Foto que mostra a mão esquerda amarrada de uma vítima dos voos da morte. O corpo foi fotografado nas areias de uma praia uruguaia.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) entregou nesta quinta-feira 130 fotos inéditas de vítimas dos denominados “voos da morte”, denominação dos voos que a aeronáutica naval argentina realizava durante a ditadura militar (1976-83) sobre o rio da Prata e o mar para jogar nas águas os prisioneiros, ainda vivos, desde os aviões. A maior parte dos cadáveres dos prisioneiros políticos argentinos encontrados naquela época foram levados pela correnteza às costas do Uruguai, cujo governo acreditava no início que eram vítimas de um naufrágio de um navio asiático.
Além das fotografias – de alta qualidade – a CIDH enviou à Buenos Aires relatórios dos anos 70 da Guarda Costeira e dos serviços de inteligência do Uruguai sobre a descoberta dos corpos nas praias uruguaias.
O material também contém mapas indicando onde os corpos foram encontrados. A maior parte dos cadáveres apareceram nas praias entre as cidades de Colônia (sobre o rio da Prata) e La Paloma (no oceano Atlântico).
As fotografias mostram pessoas nuas, a maioria com as mãos e os pés amarrados com cordas. Os militares argentinos teriam amarrado os prisioneiros para evitar distúrbios dentro dos aviões, além de impedir que tivessem qualquer chance de nadar, em caso de sobrevivência quando eram arremessadas desde os aviões.
Os corpos também exibem marcas de torturas, como fraturas ósseas múltiplas no tórax e membros, além de crânios esfacelados. Os cadáveres exibem marcas de choques elétricos.
Em vários casos, especialmente mulheres, os cadáveres tinham marcas de perfurações feitas com objetos pontiagudos em seus púbis e ânus. Outra foto mostra um homem que havia sido castrado com um certeiro corte de faca pouco tempo antes de sua morte.
O material fotográfico e os relatórios feitos na época pela Guarda-Marinha do Uruguai foram entregues ontem ao juiz federal Sérgio Torres, responsável pelas investigações e o julgamento dos envolvidos no “mega-processo ESMA”, denominação do processo que envolve dezenas de ex-torturadores da Escola de Mecânica da Armada (ESMA).
Os arquivos confidenciais, que pertencem ao relatório secreto realizado pela CIDH entre 1979 e 1980 na Argentina e no Uruguai, foram encontrados em novembro pelo juiz Torres dentro de 65 caixas na sede da Comissão Interamericana, nos EUA.
Ao ver os primeiros relatórios Torres fez algumas fotocópias. Mas, depois, ao perceber que ali poderia estar material que pudesse comprovar a existência dos “voos da morte”, solicitou à CIDH o material original.
O secretário-executivo da CIDH, Santiago Cantón, declarou que estes documentos possuem alto valor, já que até agora, todas as provas sobre os voos da morte eram depoimentos.
Os integrantes atuais da CIDH não sabem qual é a origem dos documentos encontrados. No entanto, suspeitam que poderiam ter sido entregues pelo ex-marinheiro e fotógrafo da Marinha uruguaia, Daniel Rey Piuma, que – chocado pelos horrores da ditadura de seu país (1973-85), desertou e fugiu para o Brasil. Posteriormente pediu asilo na Holanda, onde reside. Piuma teria escapado do Uruguai com material fotográfico que teria entregue a representantes do CIDH no Brasil na época.
A revelação da documentação é uma atitude inédita da CIDH, que pela primeira vez abre seus arquivos confidenciais para seu uso em um processo na Justiça. Além disso, os documentos poderiam gerar um pedido da Justiça argentina ao Estado uruguaio para que Montevidéu desclassifique os documentos relacionados à descoberta de corpos de argentinos nas costas do Uruguai nos tempos da ditadura.
Estimativas de ONG argentinas e de organismos internacionais como a Anistia Internacional indicam que a ditadura argentina assassinou 30 mil civis. Destes, 5 mil teriam passado pela ESMA. Menos de 150 sobreviveram às torturas e os fuzilamentos feitos pelos oficiais da Marinha.
A ESMA era comandada pelo almirante Emilio Massera, definido pelo escritor Miguel Bonasso como “o serial killer com sorriso de Gardel”, em alusão à sua crueldade e personalidade esquizofrênica. Massera morreu em novembro do ano passado, após uma década em estado vegetativo.
Floreal, aos 14 anos, pouco antes de ser sequestrado, torturado nas mãos e genitais e finalmente empalado vivo.
EMPALADO VIVO - Uma das fotos, relativas a três corpos encontrados no dia 22 de abril de 1976, quase um mês após o golpe que deu início à ditadura argentina, mostra o cadáver de um jovem com a marca de uma tatuagem com as letras “FA”. Segundo a Equipe Argentina de Antropologia Legista – responsável pela identificação de centenas de corpos de desaparecidos nos últimos anos – a foto seria do cadáver do adolescente Floreal Avellaneda, sequestrado no dia 15 de abril. O corpo, com a tatuagem que o jovem havia feito, foi encontrado pelos uruguaios e enterrado em Montevidéu. Posteriormente sua família foi informada sobre a descoberta do corpo do garoto.
Filho de um casal de sindicalistas militantes do Partido Comunista, Floreal, que tinha 14 anos quando foi sequestrado, sofreu torturas nas mãos e genitais. Depois, foi empalado vivo.
Mapa da Guarda Costeira do Uruguai que mostra a origem dos corpos encontrados no litoral uruguaio.
CORPOS NAS PRAIAS - Na época do surgimento dos primeiros cadáveres, a ditadura militar uruguaia acreditou que tratavam-se de pessoas afogadas em um naufrágio de um navio asiático. Os militares confundiram no início que eram de etnias orientais, pois os corpos estavam “amarelos”. Mas, posteriormente perceberam que tratavam-se de ocidentais.
Nos anos seguintes os militares em Montevidéu reclamaram aos colegas argentinos em Buenos Aires que o surgimentos de corpos em suas praias estavam causando constrangimentos ao regime, além de pânico nos turistas, que deparavam-se com os cadáveres trazidos pela maré. A partir dali, os pilotos argentinos deixaram de arremessar os prisioneiros na área do rio da Prata começaram a fazer voos até o mar. No entanto, as correntes marítimas continuaram levando os corpos às costas uruguaias.
VALOR DOS DOCUMENTOS - Valeria Barbuto, diretora da área de pesquisa do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), disse ao Estado que a revelação das fotos e documentos por parte da CIDH é “fantástico”, pois “demonstra que ainda existem muitos documentos que ainda não conhecemos e que podem ser de utilidade para a memória e as investigações na Justiça”. Segundo ela, “esta contribuição de documentos confere mais solidez aos processos na Justiça” sobre os crimes da ditadura.
Barbuto sustentou que o real valor destes documentos “poderá ser avaliado ao longo das próximas semanas”. Segundo ela, o material entregue pela Comissão Interamericana “servirá para provar que os voos da morte eram uma sistemática da ditadura e não algo circunstancial”.
A representante do CELS considera que a desclassificação dos documentos da CIDH estimulará que vários países da região acelerem o processo de abertura de seus arquivos sobre os períodos das ditaduras no Cone Sul.
DITADURA ARGENTINA APLICOU VÁRIOS MÉTODOS PARA ELIMINAR PRISIONEIROS
Tal como os funcionários do Terceiro Reich que recorreram aos fornos crematórios para eliminar os prisioneiros dos campos de concentração – como forma rápida de eliminar os vestígios dos corpos dos judeus massacrados – a ditadura argentina optou pelos “voos da morte” como uma de suas modalidades preferidas para “desaparecer” as pessoas sequestradas.
Adolfo Scilingo, ex-capitão da Marinha que em 1995, arrependido de sua participação nos “voos da morte”, revelou que 4.400 pessoas foram assassinadas ao serem arremessadas no rio da Prata e no mar desde os aviões da Marinha. Scilingo, condenado a 640 anos de prisão pelos tribunais da Espanha por crimes contra a Humanidade, sustentou que os voos da morte não eram um procedimento circunstancial, mas sim, parte de um plano de grande escala de eliminação dos corpos dos desaparecidos.
Além da Armada argentina, a Aeronáutica e o Exército também realizaram “voos da morte”, embora em menor escala, já que estas duas forças preferiam o enterro dos cadáveres em fossas comuns clandestinas. Na quarta-feira, na província de Tucumán, no norte da Argentina, a Justiça revelou a descoberta de uma fossa comum com quinze corpos de desaparecidos da ditadura.
Um dos corpos encontrados foi o do ex-senador Guillermo Vargas Ainasse, que foi sequestrado pelos militares em abril de 1976, aos 35 anos. A Equipe de Antropologia Legista fez um exame de DNA
A ditadura argentina também amarrava prisioneiros e os dinamitava vivos, além de fuzilamentos em massa.
A fossa comum com os esqueletos dos desaparecidos da ditadura na província de Tucumán.
PROTAGONISTA DOS VOOS FALAVA COM O ‘PEQUENO JESUS’ - Um dos criadores dos “voos da morte” foi o capitão de corveta Jorge “Tigre” Acosta, uma das “estrelas” da ESMA. O oficial, que falava sozinho à noite, em delírio místico explicava aos colegas e prisioneiros que mantinha longas conversas noturnas com “Jesucito” (O pequeno Jesus), ao qual perguntava qual dos prisioneiros deveria torturar no dia seguinte e jogar dos aviões.
Acosta – famoso pelos requintes de crueldade que aplicava aos detidos – também foi um dos principais sequestradores dos bebês de prisioneiras da ESMA, em cuja maternidade clandestina nasceram mais de cem bebês.
Em outubro passado, Acosta, acusado de violar diversas prisioneiras, foi condenado à prisão perpétua por seus crimes durante a ditadura.
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Mudando de assunto: Na segunda-feira que vem, dia 19, às 17h, a TV Estadão fará um debate sobre a Primavera Árabe com Reginaldo Nasser e Heni Ozi Cukier, moderado pelo Lameirinhas. O debate será transmitido ao vivo no portal e permitirá participação em tempo real dos internautas pelo Twitter, Facebook, email e pelo Radar Global.
Mais informações, aqui.
As perguntas para o debate poderm ser enviadas aqui: estadaointer@gmail.com
ara encerrar esta semana, de Ludwig van Beethoven, Sétima Sinfonia, 2º movimento. Com o maestro Leonard Bernstein, que rege a Weiner Philharmoniker.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
Houve coito ou não houve coito? Houve algum presente ou não? Debate sobre desaparecidos da Ditadura Militar saiu brevemente do relato das torturas para ingressar no burlesque. Acima, Graciela Alfano em capa de revista argentina em meados dos anos 70, quando ficou famosa. A estudante de Engenharia e modelo, dizem as más línguas, teria tido um affaire com almirante Emilio Massera, integrante da troika militar que implantou a ditadura mais sanguinária da História da América do Sul no século XX. Um programa de fofocas denunciou que ela teria recebido presentes saqueados de prisioneiros políticos.
A ex-modelo e atriz argentina Graciela Alfano, sex symbol de seu país nos anos 70, 80 e 90, seria investigada pela Justiça por seu hipotético affaire amoroso com o ex-almirante Emilio Massera, considerado uma das mais sinistras figuras da ditadura militar (1976-83). Alfano, presença constante nas revistas de fofocas, que atualmente integra o júri do programa de auditório “Dançando por um sonho”, foi denunciada pelo suposto recebimento de “presentes” do então integrante da Junta Militar que protagonizou o golpe de Estado que derrubou o governo da presidente civil Isabelita Perón (1974-76).
Estes presentes consistiriam em peles e joias que os militares haviam roubado dos desaparecidos políticos (Massera foi acusado de enriquecer graças aos bens saqueados dos desaparecidos políticos, além de extorsões a empresários).
O estopim da investigação, que está sendo realizada pelo promotor Luis Comparatore, foi “Intrusos”, um programa de fofocas no canal de TV América comandado pelo jornalista Jorge Rial, especializado em escândalos sexuais das celebridades. Irritada com as especulações sobre seu affaire, Alfano reagiu com veemência. “Se você vai para a cama com um genocida, isso não quer dizer que você sai com 30 mil desaparecidos”, afirmou, causando o repúdio imediato das organizações de defesa dos direitos humanos.
Alfano afirmou que nunca havia revelado o nome de homem algum com o qual havia mantido alguma espécie de coito ou afins. No entanto, há poucos meses, contou com detalhes como havia feito um fellatio no ator americano Lorenzo Lamas em um camarim de um canal de TVem Buenos Aires nos anos 90.
As revelações realizadas por Rial também tiveram um efeito de estupefação entre os integrantes de organizações de defesa dos Direitos Humanos, que costumavam desprezar os programas de fofocas, por considera-los “fúteis”. Alguns integrantes das ONGs preferiram que o caso Alfano-Massera fosse deixado de lado, já que isso poderia “frivolizar” a História dos desaparecidos. Outros, na contra-mão, indicaram que exigiam uma profunda investigação, para ver quais atores e modelos estiveram conectados de alguma forma com a ditadura militar. Outros, ainda, afirmaram que as supostas práticas sexuais de uma atriz com um genocida não tinham importância jurídica alguma. Mas, destacavam que seria importante verificar se Alfano havia recebido bens que pertenciam aos desaparecidos ou ex-detidos ainda vivos.
“La” Alfano atualmente, durante um programa de auditório em Buenos Aires.
O ESPIÃO DE PINOCHET - Comparatore recebeu relatórios desclassificados do serviço de inteligência chileno que respaldariam as suspeitas. Um dos documentos sobre a relação entre Massera e Alfano – e a eventual entrega à sex symbol de bens usurpados de pessoas detidas nos centros clandestinos de tortura da ditadura – foi preparado nos anos 70 por Enrique Arancibia Clavel, um dos espiões preferidos do ditador chileno Augusto Pinochet, autor do atentado contra o general Carlos Prats (braço-direito do presidente Salvador Allende na área militar) em Buenos Aires em 1974. Clavel apareceu assassinado há poucos meses em seu apartamento portenho, supostamente morto por um garoto de programa.
O escândalo aumentou quando a atriz Elsa Ayala afirmou que viu a ex-modelo com Massera nos anos 70 no escritório do almirante quando foi fazer um apelo por seu marido, um desaparecido político. Segundo Ayala, Alfano interrompeu a reunião com Massera com uma frase cortante: “basta, o almirante está ocupado e com muitas coisas para fazer”. Ayala replicou: “mas é a vida de meu marido!”. Alfano deu a tréplica: “bom, você não é a única…”.
Massera tentou flertar também com a presidente Isabelita Perón quando esta estava presa em Bariloche, afirmam biógrafos do defunto ex-almirante. Na foto, Massera está à esquerda.
CASANOVA - Massera, que morreu em dezembro passado após uma década em coma, nunca fez declarações públicas sobre seu hipotético caso nos anos 70 com a então jovem modelo. Com fama de “Casanova”, Massera – que assassinou os maridos de algumas amantes – ostentava impecáveis uniformes e permanente bronzeado. O militar, que foi definido pelo escritor e jornalista Miguel Bonasso como um “serial killer com sorriso de Gardel”, era famoso por sua crueldade, maquiavelismo e personalidade esquizofrênica. Entre 1976 e 1981 ele integrou a primeira troika que comandoua Argentina nos anos de chumbo.
Com a voltada democracia, foi detido e levado a julgamento em 1985 pelas acusações de 83 homicídios, 632 sequestros, 267 torturas, 102 roubos, 201 falsificações de documentos, 23 casos de pessoas reduzidas à escravidão, além de 11 sequestros de bebês e uma extorsão. Foi condenado à prisão perpétua, mas, cinco anos depois, foi indultado pelopresidente Carlos Menem(1989-99), sobre o qual também pairam rumores de um caso com Alfano na década de 90.
Graciela Alfano, pela rede de micro-bloggings Twitter, afirmou que nunca teve tipo algum de relação com “o senhor Massera” mais além de “um aperto de mãos” durante uma gala no Teatro Colón. Alfano também disse que sentia-se “caluniada”. A ex-sex symbol tentou defender-se das acusações afirmando que possui um “cunhado (Enrique Pecoraro) desaparecido da ditadura em1979”.
Sobre Pecoraro, a página que está em um site de d.humanos, aqui.
Capa do jornal Página 12 quando Massera pegou o ferry boat de Caronte no Aqueronte. Ou, quando abotoou o paletó de madeira. Ou ainda, quando foi bater alcatra na terra ingrata.
ESMA: IMOBILIÁRIA, MATERNIDADE E CLUBE DA PERVERSÃO
Dos 651 campos de concentração da Ditadura, a Escola de Mecânica da Armada (ESMA) tornou-se o mais emblemático. Dentro da cidadedeBuenos Aires,apoucos quarteirões do estádio Monumental de Núñez, foi o cenário das torturas mais cruéis do regime militar. De 5 mil pessoas que passaram por suas celas, somente umas 150 sobreviveram.A ESMA,segundo ojornalista e analista políticoEduardo Aliverti, era “um clube de perversão”.
Nesse lugar também funcionava uma maternidade clandestina, onde nasciam os bebês, filhos das prisioneiras políticas. As mães eram assassinadas após o parto, enquanto que as crianças eram entregues a famílias de militares sem filhos. Ao redor de 100 bebês nasceram na ESMA.
Enquanto que nos outros campos de concentração os militares recorriam a métodos “clássicos” como o fuzilamento, na ESMA os oficiais da Marinha, “eliminavam” os prisioneiros por meio dos “vôos da morte”. Esta era a denominação da modalidade de jogar os prisioneiros dos aviõesem plenovoô sobreo rio daPrata ou o Oceano Atlântico.
A Esma,alémde centrode detenção e torturas, também transformou-se em um armazém de bens confiscados dos prisioneiros. Durante os sete anos do regime militar, os oficiais da Esma enriqueceram com a venda de jóias, móveis antigos e obrasde arteroubadas das pessoas detidas. Além disso, Massera e seus cúmplices organizaram uma imobiliária, que vendia os apartamentos e casas dos prisioneiros.
“Viva Hitler”, “Nós somos deuses” eram algumas das frases que os oficiais haviam pintado nas paredes das salas de tortura, onde também violentavam as prisioneiras que minutos depois levavam – ainda em estado de choque e sangrando – para jantar em uma churrascaria de luxoem plenocentro portenho.
A jornalista Miriam Lewin, uma das sobreviventes da ESMA, relatou ao Estado o modus operandi dos militares: “eles tinham métodos muito refinados. Vários prisioneiros viram como torturavam seus bebês, na sua frente, ameaçando esmagar a cabeça das crianças”.
Espalhados em17 hectares, os diversos edifícios da ESNA que compõem o antigo centro de torturas possuem nomes que indicam o humor negro dos oficiais: “Avenida da Felicidade”, “Eldorado”, “O Capuz” e “O Pequeno Capuz” (estes dois últimos, em alusão aos capuzes que os militares colocavam sobre a cabeça dos prisioneiros, que freqüentemente ficavam semanas ou meses sem ver a luz do dia).
A Escola de Mecânica da Armada está a poucos quarteirões do estádio Monumental, do time River Plate.
Durante a Copa do Mundo de 1978, os prisioneiros podiam escutar desde suas celas as torcidas no estádio gritando “gol”. Nos dias de jogo os oficiais detinham as sessões de tortura para dedicar-se a ver pela TV os embates futebolísticos. Quando os jogos concluíam, dedicavam-se novamente a aplicar choques elétricos ou arrancar as unhas dos prisioneiros.
E nada a ver com a postagem acima, uma canção interpretada sobre sexo e nacionalidades pela ácida e genial Eartha Kitt. Aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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E, de bonus track, veja o Facebook – que acabou de debutar - da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui.
Massera, sorridente, ao lado da presidente Isabelita Perón. Era um dos militares preferidos da presidente. Mas, Massera, junto com o general Jorge Rafael Videla e o brigadeiro Orlando Ramón Agosti, derrubaram Isabelita com um golpe militar em março de 1976.
“Serial killer com sorriso de Gardel”. Desta forma o escritor e jornalista Miguel Bonasso definia uma das figuras mais sinistras da última ditadura militar argentina (1976-83), o ex-almirante Emílio Massera, famoso pela sua crueldade, maquiavelismo e personalidade esquizofrênica. Quando em 1985 sentou no banco dos réus, o sorridente – e sempre bronzeado – militar foi acusado de 83 homicídios, 632 sequestros, 267 torturas, 102 roubos, 201 falsificações de documentos, 23 casos de pessoas reduzidas à escravidão, além de 11 sequestros de bebês e uma extorsão. Dono desse peculiar curriculum vitae, Massera morreu nesta segunda-feira no final da tarde em Buenos Aires de um AVC.
Massera – constantemente preocupado em ostentar impecáveis uniformes – foi o responsável pela criação do centro clandestino de torturas da Escola de Mecânica da Armada (ESMA), onde foram torturados 4.500 civis. Destes, apenas 150 sobreviveram.
Casanova (assassinou os maridos de algumas amantes) e vaidoso, tentava desesperadamente dissimular o tom citrino de sua pele (mal-vista pela elistista e europeizada Marinha). Para isso, bronzeava-se constantemente. Desta forma, quem o visse, pensaria que era um homem branco intensamente bronzeado. Para destacar mais ainda que estava “bronzeado” – e que não era um “morocho” (palavra usada para “moreno”, ocasionalmente usada em tom despectivo), vestia uniformes brancos (mesmo no inverno).
Massera ao lado do general Videla. A dupla (Agosti aparecia menos) assiste uma parada militar.
AMBIÇÕES PRESIDENCIAIS - Logo após o golpe militar de 1976, Massera conseguiu que a presidente derrubada, Maria Estela “Isabelita” de Perón, ficasse prisioneira em instalações da Marinha. Ele esperava arrancar de Isabelita um respaldo político para suas ambições presidenciais.
O almirante nunca escondeu que queria ser presidente. Para isso, contava com o respaldo da loggia maçônica P2, comandada desde a Itália por Licio Gelli, envolvido também no escândalo do banco Ambrosiano, vinculado ao Vaticano.
Ambicioso de protagonismo internacional, Massera, apoiado pelos EUA, pressionou pela criação de uma “OTAN do Atlântico Sul”, que seria composta pela Argentina, Uruguai, Brasil e a África do Sul. O projeto só naufragou porque o governo brasileiro não apoiava o regime do apartheid sul-africano.
No fim da Ditadura, insistiu com seu sonho de ocupar o comando na Casa Rosada. De olho na transição democrática, tentou organizar-se politicamente com o Partido Democrata Social para lançar sua candidatura, e até publicou um jornal para respaldar suas ambições.
Os historiadores indicam que ele queria ser uma espécie de “sucessor de Perón” e mobilizar as massas, algo que nenhum almirante jamais havia conseguido na Argentina (a Marinha era considerada a arma aristocrática).
Massera considerava que seria possível armar um governo com eleições limitadas – eleição de prefeitos, senadores e deputados – tal como era o governo do presidente e general Ernesto Geisel e de seu sucessor João Batista Figueiredo no Brasil.
Para isso, tentou qualquer tipo de aliança, por mais bizarra que fosse: além de tentar convencer setores do partido Socialista a respaldar seu partido, também tentou seduzir os ex-integrantes da guerrilha Montoneros. No entanto, fracassou de forma retumbante.
Fora do poder, nunca perdeu a chance de mostrar sua capacidade de chocar: em uma ocasião, conversando com uma jornalista em sua casa, Massera mostrou-lhe a lista de desaparecidos políticos em seu computador. Semanas depois, quando a polícia vasculhou seu aparelho, nada foi encontrado.
TRIBUNAIS - Com a volta da democracia, em 1983, os líderes militares foram levados ao banco dos réus, uma medida inédita na América Latina sobre crimes cometidos durante uma ditadura.
Em 1985, durante o julgamento das juntas militares, foi condenado à prisão perpétua. Mas, em vez de passar o resto da vida na cadeia, o ex-almirante permaneceu apenas cinco anos preso. Ele obteve a liberdade ao ser anistiado pelo presidente Carlos Menem em 1990.
No entanto, foi detido novamente em 1998, quando as organizações de defesa dos Direitos Humanos driblaram o indulto presidencial com a abertura de processos pelo sequestro de crianças que haviam nascido no cativeiro das mães prisioneiras na ESMA. Massera, por seu lado, driblou os parentes das vítimas da ditadura ao conseguir o privilégio da prisão domiciliária graças à habilidade de seu advogado, Pedro Bianchi, que também foi advogado do criminoso de guerra nazista Erich Priebke.
Com frequencia ele esquivava o esquema de vigilância e passeava pelas ruas ou ia pegar um bronzeado.
Essa vida de passeios furtivos e muitos banhos de sol começou a acabar no no ano 2000, quando foi internado por graves problemas de saúde.
Em 2002 sofreu um ACV que o deixou em estado semi-vegetal até esta segunda-feira à tarde, quando teve um novo derrame cerebral.
Segundo me disse ontem à noite um capitão de navio crítico com Massera, o ex-almirante “partiu a tempo de tomar o chá das cinco com Adolf Hitler, Stálin e Francisco Franco”.
Os organismos de defesa dos Direitos Humanos não celebraram a morte de Massera, já que o ex-militar levou consigo os segredos do paradeiro de milhares de desaparecidos e da identidade dos bebês sequestrados.
FATOS, NÚMEROS E EXPRESSÕES RELATIVAS AO MODUS OPERANDI DE MASSERA
ESMA (Escola de Mecânica da Armada): O feudo de Massera, onde tinha o poder de decisão sobre a vida e morte dos prisioneiros. Localizada na esquina da Avenida Libertador e a rua Santiago Calzadilla, foi durante cinco décadas a sede do liceu naval, a escola de guerra naval e o departamento de educação naval, entre outros organismos de ensino da Marinha. Mas em 1976 transformou-se no maior centro de torturas da ditadura. Paradoxalmente, estava em pleno bairro residencial de Núñez, sobre uma das mais movimentadas avenidas do país (e a dez quarteirões do estádio do River Plate). Atualmente é o “Espaço para a Memória e Estímulo e Defesa dos Direitos Humanos”.
SEQUESTROS: Do total de sequestros realizados pelos oficiais e suboficiais da Marinha que operavam na ESMA,
- 66% ocorriam durante a noite, para que outros civis não vissem o que ocorria
- 70% dos sequestros eram realizados nas residências das vítimas, já que a maioria não estava em estado de clandestinidade.
PRISIONEIROS - Os prisioneiros da ESMA eram militantes de esquerda, peronistas e integrantes de outros partidos, pessoas sem interesse algum em política, velhos, adolescentes, vizinhos e parentes dos supostos “subversivos”, paraplégicos, rabinos, padres católicos, freiras, garotas bonitas que ao passar na rua despertavam os instintos dos oficiais, universitários e operários.
Grande parte dos prisioneiros, seminus mesmo no inverno, ficavam encapuzados até seis meses ininterruptos, acumulando piolhos e infecções. Ninguém podia conversar, sob o risco de ser espancado. Esta era uma forma dos carcereiros eliminarem qualquer noção de tempo e espaço dos detidos.
BEBÊS: De 500 crianças que teriam sido sequestradas pela ditadura, umas 200 teriam nascido na ESMA. A maioria das crianças foi entregue a famílias de militares estéreis e colaboradores civis.
MÃES DOS BEBÊS: Todas as mulheres que deram à luz ali dentro foram assassinadas. Massera era conhecido por seus toques de humor negro: no natal de 1977, passou pela sala onde diversas mulheres eram torturadas, desejando “feliz Natal”.
T: Letra colocada antes dos nomes dos prisioneiros, que indicava que a pessoa seria “transferida”, isto é, morta.
L: Letra colocada antes dos nomes dos prisioneiros que ficariam livres, já que eram “perdoados” por Massera e seus assessores.
AQUÁRIO: Lugar onde – como escravos – trabalhavam os prisioneiros da ESMA para a falsificação de documentos, preparação de resumos de imprensa e traduções, entre outros serviços. Eram a mão de obra gratuita de Massera.
AVENIDA DE LA FELICIDAD: O corredor que ligava as celas à sala de torturas da ESMA era chamado de “Avenida da Felicidade” pelos militares que ali operavam.
TABIQUE, TABICAR: Capuz, colocar um capuz no prisioneiro. Com frequencia os prisioneiros passavam semanas ou meses com capuzes.
PICANA ELÉTRICA: Criada nos anos 30 na Argentina por Leopoldo Lugones Hijo, filho do escritor Leopoldo Lugones. Era o instrumento para assustar o gado com choques elétricos. Aplicado a seres humanos, tornou-se o instrumento preferido de tortura na Argentina. Coincidentemente, a filha do criador da picana elétrica, a intelectual Piri Lugones, foi torturada com esse instrumento e assassinada pelos militares.
SUBMARINO: Não se referia às belonaves submersas da Marinha, mas sim à modalidade de colocar a cabeça do prisioneiro dentro de um balde d’água ou de urina com fezes. O procedimento consistia em deixar o prisioneiro à beira da asfixia e assim forçá-lo a confessar qualquer coisa.
QUADROS – O Führer Adolf Hitler estava presente na ESMA por meio de fotos penduradas nas paredes da sala de torturas, onde estava pintada em letras garrafais a frase “Viva Hitler”.
MANDAR LÁ PRA CIMA: Matar.
VOOS DA MORTE: Modalidade para eliminar ao máximo possível vestígios de prisioneiros. Eles eram levados a aviões que sobrevoavam o rio da Prata ou o mar. Durante o voo, os prisioneiros eram jogados ainda vivos nas águas. As estimativas indicam que nesta modalidade morreram de 1.200 a 1.500 pessoas. O dia dos voos da morte eram todas as quartas-feiras.
MORTOS (VÍTIMAS DA GUERRILHAS)
- Segundo um relatório das próprias forças armadas argentinas a guerrilha e grupos terroristas de esquerda e cristãos nacionalistas teriam assassinado 900 pessoas (diversos historiadores afirmaram ao longo dos anos que esse número está ligeiramente inflacionado, já que diversos dos mortos da lista militar teriam sido assassinados pelos próprios militares, na miríade de brigas internas, e, convenientemente, teriam colocado a culpa nos terroristas) entre 1974 e 1983.
- Segundo o coronel Eusebio González Breard, ativa figura nas atividades de repressão nos anos 70, o número de militares mortos em confrontos com guerrilheiros entre 1976 e 1983 foi de 515 pessoas.
MORTOS (VÍTIMAS DA DITADURA)
- Segundo os dados de organizações de defesa dos Direitos Humanos e a Anistia Internacional, entre outros, a ditadura assassinou um total de 30 mil civis, entre os quais crianças, adolescentes e idosos.
- Segundo o próprio ex-ditador e general Reynaldo Bignone o número de desaparecidos é de 8 mil. Essa declaração foi realizada em abril passado, quando ele falou durante seu julgamento no município de San Martín, na Grande Buenos Aires. Ele havia indicado um número similar durante uma entrevista com uma jornalista da TV francesa na virada do século. Nunca antes um ex-integrante da ditadura havia revelado um número (eles costumavam negar a existência de centros de torturas e dos assassinatos).
“Falam nesse tal número de 30 mil desaparecidos…mas nunca demonstraram que foram mais de 8 mil”, disse Bignone, antes de ouvir a sentença.
- Segundo Emilio Mignone, ex-presidente do Centro de Estudos Legais e Sociais, do total de desaparecidos, somente entre 5% e 10% eram guerrilheiros. Os restantes 90% ou 95% dos desaparecidos eram civis sem participação em atividades armadas.
ESTUPROS – Massera contava com o almirante Rubén Chamorro como “gerente” da Esma. Chamorro era descrito como “baixinho e feio…um homem insignificante”. Seus colegas afirmavam que tinha “extrema habilidade para colocar no ponto mais alto do crânio o quepe, que por sua vez era esticado na parte superior. Com isso e mais uma grossa sola extra nas botas, aumentava a altura em cinco centímetros”.
Chamorro era conhecido por estimular seus homens a violar as prisioneiras, grande parte delas garotas universitárias, de famílias de classe média, com alto nível cultural, muitas das quais eram filhas de imigrantes europeus, que haviam escolhido a Argentina para fugir dos horrores da Segunda Guerra Mundial. As loiras eram as preferidas dos oficiais da Esma.
Teresa, uma das prisioneiras que morreu na Esma, e cujo sobrenome é desconhecido, era violada cada vez que ia ao banheiro. “Se ela ia uma vez, a estupravam nessa ocasião. Mas, se, horas depois, ia de novo ao banheiro, era novamente violada. Todas as vezes que ia ao banheiro, era impreterivelmente estuprada. Todas”, relata Enrique Fuckman, ex-detido das masmorras da Esma.
SAQUES À PROPRIEDADE PRIVADA - Comandos militares e policiais se encarregavam de saquear as propriedades dos desaparecidos durante a ditadura. Desta forma, jóias, dinheiro, quadros, lustres, geladeiras e automóveis eram retiradas das casas pelos militares me caminhões das forças armadas, como se fosse uma mudança. A proporção do saque era tão grande que foram montados galpões especiais para armazenar os bens. A Marinha tinha na ESMA um salão especial para acumular os bens roubados. Além disso, Massera e seus assessores montaram uma imobiliária que vendeu as casas e apartamentos dos desaparecidos. Diversas fábricas e fazendas também foram apropriadas, muitas vezes, com documentos legais: os sequestrados eram obrigados através de torturas a assinar os certificados de transferência de propriedade.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Solidariedade no vestiário, cuecas e ditadura. Polêmica sobre vitória argentina contra Peru continua gerando polêmica 32 anos depois. General Videla, na foto acima, considerava que vitória na Copa era crucial para imagem de seu regime.
“Irmãos latino-americanos!”. A voz metálica do general Jorge Rafael Videla, ditador argentino, ressoou dentro do vestiário da seleção peruana no estádio “El Gigante de Arroyito” em Rosario. Era o dia 21 de junho de 1978, há exatamente 32 anos. Os jogadores estavam vestindo-se para entrar no campo em dez minutos contra a seleção da Argentina. Alguns dos peruanos estavam de cuecas. “Não sabia se terminava de me vestir, o que poderia ser interpretado como falta de educação, ou parava o que estava fazendo e se o cumprimentava seminu”, relatou um dos jogadores ao colunista esportivo Ricardo Gotta, autor de “Fomos Campeões”, livro que analisa a polêmica Copa realizada na Argentina.
Na sequência, Videla, explicou Gotta ao Estado, “que era um especialista em toda demonstração mais ou menos explícita de intimidação”, discursou sobre a intensa “solidariedade” entre peruanos e argentinos.
Além da visita do homem mais poderoso da Argentina, que comandava uma sanguinária ditadura iniciada em 1976, que havia assassinado milhares de civis e espalhado centros de tortura clandestinos por todo o país, também estava no vestiário, em silêncio, o ex-Secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, habitué das copas do mundo.
O recado estava dado. Segundo Gotta, vários jogadores sabiam que os militares argentinos poderiam assassiná-los depois do jogo, caso o Peru vencesse, e que colocariam a culpa do “atentado” em algum grupo guerrilheiro (a modalidade de colocar a culpa em algum grupo guerrilheiro era costumeira por parte da ditadura, quando era necessário eliminar alguém. Inclusive, era modalidade à qual se recorria para explicar a ocasional morte de um integrante incômodo do próprio regime militar). Diversos jogadores peruanos saíram ao campo tremendo de medo.

Poderoso e fanático pelo futebol: Henry Kissinger, mestre da diplomacia americana, foi com Videla ao vestiário dos jogadores peruanos (acima, Kissinger do outro lado do planeta, com Mao Tsé-Tung). Neste link do Youtube, trecho de uma entrevista com Oblitas e quando Videla, junto com Kissinger, entra no estádio, aqui.
Para a seleção argentina o jogo era crucial, pois precisava pelo menos emplacar quatro gols no arco opositor para conseguir a classificação para a final da Copa. Para o Peru, que já estava desclassificado, o jogo era uma despedida. Quando o juiz apitou o término do jogo, os argentinos tinham, além de realizado os gols necessários, também cometido outros dois adicionais.
O placar 6 a 0 gerou suspeitas mundiais. Gotta sustenta que “a Ditadura precisava chegar à final. E ganhar. Senão, teria sido um fracasso não somente esportivo, mas também político. O regime precisava a imagem de um país vencedor”.
Gotta duvida que o goleiro da seleção peruana, Ramón Quiroga (argentino de nascimento mas naturalizado peruano), fosse o responsável pela derrota. “Ele defendeu muitíssimos ataques argentinos. Ao redor de 13 a 15 jogadas que poderiam ter sido gol, mas não foram graças à sua habilidade. Mas, a presença dos argentinos perto do arco era constante”, diz. “Por isso, poderia suspeitar-se mais da atitude dos defensores peruanos (Jaime Duarte, Rodolfo Manso, Roberto Rojas e Héctor Chumpitaz), que cometeram muitos erros”, explica.
‘NÃO FOI NORMAL… FOI ESQUISITO’ - Carlos Del Frave, pesquisador esportivo da cidade de Rosario, ressalta um depoimento do jogador peruano Juan Carlos Oblitas, que indicou que “aquele jogo não foi normal…foi esquisito”.
Oblitas também destacou que a presença de Videla no vestuário “foi terrível…eu estava atrás de uma parede e ali fiquei. Não queria que isso interrompesse minha concentração”.
Ramón Quiroga, apesar dos gols, manteve boa imagem entre os peruanos, e nos anos posteriores tornou-se técnico de vários times. Em 2006 negou que ele ou seus pais (que residiam em Rosario na época do jogo, a poucos quarteirões do estádio) haviam sido ameaçados pela Ditadura. Os outros jogadores peruanos não exibiram sinais de riqueza nos anos seguintes à Copa. Um deles, Manso, empobrecido, emigrou para a Itália, onde trabalhou como caminhoneiro.
Pablo Llonto, autor do livro “A vergonha de todos”, não acredita em “jogo arranjado”: “investiguei todos os rumores sobre o jogo com o Peru. Ninguém tem provas. Mas, de todas formas será o mais longo de toda a História mundial. Nunca antes houve um jogo tão comentado como este, três décadas depois de ocorrido. Além disso, os rumores crescem com o tempo. Acho que foi um jogo que a seleção argentina venceu justamente”.
TEORIAS A GRANEL
Se na política as teorias costumam ser abundantes, no futebol, elas superam qualquer limite de combinações. E, quando a política junta-se ao futebol, então temos uma miríade colossal de teorias, das mais realistas às mais mirabolantes.
Aqui reunimos um punhado, algumas das especulações que tornaram-se ao longo dos últimos anos os hits parade das teorias sobre o polêmico jogo Peru versus Argentina:
Teoria número 1 - Videla subornou o próprio governo peruano, comandado pelo general Francisco Morales Bermúdez, com um substancial carregamento de trigo argentino
Teoria número 2 – A Ditadura utilizou um narcotraficante colombiano, Fernando Rodríguez Mondragón como intermediário para realizar um milionário suborno à Federação Peruana de Futebol
Teoria número 3 - A Ditadura pagou US$ 50 mil a todos os jogadores peruanos
Teoria número 4 - A Ditadura pagou US$ 50 mil somente a alguns jogadores peruanos
Teoria número 5 - Os jogadores peruanos foram ameaçados de morte pela Ditadura
Teoria número 6 - Um defensor crucial, Manso, recebeu a proposta de jogar no Vélez Sarsfield, time portenho, em troca de amolecer a defesa
Teoria número 7 - Quiroga foi o único pressionado, pois sua família, que na época morava na Argentina, recebeu ameaças de morte da Ditadura argentina
Teoria número 8 - O futebol é “uma caixinha de surpresas, onde tudo pode acontecer”, isto é, a derrota peruana foi por causas puramente futebolísticas.

Videla celebra conquista da taça da FIFA, no estádio Monumental de Núñez
SELEÇÃO DE 1978 FOI A MELHOR, AFIRMA KEMPES
Mario “El Matador” Kempes foi a personalidade da Copa do Mundo de 1978. Goleador do evento, o sóbrio jogador foi considerado pelos especialistas como o responsável, no gramado, da vitória argentina. Desde Connecticut, EUA, onde trabalha como comentarista esportivo há quatro anos, Kempes falou por telefone com o Estado sobre os 30 anos da Copa realizada na Argentina (esta foi a entrevista que o ex-jogador me concedeu, publicada no Estadão em junho de 2008)
Estado – Como a seleção argentina de 1978 pode ser comparada com as posteriores de seu país?
Kempes – Foi a melhor. A seleção de 1986 foi muito boa, mas a de 1978 era melhor. Na minha, não havia “figuras”. Já em 1986 estava o Diego (Maradona).
Estado – Desde essa copa no México, a Argentina não emplacou mais nenhuma conquista do troféu. Quais poderiam ser os motivos?
Kempes – Por um lado, um motivo é que a concorrência esteve muito forte em todo este tempo. Por outro, poder ser que os técnicos argentinos se acostumaram a chamar todos os jogadores que estão no exterior. Mas, não querendo desmerecer os rapazes, dessa forma não dá para trabalhar direito. É mais fácil quando o técnico pode ver seus jogadores uma vez ou duas por semana. Em 1978, todos os jogadores estavam na Argentina. Menos eu, que vinha de fora. Isso possibilitou um trabalho sério do (técnico Cesar Luis) Menotti.
Estado – Como estavam os adversários da Argentina em 1978?
Kempes – Todos os jogos foram complicados. O primeiro com Hungria, foi suado, talvez por nossa falta de experiência. Outra grande seleção que enfrentamos, que custou muito esforço foi a França, com Platini na cabeça. A Itália, que nos venceu em Rosario. Os italianos são espetaculares, com seu poder ofensivo. E, a seleção brasileira, que, seja lá quais forem seus jogadores, sempre impressionam. Mesmo na Copa de 1994, nos EUA, que era uma seleção ruim, o Brasil foi campeão. Os brasileiros, sempre, de algum modo, vão para a frente!
Estado – O jogo da Argentina com o Peru sempre foi visto como algo imensamente suspeito. Acha que houve suborno ou pressões aos peruanos?
Kempes – Foi um jogo normal. A seleção argentina havia ido ao Peru três meses antes da Copa e havia emplacado, se a memória não me falha, uns 3 gols a 0. Por isso, em 1978, a Argentina, precisando 4 gols, foi ao ataque. A partir do primeiro gol tudo se normalizou. No segundo, começamos a acreditar que dava para chegar à final. Para nós, tudo era esporte. Se houve algo por fora do futebol, eu não sei. Lhe digo isto com a mão no coração: nós, no campo fomos superiores ao Peru. Não dá para acusar nem o Oblitas, o Quiroga ou qualquer outro jogador peruano de qualquer coisa estranha. E muito menos o Quiroga (o goleiro), cujo arco metralhamos constantemente…
Estado – Na comemoração dos 30 anos, é inevitável relacionar a Copa com a Ditadura…
Kempes - Nunca será possível separar isso da Copa. Será uma mancha negra que teremos sobre as costas toda a vida. Nós fomos jogar futebol. Naquela época, somente as famílias dos desaparecidos, que sofreram horrores, é que sabiam o que estava ocorrendo. A imensa maioria dos argentinos não sabíamos de nada. Quando fomos jogar na Copa, fomos pelo futebol. Não fomos jogar para o (general) Videla e sua cambada que estava no poder. Dentro de tudo isso, espero ter possibilitado minutos de felicidade – quem sabe – para essas pessoas que estavam sofrendo. Na época, não imaginávamos que posteriormente envolveriam os jogadores nessa questão política.
Estado – Qual foi seu gol preferido, em toda sua carreira?
Kempes – Ahhhh…(diz, como um suspiro de nostalgia)! Foi em 1978, contra a Polônia, de cabeça. O primeiro gol!


Logotipo oficial da Copa de 1978 e cartaz francês que pedia o boicote à Copa de 1978 na Argentina
COPA DE 1978 FOI O APOGEU DA DITADURA
1978 foi um ano exuberante para a Ditadura Militar que governava a Argentina há dois anos. O país, em plena ciranda financeira, com dezenas de milhares de turistas argentinos dizendo “deme dos” (me dê dois) nas lojas no exterior, ufanava-se de contar com uma miss mundo, Silvana Suárez, eleita naquele ano; alardeavam o desempenho brilhante do tenista Guillermo Villas nas quadras – e como latin lover (pelo romance com Caroline de Mônaco) – enquanto Carlos Reutemann exibia uma performance de alto nível nas pistas da Fórmula Um.
Como se fosse pouco, a Argentina fazia pose de potência militar regional ao começar a desafiar o Chile à uma guerra pela disputa do Canal de Beagle. No mesmo ano, o país hospedava a Copa do Mundo de futebol. E, de quebra, em 25 dias de torneio, arrebatava a taça FIFA, para delírio de 25 milhões de argentinos.
Mas, ao mesmo tempo, o país acumulava mais de 20 mil desaparecidos políticos (seriam 30 mil até o final da Ditadura), entre eles velhos e crianças. Mais de 500 centros de detenção e tortura espalhavam-se todo o país. As notícias sobre a inflação, o estancamento industrial, a fragilidade do sistema financeiro, e os mega-escândalos de corrupção eram censuradas pelo regime.
As críticas à seleção estavam proibidas. Expressar um mero “porém” à seleção implicava em desaparecimento assegurado. O país, tal como ocorreria anos depois durante a Guerra das Malvinas (1982), estava ofuscado pelos triunfos.
Mas, com a volta da democracia, os argentinos começam a encarar a Copa de 1978 com visão crítica. Há dois anos, quando completaram-se os 30 anos daquele evento esportivo, organizações de defesa dos Direitos Humanos, políticos, intelectuais e jogadores de futebol realizaram diversas homenagens aos mortos da Ditadura ocorridas durante a Copa. Uma das cerimônias foi realizada no mesmo estádio onde ocorreu a final. Diversos livros sobre a sinistra Copa de 1978 foram lançados nos últimos anos.
‘PATRIOTISMO ESPORTIVO’ - “A Copa de 1978 é o primeiro símbolo de aprovação em massa da Ditadura. O general Jorge Rafael Videla, ditador na época, foi aplaudido pela multidão em estádios repletos. O gasto desvairado na organização da Copa não foi questionado. As denúncias dos exilados e parentes dos desaparecidos foram encaradas como expressões de antipatriotismo”, explicou na ocasião ao Estado o jornalista Pablo Llonto, autor do livro “A vergonha de todos”, onde disseca o fervor popular pelo evento no meio de um regime de terror.
Com a conquista da Copa do Mundo, o general Videla estava em seu ponto de máximo poder. No dia seguinte à final, uma multidão o ovacionou na Praça de Mayo, homenagem praticamente reservada até então aos presidentes civis.
Em 2002, durante uma entrevista, o último ditador do regime, o general Reynaldo Bignone (1982-83), declarou amargurado que a Ditadura havia cometido um grave erro naquela ocasião, momento em que a população estava descontroladamente eufórica: “se tivéssemos convocado eleições naquela hora, teríamos vencido. E ainda hoje estaríamos sendo aplaudidos”.
Grupos de esquerda, exilados e setores da população que sofriam a Ditadura estavam divididos sobre torcer a favor ou contra a seleção. Nas intensas discussões, uns setores alegavam que a vitória da seleção favoreceria a Ditadura. Outros, não pretendiam desprender-se do “patriotismo esportivo” e tentavam argumentar que “política e esportes não estão misturados”.
As famílias de desaparecidos também estavam divididas. Avós da Praça de Mayo, relatavam que enquanto estavam na cozinha chorando o desaparecimento de seus filhos e netos, os maridos, na sala, gritavam os gols.

ESMA, principal centro de torturas na cidade de Buenos Aires, a poucos quarteirões do estádio do River Plate, onde foi a final da Copa de 1978. ESMA, marcada com a letra A, Estádio Monumental de Núñez, com a letra B.
HURRAS E TORTURA – Há 32 anos, Graciela Daleo, atualmente catedrática de Direitos Humanos da Universidade de Buenos Aires, era uma ”desaparecida” da Ditadura, detida e torturada na Escola de Mecânica da Armada (ESMA). Desde sua cela - segundo me contou há dois anos, durante uma entrevista em sua casa - escutava os “hurras” da torcida argentina, a dez quarteirões dali, no estádio Monumental de Núñez, onde transcorria a final da Copa (o embate da seleção argentina contra a holandesa). Nas arquibancadas do estádio, poucos imaginariam que a mil metros dali funcionava o mais tenebroso centro de tortura do regime. Na ESMA estiveram presas 5 mil pessoas. Somente 140 sobreviveram.
“Quando ouvi gritos da torcida pela janela, pensei: se eles ganharam, nós perdemos”. Logo depois, um dos mais famosos torturadores, o capitão “Tigre” Acosta entrou na sala dos torturados, exultante: “ganhamos, ganhamos!”.
Sem explicações prévias, Daleo e outra prisioneira foram levadas por guardas para fora da cela e colocadas dentro de um carro onde estavam alguns oficiais. O automóvel saiu pelas ruas onde a multidão celebrava a vitória na Copa.
Daleo não podia acreditar: “Milhares de pessoas saíam de suas casas dançando e gritando de alegria. Sempre havia sonhado com essas multidões, mas celebrando uma revolução social, não uma vitória na Copa!”.
Olhando pela janela aberta do carro, Daleo chorou: “se gritasse que era uma desaparecida, quem daria bola?”
Depois do tour, os torturadores levaram a estupefata Daleo para insólito e bizarro jantar em uma churrascaria abarrotada de pessoas cantando jingles da Copa. Daleo sabia que dali voltaria à prisão e às sessões de tortura.
De volta à ESMA, foi colocada na cela. Nas ruas, os portenhos festejaram a vitória futebolística até o raiar do sol. “Desde aquele momento, não quero saber nada, absolutamente nada sobre as Copas!”, diz Daleo.
DE US$ 70 MILHÕES PARA US$ 700 MILHÕES - “Custará somente US$ 70 milhões”, havia prometido o almirante Emilio Massera ao general Videla sobre os gastos da Copa. Mas, o custo final foi de US$ 700 milhões. Os gastos foram criticados como “excessivos” pelo Secretário da Fazenda, Juan Alemann, um economista conservador de renome.
Como represália por suas declarações, segundos depois que a seleção argentina fez o quarto gol contra o Peru (um jogo que definiria a ida do país à final da Copa), uma bomba explodiu na frente da casa de Alemann.
A violência entre integrantes do próprio regime militar por divergências sobre a organização da Copa e a disputa dos fundos foi costumeira. O general Omar Actis, que presidia a entidade que organizaria a Copa, desejava um evento austero. O almirante Carlos Lacoste, vice-presidente da entidade, defendia uma Copa exuberante, com mais estádios e um canal de TV para transmitir a cores novo em folha.
As diferenças foram dissolvidas com o assassinato de Actis, cuja morte foi atribuída a grupos guerrilheiros (que na realidade já haviam sido dizimados). Seu substituto, o general Antonio Merlo, não se opôs ao aumento sideral de gastos desejado por Lacoste. O almirante, posteriormente, foi assessor de finanças da FIFA e seu vice-presidente.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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