Em Buenos Aires (Buenos Aires mesmo) Bono degustou fervorosamente a carne bovina local entre um show e outro em La Plata (que ele insistia em chamar “Buenos Aires”). Acima, pacífico boi em ilustração do século XIX.
“Muito feliz de estar em Buenos Aires!”. A frase, exclamada por Bono, líder do grupo U2, foi carinhosamente ignorada pelos fãs, que o ovacionaram apesar da gafe. Bono, na realidade, estava a 57 quilômetros de Buenos Aires, no estádio da pacata cidade de La Plata. Ali, no sábado, onde fez a segunda apresentação em território argentino do tour “360°” o cantor também expressou que não tinha vontade de ir embora do país. Como resposta, os 60 mil fãs que havia aglutinado em La Plata entoaram um longo “Bono no se va…Bono no se va!” (Bono não vai embora, Bono não vai embora!). Na sequência, o irlandês fez uma dissertação apologética sobre as garotas, o tango, a gastronomia argentina e os bairros portenhos de Palermo e San Telmo.
“Son unos bonbones” (“São uns bombons”, expressão argentina usada para exaltar a beleza física das mulheres) proferiu Bono em espanhol – com forte sotaque dublinense – para delírio das fãs e concordância do público masculino.
No entanto, o estádio entrou em frenesi quando Bono convidou uma adolescente da plateia para subir no palco e ajudá-lo a ler em espanhol a letra de “Gracias a la vida”, a canção – segundo o roqueiro irlandês – que é a preferida de todos os integrantes do U2. Junto com a jovem, que coincidentemente sabia a letra de cor e salteado – pronunciou os versos da poetisa e cantora chilena Violeta Parra (1917-1967), que tornaram-se mundialmente famosos na voz da cantora argentina Mercedes Sosa (1935-2009). Apesar dos erros de pronúncia do irlandês – e de algumas falhas na letra – os fãs celebraram a interpretação pitoresca de Bono sobre esta música sul-americana.
Bono, além de paparicar o público nativo, também fez diversas enfáticas defesas dos Direitos Humanos em todo o planeta e realizou uma homenagem à birmanesa Aung San Su Kyi, Prêmio Nobel da Paz de 1991, por sua luta contra a ditadura em seu país. Depois, um grupo de jovens fãs caminharam no palco carregando lanternas com o símbolo da organização Anistia Internacional.
Ontem, domingo, o U2, grupo que em setembro completará 35 anos de existência, fez seu terceiro e derradeiro show na Argentina, antes de partir para o Brasil.
Ludovico teve seu espaço entre Muse e U2. Entre uma banda e outra Bono colocou o primeiro movimento da sexta sinfonia de Ludwig van Beethoven para deleite do blogueiro que vos escreve. Pelo visto, o público também apreciou o inusitado intermezzo musical com esta bicentenária melodia do compositor Made in Bonn. Para ouvir a melodia de LvB, clique aqui.
BEETHOVEN E ROCK - O prelúdio do show foi realizado pela banda inglesa Muse, que – sob o comando de Matthew Bellamy (cuja esposa, a atriz Kate Hudson, esteve em Buenos Aires nos últimos dias para acompanhar o marido) – começou a preparar o clima para o U2.
Após a apresentação da Muse – e antes do início do show do U2 – o público ouviu pelos alto-falantes do estádio a canção “Música ligeira”, do roqueiro argentino Gustavo Cerati, que está em coma por um AVC desde o ano passado. A plateia reagiu com um estrondoso aplauso em agradecimento ao U2 pela homenagem ao músico argentino.
A outra surpresa seguiu na sequência, quando o estádio foi embalado com os acordes do primeiro movimento da sexta sinfonia de Ludwig van Beethoven. Após a bicentenária melodia do compositor alemão houve uma pausa. Na sequência, sob os urros da plateia, entraram no palco Bono, o guitarrista (e também cantor) The Edge, o baixista Adam Clayton e o percussionista Larry Mullen. O pontapé inicial do show do sábado foi a canção “Ever better than the real thing”, marcada pela guitarra de The Edge. Depois, ao longo de duas horas e meia de show, o grupo embalou a noitada com “New Year’s Day”, “Stand by me”, “Bloody Sunday” e “With or without you”, entre outros hits.
Passos de tango. Guia básico para roqueiros irlandeses e resto do planeta.
TANGO, TEQUILA E CRISTINA - Durante sua estadia de uma semana em terras argentinas Bono e seus parceiros do grupo desfrutaram intensamente a noite portenha. O líder do U2 visitou os restaurantes da moda – entre os quais o “Fervor”, no bairro da Recoleta – para degustar quase todas as noites a suculenta carne bovina local. Além disso, foi a refinados shows de tango, entre eles, o “Rojo Tango”, no hotel Faena.
Depois de umas rodadas de tequila Bono e The Edge ensaiaram com as bailarinas do espetáculo alguns passos de tango. As risadas do grupo acordaram o ator americano John Cusack, hospedado no hotel (ele está rodando um filme na cidade), que desceu ao salão de tango e convidou o quarteto irlandês para uns drinques no Library Lounge do estabelecimento.
Durante sua estadia Bono também manteve uma reunião de uma hora com a presidente Cristina Kirchner, sua declarada fã. Bono deu de presente à presidente um reprodutor digital com as canções do grupo. No entanto, saiu da Casa Rosada, o palácio presidencial, sem obséquios da presidente.
PIADINHAS – No sábado, durante o show, Bono também fez piadinhas sobre seus colegas de banda. Segundo ele, Mullen, “quando dança, estamos em problemas”. Sobre Clayton, explicou que “bebeu muito chimarrão em Buenos Aires” e que “teve a companhia de belas argentinas”. Sobre seu guitarrista, fez mistério: “ah, e The Edge… ah…”.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Uruguaios acabam de ocupar a pole position mundial de consumo de carne bovina per capita. Argentinos, os maiores ‘carnívoros’ da turma de Homo Sapiens durante mais de um século, ficaram sem segundo lugar no pódio da bovinofagia. Acima, um exemplar de Bos taurus, simpático e apetitoso integrante da família dos Bovidae. O ‘bos’aqui ilustrado é do espanhol Pablo Picasso (gravura de 1945).
“Os argentinos são carnívoros por excelência”. Esta era o argumento oficial do Instituto de Estímulo e Divulgação da Carne Bovina da Argentina até o ano passado. Motivos havia de sobra para isso, já que comer carne bovina praticamente definiu o modus vivendi dos argentinos durante o século vinte e no início desta centúria, quando foram os maiores “carnívoros” do planeta. Em 1969 os habitantes deste país chegaram ao consumo recorde mundial de 100 quilos per capita por ano de carne. Embora o volume tenha caído nas décadas seguintes – por diversificação alimentícia, temores ao colesterol e perda do poder aquisitivo – os argentinos continuaram ostentando as principais marcas mundiais, muito acima de outros países. No entanto, a Argentina – a emblemática terra do ‘bife de chorizo’ – acaba de perder a pole position mundial no consumo de carne bovina.
BOVINÓFAGOS EM RECUO - Segundo a Câmara da Indústria e Comércio de Carnes da Argentina (CICCRA) o consumo de carne bovina per capita caiu dos 68, 1 quilos registrados em 2009 para uma média de 56,7 quilos nos primeiros seis meses deste ano.
Desta forma, o primeiro posto no pódio passou para o vizinhos uruguaios. Beatriz Luna, assessores de imprensa do Instituto Nacional de Carnes do Uruguai (INAC) disse ao Estado que o consumo per capita de carne bovina no Uruguai neste ano é 58,2 quilos, isto é, um quilo e meio a mais do que os argentinos.
Por trás da queda do consumo da carne bovina na Argentina – 16,7% em relação ao ano passado – está o sideral aumento dos preços, de 60%, registrado desde janeiro deste ano. Esse aumento acumula-se à alta de 180% entre janeiro de 2007 e dezembro de 2009.

Os quadrúpedes estão aqui ilustrados pelo holandês Vicent Van Gogh.
CONFLITO - Os produtores acusam os governos do ex-presidente Néstor Kirchner e sua esposa e sucessora, a presidente Cristina Kirchner, de torpedear a produção de carne bovina por intermédio da imposição de um controle de preços a partir de 2006.
“O governo aplica uma política anti-pecuarista elaborada por um incompetente funcionário”, afirmou a Ciccra nesta semana em um comunicado que faz alusões indiretas ao secretário de Comércio, Guillermo Moreno, conhecido no Brasil por ordenar verbalmente proibições contra a entrada de alimentos não frescos importados.
Em meio ao conflito que mantém há vários anos com os produtores agropecuários, a presidente Cristina retruca as críticas dos ruralistas, chamando-os de “golpistas” e de pretender “lucros abusivos”.
Ambas administrações Kirchners aplicaram uma controvertida redução das exportações com o objetivo de redirecionar o produto para o mercado interno, e assim, forçar a queda de seu preço. No entanto, segundo a CICCRA, “apesar da intervenção estatal para garantir o abastecimento doméstico e controlar os preços da carne, a queda da oferta de gado provocou uma escalada de preços ao consumidor desde o início de 2010”.
Sem estímulo, os pecuaristas estão investindo menos no setor. Segundo a CICCRA, o abate registrou em junho uma queda de 30,7% em comparação com o mesmo mês do ano passado. No primeiro semestre de 2010, a redução do abate foi de 22,4% em relação ao mesmo período de 2009.

Um típico ‘asado’ em pleno Pampa. Esta cena ainda é muito frequente. Mas, cada vez menos.
DE EXPORTADOR A PAÍS IMPORTADOR - As exportações argentinas registraram uma queda de 41,9% em volume. Das 274.497 toneladas exportadas no primeiro semestre de 2009, no período janeiro-junho deste ano as vendas ao exterior caíram para 159.366 toneladas. O governo afirmou que – para impedir maiores altas de preços no mercado interno – impedirá que as exportações passem de 400 mil toneladas em 2010.
A queda das exportações em valor foi de 20,9%, passando de US$ 732,5 milhões na primeira metade de 2009 para US$ 579 milhões no primeiro semestre de 2010.
A perda argentina da pole position no ranking mundial de consumo de carne – e a queda da produção interna – está sendo acompanhada da importação de carne do Uruguai. Segundo o INAC, a Argentina “é um bom nicho para colocar a carne uruguaia”.

Noé, famoso neto de Matusalém e supostamente o construtor do primeiro transatlântico. E além disso, carnívoro com a permissão divina. “Tudo que vive e se move vos servirá de comida” (Gênesis 9:3-6, de acordo com a tradução da Bíblia pela Editora Vozes) teria dito Deus a Noé. Acima, quadro do pintor conhecido como Französischer Meister (O Mestre Francês), de 1675. O quadro está exposto em Budapeste, no Magyar Szépmüvészeti Múzeum.
DA VACA AO LEITÃO E AO FRANGO (o torresmo no leito presidencial) - “Neste país, os vegetarianos são uma raridade” afirma ao Estado Carlos Príncipe, açougueiro do Mercado del Progreso, no bairro de Caballito, onde sua família tem um estabelecimento desde 1938.
No entanto, perante o aumento dos preços da carne bovina, a própria presidente Cristina envolveu-se pessoalmente em uma campanha para tentou desviar o consumo dos argentinos para a carne suína, atribuindo-lhe poderes afrodisíacos, que, segundo disse, comprovou com seu próprio marido em um fim de semana de arromba em El Calafate, província de Santa Cruz, após degustar um leitão da província de Córdoba (*). Além disso, Cristina Kirchner também alardeou os valores da carne de frango para as mulheres argentinas que pretendem fazer regime.
* Na prática, o casal Kirchner violou a lei, já que as normas fitossanitárias argentinas impedem que a carne de leitão produzida em Córdoba possa entrar na zona sul do país, isto é, a Patagônia.

As vacas, presentes até no nome de um vinho argentino, o “Quatro vacas gordas”.
GAÚCHOS, OS MAIS CARNÍVOROS DO BRASIL - O volume uruguaio e argentino é substancialmente superior ao consumo brasileiro, onde a ingestão é de 36 quilos anuais. No entanto, a proporção sobre no Estado mais “carnívoro” da federação, o Rio Grande do Sul, com 46 quilos por ano.

Nota de cinco pesos emitida em 1869 pela província de Buenos Aires. A efígie é a de algum herói da independência ou de um caudilho do momento? Que nada! A homenageada é a vaca, essa heroína nacional.
PONTOS BÁSICOS SOBRE OS ARGENTINOS E SEU QUITUTE NACIONAL, A CARNE
- As primeiras vacas que entraram na Argentina, em 1580, vieram do Paraguai. Estas – sete vacas e um touro da raça holandesa – haviam vindo da Espanha em 1555, atravessando o estado brasileiro de Santa Catarina, levadas aos pastos paraguaios pelos irmãos portugueses Scipião e Vicente Góes.
- Em 1969 o consumo de carne bovina per capita argentino chegou a seu recorde, de 100 quilos anuais.
- Ao longo do século vinte a carne e o trigo foram símbolos da Argentina no mundo.
- Ao longo do século vinte, as crianças argentinas não escreviam a clássica redação “Minhas Férias” (como ocorria no Brasil). A redação por excelência era “La Vaca” (A Vaca), na qual o quadrúpede era exaltado pelos estudantes por sua carne e couro, como fonte da riqueza argentina.
- Em 2002, no meio da maior crise da História argentina, o consumo foi de 51 quilos per capita (o mais baixo desde 1914, ano em que o consumo começou a ser medido).
- Política do governo Kirchner com setor pecuário provocou alta de preços e queda drástica de consumo do principal quitute gastronômico argentino.
- Consumo per capita argentino em 2009 foi de 68,1 quilos, o mais alto do mundo. Nos primeiros seis meses deste ano despencou para 56,7 quilos.
- Uruguaios ostentam atualmente a pole position do consumo de carne mundial, com 58,2 quilos per capita.

Touro, tão adorado em Creta que até surgiu ali a lenda do Minotauro. Mural no palácio de Cnossos.
E O BOI SUBIU NO TELHADO… : “O boi no telhado” não tem nada a ver com o emblemático e anônimo felino sempre citado no Brasil que subiu no teto da casa como prenúncio de problemas. Não. Sequer é uma pálida alusão. Bos taurus de um lado, os Felis silvestris catus de outro.
Neste caso trata-se de uma animada melodia do batuta compositor francês Darius Milhaud (1892-1974. Na verdade, trata-se de uma desculpa minha para falar sobre Milhaud, já que estamos falando de bifes, bois e vacas. “Le boeuf sur le toit” (O boi no telhado) é uma das mais conhecidas composições de Milhaud, que foi adido na Embaixada da França no Rio de Janeiro entre 1917 e 1919. Ele voltou para a França empapado de ritmos sul-americanos, principalmente brasileiros. Em 1922 foi aos EUA, onde também absorveu os ritmos do jazz.
Le boeuf sur le toit (O boi no telhado) com o “AlmaViva Ensemble”, em apresentação em Paris. O link do Youtube, aqui.
O “AlmaViva Ensemble” foi criado em 2003 por um grupo de músicos argentinos radicados na França. O site do grupo, dedicado à música de câmara latino-americana (ou com um touch latino-americano, como o caso de Milhaud), aqui.
E o AlmaViva, neste vídeo, tocando “Adiós Nonino”, de Astor Piazzolla. O link, aqui.
E voltando à vaca fria, isto é, ao boi, de brinde, um detalhado ensaio de Daniella Thompson sobre como o boi foi parar em cima do telhado. Aqui.

Darius Milhaud, com plácido olhar bovino. O autor de “Le boeuf sur le toit”.
VACAS E BATMAN. E O GATO QUE NÃO SUPORTA LA ‘RADICIAÓN’ - E já que estamos em ritmo bovino, Alfredo Casero, em canção na qual faz paródia das visitas à feira da Sociedade Rural, um dos passeios top tem do inverno portenho. Aqui.
Casero foi citado no ano passado na postagem sobre o batman portenho, o “Juan Carlos Batman”. Aqui.
E além disso, uma paródia de Casero sobre a bossa nova, “O Gato não suporta a radiação”. Em portunhol, comme il faut, com legenda em espanhol… aqui.
APOLOGIA INFANTIL DA VACA LEITEIRA – Gaby, Fofó e Miliki formaram o trio de cômicos infantis que teve descomunal sucesso na América Latina e na Espanha entre os anos 40 e 80. Em 1946, os três irmãos deixaram a Espanha arrasada pela guerra civil e controlada pelo franquismo e partiram em exílio voluntário para Cuba (onde participaram das primeiras transmissões de TV da ilha) e México.
Em 1970 instalaram-se na Argentina (país para onde voltaram várias vezes). Em 1972, com o início do fim do regime de Franco, voltaram à Espanha.
Gaby, Fofó, Miliki (e Fofito, um dos filhos, neste vídeo) cantam “La vaca lechera” (A vaca leiteira), um hit parade das canções infantis durante mais de meio século no mundo hispano-falante. O link, aqui.
A letra:
Tengo una vaca lechera,
no es una vaca cualquiera,
me da leche merengada,
ay! que vaca tan salada,
tolón , tolón, tolón , tolón.
Un cencerro le he comprado
Y a mi vaca le ha gustado
Se pasea por el prado
Mata moscas con el rabo
Tolón, tolón
Tolón, tolón
Qué felices viviremos
Cuando vuelvas a mi lado
Con sus quesos, con tus besos
Los tres juntos ¡qué ilusión!
A letra da canção foi composta pelo espanhol Jacobo Morcillo Uceda, em 1946. Uceda era um sobrevivente da Divisão Azul, o grupo de milhares de soldados que o general e ditador da Espanha, Francisco Franco, enviou aos campos de batalha da Rússia, para lutar ao lado das tropas nazistas.
Depois da guerra, Uceda dedicou-se à publicidade. Ele compôs a letra de La vaca lechera enquanto viajava em um trem de Madri à Galícia. Uceda não era músico, mas ficou assobiando a melodia que havia bolado durante horas, até que desceu do trem e foi procurar às pressas um parente seu, o maestro García Morcillo, a quem removeu pelo braço de um ensaio que estava dirigindo. A melodia, apresentada no Teatro Jai de Madri, foi um sucesso. Uceda acompanhou a apresentação tocando um sino de vaca.
Um dia, o ginecologista de sua esposa lhe pediu um favor: “ouça meu filho cantar”. Uceda o ouviu e ajudou o rapaz a dar seus primeiros passos na carreira musical. O ginecologista era Julio Iglesias Puga, pai do posteriormente cantor Julio Iglesias.
O autor da letra de La vaca lechera morreu aos 87 anos em 2004 em Madri.
XPRESSÕES IDIOMÁTICAS
“No decir ni mu” (Nem dizer sequer mu): expressão usada em espanhol para indicar que a pessoa fica caladinha e sequer se atreve a dar um mugido. Exemplo: “Juan le gritó a Carlos… y Carlos no dijo ni mu” (João gritou com Carlos… e Carlos nem disse mu).
Sobre não dizer sequer um ‘mu’, aqui está a tira do cartunista chileno Alberto Montt. Seu engraçadíssimo site, aqui.

PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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AVISO: Caras e caros leitores-comentaristas. Ontem, dia 8 de março, completamos um ano de blog! Póc! Póc! Póc! Fiuuummm-fiummm! (onomatopéia para fogos de artifício). Foram 125 postagens desde que iniciamos o blog. Isto é, uma a cada três dias. E graças ao blog, pude conhecer vários de vocês. Alguns pelo intercâmbio de opiniões nos comentários, outros por mail, e vários pessoalmente. Esse intercâmbio foi um imenso deleite que continuará ao longo deste ano!
E também lhes aviso que desde ontem também estou em férias. Por isso, ao longo deste mês tentarei colocar os comentários de vocês a cada 4 ou 5 dias. E, na medida do possível, irei respondendo.
Agradeço a vários comentaristas a preocupação que expressaram durante minha cobertura do terremoto no Chile!
Abraços a todos,
Ariel
Vaca é heroína, açougueiro é galã, e governos evitam aumentos do preço da carne para não irritar eleitorado
“A carne bovina é a única droga que qualquer governo argentino jamais proibirá”. A frase, do ensaísta Alan Pauls, ilustra a paixão de seus compatriotas pela carne bovina e o risco que corre qualquer governo em limitar o consumo desse quitute. A carne, para os argentinos, é mais do que um alimento, afirmam os especialistas, que consideram que é um modus vivendi dos habitantes deste país, que devoram 70 quilos per capita por ano, quantidade que os coloca com ampla vantagem na pole position mundial de consumo, acima do Uruguai e EUA. O volume também é significativamente superior ao do Brasil, onde a ingestão é de 36 quilos anuais (o Estado mais “carnívoro” da federação é o RS, com 46 quilos por ano).
Mas, a carne está sob perigo de escassez. No último ano a produção caiu em 25% por causa do confronto dos pecuaristas a presidente Cristina Kirchner. A queda foi agravada por uma inédita seca que assolou o país em 2009 e a falta de ajuda governamental aos produtores. Estes entraram na mira da presidente Cristina, que os acusa de “golpismo”.
O debate sobre a carne está ocupando há semanas as manchetes dos jornais portenhos e é assunto constante nos programas de TV. As associações ruralistas afirmam que a terra do baby beef depararia-se em 2011 com a necessidade de importar carne, pela primeira vez na História. Só nos últimos três anos o preço do quilo da carne cresceu em 180%. Só nos primeiros dois meses deste ano houve uma nova escalda, chegando a um aumento de 35%. O governo, no entanto, afirma que o preço só aumentou 4,5%.
O aumento do custo do quitute nacional irrita cada vez mais os argentinos com a presidente Cristina, colaborando na queda de sua popularidade. Ela reage colocando a culpa nas “excessivas chuvas” e na “cobiça” dos pecuaristas. Recentemente a presidente tentou desviar o consumo dos argentinos para a carne suína, atribundo-lhe poderes afrodisíacos que ela própria teria comprovado empiricamente com seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, dois fins de semana antes deste passar mal e ser operado de uma obstrução na carótida.
Sr. Príncipe, açougueiro-mor do Mercado del Progreso, no bairro de Caballito, prepara-se para cortar um substancial pedaço de bovino falecido
VEGETARIANOS - Os preços sobem, as recessões assolam o país, e os governos tentam desviar o consumo. Mas, nada disso consegue evitar que os argentinos continuem aferrados à carne. “Quando os preços sobem, as pessoas começam a procurar cortes de carne de menor qualidade…mas sempre comem carne!”, afirmou ao Estado Carlos Príncipe, açougueiro do Mercado del Progreso, no bairro de Caballito, onde sua família tem um estabelecimento desde 1938. Terceira geração de açougueiros (seus avós foram açougueiros do conde de Romanones, ministro do rei Alfonso XIII da Espanha) – enquanto afia duas facas como se fossem um sabre – Príncipe sustenta: “neste país, os vegetarianos são uma raridade”. As autoridades reforçam a ideia. Segundo o Instituto de Estímulo e Divulgação da Carne Bovina, “os argentinos são carnívoros por excelência”. Em 2007 o então presidente Néstor Kirchner tentou conter a escalada de preços generalizada. O produto mais visado pelas medidas foi a carne. Kirchner, para reduzir o preço aos consumidores, proibiu as exportações do produto, de forma a redirecioná-lo ao mercado interno.
VACA, A HEROÍNA - Ao contrário de outros países, onde as crianças na escola primária escreviam a redação “Minhas férias”, os alunos argentinos redigiram durante décadas “La Vaca” (A Vaca), uma apologia dessa heroina quadrúpede que propiciava à Argentina riquezas e prestígio mundial por seus baby beefs.
A presença da carne está presente também na gíria portenha, especialmente para designar atração sexual. Esse é o caso da expressão “que lomo!” (que lombo!), para referir-se ao “apetitoso” corpo de um homem ou mulher. Além disso, a presença da carne na cultura também é evidente nas telenovelas, em várias das quais os protagonistas galãs interpretavam açougueiros. No início desta década o churrasco foi o centro do talk show “Um aplauso para o churrasqueiro”, onde o apresentador, Roberto Petinatto, entrevistava seus convidados enquanto preparava os sanguinolentos nacos de carne que posteriormente eram consumidos enquanto respondiam as perguntas.

A vaca raivosa (La vache enragée) de Toulose Lautrec, cartaz de 1896
‘CARNE, NA ARGENTINA, NÃO É CONVENIÊNCIA, MAS SIM CULTURA’
Juan José Becerra não somente ostenta alusões bovinas em seu sobrenome (becerra é ‘bezerra’ em espanhol). Ele também é autor de “A Vaca”, ensaio que disseca a importância econômica, gastronômica, política, cultural e social dos bovinos na Argentina.
Estado – Qual é o espírito do clássico da escolar, a redação “A Vaca”,?
Becerra – O patrão formal dessa redação não obedecia à descrição da vaca como unidade industrial, o que ela verdadeiramente é, mas sim, uma descrição sentimental na qual a pobre besta aparecia como prodígio de bondade. A ideia era que a vaca nos ‘dava’ coisas, como a carne, couro, etc.
Estado – A escassez de carne pode irritar o eleitorado com um governo aqui?
Becerra – Não falaria em ‘eleitores’, mas sim em ‘comensais’. Há uma conexão entre as duas categorias. “O Matadouro”, primeiro texto narrativo de nossa literatura trata de um grupo de pessoas que mata um adversário político no meio de uma proibição da carne em 1830. Pelo menos, na literatura, os argentinos matam se ficarem sem carne bovina. É que comer carne na Argentina não está indicado por uma dieta de conveniências, mas sim pela cultura.
Estado – A carne está tão presente até rendeu telenovelas sobre o assunto…
Becerra – Uma comédia de TV, “De carne somos”, era protagonizada por um açougueiro. Os açougues foram em nossas telas cenários cômicos ligados ao sexo. Em vários filmes aparecem os churrascos como área de ‘descanso narrativo’, mas também como verdade sociológica de um país cujos habitantes volta e meia fazem a pergunta “e quando fazemos um churrasco?”. Em nosso horizonte pode ser que não exista um destino de grandeza…mas sobram churrascos!
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