais conhecida como Isabelita) decide deixar os corpos ali enquanto planeja a construção de um monumento megalomaníaco, três vezes maior que a estátua da Liberdade, em pleno bairro de Palermo.
- Março de 1976: um golpe militar derruba Isabelita e começa a pensar o que fazer com os dois corpos. No mesmo ano o corpo de Evita é devolvido à família Duarte, e colocado no cemitério da Recoleta. O corpo de Perón é colocado secretamente, no dia 13 de janeiro de 1977, no modesto mausoléu de seu avô, no cemitério de La Chacarita.
- Em 1987 o túmulo de Perón é violado. Suas mãos, cortadas, nunca mais apareceram. Nenhum grupo atribuiu-se esse atentado.
- Em 2002 o então presidente Duhalde e outros líderes peronistas planejam a construção do Mausoléu em San Vicente.
- Em outubro de 2006 o mausoléu está pronto. O corpo de Perón é transportado para San Vicente. O funeral termina em fracasso, em meio a um tiroteio entre sindicalistas.

PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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Biografia não autorizada de Cristina Kirchner ressalta frivolidade e autoritarismo da presidente argentina.
Dona de uma elegante língua viperina, a escritora e jornalista argentina Syvlina Walger lançou nesta semana “Cristina, de parlamentar combativa a presidente fashion”, biografia não-autorizada da presidente Cristina Kirchner. Walger, que ficou conhecida nos anos 90 ao publicar “Pizza com champanhe” – um raio-x implacável da frivolidade do governo do presidente Carlos Menem (1989-99) – volta à carga uma década e meia depois com esta obra que os assessores presidenciais evitam comentar. No livro a escritora, disseca a personalidade da presidente argentina, sua relação sentimental e política com o marido e ex-presidente Néstor Kirhcner, além da obsessão em renovar o guarda-roupa com vestimentas caras.
Em entrevista exclusiva ao Estado, Walger – enquanto bebia plácidamente um chá de limão – aplicou fundo o ‘bisturi verbal’ para analisar a anatomia do governo Cristina.
Estado – Em 2007, quando Cristina Kirchner tomou posse como presidente, acreditava-se que haveria uma “presidência bicéfala”, isto é, ela governaria em igualitária parceria com seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner. Essa divisão de forças existe?
Walger – Não existe divisão de forças. Manda Néstor Kirchner. Acho que é algo combinado entre os dois. Não existe presidência bicéfala. Ele nunca permitiria isso. Cristina supostamente é a presidente da República…mas ela é uma espécie de “continuação” do marido, embora faça enormes esforços por ser ela mesma. No fim das contas ela é apenas quem executa as ideias que ele tem.

Capa do livro de Walger. A foto não é fotomontagem, não. É mesmo o figurino utilizado por Cristina Kirchner.
Estado – Como definiria a relação matrimonial Néstor-Cristina? É um casal que apesar de tem boa química ou é uma associação política? No livro conta uma cena, ocorrida em 2008, em que Kirchner dá um soco em Cristina…
Walger – Começaram com boa química, mas hoje são menos do que uma associação política…são simplesmente uma associação para conservar o poder. Há muito tempo a única coisa que os une é uma fortuna a dividir. É algo triste o que ocorre com ela. No passado parecia ser uma mulher acessível e agradável. Mas, transformou-se em uma mulher com uma persistente cara de amargura, que nunca está satisfeita. É um ser cheio de rencor.
Estado – No livro indica que ela estaria emocionalmente ‘fragilizada’…
Walger – Fontes de seu entourage sustentam que ela está cansada, que sofre desmaios frequentes. Além disso, padece ataques de angústia. Pelo visto, deseja afastar-se do cargo. E acima de tudo, afastar-se de seu marido. Parece que ela teria esse plano para depois de 2011. E esse plano é uma ideia que pensa cada vez com mais força, especialmente depois daquele sonoro sopapo que sua cara metade lhe desferiu na “noite da 125” (noite na qual – em julho de 2008 – a presidente sofreu uma dura derrota no Senado, que derrubou – por apenas um voto – o projeto de ‘impostaço agrário’ de Cristina e mergulhou o governo em crise política).
Para detalhes do ‘sopapo’ citado por Walger, ler no pé da postagem

Cristina declara-se fervorosa admiradora de Eva (Evita) Duarte de Perón. Na foto, Evita em cerimônia na qual respalda o regime do ditador espanhol Francisco Franco (que auto-definia-se “caudilho de Espanha pela graça de Deus”).
Estado – No Peronismo sempre houve espaço para as esposas dos políticos. Assim foi com Perón e Evita e depois com Isabelita. E Carlos Menem durante muito tempo dependeu do dinheiro e dos contatos de sua esposa Zulema Yoma, até que se divorciou. Agora vemos Kirchner e Cristina…essa forma de usar as mulheres para fins polítocos é exclusiva do peronismo na Argentina?
Walger – É curioso, mas é verdade. Tem a ver com o caudilhismo, uma das ‘virtudes’ peronistas. O peronismo é profundamente machista, ao contrário da União Cívida Radical (UCR), que é intensamente misógina. Mas, apesar do machismo, as mulheres tiveram papéis protagonistas no peronismo.
Walger, que foi militante do grupo Montonero nos anos 70 – e conviveu com setores da elite – conhece por dentro os bastidores da política argentina. Em seus livros não hesita em destripar todo o leque ideológico, da direita neo-liberal à esquerda. Nos anos 90 escreveu ”Pizza com champanhe”, obra que retrata de forma ácida a frivolidade e a ostentação do governo do ex-presidente Carlos Menem. O título da obra teve tanto impacto que, dizer “Pizza com champanhe” na Argentina equivale a referir-se automáticamente à “era menemista”.
Estado – Que tipo de atividade política teve Cristina na época da facudade, em La Plata? Era mesmo uma engajada e combativa militante como ela diz atualmente? Ou ela construiu para si própria um passado de lutas?
Walger – Foi militante de assembleias e manifestações. Não foi uma militante integrada que levasse as lutas para a frente. Ela simplesmente “acompanhava” a militância. E ela e Néstor nunca partiram para o exílio durante a ditadura, ao contrário de dezenas de milhares de outros militantes que combateram o regime. Em março de 1977, quando a ditadura estava a ponto de completar seu primeiro ano, Néstor Kirchner foi detido durante dois dias pelos militares em Santa Cruz.
Estado – Foi um prazo curto, se comparado com o calvário de milhares de outras pessoas, que além de detidas, foram torturadas….
Walger – A liberação foi rápida, mas não foi grátis, segundo indicam investigações do jornalista Christian Sánz. Néstor Kirchner teria entregue telefones, endereços e diversas outras informações que levariam à muitas detenções de militantes.
Estado – Como Cristina Kirchner e seu marido poderiam ser enquadrados dentro do leque ideológico? São de esquerda? De centro-esquerda?
Walger – Uma coisa é certa. Tal como o o russo Vladimir Putin, practica um ‘capitalismo de amigos’, característica que marca não somente o peronismo, mas que também muitos governos latino-americanos. Os Kirchners afirmam que são de centro-esquerda. Mas, nada disto é contraditório com a facilidade que eles possuem para adaptar-se a qualquer circunstância, o que é a essência do peronismo.
Estado – Ideologia à parte, os Kirchners vivem de forma abastada?
Walger – Sua fortuna aumentou em 710% desde 2003. Eles possuem 19 casas, 14 apartamentos, 6 terrenos y duas logjass; também possuem a consultora Chapelco para assessorar financieramente inverstidores nacionais e estrangeiros. E de quebra, está o destino desconhecido de mais de US$ 500 milhões da província de Santa Cruz e o descomunal enriquecimiento de seus secretários privados.
Estado – No livro indica que Cristina nunca fala uma certa palavra…
Walger – É incrível, mas nos discursos públicos Cristina não pronunciou uma única vez sequer desde que chegou à presidência da República a palavra “corrupção”.
Estado – O que é que existe por trás deste confronto dos Kirchners com o Clarín, grupo de mídia que foi aliado do casal presidencial durante cinco anos? É simplesmente uma luta por mais poder?
Walger – Esse confronto surge a partir da guerra com o campo (a crise do governo com o setor ruralista, em 2008). O Clarín ficou do lado del campo e dali para a frente, o confronto com os Kirchners foi como brigar com um touro de touradas. Nesse contexto, a Lei de Mídia (que restringe a atuação dos meios de comunicação) tem como objetivo provocar o desaparecimento dos meios que não sejam controláveis pelo governo.

Ingrid Betancour, Cristina Kirchner e Madonna, em uma pausa em um dia de trabalho na Casa Rosada
Estado – A frivolidade da “Era Menemista”, que retratou em “Pizza com champanhe”, possui algum paralelo com a frivolidade de Cristina Kirchner? Ou são estilos diferentes?
Walger – Possuem em comum a compulsão pelo shopping e as marcas. É obcecada pelas compras. Mas, a frivolidade de Cristina é amarga, escondida e mesquinha. Os menemistas amavam a ostentação. Cristina prefere não mostrar. No entanto, usa muito o ouro, que é a coisa que ela mais gosta. E ela troca de roupa três vezes por dia…como se fosse uma estrela de rock em um show. Anos atrás começou com Vuitton e agora está com Hermès. Seus preferidos são, em crocodrilo ou lagarto, a Kelly bag (feita em homenagem a Grace Kelly) e a Birkin bag, (em homenagem a Jane Birkin). Estas bolsas só são vendidas por encomenda, e seu preço está ao redor de 40.000 euros. Isto é, para Cristina não existe crise. Um dia, em plena campanha eleitoral em 2007, tinha em cima de seu corpo US$ 50.000 em jóias. Cristina já havia percebido que para ser uma boa política não era necessário se disfarçar de pobre…
Estado – Cristina é famosa por sua vaidade. Ela possui complexos com o corpo?
Walger – Ela tem canelas grossas, o que equivale a ter pernas retas, rechonchudas e sem forma, uma marca que sua filha Florencia herdou. Por esse motivo, durante muito tempo ela só usava calças. Tempos atrás havia um rumor de que ela não permitia que as mulheres que trabalhavam com ela usassem saias…
Estado – Como podem conviver em Cristina Kirchner a proximidade con a líder das Mães da Praça de Mayo, Hebe de Bonafini, que respalda a ETA e os Zapatistas e com as bolsas luxuosas da Louis Vuitton ao mesmo tempo?
Walger – Eu fiz essa pregunta a mim mesma uma infinidade de vezes. Minha hipótese é meio arriscada, mas é o que insuo no livro: as líderes das damas dos direitos humanos (as Mães da Praça de Mayo) recebem uma boa quantidade de dinhero. Em troca disso, fecham os olhos.

Néstor Kirchner, antecessor de sua esposa no “sillón de Rivadavia” (a cadeira presidencial), discursa sob a imagem de Cristina. Kirchner, afirma Walger, é o verdadeiro poder no governo de Cristina. A relação de ambos, afirma a escritora, é plena de tensões e não passa de uma associação para manter o poder.
Estado – Sei que é cedo para definições póstumas, pois Cristina Kirchner ainda é jovem e possivelmente tenha muitos anos de carreira política pela frente dentro ou fora do governo, com maior ou menor influência. Mas, como acha que a História lembrará de Cristina?
Walger – Como uma convencida. Como uma pessoa que achava-se maior do que realmente era…
Estado – Acredita que ela se adaptará a estar fora do poder? Imagina Cristina Kirchner comandando a oposição a um governo?
Walger – Com Cristina tudo é possível. Tudo indica que o que ela quer é se ‘aposentar’ e desfrutar de seu dinheiro fora deste país, e se possível, na Europa. Mas não posso assegurar que, se lhe oferecerem um poder real, não como esse que possui atualmente, que na verdade é uma ‘procuração’ do marido, e sim, um poder a sério, ela rejeite a ideia de aposentadoria…
Estado – Digamos que lhe dou espaço para definir Cristina Kirchner com apenas dos adjetivos. Quais escolheria?
Walger – Não responderia com dois adjetivos, mas com três. “Fria”, “soberba” e “pedante”.

SOCO (cenas de pugilato presidencial)
Na noite do dia 17 julho de 2008 a presidente Cristina Kirchner e o ex-presidente Néstor Kirchner, seu marido, estavam no meio de grande tensão. O governo havia sido derrotado pela oposição em uma ajustada votação no Senado. O resultado foi a derrubada do projeto de lei que implantaria um “impostaço” agrário. Na manhã seguinte, o ex-presidente Kirchner, considerado o verdadeiro poder do governo da esposa, indicou a Cristina que deveria renunciar. No entanto, segundo afirma a escritora e jornalista Sylvina Walger em sua biografia não-autorizada “Cristina”, a presidente recusou-se a deixar o governo e insultou seu marido, sugerindo que, se ele quisesse ir embora, podia partir. Ao ouvir isto, Kirchner teria desferido um certeiro soco na presidente argentina.
O resultado desta agressão, segundo Walger, é que Cristina Kirchner teve que ser levada à uma clínica. Coincidentemente, a presidente não apareceu em público durante uma semana.
Uma das testemunhas dessa cena, afirma a biógrafa, foi o então chefe do gabinete de ministros, Alberto Fernández – que chocado com a deterioração da relação das duas pessoas mais poderosas do país – preferiu deixar o governo dias depois.
Semanas antes da derrota dos Kirchners no Senado a presidente, irritada com as interferências do marido em seu governo, teria proferido, exasperada: “La presidente soy yo, carajo!” (A presidente sou eu, caralho!).
Em “Cristina” Walger sustenta que o casal presidencial está unido “em uma relação muito mais sórdida, escura e desequilibrada do que aquilo que eles querem que as pessoas acreditem”.

PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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