
Paul e Maradona? Não, trata-se do incrível polvo que os tripulantes e passageiros observavam desde o elegante salão principal do submarino Nautilus, do capitão Nemo, da obra do genial escritor francês Jules Verne. A nacionalidade desse polvo anônimo era desconhecida, bem como a nacionalidade do capitão Nemo. A gravura é do ilustrador preferido de Verne, o francês Édouard Riou (1833-1900), discípulo de outro batuta artista, Gustave Doré (1832-1883)
PAUL E JORGE, ORÁCULOS RIVAIS – Nunca antes na História da Argentina um polvo foi alvo de tantos comentários como Paul, o octópode residente do aquário da cidade alemã de Oberhausen. O cefalópode, nascido na Inglaterra mas criado na Alemanha, vaticinou – à sua maneira ‘polvesca’ – que a Argentina vai ficar de fora da Copa do Mundo.
Os setores da torcida argentina que se aferram a superstições acompanharam preocupados os acertos anteriores de Paul.
Longe da fumaceira que saia de rachaduras no chão no Oráculo de Delfos para que a pitonisa de plantão emitisse suas predições, o modus operandi do polvo Paul para vislumbrar o futuro futebolístico é o de escolher a comida que está em um dos dois recipientes que seus donos humanos lhe colocam.
O polvo, até agora, concentrou-se apenas nos jogos nos quais a seleção alemã participa (não avaliou jogos nos quais o teutão time não esteve presente). Todos os resultados previstos pelo octópode foram corretos, até o momento.
E, para desacreditar os críticos que só enxergam uma manipulação nacionalista de seus tentáculos, o polvo, como prova de neutralidade, no embate Alemanha-Sérvia escolheu o recipiente sérvio.
Desta forma, dias antes do jogo vaticinou a vitória da seleção balcânica, posteriormente confirmada no estádio.
No caso do embate Argentina versus Alemanha, o polvo Paul demorou mais do que o costumeiro em escolher a comida. Paul levou aproximadamente uma hora até comer o mexilhão que estava no frasco com a bandeira alemã. Interpretação dos especialistas: a Alemanha vencerá, mas com grandes dificuldades.

O polvo na antiguidade: aqui, aparece no escudo de um guerreiro grego em um vaso de cerâmica.
Fanáticos em Buenos Aires propõem que o octópode anglo-germânico seja transformado em uma paella. O jornal “El Dia”, da cidade de Quilmes, avaliando o tamanho de Paul, indicou que para prepará-lo como ‘polvo à galega’ seriam necessárias quatro batatas de tamanho médio, azeite de oliva a gosto, além de umas boas pitadas de pimentão. O jornal também indica que o polvo pode ser preparado ao escabeche ou na grelha. As recomendações culinárias-futebolísticas do “El Día”, aqui.
Outros, sem intenções de acabar com a vida do cefalópode transformado em pitonisa, anunciaram que a Argentina conta com seus próprios oráculos animais.
Esse é o caso da tartaruga Jorge, que reside em um aquário da cidade de Mendoza, no sopé da Cordilheira dos Andes.
Jorge foi colocado na frente de uma bandeira da Alemanha e de outra da Argentina. O quelônio em questão optou por ficar embaixo da bandeira argentina, atitude que foi interpretada pelos funcionários do aquário como um sinal de que a Argentina vencerá neste sábado.
Na Alemanha, como contraponto às propostas argentinas de transformar Paul em componente de paella, apareceram sugestões para que Jorge vire Schildkrötensuppe. Isto é, no idioma de Johann Wolfgang von Goethe e Heidi Klum, ‘sopa de tartaruga’.
Jorge possui 70 anos e pesa 100 quilos. Ele está no aquário de Mendoza desde 1984. Ao longo desse período o quelônio não havia exibido sinais de apreciar esse britânico sport.
Mas, para reforçar o vaticínio de Jorge os torcedores imediatamente recorreram a outros oráculos animais. Esse foi o caso de Sayco, um golfinho do aquário do balneário argentino de Mar del Plata, que também profetizou a vitória argentina, na interpretação de seus treinadores.
O modus operandi de Sayco foi do de pular quatro metros e bater com a ponta de sua boca uma bola com as cores da Argentina. O mamífero não escolheu a outra bola pendurada, decorada com as cores da Alemanha.
O problema, segundo os especialistas no vasto universo dos oráculos, é que nem Jorge e Sayco possuem experiência prévia como profetas, ao contrário de Paul, que iniciou sua nova profissão semanas atrás, quando a Copa do Mundo começou.
Com ironia, nesta sexta-feira, o sóbrio jornal “La Nación” estampou em sua edição online a notícia de que Paul havia acertado o resultado. No entanto, em outro jogo … a notícia, aqui.

Na antiguidade, muitas culturas acreditavam que o mundo estava instalado acima de uma tartaruga. Agora, muitos acreditam que a Copa do mundo depende de um quelônio.
SUPERSTIÇÕES MARADONIANAS – E já que o universo da Copa do Mundo permite as mais delirantes especulações, teorias, análises e crenças, incluiremos aqui uma lista das superstições do técnico Diego Armando Maradona.
“El Diez” (O Dez) pratica uma série de rituais com a certeza de que isso lhe possibilitará obter a vitória na Copa do Mundo.
Aqui seguem algumas das várias superstições maradonianas:
a) No dia dos jogos fala com suas filhas por telefone. É sine qua non. Não pode ser pessoalmente. Tem que ser por telefone, com as duas.
b) No estádio, os parentes devem sentar na primeira fila. Todos.
c) Maradona não usa pijama. Dorme com a camiseta da seleção. Com o número 10 nas costas.
d) Maradona sempre dá uma coletiva de imprensa antes dos jogos no estádio em Pretoria. No entanto, neste sábado isso não será possível. Terá que ser na cidade do Cabo. Maradona não gostou de ter que ‘quebrar’ essa tradição.
e) Maradona sempre sai do quarto uma hora e meia antes dos jogos, Exatamente uma hora e meia antes.
f) O técnico, antes de cada jogo, aproxima-se de um grupo de torcedores que sempre lhe entrega algum objeto com representações pictóricas da copa de 1986 (a que ele venceu): um jornal, uma revista, uma foto daquela copa.
Mais tartarugas: gravura japonesa do período Edo (1603-1868)
TEOLOGIA E COPA, NO PARAGUAI: O presidente do Paraguai, Fernando Lugo, recorreu a seu know-how sobre teologia dos tempos em que foi bispo da Igreja Católica (ele deixou o sacerdócio – e alguns filhos extra-batina pelo meio do caminho – poucos meses antes de assumir a presidência da República) e afirmou que Deus, em sua “Justiça Divina” fará que um dos países do Mercosul chegue à final da Copa do Mundo.
Lugo, famoso por seu apreço pelo futebol, sustentou que “Deus fará Justiça. Pelo menos vai querer que alguma seleção do Mercosul esteja na final”.
Segundo Lugo, o fato de que todas as seleções do bloco do Cone Sul ainda permaneçam dentro da Copa é uma demonstração da Justiça de Deus.
Além de indicar que o Ser Supremo interromperia seus afazeres cósmicos para definir um evento esportivo organizado pela FIFA, o ex-bispo e presidente também interpretou o recente comportamento de Joseph Blatter (presidente da FIFA) – de pedir desculpas pelos problemas que as seleções da Inglaterra e do México tiveram com os árbitros – como uma intervenção divina nos assuntos da Copa do Mundo.
“Por esse motivo (isto é, Deus) Blatter pediu perdão pela má atuação de alguns árbitros”, afirmou o ex-bispo, categórico.

Detalhe da obra “Criação do Sol e da Lua”, na Capela Sistina, Vaticano, 1511. A face divina na a concepção de Michelangelo Buonarroti. Segundo Lugo, o Ser Supremo está de olho nesta Copa.

Detalhe mais amplo, da mesma obra de Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (nascido em Caprese, 1475; falecido em Roma, em 1564). Não são bolas de futebol ou jabulanis nas duas extremidades… do lado esquerdo, o Sol. Do lado direito, a Lua.
VUVUZELAS E POLÍTICA, NO PARAGUAI: As vuvuzelas, ou, pelo menos, as mini-vuvuzelas chegaram também ao âmbito político paraguaio. O début desse instrumento de sopro ocorreu no Parlamento do Paraguai, em Assunção, quando o senador Alfredo Jeaggli – que também ostentava um gorro frígio, vermelho, comme il faut – empunhou uma versão ‘mini’ do instrumento sul-africano para interromper o discurso do presidente Fernando Lugo.
Jaeggli explicou sua atitude: “este governo é um circo, e em um circo sempre existem palhaços”.
O senador, intensamente influenciado pelo clima de Copa do Mundo, gritou no meio do discurso presidencial: “o povo tem que se respeitado!”. Na sequência, como se fosse um árbitro, exibiu um cartão vermelho, em sinal de falta do presidente Lugo no “jogo da política” paraguaia.
COPA E COMÉRCIO EXTERIOR UNIÃO EUROPEIA-MERCOSUL: Na terça-feira as delegações dos países do Mercosul e da União Europeia retomaram as conversas suspensas desde 2004 para tentar conseguir um eventual Tratado de Livre Comércio.
As conversas iniciaram na terça-feira e foram encerradas nesta sexta-feira.
No entanto, as cruciais discussões para definir o futuro dos bilionários fluxos comerciais foram interrompidas em diversas ocasiões para que os negociadores pudessem ver os jogos da Copa.
As discussões entre os dois blocos comerciais terminaram de forma apressada nesta sexta-feira de manhã, já que quase todos os participantes das negociações – pagos pelos contribuintes de seus respectivos países – queriam ver os jogos da jornada.
MIX INSTRUMENTAL PARA RIVALIZAR COM AS VUVUZELAS
Bumbo peronista, ideal para infernizar tímpanos alheios
- Uma alternativa para rivalizar com as vuvuzelas nas próximas copas poderia ser a criação de um mix instrumental que unisse as gaitas de foles (parada militar escocesa, aqui) com os bumbos peronistas, também usados nos estádios argentinos (os hooligans da “12”, a torcida ‘barrabrava’ do Boca Juniors, aqui)
Gaitas de foles eram usadas nos campos de batalha. Motivos deveriam existir para isso…
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários.
Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
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Obra do pintor suíço Jean-Étienne Liotard (1702-1789), “Dama servindo chocolate”, de 1744. Na National Gallery, Londres. A palavra “Chocolate” provém de “chocolātl”, palavra do idioma asteca, o ‘nahuatl’. A palavra em nahuatl proviria, por seu lado, das palavras “xococ”, que significa ‘amargo’, e “ātl”, que quer dizer ‘água’. É que o chocolate, em sua forma primitiva, era bebido, e não comido. Mas, a denominação científica da planta de cacau é que exprime melhor o espírito deste quitute: a palavra grega Theobromas, que vem de θεός (“teos”, isto é, deus) mais βρώμα (“broma”, isto é, alimento). Em resumo, o cacau seria “alimento dos deuses”.
Em meio à Copa do Mundo, o chocolate Cadbury lançou uma irônica campanha publicitária cujo target são as mulheres argentinas cujos maridos, namorados ou amantes estarão obsessivamente ocupados com os assuntos futebolísticos que transcorrem na África do Sul. A empresa criou especialmente para este nicho de mercado uma comunidade na rede social Facebook, a “Não nos interessamos pelo futebol”, na qual as mulheres “vítimas da Copa” poderão encontrar “homens disponíveis” para “dar prazer às mulheres” durante esse período de atividade esportiva. Isto é: homens que consideram que as mulheres são mais interessantes do que o futebol.
HOMENS DISPONÍVEIS - A comunidade para as mulheres atingidas pelos efeitos colaterais da Copa foi lançada há duas semanas e meia e já ultrapassou a faixa de 27 mil usuários ativos. A campanha da Cadbury está sendo veiculada na Argentina e Uruguai.
Os irônicos spots publicitários da campanha da Cadbury:
O primeiro, aqui.
O segundo, aqui:
Maximiliano Itzkoff e Mariano Serkin, diretores-gerais criativos da agência de publicidade Del Campo/Nazca Saatchi & Saatchi, encarregada da campanha do chocolate, me explicaram que “as mulheres argentinas assistem os jogos da Argentina. E depois disso, a Copa acaba para elas. Mas, os homens, além dos jogos da seleção argentina, continuam vendo todos os jogos. Estudam as seleções rivais, fazem apostas, falam sobre o assunto em cada momento livre no escritório”.
Com ironia, os dois publicitários destacaram que “os homens vivem para as Copas do Mundo. E o resto de suas vidas tentam ocupá-lo com alguma coisa para passar o tempo…até que chegue a próxima Copa do Mundo”.
Por esse motivo, explicam, criaram a aplicação do Facebook “No nos importa el fútbol”, na qual “elas podem encontrar um book de homens tentadores para conversar, sair.. ou talvez algo mais”.
Um dos outdoors da campanha “Nos nos importa el fútbol”
Uma pesquisa elaborado pela consultoria Datos Claros indicou que em tempos de Copa do Mundo, 17% das mulheres decidem ignorar totalmente os eventos futebolísticos e aproveitam esse período de ocupação de seus homens para realizar outras atividades. As jovens de 18 a 25 anos constituem o setor feminino menos interessado nos jogos. Nesse grupo, o desinteresse pela Copa sobe para 23%.
Embarcando na onda anti-copa, várias lojas em Buenos Aires aproveitaram o nicho de mercado representado por mulheres que não estão nem aí com o evento futebolístico da FIFA (paradoxo: o verbo “Fifar”, no lunfardo portenho, significa “transar”, embora de forma chula) e oferecem descontos especiais para tratamentos estéticos ou compra de roupas durante os jogos da Argentina.

Escultura asteca que representa um homem carregando um fruto de cacau. Em 1519, o conquistador espanhol Hernán Cortés ficou sabendo dessa bebida consumida pelos indígenas. Em 1528 levou o chocolate para a Europa.
ROUBO – Não somente o público feminino aproveita o período da Copa para ocupar-se com outras atividades. Além delas, os ladrões também utilizam o período para entrar em casas cujos proprietários estão vendo o jogo em outros lugares, e assim, pelo período de uma hora e 45 minutos, contam com tranquilidade para apropriar-se dos bens alheios. Esse foi o caso do ladrão que roubou dois valiosos quadros expostos – um deles do falecido pintor Xul Solar – no Teatro Argentino, na cidade de La Plata, durante o jogo da Argentina contra a Nigéria. O ladrão não foi visto pelos guardas, que estavam assistindo pela TV o jogo da seleção.
O quadro acima é ”La cioccolata del mattino”, pintado entre 1775 e 1780, um óleo em tela do veneziano Pietro Longhi (1701-1785). Exibe-se na galaria Ca’ Rezzonico, Veneza. É um antigo palácio do século XVII onde estão coleções do século XVIII. O poeta inglês Robert Browning comprou o palácio em 1888, e ali morreu um ano depois.

Outra mulher que idolatrava o chocolate: Marie de Rabutin-Chantal (1626-1696), a marquesa de Sévigné, que em sua antologia de cartas, a “Lettres”, sustentava à sua filha: “o chocolate te adula por um tempo… e depois te incendeia de um golpe só com uma febre contínua” (Marcel Proust, em sua obra “Em busca do tempo perdido” cita a Marquesa de Sévigné como a escritora preferida de sua mãe). O quadro acima é de Claude Lefebvre (1632-1675), exposto no Museu Carnavalet, em Paris.

Nossa querida ‘Xochi’, em uma imagem histórica do Códice Borgia (sobre o códice, este link aqui)
LIBIDO E CHOCOLATE - E se o chocolate é afrodisíaco, na mitologia asteca existem associações de sobra. O quitute é relacionado intensamente a Xochiquétzal, a jovem deusa da beleza, das flores, do amor, do prazer amoroso e das artes. Aliás, ela foi a primeira protagonista do primeiro ato sexual da História, segundo a mitologia asteca (e também do primeiro parto).
Sua vida sexual foi intensa: seu primeiro esposo foi Tláloc. Depois casou-se com Ixotecutli, o deus da liberdade. E também foi casada com Piltzintecuhtli (que, por seu lado, era o senhor das plantas alucinógenas e havia sido filho do primeiro casal de homens, Cipactónal y Oxomoco). Xochiquétzal foi, de quebra, amante de Huitzilopochtli, de Tezcatlipoca e Quetzalcóatl (e vários outros). E finalmente casou com Centéotl.

Representação moderna da deusa nos braços de um de seus homens

E de bônus track, dois blogs ‘copa-fóbicos’:
O antifutebol: http://mundial.ambito.com/blogs/9/gondorro
Podeti: http://weblogs.clarin.com/podeti/archives/206649.php
E, para arrematar, uma imagem da ‘Sachertorte’, uma espécie de ‘nec plus ultra’ daquilo que pode ser feito com chocolate. E já que estamos mesmo no inverno, acrescente em cima uma boa quantidade de crème chantilly. O regime fica para o fim de semana.
E falando em chocolate, lembrei de potássio (que não tem nada a ver). E por lembrar da falta de potássio, lembrei de cãibras… que é “calambre” em espanhol. E, bom, Astor Piazzolla compôs um tango com esse nome.
E aqui está “Calambre”, interpretado por um grupo que teve muito sucesso nos anos 70 e início dos 80, o “Buenos Aires 8”.
Para o link do ‘Calambre’, clique aqui.
Neste outro, uma versão “remix” do mesmo tango, por John Arnold. A música em si começa lá pelo 1:40 minuto. As cenas são de uma peculiar dança de marionetes… O link, aqui.
E mais um “Calambre”. Aqui.
E para encerrar, o “Calambre” na versão convencional de Piazzolla (bom ‘convencional’ é forma de falar para o querido Astor…), com o quinteto de Ferndando Suárez, que foi o violinista do famoso compositor: aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários.
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‘Barrabravas’ argentinos estão longe da atitude contemplativa e plácida dos dois famosos anjinhos de Rafaello Sanzio (1483-1520). O quadro – o “Madonna Sistina”, um óleo sobre painel, que está no Gemäldegalerie Alte Meister, Dresden – é geralmente reproduzido de forma parcial. Quase sempre aparecem somente os dois celestiais guris acima. Ele foi pintado entre 1512 e 1514 por (suposta) encomenda do papa Julio II. Este, aliás, teve uma interessante interpretação por parte do ator britânico Rex Harrison no filme “Agonia e êxtase” (1965) com Charlton Heston, que fazia o papel do pintor e escultor Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni. Rex Harrison foi ‘Henry Higgings’ no filme “My fair lady” (um link de uma das melhores cenas, aqui. )
Os “barrabravas” – denominação dos “hooligans” na Argentina – estão viajando em peso à África do Sul para acompanhar de perto a seleção de seu país. Diversas estimativas do jornalismo esportivo portenho afirmam que entre 600 e 800 “barrabravas” terão desembarcado até este sábado em Pretoria, sede da concentração argentina. O primeiro grupo, composto por vinte e duas pessoas, viajou há duas semanas junto com a seleção, no mesmo avião do técnico Diego Armando Maradona.
O técnico, no entanto, nega categoricamente qualquer tipo de vínculo com os “barrabravas”. Mas, os torcedores afirmam que possuem um “arranjo direto” com Maradona e o manager da seleção, Carlos Salvador Bilardo.
O grupo que acompanhou Maradona, que autodenomina-se “a torcida oficial” da seleção, é comandado por Marcelo Aravena, que integrou a “barrabrava” do Boca Juniors nos tempos de José “El Abuelo” (O Avô) Barrita, famoso e truculento torcedor.
Aravena – que não viajou à África do Sul, mas enviou seus principais homens em seu lugar – atualmente está em liberdade condicional, já que entre 1994 e 2007 cumpriu uma parte da pena de 20 anos de prisão pelo assassinato de dois torcedores do time River Plate. Após sair da prisão fez um rejuntado de diversas torcidas de times pequenos e criou a ‘torcida oficial’.
A presença dos barrabravas na Copa está causando intensa polêmica, já que diversos grupos estão sendo vinculados com o governo da presidente Cristina Kirchner, como a Hinchadas Unidas Argentina (HUA), que engloba militantes ‘kirchneristas’.
As denúncias também apontam contra Julio Grondona, presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA) desde 1979, época em que o país era governado pelo ditador e general Jorge Rafael Videla.
Grondona, que possui boas relações com o casal Kirchner, afirmou que o assunto não constituiu um problema para a AFA: “não sei porque os barrabravas estavam no avião (de Maradona). Esse é um problema de vocês (jornalistas). Não é meu problema” (mais informações sobre Grodona, nesta postagem do ano passado, aqui. )
No ano passado Grondona fechou um suculento acordo com o governo Kirchner. Ele cancelou o contrato que a AFA e os clubes de futebol possuíam com a empresa empresa privada TyC – que pagava US$ 59 milhões por ano à associação e os clubes para transmitir os jogos de futebol – e pactuou com o governo um contrato de US$ 157 milhões anuais.
A ONG Parentes das Vítimas da Violência no Futebol Argentino (Favifa) apresentou na Justiça uma denúncia sobre a presença de “barrabravas” na África do Sul, vinculando-os a Grondona, Maradona, Bilardo, além do empresário Rudy Ulloa (íntimo amigo do casal Kirchner) e Hugo Moyano, o secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), a principal central sindical do país (aliada do governo, com setores sindicais que respaldam os barrabravas). O link do site desta ONG que denuncia a violência dos barrabravas, aqui.

O ditador Jorge Rafael Videla, que utilizou o futebol para desviar a atenção dos problemas do país. Os barrabravas começaram a florescer em seu governo.
BARRABRAVAS SURGIRAM NA DITADURA
A Copa do Mundo de 1978, realizada na fase mais dura da última ditadura militar (1976-83) foi um divisor de águas na Argentina na violência e no esquema de poder dos “cartolas” do futebol local.
A truculência do regime – que sequestrou, torturou e assassinou mais de 30 mil civis – teve forte influência sobre a estrutura dos times e das torcidas de futebol. Vários jogadores e técnicos participaram de ações de sequestro de opositores da ditadura (um dos casos é o do ‘Gato’ Andrada, que jogou no Brasil nos anos 70. Para mais detalhes sobre seu sinistro caso, esta postagem do ano passado, aqui. )
A partir dali, os “barrabravas” – que até então eram um fenômeno de quase nulo peso – consolidaram seu crescimento e começaram a desfrutar da cumplicidade das autoridades esportivas.
A tendência de crescimento continuou apesar da volta da democracia, já que os “barrabravas” e suas estruturas de organização também passaram a ser utilizados amplamente por cabos eleitorais, especialmente nos empobrecidos municípios da Grande Buenos Aires, feudo político do partido Justicialista (Peronista), atualmente no governo.
Os integrantes dos “barrabravas” ocasionalmente trabalham como seguranças de deputados, prefeitos e vereadores. Além disso, possuem a função de causar distúrbios em comícios de opositores políticos.
De quebra, os barrabravas arrecadam substanciais fundos nos fins de semana, pois nas principais cidades do país controlam os flanelinhas que cuidam dos veículos estacionados nos arredores dos estádios, em dias de jogo.
KIRCHNER 2011 – O principal grupo de barrabravas está representada pela HUA – autodefinida como uma “ONG” – presidida pelo líder kirchnerista Marcelo Mallo, que desembarcou na África do Sul nesta semana.
Mallo, militante da organização kirchnerista “Compromisso K” na cidade de Quilmes – terra de Aníbal Fernández, chefe do gabinete de ministros da presidente Cristina – é amigo íntimo de Rudy Ullo Igor, ex-office boy e ex-chofer do casal Kirchner, que na última década transformou-se no principal empresário do setor de mídia da Patagônia.
(Nesta entrevista feita com Mallo pelo jornal ‘Perfil’, o líder barrabrava posa na frente de um retrato do líder pacifista Mohandas Karamchand Gandhi, o ‘Mahatma’ Gandhi. Aqui. )
Informações extraoficiais indicam que nas arquibancadas dos estádios desenrolarão faixas com os dizeres “Néstor Kirchner 2011”, antecipando a disputa presidencial do ano que vem.
O ex-presidente do time Vélez Sarsfield, Raúl Gámez – um ex-integrante de barrabravas na juventude, atualmente arrependido de seu passado – sustentou que o atual governo utiliza “a mão de obra barata dos barrabravas” para manifestações políticas.
O chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, foi sabatinado no Senado sobre o caso. No entanto, negou qualquer envolvimento do governo com os torcedores. “Não temos interesse algum que estas pessoas viagem para a África do Sul. Mas, qualquer cidadão livre pode ir, e portanto, não podemos impedir sua viagem”, admitiu.
A HUA tenta manter as aparências. Em Pretoria seus integrantes ficarão hospedados no Christian Progress College. Os “barrabravas”, em troca de obras de reformas da escola, pagarão um módico aluguel de US$ 11 diários por pessoa.
MESSI E ‘GUSANO’ - Uma das principais figuras dos barrabravas é Ariel Pugliese, conhecido pelo nom de guerre de “Gusano” (Verme). Ele é funcionário do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), organismo sob intervenção federal. Em abril “Gusano” atacou o jornalista Gustavo Noriega na Feira do Livro. Noriega estava lançando um livro com denúncias de corrupção do governo Kirchner, mais especificamente, sobre a manipulação de estatísticas no Indec.
“Gusano” também foi o responsável da segurança de Messi durante o jogo da seleção contra o Uruguai no ano passado. No entanto, segundo o porta-voz da AFA, Ernesto Cherquis Bialo, “Messi não sabia quem era o cara. Nós tampouco sabíamos”.
O “barrabrava” também está sendo investigado pelo suposto assassinato de Marcelo Cejas, um torcedor do clube Tigre, em junho de 2007.
FOGOS E ‘PILLÍN’ – Andrés Bracamonte, cujo nome de guerra é “Pillín” (Travesso), líder da torcida ‘barrabrava’ do time Rosario Central, suspeito de tentativa de homicídio, tentou entrar na semana passada na África do Sul. Sua partida ocorreu com a autorização da Justiça argentina. O líder dos ‘barrabravas’ foi autorizado após deixar dois carros de luxo como garantia nos tribunais.
Bracamonte está sendo investigado pela Justiça de Rosario pelos incidentes com fogos de artifício disparados durante o jogo Brasil-Argentina em setembro do ano passado no estádio do Rosario Central.
Mas, as autoridades sul-africanas não aceitaram a presença de “Pillín” no país e o deportaram para a Argentina.
Além de ‘Pillín’ – que posteriormente afirmou que havia sido ‘discriminado’ pelas autoridades sul-africanas – foram enviados de volta à Argentina um grupo de barrabravas com peculiares noms-de-guerre:
Emiliano ‘Bocón’ (Bocão) Tagliarino
Pablo “El Narigón” (O Narigão) Derrespinis (irmão de Cláudo Derrespinis, a.k.a. “El Gordo Cone”)
Pablo ‘Bebote’ (Bebezão) Álvarez
Carros de luxo recolheram este peculiar grupo quando voltou para a Argentina. Antes de entrar nos veículos, agrediram os jornalistas argentinos de plantão no lugar.
OPINIÃO PÚBLICA, CONTRA OS ‘BARRAS’ - A opinião pública está ostensivamente a favor da deportação dos barrabravas. Isso é o que indica uma pesquisa feita pelo jornal “La Nación”. Segundo os resultados, 97% dos internautas consideram que é “muito bom” que os hooligans locais tenham sido reenviados para a Argentina. Outros 2% dos internautas afirmam que, se a Justiça permitiu que saíssem do país, a África do Sul deveria ter permitido que ficassem em território sul-africano. O restante 1% indicou que não tinha opinião formada sobre o caso.

O antes citado quadro de Sanzio, na versão completa
UMA NOITE OFF-COPA

O batutésimo Yo Yo Ma, que apresentou-se nesta sexta-feira no Teatro Colón, dando início ao ciclo internacional dessa casa
Ontem (sexta-feira) à noite tive o deleite de assistir o violoncelista Yo Yo Ma no Teatro Colón. O supimpa intérprete francês (filho de chineses) interpretou o Prelúdio número 2 de George Gershwin, além de “Cristal”, do brasileiro César Camargo Mariano.
Yo Yo Ma também interpretou Johannes Brahms, com a Sonata para violoncelo e piano número 1 em Mi menor. O terceiro movimento, o Allegro, eletrizou o exigente público do Colón, que aplaudiu em pé.
Mas, o parisiense celista estava apenas ‘esquentando os tamborins’. Após o intervalo interpretou a Sonata para violoncelo e piano em Sol menor, opus 19, de Sergei Rachmaninov.
O segundo movimento, o Allegro Scherzando, foi brilhante. Mas, o quarto movimento, o Alegro Mosso, foi espetacular. O público aplaudiu em êxtase.
Yo Yo Ma saiu do palco, mas teve que retornar após insistentes pedidos de bis. Nesse instante, interpretou uma peça de Astor Piazzolla. O público urrou e pediu mais. O violoncelista teve que voltar para um segundo bis, no qual interpretou uma peça de Camile de Saint Säens.
A entrevista que Yo Yo Ma deu horas antes do concerto, no jornal “La Nación”, aqui.
E neste link, Yo Yo Ma interpreta o Prelúdio da Suíte número 1 de J.S. Bach. Aqui.


O cosmopolita J.L. Borges, um irreverente ‘copa-fóbico’
UM DIA OFF-COPA
O irônico escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), autor de “O Aleph” e “Ficções” protagonizou uma peculiar rebeldia cultural em 1978, quando a Copa do Mundo estava sendo disputada na Argentina, país na época controlado com mão de ferro pelo ditador e general Jorge Rafael Videla.
Borges – sem interesse algum pelo futebol – decidiu pronunciar uma conferência em Buenos Aires no mesmo minuto em que a seleção argentina iniciava seu primeiro jogo (contra a seleção da Hungria). A palestra do irreverente Borges foi encarada por diversos setores como um desafio ao “patriotismo” e à própria ditadura (que Borges havia elogiado nos primeiros meses, tal como o escritor Ernesto Sábato, mas a qual começou a criticar pouco depois). Grupos de fanáticos tentaram impedir a realização do evento.
O assunto da conferência borgiana em 1978? “A Imortalidade”.
Trinta e dois anos depois, hoje (sábado), na mesma hora em que a Argentina enfrentará a Nigéria, na cidade argentina de Rosario, na província de Santa Fe, centenas de pessoas estarão novamente focalizadas em Borges, já que será realizado o encerramento de um ciclo de conferências sobre Borges e o escritor sul-africano John Ronald Reuel Tolkien, o autor de “O senhor dos anéis”.
Os organizadores do evento, da Universidade do Centro Educativo Latino-americano (Ucel), afirmam que foi pura coincidência, pois – fiéis ao desinteresse de Borges sobre “esse esporte inglês” (tal como o chamava) – sequer haviam pensado na data em que iniciava a participação argentina na Copa.
Para aqueles que estiverem em Rosario, uma interessante chance de ver as palestras. Para mais detalhes, aqui.

PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão
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“O geógrafo”, óleo em tela de Johannes Vermeer (1632-1675). A obra, pintada entre 1668 e 1669, está no Steadelsches Kunstinstitut, em Frankfurt. Vermeer pintou este quadro para mostrar a influência crescente, na época, do saber científico na Europa. Segundo as autoridades argentinas, os professores das escolas aproveitarão os jogos da Copa do Mundo para “transmitir noções de geografia e dados culturais” sobre o país anfitrião da Copa e os países das seleções que enfrentarão a Argentina. Mais detalhes sobre esta obra (a de Vermeer), aqui.
“Não podemos dizer às crianças que venham às aulas, exatamente quando a Argentina está colocando a vida em jogo!”. Com estas palavras – ditas em tom dramático – o técnico da seleção argentina de futebol, Diego Armando Maradona – defendeu o plano do governo da presidente Cristina Kirchner de estimular as escolas públicas em todo o país para que “flexibilizem” os horários, de forma que os estudantes possam assistir aos jogos protagonizados pela Argentina durante a Copa do Mundo da África do Sul nas salas de aula.
As enfáticas declarações de Maradona foram pronunciadas durante o lançamento do livro didático que será enviado a 25 mil escolas com diretrizes para os professores sobre como transmitir às crianças aquilo que o governo denomina de “o lado cultural” da Copa.
Segundo Maradona, graças à competição mundial na África do Sul as crianças argentinas poderão “saber quem é Nelson Mandela, que esteve preso mais de 25 anos por defender os direitos na África do Sul”.
Ao lado de Maradona, o ministro da Educação, Alberto Sileoni, afirmou que a Copa do Mundo é “um fato cultural muito importante, uma festa, e pode ter um grande efeito pedagógico”.
Sileoni, fanático do futebol – e que não parava de sorrir ao lado de Maradona – apresentou um argumento ‘moral’ para defender a suspensão das aulas para assistir os jogos da Copa: “é que também aprendem-se valores dentro dos estádios…os alunos sabem que vão na escola não somente para aprender teoremas, mas também para cultivar os valores que são representados pelos jogadores”.
A medida causou intensa polêmica. Comentaristas esportivos e políticos alegaram que a suspensão das aulas para os alunos das escolas argentinas poderia ser aproveitada para aprender geografia – durante os jogos – graças às referências incontáveis que ocorreriam na TV e rádio sobre as seleções rivais da Argentina.
Alguns até argumentaram – recorrendo a Pitágoras e Tales de Mileto – que seria possível aplicar teoremas para fazer alusões entre um escanteio ou um tiro de meta com a geometria durante os jogos assistidos na sala de aula.
No entanto, diversos pedagogos e pais de família duvidam que os alunos fiquem concentrados nas explicações sobre geometria e os principais rios e montanhas da topografia sul-africana, e consideram que a medida não passa de populismo explícito.

Πυθαγόρας ο Σάμιος, isto é, Pitágoras de Samos (circa 580 aC a circa 490 a.C)…

…e o Θαλῆς ὁ Μιλήσιος, nosso batuta Tales de Mileto (639 a.C a 547 a.C), voltam à baila em Buenos Aires, usados em defesa da Copa do Mundo.
Mario Oporto, secretário da Educação da província de Buenos Aires (que concentra 40% dos alunos de todo o país), discordou dos “efeitos culturais” argumentados pelo governo da presidente Cristina Kirchner: “a Copa não gerará um fato pedagógico…não acho que por causa de um jogo as crianças aprendam algo!”.
Mas, pressionado pelo governo Kirchner, o governador bonaerense, Daniel Scioli, aliado do casal presidencial, ordenou a “flexibilização” das atividades escolares durante a Copa, e disse que estão “bem” os eventuais atrasos dos alunos para chegar à escola por causa dos jogos. O motivo, segundo Scioli, é que esse torneio mundial “é um evento cultural e patriótico”.
Na Argentina, as escolas públicas (com raras exceções) estão sob controle das províncias. O governo federal não pode obrigar as províncias a flexibilizar os horários para os dias da Copa. No entanto, nos últimos dias – após relativa resistência – a maioria das províncias aderiu à iniciativa federal.
Gustavo Iaies, presidente da Fundação Centro de Estudos em Políticas Públicas, discorda. Segundo ele, a autorização do governo para que os jogos possam ser assistidos livremente não possui “justificativa pedagógica”.
Iaies sustenta que os alunos, em vez de aprender conteúdos, passarão horas assistindo os jogos. “Ora, essas crianças vão prestar atenção nos jogos, nos resultados, nas torcidas. Como qualquer pessoa, deverão ter que recuperar posteriormente o tempo que iam dedicar para o cumprimento de suas obrigações”.
Os analistas políticos consideram que o Parlamento, que pouco funcionou ao longo deste ano (basicamente por falta de quórum do governista partido Peronista) ficaria totalmente paralisado ao longo de todo o mês que transcorrerá entre o início e o final dos jogos na África do Sul.

ESQUERDA E DIREITA UNEM-SE NO CHILE
Do outro lado da Cordilheira dos Andes, a esquerda e a direita do leque político concordam em “flexibilizar” os horários trabalhistas e escolares para que os chilenos possam assistir os jogos disputados por sua seleção nacional.
O caso será debatido nos próximos dias no plenário do Parlamento, onde o deputado socialista Fidel Espinoza apresentou um projeto de lei para permitir que os chilenos possam ver os jogos sem restrições.
“Tivemos um ano péssimo com o terremoto (de 8,8 graus na escala de Richter, que causou a morte de centenas de pessoas e graves prejuízos em fevereiro). Por isso, acreditamos que será uma festa única e fantástica, que queremos aproveitar”, argumentou Espinoza, que – além de destacar a condição sui generis do Chile nesta Copa por causa do sismo – ressaltou que esta é a primeira vez em 12 anos que o Chile participa de uma Copa.
O ministro da Educação, o conservador Joaquín Lavín, costumeiramente um ácido crítico dos socialistas, respaldou enfaticamente o projeto de lei de Fidel Espinoza: “os meninos precisam ver os jogos da Copa!”
…E já que falamos em Tales de Mileto, segue um link com o grupo musical humorístico argentino Les Luthiers, cantando o “Teorema de Tales”, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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