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Ariel Palacios

Uma nota de dois patacones, mais ou menos equivalente à nota de 2 pesos. Na época eram símbolo da crise argentina. Atualmente são objeto de colecionadores numismáticos.

Durante quase três anos – de 2001 a 2003, no meio da pior crise financeira, social e econômica da Argentina – o país teve 14 “moedas paralelas”, ou “pseudo-moedas”, além do próprio peso, a moeda nacional (e, de quebra, o dólar, cujo intenso uso transformou a Argentina no país com maior número de dólares nas mãos da população depois dos EUA e a Rússia). Emitidas pelos governos provinciais, eram usadas como se fossem dinheiro normal. Elas foram a alternativa encontrada pelas províncias para poder escapar da falência total em que estavam mergulhadas.

As “moedas paralelas” são personagens antigas no cenário argentino. Nos anos 80, Carlos Menem, na época governador da província de La Rioja, emitiu bônus com a efígie do cruel caudilho Facundo Quiroga, a quem admirava.

No entanto, este tipo de emissões monetárias provinciais somente adquiriram proporções fora do costumeiro quando, a meados de 2001 – no meio da falência generalizada – mais da metade das províncias começaram a imprimir suas próprias moedas. Geralmente, não contavam com respaldo financeiro algum.

Na época, além dos pesos oficiais, até o governo federal teve que emitir uma moeda paralela própria, o denominado “Lecop”, com o qual pagava os funcionários públicos federais, os fornecedores do Estado, além de realizar envios de fundos às províncias.

Rápidamente, as “moedas paralelas” tornaram-se em mais de um terço do total de circulante monetário na Argentina. Várias delas eram aceitas em todo o território argentino, principalmente o “patacón” (da província de Buenos Aires) e o “lecor” (de Córdoba).

O Fundo Monetário Internacional (FMI) foi um feroz crítico das “pseudo-moedas”, alegando que as províncias estavam esquivando a realização dos ajustes fiscais que o organismo financeiro exigia. No final de 2001, quando colapsava o governo do então presidente Fernando De la Rúa (1999-2001) elas constituíam 15,8% do circulante monetário na Argentina. Ao longo do ano 2002, apesar das pressões do FMI, estas emissões continuaram se espalhando. A meados desse ano, representavam 38% do circulante. Em 2003, elas equivaliam 31% do total.

Muitas delas, emitidas por governos sem credibilidade, valiam até 50% menos do que sua denominação numérica. Os “patacones”, graças ao peso que a província de Buenos Aires possuía na economia nacional, conseguiram manter uma paridade de um a um com o peso (e durante um tempo, até superou a moeda nacional).

As emissões dos bonaerenses “Patacones” chegaram a um valor equivalente a US$ 900 milhões.

Córdoba emitiu os “Lecor” em dezembro de 2001. A moeda circulou até 2003, quando foi resgatada pelo governo provincial. Ao longo de dois anos, circularam Lecors com valor equivalente a US$ 300 milhões.

No entanto, os “Cecacor”, da empobrecida província de Corrientes, não chegavam à metade de seu valor numérico. Um funcionário público provincial que ganhasse 1.000 “cecacors” mensais, na verdade tinha nas mãos nada mais do que pouco mais de 450 pesos. Na pior fase da crise, os cecacors somente valiam na prática ao redor de 33% de seu valor numérico.

Moeda paralela emitida pelo próprio Estado argentino.

A própria União, falida, teve que emitir os Lecops. O total desta moeda paralela equivaleu a US$ 1,06 bilhão.

Em 2003, o governo do então presidente Eduardo Duhalde implementou o Programa de Unificação Monetária, que realizou o resgate das pseudo-moedas. Desta forma, o peso voltou a ser a única moeda em circulação no país.

Um exemplar de Cecacor, a moeda paralela da província (arruinadíssima) de Corrientes. Esta era uma das menos valorizadas moedas paralelas argentinas.

PARADOXOS – As “moedas paralelas” ou “pseudo-moedas” eram desprezadas ou olhadas como párias ou bastardas. Mas, uma destas moedas, os bônus “Patacones”, tornou-se logo após o corralito e o corralón na nova diva do circulante monetário argentino.

O motivo para esta mudança de status quo foi o congelamento dos depósitos bancários, que deixou fora do páreo cotidiano uma ampla circulação de pesos e dólares, as moedas fortes do país.

O fato é que na categoria de “pseudo-moedas”, os bônus não entraram dentro do confisco, já que somente podiam ser “custodiados”, e não “depositados” nos bancos. O resultado foi que na província de Buenos Aires a cotação do Patacón subiu para 1,10 peso. E diversos comércios anunciavam descontos para quem pagasse em patacones.

Estes bônus circularam com maior liberdade que os movimentos realizados através de cartões de crédito, cheques ou cartões eletrônicos de débito. Sua vantagem era que os patacones estavam isentos de impostos, algo que não ocorria com os cheques.

No entanto, os patacones estiveram sempre à beira do precipício. A segunda emissão de notas – a seria B – tinha qualidade menor de papel e de tinta, fato que desagradava os argentinos, já que parecia “menos dinheiro” do que já era. Uma terceira emissão de patacones esteve a ponto de ser lançada em meados de 2002. O governo bonaerense havia anunciado que, por falta de dinheiro, somente poderia imprimir um lado da nota. Mas, perante a reação negativa que gerou, o projeto foi arquivado.

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Comentários (2)| Comente!

 

Dez anos depois da crise: o ex-presidente De la Rúa acusa oposição de ter levado o país à crise de 2001-2002. Foto de Ariel Palacios.

Fernando De la Rúa (1999-2001) foi um dos mais breves presidentes civis da Argentina. Seu governo, da coalizão UCR-Frepaso, durou dois anos e 10 dias. Mas, ficou marcado na História como o presidente que levou a Argentina à pior crise social, econômica e política de seus quase 200 anos de vida independente. Na época foi acusado de “relapso” e “esclerosado”. O caricaturistas o retratavam vestido com um pijama.

No entanto, uma década depois do colapso argentino, De la Rúa, aos 74 anos, retruca, e afirma que sua queda foi provocada pelo partido Justicialista (Peronista), de oposição.

Em entrevista exclusiva ao Estado no modesto escritório de um amigo seu no centro portenho (onde havia uma foto dedicada de Juan Domingo Perón), De la Rúa acusou o ex-presidente Duhalde (2002-2003) de ter conspirado para derrubá-lo. Nessa confabulação, sustenta, o Fundo Monetário Internacional (FMI) teve um papel crucial. “Fui derrubado por uma conspiração peronista e do FMI”, diz.

Estado – Costuma dizer que o fim de seu governo foi o resultado de uma conspiração…

De la Rúa – Sim, claramente houve uma conspiração preparada por líderes do Partido Justicialista (Peronista). O então senador Eduardo Duhalde estava por trás disso. A conspiração foi preparada muitos meses antes. Em outubro de 2001 o Peronismo venceu as eleições parlamentares de outubro. Tentei contatos com os peronistas para tentar um governo de união nacional. Tive respostas favoráveis, inclusive de Duhalde. Propus um gabinete com integrantes do peronismo. Mas, eles concluíram que deveriam ter todo o poder. (O ex-presidente Raúl) Alfonsín me disse na época que havia tido uma reunião com Duhalde, e que este lhe havia dito que o mandato presidencial deveria ser concluído pela Aliança UCR-Frepaso. Mas, com o detalhe de que deveria ser outro o presidente, e não eu. Isto é, Duhalde já estava nessa atitude de Deus ex-machina. José Maria Aznar me disse um dia que Duhalde havia telefonado para ele em Madri, explicando que assumiria a presidência da Argentina e que por isso precisava de ajuda. Isso foi uns três meses antes do fim de meu governo. Aznar respondeu-lhe que na Argentina havia um presidente – isto é, eu – e que era meu amigo. Os peronistas, no dia 20 de dezembro, enviaram pessoas para realizar desordens. Essa foi uma jornada penosa, trágica, que a recordo com dor. Insisto que meu governo nunca deu ordens de matar os manifestantes.

Estado – Arrepende-se de alguma coisa de seus dois anos de governo? O corralito agravou a crise e levou milhões de argentinos à pobreza…

De la Rúa – Mais do que me arrepender, destaco as coisas que me doeram. Me doeu o corralito, pois já me doía a corrida bancária. Tentar lidar com o déficit zero foi doloroso, pois implicava em menos dinheiro para os funcionários públicos. Às vezes me pergunto…(sua voz treme) se por acaso poderíamos ter tentado o caminho de auto-financiar-nos internamente. Emitindo bônus, por exemplo. Mas isso seria uma medida muito perigosa, pois poderia ter acelerado a inflação e agravado a crise. Com certeza o FMI teria dito que não eram suas políticas, mas sim erros nossos. Mas foi o FMI, e sua presidente Anne Krueger, que quis nos afundar. Os objetivos do FMI e de Duhalde eram os mesmos.

Há dez anos, em plena crise: no fim da tarde do dia 20 de dezembro de 2001 De la Rúa saiu às pressas da Casa Rosada no helicóptero presidencial. O aparelho não podia pousar em cima do frágil terraço do palácio. Portanto, pairou sobre a área e De la Rúa foi erguido até a porta do helicóptero.

Estado – Na mesma época, outros países da região estavam com problemas. Um deles era o Uruguai, mergulhado na crise desde 1999, que só piorou com o contágio da crise argentina. Mas ali o presidente não teve que renunciar…

De la Rúa – É que nos outros países da região existia uma oposição responsável. No caso do Uruguai, o então líder da oposição, o socialista Tabaré Vázquez (eleito presidente em 2004) declarou respaldo ao presidente Jorge Batlle. E mesmo no Brasil, onde a situação de dívida era parecido à nossa, houve uma transição construtiva entre Fernando Henrique e Lula.

Estado – O Brasil, naquele período, conseguiu evitar uma grande crise…

De la Rúa – O Brasil teve uma vantagem adicional, pois o FMI – que perseguia a Argentina – temia o contágio da economia brasileira, e aí o Fundo forneceu créditos de contingência ao país vizinho, para prevenir qualquer perigo. Eu me queixo do fato do Brasil não ter nos alertado do propósito do Fundo Monetário de derrubar a Argentina. Mas, compreendo os brasileiros, pois sentiam a necessidade de salvar-se. E o resultado é que o Brasil evitou o calote da dívida e hoje em dia é o destino de enormes investimentos internacionais. Mas, a Argentina teve o calote, declarado por aqueles que vieram depois de mim. E deu no que deu. Ainda temos problemas de credibilidade, o país é um paria internacional.

Estado – Os governos do ex-presidente Nestor Kirchner e da presidente Cristina Kirchner mantiveram uma relação tensa com o FMI…

De la Rúa – Reconheço no presidente Kirchner uma boa atitude, de ter denunciado publicamente aquilo que o FMI fez com a Argentina. E além disso, Kirchner rompeu relações com o Fundo.

Estado – Concorda com o casal Kirchner somente nesse ponto ou possui mais convergências com ambos?

De la Rúa – Tenho uma imagem positiva deles. O problema são os abusos de concentração de poder. O confronto permanente. Os excessos. Além disso, a falta de medidas para adotar em épocas de crise econômica. Eles se acostumaram a ver “vento de popa” da economia internacional na maior parte do tempo. E agora deve vir um tempo de ajuste perigoso. Mas, a linha geral está bem, especialmente o fato de terem recuperado o poder da presidência da República.

Estado – Em breve começará seu julgamento sobre seu suposto envolvimento no denominado “Caso Banelco”, o escândalo de pagamento de subornos para a aprovação da lei trabalhista no ano 2000, que os sindicatos rejeitavam…

De la Rúa – Tenho pressa em mostrar que sou inocente. Este processo tem como base falsidades, baseadas em meros rumores. Querem envolver um presidente em algo que não é sério. É como a acusação de compra de votos que foi feita sobre Fernando Henrique Cardoso na votação para reformar a constituição que permitiu a reeleição. Naquele caso e no meu, não há nada sério.

Estado – Como acha que a História o recordará?

De la Rúa – É muito difícil saber. A verdade é que não acredito que lembrarão de mim. Foi um período muito ruim. Se servir para algo, será para extrair uma experiência de como tentar lidar com uma crise.

Estado – Em dezembro de 2001 teve que sair a Casa Rosada em um helicóptero. As pessoas na Praça de Mayo estavam furiosas com a política econômica. Sua imagem pública era a pior de um presidente desde a volta da democracia. Dez anos depois, como as pessoas o tratam na rua?

De la Rúa – Bem, me tratam bem, com respeito. De vez em quando alguma pessoa me gritava algo. Mas isso não acontece há tempo. Atualmente existe mais compreensão das coisas que aconteceram naquela época.

Estado – É verdade que foi vítima da crise, do ponto de vista das finanças pessoais? Foi pego pelo “corralón” feito pelo governo Duhalde?

De la Rúa (com voz grave) Sim, mas é uma coisa que não saio comentando.

Estado – Logo, a crise também o afetou…

De la Rúa (murmurando) Foi assim.

Estado – Antes me disse que o fim de seu governo “doeu” muito. Por acaso deprimiu-se ao sair do poder?

De la Rúa – Na vida aprendi que devemos ser sempre os mesmos tanto quando estamos em cima, em altas posições, como nos momentos em que a gente está lá embaixo. Mas me dói pensar que poderia ter conseguido outros objetivos. Se tivesse tido um pouco mais de tempo…só de pensar que quase um ano depois de minha renúncia o país começou a melhorar, até pela alta do preço da soja!

Estado – Por acaso precisou recorrer a algo muito frequente na Argentina, a psicanálise?

De la Rúa – Não, nunca precisei de análise. Tenho uma grande capacidade interior para refletir. Mas, quem sabe, talvez esteja errado e a psicanálise seria uma ajuda…

Ex-presidente é ocasionalmente relembrado pelos cartunistas argentinos. Nos últimos tempos, houve referências a De la Rúa por causa da crise europeia. Acima, charge de Rudy e de Daniel Paz sobre o ex-presidente e a conjuntura internacional atual.

DE LA RÚA PERDEU TODA INFLUÊNCIA POLÍTICA

Na noite do dia 20 de dezembro de 2001 Fernando De la Rúa dormiu na residência presidencial de Olivos. No dia seguinte passou pela Casa Rosada para buscar seus pertences, que havia esquecido na correria da partida no helicóptero desde o telhado do palácio presidencial. Apesar do conselho de vários amigos que diziam que deveria mudar-se para o exterior até que os ânimos da população se apaziguassem, De la Rúa optou por ficar no país, refugiando-se em sua chácara no município de Pilar.

Desprezado por seu partido, a União Cívica Radical (UCR), abandonado por seus antigos ministros, De la Rúa dedicou-se à jardinagem e à família, enquanto permaneceu afastado da política ao longo da última década. Sua influência política nestes dez anos foi nula. O ex-presidente até evita comparecer às pacatas reuniões da UCR. “Abandonei a política”, disse ao Estado. Analistas políticos sustentam, sem sutilezas: “De la Rúa não existe mais”.

Em 2006 – meia década depois da crise – tornou-se novamente notícia quando lançou o livro “Operação Política”, no qual denunciava as supostas manobras da oposição realizadas contra ele. A obra, fracasso de crítica e de público, rapidamente encalhou nas livrarias.

Ocasionalmente De la Rúa participa de algum evento diplomático, tal como no coquetel do 7 de setembro de 2010 na embaixada do Brasil em Buenos Aires. No entanto, na ocasião, passou boa parte do tempo sozinho. Nesse mesmo evento os convivas preferiram acotovelar-se ao redor do octogenário ex-presidente Carlos Menem (1989-99).

PECULIARIDADES: No dia da entrevista fui até a rua de trás do edifício da Corte Suprema. Fiz um pouco de hora, pois havia chegado uns 20 minutos antes. Tomei um café no bar da esquina e sucumbi perante um muffin de chocolate.

Terminei e fui até o prédio. Chamei pelo interfone. Ouvi a voz de De la Rúa, dizendo “suba”.

“Ele próprio atendeu?” pensei, achando estranho isso. Nos dias prévios alguns colegas argentinos me haviam dito que De la Rúa estava sem secretário (e pelo visto, quase sem ninguém, de forma geral…ao sair da entrevista, 40 minutos depois, passei por um quiosco na esquina para comprar uma água mineral. O “quiosquero” conversava com um zelador da área. Aí, perguntei se viam De la Rúa com freqüência entrando e saindo dali. Os dois me responderam com ácido humor portenho: “De la Rúa? Está más solo que Adán en el dia de la Madre!”

Voltando ao encontro:

Lá em cima, a porta do escritório foi aberta por um secretário (ou equivalente) com um fortíssimo sotaque de La Rioja. Parecia uma paródia do ex-presidente Menem. Mas não era. Tratava-se de um riojano “leggggggítimo” (recordando o bordão de Jô Soares).

O secretário (ou equivalente) – que parecia Nathan Lane com bigode (e com sotaque riojano) – me pediu que sentasse e esperasse o ex-presidente. “El doctor De la Rúa ya viene”.

Sentei ao lado de uma grande mesa de reuniões e esperei a entrada de De la Rúa. Mas, levantei logo, ao ver que do outro lado da sala havia uma foto de Perón em uma moldura. Olhei de perto e vi que a foto estava autografada, embora a dedicatória não fosse muito legível.

Nesse momento entrou De la Rúa. O cumprimentei e apontei para a foto, dizendo, surpreso: “Uau! O sr. tem uma foto autografada de Perón? Foi da época (1973) em que o sr era senador e ele havia voltado do exílio e eleito presidente?”

De la Rúa respondeu: “nããooo..quem dera! Infelizmente não tenho uma foto autografada de Perón. O conheci, brevemente, quando era senador. Mas não é uma foto dedicara para mim. É uma foto para um amigo, que tem este escritório”.

Então percebi que, dez anos depois de deixar a presidência, De la Rúa estava em um escritório emprestado. E de um amigo peronista.

Na rua o calor era insuportável. Ali dentro, apesar do ventilador, o verão portenho (embora seja ainda primavera) já era exasperante. De la Rúa estava de camisa e gravata. Eu, como sempre, estava de terno, seja lá qual for o entrevistado (exceto na cobertura do terremoto no Chile).

De la Rúa, amavelmente, sugeriu que tirasse o paletó. Agradeci, mas declinei a oferta. Nunca fico de camisa na frente de um entrevistado. Anos atrás entrevistei o roqueiro Fito Paez, de terno. Meia década depois, fiz uma nova entrevista com ele. Quando me viu sentado, esperando, me disse: “ei, usted (você formal) já me entrevistou antes… é do Brasil, não é?”. Eu respondi: “Sim! Nossa, que memória, sr. Paez, faz cinco anos!”. E o sr. Adolfo Paez, a.k.a. “Fito”, me disse: “é que foi a única pessoa em toda minha vida que me entrevistou de terno. Aprecio isso. E também foi a única pessoa que não me ‘tuteó’ (tratar de tu ou você). Não tem idéia como não suporto que as pessoas me tratem como se fosse um velho conhecido de toda a vida. E alguns até colocam os pés em cima da mesa, enquanto fazem as perguntas! Ora, acham que porque sou roqueiro posso que ser tratado de qualquer jeito?”. Concordei com ele, evidentemente. 

Voltando a De la Rúa: na hora de fazer as foto, colocou o paletó. Durante a entrevista, havia estado sério e circunspecto. Mas, depois da parte formal, enquanto preparava a câmera, lhe perguntei se era realidade que seu primeiro posto institucional havia sido o de presidente do Comitê de Caça com Estilingue, em Córdoba, quando tinha 10 anos. Ele confirmou e riu. De la Rúa, criança, havia até preparado os estatutos do clube. Na sequência, quis confirmar se a primeira vez que ele havia tido um encontro com sua futura namorada e esposa, Inés Pertiné, havia sido em um restaurante “El Vómito Negro”. De la Rúa confirmou também, e sorriu. Mas, logo ressaltou que esse era o nome informal do estabelecimento. “No entanto, não lembro do nome real…”.

Desta forma, nas fotos De la Rúa aparece sorrindo, na contra-mão do conteúdo da conversa, que relata o caos da crise de 2001.

 

E um vídeo da Internacional do Portal do Estadão com um comentário sobre a queda de De la Rúa. Aqui.

 

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Começa a contagem regressiva da campanha eleitoral argentina. Faltam exatamente quatro semanas para que os argentinos compareçam às urnas. Os candidatos presidenciais arrancam as folhinhas do calendário por puro costume, afirmam os analistas, já que o resultado do dia 23 de outubro estaria definido desde as primárias do 14 de agosto. “Calendrier républicain” (Calendário Republicano) de 1794 é a ilustração acima, da autoria de Louis-Philibert Debucourt (1755-1832).

Exatamente daqui a quatro semanas, pela sétima vez desde a volta da democracia em 1983, os argentinos irão às urnas para eleger o presidente da República. As pesquisas indicam de forma unânime que Cristina Kirchner seria reeleita com ampla margem de votos (de 52% a 55%) para outros quatro anos no comando da Casa Rosada, o palácio presidencial. A oposição – marcada por profundos antagonismos – além de fracassar em todas as tentativas de armar uma frente comum contra o kirchnerismo nos últimos dois anos, protagonizaria o pior desempenho eleitoral desde a volta da democracia em 1983.

Os analistas ressaltam que o novo mapa do poder na Argentina ficou praticamente definido desde as eleições primárias dos partidos políticos do dia 14 de agosto, quando Cristina obteve 52% dos votos. O segundo colocado, Ricardo Alfonsín, da União Cívica Radical (UCR), ficou 40 pontos percentuais abaixo, com apenas 12,4% dos votos. Nunca antes na História da tumultuada política argentina houve uma diferença de tal magnitude entre o primeiro e o segundo colocado.

Os analistas também destacam com ironia que as primárias foram “a pesquisa de intenção de voto mais cara do mundo”, já que – por ser obrigatória – levou às urnas mais de 70% dos eleitores argentinos.
“A sensação é que estas eleições de outubro serão um mero trâmite burocrático”, sustenta o cientista político Fabian Bosoer, professor de ciências políticas e relações internacionais da Universidade de Buenos Aires.

“Existem sete chapas que candidatam-se formalmente à presidência. Mas, é um torneio cujo resultado principal todos conhecem de forma antecipada”, explica.

Logo após as primárias Alfonsín ficou de cama vários dias por causa de uma pneumonia que, afirmam seus críticos com ironia, agravou-se com “a frieza do eleitorado” nas urnas. O ex-presidente Eduardo Duhalde (2002-2003) – candidato do peronismo dissidente, que ficou em terceiro lugar, com 12,16% – também deprimiu-se com os resultados e refugiou-se em um centro para tratamento antiestresse durante uma semana.

Elisa Carrió, da Coalizão Cívica, que obteve somente 3,2% dos votos (nas presidenciais de 2007, ficou em segundo lugar, com 25%), admitiu com amargura: “97% da sociedade não gosta de mim”. Depois, partiu para mini-férias no México. Ao voltar, praticamente abandonou a campanha eleitoral, para desespero de seus candidatos a deputado. 

“Nunca houve uma oposição tão fraca e tão desarticulada”, afirmou ao Estado o analista de opinião pública Carlos Fara. Ele sustenta que nas eleições do dia 23 de outubro Cristina “manterá seu volume de votos e talvez até aumente um pouco. Mas, dificilmente perderia votos”.

No entanto,segundo ele, “haverá uma queda no volume de votos destinados a Alfonsín e Carrió que seriam redirecionados para o socialista Hermes Binner, que nas últimas pesquisas desponta com 14% das intenções de voto. Enquanto isso, os peronistas dissidentes Eduardo Duhalde e Alberto Rodríguez Saá ficariam com a mesma proporação de votos que tiveram nas primárias.

Oposição poderia protagonizar a pior derrota da História do país no dia 23 de outubro. Acima, ilustração que mostra o mês de Brumário, no calendário da Revolução Francesa. O 23 de outubro coincide com o 2 de Brumário. Como cada dia tinha um nome, os franceses colocaram neste o nome de “céleri”, isto é, o aipo (o vegetal).

MATEMÁTICA - O prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, líder do partido Proposta Republicana, de oposição, avaliou as dificuldades para reverter o cenário das primárias: “a matemática é cruel. A diferença de votos do governo com a oposição e as divisões existentes nesta tornam impossível uma eventual derrota de Cristina. Ela venceu nas primárias por méritos próprios e por erros da oposição”.

SALVE-SE QUEM PUDER - Perante o cenário de uma nova catástrofe nas urnas – e com a perspectiva de mais quatro anos de kirchnerismo – a oposição sofreu ao longo deste mês em suas fileiras um êxodo de parlamentares, prefeitos e governadores que começam a aproximar-se da presidente Cristina para oferecer “colaboração” no novo mandato, que é encarado como inexorável. “É um salve-se quem puder”, admitiu em off ao Estado uma deputada federal do peronismo dissidente que começou sua transição do anti-kirchnerismo para um progressivo “filo-kirchnerismo”.

Esse foi o caso do deputado Felipe Solá, um aliado dos Kirchners que depois passou ao Peronismo dissidente. Ele, até o começo deste ano, era pré-candidato presidencial de um dos vários grupos da oposição. Mas, na semana passada, indicou que deixava a oposição. A declaração foi acompanhada de uma série de elogios à presidente. Assim, Solá foi recebido de novo pelo kirchnerismo com elogios e palavras de boas-vindas.

O mesmo cenário está ocorrendo em Córdoba e Santa Fe, com os respectivos líderes dissidentes José Manuel dela Sota e Carlos Reutemann.

“É um salve-se quem puder”, admitiu em off ao Estado uma deputada federal do peronismo dissidente da província de Buenos Aires que começou sua transição do anti-kirchnerismo para um progressivo “filo-kirchnerismo”.

“Fazer o quê”, ela disse, durante uma visita a eleitores em Ramos Mejía, na Grande Buenos Aires. Depois de aceitar um “tereré” (um chimarrão frio, típico doParaguai e donorte da Argentina) de um simpatizante, virou-se para este blogueiro que vos fala, caminhou uns passos pela rua de terra da periferia e parou ao lado de um esgoto ao ar livre. Ali, arrematou falando baixinho: “a realidade é que não tem outro jeito. E, a verdade é que o kirchnerismo recebe de novo qualquer um, se for para aumentar seu poder. Se até aceitaram o (ex-presidente e atual senador Carlos) Menem. Tudo cabe dentro do governo…”

EMPRESÁRIOS - A aproximação a Cristina também ocorre por parte dos industriais, antes arisco com as políticas intervencionistas do governo na economia. Há duas semanas 1.500 empresários a ovacionaram nas celebrações do dia da indústria. “A oposição não conseguiu apresentar uma proposta econômica melhor, somente algumas ideias para combater a inflação”, ilustrou o presidente da União Industrial Argentina (UIA), José Ignácio De Mendiguren. O setor ruralista, que em 2008 gerou a pior crise política do governo de Cristina agora mantém uma relação pacífica com a presidente. 

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Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Nestor Kirchner foi eleito em 2003 com 22% dos votos. Em 2007 colocou a máquina do Estado argentino para eleger sua própria esposa, a então senadora Cristina Kirchner, como sua sucessora presidencial. Até outubro do ano passado Nestor – considerado o verdadeiro poder no governo da mulher – era o candidato do casal presidencial para as eleições de 2011.

Desta forma, implementava-se o comentado plano “4+4+4+4”. Isto é, Néstor seguido de Cristina, seguido de Néstor novamente, seguido de Cristina mais uma vez, para completar um período de 16 anos. Mas, Kirchner morreu no dia 27 de outubro de 2010. Viúva, a saída para o governo foi a de uma reeleição presidencial de Cristina. O chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, disse há duas semanas que o kirchnerismo prepara-se para governar a Argentina durante os próximos “60 anos”.

A presidente Cristina Kirchner deu a largada à corrida eleitoral com objetivo de conseguir o terceiro mandato presidencial do kirchnerismo. Na noite da terça-feira ela acabou com o suspense que havia feito nos últimos meses e oficializou sua candidatura à reeleição em outubro. Nesta quarta-feira o cenário político argentino estava em polvorosa na expectativa da definição do candidato a vice-presidente, já que este despontaria como seu virtual sucessor, na ausência da possibilidade constitucional de disputar uma segunda reeleição em 2015. Os analistas políticos destacavam que a presidente, além de estar blindada contra os diversos escândalos de corrupção que assolam seu governo, está sendo favorecida pela recuperação econômica, além de uma fragmentação sem precedentes dos partidos de oposição.

Os analistas também ressaltam que Cristina é a favorita nas pesquisas de opinião pública, com uma ampla vantagem sobre os candidatos da oposição.

Caso vença nas urnas, Cristina emplacará o terceiro mandato do kirchnerismo, inciado em 2003 com seu marido, o presidente Nestor Kirchner (2003-2007). O segundo mandato do kirchnerismo foi protagonizado por Cristina, que sucedeu a seu próprio cônjuge, algo inédito na História mundial da democracia. O plano inicial do casal presidencial, até outubro do ano passado, era de uma candidatura de Kirchner para as eleições de 2011. No entanto, sua inesperada morte por um fulminante ataque cardíaco há oito meses, levou Cristina a tentar a sucessão de si própria.

O analista político e sociólogo Carlos Fara, da consultoria Fara e Associados, disse ontem ao Estado que suas pesquisas indicam que Cristina teria 47% das intenções de voto. Outros 18% estariam destinados a Ricardo Alfonsín, filho do ex-presidente Raúl Alfonsín (1983-89) e candidato da União Cívica Radical (UCR), de centro. Outros 14% dos votos seriam absorvidos pelo ex-presidente Eduardo Duhalde, que lidera uma das facções do peronismo dissidente. A deputada Elisa Carrió, candidata da Coalizão Cívica, de centro-esquerda, obteria 9% dos votos, proporção significativamente inferior aos 25% que conseguiu nas eleições de 2007, quando ficou em segundo lugar. Outros 7% dos votos ficariam nas mãos de Hermes Binner, governador da província de Santa Fe.

Com estes resultados, Cristina venceria no primeiro turno, já que no sui generis sistema eleitoral argentino, um candidato vence se conseguir mais de 45% dos votos. Outra alternativa é que obtenha pelo menos 40% dos votos, sempre que o segundo colocado esteja dez pontos percentuais atrás.

Com valores similares à pesquisa de Fara, a consultoria Ceop indica que Cristina contaria com 48,2% das intenções de voto, enquanto Alfonsín possui 12,8%. O ex-presidente Duhalde teria 7,5%, enquanto que o governador de San Luis, Alberto Rodríguez Saá teria 5,5%. Carrió obteria 5,9%.

No en tanto, uma pesquisa da consultoria Management & Fit indicou que Cristina conta com 33,4%. Mas, Alfonsín teria menos da metade de sua intenção de voto, já que teria 15,3%. Duhalde obteria 5,8%, enquanto que Rodríguez Saá conseguiria 7%. Elisa Carrió ficaria com 4%.

Segundo Fara, “independentemente das variações que os números possam ter nos próximos meses, é praticamente uma certeza de que Cristina Kirchner ganhará na primeiro turno em outubro”. O analista destacou que as eventuais variações que podem ocorrer “é a somatória de dois ou três assuntos que possam remover alguns pontos da presidnete. Mas, aí a discussão é sobre qual a amplitude desses votos que poderia perder”.

Fara considera que entre os fatores que provocariam perda de votos está “a crescente inflação, uma atitude soberba do governo – tal como ocorreu em outras ocasiões – além dos escândalos de corrupção. Mas, embora acumulados, esses fatores não provocariam uma derrota do governo”.

“O fato é que estamos registrando os níveis mais altos de otimismo sobre o futuro econômico nos últimos oito anos, graças à obras públicas, entre outros. Matematicamente Cristina Kirchner poderia até obter alguns votos a mais dos 45% conseguidos em 2007”.

O vice-presidente argentino, Julio Cleto Cobos, que rachou com o governo Kirchner em 2008. Cristina agora busca um vice de total fidelidade e alinhamento automático, já que este poderia tornar-se seu sucessor. Charge de El Niño Rodríguez. Site do artista:http://www.elninorodriguez.com/

A SÍNDROME DE COBOS - As especulações no âmbito político indicam que uma potencial vice de Cristina seria sua cunhada, a ministra da Ação Social, Alicia Kirchner, irmã do ex-presidente Néstor Kirchner, que morreu em outubro passado de um ataque cardíaco fulminante. Os rumores também indicam que o vice poderia ser um governador do norte da Argentina, onde o kirchnerismo possui um reduto eleitoral. Entre os nomes mais citados estão o governador do Chaco, Jorge Capitanich, considerado um “ultra-kirchnerista”; Sergio Urribarri, de Entre Rios; e José Alperovich, de Tucumán.

Outras especulações – baseadas nas declarações realizadas durante seu discurso de lançamento, quando ressaltou que pretendia ser “uma ponte e as novas gerações” – reforçaram os boatos de que o futuro candidato a vice poderia ser um dos integrantes da jovem geração de seu gabinete, entre eles o ministro da Economia, Amado Boudou, e o secretário de Comunicação, Juan Abal Medina.

Além disso, na lista dos “vice-presidenciáveis” também desponta o nome de Carlos Zanini, o secretário jurídico do governo, um kirchnerista histórico, já que assessora os Kirchners desde os anos 80. Outro histórico é o deputado Nicolas Fernández, da província de Santa Cruz, aliado há um quarto de século.

Os analistas destacam que este vice será crucial, já que ao contrário dos tempos em que Nestor Kirchner estava vivo, Cristina não contará com seu marido para uma eventual alternância no poder. Desta forma, os analistas sustentam que o vice terá status de “sucessor” de Cristina.

A presidente também quer evitar a “síndrome de Cobos”, em alusão a seu atual vice-presidente, Julio Cobos, da UCR, que rachou com o governo Kirchner em 2008 quando, na categoria de presidente do Senado, com seu voto de Minerva provocou a derrota do governo na votação do “impostaço agrário”. Embora pressionado pela presidente, Cobos recusou-se a renunciar, fato que lhe valeu a denominação de “traidor”. Segundo os analistas, desta vez Cristina buscará um vice de alinhamento automático e que exiba uma “blindagem de fidelidade” à presidente.

A intriga sobre o vice terminará neste sábado, quando vence o prazo para o registro do nome que acompanhará Cristina na chapa presidencial. 

  CANDIDATOS PRESIDENCIAIS

Cristina Kirchner, do partido Justicialista, sublegenda Frente pela Vitória

Ricardo Alfonsín, União Cívica Radical (UCR)

Elisa Carrió, Coalizão Cívica

Hermes Binner, Partido Socialista

Eduardo Duhalde, Partido Justicialista, sublegenda União Popular

Alberto Rodríguez Saá, Partido Justicialista, sublegenda Peronismo Federal

Jorge Altamira, Partido Operário 

Desistiram da corrida presidencial

O vice-presidente Juio Cobos, da UCR

O prefeito Maurício Macri, do Proposta Republicana

O deputado e cineasta Fernando Solanas, do Projeto Sul

 SISTEMA ELEITORAL ARGENTINO E SEU SUI GENERIS SEGUNDO TURNO

Ao contrário de outros países, nos quais para vencer no primeiro turno é preciso 50% mais um dos votos, no sui generis sistema eleitoral argentino, para vencer na etapa inicial das eleições presidenciais basta obter 40% dos votos com uma vantagem de 10% sobre o segundo colocado. A outra opção é a de obter 45% dos votos, proporção suficiente para conseguir a vitória de forma automática.

O primeiro turno está marcado para o dia 23 de outubro. O segundo turno tem data para o 20 de novembro.

A posse do novo presidente será no dia 10 de dezembro.

Charge de jornal da Catalunha mostra o casal com uma única faixa presidencial.

PERANTE “EFEITO VIÚVA”, OPOSIÇÃO APRESENTA-SE FRAGMENTADA E IRRECONCILIÁVEL

“Efeito viúva” é a denominação do clima de compaixão que grandes setores da população argentina sentem pela presidente Cristina Kirchner, cujo marido, o ex-presidente Nestor Kirchner, morreu de um ataque cardíaco fulminante em outubro do ano passado. Em quase todos os discursos públicos que proferiu desde a morte de seu marido a presidente Cristina faz constantes alusões a Kirchner. Ostentando rigorosa vestimenta escura em sinal de luto, ela sustenta que seu marido, desde o além, marca seu caminho político.

Coincidentemente, desde a morte de Kirchner, Cristina disparou nas pesquisas de opinião pública.

“Estamos vendo um espetáculo de circo, um relato de um ato fictício. É óbvio que Cristina Kirchner está mentindo quando chora na frente dos pobres. O vestido preto forma parte de uma cena semiótica. O luto forma parte desse disfarce”, dispara Elisa Carrió, uma das candidatas presidenciais da oposição.

Mariel Fornoni, da consultoria de opinião pública Management & Fit, afirmou ao Estado que “o efeito viúva deveria começar a diluir-se por causa de todos os escândalos de corrupção que apareceram e continuam aparecendo”. Segundo Fornoni, “a presidente continua utilizando o nome do ex-presidente Kirchner em seus discursos. E com certeza continuará fazendo isso”. A analista sustenta que os casos de corrupção estão afetando a imagem da presidente Cristina.

No entanto, o analista político Carlos Fara afirmou ao Estado que “o efeito viúva já passou. As pessoas não votam mais por condolências”.

Quatro pinguins: Plano original dos Kirchners era um mandato de Néstor, um segundo de Cristina, um terceiro de Néstor e um quarto de Cristina. Mas, a morte de Néstor alterou os planos. Cristina só poderá disputar uma reeleição. Se quiser uma segunda reeleição, terá que mudar a Constituição. Em 1999 o então presidente Carlos Menem tentou arrancar da Corte Suprema um parecer favorável a seus planos de segunda reeleição, denominada ironicamente de “la re-reelección” ou simplesmente, “la re-re”.

FRAGMENTADA – Os diversos escândalos de corrupção que envolvem integrantes e ex-integrantes do governo Kirchner não teriam suficiente impacto para levar a presidente Cristina à uma derrota nas urnas em outubro. Segundo os analistas, a recuperação econômica – subsidiada amplamente pelo Estado argentino – seria o fator crucial para que os escândalos tenham pouco peso político atualmente.

Os candidatos da oposição são Ricardo Alfonsín, da UCR; Elisa Carrió, da Coalizão Cívica; o socialista Hermes Binner, os peronistas dissidentes Eduardo Duhalde e Alberto Rodríguez Saá, além do trotskista Jorge Altamira, irmão de Luis Favre, ex-marido da ex-prefeita Marta Suplicy. Mas, apesar de algumas negociações, os diversos candidatos não conseguiram formar alianças para enfrentar o governo.

Segundo Fornoni, a oposição continuará fragmentada: “a realidade é que ainda não deram mostras de poder articular-se”.

“Não acho que a oposição se unirá. Houve várias tentativas de coalizões, todas fracassadas. Não imagino nem Binner e Carrió fazendo uma aliança com a UCR”, sustentou Fara. 

Cristina e Néstor na charge do cartunista argentino El Niño Rodríguez. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/

A TEMPO DA COPA AMÉRICA E DAS ELEIÇÕES, CRISTINA LANÇA O “TV PARA TODOS”

Televisores baratos nas vitrines das lojas argentinas a tempo da Copa América, que começa no dia 3 de julho na cidade de La Plata, um dos principais redutos eleitorais do governo. Este foi o pontapé inicial da presidente Cristina Kirchner para começar sua campanha eleitoral. No anúncio feito em rede nacional de TV – junto com seu lançamento à reeleição – a presidente Cristina ressaltou que o programa governamental “TV para todos” (também chamado de “LCD para todos”) implicará na venda, a partir da sexta-feira da semana que vem, de 200 mil televisores de alta definição LCD de 32 polegadas com um aparelho acoplado que permitirá captar os sinais de TV digital.

“Sou uma presidente que não gosta de uma Argentina para poucos, mas sim, para muitos”, argumentou em defesa da distribuição de créditos do estatal Banco de la Nación para a compra dos televisores, que serão vendidos por US$ 675. A compra pode ser feita em até 60 vezes, isto é, cinco anos, coincidindo com as eleições presidenciais de 2015. “É pão e circo com molho eleitoral, vinculado à Copa América”, criticou o economista Gabriel Rubinztein.

Cristina também anunciou a licitação de 110 sinais de TV em todo o país para empresas privadas. Outros 110 sinais serão distribuídos de forma direta aos governos das províncias, universidades públicas, além de ONGs, setor onde o governo possui grande influência.

O quarteto de Pinguins da série televisiva originada no filme “Madagascar” assistem TV.

“PARA TODOS” - No último ano e meio o governo Kirchner lançou diversos programas sob a égide do “para todos”, que implica em produtos a preços mais acessíveis para a maioria da população. Desta forma, já anunciou o “carne para todos” (cortes de carne bovina a valores mais baixos do que a média do mercado); “milanesas para todos” (programa de distribuição com preços baixos do corte de bife à milanesa, um dos pratos mais populares do país).

Além disso, lançou o “futebol para todos” (estatização das transmissões dos jogos de futebol, que passaram dos canais de TV a cabo a serem veiculados no canal estatal 7, uma TV aberta). Até 2019 o governo desembolsará US$ 150 milhões por ano para a Associação de Futebol da Argentina (AFA) e os clubes em troca dos direitos de transmissão.

Há poucos meses a presidente anunciou o “botijões para todos” (gás em botijão mais barato para os setores da população que não possuem gás encanado); e merluza para todos (o peixe marítimo mais popular na gastronomia argentina), entre outros programas de subsídios.

A oposição acusa o governo de fazer “populismo” com estes programas e ressaltam que, na prática, não passam de subsídios para obter dividendos políticos para as eleições presidenciais de outubro.

Oposição afirma que programa de LDC para todos trata-se de espetáculo para distrair população dos problemas do país, além de servir para publicidade para o governo. “É pão e circo com molho eleitoral, vinculado à Copa América”, criticou o economista Gabriel Rubinztein. Charge de El Niño Rodríguez – “Kirchner crooner”. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/

Nossa semana borgiana foi brevemente interrompida para colocar a postagem acima sobre o lançamento de Cristina Kirchner. Na próxima postagem voltaremos à programação original e encerraremos a semana sobre JL Borges com uma postagem sobre os “Mitos borgianos: Georgie e Mick Jagger”.

  

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Duhalde, Eduardo, e o Duhalde virtual do telão. Discurso do ex-presidente em dezembro, no dia do lançamento de sua pré-candidatura.  O ex-presidente é grande amigo do ex-presidente Lula.

 

“Tachuela” (Tachinha) é o apelido que os amigos e parentes usam para chamá-lo por causa de sua baixa estatura e ampla cabeça. Mas fora desse círculo, a denominação mais freqüente e carregada de menos sutilezas é “El Cabezón” (O Cabeção), característica que é a delícia dos chargistas argentinos. A presidente Cristina Kirchner costuma chamá-lo de “El Padrino” (O Padrinho), em alusão ao filme “The Godfather” (no Brasil, traduzido como ‘O poderoso chefão’) por suas suposta conexões com máfias. O alvo destas ironias é Eduardo Duhalde, caudilho peronista que foi prefeito de Lomas de Zamora, vice-presidente, governador da província de Buenos Aires, presidente provisório, padrinho político de Néstor Kirchner e posteriormente inimigo de seu ex-delfim e sua esposa e sucessora, a presidente Cristina.

Sua vida política – toda realizada dentro do partido Justicialista (Peronista) – começou como vereador em sua cidade natal, Lomas de Zamora. Em 1983 tornou-se prefeito desta cidade, uma das maiores da Grande Buenos Aires. Em 1988, o exótico governador da província de La Rioja, Carlos Menem, almejava a presidência do país, mas para isso precisava de um homem forte na Grande Buenos Aires que fosse seu vice. O homem escolhido foi Duhalde, e juntos, chegaram ao poder em 1989.

GOVERNADOR - Duhalde ocupou a vice-presidência até 1991, quando deu outro grande passo, o de tornar-se governador da província de Buenos Aires. Controlar essa província implica em influir intensamente nos destinos da Argentina, já que ali habita um terço da população do país. A província de Buenos Aires produz 36% do PIB argentino e conta com quase 40% do eleitorado nacional.

Entre 1994 e 1996 surgiram denúncias sobre supostas conexões de Duhalde com redes mafiosas. O assunto foi o centro de um livro, “El Otro” (O Outro), que foi best-seller no ano que foi lançado, 1996. O autor, Hernán López Echagüe, foi categórico sobre “El Cabezón”: “ele é uma má pessoa”.

Na ocasião Duhalde foi entrevistado sobre as denúncias no programa de auditório da apresentadora Susana Giménez. Sua resposta foi chorar ao vivo para milhões de telespectadores.

CANDIDATO PRESIDENCIAL – O surgimento das denúncias não reduziu em Duhalde a comichão de aspirar à presidência do país que quase todos os governadores bonaerenses sentem. Com esta comichão, em 1994 Duhalde preparava-se para ser candidato a presidente nas eleições de 1995.

No entanto, em 1994, Menem conseguiu a modificação da Constituição Nacional, o que permitiu sua reeleição. “El Turco”, como é chamado Menem, tentou acalmar a irritação de Duhalde, afirmando em 1999, “desta vez, sim”, o apoiaria para ocupar a Casa Rosada.

Mas no início de 1999, Menem começou a mobilizar-se para alterar a Constituição mais uma vez, com a intenção de ser reeleito pela segunda vez, esquecendo das promessas a Duhalde. Menem não conseguiu modificar a Carta Magna, mas sua aliança estratégica com seu antigo vice estava liquidada. Duhalde começou sua campanha eleitoral, sem apoio de Menem, que o sabotou constantemente.

Sua relação com “El Turco” sempre foi uma relação de amor e ódio. Segundo disse ao Estado biógrafa não-autorizada de Menem, Olga Wornat, Duhalde admirava Menem e se sentia inferior a ele.

“Gostaria de ser assim, como ele, extrovertido. Eu sou assim, sem carisma”, confessou na época Duhalde a Wornat.

Sem apoio do próprio chefe do peronismo na época, “El Cabezón” perdeu para Fernando De la Rúa. A derrota foi a pior infligida em uma eleição presidencial ao peronismo em toda sua História. Assessorado por uma enorme equipe comandada pelo marqueteiro brasileiro Duda Mendonça, Duhalde somente obteve 38% dos votos, enquanto que De la Rúa o esmagou com 48%. “Sabia que perderia desde o momento em que comecei a campanha”, disse Duhalde dias depois.

APOSENTADORIA - Alvo da chacota descarada de Menem, e arrasado pela derrota, Duhalde declarou na época: “voltarei à docência e reabrirei o escritório de advocacia”. No peronismo, ninguém aceita perdedores, e tudo indicava que Duhalde descansaria da vida política em sua chácara, onde teria vida de aposentado. Na época, o think tank Oscar Raúl Cardoso disse ao Estado: “duvido que ele se resignará a ficar em sua chácara”.

No ano seguinte Duhalde somente aparecia para realizar declarações ácidas sobre sua classe: “nós, políticos, somos todos uma m…”. Simultaneamente, nunca deixou de lado a vendetta pessoal com Menem, e comemorou a prisão de “El Turco” em junho de 2001, por suspeitas de ter chefiado uma organização mafiosa que teria realizado o contrabando de armas para o Equador e a Croácia entre 1991 e 1995. Duhalde destituiu Menem do comando do peronismo, e criou uma diretoria nova para o partido.

Depois disto, diante da decadência acelerada do governo De la Rúa, Duhalde entusiasmou-se, e candidatou-se ao senado. Em outubro de 2001, obteve uma vitória esmagadora sobre a União Cívica Radical (UCR), e elegeu-se senador.

Seu caminho ao “sillón de Rivadavia”, como é conhecida a cadeira presidencial, que havia sido longo e cheio de obstáculos, encurtou-se rapidamente.

Dois meses depois, quando o país estava mergulhado na maior crise financeira e social de sua História, foi chamado pelo Parlamento para transformar-se em presidente provisório.

PRESIDENTE, EMBORA PROVISÓRIO - Duhalde pilotou a Argentina no turbulento ano e meio que se seguiu, quando, após o “corralito” do governo do ex-presidente Fernando De la Rúa o país estava mergulhado no caos social (com 57% da população abaixo da linha da pobreza e 25% de desemprego).  Analistas indicam que Duhalde foi um “bom piloto” na tempestade, e que outro presidente – com menos jogo de cintura – poderia ter colocado à pique o navio da Argentina, que já estava assaz inundado.

Originalmente, o plano da classe política na época era que Duhalde deveria concluir o mandato inacabado de De la Rúa. Mas, em meados de 2002, um protesto de piqueteiros na ponte Avellaneda – e o assassinato de dois militantes de esquerda, Maximiliano Kosteki e Darío Santillán, por parte da Polícia Federal – causou uma grave crise política e levou Duhalde a antecipar o fim de seu mandato em sete meses.

Desta forma, começou a procurar um sucessor presidencial. Tentou com o governador de Córdoba, José Manuel de la Sota, que não decolava nas pesquisas. Tentou com o governador de Santa Fe, Carlos Reutemann, que desistiu semanas depois de ser apresentado como candidato. Na procura desesperada, optou pelo desconhecido governador de Santa Cruz, Néstor Kirchner.

Em 2003 Duhalde colocou toda a máquina do Estado a favor de Kirchner para derrotar o rival Menem nas urnas. Duhalde, que havia iniciado uma sólida amizade com o presidente Lula, pediu a este que recebesse Kirchner em Brasília. No meio da campanha, para fortalecer o candidato do amigo, o presidente brasileiro (que possui boa imagem na Argentina) recebeu “El Pingüino” no Planalto.

Em maio daquele ano Kirchner tomou posse. Mas o novo presidente rapidamente se desfez de seu padrinho político. Nos primeiros dois anos, Kirchner atarefou-se em reduzir o poder de Duhalde, especialmente em Buenos Aires, cooptando seus antigos aliados.

Duhalde passa a Kirchner o bastão presidencial em 2003. Na época a classe política acreditava que Kirchner seria um “títere” de Duhalde. As coisas não foram tal como pareciam.

ENCURRALADO - Em 2005, a esposa de Duhalde, Hilda ‘Chiche’ de Duhalde, foi derrotada por Cristina Kirchner na disputa pelas vagas ao Senado. Duhalde, na época, era o presidente da Comissão de Representantes Permanentes do Mercosul, cargo onde cultivou uma relação de amizade com o então presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. Tudo indicava que o poder de Duhalde – encurralado por Kirchner – estava finalmente arrasado e que não tinha outra alternativa a não ser a de presidir o Mercosul, dar conferência e tomar conta dos netos.

“Ele está esperando dar o bote… ele não tem pressa. É um jogador de xadrez. Ele sabe esperar”. Essa foi a frase que disse ao Estado um colaborador de Duhalde em 2006 para indicar que o ex-presidente não estava “aposentado” e que pretendia recuperar seu poder.

O RETORNO - Em 2008, com a crise da presidente Cristina Kirchner com o setor agrícola, Duhalde percebeu que sua chance de retornar à arena política estava voltando. Em 2009 organizou as fileiras dissidentes do peronismo. Em meados desse ano um de seus aliados, o empresário Francisco De Narváez, derrotou o próprio Kirchner nas eleições parlamentares na província de Buenos Aires.

Em dezembro de 2010 Duhalde anunciou sua pré-candidatura à presidência da República pelo peronismo dissidente. O modelo de país a copiar, segundo disse, “é o Brasil de Lula”. No mesmo mês uma série de protestos sociais abalaram o cenário político argentino. A presidente Cristina afirmou que “El Padrino” estava por trás dos incidentes. Duhalde, calejado, respondeu: “o atual governo me culpa de todos seus problemas”.

Os analistas indicam que Duhalde dificilmente poderia vencer uma eleição presidencial. Eles ressaltam que boa parte da população considera que ele foi o presidente adequado para o período da tempestade econômica de 2001-2002. Mas, apesar desse reconhecimento, não votariam nele para presidente em circunstâncias econômicas normais.

 BRASIL – Em declarações ao jornal portenho “Perfil”, há poucas semanas, Duhalde elogiou o Brasil e criticou seus próprios compatriotas: “o Brasil possui uma visão estratégica. Há anos que estou dizendo ‘olhemos o Brasil’, desde antes que Lula chegasse ao poder. Vamos copiá-los. Eles não são ‘pelotudos’ (sinônimo de ‘boludo’, equivalente a “imbecil”)…Nós sim somos ‘pelotudos’ ”. 

Duhalde está tentando convencer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a viajar para o balneário argentino de Mar del Plata em meados de janeiro para prestigiar o lançamento de seu livro “De Thomas Moore à fome zero”, sobre políticas públicas. O livro de Duhalde conta com um prólogo de Lula.

   

MAIÔ FLORIDO - Descendente de bascos franceses, Duhalde nasceu em 1941 na cidade de Lomas de Zamora, na Grande Buenos Aires. Sua mãe, uma simpatizante da UCR, nunca votou nos peronistas.

De família modesta, na juventude trabalhava como salva-vidas em um clube para poder pagar seus estudos. Na piscina, conheceu a miúda e pertinaz Hilde “Chiche” Duhalde, sua futura esposa. O encontro foi peculiar. Ostentando um maiô florido, para atrair sua atenção, “Chiche” fingiu que se afogava. Ela nega essa versão, mas Duhalde a confirma com um sorriso matreiro.

Homem caseiro, torcedor do pouco expressivo “Banfield”, Duhalde e Chiche conseguiram formar a imagem de uma católica família pacata de cinco filhos. No entanto, a imagem bucólica do casal Duhalde foi perturbada com freqüência por denúncias de corrupção e de tráfico de drogas em seu entourage.

Além disso, sobraram críticas para Chiche, que durante o governo de seu marido na província de Buenos Aires, criou uma imensa estrutura de assistencialismo social, que controlava com mão de ferro.

Emulando Evita Perón, Chiche controlou durante quase uma década verbas anuais de US$ 250 milhões e uma rede de 25 mil colaboradoras, as “manzaneras”, que distribuíam comida nas áreas mais pobres da Grande Buenos Aires.

Na década seguinte o governo Kirchner – por intermédio da irmã de Néstor Kirchner, a ministra Alicia Kirchner – montaria outra estrutura assistencialista com os mesmos objetivos políticos nessa conturbada área do país.

   

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Néstor Kirchner, já primeiro-cavalheiro, faz discurso em defesa do governo da mulher e sucessora. O ex-presidente, considerado o verdadeiro poder no governo de Cristina Fernández de Kirchner, morreu em outubro passado. Sua morte alterou o mapa político do país. A nova configuração dessa cartografia do poder ainda não está clara (foto da presidência da República).

A presidente Cristina Kirchner completou em dezembro três anos de governo. Ela também começou a reta final de seu mandato, já que restam-lhe pouco mais de 340 dias na Casa Rosada, o palácio presidencial. No entanto, a intenção do governo é que Cristina não se restrinja a este ano que lhe resta e que dispute as eleições presidenciais previstas para daqui a dez meses. Ao longo das últimas semanas diversos ministros de seu gabinete afirmaram que ela é a candidata.

O chanceler Héctor Timerman declarou que “não vislumbra outro candidato” e que a presidente é a “opção natural” do governo. Timerman sustentou que a candidatura de Cristina Kirchner expressa “a vontade do povo argentino”.

De quebra, diversos governadores respaldaram sua reeleição, além de centenas de prefeitos peronistas que reuniram-se com ela em meados de dezembro na residência oficial de Olivos.

Este também será o primeiro ano que a presidente Cristina passa sem seu marido e antecessor no cargo, o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), considerado o verdadeiro poder no governo da mulher até sua morte, ocorrida no dia 27 de outubro. Na manhã desse dia Kirchner sofreu um ataque cardíaco fulminante.

De lá para cá o governo passou por uma primeira etapa de paralisia pela morte do líder, que centralizava todas as decisões, da política à economia. Depois, ficou desorientado, com o surgimento de brigas entre ministros, que antes eram disciplinados pelo temperamental Kirchner. Para complicar, surgiu o escândalo WikiLeaks, com telegramas americanos que indicavam que a secretária de Estado dos EUA. Hillary Clinton, estava preocupada pela “saúde mental” da presidente argentina e perguntava a seus diplomatas quais “remédios” ela tomava.

Mas, entre meados de novembro e início de dezembro, perante a apatia da oposição, a presidente Cristina começou a dar uma guinada que incluiu a moderação do discurso; a reaproximação com o FMI (organismo que seu marido abominava) e uma leve redução dos decibéis de críticas à imprensa.

Os analistas afirmam que o ano que resta de mandato de Cristina Kirchner poderá ser significativamente diferente aos três anos anteriores, marcados pela presença do marido.

ALTOS E BAIXOS E ALTOS - Mariel Fornoni, diretora da consultoria Management & Fit afirmou ao Estado que Cristina Kirchner havia começado relativa recuperação de sua imagem em setembro graças à recuperação econômica. Mas, em outubro, a morte de seu marido, o consequente período de luto – o denominado “fator viúva” – e um comportamento mais “moderado” de Cristina melhoraram drasticamente a imagem da presidente.

No entanto, depois dos incidentes ocorridos no dia 10 de dezembro, quando três imigrantes bolivianos e paraguaios foram mortos pelas forças de segurança – e centenas de outros foram espancados por moradores do bairro portenho de Villa Soldati (perante a omissão do governo federal) – a imagem da presidente voltou a cair.

Os incidentes – que incluíram as ocupações de uma dezena de terrenos em várias áreas da Grande Buenos Aires e da cidade de Buenos Aires por parte de milhares de favelados e sem-teto – abalaram tanto o governo Kirchner como o prefeito portenho Maurício Macri, da oposição.

Mas, segundo a consultoria Poliarquia, entre altos e baixos, a presidente Cristina encerrou o ano melhor do que começou.

A pesquisa da Poliarquia – que não chegou a medir o impacto dos recentes conflitos sociais – indica que sua imagem negativa caiu 30 pontos, enquanto que sua imagem positiva melhorou em 36 pontos.

Dessa alta, 20 pontos foram obtidos imediatamente após a morte de Kirchner em outubro. O resto da alta foi conseguido de forma gradual ao longo do ano.

Desta forma, a presidente Cristina conta hoje com 57% de imagem positiva e 21% de imagem negativa.

Cristina Kirchner optou, na cúpula de Mar del Plata, por não aceitar o pedido do presidente venezuelano Hugo Chávez de fazer uma condenação pública dos EUA por causa do escândalo WikiLeaks.

“MODERAÇÃO”“Cristina está moderando seu discurso e reduziu as críticas à imprensa. Durante a cúpula ibero-americana em Mar del Plata, no início do mês, ela ficou mais do lado do Chile e do Brasil, que preferiam moderação com os EUA pelo escândalo WikiLeaks, distante dos países ‘bolivarianos’ como a Venezuela, Bolívia e Equador, que queriam uma condenação conjunta”, afirma Fornoni. “Ora, Cristina é muito mais racional do que Néstor Kirchner”, em referência aos acessos de raiva e medidas que o ex-presidente tomava por questões passionais.

“Parece que Cristina tinha um plano na cabeça que estava em stand by enquanto Kirchner  estava vivo”, afirma ao Estado o colunista político Carlos Pagni, do jornal “La Nación”.

Segundo Pagni, a morte de Kirchner remove de cima do governo um “passivo eleitoral”: “Kirchner era um péssimo candidato para as eleições presidenciais de 2011. Ele possivelmente teria levado o kirchnerismo à derrota. O governo perdeu um grande passivo, enquanto que a oposição perdeu um grande ativo com sua morte. A oposição terá que se reorganizar, já que todos cresciam nas pesquisas só pelo fato de opor-se a Kirchner. Isso acabou”.

Em sintonia, Fornoni afirma que “a oposição, com a morte de Kirchner, está desorientada. Era mais fácil bater no governo quando Kirchner estava vivo. E, para complicar a situação, a oposição não está conseguindo seduzir a população”.

Pagni considera que o governo tentará ser moderado nos próximos tempos, ao contrário dos anos anteriores, quando Kirchner pairava sobre a administração de Cristina: “se tivessem me perguntado antes da morte de Kirchner quantas crises políticas de grande tamanho ele provocaria antes de dezembro do ano que vem, eu teria respondido ‘umas três’. Mas, atualmente, não vejo as possibilidades dessas grandes crises. Kirchner era uma máquina de produzir furações e maremotos em um vaso de flores, como a crise com o campo, a remoção do presidente do Banco Central. Isso não vai ocorrer mais desse jeito”.

 

Santiago Kovadloff analisa prós e contras dos primeiros três anos de governo Cristina

CRISTINA KIRCHNER É CAUDILHA PROVINCIANA COM TOQUES DE VANGUARDA, DIZ FILÓSOFO

“A presidente Cristina Kirchner teve três anos de governo peculiar. Ela teve atitudes de vanguarda ao mesmo tempo de atitudes conservadoras, caudilhescas e provincianas”. A frase é do filósofo e ensaísta argentino Santiago Kovadloff, que em entrevista ao Estado analisou os três anos de governo da presidente Cristina e as perspectivas para o último ano de seu mandato. 

Estado – Como definiria o estilo de governar de Cristina?

Kovadlof – Para consolidar o poder que alcançaram em 2003, os Kirchner seguiram um procedimento de capitalizar a fragilidade institucional que existia na época a favor de uma liderança fortemente pessoal. De lá para cá houve uma alta concentração do Poder Executivo, a permanente crítica e ofensa da oposição, a exploração da cultura caudilhesca em detrimento das instituições republicanas. Desde que Cristina assumiu o poder em 2007,  ela esteve sob forte influência de seu esposo. No entanto, desde a morte de Kirchner desponta uma Cristina livre do peso do marido, que mostra mais moderação e emite sinais de que não é tão “kirchnerista”, de forma a conquistar setores da classe média que a rejeitavam…

Estado – A sociedade vai acreditar em uma “deskirchnerização” de Cristina?

Kovalodff – Veremos se a sociedade vai encarar isso como uma mudança real ou se somente será algo superficial. Mas, se a oposição não emitir sinais claros de que é capaz de superar suas divergências internas, é bem possível que boa parte do empresariado e da opinião pública respaldem a candidatura de Cristina.

Estado – Considera que a oposição conseguiria unir suas forças?

Kovadloff – Se a intenção de voto para Cristina no primeiro turno não for muito elevada, a oposição poderá ter o luxo de desfrutar de sua fragmentação. Mas, se as chances de Cristina forem elevadas, a oposição precisará de um candidato de consenso. No entanto, tal como o cenário desponta, os riscos de que a oposição faça acordos de forma apressada são maiores do que a possibilidade de que a convergência seja o resultado de um acordo longamente meditado.

Estado – Uma coisa é que a oposição una forças e ganhe a eleição. Mas outra é que tentar governar nos quatro anos seguintes..

Kovadloff – São dois passos sucessivos e não necessariamente complementares…

Estado – Quais os pontos positivos e negativos destes três anos de governo?

Kovadloff  - O governo tem vários pontos positivos, embora isso não altere sua orientação despótica e caudilhista. Cristina criou programas para ajudar famílias pobres, manteve a Corte Suprema que recebeu, respaldou leis de vanguarda como o casamento de pessoas do mesmo sexo, além de criar o ministério de ciência e tecnologia e estimular a cultura nacional. Ela também reaproximou-se dos EUA e reforçou a aliança com o Brasil. Não são conquistas conjunturais. São estruturais. Mas, ao mesmo tempo, seu governo foi espantosamente retardatário, ao ser sectário com todos aqueles que não concordam 100% com a presidente, o desinteresse pelo diálogo com a oposição, as pressões à imprensa, suas alianças com os conservadores caudilhos do norte do país, a corrupção. Este governo foi de uma insularidade provinciana…

  

GOVERNADORES E AS ELEIÇÕES ANTECIPADAS – As 24 províncias argentinas (incluindo o distrito federal) possuem algumas peculiaridades que as tornam diferentes aos estados brasileiros. Embora economicamente elas possuam uma maior dependência do governo federal, elas são mais autônomas no que concerne ao lado eleitoral. Desta forma, uma assembleia legislativa de uma província “X” pode determinar uma modificação das normas sobre reeleição de governadores.

Isto é, enquanto que a constituição nacional permite apenas uma reeleição presidencial consecutiva, existem várias constituições provinciais que permitem reeleições indefinidas. Outras não permitem reeleição alguma. E outras, como no sistema presidencial, permitem apenas uma reeleição.

Essa autonomia também vale na hora de marcar a data das eleições para governador. Cada província tem o direito de marcar a eleição provincial na data em que quiser.

Este direito será usado intensamente neste ano, já que onze províncias (pelo menos) deixaram claro que pretendem “desdobrar” as eleições. Isto é, fazer as eleições provinciais antes das eleições presidenciais.

Este desdobramento indica que os governadores (tanto do governo como da oposição( consideram que o cenário político para as eleições presidenciais é de total incerteza. E portanto, preferem evitar riscos de ‘afundar’ junto com o governo ou com a oposição em outubro. 

OPOSIÇÃO COMEÇA A APRESENTAR CANDIDATURAS

Em julho do ano passado, quando a presidente Cristina Kirchner sofreu uma fragorosa derrota nas eleições parlamentares, obtendo somente 30% dos votos contra 70% da totalidade dos partidos da oposição, os analistas e a opinião pública acreditavam que os diversos partidos críticos da administração kirchnerista organizariam uma frente sólida contra o governo. Na época, a expectativa era que dali apareceria um candidato presidencial de consenso para a sucessão da presidente Cristina.

Mas, um ano e meio depois, o cenário é diametralmente outro. Ciumentos uns dos outros, os líderes dos principais partidos da oposição – a União Cívica Radical (UCR), de centro; a Coalizão Cívica, de centro-esquerda; o Projeto Sul, de esquerda, e a Proposta Republicana e o peronismo dissidente, de centro-direita – foram incapazes de negociar o consenso.

De quebra, não conseguiram formar um bloco consistente contra o governo no Parlamento. “O governo é minoria no Congresso, mas está unido. A oposição é maioria, mas está dividida e não possui uma liderança que articule suas ações”, disse ao Estado o analista político Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos Nueva Mayoría.

Neste contexto de profundas divisões e troca de acusações, os partidos de oposição aproveitaram o último mês do ano para anunciar seus pré-candidatos presidenciais.

No início de dezembro, o primeiro foi Ricardo Alfonsín – filho do ex-presidente Raúl Alfonsín – que lançou sua candidatura pela União Cívica Radical (UCR), de centro. Uma semana depois foi a vez do principal líder da esquerda, o diretor de cinema e deputado Fernando “Pino” Solanas, do partido Projeto Sul.

A deputada Elisa Carrió, conhecida como “a caçadora de corruptos”, por sua constante denúncia de casos de corrupção, líder da Coalizão Cívica, de centro, que pretendia lançar sua pré-candidatura em janeiro, antecipou seus planos e também anunciou seu lançamento em dezembro.

O ex-presidente provisório Eduardo Duhalde (2002-2003) também apresentou sua pré-candidatura à presidência da República, pouco antes do Natal.

Duhalde, um dos líderes do Peronismo Federal, também denominado de “Peronismo dissidente”, de oposição ao governo da presidente Cristina Kirchner, integra o setor do partido Justicialista (Peronista) que reúne os peronistas insatisfeitos com o governo Kirchner.

Dias antes de seu lançamento a presidente Cristina sugeriu que o ex-presidente estava por trás dos incidentes nas ocupações de terrenos na cidade de Buenos Aires e na Grande Buenos Aires por parte de favelados e sem-teto. Segundo ela, o Duhalde “apadrinhou” os incidentes. Duhalde retrucou: “há cinco anos tentam me culpar de tudo o que acontece no país”.

O prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, do Proposta Republicana, de centro-direita, deu sinais a seus correligionários nos últimos dias de que não disputaria a presidência da República. Ele tentaria a reeleição da prefeitura portenha em 2011. No entanto, dias depois Macri – famoso por oscilar com frequência – mudou de ideia e anunciou que possui mais “vocação de presidente” do que de tentar uma reeleição para a prefeitura.

No entanto, todo este cenário poderia ser bastante alterado em caso de eventual retirada da candidatura da presidente Cristina (seus ministros a estão empurrando para a reeleição, mas ela ainda não se pronunciou sobre o caso). Os analistas destacam que será preciso avaliar como nos próximos meses pesará no lado emocional da presidente a ausência do defunto marido.

No caso de retirada da candidatura de Cristina especula-se no nome do governador de Buenos Aires, Daniel Scioli, como candidato do governo à presidência. Scioli, que já foi o vice de Néstor Kirchner, é encarado como um candidato que poderia gerar um retorno de diversos peronistas dissidentes. Uma espécie de nome de consenso que – sem gerar grande entusiasmo – seria útil para ocupar a presidência da República enquanto as forças peronistas se reacomodam e definem o surgimento de um novo caudilho.

Os analistas também destacam que o silêncio de Cristina sobre sua própria candidatura poderia ser uma estratégia para esperar uma época mais próxima às eleições para oficializar seu lançamento. Uma espécie de golpe de efeito para atordoar a oposição.

PRESIDENCIÁVEIS

CENTRO/CENTRO-ESQUERDA/com touchs de centro-direita

- Pelo partido Peronista, ou mais especificamente pela sub-legenda Frente para a Vitória

Cristina Kirchner

(e Daniel Scioli, caso a presidente Cristina não se apresente à reeleição)

CENTRO

- Pela União Cívica Radical (UCR)

Julio Cobos

Ricardo Alfonsín

Ernesto Sanz

- Pela Coalizão Cívica

Elisa Carrió

CENTRO-ESQUERDA

- Pelo Socialismo

Hermes Binner

CENTRO-DIREITA

- Pelo Peronismo dissidente

Eduardo Duhalde

Carlos Reutemann (embora semanas atrás, mais uma vez, disse que não seria candidato e afastou-se do Peronismo Federal ou ‘dissidente’)

Felipe Solá

Mario das Neves

 

- Pelo Proposta Republicana (Pro)

Maurício Macri 

ESQUERDA

- Pelo Projeto Sul

Fernando ‘Pino’ Solanas

Independentes (candidatos sem chance alguma de passar de 2% das intenções de voto, embora afirmem que serão candidatos)

- Carlos Menem

- Alberto Rodríguez Sáa

 A partir desta 3afeira – a não ser por caso de força maior – teremos os perfis dos vários candidatos presidenciais que estão despontando (com chances ou sem chances):

Começaremos por Elisa Carrió na 3afeira

Eduardo Duhalde será na 4afeira

Maurício Macri na 5afeira

Julio Cobos, Ricardo Alfonsín e Ernesto Sanz serão na 6afeira

Fernando ‘Pino’ Solanas e Hermes Binner no sábado

E Carlos Reutemann, Carlos Menem e outros peronistas dissidentes no domingo.

   

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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