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Ariel Palacios

 

Em meio à crise, favelados argentinos – vários dos quais ex-integrantes da classe média – tiveram que recorrer a ratos, gatos e cavalos para evitar a fome.

“Fica melhor se condimentado com alho”. Este foi o comentário gastronômico pronunciado perante o Estado nos primeiros dias de maio de 2002 na periferia da cidade de Quilmes sobre a forma de tornar a carne de gato mais saborosa. Além disso, recomendaram que a carne felina requeria uma hora de fogo baixo para tornar-se “mastigável”. Nas favelas dessa cidade na zona sul da Grande Buenos Aires os habitantes chegaram ao ponto de caçar ratos para alimentação. Para evitar doenças, os roedores eram lavados com água sanitária. Na mesma semana, 400 quilômetros dali, na cidade de Rosário, um caminhão capotou com um carregamento de vacas. A população de uma recém-criada favela – a maioria ex-integrantes da classe média – atacou o caminhão, esquartejando as reses no lugar. A Argentina, país que outrora havia sido caracterizado pela opulência alimentícia, estava arruinada. Sua população – que havia integrado o antigamente denominado “Paraíso da classe média latino-americana” – estava empobrecida.

Na próxima quinta-feira os argentinos recordarão com amargura uma década dessa crise que costumeiramente é chamada de “El Colapso” (O Colapso), quando o PIB despencou 10%. Dez anos depois – enquanto assistem pela TV as cenas dos protestos sociais na terra dos antepassados, a Europa – os argentinos poderão relembrar os tempos sombrios enquanto saboreiam um “bife de chorizo” (embora menos suculento do que décadas atrás). A economia, nos últimos oito anos, cresceu a um ritmo de 7,6% em média anualmente. As perspectivas, para o ano que vem, embora menos otimistas por causa do contexto internacional, não são catastrofistas.

Enquanto que em 1991, dez anos antes do colapso, somente 4% dos argentinos tinham fome crônica, a proporção disparou para 28% em 2002, em plena crise.

“Atualmente a fome atinge 5% da população, isto é, 2 milhões de pessoas”, afirma ao Estado Artemio López, sociólogo e diretor daconsultoria Equis, especializada na análise da pobreza e desemprego.

Segundo o analista, a fome foi reduzida em grande parte graças aos planos de assistência social dos governos do ex-presidente Nestor Kirchner(2003-2007) e de sua viúva e sucessora, a presidente Cristina Kirchner.“Atualmente, os planos fazem que pobreza não esteja na faixa 28%. E a indigência, sem a ajuda estatal, estaria em 10%”.

A pobreza que era de 10% em 1991, uma década antes da crise, atingiu picos históricos em 2002, quando afetou 54% dos argentinos. Segundo López, a pobreza despencou nos últimos oito anos e atualmente assola 20,1% dos argentinos, embora o governo – cujos índices oficiais são questionados – afirme que a proporção de pobres não passa dos 10%.

Em 1991 o desemprego estava em 5%. Ao longo da década foi subindo gradualmente. Na véspera da crise, em outubro de 2001, 18% dos argentinos não tinham trabalho. Mas, com o colapso, disparou para 24% em 2002. Atualmente está em 7%. “É interessante ver que Kirchner, em 2003, assumiu o governo com 22% dos votos, isto é, dois pontos percentuais a menos que a proporção de desempregados”, afirma López.

CORRALITO - A economia argentina ia aos trancos e barrancos desde que a crise mexicana de 1994 atingiu o país. Mas, no ano 2000, a renúncia do vice-presidente Carlos “Chacho” Alvarez disparou a desconfiança no país, cuja taxa de risco do país começou a crescer aceleradamente. Falidas, 14 das 24 províncias argentinas – em rebelião aberta com o governo federal – começaram a emitir “moedas paralelas”, sem lastro, para poder pagar funcionários públicos e fornecedores.

O governo do presidente Fernando De la Rúa, atingido por fuga de divisas e uma corrida bancária, desesperado em conter a conversibilidade econômica (que determinava a paridade um a um entre o dólar e o peso), decretou o “corralito”, denominação do mega-confisco bancário implementado no dia 1 de dezembro de 2001.

A medida, em vez de acalmar os ânimos, levou milhões de argentinos às ruas para protestar contra o governo. No dia 20 de dezembro daquele ano milhares de pessoas – aos gritos – pediram a renúncia de De la Rúa, que deixou o governo na mesma noite.

Nas portas dos bancos – todos os dias, durante meses – centenas de milhares de correntistas batiam panelas para exigir a devolução de seu dinheiro. Apesar da recuperação da economia, os argentinos nunca mais voltaram a confiar plenamente nos bancos e nos governos.

As violentas manifestações de 2001-2002 – cujo principal modus operandi eram os piquetes – não ocorrem mais. Mas, os piquetes, embora pacíficos, consagraram-se como a modalidade par excellence de expressão social dos argentinos.

DESCONFIANÇA - Segundo o economista Fausto Spotorno, da consultoria Orlando Ferreres e Associados, a bancarização argentina em 2001, baixa em comparação com outros países da América Latina, tinha depósitos que representavam 18% do PIB. Dez anos depois do corralito, os depósitos equivalem a apenas 7% do PIB. “Não é somente a desconfiança, é também pela inflação”, sustenta Spotorno, que destaca que o combate à escalada inflacionária é uma das batalhas que o governo da presidente Cristina Kirchner deixou pendente.

A dolarização da economia argentina, uma característica histórica, acentuou-se na década que transcorreu desde a crise. Enquanto que os argentinos possuíam US$ 81 bilhões no exterior, em caixas de segurança ou no prosaico – mas confiável – colchão doméstico, atualmente escondem fora da fiscalização governamental e das contas correntes um total de US$ 150 bilhões, segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).

Spotorno sustenta que o lado positivo dos últimos anos é o crescimento econômico, a proporção mais baixa da dívida pública em relação ao PIB,e a balança comercial como mundo, superavitária. Mas, considera que a pobreza ainda permanece em níveis elevados, inferiores aos tempos da crise embora maiores do que há duas décadas, e corre o risco de tornar-se estrutural.

Além disso, afirma que o governo precisará tomar medidas urgentes para combater a crise energética. “Também ocorre uma baixa entrada de capitais estrangeiros, e de quebra, falta acesso aos mercados internacionais de crédito e um gasto público excessivo”.

CALOTE - Vinte e três dias depois do corralito – quando tomou posse o terceiro sucessor de De la Rúa, o presidente provisório Adolfo Rodríguez Saá– a situação agravou-se com a declaração de calote dos títulos da dívida pública com os credores privados. A Argentina, além de arruinada, protagonizava o maior default da História mundial e tornava-se paria dos mercados internacionais de crédito.

Nos meses seguintes o país passou por momentos surrealistas, entre os quais o dia em que a província de San Luis especulou declarar a independência para livrar-se dos problemas nacionais argentinos. Na mesma época, credores japoneses pediram a representantes doministério da Economiaquea Argentina vendesse parte da Patagônia para pagar as dívidas.

“Não gosto de lembrar daqueles tempos”, afirma ao Estado com voz angustiada Graciela Rossi. Ela, durante a crise, perdeu seu trabalho de professora de jardim de infância em uma escola portenha. “Meu marido teve que fechar a microempresa que tinha. Viramos ‘cartoneros’ (catadores de papel). Levamos dois anos para sair do fundo do poço”. Quando termina a frase, Graciela – atualmente atendente em uma loja de roupas no bairro de classe média de Caballito – seca duas lágrimas que escorrem por suas bochechas e arremata: “só quero pensar em coisas boas daqui para a frente. Aquilo foi o inferno”.

GLOSSÁRIO DA CRISE ARGENTINA DE 2001

PANELAÇO: O “cacerolazo” (panelaço) é barulhenta modalidade de protesto que embalou as manifestações populares em 2001, 2002 e 2008 nas principais cidades do país. O protesto consiste em bater de forma rítmica utensílios metálicos de cozinha, principalmente as “cacerolas” (panelas). No início de 2002 um inventor portenho criou a “máquina de panelaço”, que consistia em uma panela com uma manivela que na ponta tinha a tampa do utensílio doméstico. Ao girar a manivela, a tampa batia na panela ritmicamente, propiciando um menor esforço por parte do “cacerolero” (“panelaceiro”?). Na ocasião, vendeu várias centenas de unidades. Mas, a recuperação econômica de meados de 2002 acabou com seu incipiente business. Na mesma época, embora com um sucesso um pouco mais prolongado, o empresário Gustavo Federico Gómez lançou no mercado o jogo “Cacerolazo” (Panelaço), que consistia em conseguir as melhores condiçõesde vida para a população de uma província. No meio do tabuleiro do estilo do “banco imobiliário” existiam obstáculos como os sindicatos, empresas, o governo federal, partidos políticos, o FMI, bancos, a polícia, o jornalismo, a igreja. Se uma das cartas indicava tempos ruins pela frente, o jogador podia revidar acudindo a um panelaço de protesto. 

Para um “instant cacerolazo”, ver este site chileno, aqui.

Chilenos foram os criadores mundiais dos primeiros panelaços, em 1973. Mas, a utilização desse protesto em grande escala - e diariamente, ao longo de mais de um ano - pode ser atribuído aos argentinos.

PIQUETE: Bloqueio de avenidas, ruas e estradas por grupo de pessoas como modus operandi de protesto. No início, quando eram poucos, os piqueteiros bloqueavam com pneus em chamas e escombros. Atualmente, com excedente de manifestantes, os bloqueios são feitos com “barreiras humanas”. Acessórios dos piqueteiros: lenços cobrindo parte do rosto, que podem ser úteis na hora do gás lacrimogêneo (e também para proteger sua identidade das forças policiais). Há dez anos eram comuns varas de madeira, barras de ferro, canos de PVC com cimento dentro, utilizados tantopara a defesa pessoal, para o ataque, ou simplesmente para intimidar. No interior do país eram frequentes os estilingues. Mas, atualmente são raras as manifestações com estes objetos. Os piquetes possuem o acompanhamento musical dos bumbos (instrumento originário das mobilizações do Peronismo). Atualmente os piquetes são utilizados por todas as classes sociais, desde a baixa à alta. Esse modus operandi já foi utilizado por militantes trotskitas que exigiam o fechamento das lanchonetes McDonald’s até por militantes da ala radical da Igreja Católica que queriam fechar uma exposição do artista plástico León Ferrari.

CORRALITO: Literalmente, “curralzinho”, expressão também usada para o cercadinho de bebês. Denominação irônica do congelamento de depósitos bancários implantado em dezembro de 2001 pelo governo De la Rúa. O corralito desatou a fúria dos argentinos com o governo e os bancos.

CORRALÓN: Confisco dos depósitos a prazo fixo e cadernetas de poupança em dólares. Foi implementado pelo presidenteEduardo Duhalde em janeiro de 2002.

ESCRACHO: É um protesto personalizado, realizado na frente das residências das pessoas-alvo da manifestação. A modalidade, além de incluir gritos contra as pessoas “escrachadas” contempla o arremesso de objetos contundentes sobre a residência da pessoa. Ou, em uma versão mais light, o arremesso de tinta ou lama contra as janelas e paredes da residência. Os alvos dos escrachos em 2001 e 2002 eram primordialmente os integrantes da equipe econômica, governadores, prefeitos e parlamentares.

PLANOS TRABALHAR: Denominação genérica dos subsídios-desemprego fornecidos pelos governos Duhalde e do casal Kirchner.

TRUEQUE: Os “clubs del trueque” (clubes de escambo) foram em 2002 o âmbito onde os falidos argentinos trocavam produtos ou serviços por outros objetos. Desta forma, uma cabeleireira cortava o cabelo do farmacêutico em troca de determinado remédio. Os clubes surgiram primeiro na periferia. Mas, no meio da crise, o escambo até desembarcou no antes seleto bairro da Recoleta.

PATACONES: As “moedas paralelas” foram a peculiar forma de dinheiro utilizada intensamente durante a crise financeira, econômica e social de 2001-2002. Na ocasião, 14 das 24 províncias argentinas tiveram que recorrer à emissão dessas moedas. “Patacones”, “Lecops” e “Cecacors” foram os nomes de algumas das catorze “moedas paralelas” – também chamada de “quase-moedas” – emitidas na época pelos falidos governos provinciais para pagar salários de funcionários e fornecedores. Entre 2001 e 2003 as “quase-moedas” constituíram 38% do circulante da Argentina. Os “patacones” foram os mais populares.

DADOS SOBRE A ECONOMIA ARGENTINA ENTRE 2001 E 2011 

NÚMERO DE PIQUETES NA ARGENTINA (calculado pelo Centro de Estudos Nueva Mayoría)

2001 – 2336 piquetes

2002 – 1278

2003 – 1278

2004 – 1881

2005 – 1199

2006 – 817

2007 – 608

2008 – 5.608

2009 – 1399

2010 – 754

2011 (primeiro semestre) – 875

DÍVIDA PÚBLICA (dados do Ministério da Economia e consultorias econômicas)

2001 – US$ 144 bilhões

2002 – US$ 137 bilhões

2003 – US$ 179 bilhões

2004 – US$ 191 bilhões

2005 – US$ 129 bilhões

2006 – US$ 137 bilhões

2007 – US$ 145 bilhões

2008 – US$ 146 bilhões

2009 – US$ 147 bilhões

2010 – US$ 164 bilhões

PARTICIPAÇÃO DA DÍVIDA NO PIB

2001: 53,8%

2002: 134%

2003: 139%

2004: 125%

2005: 70,7%

2006: 64,2%

2007: 55,5%

2008: 44,9%

2009: 49,4%

2010: 44%

2011: 39,7% (estimativa) 

PIB (dados do Ministério da Economia, Indec e dados próprios da consultoria Orlando Ferreres e Associados)

2001 – US$ 268 bilhões

2002 – US$ 102 bilhões

2003 – US$ 127 bilhões

2004 – US$ 151 bilhões

2005 – US$ 181 bilhões

2006 – US$ 212 bilhões

2007 – US$ 260 bilhões

2008 – US$ 324 bilhões

2009 – US$ 297 bilhões

2010 – US$ 372 bilhões

2011 – US$ 448 bilhões (estimativa)

VARIAÇÃO DO PIB (dados do Ministério da Economia e consultorias econômicas)

2001: -4,4%

2002: -10,9%

2003: 8,8%

2004: 9%

2005: 9,2%

2006: 8,5%

2007: 8,7%

2008: 6,8%

2009: 0,9%

2010: 9,2%

2011: 8% (estimativa)

INFLAÇÃO (a partir de 2006 começam divergências entre cálculo oficial e extra-oficial)

2001: 4%

2002: 41%

2003: 3,7%

2004: 6,1%

2005: 12,3%

2006: 9,8% (mas, para economistas independentes foi de 10,7%.)

2007: 8,5% (mas, para economistas independentes foi de 25,7%.)

2008: 8,6% (mas, para economistas independentes foi de 28%.)

2009: 7,7% (mas, para economistas independentes foi de 25%.)

2010: 10,9% (mas, para economistas independentes foi de 26%)

RESERVAS DO BANCO CENTRAL (Dados do BC argentino)

2001: De US$ 36 bilhões (janeiro) caiu para US$ 15 bilhões (dezembro)

2002: US$ 10,4 bilhões

2003: US$ 14 bilhões

2004: US$ 19 bilhões

2005: US$ 28 bilhões

2006: US$ 32 bilhões

2007: US$ 46,1 bilhões

2008: US$ 46,3 bilhões

2009: US$ 47,9 bilhões

2010: US$ 52 bilhões

2011: US$ 47 bilhões

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Comentários (17)| Comente!

 

Dez anos depois da crise: o ex-presidente De la Rúa acusa oposição de ter levado o país à crise de 2001-2002. Foto de Ariel Palacios.

Fernando De la Rúa (1999-2001) foi um dos mais breves presidentes civis da Argentina. Seu governo, da coalizão UCR-Frepaso, durou dois anos e 10 dias. Mas, ficou marcado na História como o presidente que levou a Argentina à pior crise social, econômica e política de seus quase 200 anos de vida independente. Na época foi acusado de “relapso” e “esclerosado”. O caricaturistas o retratavam vestido com um pijama.

No entanto, uma década depois do colapso argentino, De la Rúa, aos 74 anos, retruca, e afirma que sua queda foi provocada pelo partido Justicialista (Peronista), de oposição.

Em entrevista exclusiva ao Estado no modesto escritório de um amigo seu no centro portenho (onde havia uma foto dedicada de Juan Domingo Perón), De la Rúa acusou o ex-presidente Duhalde (2002-2003) de ter conspirado para derrubá-lo. Nessa confabulação, sustenta, o Fundo Monetário Internacional (FMI) teve um papel crucial. “Fui derrubado por uma conspiração peronista e do FMI”, diz.

Estado – Costuma dizer que o fim de seu governo foi o resultado de uma conspiração…

De la Rúa – Sim, claramente houve uma conspiração preparada por líderes do Partido Justicialista (Peronista). O então senador Eduardo Duhalde estava por trás disso. A conspiração foi preparada muitos meses antes. Em outubro de 2001 o Peronismo venceu as eleições parlamentares de outubro. Tentei contatos com os peronistas para tentar um governo de união nacional. Tive respostas favoráveis, inclusive de Duhalde. Propus um gabinete com integrantes do peronismo. Mas, eles concluíram que deveriam ter todo o poder. (O ex-presidente Raúl) Alfonsín me disse na época que havia tido uma reunião com Duhalde, e que este lhe havia dito que o mandato presidencial deveria ser concluído pela Aliança UCR-Frepaso. Mas, com o detalhe de que deveria ser outro o presidente, e não eu. Isto é, Duhalde já estava nessa atitude de Deus ex-machina. José Maria Aznar me disse um dia que Duhalde havia telefonado para ele em Madri, explicando que assumiria a presidência da Argentina e que por isso precisava de ajuda. Isso foi uns três meses antes do fim de meu governo. Aznar respondeu-lhe que na Argentina havia um presidente – isto é, eu – e que era meu amigo. Os peronistas, no dia 20 de dezembro, enviaram pessoas para realizar desordens. Essa foi uma jornada penosa, trágica, que a recordo com dor. Insisto que meu governo nunca deu ordens de matar os manifestantes.

Estado – Arrepende-se de alguma coisa de seus dois anos de governo? O corralito agravou a crise e levou milhões de argentinos à pobreza…

De la Rúa – Mais do que me arrepender, destaco as coisas que me doeram. Me doeu o corralito, pois já me doía a corrida bancária. Tentar lidar com o déficit zero foi doloroso, pois implicava em menos dinheiro para os funcionários públicos. Às vezes me pergunto…(sua voz treme) se por acaso poderíamos ter tentado o caminho de auto-financiar-nos internamente. Emitindo bônus, por exemplo. Mas isso seria uma medida muito perigosa, pois poderia ter acelerado a inflação e agravado a crise. Com certeza o FMI teria dito que não eram suas políticas, mas sim erros nossos. Mas foi o FMI, e sua presidente Anne Krueger, que quis nos afundar. Os objetivos do FMI e de Duhalde eram os mesmos.

Há dez anos, em plena crise: no fim da tarde do dia 20 de dezembro de 2001 De la Rúa saiu às pressas da Casa Rosada no helicóptero presidencial. O aparelho não podia pousar em cima do frágil terraço do palácio. Portanto, pairou sobre a área e De la Rúa foi erguido até a porta do helicóptero.

Estado – Na mesma época, outros países da região estavam com problemas. Um deles era o Uruguai, mergulhado na crise desde 1999, que só piorou com o contágio da crise argentina. Mas ali o presidente não teve que renunciar…

De la Rúa – É que nos outros países da região existia uma oposição responsável. No caso do Uruguai, o então líder da oposição, o socialista Tabaré Vázquez (eleito presidente em 2004) declarou respaldo ao presidente Jorge Batlle. E mesmo no Brasil, onde a situação de dívida era parecido à nossa, houve uma transição construtiva entre Fernando Henrique e Lula.

Estado – O Brasil, naquele período, conseguiu evitar uma grande crise…

De la Rúa – O Brasil teve uma vantagem adicional, pois o FMI – que perseguia a Argentina – temia o contágio da economia brasileira, e aí o Fundo forneceu créditos de contingência ao país vizinho, para prevenir qualquer perigo. Eu me queixo do fato do Brasil não ter nos alertado do propósito do Fundo Monetário de derrubar a Argentina. Mas, compreendo os brasileiros, pois sentiam a necessidade de salvar-se. E o resultado é que o Brasil evitou o calote da dívida e hoje em dia é o destino de enormes investimentos internacionais. Mas, a Argentina teve o calote, declarado por aqueles que vieram depois de mim. E deu no que deu. Ainda temos problemas de credibilidade, o país é um paria internacional.

Estado – Os governos do ex-presidente Nestor Kirchner e da presidente Cristina Kirchner mantiveram uma relação tensa com o FMI…

De la Rúa – Reconheço no presidente Kirchner uma boa atitude, de ter denunciado publicamente aquilo que o FMI fez com a Argentina. E além disso, Kirchner rompeu relações com o Fundo.

Estado – Concorda com o casal Kirchner somente nesse ponto ou possui mais convergências com ambos?

De la Rúa – Tenho uma imagem positiva deles. O problema são os abusos de concentração de poder. O confronto permanente. Os excessos. Além disso, a falta de medidas para adotar em épocas de crise econômica. Eles se acostumaram a ver “vento de popa” da economia internacional na maior parte do tempo. E agora deve vir um tempo de ajuste perigoso. Mas, a linha geral está bem, especialmente o fato de terem recuperado o poder da presidência da República.

Estado – Em breve começará seu julgamento sobre seu suposto envolvimento no denominado “Caso Banelco”, o escândalo de pagamento de subornos para a aprovação da lei trabalhista no ano 2000, que os sindicatos rejeitavam…

De la Rúa – Tenho pressa em mostrar que sou inocente. Este processo tem como base falsidades, baseadas em meros rumores. Querem envolver um presidente em algo que não é sério. É como a acusação de compra de votos que foi feita sobre Fernando Henrique Cardoso na votação para reformar a constituição que permitiu a reeleição. Naquele caso e no meu, não há nada sério.

Estado – Como acha que a História o recordará?

De la Rúa – É muito difícil saber. A verdade é que não acredito que lembrarão de mim. Foi um período muito ruim. Se servir para algo, será para extrair uma experiência de como tentar lidar com uma crise.

Estado – Em dezembro de 2001 teve que sair a Casa Rosada em um helicóptero. As pessoas na Praça de Mayo estavam furiosas com a política econômica. Sua imagem pública era a pior de um presidente desde a volta da democracia. Dez anos depois, como as pessoas o tratam na rua?

De la Rúa – Bem, me tratam bem, com respeito. De vez em quando alguma pessoa me gritava algo. Mas isso não acontece há tempo. Atualmente existe mais compreensão das coisas que aconteceram naquela época.

Estado – É verdade que foi vítima da crise, do ponto de vista das finanças pessoais? Foi pego pelo “corralón” feito pelo governo Duhalde?

De la Rúa (com voz grave) Sim, mas é uma coisa que não saio comentando.

Estado – Logo, a crise também o afetou…

De la Rúa (murmurando) Foi assim.

Estado – Antes me disse que o fim de seu governo “doeu” muito. Por acaso deprimiu-se ao sair do poder?

De la Rúa – Na vida aprendi que devemos ser sempre os mesmos tanto quando estamos em cima, em altas posições, como nos momentos em que a gente está lá embaixo. Mas me dói pensar que poderia ter conseguido outros objetivos. Se tivesse tido um pouco mais de tempo…só de pensar que quase um ano depois de minha renúncia o país começou a melhorar, até pela alta do preço da soja!

Estado – Por acaso precisou recorrer a algo muito frequente na Argentina, a psicanálise?

De la Rúa – Não, nunca precisei de análise. Tenho uma grande capacidade interior para refletir. Mas, quem sabe, talvez esteja errado e a psicanálise seria uma ajuda…

Ex-presidente é ocasionalmente relembrado pelos cartunistas argentinos. Nos últimos tempos, houve referências a De la Rúa por causa da crise europeia. Acima, charge de Rudy e de Daniel Paz sobre o ex-presidente e a conjuntura internacional atual.

DE LA RÚA PERDEU TODA INFLUÊNCIA POLÍTICA

Na noite do dia 20 de dezembro de 2001 Fernando De la Rúa dormiu na residência presidencial de Olivos. No dia seguinte passou pela Casa Rosada para buscar seus pertences, que havia esquecido na correria da partida no helicóptero desde o telhado do palácio presidencial. Apesar do conselho de vários amigos que diziam que deveria mudar-se para o exterior até que os ânimos da população se apaziguassem, De la Rúa optou por ficar no país, refugiando-se em sua chácara no município de Pilar.

Desprezado por seu partido, a União Cívica Radical (UCR), abandonado por seus antigos ministros, De la Rúa dedicou-se à jardinagem e à família, enquanto permaneceu afastado da política ao longo da última década. Sua influência política nestes dez anos foi nula. O ex-presidente até evita comparecer às pacatas reuniões da UCR. “Abandonei a política”, disse ao Estado. Analistas políticos sustentam, sem sutilezas: “De la Rúa não existe mais”.

Em 2006 – meia década depois da crise – tornou-se novamente notícia quando lançou o livro “Operação Política”, no qual denunciava as supostas manobras da oposição realizadas contra ele. A obra, fracasso de crítica e de público, rapidamente encalhou nas livrarias.

Ocasionalmente De la Rúa participa de algum evento diplomático, tal como no coquetel do 7 de setembro de 2010 na embaixada do Brasil em Buenos Aires. No entanto, na ocasião, passou boa parte do tempo sozinho. Nesse mesmo evento os convivas preferiram acotovelar-se ao redor do octogenário ex-presidente Carlos Menem (1989-99).

PECULIARIDADES: No dia da entrevista fui até a rua de trás do edifício da Corte Suprema. Fiz um pouco de hora, pois havia chegado uns 20 minutos antes. Tomei um café no bar da esquina e sucumbi perante um muffin de chocolate.

Terminei e fui até o prédio. Chamei pelo interfone. Ouvi a voz de De la Rúa, dizendo “suba”.

“Ele próprio atendeu?” pensei, achando estranho isso. Nos dias prévios alguns colegas argentinos me haviam dito que De la Rúa estava sem secretário (e pelo visto, quase sem ninguém, de forma geral…ao sair da entrevista, 40 minutos depois, passei por um quiosco na esquina para comprar uma água mineral. O “quiosquero” conversava com um zelador da área. Aí, perguntei se viam De la Rúa com freqüência entrando e saindo dali. Os dois me responderam com ácido humor portenho: “De la Rúa? Está más solo que Adán en el dia de la Madre!”

Voltando ao encontro:

Lá em cima, a porta do escritório foi aberta por um secretário (ou equivalente) com um fortíssimo sotaque de La Rioja. Parecia uma paródia do ex-presidente Menem. Mas não era. Tratava-se de um riojano “leggggggítimo” (recordando o bordão de Jô Soares).

O secretário (ou equivalente) – que parecia Nathan Lane com bigode (e com sotaque riojano) – me pediu que sentasse e esperasse o ex-presidente. “El doctor De la Rúa ya viene”.

Sentei ao lado de uma grande mesa de reuniões e esperei a entrada de De la Rúa. Mas, levantei logo, ao ver que do outro lado da sala havia uma foto de Perón em uma moldura. Olhei de perto e vi que a foto estava autografada, embora a dedicatória não fosse muito legível.

Nesse momento entrou De la Rúa. O cumprimentei e apontei para a foto, dizendo, surpreso: “Uau! O sr. tem uma foto autografada de Perón? Foi da época (1973) em que o sr era senador e ele havia voltado do exílio e eleito presidente?”

De la Rúa respondeu: “nããooo..quem dera! Infelizmente não tenho uma foto autografada de Perón. O conheci, brevemente, quando era senador. Mas não é uma foto dedicara para mim. É uma foto para um amigo, que tem este escritório”.

Então percebi que, dez anos depois de deixar a presidência, De la Rúa estava em um escritório emprestado. E de um amigo peronista.

Na rua o calor era insuportável. Ali dentro, apesar do ventilador, o verão portenho (embora seja ainda primavera) já era exasperante. De la Rúa estava de camisa e gravata. Eu, como sempre, estava de terno, seja lá qual for o entrevistado (exceto na cobertura do terremoto no Chile).

De la Rúa, amavelmente, sugeriu que tirasse o paletó. Agradeci, mas declinei a oferta. Nunca fico de camisa na frente de um entrevistado. Anos atrás entrevistei o roqueiro Fito Paez, de terno. Meia década depois, fiz uma nova entrevista com ele. Quando me viu sentado, esperando, me disse: “ei, usted (você formal) já me entrevistou antes… é do Brasil, não é?”. Eu respondi: “Sim! Nossa, que memória, sr. Paez, faz cinco anos!”. E o sr. Adolfo Paez, a.k.a. “Fito”, me disse: “é que foi a única pessoa em toda minha vida que me entrevistou de terno. Aprecio isso. E também foi a única pessoa que não me ‘tuteó’ (tratar de tu ou você). Não tem idéia como não suporto que as pessoas me tratem como se fosse um velho conhecido de toda a vida. E alguns até colocam os pés em cima da mesa, enquanto fazem as perguntas! Ora, acham que porque sou roqueiro posso que ser tratado de qualquer jeito?”. Concordei com ele, evidentemente. 

Voltando a De la Rúa: na hora de fazer as foto, colocou o paletó. Durante a entrevista, havia estado sério e circunspecto. Mas, depois da parte formal, enquanto preparava a câmera, lhe perguntei se era realidade que seu primeiro posto institucional havia sido o de presidente do Comitê de Caça com Estilingue, em Córdoba, quando tinha 10 anos. Ele confirmou e riu. De la Rúa, criança, havia até preparado os estatutos do clube. Na sequência, quis confirmar se a primeira vez que ele havia tido um encontro com sua futura namorada e esposa, Inés Pertiné, havia sido em um restaurante “El Vómito Negro”. De la Rúa confirmou também, e sorriu. Mas, logo ressaltou que esse era o nome informal do estabelecimento. “No entanto, não lembro do nome real…”.

Desta forma, nas fotos De la Rúa aparece sorrindo, na contra-mão do conteúdo da conversa, que relata o caos da crise de 2001.

 

E um vídeo da Internacional do Portal do Estadão com um comentário sobre a queda de De la Rúa. Aqui.

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Pinguim e namorada. Não é “El Pingüino”, isto é, o ex-presidente em questão e a ex-secretária, suposta amante. Neste caso, a ilustração acima mostra o pinguim Skipper, do filme (e série) “Madagascar”, que é o líder de um grupo de adoráveis pinguins mafiosos. Suas frases preferidas são “você não viu nada ainda!” e “manobras evasivas, rapazes!”.

“A outra viúva de Kirchner” é a denominação que está sendo aplicada a Miriam Quiroga, secretária durante 11 anos do ex-governador de Santa Cruz, ex-presidente da República e ex-presidente do partido peronista, Néstor Kirchner. “Era vox populi que eu era amante de Néstor”, disse Miriam à “Notícias”, a revista de informação semanal de maior circulação na Argentina. “Tive uma união muito forte com ele. Deixei tudo para vir com ele desde o sul. Deixei minha família”, declarou Miriam, que autodefine o trabalho que realizou com Kirchner como o de uma “secretária pau para toda obra”.

Miriam – de 50 anos, simples na forma de vestir, embora com mais curvas do que a magra presidente – afirmou que no início de janeiro o secretário-geral da presidência, Oscar Parrilli, lhe comunicou que estava despedida, já que Cristina Kirchner desejava colocar outra pessoa no posto que ocupava formalmente, o de diretora do Centro de Documentação Presidencial. Na reportagem de seis páginas à “Notícias” Miriam afirma tentou falar com a presidente. No entanto, não teve sucesso e teve que partir do governo.

A Secretaria-geral da presidência não respondeu as perguntas da imprensa sobre os motivos da demissão de Miriam. 

Capa da revista “Notícias” com a suposta amante de Kirchner, Miriam Quiroga, ex-secretária do ex-presidente, atual defunto. Quiroga está sendo chamada de “a outra viúva”.

Em meio a um delicado ano de eleições presidenciais a notícia poderia abalar a própria imagem da a viúva oficial, a presidente Cristina, já que evidenciaria que ela hipoteticamente sabia e resignava-se sobre a existência da relação de Miriam com seu marido. No entanto, a partir do momento da morte de Kirchner, vítima de um ataque cardíaco fulminante em outubro, Cristina não teria tido mais obstáculos para a demissão sumária da secretária.

Analistas comentaram ao Estado que o sucesso da “sociedade” política de Néstor e Cristina (funcionaram como dupla política com uma interação não vista desde Perón e Evita) e financeira (possuíam vários empreendimentos imobiliários e de hotelaria a nome dos dois) teria impedido a separação formal do casal.

“Temos que pegar essa informação com pinças”, explicou em off ao Estado uma famosa “kirchneróloga”. “Não sei se ela foi amante de Kirchner durante uma década. Talvez tenha sido uma amante ocasional. Minhas pistas apontavam para outra mulher, que era empresária na província de Santa Cruz, não esta aqui”.

Enquanto isso, Miriam aproveita a polêmica suscitada e nega que sua filha de 11 anos seja fruto da suposta relação amorosa entre ambos. Segundo ela afirma, o pai foi um “namorado fugaz”.

REVISTA - A “Notícias”, cuja editora no Brasil edita a “Caras”, foi famosa nas últimas duas décadas por revelar a existência – posteriormente comprovada na Justiça – de filhos extramatrimoniais de políticos importantes (entre eles, do ex-presidente Carlos Menem), além de amantes de ministros, deputados e senadores.

 

Um baita e anabolizada cobra, com physique du rôle de sucuri ou anaconda. Gravura do século XII.

AMANTES E UMA ANACONDA DE RESULTADO – Ao longo da História argentina a existência de amantes presidenciais foi farta e variada. Carlos Menem (1989-99) era famoso por seus affaires quando ainda era governador de La Rioja. Na presidência intensificou seus contatos extra-matrimoniais, fato que causou a ira de sua mulher, Zulema Yoma, que em vingança entrincheirou-se na residência oficial de Olivos e confiscou a faixa e o bastão presidencial. O casal – que também tinha abundantes diferenças políticas – separou-se oficialmente na sequência.

Menem já havia tido aventuras extramatrimoniais com descendência incluída em 1981, época em que Menem (que havia exercido entre 1973 e 1976 seu primeiro mandato como governador), por ordem do regime militar, que o havia detido, passou meses em prisão aberta no vilarejo de Las Lomitas, Formosa.

Ali, conheceu a jovem Marta Meza – filha de um caudilho local – que ficaria grávida. Menem, na época, estava casado. Mas, prometeu a Marta que reconheceria o menino.

Os anos passaram e a promessa não se cumpria. Em 1989 Menem foi eleito. Nesta ocasião, prometeu que reconheceria seu filho quando deixasse o poder. Essa promessa tampouco foi cumprida. Nesse intervalo a mãe de Carlos Nair foi eleita deputada federal.

No ano 2003, Marta Meza suicidou-se em circunstâncias misteriosas (bebendo herbicidas). Carlos Nair foi vítima de atentados e de ameaças que lhe indicavam que deixasse de insistir com seu pedido de reconhecimento.

Em 1996 a revista “Notícias” publicou as fotos de Menem com seu filho ilegítimo na residência presidencial de Olivos. Após o escândalo, Menem evitou o garoto durante anos. Carlos Nair, após a maioridade, começou a exigir que seu pai o reconhecesse. Menem continuava recusando-se. Mas, em 2005, o juiz Francisco Orella determinou que o jovem era filho extra-matrimonial do ex-presidente. A determinação baseou-se nas fotografias que provam o vínculo e a negativa de Menem em submeter-se ao exame de DNA.

Em meados de 2008, sua fama de latin-lover septuagenário (agora ele é octogenário) foi abalada pelas aventuras amorosas da chilena Cecilia Bolocco, com a qual havia se casado em 2001 (que tinha metade de sua idade).

Cecilia, uma ex-miss Universo, cansada da intensa dedicação de Menem aos jogos de golfe na Argentina (enquanto ela residia com o filho de ambos em Santiago do Chile), começou a ter um tórrido affaire com um playboy italiano em Miami. O resultado foi o divórcio para o casal e fama de “homem traído” para Menem.

O ex-presidente só conseguiu um pouco mais de protagonismo quando, semanas depois do escândalo de Bolocco, seu filho ilegítimo, Carlos Nair, apareceu em “Gran Hermano”, a versão argentina do Big Brother.

O jovem tornou-se celebridade nacional quando, no meio do programa, os integrantes descobriram que o filho do ex-presidente possuía um aparelho reprodutor de consideráveis dimensões. As participantes femininas proferiram frases apologéticas sobre o diâmetro e comprimento do supracitado. Os participantes masculinos que também ali estavam exclamaram expressões de inveja.

Desta forma, Carlos Nair tornou-se famoso em toda a Argentina com o apelido de “La Anaconda”, em alusão à gigantesca cobra que habita a Amazônia.

Menem não perdeu tempo, e reconheceu oficialmente seu filho ilegítimo, algo que não havia feito em 27 anos. “Só podia ser filho meu”, afirmou Menem na época. No entanto, a vedette do teatro de revista Moria Casán – ex-amante de “El Turco” nos anos 80 – com ironia sugeriu que as proporções substanciais da genitália de Carlos Nair não necessariamente tinham correlação com seu genitor, o qual conhecia bem de antanho.

F.De la Rúa pega dentro de sua gaveta presidencial o vigorizante sexual presidencial. Minutos antes havia renunciado à presidência da República.

 PICARESCOS ANÕEZINHOS – No dia 20 de dezembro de 2001, o então presidente Fernando De la Rúa (1999-2001), estava  ponto de renunciar e escapar em um helicóptero do teto da Casa Rosada, a sede do governo. Nas horas anteriores, uma multidão enfurecida com a crise econômica – e especialmente o “corralito” (denominação do mega-confisco bancário) – manifestava-se na Praça de Mayo para exigir sua renúncia.

As forças de segurança reprimiriam a multidão e mataram cinco manifestantes a poucos metros das janelas presidenciais (no resto da cidade houve mais mortos).

Após renunciar, De La Rúa passou pela sala onde estava seu escritório para pegar os objetos pessoais.

A foto feita na ocasião pelo fotógrafo oficial da presidência, Victor Budge, mostra o pacato e sonolento ex-presidente abrindo uma gaveta. Era  última foto na Casa Rosada de De la Rúa,

Um ano depois, em janeiro de 2003, a “Gente”, tradicional revista de fofocas, publicou a mesma foto, embora ampliada. O detalhe mostrava que De la Rúa retirava da gaveta da escrivaninha duas caixas – amostra grátis – de um vigorizante sexual de nome “Optimina Plus”, recomendado para casos de impotência.

A foto de De la Rúa recolhendo seus objetos havia sudo publicada várias vezes ao longo de 2002. No entanto, ninguém havia reparado no detalhe das caixinhas, até que um leitor de “Gente”, curioso em saber o que havia na gaveta presidencial, e munido de uma lupa de aumento, reconheceu o remédio.

As caixas de “Optimina Plus” ostentam na embalagem uma picaresca seqüência de gnomos cuja ponta dos gorros vai ficando ereta gradualmente, em uma analogia aos efeitos que o remédio causaria no órgão reprodutor masculino, neste caso, o órgão presidencial (que a partir desse momento era ex-presidencial).

A revelação de que De la Rúa consumia abundantes doses de “Optimina” foi na ocasião o principal tema de piadas em Buenos Aires.

De la Rúa, até a época, era visto como um homem asexuado, tímido, dominado pela ambiciosa então primeira dama, Inés Pertiné, com a qual padecia problemas conjugais.

No entanto, nos últimos anos haviam circulado rumores de que teria tido affaires com duas de suas assessoras na época, que nunca foram confirmados.

 

Sexo paleolítico: Uma representação de uma deusa estilizada. É a “Vênus de Dolní Věstonice” (em tcheco, Věstonická Venuše). Esta pequena estátua de terracota, que data do 25 mil a.C, teria sido usada como um primitivo, embora eficaz, consolador. 

O GOVERNADOR E O VIBRADOR - “Caudilho com pedigree” é a irônica definição que fazem sobre Adolfo Rodríguez Saá seus críticos na província de San Luis, onde ele e sua família controlam a mídia, a burocracia provincial, além da Justiça. O “pedigree” refere-se à freqüência com a qual os Saá aparecem como governadores nos livros de História nessa província, no centro da Argentina, que durante tantas décadas foi tão pobre que comentava-se com humor que quando um urubu passava por ali, levava marmita para não passar fome.

Rodríguez Saá governou San Luis entre 1983 e 2001, tornando-se assim, o governador que mais permaneceu no cargo na segunda metade do século XX. Junto com seu irmão Alberto – definido pelos opositores como o verdadeiro “Maquiavel” por trás de Adolfo – são acusados de diversos casos de corrupção.

Seus críticos afirmam que é estranho que um homem como ele, que em 1983 tinha como bens somente uma casa, hipotecada, e dois carros usados. Duas décadas depois, só com o salário de governador havia tornado-se milionário.

Em outubro de 1993 Rodríguez Saá protagonizou um sui generis escândalo sexual. Subitamente, uma tarde, Rodríguez Saá apareceu nos aparelhos de TV dos argentinos para explicar que havia sido seqüestrado e colocado no motel de nome “E..no c” (jogo de palavras equivalente a ‘E…não sei’) junto com “La Turca”, nom de guerre de Esther Sesín, que havia sido sua amante.

O próprio Rodríguez Saá explicou que em meio ao sequestro havia sofrido um grave abuso sexual.

Segundo ele, um grupo de pessoas estava tentando extorqui-lo, pois haviam gravado cenas de conteúdo hardcore. Os sequestradores o deixaram em uma estrada de terra, espancado e com a ameaça de divulgar o vídeo caso ele não pagasse US$ 3 milhões. No entanto, a Polícia de San Luis imediatamente encontrou e deteve “La Turca” e seu namorado, Alejandro Salgado, mentor do sequestro.

Quem viu o vídeo, de circulação altamente estrita, afirma que no meio do suposto “abuso” o casal estava utilizando um avantajado vibrador. No entanto, não era “La Turca” – uma quarentona de curvas abundantes – que estava usufruindo do aparelho em questão.

A História daria reviravoltas. No dia 23 de dezembro de 2001, em meio à grave crise política e econômica causada pelo corralito e a queda de De la Rúa, Rodríguez Saá foi designado presidente provisório da Argentina. Sua primeira medida foi declarar o calote da dívida externa com os credores privados. Uma semana depois, alvo de panelaços e sem apoio dos governadores, renunciou. Atualmente é senador.

     

PINGUINS, SEXO & LEITÕES - Em janeiro de 2009 a presidente Cristina Kirchner, que ainda não era viúva, fez referências sobre sua vida sexual (nunca antes, em 200 anos transcorridos desde a independência da Argentina um presidente da República havia feito alusões sobre sua vida sexual em público, e muito menos realizado referências sobre afrodisíacos químicos e naturais).

Na ocasião Cristina exaltou as propriedades afrodisíacas da carne de leitão. Além da carne suína, a presidente – famosa por preocupar-se com a “linha” – também exaltou as propriedades da carne de frango para emagrecer.

Tudo começou quando a presidente Cristina, ao vivo pela TV, durante uma cerimônia com produtores suínos, anunciou que havia sido informada dos poderes afrodisíacos do leitão. Segundo ela, valia mais a pena um “porquinho na grelha do que tomar viagra”.

Além disso, ressaltou que havia ingerido significativas porções de um saboroso suíno no fim de semana prévio, e que o sábado e domingo transcorrido na companhia de seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner haviam confirmado empíricamente os efeitos eréteis do leitão consumido.

Um dia depois, a presidente exaltou a qualidade da carne de frango como alimento “para fazer dieta”. A mídia deleitou-se com as frases da presidente, definindo Cristina Kirchner como “guru sexual e nutricionista”.

      

“Pirata”, no lunfardo (gíria) portenha é quem pratica a “trampa”, isto é – literalmente – “trapaça”. Quando uma pessoa está “de trampa” é que está casada mas está tendo (ou tentando) ter um encontro sexual com outra pessoa que não é a cônjuge.

Acima, a captura do pirate Barbanegra, em 1718. O quadro mostra como a pancadaria correu solta entre Barbanegra e o tenente Maynard em Ocracoke Bay. A obra é do americano Jean Leon Gerome Ferris (1863–1930) 

GLOSSÁRIO SEXUAL

Aproveitamos o post sobre sexo e política (e recordamos a frase de Henry Kissinger, “o poder é o maior afrodisíaco de todos”) para mostrar esta lista (citada em outro post antigo) de palavras alusivas ao coito e afins.

 COJER: Verbo que indica o ato sexual completo. O verbo, na Espanha e outros países de idioma castelhano o verbo é primordialmente utilizado para “pegar” ou “colher” (como “colher algo do chão”). Isto é, uma pessoa poder referir-se a “cojer el autobús (ônibus), para explicar que poder “pegar o ônibus”. Na Argentina, equivaleria a dizer que teria um coito com o veiculo de transporte coletivo (e não dentro de tal veículo). No entanto, não é uma forma polida de referir-se ao ato sexual.

COJIDA: “Uma cojida”. O coito.

GARCHAR: Verbo que designa o ato de copular. No entanto, é uma forma chula. “Coger”, perto de “garchar”, acaba parecendo uma forma elegante…

GARCHE: A cópula, expressada sem elegância

EMPOMAR: Verbo que refere-se a “pomo”, isto é, o equivalente a “bisnaga” Ergo, indica o membro viril. Desta forma, “empomar” é o verbo utilizado para referir-se à penetração.

TRANSAR: O verbo foi recolhido pelos turistas argentinos que foram ao Brasil nos anos 80. Mas, em vez de referir-se ao coito em si, na Argentina, esta gíria utiliza-se de forma adulterada. Neste contexto de readaptação do verbo, transar aqui refere-se aos beijos e carícias. Preliminares sexuais com abundante produção hormonal mas sem a cópula em si.

FRANELEO: Uma versão local da “transa” (isto é, a “transa” em sua versão adaptada). “Franela” é “flanela”, produto utilizado para passar – e esfregar – sobre um automóvel ou um móvel. No contexto sexual, uma “franela” seria o ato intenso de fricção de epidermes de duas pessoas.

 VACUNAR: Vacinar. Neste caso não se refere ao ato de inocular alguém com anti-corpos para provocar uma resposta de defesa perante microorganismos patógenos inventado por Edward Jenner em 1796, mas sim, refere-se ao ato de penetrar alguém.

 

Edward Jenner, criador da outra “vacuna” (vacina)

ACABAR: Cuidado ao utilizar esse verbo na Argentina, já que é um sinônimo frequente de “ejacular”. Ou, no caso das mulheres, de chegar ao orgasmo. Para indicar o “acabar” nosso é mais adequado a utilização de “terminar”. Ou “concluir”.

TUJE: Proveniente do antigo yiddish “tuches”, utilizado com frequência na Argentina para indicar os glúteos. Traseiro. Bumbum.

VERSO: Galanteio semi-picareta. Afirmação – ou conjunto de afirmações – geralmente sem base concreta (“se você quiser conhecer meu iate…”) destinados a conseguir a conquista-sedução de alguém.

VERSERO/A: O praticante do ‘verso’.

TRAMPA: Literalmente, “trapaça”. Quando uma pessoa está “de trampa” é que está casada mas está tendo (ou tentando) ter um encontro sexual com outra pessoa que não é a cônjuge.

PIRATA: Aquele que pratica a ‘trampa’.

CABARULO: Refere-se aos cabarés, palavra em Buenos Aires aplicado para casas de strip-tease e também, ocasionalmente, para bordéis.

PRIVADO: Prostíbulo instalado em um apartamento.

CAFISHIO: O gigolô.

TRAVIESSA: Literalmente, “travessa”. Mas refere-se ao ‘travesti’. 

“Que panettone!”. Expressão apologética dos glúteos femeninos.

SEXO E ALIMENTOS

E, como não podia deixar de ser, tal como em diversas partes do planeta as referências aos alimentos – de preferência tubérculos, legumes e cereais falofórmicos – são amplamente usadas para designar o membro viril. Esta lista já foi apresentada em outro post ano passado. Mas, recuperamos o catálogo para que sirva de guia em caso de necessidade.

ENTERRAR LA BATATA: A ‘batata’ desta frase refere-se à ‘batata-doce’. A nossa batata em português é “la papa”. Mas, em ‘lunfardo’ a batata indica o membro viril. Logo, neste contexto, com alusões à atividade da lavoura, ‘enterrar la batata’ (enterrar a batata-doce) significa, em tradução figurativa, penetrar alguém. Não se usa “enterrar la papa” (isto é, nossa batata, em português). Talvez porque até poderia causar confusão com o termo ‘papa’, isto é, o Sumo Pontífice (e, já que estamos aqui, Pontífice vem do latim ‘Pontifex’, o “construtor de pontes”).

MOJAR LA CHAUCHA: Molhar a vagem. Similar para ‘enterrar la batata’.

MOJAR LA VAINILLA: Molhar a baunilha, isto é, o biscoito champagne. Na Argentina, um dos hits do lanche da tarde, décadas atrás, era o do café com leite (ou chá) com as ‘vainillas’ (biscoito-champange). No fim das contas, a expressão é similar a “enterrar la batata”.

ES UN BOMBÓN: É um bombom. Elogio que indica que alguém é bonito/a. Majoritariamente usado por mulheres (ou homens) para referir-se a homens.

ES UN CHURRO: É um churro. Igual ao bombón. Mas, a expressão é um pouco mais antiga.

QUE LOMO!: “Que lombo!”. Elogio carnívoro ao físico de alguém. Usado tanto por mulheres como por homens. Lomazo: Um corpaço. Usado para homens e mulheres.

QUE PAN DULCE: “Que panettone!”. Elogio aos glúteos femeninos.

 

“O poder é o maior afrodisíaco de todos!” afirmou no 27 de maio de 1976 o ex-secretário de Estado dos EUA, Heinz ‘Henry’ Alfred Kissinger. 

ÉRIAS: Estarei a ritmo lento na próximas semanas, já que hoje começo minhas férias. No entanto, deixarei a sra. Ágata Salgado-Simpson, honorável septuagenária secretária e ornitóloga a cargo de checar e autorizar a cada 4 ou 5 dias os comentários dos comentaristas.

Inté!

  uma melodia, um clássico ibérico, para entrar no ritmo das férias, hip-hip-hurrraaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!

“El Relicario”, de J.Padilla, aqui.

 Dona Ágata, entre uma bebericada de chá e outra, tomando nota de minhas indicações.

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Do Riachuelo ao Aerolula: O encouraçado brasileiro “Riachuelo”, que transportou Campos Salles do Rio até Buenos Aires. O navio de guerro aparece “estacionado” em Puerto Madero. Na época, os cais haviam sido recém-inaugurados. Um século depois a mesma área seria o point de restaurantes, atualmente entupidos de turistas.

Nesta segunda-feira – longe de Puerto Madero e dos encouraçados de antanho – quando a presidente Dilma Rousseff desembarque do avião presidencial Santos Dumont em Buenos Aires, será do outro lado da cidade, na base aérea do Aeroparque Jorge Newbery, o aeroporto metropolitano portenho.

uas cheias de guirlandas e arcos do triunfo. Esses foram alguns dos elementos que os portenhos colocaram nas ruas da capital argentina para exaltar a visita do presidente do Brasil Manuel Ferraz de Campos Salles à Buenos Aires em outubro de 1900. Na ocasião, 300 mil portenhos (a cidade contava com 1,2 milhão na época, isto é, um de cada quatro habitantes da cidade foi às ruas receber o visitante) urraram o nome do brasileiro nas ruas da cidade, celebrando seu desembarque. Campos Salles dava início às visitas presidenciais brasileiras no exterior.

Campos Salles colocava seus pés em Buenos Aires para retribuir uma visita feita pouco mais de um ano antes, em agosto de 1899, pelo presidente argentino Julio Roca ao Rio de Janeiro. À beira da Bahia de Guanabara, Roca teria dito uma frase histórica, “tudo nos une, nada nos separa”.

A frase, no entanto, é uma daquelas que se encaixam na categoria de ‘se non è vero, è ben trovato’, já que ela seria pronunciada nesse exato formato em 1910, pelo então presidente eleito da Argentina, Roque Sáenz Peña, durante sua visita ao Rio de Janeiro. “Hoje em dia essa afirmação pode parecer banal. Mas na época, foi revolucionária”, me disse o ex-embaixador do Brasil em Buenos Aires, Luiz Felipe de Seixas Correa.

Roca também deixou para os registros históricos uma categórica afirmação (esta, de cunho próprio): “o Brasil e a Argentina devem unir-se por laços da mais íntima amizade, porque juntos serão ricos, fortes, poderosos e livres”.

Com esta visita, o Brasil, depois de 67 anos de monarquia, desejava “republicanizar” sua política externa, atenuando os vínculos com as coroas europeias e privilegiando o espaço sul-americano. 

 

OM TODA A POMPA – Ao contrário das visitas presidenciais atuais – corriqueiras, de apenas 24 horas, com comitivas de poucas dezenas de pessoas, e que muitas vezes passam desapercebidas para o grande público – a viagem de Campos Salles à Buenos Aires no ano seguinte à visita de Roca ao Rio foi em grande estilo. O presidente viajou na companhia de centenas de pessoas, no encouraçado “Riachuelo”, que veio acompanhado de parte da esquadra brasileira, que levava centenas de pessoas que integravam a comitiva presidencial.

Campos Salles permaneceu em Buenos Aires durante uma semana com atividades que incluíram idas à Ópera, ao Hipódromo e diversas recepções com bailes. A ocasião foi tão especial que os dois presidentes foram os protagonistas do primeiro filme rodado na Argentina.

O cinegrafista Eugenio Py gravou as imagens dos dois presidentes conversando em uma escadaria em um palacete portenho. 

 

Chegada de Campos Salles até virou motivo de cartão postal na época da visita. Postal mostra multidão e arco do triunfo no porto.

Depois de Campos Salles passaram várias décadas sem visitas presidenciais brasileiras. Foi necessário esperar até 1935, quando chegou à Buenos Aires o presidente Getúlio Vargas, que aqui reuniu-se com o presidente e general Augustín Justo. Na ocasião, foram assinados 12 acordos bilaterais.

O arquivo da Chancelaria argentina mostra vários dados curiosos sobre a visita de Vargas ao país. Um deles, o desespero da Chancelaria local pela lerdeza da Embaixada argentina no Rio de Janeiro em enviar os dados e fotografias do presidente Vargas para fazer o livro de luxo que celebraria a visita.

Outra peculiaridade teve a pianista Guiomar Novaes como foco, já que o governo brasileiro, a último momento, queria colocá-la de qualquer forma na programação cultural da visita de Vargas à Buenos  Aires. Depois de fortes pressões brasileiras os argentinos deram um jeito e finalmente conseguiram um buraco na agenda das festividades para que ela tocasse no Teatro Cervantes.

O general e presidente Justo à esquerda. À direita, Getúlio Vargas.

M PRESIDENTE FASCINADO – Vargas foi hospedado no Palácio Pereda, no início da elegante Avenida Alvear. Encantado com a mansão, o presidente propôs sua compra, para transformá-la na Embaixada do Brasil. Celedonio Pereda, fazendeiro argentino que havia construído o palacete pouco mais de uma década antes, foi seduzido pelas insistentes ofertas que Vargas fez nos anos seguintes. A compra foi efetivada em maio de 1945, nos derradeiros meses do governo Vargas.

Desde os anos 80 o Palácio Pereda é a residência do embaixador brasileiro. A parte administrativa construída nos anos 80, está perto dali, virando o quarteirão, na rua Cerrito.

Segundo a escritura dos tabeliões Juan e José Toribio, em troca do palácio o governo brasileiro cedeu à família Pereda o prédio da Avenida Callao 1555, até então a embaixada do Brasil, junto com 4 mil toneladas de minério de ferro.

O edifício neo-clássico da sede diplomática localiza-se na frente da Praça Carlos Pellegrini, diante do Jockey Club, quase ao lado da refinada Embaixada da França. Erroneamente, a maioria das pessoas consideram que o palácio está no elegante bairro da Recoleta. Mas, esta começa a três quadras dali. Oficialmente, o palácio está no bairro de Retiro. 

Dutra, acompanhado por Evita Perón. Atrás da primeira-dama argentina, a “Mãe dos pobres”, está a silhueta do general e presidente Juan Domingo Perón.

UTRA E JÂNIO, NA FRONTEIRA - Na seqüência das visitas presidenciais, a seguinte seria a vez do presidente Juan Domingo Perón, que receberia o presidente Eurico Gaspar Dutra em 1947. No entanto, o encontro ocorreria na fronteira, entre a argentina Paso de los Libres e a brasileira Urugaiana (RS). Na ocasião, com a presença de Evita Perón, a primeira-dama argentina, os dois presidentes inauguraram a ponte que liga as duas cidades. Esta seria a primeira entre os dois países, já que ambos lados da fronteira tradicionalmente evitaram a construção de pontes, já que estas podiam servir para a passagem de tropas invasoras do país vizinho.

O trecho da metade da ponte correspondente à Argentina foi inaugurada com o nome de Agustín Justo, ditador da Argentina nos anos 30. Do lado brasileiro, teve o nome do ditador Getúlio Vargas (na época, Vargas somente havia sido ditador; ele ainda não havia sido eleito democraticamente presidente, tal como aconteceria em 1950).

Em abril de 1961 seria realizado o seguinte encontro, também na divisa dos dois países, entre os presidentes Arturo Frondizi e Jânio Quadros. No encontro, os presidentes tiveram opiniões diferentes sobre o contexto regional (a crise de Cuba, a posição perante os EUA) e internacional (a eventual aproximação aos países africanos que começavam a independizar-se e aos países comunistas da Ásia). Mas, assinaram um importante acordo de amizade e consulta. Quadros, que duraria poucos meses no poder, até especulou com Frondizi retirar as tropas brasileiras da área da fronteira com a Argentina, localizadas especialmente no Rio Grande do Sul, e deslocá-las mais para o interior. 

Sorridentes, mas por curto tempo (e por problemas internos): Jânio e Frondizi, na fronteira, no dia 21 de abril de 1961. Jânio duraria quatro meses no poder. Frondizi, 11 meses, antes de ser derrubado pelos militares.

QUINO PRESENTE - Passariam quase duas décadas, quando, en 1980, para apaziguar a tensão surgida entre o Brasil e a Argentina pela construção da hidrelétrica de Itaipu (a obra causava suspicácias no governo argentino e na população do país, que temia que um dia o Brasil poderia abrir suas comportas e alagar várias cidades argentinas), o general João Batista Figueiredo desembarcou em Buenos Aires para reunir-se com o ditador argentino Jorge Rafael Videla. O ditador argentino paparicou o colega brasileiro, que foi presenteado com cavalos Made in Argentina, fato que agradou Figueiredo, um declarado amante da hípica.

De quebra, foi homenageado no estádio do San Lorenzo, time pelo qual Figueiredo havia torcido, quando adolescente, durante o exílio de seu pai, o general Euclides Figueiredo, em Buenos Aires nos anos 30 (o general havia sido exilado pelo governo Vargas por ter participado da revoluçào constitucionalista de 1932).

A visita teve grande impacto, pois foi a terceira viagem de um presidente brasileiro à Argentina em todo o período republicano (os encontros Perón-Dutra e Frondizi-Quadros foram literalmente na fronteira). Videla retribuiu a visita no mesmo ano, indo à Brasília. 

 

Black-tie: Os generais Videla e Figueiredo com suas respectivas primeiras-damas. Figueiredo ganhou cavalo de presente ao visitar Buenos Aires.

NTEGRACIONISTAS E AMIGOS - Depois, em 1985, com ambos países de volta à democracia, o presidente José Sarney reuniu-se com o presidente Raúl Alfonsín sobre a ponte Tancredo Neves (entre a brasileira Foz de Iguaçu e a argentina Puerto Iguazú), inaugurada na ocasião, colocando as bases do futuro Mercosul. O encontro ocorreu nas duas cidades entre os dias 29 e 30 de novembro. No início do século XXI, em homenagem a este passo crucial no aprofundamento das relações entre os dois países, esta última data foi designada o “dia da amizade argentino-brasileira”.

Os dois presidentes assinaram a Declaração Conjunta sobre Política Nuclear. Alfonsín, simbolicamente, visitou Itaipu, que nos dez anos anteriores havia sido a nêmesis para a Argentina.

Em julho de 1986, o presidente brasileiro foi à Argentina. Na ocasião, Alfonsín deu um inesperado gesto de confiança ao receber Sarney e abrir-lhes as portas das instalações atômicas argentinas. Os dois presidentes tornaram-se grandes amigos dali para frente. Eles costumaram realizar visitas mútuas mesmo após terem concluído suas presidências. É o único caso de uma amizade sólida entre presidentes do Brasil e da Argentina que perdurou mesmo após seus períodos de governo. Quando Alfonsín faleceu, em 2009, Sarney foi o único orador estrangeiro a ter a honraria de discursar no enterro.

As cataratas do Iguaçu fazem pose enquanto Sarney e Alfonsín ficam na frente. Foto de 1985 de Victor Bugge, fotógrafo histórico da presidência da República Argentina.

HC, TRADUTOR DE ‘EL TURCO’ – Depois, de Sarney, as visitas presidenciais brasileiras tornaram-se corriqueiras. Foram à Buenos Aires Fernando Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Este último causava profunda inveja no presidente Carlos Menem (1989-99), ao falar com a imprensa argentina em espanhol e com os correspondentes estrangeiros em inglês ou francês. Em diversas ocasiões o políglota FHC serviu de tradutor de coletivas de imprensa para “El Turco”, que era monoglota (o macarrônico inglês de Menem era a delícia dos humoristas argentinos).

FHC continuou visitando Buenos Aires nos anos seguintes ao fim de seu mandato para dar conferências. O ex-presidente continuou tendo tratamento de super-star na mídia e na intelectualidade portenha.

Kirchner, na época em que era presidente; Cristina, nos tempos em que era primeira-dama. E Lula, em seu segundo mandato.

ISITANTE ASSÍDUO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi outro visitante freqüente em seu primeiro e segundo mandato, batendo todos os recordes protagonizados por seus antecessores. Nos primeiros meses de governo, em 2003, visitou o então presidente provisório Eduardo Duhalde (2002-2003), que estava em seus últimos meses de mandato e com quem teve excelente feeling pessoal.

Na seqüência, o anfitrião passou a ser Néstor Kirchner, que tornou-se presidente em maio de 2003. Lula o visitou várias vezes. A partir de dezembro de 2007, os Kirchners continuaram no poder, mas por intermédio da esposa de Néstor, Cristina, que combinou dois encontros presidenciais por semestre com Lula.

O temperamental Kirchner oscilou entre períodos de idílio e de turbulências com Lula. O presidente brasileiro foi pego de supresa várias vezes pelas guinadas drásticas de Kirchner, especialmente as inesperadas medidas protecionistas para – atendendo os pedidos das indústrias nacionais – prevenir as alardeadas – e hipotéticas - “invasões de produtos” Made in Brazil no mercado argentino.

Desta forma, nem todas as ocasiões de visitas de Lula à Buenos Aires e outras cidades argentinas (especialmente para cúpulas do Mercosul) puderam ser definidas de “prazenteiras”. A tensão prevaleceu durante a administração de Néstor Kirchner.

Já com Cristina Kirchner, as cúpulas mantiveram um clima relativamente mais pacífico. Cristina costumava elogiar o empresariado brasileiro, como modelo a ser seguido pela Argentina.

Em todas suas visitas Lula causou frisson na esquerda argentina e exclamações de admiração no establishment portenho. No entanto, o frisson da esquerda foi uma sensação que diminuiu com o passar dos anos, já que setores da esquerda local foram decepcionando-se com a guinada para o centro (ou centro-direita, segundo alguns) do ex-torneiro mecânico. O wishful thinking de que Lula ainda supostamente permanecia - no fundo do coração - um homem socialista, consolava diversos setores progressistas argentinos. Diversas pesquisas, ao longo dos anos, indicaram que se um presidente estrangeiro pudesse ser candidato a presidente na Argentina, Lula venceria outros políticos do exterior, além dos próprios candidatos argentinos.

PRIMEIRA VISITA DE DILMA – A presidente Dilma Rousseff desembarcará em Buenos Aires nesta segunda-feira de manhã, às 11:00 horas, para uma intensa agenda que desenvolverá em poucas horas com sua anfitriã, a presidente Cristina Kirchner, e os ministros argentinos. Embora a visita seja breve, já que a presidente Dilma partirá à tarde, após o almoço de honra que o governo Kirchner organizou no elegante palácio San Martín, sede da chancelaria argentina, o plano de Cristina é o de receber Dilma com toda pompa para este primeiro encontro oficial entre as duas únicas mulheres que atualmente são presidentes na América do Sul.

 

HILIQUE PELO PÃO DE QUEIJO – Segundo fontes diplomáticas brasileiras, no início dos anos 90, durante uma visita à Buenos Aires, acompanhando seu emtão marido - o presidente Fernando Collor de Mello - Rosane Collor teria protagonizado um insólito chilique. A então primeira-dama pediu aos gritos a demissão da cozinheira da Embaixada do Brasil em Buenos Aires. O motivo da exigência da jovem de Canapi era que a quituteira argentina não sabia preparar o brasileiríssimo pão de queijo, na época, um elemento fundamental do regime do café da manhã da então primeira-dama.

Pão de queijo, o quitute da divergência.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Vice-presidente Julio Cobos ilustrado pelo cartunista argentino El Niño Rodríguez. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/

Pacato, low profile e supostamente inofensivo, o vice-presidente Julio Cesar Cleto Cobos era considerado o parceiro ideal para a chapa de Cristina Kirchner em 2007, quando o então presidente Néstor Kirchner preparava uma sucessão protagonizada pela própria cônjuge. Na época, Cobos rachou com seu partido, a União Cívica Radical (UCR), de oposição, para entrar na chapa governista. Ele e seus dissidentes foram ironicamente batizados de “Radicais-K”, em alusão à inicial do casal presidencial. Na época Cobos era visto como uma “mosquinha morta” – um vice-presidente sem ambições – que não implicava em riscos para o casal Kirchner.

No entanto, a parceria entre o vice e a presidente durou apenas oito meses. Com o passar do tempo, Cobos começou a divergir da política econômica do casal Kirchner. Mas, o racha consolidou-se em julho de 2008 quando Cobos, na categoria de presidente do Senado, derrubou com seu voto de Minerva o impopular projeto de lei de “impostaço agrário” da presidente Cristina.

O “impostaço” havia gerado um locaute sem precedentes dos ruralistas, além de panelaços da classe média nas grandes cidades em apoio inédito aos agricultores.

Seu voto contra o casal Kirchner transformou Cobos em uma figura popular, algo raro para um vice-presidente argentino.

As frases por ele pronunciadas na sessão do Senado – com dramático nervosismo – para explicar sua decisão de votar contra a própria presidente foram rapidamente estampadas em camisetas que foram sucesso de vendas na internet.

“A História me julgará”, “Meu voto não é positivo” e “Este é o momento mais difícil de minha vida”, entre outros, foram os dizeres que transformaram-se um hit em 24 horas. Imagens do “voto não-positivo”, aqui.

O merchandising da denominada “Cobosmania” também esteve presente nas canecas que ostentam as frases que levaram o antes desconhecido vice à categoria de superestrela da política argentina em 2008. Uma pesquisa da consultoria D’Alessio Irol indicou na época que 75% dos argentinos aprovam o gesto de Cobos de votar contra o governo Cristina.

Imediatamente Cobos foi isolado pelos Kirchners, que o consideraram um “traidor”. A presidente Cristina não fala com ele desde 2008. Com frequência integrantes do governo pedem sua renúncia e o acusam de estar por trás de uma “conspiração” que supostamente reuniria ruralistas e partidos da oposição para implementar um hipotético “golpe de Estado”. No entanto, Cobos resistiu a todas as pressões, alegando que, como vice, também havia sido eleito pelo voto popular.

Tempos de boas relações com a presidente Cristina Kirchner acabaram em 2008.

Entre 2008 e 2009 C0bos foi considerado a grande alternativa para derrotar Kirchner nas urnas. No entanto, de lá para cá Cobos perdeu protagonismo, já que não se posicionava claramente como candidato da oposição, além de continuar no cargo de vice-presidente de um governo ao qual posicionava-se contra.

Os analistas indicam que Cobos errou em sua estratégia, já que – segundo eles – deveria ter deixado o cargo e firmar sua posição como líder da oposição contra os Kirchners.

A atitude vacilante de Cobos foi o foco da imitação do vice feita no programa ”Gran cuñado” (Grande Cunhado), uma paródia do Gran Hermano (Big Brother). O programa, em 2009, ironizava os principais políticos argentinos, incluindo o casal Kirchner. Acima, na foto o imitador de Cobos em “Gran Cuñado”.

Mas, Cobos vacilou no meio da feroz – e dinâmica – arena política argentina. Isso levou vários simpatizantes e aliados a desertar de suas fileiras. Simultaneamente começaram a aparecer outras candidaturas dentro da UCR.

Uma delas foi o senador Ernesto Sanz, outrora aliado mas atualmente rival na UCR, que conseguiu maior visibilidade graças aos intensos debates que agitaram o Parlamento entre 2008 e 2010. De quebra, a figura de Cobos começou a enfrentar a concorrência de outro correligionário, Ricardo Alfonsín, filho do ex-presidente Raúl Alfonsín.

O resultado foi que desde 2009 Cobos gradualmente passou a um segundo plano nas especulações sobre presidenciáveis na Argentina.

No entanto, apesar da perda de terreno dentro das fileiras opositoras ainda é um nome de peso como presidenciável.

 

Cobos costuma participar de maratonas. Ao fundo, a Casa Rosada, o palácio de governo onde está “el sillón de Rivadavia”, a cadeira presidencial que ambiciona conquistar nas eleições de outubro.

TRINCHEIRA - Filho de um portenho e uma bonaerense, Cobos, nascido em 1955, foi o primeiro mendocino da família. Seu pai, militante peronista, mudou-se à Mendoza para fugir da repressão do golpe que derrubou o presidente Juan Domingo Perón em 1955. Décadas depois, seu pai – fanático torcedor do River Plate – lamentaria, com ironia: “minha vida só tem duas desgraças: um filho radical e um neto do Boca Juniors”. Cobos estudou no Liceu Militar e depois entrou na Universidade Tecnológica de Mendoza, onde se formou em Engenharia Civil. Ali conheceu sua esposa, também engenheira.

Em 1978, quando a Argentina quase entrou em guerra com o Chile pela disputa do canal de Beagle, foi designado tenente e esteve em uma trincheira esperando o ataque chileno na Cordilheira dos Andes (a guerra não aconteceu; paradoxalmente, hoje é um dos principais interessados na integração do Mercosul com o Chile).

Depois, trabalhou na atividade privada e foi reitor da Universidade. Apolítico, só em 1991 entrou na UCR, quando foi convocado para trabalhar primeiro na prefeitura e depois no governo provincial no comando das obras públicas. Em 2003, diante do descrédito popular com os políticos tradicionais, a figura de Cobos apareceu como uma opção “técnica”, com jeito de “administrador”. Na ocasião, derrotou o candidato de Kirchner.

Gosto pela aventura: Há poucos anos Cobos atravessou a Cordilheira dos Andes com uma mula (foto do acervo do vice-presidente)

Aventureiro, Cobos gosta de fazer trekkings (atravessou a Cordilheira com uma mula) e acompanha o filho a concertos de rock. Mas, ao mesmo tempo, é sóbrio e discreto. Não beija bebês, mas se detém, no meio de sua corrida diária (corre sozinho, sem guarda-costas), para conversar com os pedestres. Seu escritório na época em que era governador de Mendoza, no austero edifício do governo, não mostrava luxos. A primeira coisa que exibia com orgulho, quando o entrevistei em 2006, é a foto dos três filhos.

Seu ídolo político é o ex-presidente Arturo Frondizi (1958-62), que tal como Cobos, protagonizou uma dissidência da UCR que obteve o respaldo (embora temporário) peronista. Admira o ex-presidente chileno Ricardo Lagos. Define-se como “progressista-liberal a favor da inclusão social”.

Na área de política exterior considera que os governos argentinos deveriam fazer maiores esforços para que o Mercosul tenha mais institucionalidade. “Hoje funciona como alfândega imperfeita”, lamenta. 

   

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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