A presidente Cristina Kirchner assinou um decreto publicado na segunda-feira no Diário Oficial da Argentina, no qual convoca o Congresso Nacional a realizar sessões extraordinárias para debater e votar uma série de projetos de lei, entre os quais está a declaração de “interesse público” da produção, comercialização e distribuição de papel de jornal em toda a Argentina. A presidente Cristina, no decreto, determinou que esse projeto – entre outros – sejam votados no plenário da Câmara de Deputados e no Senado no máximo até a véspera do Reveillon, dia 30 de dezembro.
O projeto – aprovado na comissão da Câmara nesta terça-feira com uma velocidade nunca antes vista – é um golpe direto aos dois maiores jornais do país, o “Clarín” e o “La Nación”, ambos de posições críticas com o governo.
O projeto poderia ser votado na Câmara de Deputados nesta sexta-feira. Se for aprovado – como tudo indica, graças à maioria do governo no plenário – irá na semana que vem ao Senado.
Se for aprovada, a lei irá na contra-mão da Convenção Americana de Direitos Humanos – o Pacto de San José de Costa Rica – que proíbe expressamente a aplicação de controles sobre papel-jornal.
Alguns setores da oposição – principalmente os partidos de centro e centro-direita – afirmam que o projeto da presidente Cristina não passa de uma “estatização encoberta” da única fábrica de papel de jornal em funcionamento no país.
Atualmente o Clarín possui 49% das ações da Papel Prensa. O Estado argentino é o segundo acionista, com 27,6%. O jornal “La Nación” possui 22,49%. Os restantes 1,05% estão nas mãos de pequenos investidores.
Caso o projeto seja aprovado, o “Clarín” e o “La Nación” serão forçados a vender suas ações, já que as novas normas proíbem que empresas de jornais impressos possam ter ações na “Papel Prensa”.
“Claramente, é um projeto com intencionalidade política. Apesar do impacto que isto pode ter, o governo pretende votá-lo às pressas, antes do fim do ano, com um Parlamento novo, que acabou de tomar posse há poucos dias. Além disso, nenhum meio de comunicação foi convocado às comissões parlamentares para expressar sua opinião sobre o caso”, disseram ontem ao Estado fontes do jornal “Clarín”. “É um confisco encoberto”, sustentaram as fontes, que ressaltaram que o projeto visa, além de um controle estatal sobre o papel de jornal, o favorecimento dos meios de comunicação aliados do governo, o denominado ‘amigopólio’”.
O projeto também determina que qualquer pessoa que tenha mais de 10% de ações de uma empresa de jornal impresso não poderá participar da “Papel Prensa”. Desta forma, fica aberto o caminho para que os novos acionistas sejam empresários de outros setores da economia. Analistas afirmam que donos de empreiteiras, com boa relação com o governo Kirchner, já estão de olho na “Papel Prensa”.
Nos artigos 16 e 41 o projeto determina que o Estado, que possui atualmente 27% das ações da Papel Prensa, poderá ampliar seu capital na empresa.
FISCALIZAÇÃO ESTATAL - Caso o projeto seja transformado em lei o papel de jornal será fiscalizado por uma entidade ainda a ser criada, a Autoridade Federal para o Controle e Acompanhamento da Produção, Distribuição e Comercialização de Papel de pasta de celulose para os jornais (AFePDICop). Esta entidade será comandada por um funcionário, designado pelo Poder Executivo, com um mandato de quatro anos de duração.
O governo Kirchner havia tentado aprovar esse projeto no ano passado, quando estava em minoria no Parlamento. No entanto, desde a semana passada a presidente Cristina conta – somando parlamentares próprios e aliados – com uma confortável maioria para obter a aprovação da lei.
CARTAZES - Neste fim de semana, após a posse de Cristina, reeleita para um segundo mandato que se prolongará até 2015, cartazes com os dizeres “Tchau, Clarín” em letras garrafais foram colocados nas paredes de Buenos Aires.
Os cartazes, de autoria da Juventude Peronista, do Movimento de União Popular e da “Kolina” (grupo político da ministra da Ação Social, Alicia Kirchner, irmã do ex-presidente Nestor Kirchner, morto em outubro de 2010 e cunhada da presidente Cristina), também ostentavam a frase “nenhum monopólio resistirá três governos populares” (alusão ao governo de Kirchner e os dois mandatos de Cristina).
“O FIM” - O jornalista e historiador Jorge Lanata, fundador do jornal “Página 12” na segunda metade dos anos 80, disse ao Estado que a eventual aprovação da declaração de “interesse público” da produção e distribuição de papel de jornal, será “o fim do jornalismo na Argentina”. Segundo Lanata, os governos de plantão poderão determinar maiores quantidades de papel de jornal aos periódicos alinhados ou condescendentes com a Casa Rosada, enquanto que os jornais críticos correriam o risco de receber quantidades mínimas desse insumo.
Lanata foi recentemente apedrejado por militantes kirchneristas enquanto o jornalista participava ao ar livre de um debate sobre liberdade de imprensa na Universidade de Palermo.
Ao longo do ano passado o governo tentou culpar o “Clarín” e o “La Nación” de terem realizado em 1976 uma compra irregular, por intermédio de torturas, durante a ditadura, da “Papel Prensa”. No entanto, nada foi comprovado até o momento.
Um breve interlúdio musical com o argentino-israelense Daniel Barenboim e a Filarmônica de Berlim. Barenboim rege um clássico das milongas argentinas: “Taquito Militar”. Na sequência, a rocambolesca história da Papel Prensa.
A PECULIAR HISTÓRIA DA PAPEL PRENSA
David Graiver, banqueiro de Perón que financiava militares de direita e guerrilheiros de esquerda, morreu misteriosamente no México.
Em 1969 Papel Prensa foi criada por decreto do general Juan Carlos Onganía. Em 1972, quando governava o general Alejandro Lanusse, a empresa foi entregue a Cesar Augusto Civita e à Editora Abril. Em 1973, durante o governo de Juan Domingo Perón, o ministro da Economia, José Ber Gelbard, forçou a venda ao banqueiro David Gravier, aliado do governo peronista. Além desta aliança com Perón o banqueiro também tinha intrincadas relações financeiras com os militares e com o grupo guerrilheiro Montoneros.
Em 1975 os guerrilheiros entregaram a Graiver US$ 17 milhões de um total de US$ 60 milhões obtidos com sequestro dos irmãos Born (os principais milionários da Argentina na época) para que o banqueiro os investisse.
Em 1976 os militares derrubaram o governo de Isabelita Perón. Graiver morreu em agosto de 1976 em estranho acidente de avião no México. Seus bancos na Europa e EUA faliram. Nessa conjuntura complicada, seus herdeiros venderam as ações da Papel Prensa no dia 2 de novembro daquele ano. Um mês depois, os Montoneros pressionaram a víuva para que entregasse o dinheiro que seu falecido marido havia administrado para a guerrilha, ameaçando-a jogar pela janela de seu edifício.
Seis meses depois Papaleo e seu cunhado, Isidoro Graiver, foram detidos pelos militares, acusados de ter o dinheiro do sequestro feito pelos Montoneros. Os militares confiscaram diversos bens da família e torturaram Lídia e Isidoro.
Em 1986 Papaleo prestou depoimento nas investigações realizadas na época sobre crimes da ditadura. Na ocasião afirmou que havia sido detida em março de 1977, meses depois da venda de Papel Prensa. Ela foi indenizada em US$ 84 milhões pelo presidente Raúl Alfonsín pelos confiscos aplicados pelos militares. Na ocasião, Lídia nada reclamou sobre a Papel Prensa.
O surgimento da polêmica sobre Papel Prensa trouxe à tona, além de Lídia Papaleo, seu irmão, Osvaldo, que foi porta-voz em 1975 da então presidente Maria Estela Martinez de Perón, a.k.a. “Isabelita”, viúva de Perón.
Osvaldo Papaleo, que participou abertamente de reuniões políticas com integrantes do kirchnerismo, foi também um dos principais homens de José López Rega, astrólogo e super-ministro da então presidente Isabelita Perón. López Rega criou na época uma força paramilitar de extrema-direita, a “Tríplice A”, com a qual perseguia representantes de partidos da esquerda e da própria ala esquerdista do partido governista, o Justicialista.
OS TIMERMAN - Graiver também havia investido no jornal “La Opinión” e no “La Tarde”, respectivamente de Jacobo Timerman e de Héctor Timerman, pai e filho.
Jacobo, que foi um enfático defensor do golpe de Estado de 1976 (já havia defendido o golpe de 1966, que derrubou o então presidente Arturo Illia), posteriormente foi detido e torturado selvagemente pelos militares, seus ex-aliados. Jacobo foi salvo graças à intervenção pessoal do presidente americano Jimmy Carter.
O filho de Jacobo, Héctor, que também comandou um jornal que respaldou a preparação do golpe militar, transformou-se nos anos 80 em ativista dos direitos humanos. Atualmente é o chanceler do governo Kirchner.
DIFERENTES VERSÕES PARA UMA HISTÓRIA
- Dos jornais Clarín e La Nación
a) Ambas empresas – junto com o já extinto La Razón – afirmam que compraram as ações da família Graiver-Papaleo em novembro de 1976. As torturas, nas quais indicam que não tiveram participação, só começaram em março de 1977.
b) Além disso, o jornal “La Nación” publicou em 2010 uma denúncia feita pelo presidente da diretoria do próprio periódico portenho, Julio Saguier, que indica que Lidia Papaleo de Graiver, a viúva de David Graiver – o falecido dono da empresa Papel Prensa – teria negociado com a presidente Cristina Kirchner e seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner um pagamento para contar outra versão da História sobre a venda em 1976 da companhia, a única produtora de papel de jornal da Argentina.
Saguier afirma que reuniu-se em maio deste ano com Papaleo para um café no elegante Hotel Alvear. Na ocasião, o governo Kirchner já havia deslanchado o confronto com o “Clarín” e o “La Nación” por causa da Papel Prensa. Papaleo aceitou conversar com Saguier por agradecimento à boa relação que teve com seu pai, Julio César Saguier, primeiro prefeito de Buenos Aires com a volta da democracia, em 1983.
Papaleo, nessa conversa, teria confessado a Saguier que os Kirchners lhe ofereceram US$ 200 mil de entrada, caso confirmasse a versão do casal presidencial sobre o caso de Papel Prensa. Mas, na hipótese de que a “operação fosse coroada com sucesso” contra ambos jornais, receberia outros US$ 2 milhões.
Papel Prensa era comandada em meados dos anos 70 pelo banqueiro David Graiver. Mas, com a misteriosa morte deste, em agosto de 1976, em um acidente de avião no norte do México, as ações passaram para sua viúva Lídia, que era psicóloga e mãe da filha de ambos, María Sol Graiver. Em novembro daquele ano, em meio a problemas financeiros provocados pela falência dos bancos do falecido marido, Papaleo vendeu as ações aos jornais “Clarín”, “La Nación” e o “La Razón” (posteriormente extinto).
Na conversa com Saguier a viúva admitiu que precisava do dinheiro oferecido pelos Kirchners, já que sua fortuna havia ficado com sua filha María Sol, com a qual não conversa há anos. Papaleo teria dito a Saguier que o acordo com os Kirchners foi pactuado após três reuniões. Para evitar a filtragem de informações sobre esses encontros realizados na residência presidencialde Olivos, o deputado Carlos Kunkel, amigo de juventude dos Kirchners e um de seus principais homens no Parlamento, levou Papaleo pessoalmente em seu carro.
- Do governo Kirchner
Meses atrás o governo afirmou que Lidia Papaleo foi torturada em novembro de 1976, ocasião na qual foi forçada a vender as ações da empresa.
Depois, perante a polêmica, o governo emitiu uma segunda versão, na qual sustentava que os membros da família Graiver-Papaleo viviam em uma “liberdade ambulatória” e que haviam sido levados à força para a assinatura da venda das ações.
- Da viúva Papaleo (quatro versões diferentes)
a) Na segunda metade dos anos 80 declarou perante a Justiça – durante o julgamento das juntas militares – que havia sido torturada em março-abril de 1977 porque os militares suspeitavam que ela tinha dinheiro da guerrilha Montoneros. Na ocasião, Papaleo não vinculou suas torturas com a venda de Papel Prensa.
b) Nos últimos meses sustentou que foi intimidada e posteriormente detida e torturada para vender as ações de Papel Prensa.
c) Perante a Justiça em La Plata afirmou que enquanto esteve detida pelos militares não saiu da prisão para assinar a venda das ações de Papel Prensa.
d) A mais recente versão é a da conversa com Saguier, na qual teria admitido que receberia dinheiro para inventar um relato favorável às intenções dos Kirchneres.
- De Isidoro Graiver, irmão do falecido David Graiver, torturado no mesmo centro de detenção de Lidia Papaleo
A venda das ações foi em novembro de 1976; prisão e torturas ocorreram em março e abril de 1977. Segundo Isidoro, não há vínculos entre os dois jornais e as torturas contra a família.
- De Gustavo Caraballo, ex-embaixador do governo de Juan Domingo Perón na Unesco
Caraballo afirma que foi torturado junto com Lídia Papaleo de Graiver em 1977, confirmou que as sessões de tortura ocorreram vários meses depois da operação de venda
Presidente argentina tenta conseguir controle da mídia, tal como fundador do peronismo fez há 60 anos. Na foto, Perón abraça o ditador e general paraguaio Alfredo Stroessner.
NA GUERRA CONTRA A IMPRENSA, CRISTINA SEGUE OS PASSOS DE PERÓN
Poucos meses antes de morrer em 1974, o presidente Juan Domingo Perón admitiu: “fui colocado para fora do governo quando tinha todos os meios de comunicação a favor…e ganhei as eleições quanto os tinha todos contra mim!”. Perón referia-se à sua queda, em 1955, época em que ostentava um controle sem precedentes da maioria dos meios de comunicação, e de sua vitoriosa eleição, em 1974, quando a mídia era majoritariamente contra o septuagenário caudilho.
A presidente Cristina Kirchner, afirmam analistas e representantes da oposição, em vez de comportar-se como o Perón dos últimos anos, reprisam a ambição de controle dos meios de comunicação que o caudilho exercia nos anos 40 e 50.
Um dos sinais mais evidentes foi a aprovação – em 2009 – da polêmica lei de radiodifusão – também denominada de “lei de mídia” – que determina maior controle da mídia por parte do governo.
Da mesma forma que os Kirchners tentam atualmente destruir o poder do Grupo Clarín, o maior holding multimídia argentino, Perón e sua esposa Eva colocaram uma série de restrições à mídia privada e armaram uma super-estrutura de meios de comunicação estatais, além de redes privadas de empresários “amigáveis”.
DEFENSIVA E OFENSIVA - Segundo o historiador Eduardo Lazzari, Perón inicialmente tentava defender-se dos ataques da oposição. Mas, logo depois percebeu que a defesa não era suficiente e fechou jornais como “La Prensa”, entregue a sindicalistas fiéis.
Nos dois primeiros governos de Perón (1946-55), grande parte dos donos de meios de comunicação foram pressionados a vender seus jornais, revistas e estações de rádio. Em alguns casos, se os empresários mostrassem obediência, podiam ser designados como diretores de suas ex-empresas, agora estatizadas, de forma a camuflar a compra compulsória realizada pelo governo.
O modus operandi era o de destinar os fundos necessários para essas compras eram provenientes do Instituto Argentina para o Estímulo ao Intercâmbio (Iapi), comandado por Miguel Miranda, um gênio da contabilidade criativa.
MÍDIA ALIADA - O governo peronista contava com um quarteto de redes de comunicação. Além do colossal monopólio estatal, o Alea SA, tinha o respaldo de três grupos nominalmente privados: a editora Heynes, a Associação Promotores de Teleradiodifusão e a editora La Razón, que editava o influente jornal homônimo.
Tal como o governo da presidente Cristina Kirchner fez com o jornal “Clarín” em 2009 ao realizar uma blitz de insólitas proporções da Afip (a receita federal argentina) – as companhias jornalísticas que resistiam ao assédio de Perón eram pressionadas com o Fisco.
O braço inquisidor do governo peronista era a Comissão Bicameral de Atividades Argentinas, comandada pelo ultra-peronista deputado Emilio Visca, que vasculhava os livros de contabilidade dos jornais não alinhados com Perón para ter argumentos para seu fechamento, confisco ou intervenção.
Capas do La Prensa quando havia sido confiscada pelo governo de Perón. Manchetes mostram alinhamento ostensivo com Perón, que havia ficado viúvo (pela segunda vez) com a morte de Eva Perón.
LA PRENSA - Esse foi o caso de “La Prensa”, jornal da aristocrática família Paz – definido pela revista americana “Time” como um dos mais respeitados periódicos do mundo na época – e detestado por Evita Perón, a primeira-dama. O “La Prensa”, cuja tiragem era de 480 mil exemplares, tornou-se alvo de uma campanha do governo a partir de 1947.
O “La Prensa” foi atacado pelas rádios aliadas do governo e enfrentou uma campanha oficial que promovia o boicote da compra de seus exemplares. Os anunciantes eram pressionados para não colocar publicidade nas páginas do “La Prensa”. O racionamento de papel encolheu o jornal das 40 páginas costumeiras a apenas 12. Mas, o jornal, apesar das pressões, continuava saindo às ruas.
Em 1950, o governo confiscou as novas rotativas importadas e as destinou para o “Democracia”, jornal editado pelo próprio Estado argentino. Em 1951 o sindicato dos jornaleiros ameaçou não distribuir mais o periódico.
Na sequência, com a aprovação do Parlamento – no qual o peronismo era maioria – foi confiscado e entregue à Confederação Geral do Trabalho (CGT), a única central sindical autorizada por Perón. O líder do bloco peronista na Câmara, John William Cooke, afirmou que o governo estava contra “La Prensa” porque, segundo ele, o jornal “estava contra os operários e contra os peronistas”.
Outros jornais, como “La Nación” – que já enfrentava o racionamento de papel de jornal, controlado pelo governo – tiveram que moderar suas críticas ao presidente Perón, para evitar correr destino similar ao “La Prensa”.
Com a queda de Perón em 1955, o “La Prensa” voltou às mãos de seus donos originais. No entanto, o jornal nunca mais foi o mesmo, já que durante a intervenção iniciou uma fase de decadência que foi aproveitada por um períodico que começava seus primeiros passos, o “Clarín”, a atual fonte de irritação para o casal Kirchner.
Modelo francesa da década de 1920 posa com vestido feito de papel-jornal.
“Tranqüilo, viejo, tranqüilo”, com Tita Merello:
“Se dice de mi”, também com Tita Merello:
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Kathleen Turner e Michael Douglas interpretando o outrora apaixonado casal que protagonizava uma feroz briga mortal no filme ‘A guerra dos Roses’ (de 1989, dirigido por Warren Adler). Em Buenos Aires, analistas comparam a briga dos Kirchners com o Clarín com o supracitado filme de Hollywood. Isto é, do tórrido casamento ao divórcio com abundantes sopapos e golpes letais. Mas, ‘A guerra dos Roses’ seria ‘un poroto’ perto deste mega-imbroglio político-empresarial (“un poroto”, na gíria portenha, é usado para referir-se a algo insignificante perto de uma coisa ou de um evento de maior magnitude. Exemplo: ‘o escândalo de corrupção do senador Camelot de Almeida e sua esposa Fernandinha Pit Stop Vladivostok é un poroto perto da roubalheira protagonizada pelos irmãos e deputados Mutatis e Mutandis de Albuquerque’)
“Isto é como o filme ‘A guerra dos Roses’. Há muito ódio onde antes existia muito amor. Este conflito é mortal!”. Com estas irônicas palavras, o ex-secretário de Comunicações, Henoch Aguiar, definiu ao Estado a relação entre a presidente Cristina Kirchner, seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner e o Grupo Clarín. Os dois lados viveram um idílio de meia década ao longo do qual predominaram trocas de favores. Mas essa relação intensa acabou abruptamente em “divórcio” em abril de 2008.
A relação com o maior holding multimídia do país começou em 2003 quando Kirchner tornou-se a última cartada do presidente provisório Eduardo Duhalde (2002-2003) contra seu rival e ex-presidente Carlos Menem nas eleições presidenciais. O Clarín, brigado com Menem e aliado de Duhalde, respaldou o desconhecido Kirchner, que nos doze anos prévios havia sido governador de Santa Cruz, província sem peso (representa 1% do eleitorado argentino).
TROCA DE FAVORES - Kirchner, que assumiu com apenas 22% dos votos (o menos votado da História do país) conseguiu driblar a inicial falta de poder graças à sólida aliança com o Clarín entre maio de 2003 e abril de 2008.
Nesse intervalo, o holding foi beneficiado com a autorização para a fusão das duas maiores empresas de TV a cabo do país, a Multicanal e a Cablevisión, realizada em 2007. A operação foi possível graças à intervenção pessoal de Kirchner, que ignorou as críticas sobre práticas monopólicas. A Multicanal-Cablevisión atualmente gera mais de 60% do faturamento do Grupo Clarín.
Durante esse período, os jornalistas do “Clarín” tiveram posição privilegiada de acesso a informações do governo, enquanto que ignorava o resto da mídia. Em troca o Clarín era suave na cobertura dos problemas da administração Kirchner. A mídia crítica recluía-se aos jornais “La Nación”, “El Cronista” e “Perfil”.
DIVÓRCIO TURBULENTO - Mas a aliança acabou em abril de 2008 quando o Grupo Clarín vacilou no respaldo ao governo quando iniciou o conflito com os ruralistas. “E sabe como os Kirchners reagem se você não está 100% de seu lado: é considerado inimigo”, ressalta ao Estado o ex-editor do jornal “Crítica”, Silvio Santamarina.
O ‘divórcio’ foi marcado pelo governo em 2008 com um comício perante 100 mil militantes no qual a presidente Cristina denunciou uma suposta conspiração para um golpe de estado armado pelos ruralistas, a oposição e o “Clarín”. De lá para cá, os Kirchners desferiram um intenso conflito contra o grupo.
Em meio a esta guerra o governo aplica amplo leque de armas, entre elas as visitas inesperadas da Receita Federal às casas de executivos do Clarín, enquanto que seus jornalistas sofrem agressões verbais constantes de militantes kirchneristas que os esperam nas portas de suas casas.
Além disso, os Kirchners fecharam as portas para jornalistas do grupo, que possuem grandes dificuldades para obter informações do governo. Ministros e secretários que passam informações aos jornalistas do Clarín correm o risco de sofrer punições. A recente renúncia de Jorge Taiana ao posto de chanceler foi parcialmente atribuída às suspeitas da presidente Cristina de que seu fiel ministro teria repassado informações a jornalistas do Clarín.
Enquanto isso, o Clarín aproveita qualquer desliz do governo Kirchner para desferir duras críticas.
…É, sem dúvida, o paraíso para os estudantes que estiverem preparando uma tese de doutorado sobre a mídia e governos.
FRANKENSTEIN - “Clarín achou que era invulnerável!”, disse ao Estado Julio Bárbaro, ex-secretário da Cultura e ex-diretor do Comitê Federal de Radiodifusão (organismo que regula a mídia). “No entanto, Kirchner colocou um limite ao Grupo”, explica.
Jorge Asís, ex-embaixador na Unesco, polemista e ex-integrante do jornal “Clarín”, autor do blog “Jorge Asís Digital” e da novela “Flores roubadas nos jardins de Quilmes” (na qual conta os bastidores amorosos e políticos de um jornal que implicitamente é o “Clarín”), em entrevista ao Estado foi categórico: “o Clarín foi um Dr. Frankenstein que inventou o monstro dos Kirchners que depois rebelou-se contra seu criador e o liquidou”.

Às vezes dá para tomar um chá com Frankenstein (Boris Karloff, em uma pausa de sua interpretação do emblemático ‘monstro’)
EFEITOS DO ‘DIVÓRCIO’
Abalado pelo intenso confronto com Néstor e Cristina Kirchner nos últimos dois anos, o Grupo Clarín, o maior holding multimídia da Argentina, sofreu uma drástica perda de valor na bolsa portenha. Em outubro de 2007, uma semana antes das eleições presidenciais – quando era aliado do casal Kirchner – suas ações valiam 30,45 pesos. Na semana seguinte às eleições, com a vitória de Cristina Kirchner, haviam subido para 32,10 pesos.
Mas, em 2008, com o início do conflito do governo com os ruralistas a aliança Kirchners-Clarín se desfez. A presidente Cristina acusou o holding de estar por trás de um “golpe de Estado” em conjunto com os produtores agropecuários e os partidos da oposição.
Na sequência seguiu-se uma série de pressões aos jornalistas do Clarín, que incluíram outdoors nas ruas com suas fotos. O efeito imediato da campanha foi a queda das ações, que despencaram para 14 pesos em julho daquele ano. Doze meses depois, no dia 26 de junho de 2009, o cenário era ainda pior, já que as ações eram cotadas em 5,55.
No entanto, dois dias mais tarde, os Kirchners foram derrotados nas eleições parlamentares, conseguindo apenas 30% dos votos, fato que permitiu leve recuperação das ações do Clarín, que subiram para 8 pesos.
O alívio durou pouco, pois o grupo havia tornado-se no principal inimigo dos Kirchners, que – para reduzir o poder do Clarín – criaram a Lei de Mídia, definida pelo ex-presidente Kirchner como “a mãe de todas as batalhas”.
A lei, aplicada a todos os meios de comunicação, mas cujo alvo principal, segundo o próprio governo, é o Clarín, proíbe que um único grupo possa ter um canal de TV a cabo e uma emissora de TV aberta o mesmo tempo, restringe o alcance dos canais a 35% da população do país, reduz o período de licenças de 20 para 10 anos, além de impor uma revisão das licenças a cada dois anos. Os grupos de mídia que não se encaixem nesses requisitos deverão desprender-se das empresas adicionais no período máximo de um ano.
A lei foi aprovada pelo Parlamento em meio a intensa controvérsia em outubro de 2009. As ações do grupo Clarín caíram para 7 pesos. Para complicar o clima de tensão, a AFIP (a Receita Federal argentina) realizou uma blitz com mais de 200 agentes na sede do Clarín para intimidar os funcionários. O governo nunca apresentou justificativas para a ação do fisco.
Na sequência, o sindicato dos caminhoneiros, aliado do governo, impediu com piquetes, durante várias noites, a saída dos exemplares do jornal da gráfica. Nunca antes, desde a volta da democracia, em 1983, um meio de comunicação havia sido alvo de tal magnitude de pressões por parte de um governo civil.
Em dezembro passado a Lei de Mídia foi suspensa na Justiça por intermédio de diversas liminares. De lá para cá, graças à sua suspensão temporária, a cotação do Grupo Clarín voltou a crescer. Nesta semana as ações estavam em 12 pesos.
A lei, que estabelece restrições inéditas à atuação de grupos de mídia é defendida pela presidente Cristina Kirchner como uma forma de “democratizar” o setor e acabar como os “monopólios”. Mas, as empresas de mídia críticas do governo argumentam que a lei não passa de uma forma de restringir a atuação da imprensa, além de criar um cenário que permite que empresários aliados do governo comprem meios de comunicação a preços baixos.
A lei poderia ser aplicada em sua totalidade até o final deste ano, caso caiam as barreiras que ainda existem nos tribunais.
COMPRAS CONJUNTURAIS - Ethel Pis Diez, professora da faculdade de Comunicação da Universidade Austral disse ao Estado que os grupos de mídia mais afetados pela Lei de Mídia – em seus mais variados aspectos – serão o Grupo Clarín, o Grupo Vila Manzano, América, Visión Jujuy, Telefónica e Prisa.
O Clarín teria de reduzir seu número de 200 licenças de funcionamento para apenas 10. A lei também proíbe que um grupo de difusão audiovisual tenha abrangência sobre mais de 35% da população – por intermédio de seus canais de cabo, o Grupo Clarín atinge atualmente 56% do país.
Carlos Gamond, presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa da Associação de Empresas Jornalísticas (Adepa) e diretor do jornal “El Puntal”, de Río Cuarto, Província de Córdoba, disse ao Estado que um dos efeitos da lei é o de criar “minifúndios midiáticos”, já que as empresas de mídia serão “fragmentadas”.
O ex-secretário de Comunicações Henoch Aguiar afirmou que em 2011 haverá fortes compras conjunturais de empresas de mídia, mais por motivos políticos das eleições do que por posições estruturais no mercado”.
EMPRESÁRIOS AMIGOS DO GOVERNO, OS FAVORECIDOS COM NOVA LEI DE MÍDIA – Analistas e líderes da oposição afirmam que a lei de mídia, se for totalmente implementada, provocará uma onda sem precedentes de vendas de meios de comunicação e abrirá caminho para que grupos empresariais alinhados com a presidente Cristina e o ex-presidente Néstor Kirchner – os denominados “empresários K” – possam comprar canais de TV e estações de rádio.
“Existem casos de pequenos empresários – ou de pessoas que sequer eram empresários – que graças às relações com os Kirchners, transformaram-se em grandes empresários”, afirma Fernando Sánchez, deputado da Coalizão Cívica, de oposição.
Segundo ele, um dos casos é o de Rudy Ulloa Igor, ex-contínuo, ex-chofer e ex-secretário privado do casal Kirchner, e atual magnata da mídia no sul da Argentina que agora tenta expandir-se na capital do país.
Os analistas também indicam que a Electroingeniería – forte companhia na distribuição de energia elétrica e na concessão de estradas – seria o núcleo de outro potencial grupo de mídia alinhado com os Kirchners. A empresa, que adquiriu em novembro de 2008 a Radio del Plata, demitiu o jornalista Nelson Castro, um dos mais prestigiados analistas políticos do país, por suas observações críticas com o casal Kirchner.
“Electroingeniería é o braço executor mais leal de Néstor Kirchner”, afirma o deputado Juan Carlos Morán, da Coalizão Cívica. “Kirchner está por trás dessa empresa. O ex-presidente compra os meios de comunicação para que não exista liberdade de imprensa”.
MÍDIA ALIADA – O governo Kirchner conta com uma longa lista de meios de comunicação aliados (a oposição e analistas até afirmam que os Kirchners contam com seu próprio ‘monopólio’ de meios de comunicação), entre os quais citamos alguns:
- Canal 7, Radio Nacional, Agência de Notícias Télam (todos estes com filiais em todo o país), o Canal Encuentro, além de uma dúzia de outros canais de TV e rádios nacionais e provinciais (neste caso, são todos meios estatais)
- Jornal El Argentino, jornal Tiempo Argentino, jornal Buenos Aires Económico, Radio América, canal de TV CN23, revista Veintitrés, Revista Newsweek Argentina, Revista Siete Días (e outra meia dúzia de meios pertencentes ao Grupo Szpolski)
- Jornais Página 12 e Rosario 12
- Radio Belgrano, Radio Splendid, FM Rock& Pop, FM Metro, Revista El Federal (e outra meia dúzia de meios, pertencentes ao Grupo Moneta, de Raúl Moneta, um empresário no passado intensamente vinculado ao ex-presidente Menem que agora é aliado do governo Kirchner)
PRESENÇA ESTRANGEIRA (EUA SIM, BRASIL NÃO) - De acordo com a nova Lei de Mídia do governo Kirchner, somente empresas de países que possuem acordos de reciprocidade de investimentos poderiam comprar mais de 30% de uma meio de comunicação na Argentina. Isto é: empresas dos Estados Unidos poderiam comprar meios de comunicação completos na Argentina.
No entanto, as empresas brasileiras ficariam de fora desta possibilidade, já que o Brasil – apesar da integração do Mercosul – não conta com tal tipo de acordo com a Argentina. Grupos de mídia colombianos, mexicanos, venezuelanos ou chilenos tampouco poderiam. Italianos, sim.
FRONTS DE BATALHA – Na guerra contra o Clarín o governo abriu diversas frentes. Além da Lei de Mídia, também tenta intervir na fábrica de papel de jornal Papel Prensa, do qual o Clarín possui quase metade das ações.
Para o governo, a intervenção na Papel Prensa é estratégica. Desde 1976, a empresa que abastece a maior parte dos jornais argentinos é controlada pelo Grupo Clarín (49% das ações), o jornal “La Nación” (22,49%) e o Estado argentino (27,46%).
O governo tenta, desde o ano passado, expulsar o “Clarín” e o “La Nación”. Para isso, argumenta que Lidia Papaleo Graiver, viúva do banqueiro David Graiver, vinculado ao grupo guerrilheiro Montoneros, teria sido obrigada em 1976 a vender sua parte na empresa ao “Clarín”, ao “La Nación” e ao “La Razón”, que faliu em 2000.
De quebra, o governo tenta levar a presidente do grupo, Ernestina Herrera de Noble à cadeia por suspeitas de que seus filhos adotivos sejam filhos sequestrados de desaparecidos da ditadura (1976-83). A capacidade de defesa do Clarín complica-se pela idade de Ernestina Noble, de 85 anos, e os problemas graves de saúde (câncer de laringe) de seu braço direito e CEO da holding, Héctor Magnetto, de 66 anos.
NEGOCIAÇÕES – Ricardo Roa, editor-adjunto do “Clarín” disse ao Estado que “o jornal está sofrendo com o custo econômico da ofensiva do governo”. “Mas transmitimos a nossos jornalistas que a diretriz é a de manter a linha editorial, apesar dos enormes custos que isso implica ante um governo que ignora a necessidade de existência da imprensa independente. Vamos agir mais na internet. Este é um grupo de mídia. Sempre foi assim, e assim continuaremos”.
Julio Bárbaro, ex-diretor do Comitê Federal de Radiodifusão (Comfer, organismo que regula a mídia) disse ao Estado que “o Grupo Clarín valia US$ 4,7 bilhões há quatro anos (antes dos choques com o governo). Hoje vale pouco mais de US$ 1 bilhão”. Segundo ele, “o ‘Clarín’ continuará existindo, mas não terá o mesmo predomínio dos últimos 20 anos. “Seu problema foi concentrar muitos veículos, que atraíram o ódios de setores políticos e empresariais”.
Segundo o ex-diretor do Comfer, “os Kirchners não tentarão acabar com o conservador ‘La Nación’, pois precisam desse jornal como ‘a voz do inimigo’, como os representantes de um setor da sociedade, a oligarquia”.
“Acho difícil que possa ser feita uma negociação entre o governo Kirchner e o Grupo Clarín, a não ser que ocorresse uma mudança no comando do jornal. Os dois lados tentaram aproximações em diversas ocasiões depois da votação da Lei de Mídia. Mas, do jeito que estão as tensões hoje em dia, é muito difícil, pois os dois lados possuem posições fundamentalistas”, disse Aguiar ao Estado. E usa uma expressão tipicamente argentina para ilustrar uma situação que chegou a um ponto sem retorno: “La sangre ya llegó al río” (o sangue já chegou até o rio).
Mais detalhes sobre a relação dos Kirchners com a mídia:
Nesta postagem, a presidente Cristina recomenda ‘vacinar’ os jornalistas. Aqui.
Nesta, alguns detalhes sobre a Lei de Mídia. Aqui.
E nesta postagem, alguns dados sobre a tensa relação do governo com os jornalistas. Aqui.
O DNA DOS HERDEIROS DO CLARÍN

Ernestina Noble e seus filhos adotivos, Felipe e Marcela em foto do início da década. Ambos jovens, segundo o governo, seriam filhos de desaparecidos da ditadura militar.
Nunca antes na História da Argentina a expectativa pelo desvendamento da origem familiar de duas pessoas foi tão elevada como no caso de Marcela e Felipe Herrera de Noble, filhos adotivos de Ernestina Herrera de Noble, a presidente do Grupo Clarín. Os dois jovens, de 34 anos, herdeiros do maior holding multimídia da Argentina – e um dos principais da América Latina – são o alvo de suspeitas de serem filhos de desaparecidos da ditadura militar (1976-83).
A presidente Cristina e seu marido Néstor Kirchner, que sustentam que Noble é cúmplice do sequestro e ocultamento da identidade original de seus filhos adotivos, tornaram a investigação judicial na principal manobra para atingir pessoalmente a própria presidente do Grupo Clarín e colocá-la na prisão.
Além de Noble, o casal Kirchner pretende levar à cadeia o principal cérebro administrativo do holding, Héctor Magnetto. Segundo o ex-presidente Kirchner, Magnetto “é um delinquente” que participou da suposta operação de apropriação dos bebês em 1976, poucos meses depois do golpe de Estado.
Felipe e Marcela indicaram publicamente que não pretendem ter relações com suas eventuais famílias originais e pediram que seu caso não fosse “politizado”.
ADOÇÕES - Em maio de 1976 Ernestina De Noble adotou uma menina. Segundo ela, a criança registrada posteriormente como Marcela foi encontrada em uma caixa de papelão colocada diante da porta de sua casa em San Isidro, na Grande Buenos Aires.
No entanto, naquela data, Ernestina Noble não residia nesse lugar, mas sim, na cidade de Buenos Aires.
As testemunhas que ela apresentou eram supostamente
a) uma vizinha de San Isidro (onde Noble não morava)
b) o jardineiro da casa
No entanto, a vizinha não morava em San Isidro, mas sim em Acasusso (era duplamente uma ‘não-vizinha’)
E o jardineiro não era jardineiro, mas sim, o chofer da família Noble.
Em julho de 1976, a empresária pediu a adoção de um menino, Felipe, filho de uma mãe solteira que teria dado a criança à empresária.
No entanto,
a) a mulher que teria entregue Felipe nunca mais apareceu,
b) …e o nome que forneceu é falso, pois não há ninguém registrado com esse nome e número de documento.
A existência de irregularidades nos documentos de adoção das crianças – e a participação de uma juíza que teria colaborado com adoções de bebês sequestrados – despertaram em 1995 as suspeitas de parentes de desaparecidos cujos filhos foram sequestrados pelos militares e da organização de defesa dos direitos humanos Avós da Praça de Mayo.
Em 2002 Ernestina foi detida por “irregularidades na adoção”. Mas, após dias em uma cela, Noble foi liberada.
PARALISADO – Entre 2003 e 2008, período no qual os Kirchners e o Clarín foram aliados, o caso de Felipe e Marcela ficou paralisado.
Mas, com o fim da aliança entre o governo e o holding multimídia, o caso foi reativado de forma acelerada nos tribunais.
EXAMES DE DNA – Em dezembro, os dois jovens fizeram uma extração de sangue voluntária para o exame de DNA no Corpo Médico de Medicina Legal, que depende do Poder Judiciário, ao contrário do Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG), controlado diretamente pelo governo.
No entanto, Felipe e Marcela indicaram que só fariam o exame para cotejar o DNA com os das duas famílias que entraram com um processo na Justiça, alegando que eles eram os netos desaparecidos. O teste, no entanto, não foi realizado no laboratório, já que a investigação passou para o BNDG, instituto do qual os irmãos desconfiam.
O juiz Conrado Bergessio ignorou o exame voluntário e ordenou a invasão das casas de Marcela e Felipe, para a coleta compulsiva de pentes e escovas de dente para coletar material genético e para preparar um novo exame. Mas, este teste tampouco foi concluído.
Em maio, a juíza Sandra Arroyo Salgado chamou os dois jovens para pedir-lhes uma nova extração de sangue para ser cotejado com as mais de 250 famílias que procuram seus netos desaparecidos, cujos dados genéticos estão no BNDG.
Marcela e Felipe negaram-se e partiram do tribunal em um carro. A polícia seguiu o veículo, e apontando suas armas, detiveram os dois irmãos. Minutos depois, Felipe e Marcela foram liberados. Mas, quando chegaram na casa de sua mãe, a polícia novamente os esperava. Ali, ordenaram que ficassem nus, na presença de sete policiais, e confiscaram meias e roupas de baixo. Os irmãos denunciaram a ação da juíza como “indigno”.
No entanto, a contagem regressiva para o resultado do exame de DNA que desvendaria suas reais identidades foi interrompida há duas semanas, já que o BNDG admitiu que as amostras genéticas que estava analisando não permitiram a identificação. O anúncio desatou especulações de que o exame não teria comprovado que Marcela e Felipe são filhos de desaparecidos.
Os advogados das famílias dos desaparecidos exigem que Marcela e Felipe sejam submetidos a um novo exame genético.
O caso dos dois irmãos envolve três mulheres de alta importância na Argentina. Por um lado, as duas mulheres mais poderosas do país, isto é, Cristina Kirchner e Ernestina Noble. Por outro, a líder das Avós da Praça de Mayo, Estela de Carloto, cuja organização é candidata ao prêmio Nobel da Paz neste ano por seu trabalho de quase três décadas de procura dos bebês sequestrados pelos militares.
ESPECULAÇÕES SOBRE AS FALHAS NO EXAME DE DNA
Em Buenos Aires circulam várias especulações sobre as falhas no exame de DNA. Aqui estão algumas das hipóteses que circulam.
Hipótese 1: O governo soube que o DNA de Marcela e Felipe não batia com as mostras de DNA do BNDG e teria ordenado adulterar os resultados.
Motivos? Para manter a pressão sobre o Clarín, sem embora resolver o caso.
Nesta hipótese, o governo e os jornais aliados afirmariam que o Clarín adulterou as amostras de DNA.
Hipótese 2: Clarín alterou as amostras de DNA para manchar a imagem do BNDG. O plano, nesta especulação, é que o holding tentaria adiar o processo na Justiça, enquanto espera o hipotético fim do governo Kirchner nas eleições presidenciais do ano que vem.
Nesta hipótese, o jornal Clarín insistiria com a ideia de que os Kirchners são capazes de qualquer coisa para derrubar o grupo, inclusive, adulterar as amostras de DNA.
Hipótese 3: Pacto Kirchner-Clarín. Esta hipótese começa a ser mais ou menos levada a sério no âmbito político em Buenos Aires, já que consistiria nos seguintes passos:
- O exame de DNA fica inviabilizado e todo o processo na Justiça fica estancado. Nenhum lado avança sobre o outro. Empate técnico (de suposto mútuo acordo).
- O governo Kirchner suaviza a guerra contra o Clarín e deixa de lado as críticas diárias contra o holding (coincidentemente, isso está ocorrendo…as críticas acontecem, mas estão sendo menores).
- Clarín continua atacando os Kirchners, pero no mucho (as principais críticas da mídia atualmente partem do ‘La Nación’).
E, enquanto isso, os dois lados mantêm certa ‘guerra’, embora de menor intensidade, só para manter as aparências. Isto é, para dar a sensação de que ainda estão brigados.
Por trás disto? As especulações indicam que os Kirchners consideram que, para conseguir a reeleição em 2011, precisam do Clarín. E, o Clarín teria percebido que, para evitar a redução drástica de seu poder empresarial, precisa manter certa aliança com os Kirchners.
O fato é que ambos lados, desde meados do ano passado, estão abalados. Os Kirchners perderam as eleições parlamentares (conseguiram apenas 30% dos votos), enquanto que o Clarín viu suas ações na Bolsa despencarem.

Na política argentina as conexões entre políticos de esquerda, direita, centro (e qualquer outra posição), empresários e militares podem ser as mais variadas. Há conexões e interconexões para todas os gostos possíveis. Se tivéssemos que transpor um gráfico para um quadro-negro, as anotações de Linus Pauling (acima, em foto de 1979) seriam…’un poroto’.
ALGUMAS CONEXÕES PECULIARES:
DURANTE A DITADURA…
- Ernestina Herrera de Noble comandava o jornal “Clarín”, na época um dos principais da Argentina. Noble estava alinhada com a ditadura militar (o Clarín esteve alinhado com quase todos os governos, na maior parte do tempo).
- Casal Kirchner: Néstor e Cristina Kirchner, que moravam em La Plata, capital da província de Buenos Aires, onde haviam estudado Direito, foram para Río Gallegos, capital da província de Santa Cruz pouco após o golpe de março de 1976. Ao contrário de vários amigos militantes seus, o casal não foi para o exílio, nem foi internado nos campos clandestinos de detenção ou torturado. Os Kirchners prosperaram em Río Gallegos atuando como advogados especializados em hipotecas (favorecendo os bancos e instituições financeiras, não das pessoas que pediam as hipotecas).
DEPOIS DA DITADURA…
- Ernestina Herrera de Noble: depois de apoiar a ditadura, respaldou a democracia e os governos civis. Apoiou o presidente Alfonsín durante um período, e depois passou a criticá-lo. Apoiou o presidente Menem durante um período e depois passou a criticá-lo. Idem para Fernando De la Rúa. O Clarín apoiou o presidente Duhalde no meio da crise de 2001-2002. Na sequência, apoiou o delfim de Duhalde, Kirchner. E depois, a esposa deste, Cristina.
- Casal Kirchner: depois de não exercer atividade de resistência contra a ditadura entraram na vida política na democracia (a qual respaldaram). Kirchner foi eleito prefeito de Río Gallegos e depois governador de Santa Cruz. Cristina Kirchner foi eleita deputada e depois senadora. Em 2003, com respaldo do Clarín, foi eleito presidente. Em 2007, com respaldo do Clarín, Cristina foi eleita presidente.
DEMOCRACIA E DITADURA
Ernestina Noble: Dona do Clarín é suspeita de ter adotado filhos de desaparecidos. Mas, desde a volta da democracia, depois do jornal “Página 12”, o Clarín, foi o jornal que mais deu cobertura sobre as violações aos direitos humanos durante o regime militar.
Desde a volta da democracia, em seu jornal e canais de TV trabalham/trabalharam pessoas detidas/torturadas pela ditadura.
Também trabalharam pessoas que foram coniventes/colaboraram com o regime militar. Exemplos: Héctor Magnetto, CEO do grupo Clarín. E a própria Ernestina Noble.
Kirchners: Não se opuseram aos indultos aos militares concedidos pelo presidente Menem em 1990, que perdoou a cúpula militar (Menem e Kirchners pertencem ao mesmo partido, o Justicialista, também conhecido como ‘Peronista’). Ao chegar ao poder, em 2003, Kirchner passou a dar atenção aos crimes da ditadura, tornando-se o presidente que mais ocupou-se do assunto (no entanto, manteve uma aliança na província de Buenos Aires com o ex-coronel Aldo Rico, de direita, protagonista de várias tentativas de golpes militares nos anos 80) desde Raúl Alfonsín (1983-89).
Nas duas administrações Kirchner trabalham/trabalharam pessoas detidas/torturadas pela ditadura (como o ex-chanceler Jorge Taiana).
Também trabalham/trabalharam pessoas que foram coniventes/colaboraram com o regime militar, tal como o atual chanceler, Héctor Timerman, que comandou um jornal que respaldou o golpe de Estado e o regime em seus primeiros tempos. Também contam com pessoas que colaboraram com ditaduras anteriores, como o economista Aldo Ferrer, ministro da Economia dos ditadores e generais Levingston e Lanusse.
Outros integrantes do atual governo eram aliados do presidente Menem quando este implementou o indulto aos generais da ditadura em 1990.
…E Menem, por seu lado, que foi arqui-inimigo dos Kirchners entre 2003 e 2009 (os Kirchners o culpavam de todos os males recentes do país), desde o final do ano passado votou a favor do governo nas votações no Senado. Coincidentemente, os Kirchners detiveram suas críticas públicas ao ex-presidente.
MAIS PECULIARIDADES (ESPORTES, DITADURA E DIREITOS HUMANOS):
Os Kirchners aliaram-se a Julio Grondona, presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA), no poder desde o governo do general Videla.
O casal presidencial e Grondona fizeram um lucrativo acordo no ano passado, o “Futbol para todos”, com o qual pagam à AFA e aos cartolas dos clubes argentinos um total de US$ 157 milhões anuais em troca da estatização das transmissões dos jogos de futebol.
Grondona, embora intensamente vinculado com a ditadura, não é criticado pelos Kirchners. O casal presidencial nada fez para remover o principal vestígio da ditadura de seu cargo. Ao contrário, o acordo entre e a AFA e o governo fortaleceu o octogenário cartola.
A “blindagem” que Grondona possui atualmente criou um inesperado cenário: a presidente das Avós da Praça de Mayo, Estela de Carlotto, que foi à África do Sul ver de perto a seleção argentina e divulgar a candidatura das Avós para o Nobel da Paz, perguntada sobre Grondona, disse que ele era um civil sobre o qual não existiam provas de envolvimento com os crimes da ditadura.
E Diego Armando Maradona, aliados dos Kirchners, atual técnico da seleção (designado por Grondona), que não criticou os indultos aos militares dados por Menem (cujo governo respaldou), reuniu-se com Videla, em 1979, junto com os outros jogadores da seleção, para levar a taça mundial dos juvenis.
Um ano depois, o jovem Maradona reuniu-se com o futuro sucessor de Videla, o general Viola. No encontro, Maradona pediu ao militar que lhe quebrasse um galho.
Mas, o pedido não foi para a liberação de um preso político. Maradona disse na ocasião: “meu general, queremos pedir que em agradecimento, como um prêmio (pela vitória), nos dê a baixa (do serviço militar)”. Mais detalhes, aqui.

1979: Ernestina Herrera de Noble, com casaco de pele, aliada na época do general e ditador Jorge Rafael Videla (de terno marrom). Ernestina foi aliada dos Kirchners entre 2003 e 2008. Os Kirchners agora são aliados de Julio Grondona, presidente da AFA desde a época de Videla, que o empossou no cargo (Grondona aparece ao fundo, ao lado do ditador). Kirchners e Grondona assinaram em 2009 suculento acordo anual de US$ 156 milhões (um acordo para estatizar as transmissões dos jogos de futebol. Antes da estatização, a empresa que transmitia os jogos era a TyC, controlada em parte pelo Grupo Clarín). O acordo Kirchners-Grondona foi enfáticamente apoiado por Maradona (que até ser designado técnico era inimigo de Grondona). Maradona aparece na foto abaixo, com Videla, em 1979. Maradona segura a taça que a seleção levou à Casa Rosada, na presença do ditador. O técnico nunca fez um mea culpa de seu respaldo ao regime na juventude.

PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários.
Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
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Mujica, o espartano presidente do Uruguai em seu veículo pessoal (e único patrimônio). No Uruguai, bem como em vários outros países de língua espanhola (não em todos), o fusca é chamado de ‘escarabajo’ (escaravelho). Nos países anglo-saxões, de ‘beetle’ (escaravelho). O termo ‘fusca’ é uma corruptela de ‘Volks’ (por Volkswagen).
Um escangalhado fusca modelo 1987 com valor estimado em US$ 1.900 é o único patrimônio do presidente do Uruguai, José ‘Pepe’ Mujica, segundo indica sua declaração oficial de bens apresentada à Junta de Transparência e Ética Pública. O espartano ex-guerrilheiro tupamaro, ex-senador, ex-ministro e floricultor comprou o fusca em 2004. Até esse ano – durante duas décadas – ele utilizou uma lambreta para deslocar-se em Montevidéu.
O uso desse pequeno veículo causou surpresa em 1994, quando foi eleito deputado federal. Na ocasião, um guarda do estacionamento do Senado viu que um senhor de aspecto desalinhado, com capacete, que descia da lambreta e aproximou-se dele e disse: “aqui não pode estacionar, não. ..por acaso o sr. pretende ficar aí muito tempo?”. Mujica (que havia estado 13 anos preso e torturado durante a ditadura militar), removeu o capacete (só então foi reconhecido pelo guarda) e disse em tom brincalhão: “bom, se os milicos não me tiram daqui, penso ficar pelo menos cinco anos…”.
A chácara onde Mujica mora, em Rincón del Cerro, no lado oeste de Montevidéu, está no nome de sua esposa, a senadora Lucia Topolansky.
A senadora, também uma ex-guerrilheira, ressaltou que nem ela nem seu esposo possuem cartões de crédito nem contas bancárias: “somos antiquados”.
O salário que Mujica – um socialista de 75 anos definido de “amigável” com os mercados – recebe como presidente, de US$ 11.545, por decisão pessoal é destinada em sua maior parte a obras sociais. Essa é uma política em prática desde os anos 90 por parte dos parlamentares e ministros que integram a coalizão de governo Frente Ampla, de centro-esquerda.
Neste caso, Mujica doa 70% de seu salário de presidente para o Plano de Moradias Populares.
Mujica, nas horas livres, sobe no trator e prepara a terra da chácara, onde planta flores e hortaliças, a principal fonte de rende
Mais sobre Mujica (mais especificamente sobre seu sucesso com o empresariado) aqui. E, sobre sua vitória eleitoral no ano passado, aqui.
Mujica e Lucia Topolansky, nos anos 90, na intrépida vespa
SEXO ANAL: EM CASO DE VITÓRIA DA SELEÇÃO DE MARADONA

Promessa de manager da seleção acrescenta-se à de Maradona, que jura que correrá nu ao redor do Obelisco. Na ilustração, a famosa Taça Warren, uma peça romana de prata do primeiro século desta era, que ilustra a cópula anal. A peça foi encontrada pelos arquélogos perto de Bittir, Israel. Está no museu britânico.
Do outro lado do rio da Prata, enquanto isso, o assunto não são as declarações de bens presidenciais, mas sim as declarações de Carlos Salvador Bilardo, manager da seleção argentina, que prometeu publicamente que, em caso de vitória de seu país na Copa do Mundo na África do Sul, está disposto a ter sexo anal.
Bilardo, o segundo homem na hierarquia da seleção argentina depois do técnico Diego Armando Maradona, indicou que aceitará que o jogador protagonista do gol da hipotética vitória argentina seja o encarregado de praticar-lhe sexo anal. As declarações de Bilardo foram realizadas no canal de TV “Telefé” ao apresentador Matías Martín, no programa “Vértigo” (Vertigem).
“Se a Argentina for campeão, não me importa”, explicou Bilardo, para ressaltar que considera mais importante a obtenção da Copa do que a oferta de seu esfíncter anal.
Perante o olhar estupefato de Martín, que o entrevistava, Bilardo – médico de profissão e ex-técnico da seleção argentina de 1986 e 1990 – aprofundou sua explicação indicando que estava consciente que o sexo anal poderia implicar em dor. “Mas como o senhor sabe disso?”, inquiriu Martín. “Sei porque fazíamos retoscopias…e não sabe como os jogadores gritavam!”, ilustrou Bilardo, impassível.
POSIÇÕES APTAS PARA A COPA - Bilardo também recomendou aos jogadores argentinos que, na hora de manter relações sexuais, optem na posição de baixo. “Que eles deixem que as moças fiquem em cima. Elas são jovens, e portanto, que elas façam o trabalho”, ressaltou, para justificar a coreografia sexual que considera mais adequada para os tempos de Copa do Mundo.
Há duas semanas o técnico da seleção, Diego Armando Maradona, prometeu que em caso de conquistar o troféu da FIFA retirará sua vestimenta e correrá “en bolas” (expressão da gíria hispano-americana para referir-se à nudez) ao redor do Obelisco, o monumento-símbolo da cidade de Buenos Aires.
A série de promessas também expandiu-se mais além dos envolvidos de forma direta com o futebol. Esse foi o caso de uma das principais sex symbols do país, a modelo e playmate Luciana Salazar, que comprometeu-se a posar totalmente nua na frente do Obelisco em caso de vitória da Argentina na África do Sul.

Bilardo (o do sexo anal), com D.A.Maradona (o do sexo oral), em 1986, durante a Copa do México
SEXO ORAL – Bilardo fez referências ao sexo anal nesta semana. Mas, no ano passado, foi a vez do técnico DA Maradona de gerar polêmica com sua proposta de sexo oral aos jornalistas que cobriam o decisivo jogo da seleção argentina contra o Uruguai.
“Podem me chupar…e continuar chupando”, disse Maradona em frase direcionada aos jornalistas argentinos, que nos últimos meses desferiram intensas críticas contra a forma como Maradona treinava os “muchachos” da seleção.
Depois, reiterou o convite: “que a mamem” (“mamar” é a expressão usada em alguns países hispano-falantes, entre eles a Argentina, para designar a prática do sexo oral).
Em menos de uma hora, Maradona repetiu três vezes sua proposta de fellatio com os jornalistas, aos quais também chamou de “filhos da p…”.
De quebra, ao ser consultado por um jornalista de Buenos Aires, Maradona, antes de responder a pergunta, observou com outra referência sexual: “você tem uma dentro”.
Representação de fellatio em vaso de cerâmica da cultura Moche (civilização do norte peruano que floresceu entre o ano 100 a.C e o ano 800 d.C). Peça arqueológica exibida no Museu Larco, em Lima. A obra é do ano 300 de nossa era.
Fellatio provém do latim fellātus, particípio passado do verbo ‘fellāre’, isto é, ’sugar’.
E embaixo, outra escultura moche, desta vez, representando o sexo anal

Para mais detalhes sobre Maradona e o fellatio, aqui.

CLARÍN COM LOOK RENOVADO – O jornal Clarín renovou na semana passada seu look no site na web. Com a reforma, o www.clarin.com coloca (ao contrário da versão anterior) as notícias em ordem de importância (antes, pesava mais a ordem cronológica, fato que fazia que os leitores não vissem logo de cara as notícias que importavam).
Os blogs também foram renovados, com um look mais organizado.
Entre os meus preferidos está o de Juan Pablo Meneses. É imperdível a série que fez no ano passado sobre as vacas (isso mesmo, o emblemático quadrúpede mamífero que tantas alegrias propicia para a economia e a gastronomia local). O link para seu blog, aqui.
Outro blog, de tons mais literários, é o do jornalista Miguel Wiñazki, aqui (e é o pai de Nicolás Wiñazki, um jovem jornalista da área política, dono de impecável texto, que por enquanto – infelizmente – não possui um blog no jornal):
Em matéria de sites, ainda prefiro o do “La Nación”, que considero melhor organizado ( www.lanacion.com.ar ).
E está o site do jornal “Infobae” (www.infobae.com ), que embora cultive um peculiar sensacionalismo (e tem um mix de tom de direita, ao mesmo tempo que respalda enfaticamente o governo da presidente Cristina Kirchner), possui o mérito de ser o mais veloz de todos para atualizar as notícias.
Outros sites recomendados sobre notícias da Argentina, Uruguai e Paraguai estão do lado direito deste blog, na lista de links.
E aqui, lhes deixo os links de uns geniais cartunistas argentinos:
Niño Rodríguez: http://www.elninorodriguez.com/
Lucas Varela: http://lucasvarela.blogspot.com/
Liniers: http://www.porliniers.com/
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários.
Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
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