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Ariel Palacios

Houve coito ou não houve coito? Houve algum presente ou não? Debate sobre desaparecidos da Ditadura Militar saiu brevemente do relato das torturas para ingressar no burlesque. Acima, Graciela Alfano em capa de revista argentina em meados dos anos 70, quando ficou famosa. A estudante de Engenharia e modelo, dizem as más línguas, teria tido um affaire com almirante Emilio Massera, integrante da troika militar que implantou a ditadura mais sanguinária da História da América do Sul no século XX. Um programa de fofocas denunciou que ela teria recebido presentes saqueados de prisioneiros políticos.

A ex-modelo e atriz argentina Graciela Alfano, sex symbol de seu país nos anos 70, 80 e 90, seria investigada pela Justiça por seu hipotético affaire amoroso com o ex-almirante Emilio Massera, considerado uma das mais sinistras figuras da ditadura militar (1976-83). Alfano, presença constante nas revistas de fofocas, que atualmente integra o júri do programa de auditório “Dançando por um sonho”, foi denunciada pelo suposto recebimento de “presentes” do então integrante da Junta Militar que protagonizou o golpe de Estado que derrubou o governo da presidente civil Isabelita Perón (1974-76).

Estes presentes consistiriam em peles e joias que os militares haviam roubado dos desaparecidos políticos (Massera foi acusado de enriquecer graças aos bens saqueados dos desaparecidos políticos, além de extorsões a empresários).

O estopim da investigação, que está sendo realizada pelo promotor Luis Comparatore, foi “Intrusos”, um programa de fofocas no canal de TV América comandado pelo jornalista Jorge Rial, especializado em escândalos sexuais das celebridades. Irritada com as especulações sobre seu affaire, Alfano reagiu com veemência. “Se você vai para a cama com um genocida, isso não quer dizer que você sai com 30 mil desaparecidos”, afirmou, causando o repúdio imediato das organizações de defesa dos direitos humanos.

Alfano afirmou que nunca havia revelado o nome de homem algum com o qual havia mantido alguma espécie de coito ou afins. No entanto, há poucos meses, contou com detalhes como havia feito um fellatio no ator americano Lorenzo Lamas em um camarim de um canal de TVem Buenos Aires nos anos 90.

As revelações realizadas por Rial também tiveram um efeito de estupefação entre  os integrantes de organizações de defesa dos Direitos Humanos, que costumavam desprezar os programas de fofocas, por considera-los “fúteis”. Alguns integrantes das ONGs preferiram que o caso Alfano-Massera fosse deixado de lado, já que isso poderia “frivolizar” a História dos desaparecidos. Outros, na contra-mão, indicaram que exigiam uma profunda investigação, para ver quais atores e modelos estiveram conectados de alguma forma com a ditadura militar. Outros, ainda, afirmaram que as supostas práticas sexuais de uma atriz com um genocida não tinham importância jurídica alguma. Mas, destacavam que seria importante verificar se Alfano havia recebido bens que pertenciam aos desaparecidos ou ex-detidos ainda vivos.

“La” Alfano atualmente, durante um programa de auditório em Buenos Aires.

O ESPIÃO DE PINOCHET - Comparatore recebeu relatórios desclassificados do serviço de inteligência chileno que respaldariam as suspeitas. Um dos documentos sobre a relação entre Massera e Alfano – e a eventual entrega à sex symbol de bens usurpados de pessoas detidas nos centros clandestinos de tortura da ditadura – foi preparado nos anos 70 por Enrique Arancibia Clavel, um dos espiões preferidos do ditador chileno Augusto Pinochet, autor do atentado contra o general Carlos Prats (braço-direito do presidente Salvador Allende na área militar) em Buenos Aires em 1974. Clavel apareceu assassinado há poucos meses em seu apartamento portenho, supostamente morto por um garoto de programa.

O escândalo aumentou quando a atriz Elsa Ayala afirmou que viu a ex-modelo com Massera nos anos 70 no escritório do almirante quando foi fazer um apelo por seu marido, um desaparecido político. Segundo Ayala, Alfano interrompeu a reunião com Massera com uma frase cortante: “basta, o almirante está ocupado e com muitas coisas para fazer”. Ayala replicou: “mas é a vida de meu marido!”. Alfano deu a tréplica: “bom, você não é a única…”.

Massera tentou flertar também com a presidente Isabelita Perón quando esta estava presa em Bariloche, afirmam biógrafos do defunto ex-almirante. Na foto, Massera está à esquerda.

CASANOVA - Massera, que morreu em dezembro passado após uma década em coma, nunca fez declarações públicas sobre seu hipotético caso nos anos 70 com a então jovem modelo. Com fama de “Casanova”, Massera – que assassinou os maridos de algumas amantes – ostentava impecáveis uniformes e permanente bronzeado. O militar, que foi definido pelo escritor e jornalista Miguel Bonasso como um “serial killer com sorriso de Gardel”, era famoso por sua crueldade, maquiavelismo e personalidade esquizofrênica. Entre 1976 e 1981 ele integrou a primeira troika que comandoua Argentina nos anos de chumbo.

Com a voltada democracia, foi detido e levado a julgamento em 1985 pelas acusações de 83 homicídios, 632 sequestros, 267 torturas, 102 roubos, 201 falsificações de documentos, 23 casos de pessoas reduzidas à escravidão, além de 11 sequestros de bebês e uma extorsão. Foi condenado à prisão perpétua, mas, cinco anos depois, foi indultado pelopresidente Carlos Menem(1989-99), sobre o qual também pairam rumores de um caso com Alfano na década de 90.

Graciela Alfano, pela rede de micro-bloggings Twitter, afirmou que nunca teve tipo algum de relação com “o senhor Massera” mais além de “um aperto de mãos” durante uma gala no Teatro Colón. Alfano também disse que sentia-se “caluniada”. A ex-sex symbol tentou defender-se das acusações afirmando que possui um “cunhado (Enrique Pecoraro) desaparecido da ditadura em1979”.

Sobre Pecoraro, a página que está em um site de d.humanos, aqui.

Capa do jornal Página 12 quando Massera pegou o ferry boat de Caronte no Aqueronte. Ou, quando abotoou o paletó de madeira. Ou ainda, quando foi bater alcatra na terra ingrata.

ESMA: IMOBILIÁRIA, MATERNIDADE E CLUBE DA PERVERSÃO

Dos 651 campos de concentração da Ditadura, a Escola de Mecânica da Armada (ESMA) tornou-se o mais emblemático. Dentro da cidadedeBuenos Aires,apoucos quarteirões do estádio Monumental de Núñez, foi o cenário das torturas mais cruéis do regime militar. De 5 mil pessoas que passaram por suas celas, somente umas 150 sobreviveram.A ESMA,segundo ojornalista e analista políticoEduardo Aliverti, era “um clube de perversão”.

Nesse lugar também funcionava uma maternidade clandestina, onde nasciam os bebês, filhos das prisioneiras políticas. As mães eram assassinadas após o parto, enquanto que as crianças eram entregues a famílias de militares sem filhos. Ao redor de 100 bebês nasceram na ESMA.

Enquanto que nos outros campos de concentração os militares recorriam a métodos “clássicos” como o fuzilamento, na ESMA os oficiais da Marinha, “eliminavam” os prisioneiros por meio dos “vôos da morte”. Esta era a denominação da modalidade de jogar os prisioneiros dos aviõesem plenovoô sobreo rio daPrata ou o Oceano Atlântico.

A Esma,alémde centrode detenção e torturas, também transformou-se em um armazém de bens confiscados dos prisioneiros. Durante os sete anos do regime militar, os oficiais da Esma enriqueceram com a venda de jóias, móveis antigos e obrasde arteroubadas das pessoas detidas. Além disso, Massera e seus cúmplices organizaram uma imobiliária, que vendia os apartamentos e casas dos prisioneiros.

“Viva Hitler”, “Nós somos deuses” eram algumas das frases que os oficiais haviam pintado nas paredes das salas de tortura, onde também violentavam as prisioneiras que minutos depois levavam – ainda em estado de choque e sangrando – para jantar em uma churrascaria de luxoem plenocentro portenho.

A jornalista Miriam Lewin, uma das sobreviventes da ESMA, relatou ao Estado o modus operandi dos militares: “eles tinham métodos muito refinados. Vários prisioneiros viram como torturavam seus bebês, na sua frente, ameaçando esmagar a cabeça das crianças”.

Espalhados em17 hectares, os diversos edifícios da ESNA que compõem o antigo centro de torturas possuem nomes que indicam o humor negro dos oficiais: “Avenida da Felicidade”, “Eldorado”, “O Capuz” e “O Pequeno Capuz” (estes dois últimos, em alusão aos capuzes que os militares colocavam sobre a cabeça dos prisioneiros, que freqüentemente ficavam semanas ou meses sem ver a luz do dia).

A Escola de Mecânica da Armada está a poucos quarteirões do estádio Monumental, do time River Plate.

Durante a Copa do Mundo de 1978, os prisioneiros podiam escutar desde suas celas as torcidas no estádio gritando “gol”. Nos dias de jogo os oficiais detinham as sessões de tortura para dedicar-se a ver pela TV os embates futebolísticos. Quando os jogos concluíam, dedicavam-se novamente a aplicar choques elétricos ou arrancar as unhas dos prisioneiros.

E nada a ver com a postagem acima, uma canção interpretada sobre sexo e nacionalidades pela ácida e genial Eartha Kitt. Aqui.

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Edifício do Congresso Nacional do Uruguai. Ali, no plenário do Senado, na noite da terça-feira, a Lei de Anistia aos militares foi anulada. A próxima etapa será a Câmara de Deputados, dia 4 de maio. Foto da Wikipedia.

Por 17 votos a 16 o Senado do Uruguai aprovou no final da noite desta terça-feira a anulação da “Lei de Caducidade Punitiva do Estado”, denominação aplicada à anistia concedida em 1986 aos militares que sequestraram, torturaram e assassinaram civis durante a ditadura que governou o Uruguai entre 1973 e 1985. A anulação da lei ainda precisa passar pela Câmara de Deputados no dia 4 de maio. Mas, ali, tudo indica, será aprovada graças à maioria confortável da Frente Ampla, a coalizão de centro-esquerda que governa o Uruguai desde 2005.

O fim da lei do perdão aos ex-integrantes da ditadura permitirá o julgamento dos oficiais envolvidos nos crimes da ditadura.

No entanto, essa aprovação está provocando polêmicas na sociedade e fissuras graves na coalizão de governo.

A Lei de Caducidade foi aprovada em 1986 pelo Parlamento sob fortes pressões dos militares, que ameaçavam realizar novos levantes nos quartéis.

Nos anos seguintes a pressão e o poder dos militares encolheu. Em 1989, com a democracia consolidada, a anistia foi confirmada em um plebiscito. Em 2009, de forma simultânea às eleições presidenciais, o eleitorado voltou a confirmar a aplicação da anistia.

O plebiscito em 2009 foi um balde de água fria nos organismos de defesa dos direitos humanos. No entanto, os parlamentares da Frente Ampla, nos últimos meses, mobilizaram-se novamente para tentar a anulação da anistia no plenário do Congresso Nacional.

Esta mobilização foi reforçada há poucas semanas quando a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Uruguai por não esclarecer um dos mais famosos casos de desaparecidos políticos, o do sequestro de um bebê e a morte de sua mãe, a uruguaia María Claudia García Irureta de Gelman, nora do poeta argentino Juan Gelman.

Um dos principais homens da Frente Ampla, o deputado Felipe Michelini, sustenta que levar os militares envolvidos nos crimes ao banco dos réus está relacionado com o respeito dos “direitos da vida das pessoas, direitos humanos intransferíveis”. Ele é filho do senador Zelmar Michelini, assassinado em Buenos Aires em 1976 por um comando argentino-uruguaio.

DIVERGÊNCIAS – A votação foi agitada, especialmente pela dissidência de dois veteranos, figuras emblemáticas da esquerda. 

Um deles, o senador Aparício Saravia, foi o único parlamentar do Frente Amplo que não respaldou o projeto de lei. Saravia foi punido com a expulsão do Espaço 609, grupo partidário que integra a Frente Ampla.

O outro foi o senador Eleutério Fernández Huidobro – preso e torturado durante os treze anos da ditadura – que votou a favor da anulação da anistia. Mas, na sequência, renunciou à sua vaga no Senado.

Huidobro, o único integrante do trio fundador nos anos 60 do grupo guerrilheiro “Tupamaros”, indicou que havia votado a favor somente por “disciplina partidária”.

Mas, ressaltou, a aprovação da anulação da anistia violava o “sagrado o respeito à soberania popular”, em referência aos dois plebiscitos que nas últimas duas décadas e meia indicaram que a população respaldava a permanência da anistia aos militares.

O presidente José Mujica anunciou nesta quarta-feira que não vetará o projeto de anulação da anistia. Segundo ele, o Parlamento é “a máxima representação” dos uruguaios, e portanto, seguirá sua decisão. “Sou contra os vetos presidenciais, por princípios”, disse Mujica, que argumentou que seria “um excesso vetar uma decisão do Parlamento, goste ou não goste”.

 

Manifestação em Montevidéu a favor da anulação da Lei de Caducidade, denominação da Lei de Anistia aos militares de 1986. Foto da Wikipedia.

SALVOS, ATÉ AGORA – Ao contrário dos militares que participaram de crimes contra a Humanidade durante a Ditadura na Argentina (1976-83), a maioria dos oficiais envolvidos com torturas e assassinatos no Uruguai não foram julgados por seus crimes.

No entanto, os organismos de defesa dos Direitos Humanos conseguiram driblar a lei em diversos casos, e – desde 2006 – puderam levar ao banco dos réus alguns militares e civis, entre os quais os ex-presidentes Juan María Bordaberry e Gregorio Alvarez. Ambos foram colocados na prisão por envolvimento nos casos de uruguaios assassinados no exterior. Esses casos específicos não estavam previstos pela lei de anistia, que contemplava somente os crimes cometidos dentro do território uruguaio.

Também foram extraditados para a Argentina e o Chile militares uruguaios que participaram de crimes nesses países dentro do Plano Condor.

FATOS E NÚMEROS DA DITADURA URUGUAIA

- Ditadura, que começou com um presidente civil títere, respaldado pelos militares, durou de 1973 a 1985.

- Ditadura foi implantada apesar do fim da guerrilha dos tupamaros em 1972. Os próprios militares anunciaram que a guerrilha havia sido “liquidada” um ano antes do golpe.

- Estimativas indicam que militares uruguaios torturaram 4.700 civis. A imensa maioria das vítimas não tinham vínculos com a guerrilha.

- Dentro do Uruguai militares assassinaram 34 pessoas. Outras 8 suicidaram-se para evitar a continuação da tortura.

- Militares uruguaios assassinaram 106 civis de seu país no exterior, principalmente na Argentina.

- Entre os desaparecidos existem seis crianças, das quais três nasceram durante o cativeiro das mães.

- Estimativas conservadoras afirmam que por causa da Ditadura, 250 mil uruguaios partiram em exílio. Outras estimativas sustentam que o êxodo chegou a 400 mil exilados. Em 1973, ano do golpe, o Uruguai tinha 2,8 milhões de habitantes.

MODALIDADE URUGUAIA: Comparada com outras ditaduras da região – como a Argentina, onde foram torturados e assassinados 30 mil civis (algumas lideranças militares, ex-integrantes da ditadura admitem o assassinato de 8 mil), ou o Chile, com 3.197 pessoas mortas pelos militares (de 27 mil torturados) – o massacre no Uruguai foi numericamente menor.  

No entanto, a ditadura uruguaia foi caracterizada por um elevado número de pessoas torturadas em comparação com os assassinados (mais de 4.700 pessoas sofreram torturas), além de períodos mais prolongados de cativeiro.

A ditadura torturou até o final do regime, já que em abril de 1984, sete meses das eleições que levariam o país novamente à democracia, foi registrada a última morte, a de Vladimir Roslik, na mesa de torturas.

Mais de 10 mil uruguaios foram presos por motivos políticos sem julgamento ou condenação durante o regime militar.

Um dos casos de prisões prolongadas é o do próprio presidente do Uruguai, José Mujica, que ficou preso em duras condições durante 13 anos, grande parte do quais na solitária. Mujica saiu da prisão com graves problemas renais que ainda hoje afetam sua saúde.

 

Bordaberry, o ditador civil que virou neologismo político

DITADURA E NEOLOGISMO – A “BORDABERRIZAÇÃO”: O presidente civil do início da ditadura uruguaia, Juan María Bordaberry, entrou para a História por gerar a criação, nos anos 70, de um termo da ciência política, a “Bordaberrização”. A palavra refere-se a uma ditadura militar que pretende ter aparência civil e para isso deixa (ou coloca) um presidente civil no cargo formal da presidência. 

Bordaberry havia sido eleito nas urnas em 1972 pelo partido Colorado. Em 1973, as forças armadas deram um golpe mas mantiveram Bordaberry no posto. Ele foi removido do cargo em 1976, um ano antes do final formal de seu mandato, previsto para 1977.

A ditadura no Uruguai foi encerrada no dia 1 de março de 1985. Quatorze dias depois, terminava a ditadura militar no Brasil.

 

Mujica, ao sair da prisão, em 1985

DA GUERRILHA AO PODER PELAS URNAS – Nascido em 1935 no seio de uma família de classe média austera, Mujica aderiu na juventude ao conservador Partido Nacional (Blanco). Mas, nos anos 60 passaria para a esquerda e fundaria, junto com outros colegas de origens comunistas e anarquistas, o Movimento de Liberação Nacional-Tupamaros. Ali conheceu Lucia Topolanski, uma bela militante que transformou-se em senadora e sua esposa.

Em 1972 foi detido no meio de um confronto com as forças de segurança. Foi ferido com seis balas, várias das quais ainda estão dentro de seu corpo. Sua prisão foi prolongada. Um total de 14 anos, ao longo dos quais foi torturado físicamente com intensidade pelos militares no final do governo civil e ao longo da Ditadura.

Sua psique também foi alvo de terrorismo.

Mujica, nos dias de bom humor dos guardas, só podia ir ao banheiro uma vez a cada 24 horas. Mas, com um capuz na cabeça que o impedia ver e com as mãos algemadas. Nos dias de má vontade de seus carcereiros, Mujica não podia ir no banheiro. Sem alternativa, suas fezes e urina escorriam pelas pernas.

Seu colega de guerrilha, Eleuterio Fernández Huidobro, indicou que Mujica, em diversas ocasiões, quando os guardas passavam dias sem lhe dar água, precisou recorrer ao próprios fluídos corporais. “Talvez tenhamos pela primeira vez um presidente que teve que beber sua urina”, ilustrou.

Em 1985, com a volta da democracia, Mujica recuperou a liberdade. Adaptado aos novos tempos, deixou de pregar a luta armada e transformou o grupo de ex-guerrilheiros em um coeso partido político que integra a coalizão Frente Ampla. Eleito senador, posteriormente, no governo do socialista Tabaré Vázquez, foi designado ministro da Agricultura.

Ali, começou a planejar sua conquista da presidência. Para não assustar a classe média e alta, indicou – com uma metáfora bovina – que não pretendia mais combater a burguesia: “não quero mais esmagá-la. Não. Eu quero é ordenhar a burguesia!”.

Em novembro de 2009 foi eleito. Tomou posse em março do ano passado.

Atualmente é considerado pelos empresários uruguaios um presidente “market-friendly”.

Mujica, em foto atual.

     

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Nicolaides, general que ordenou a queima dos comprometedores arquivos da ditadura militar argentina

Declarado admirador de Adolf Hitler, o general Cristino Nicolaides morreu neste fim de semana por problemas pulmonares na cidade de Córdoba, onde estava em prisão domiciliar. O general, de 86 anos, foi o autor da ordem direta de queimar os arquivos da ditadura militar argentina (1976-83) que continham informações sobre o paradeiro dos corpos dos desaparecidos, os bebês sequestrados e a estrutura e funcionamento dos centros clandestinos de tortura. A ordem foi emitida em novembro de 1983, um mês antes da volta da democracia, quando Nicolaides era o chefe do Exército durante o governo do general Reynaldo Bignone, o último ditador.

Nos anos anteriores Nicolaides havia sido um dos articuladores do Plano Cóndor, o esquema de intercâmbio de prisioneiros e colaboração de inteligência das ditaduras do Cone Sul nos anos 70.

Um mês antes do fim do regime militar Nicolaides preparou um relatório sobre os mortos da Ditadura, que denominou “Documento Final sobre a Luta contra a Subversão e o Terrorismo”, onde declarava a morte de todos os desaparecidos.

O documento destacava que todas as crianças nascidas em cativeiro estavam mortas.

Em 2007 Nicolaides foi condenado a 25 anos de prisão pelo sequestro e morte – sem julgamento prévio – de integrantes do grupo Montoneros que haviam retornado ao país em plena ditadura para realizar uma “contraofensiva” contra o regime militar.

Em dezembro do ano passado a Justiça comunicou ao militar que teria que voltar ao banco dos réus em fevereiro para ser julgado ao lado de seus ex-colegas de ditadura, os generais e presidentes Jorge Rafael Videla e Reynaldo Bignone, sobre o plano sistemático de sequestro de crianças, filhos dos desaparecidos.

No entanto, há poucas semanas seus advogados convenceram os juízes de que Nicolaides não estava em condições “mentais” de comparecer ao tribunal. Desta forma, poucos dias antes de morrer, o general conseguiu uma dispensa.

Seus parentes mantiveram sigilo sobre sua morte no sábado e somente comunicaram o óbito à Justiça Federal quando o corpo do militar já havia sido cremado no domingo.

Nicolaides era declarado admirador declarado do Führer Adolf Hitler. Acima, o vegetariano e austríaco líder do Terceiro Reich – antes de ser Führer – treina em 1930 sua sui generis gestualidade no estúdio do fotógrafo Heinrich Hoffmann.

MARX E CRISTO - Anticomunista ferrenho, Nicolaides era famoso por frases peculiares sobre o marxismo. “Há uma ação marxista-comunista na esfera internacional, que tem vigência há muito tempo. O marxismo persegue a Humanidade desde 500 anos antes de Cristo”, disse em 1981 durante uma conferência sobre políticos e sindicalistas.

 

Teoria do general argentino indicava que marxismo já existia uns 500 anos antes de Cristo

QUEIMA DE DOCUMENTOS - Pouco antes da volta à democracia, em 1983, no governo do ditador Reynaldo Bignone, o general Cristino Nicolaides ordenou a queima de todos os documentos relativos à repressão implementada pelo regime militar nos sete anos anteriores.

Na ausência de documentos, nos últimos 28 anos a Justiça teve que recorrer a um verdadeiro quebra-cabeça de informações dos sobreviventes dos campos de detenção e tortura, depoimentos de policiais e militares arrependidos, além de vestígios dos ossos das pessoas assassinadas pelo regime que foram identificados por antropólogos.

Entre os poucos papéis encontrados desde 1983 estão uma pequena parte dos arquivos secretos de “La Bonaerense”, a temida polícia da província de Buenos Aires, além de documentos do “Plano Condor” encontrados em Assunção, Paraguai, nos anos 90. 

 

General e ditador Reynaldo Bignone (à direita), acompanhado por seu chefe do Exército, o general Nicolaides (à esquerda).

QUEM É QUEM – O general Bignone foi o presidente da última Junta Militar da Ditadura. Ele governou o país após ter derrubado o general Leopoldo Fortunato Galtieri, cujo fracasso na Guerra das Malvinas (março-junho 1982) provocou sua queda.

Bignone, a contragosto, foi o encarregado de administrar a retirada dos militares do cenário político argentino e preparar as eleições de dezembro de 1983.

Antes de deixar o poder, no entanto, eliminou todos os documentos sobre a repressão e os 30 mil desaparecidos. Nessa destruição no último mês da Ditadura, quando era evidente que venceria o candidato da União Cívica Radical, Raúl Alfonsín, que havia prometido averiguar o paradeiro dos desaparecidos, foram queimadas as listas dos nomes dos mortos e onde haviam sido enterrados.

Além da destruição das evidências documentais, nas últimas semanas Bignone também tentou criar um aparato jurídico que protegesse os repressores dos processos da Justiça que poderiam vir na volta da Democracia. Para isso, decretou a Lei de Pacificação Nacional, onde anistiava todos aqueles que haviam cometido graves violações aos Direitos Humanos. A revogação dessa lei foi a primeira medida que Alfonsín tomou ao chegar ao poder.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Ex-ditador tentou argumentar – citando Santo Tomás de Aquino – que a ditadura havia feito uma “guerra justa”. Na foto, Videla – acompanhado por uma freira – em visita ao Chile, país na época comandado pelo general Augusto Ramón Pinochet. Nessa época, 1978, a ditadura argentina já havia matado 20 mil do total 30 mil desaparecidos em todo o período do regime militar, além de implantar 540 campos de detenção e tortura (dos mais diversos tamanhos) em todo o país. Paralelamente, Videla ia à missa todas as manhãs.

 ex-ditador e ex-general Jorge Rafael Videla, de 85 anos, passará o resto de seus dias na prisão. Essa foi a determinação do Tribunal Oral Federal Número Um da cidade de Córdoba, na região central do país, condenou à prisão perpétua o arquiteto do golpe de Estado que em março de 1976 implantou uma ditadura que durou sete anos, ao longo dos quais foram torturados e assassinados 30 mil civis.

O tribunal considerou Videla responsável direto de trinta e um assassinatos (camuflados na época como simulacros de fugas) e cinco torturas ocorridos em 1976 na Unidade Penitenciária San Martín, transformada na época em um campo de concentração de prisioneiros políticos nos primeiros meses do regime militar. Os presos haviam sido detidos meses antes, durante a democracia, antes do golpe de Videla.

Organizações de defesa dos Direitos Humanos, que haviam feito uma vigília ao longo do dia do lado de fora do edifício do tribunal em Córdoba, celebraram com estrépito o anúncio da condenação do ex-ditador. Outros 29 ex-integrantes da ditadura envolvidos nos crimes de Córdoba – entre eles o general Luciano Benjamín Menéndez – também foram condenados.

O prêmio Nobel da Paz de 1980, o argentino Adolfo Pérez Esquivel, estava presente na sala do tribunal.

O julgamento trouxe à tona uma série de depoimentos dramáticos, entre eles os de David Andematten, um dos sobreviventes do centro de detenção UP1, que relatou que os militares estupravam constantemente as mulheres detidas.

Na véspera do veredicto Videla havia feito uma prolongada defesa das ações do regime militar e alegou a “necessária crueldade” da ditadura. O ex-ditador também sugeriu que a “sociedade argentina” havia sido cúmplice da ditadura, já que, segundo ele, “não existiam vozes contrárias” ao regime militar. Videla também disse que sua sentença seria “injusta” e que ele era um “bode expiatório”.

 

‘O MAL EM SEU ESTADO PURO’ - María Seoane, que com Vicente Muleiro escreveu “O Ditador”, uma detalhada biografia não-autorizada do ex-general, disse ontem ao Estado – em entrevista telefônica – que “Videla não se arrepende de nada, pois voltaria a matar todos aqueles que matou. Não há nenhum rastro de arrependimento nele. É o mal em estado puro!”

Segundo Seoane, “Videla reunia-se com o chefe de inteligência antes de ir à missa de manhã cedo. Nessas reuniões informava-se sobre quantos inimigos o regime havia assassinado no dia anterior e como estavam funcionando os 540 campos de concentração da ditadura”.

Seoane, autora de diversos livros sobre a História recente argentina, sustenta que Videla e seus sucessores na ditadura (os generais Roberto Viola, Leopoldo Galtieri e Reynaldo Bignone) “não foram os mentores intelectuais do golpe, mas sim o braço armado dos grupos econômicos que respaldaram o golpe militar. Eles fizeram as matanças por dinheiro, para implantar seu modelo econômico. Depois, deram uma roupagem ideológica como o ‘combate ao comunismo’ e essas coisas. Mas, no fundo, era tudo por uma questão de dinheiro”.

 

‘GUERRA JUSTA’ E SANTO TOMÁS - “Uma guerra justa, como dizia Santo Tomás de Aquino”. Com estas palavras, Videla defendeu na terça-feira a atuação de seu governo na repressão de civis considerados “subversivos” pela ditadura. Vestido como um civil, com terno jaquetão, Videla falou com voz firme durante 45 minutos no Tribunal Oral Federal Número Um. Seu discurso foi transmitido ao vivo pelos principais canais de TV do país.

Videla insistiu na teoria de que nos anos 70 a Argentina estava sendo assolada por uma  “guerra interna” provocada por “subversivos estimulados pela União Soviética”. Segundo ele, para defender “o tradicional estilo de vida dos argentinos” foi necessário apelar às forças armadas e “aniquilar” os “grupos terroristas”.

Videla argumentou que lei na época permitia “aniquilar” os “subversivos”: “me nego a aceitar a expressão ‘guerra suja’, pois foi uma guerra limpa, defensiva. Como dizia Santo Tomás, há guerras injustas e justas. E esta foi uma guerra justa”.

Videla, sem citar a censura que imperava durante seu governo e o exílio ou prisão dos opositores, ressaltou que a ditadura “contou com adesão majoritária da população, por isso não houve vozes contra

MENÉNDEZ CONTRAFÁTICO - Poucas horas antes do anúncio dos veredictos, outro dos condenados, o general Luciano Benjamín Menéndez, afirmou que há sete anos (em referência ao período em que foram intensificadas as novas investigações sobre os crimes da ditadura) a Argentina está sob a violação sistemática da Constituição. Já são sete anos de autoritarismo!”.

Menéndez, que está em prisão preventiva desde 2008, já acumulava outras quatro condenações a prisão perpétua.

O general fez um jogo de História contrafática e disse que se o Exército Revolucionário do Povo (ERP, uma guerrilha que não tinha mais de mil integrantes, dos quais apenas um terço estava armado) tivesse vencido a “guerra” contra os militares “tudo seria conduzido por um governo totalitário”. Segundo ele, “os subversivos queriam assaltar o poder para transformar a Argentina em um satélite da Rússia. A subversão tinha como objetivo a alma de nosso povo”.

Menéndez sustentou que os “subversivos” dos anos 70 estão “atualmente no poder” na Argentina.

“EL PROCESO” - Videla organizou o golpe de 24 de março de 1976 que derrubou a presidente María Estela Martínez de Perón, mais conhecida como “Isabelita”. Na época o general batizou o novo regime de “Processo de Reorganização Nacionla”, popularmente conhecido como “El Proceso”. Ele governou a Argentina durante cinco anos (do total de sete da ditadura).

 

“El Turco” Julián dizia que era o Deus do circuito de centros de torturas. Deus, na ilustração de Julius Schnorr von Carolsfeld, 1860.

‘DEUS DA VIDA E DA MORTE’ PASSARÁ RESTO DE SEUS ANOS NA PRISÃO

 O Tribunal Oral Federal Número 2 da capital argentina condenou à prisão perpétua no final da noite da terça-feira o ex-policial Julio “El Turco” Simón, que operava no circuito dos campos de detenção e tortura de El Olimpo, Club Atlético e Banco, onde foram assassinados ao redor de 1.500 civis, entre os quais velhos e crianças. Os ex-torturadores que operavam neste circuito foram acusados de torturas, sequestros, estupros e assassinatos.

O tribunal também deu veredicto sobre outros dezesseis ex-torturadores que atuaram nesse circuito. Do total, onze foram condenadas à perpétua e quatro a 25 anos de prisão. Um dos réus, Juan “Kung Fu” Falcón, por falta de provas suficientes, foi absolvido.

A “estrela” do grupo era Simón, famoso por estuprar as prisioneiras na frente de seus maridos, com a justificativa de que o fazia “pela Pátria”. Ele ficou notório por seu sadismo extremo com os prisioneiros judeus (aos quais empalava com um cabo de vassoura) e deficientes físicos (que costumava jogar do alto de uma escada).

Simón ostentava uma braçadeira com uma suástica durante as sessões de tortura, enquanto ouvia fitas de marchas alemãs e discursos de Adolf Hitler.

BANHEIRO - Durante a leitura de sua sentença Simón quis sair da sala do tribunal. No entanto, os juízes não permitiram que se ausentasse durante a leitura. Simón retrucou que necessitava ir ao banheiro: “mas estou a ponto de urinar em minhas calças!”. A juíza Maria Garrigós de Rébori deu a tréplica: “não pode sair da sala”.

Em seus tempos de glória durante o regime militar, Simón definia a si próprio como “Deus da vida e da morte”.

CÓNDOR - Outro integrante do grupo é o ex-agente de inteligência Raúl Guglielminetti, um dos principais homens do “Plano Cóndor”, como foi denominado o sistema de captura e intercâmbio de prisioneiros políticos e informação entre as Ditaduras do Cone Sul nos anos 70.

Guglielminetti adquiriu notoriedade nas forças de segurança quando – entre 1974 e 1975 – foi o braço direito de Aníbal Gordon, chefe da organização para-militar “Triple A” (Tríplice A). Após o golpe de 1976 ele transformou-se no chefe do poderoso Batalhão 601 de Inteligência. No início dos anos 80 Guglielminetti foi enviado pelos militares para colaborar com os “contras” da Nicarágua, onde especializou-se na lavagem de dinheiro proveniente do narcotráfico.

Guglielminetti foi condenado a 25 anos de prisão.

Além deles também sentou no banco dos réus Ricardo Taddei, que simulava ser um sacerdote católico para ouvir confissões dos prisioneiros, aos quais posteriormente “absolvia” ou “castigava”. O ‘padre’ foi condenado a 25 anos de prisão.

Convescote de ditadores: os colegas Videla e Pinochet em 1978.

CRONOLOGIA DA DITADURA E ASSUNTOS RELATIVOS

1976-1983  – Ditadura Militar

1983 – Volta à democracia

1985 – Início dos julgamentos aos militares

1986 – Rebeliões militares. Primeira lei do perdão, a ‘Ponto Final’

1987 – Mais rebeliões militares. Segunda lei do perdão, a ‘Obediência Devida’

1990 – A última rebelião militar. Indulto às cúpulas militares

1998-99 – Abertura dos processos por sequestros de crianças, crime não incluído nos julgamentos dos anos 80

2005-2007 – Revogação das Leis do Perdão e abertura de novos julgamentos.

E, como fazemos tradicionalmente, recordamos de forma esquemática algumas características da ditadura argentina:

MODALIDADES DE ASSASSINATOS

Formas de assassinar civis, por parte dos militares, durante a Ditadura:

- Jogar pessoas vivas, desde aviões, sobre o rio da Prata ou o Oceano Atlântico.

- Juntar prisioneiros, amarrados, e dinamitá-los.

- Fuzilamento.

- Morte por terríveis torturas

 MODALIDADES DE TORTURAS

- Picana elétrica: criada nos anos 30 na Argentina por Leopoldo Lugones Hijo, filho do escritor Leopoldo Lugones. Era o instrumento para assustar o gado com choques elétricos. Aplicado a seres humanos, tornou-se no instrumento preferido de tortura na Argentina.

- Submarino molhado: afundar a cabeça de uma pessoa em uma tina d’água. Ocasionalmente a tina também estava cheia de excrementos humanos.

- Submarino seco: colocar a cabeça de uma pessoa dentro de um saco de plástico e esperar que ela ficasse quase asfixiada.

- O rato no cólon: colocação de um rato, faminto, no cólon de um homem. Nas mulheres, o rato era colocado na vagina.

Diversas testemunhas indicam que os torturadores argentinos ouviam marchas militares do Terceiro Reich e discursos de Adolf Hitler enquanto torturavam.

OS MORTOS
- Durante a Ditadura, militares e policiais argentinos assassinaram ao redor de 30 mil civis (segundo organismos de defesa dos Direitos Humanos argentinos e organizações internacionais), a maioria dos quais sem militância na guerrilha.
 
- Os militares afirmam que assassinaram “somente” 8 mil civis (segundo declarações do próprio general e ex-ditador Reynaldo Bignone, à TV francesa)
 
- Segundo os próprios militares, a guerrilha e grupos terroristas assassinaram 900 pessoas, a maioria dos quais militares e policiais.
 
BEBÊS
- Durante a Ditadura 500 bebês foram sequestrados, filhos das desaparecidas (segundo dados das Avós da Praça de Mayo)
- 102 crianças desaparecidas foram recuperadas ou identificadas por suas famílias biológicas

FRACASSOS ECONÔMICOS E MILITARES: Além de ter sido a mais sanguinária Ditadura foi um fracasso tanto na área militar como na esfera econômica.

Fiascos Militares:

- Entre 1976 e 1978 a Ditadura colocou quase a totalidade das Forças Armadas para perseguir uma guerrilha que já estava praticamente desmantelada desde antes do golpe, em 1975. Analistas militares destacam que este desvio das Forças Armadas argentinas (que havia iniciado no final dos anos 60 mas intensificou-se a partir do golpe) reduziu drásticamente o profissionalismo dos militares. 

- Em 1978, a Junta Militar argentina levou o país a uma escalada armamentista contra o Chile. Em dezembro daquele ano, a invasão argentina do território chileno foi detida graças à intermediação papal. O custo da corrida armamentista colocou o país em graves problemas financeiros.

- Em 1982, perante uma crise social, perda de sustentabilidade política e problemas econômicos, o então ditador Leopoldo Fortunato Galtieri – famoso por seu intenso approach ao scotch – decidiu invadir as ilhas Malvinas para distrair a atenção da população. Resultado: após um breve período de combate, os oficiais do ditador renderam-se às tropas britânicas.

Desastres econômicos:

- Em sete anos de Ditadura, a dívida externa subiu de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões.

- A inflação do governo civil derrubado pela Ditadura, que era considerada um índice “absurdo alto” pelos militares havia sido de 182% anual. Mas, este índice foi superado pela política econômica caótica da Ditadura, que encerrou sua administração com 343% anual.

- A pobreza disparou de 5% da população argentina para 28%

- A participação da indústria no PIB caiu de 37,5% para 25%, o que equivaleu a um retrocesso dos níveis dos anos 60.

- Além disso, a Ditadura criou uma ciranda financeira, conhecida como “la plata dulce”, ou, “o doce dinheiro”.

- Ao mesmo tempo em que tomavam medidas neoliberais, como a abertura irrestrita das importações, os militares continuavam mantendo imensas estruturas nas empresas estatais, que transformaram-se em cabides de emprego de generais, coronéis e seus parentes.

- Os militares também estatizaram US$ 15 bilhões de dívidas das principais empresas privadas do país (além das filiais argentinas de empresas estrangeiras).

- No meio desse caos econômico, os militares provocaram um déficit fiscal de 15% do PIB.

- A repressão provocou um êxodo de centenas de milhares de profissionais do país. Os militares, em cargos burocráticos, exacerbaram a corrupção na máquina estatal.

‘GUERRA’ OU REBELIÃO LOCALIZADA? – Os militares deram o golpe e instauraram a ditadura mais sanguinária da História da América do Sul (América do Sul, não América Latina) com o argumento (um dos vários) de que a guerrilha controlava grande parte do país. Segundo os ex-integrantes da ditadura, os militares argentinos implementaram uma “guerra”.

No entanto, trata-se de um exagero para justificar os massacres cometidos durante a ditadura.

A pequena guerrilha argentina, mais especificamente o ERP, dominava às duras penas uma pequena porcentagem da província de Tucumán, a menor província da Argentina.

A magnificação da guerrilha foi útil para os militares e também para o prestígio dos guerrilheiros. A nenhum dos dois lados era conveniente admitir a realidade, de que a área controlada pela guerrilha era ínfima.

Os militares e os setores civis que apoiaram o golpe (e os saudosistas daqueles tempos) afirmavam (e ainda afirmam) que o país estava em guerra civil nos nos 70.

Mas, “guerra civil”, rigorosamente, seriam conflitos de proporções mais substanciais, tais como a Guerra da Secessão dos EUA, a Guerra Civil Espanhola, a Guerra Civil Russa logo após a proclamação do Estado Soviético, a Guerra das Duas Rosas (Lancasters versus Yorks, na Inglaterra) ou a Guerra Civil da Grécia após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Ainda: a Guerra Civil da Nicarágua, e a de El Salvador. Isto é: bombardeios de cidades, grandes êxodos de refugiados, centenas de milhares de mortos, uma boa parte de um país controlado por um dos lados, e outra parte controlada por outro lado. Isso não ocorreu na Argentina nos anos 70.

E o humor ácido de Quino sobre os regimes ditatoriais:

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Quepe do almirante Emilio Massera sobre a mesa do banco dos réus no julgamento de 1985 

Na mesma semana em que o último ditador argentino, o general Reynaldo Benito Bignone, foi condenado a 25 anos de prisão por crimes contra a Humanidade – e enviado a uma prisão comum – os argentinos comemorarão hoje, quinta-feira, um quarto de século do início do julgamento dos principais líderes das juntas que governaram a Argentina durante a ditadura militar (1976-83). O inédito julgamento de ex-ditadores na América Latina foi denominado em todo o mundo de “o Nuremberg argentino”, em alusão ao julgamento de Nuremberg, que em 1947 condenou os criminosos de guerra nazistas.

A Argentina havia voltado à democracia pouco tempo antes, em dezembro de 1983. O país era governado pelo presidente Raúl Alfonsín (1983-1989), que enfrentava pressões intensas dos quartéis para não “ousar” realizar o julgamento que colocaria no banco dos réus os responsáveis pelas graves violações aos Direitos Humanos ao longo dos sete anos de regime militar.

Na ocasião, as principais figuras da ditadura, entre elas os generais Jorge Rafael Videla, Roberto Viola, Leopoldo Galtieri e o almirante Emilio Massera, sentaram no banco dos réus para responder à acusação de sequestros, torturas, detenções ilegais em campos de concentração clandestinos, roubo de bens e o assassinato de 30 mil civis, além do ocultação da maior parte dos corpos das vítimas, que ficaram conhecidas como os “desaparecidos”.

O promotor Julio César Strassera disse ao Estado que devido ao número de 10 mil de delitos sobre os quais existiam constâncias, foi necessário focalizar o julgamento sobre os “casos paradigmáticos”. Desta forma, a promotoria apresentou 709 casos, dos quais o tribunal decidiu examinar 280.

O general Videla e o almirante Massera foram condenados à prisão perpétua. Outros, como o general Viola, recebeu a sentença de 17 anos. O julgamento, iniciado em abril, concluiu em dezembro de 1985.

REBELIÕES – No entanto, uma série de rebeliões militares paralisaram o processo das investigações dos restantes crimes da ditadura. Em 1986, um dos levantes dos quartéis obrigou o governo Alfonsín a assinar a Lei de Ponto Final, que determinava um prazo exíguo para a abertura de novos processos contra os militares. Em 1987, outra rebelião forçou o governo a assinar a Lei de Obediência Devida, que eximia os subordinados de qualquer culpa, já que haviam cometido crimes “por ordens superiores”.

Em 1990, o presidente Carlos Menem decretou um polêmico indulto dos líderes militares. Apesar dos perdões presidenciais, organismos de defesa dos direitos humanos conseguiram explorar uma brecha nos indultos, a dos sequestros de crianças. Desta forma,  vários militares puderam ser levados novamente à prisão, como o general Videla, detido em 1998 em prisão preventiva.

Em 2005, a declaração de inconstitucionalidade das leis do perdão ao ex-integrantes da ditadura permitiu a retomada de uma série de processos que haviam sido engavetados desde o final dos anos 80.

blogjuntas 

Alguns dos ex-integrantes da Ditadura, durante o julgamento de 1985

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MILITARES QUERIAM TROCAR JULGAMENTO POR CONFISSÃO

 Há 25 anos, no dia 22 de abril de 1985, Julio Strassera tornava-se famoso em todo o mundo ao iniciar as acusações dos ex-integrantes das juntas militares. Um quarto de século depois, aos 77 anos, Strassera recebeu o Estado em seu apartamento no bairro da Recoleta para uma entrevista na qual recordou a tarefa sem precedentes de colocar os ex-ditadores no banco dos réus.

Estado – O julgamento das juntas compara-se ao tribunal de Nuremberg? 

Strassera – Este foi um caso único no mundo. Não se compara a Nuremberg, já que esse tribunal foi feito por um exército vitorioso estrangeiro. O julgamento aos integrantes da ditadura na Argentina teve as mesmas necessidades morais de Nuremberg, mas foi superior do ponto de vista jurídico. É que foi a primeira vez que tribunais civis julgaram pessoas que detiveram a somatória do poder público. Isso foi possível graças a uma decisão política (do presidente Raúl Alfonsín). Foi até diferente do caso do julgamento dos coronéis gregos (em 1975), condenados por traição à pátria. Aqui os militares foram condenados por delitos comuns, aplicando para isso o Código Civil. Isto é, sequestros, roubos, assassinatos.

Estado – Dias antes de iniciar pediram-lhe ‘suavizar’ o julgamento?

Strassera – Uma pessoa me ligou e disse que os militares estavam dispostos a confessar em troca de que não fossem julgados por seus crimes nem que eu apresentasse as provas. Além disso, pediam que as vítimas não dessem seus depoimentos sobre as atrocidades. De nada servia uma confissão ôca, do gênero “confesso pelo bem da pátria”. Mandei aos diabos essa proposta…

Estado – O que achou da condenação, anunciada na terça-feira, do general Bignone, o último ditador, a 25 anos de prisão por sequestros e torturas?

Strassera – Sua condenação e envio à uma prisão comum é correta, pois é uma consequência direta dos processos feitos contra o ex-ditador nos anos 80.

Estado – Bignone, antes de ouvir sua sentença, que a ditadura havia combatido “uma guerra” dentro do país contra a “subversão”…

Strassera – Aqui nunca houve uma guerra, nem uma guerra civil, tal como foi na Espanha nos anos 30. E, na hipótese que tivesse sido uma “guerra”, os presos teriam que ter sido colocados como prisioneiros de guerra, e não de forma clandestina..Além disso, em 1975 (um ano antes do golpe) o general Omar Riveros informou a Junta Interamericana de Defesa que a subversão havia sido militarmente destruída e desarticulada. Em 1976, quando começou a ditadura, não havia mais “guerra”. Isto aqui foi similar à uma caça!

Estado – Acha que o esforço feito há 25 anos é reconhecido?

Strassera – O governo da presidente Cristina Kirchner empenha-se em ignorar o julgamento de 1985, enquanto tenta prolongar ao máximo os julgamentos atuais. Os Kirchners querem que os novos julgamentos sejam seu grande trunfo. A oposição apresentou projetos para acelerá-los. Mas o governo sequer se interessou em discuti-los, pois quer aparecer como campeão dos direitos humanos. A verdade é que quando houve o golpe, em 1976, os Kirchners mudaram-se para Santa Cruz (terra natal de Néstor Kirchner) para dedicar-se, como advogados, à execução de hipotecas. Nunca assinaram um habeas corpus para os prisioneiros políticos, ao contrário de outros advogados que tiveram coragem.

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Sala de julgamento. Réus à esquerda, juízes à direita

Estado – Não teve medo na época do julgamento? Colocou no banco dos réus homens que haviam ordenado torturas e assassinatos…

Strassera – Nunca tive guarda-costas. E não é uma questão de valentia. Veja só o que aconteceu com (a primeira-ministra da Índia), Indira Gandhi, assassinada pelos próprios guarda-costas! Encaramos as ameaças com humor na época. Um dia telefonaram para fazer ameaças. Minha secretária respondeu à pessoa: “olhe, são 10:15 horas…o horário de atenção para ameaças vai de 9:00 às 10:00. Se quiser encaminhar uma ameaça, ligue amanhã” (Strassera ri longamente).

Estado – Por qual motivo os julgamentos não foram transmitidos pela TV?

Strassera – Alfonsín ficou preocupado pela reação da população. “Estas coisas podem comover gravemente a opinião pública”, me disse. É que havia depoimentos impactantes, como a mãe do adolescente Floreal Avellaneda, que foi empalado pelos militares! As coisas que essa mãe relatava! Uma mãe disse que seu filho havido sido pego armando uma bomba. Olhe só: ela não disse que seu filho era um santo. Mas, na sequência, ela disse: “mas ele não merecia um julgamento, tal como este que está acontecendo? Mas, os militares o mataram e me devolveram meu filho na forma de um saco com ossos”. Eram coisas muito graves para que a TV transmitisse todos os dias…

Estado – O que achou das Leis de Ponto Final e de Obediência Devida? E o que pensa do indulto concedido por Menem à cúpula militar?

Strassera – As leis de ponto final e obediência devida são ditadas após duas rebeliões militares. Mas, os indultos foram uma imoralidade gratuita, já que não existiam nem pedidos da sociedade para isso, sequer pedidos setoriais, isto é, dos quartéis. Mas, considero que o ex-presidente Carlos Menem quis ficar bem com vários setores simpatizantes da ditadura, como alguns setores da Igreja Católica, de certos empresários e de vários líderes sindicais. O governo Alfonsín estava contra a parede na época das leis de ponto final e obediência devida. Menem não estava contra a parede… 

Estado – No julgamento algum dos réus teve um comportamento sui generis?

Strassera – Videla era esquisitíssimo, pois ficava sentado lendo um livrinho religioso, ignorando tudo o que acontecia na sala. Massera era agressivo. Ele fez um discurso final furioso. E Viola, ao ver que o público aplaudia as sentenças, virou-se para as pessoas e começou a insultá-las com pesados palavrões…

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ÚLTIMO DITADOR FICARÁ EM PRISÃO COMUM

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Reynaldo Benito Bignone, nos tempos de uniforme de gala, quando presidia o país

blog1hand-prawo2O general Reynaldo Benito Bignone, último presidente de fato da ditadura argentina (1976-83), foi condenado na terça-feira a 25 anos de prisão pelos crimes de roubos armados, sequestros prolongados com violências de 29 pessoas, além de torturas a outros 38 civis durante o regime militar no Campo de Mayo, o maior complexo de detenção e torturas dos anos 70 no país. O veredicto foi anunciado no tribunal oral da cidade de San Martín, na Grande Buenos Aires. O tribunal determinou que Bignone não desfrutará da prisão domiciliar, já que terá que ir à uma penitenciária comum.

“Falam nesse tal número de 30 mil desaparecidos…mas nunca demonstraram que foram mais de 8 mil”. disse Bignone, antes de ouvir a sentença. Na sequência, negou os sequestros de bebês, filhos das desaparecidas: “falam em 500 roubos de bebês, mas não chegam a 30 e nenhum deles foi cometido por militares”.

O ex-ditador tentou mostrar a repressão exercida durante o regime como um evento épico, ao exclamar: “a luta contra o terrorismo nos anos 60 e 70 na Argentina foi uma guerra!”.

Além de Bignone foram condenados outros cinco altos oficiais militares e um delegado de polícia por crimes cometidos em Campo de Mayo, o maior complexo clandestino de detenção da ditadura.

Dentro do perímetro de Campo de Mayo funcionavam quatro centros de tortura e uma maternidade clandestina, onde davam à luz as prisioneiras. Após o parto, as mães eram assassinadas, enquanto que os bebês eram entregues a famílias de militares ou policiais sem filhos.

Bignone, uma das principais figuras do golpe de 1976, governou a Argentina entre o fim da guerra das Malvinas, em junho de 1982 e a volta da democracia, em dezembro de 1983. Em 1985 foi julgado e condenado à prisão. No entanto, em 1990 foi indultado pelo então presidente Carlos Menem (1989-99).

Em 1999 foi detido graças à uma brecha no indulto, que não contemplava o perdão pelo sequestro de crianças. Em 2004, com a revogação das Leis de Perdão no Parlamento – e a confirmação dessa medida na Corte Suprema em 2007 – novos processos foram abertos contra Bignone. Em janeiro do ano passado foi novamente ao banco dos réus pela acusação de sequestro, torturas e assassinatos de civis realizados em Campo de Mayo.

Em 1983, poucos meses antes da volta à democracia, Bignone ordenou a eliminação dos arquivos da repressão da ditadura, principalmente aqueles que indicavam o paradeiro dos corpos dos prisioneiros políticos.

DITADURA, UM FRACASSO MILITAR E ECONÔMICO

blog1hand-prawo2Na madrugada do dia 24 de março de 1976 uma junta militar derrubou a presidente civil Isabelita Perón. A ditadura, que duraria sete anos – considerada a mais sanguinária da História da América do Sul – teria um saldo de 30 mil civis assassinados nos centros clandestinos de detenção. A ditadura também sequestrou 500 bebês, dos quais somente 101 recuperaram sua identidade até hoje.

O saldo econômico do regime também foi desastroso. Em sete anos de ditadura a dívida externa disparou de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões.

A inflação aumentou de 182% anual para 343%.

Além disso, a pobreza cresceu de 5% da população para 28%.

De quebra, a ditadura implantou uma ciranda financeira que intensificou o caos econômico.

E, para complicar, a improvisada administração militar provocou um déficit de 15% do PIB.

Além disso, a ditadura argentina implementou grandes negociatas, entre elas a organização da Copa do Mundo de 1978, cujo orçamento inicial era de US$ 70 milhões. Custo final da Copa: US$ 700 milhões (o valor supera amplamente o custo da Copa realizada na Espanha, em 1982, que foi de US$ 520 milhões).

Na área militar a ditadura implementou uma corrida armamentista com o Chile em 1978. Os dois países, que disputavam o canal de Beagle, quase entraram em guerra. A invasão argentina foi detida graças à mediação do papa João Paulo II.

Quatro anos depois, o ditador Leopoldo Galtieri ordenou uma improvisada invasão das ilhas Malvinas, sob controle britânico, desafiando a primeira-ministra Margareth Thatcher a enviar tropas. A guerra terminou com a estrepitosa derrota da ditadura em dois meses e meio.

Paradoxos: A Ditadura tinha um discurso anticomunista mas continuou vendendo trigo para a URSS e não aderiu ao boicote americano contra as Olimpíadas de Moscou em 1980.

 blogditaduratanques

Ditadura fez festival de gastos em armanentos e cabides de emprego em estatais e pouco investimento em infraestrutura

‘GUERRA’ OU REBELIÃO LOCALIZADA?

blog1hand-prawo2Os militares deram o golpe e instauraram a ditadura mais sanguinária da História da América do Sul (América do Sul, não América Latina) com o argumento (um dos vários) de que a guerrilha controlava grande parte do país. Segundo os ex-integrantes da ditadura, os militares argentinos implementaram uma “guerra”.

No entanto, trata-se de um exagero para justificar os massacres cometidos durante a ditadura.

A pequena guerrilha argentina, mais especificamente o ERP, dominava às duras penas uma pequena porcentagem da província de Tucumán, a menor província da Argentina.

A magnificação da guerrilha foi útil para os militares e também para o prestígio dos guerrilheiros. A nenhum dos dois lados era conveniente admitir a realidade, de que a área controlada pela guerrilha era ínfima.

Os militares e os setores civis que apoiaram o golpe (e os saudosistas daqueles tempos) afirmavam (e ainda afirmam) que o país estava em guerra civil nos nos 70.

Mas, “guerra civil”, rigorosamente, seriam conflitos de proporções mais substanciais, tais como a Guerra da Secessão dos EUA, a Guerra Civil Espanhola, a Guerra Civil Russa logo após a proclamação do Estado Soviético, a Guerra das Duas Rosas (Lancasters versus Yorks, na Inglaterra) ou a Guerra Civil da Grécia após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Ainda: a Guerra Civil da Nicarágua, e a de El Salvador. Isto é: bombardeios de cidades, grandes êxodos de refugiados, centenas de milhares de mortos, uma boa parte de um país controlado por um dos lados, e outra parte controlada por outro lado. Isso não ocorreu na Argentina nos anos 70.

blog1vinhetas6

Ditadores bizarros: Em setembro de 1980, no governo do general Videla, as autoridades proibiram o uso do livro “O pequeno príncipe” nas escolas, por considerá-lo “subversivo”.

 As autoridades também proibiram um livro de engenharia elétrica, o “Cuba electrolítica” (isto é, ‘célula eletrolítica’). Os censores acreditaram que o ‘cuba’ referia-se à ilha caribenha, controlada pelo regime comunista de Fidel Castro. 

O general Ramón Camps, que administrava a província de Buenos Aires com mão de ferro, considerava que as crianças filhas dos prisioneiros políticos herdavam, genéticamente, os “cromossomos da subversão”.

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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