Governo Kirchner, cujos integrantes são apelidados de ”Los Pinguinos” (Os Pinguins) tenta aproximar-se do recorde eleitoral de Perón e já movimenta-se para tentar reforma constitucional que permita uma segunda reeleição em 2015. Foto de Ariel Palácios com bonequinhos próprios dos Pingüins de Madagascar e biografia de Joseph Page em cima da mesa do escritório. Ao fundo, do lado esquerdo, dá pra ver a ponta de uma bandeirinha do Québec.
Cristina Kirchner venceria as eleições presidenciais argentinas do dia 23 de outubro com uma faixa de votos que oscilaria de 53% a 57% dos votos, segundo indicam pesquisas das consultorias Management & Fit, Ipsos e Graciela Romer e Associados. Desta forma, Cristina seria reeleita presidente com a maior vitória nas urnas desde que o país voltou à democracia há 28 anos, já que a maior marca até o momento pertence a Raúl Alfonsín, que teve 51,7% dos votos em 1983. Os analistas destacam que uma faixa de 55% de votos abriria caminho a Cristina para poder pleitear uma reforma constitucional que permita uma eventual segunda reeleição presidencial em 2015.
Segundo as pesquisas, a margem para o segundo colocado, o socialista Hermes Binner, é considerável pois implicaria em 36 pontos percentuais, a maior proporção na História política argentina entre os dois primeiros candidatos presidenciais. Segundo as pesquisas, Binner oscilaria entre 12% e 16,1% das intenções de voto.
O terceiro lugar estaria sendo disputado pelo peronista dissidente Alberto Rodríguez Saá, que flutua em uma faixa de votos que vai de 8,5% a 10,1%, enquanto que o candidato da União Cívica Radical (UCR), Ricardo Alfonsín (filho do ex-presidente Raúl Alfonsín) teria de 8% a 9%. Esta posição também é disputada pelo ex-presidente Eduardo Duhalde, de uma das facções do peronismo dissidente, que oscilaria entre 6% e 12%, de acordo com as pesquisas.
“A oposição, que desde o início da campanha estava dividida e sem propostas claras, agora está mais errática do que antes”, afirma ao Estado a analista de opinião pública Mariel Fornoni.
Cristina, nestas duas semanas que restam, não poderá mais realizar inaugurações de obras nem falar por rede nacional de TV, já que a legislação o impede nos 14 dias anteriores às eleições. Por isso mesmo aproveitou a semana passada para fazer uma maratona de inaugurações (pessoalmente e por teleconferência) de hospitais, estaleiros, uma refinaria e esgotos, entre outros.
Os analistas destacam que o governo Kirchner, nesta reta final da campanha, apesar de ter a garantia de uma confortável vitória eleitoral, está atarefado em crescer nas pesquisas e tentar aproximar-se dos 62,49% dos votos conseguidos em 1952 por Juan Domingo Perón, fundador do partido Justicialista (Peronista), ao qual pertence a presidente Cristina.
SEGUNDA REELEIÇÃO - Enquanto Cristina Kirchner entra na reta final da campanha surgem fortes rumores de que o governo tentaria uma modificação da Constituição Nacional para permitir uma segunda reeleição consecutiva. A lei atual somente autoriza a disputa por uma única reeleição consecutiva ao primeiro mandato presidencial. Quem quiser esperar um terceiro mandato, atualmente, deve esperar o prazo de quatro anos.
A possibilidade de reforma constitucional surgiu no início deste ano, quando a deputada kirchnerista Diana Conti propôs uma alteração das normas para permitir aquilo que denominou de “uma Cristina eterna”.
Nas últimas duas semanas, de forma simultânea ao crescimento de Cristina nas pesquisas, os rumores sobre a reforma constitucional intensificaram-se. Diversos grupos sociais kirchneristas prometem, quatro dias após as eleições, no dia 27, usar o primeiro aniversário de morte de Nestor Kirchner para fazer um apelo à segunda reeleição de Cristina, de forma a garantir a permanência do “modelo” econômico e político.
Oficialmente, o governo nega a hipótese de tentativa de modificação da Constituição (extra-oficialmente, alguns sim, confirmam). Mas, os analistas recordam que esta não seria a primeira vez que o governo nega uma informação e depois ela se concretiza (a própria Cristina Kirchner negava em março que seria candidata à reeleição em outubro deste ano. Este é um link da própria presidente falando sobre o assunto, aqui).
A manobra recorda quando, entre fins de 1998 e início de 1999 o então presidente Carlos Menem tentou modificar a carta magna, mais uma vez, para aprovar a possibilidade de uma segunda reeleição presidencial. Na época, o ácido humor portenho batizou a manobra de “la re-relección”. Ou, simplesmente, “la re-re”.
O analista político Silvio Santamarina, colunista da revista “Notícias”, disse ao Estado que, caso Cristina consiga mais de 55% dos votos, o governo terá um patamar de votos que lhe permitirá popularidade suficiente para começar manobras no Parlamento para tentar a reforma constitucional.
Cristina foi eleita em 2007, com 45% dos votos, para suceder seu próprio marido, o ex-presidente Nestor Kirchner, eleito em 2003 com 22% dos votos, a mais baixa marca da História argentina.
Jim Carrey e os amigos pingüins em “Mr.Poppers Penguins”
E falando em conquistar o poder, um pouco de dance music com o clássico do hip house “I’ve got the power”. Com “coreografia” de Jim Carrey, aqui.
Ou neste original do Snap!, aqui.
I’ve got the power hey yeah, hehI’ve got the power -Oh-oh-oh-oh-oh-oh-oh-oh-oh yeah-eah-eah-eah-eah-eah- I’ve got the power – Oh-oh-oh-oh-oh-oh-oh-oh-oh yeah-eah-eah-eah-eah-eah
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
Menem era acusado de contrabandear 6.500 toneladas de canhões, fuzis e munição. E de estar por trás da explosão de um arsenal. E de ter recebido propinas. Ficou livre.
Nesta terça-feira no final da tarde o ex-presidente Carlos Menem sorria placidamente. Sentado na sala dos tribunais do bairro de Retiro,em Buenos Aires,“El Turco”, como é conhecido popularmente, aguardava a sentença do tribunal sobre as acusações de ter realizado contrabando de armas para a Croácia e o Equador entre 1991 e 1994 (canhões, fuzis, foguetes anti-tanques e munições).
O ex-presidente, de 81 anos parecia confiante de que seu futuro não seria na prisão, mas sim, em liberdade. Minutos depois, o sorriso de Menem ampliou-se discretamente. O tribunal havia anunciado que o considerava inocente.
“El Turco” levantou a sobrancelha esquerda, em sinal aparente de “eu sabia que tudo ia dar certo” e recebeu os cumprimentos das pessoas que estavam sentadas a seu lado.
Desta forma – apesar de todo o material que comprovava a existência do contrabando de armas, do pagamento de propinas e da origem proposital da explosão na cidade cordobesa de Rio Terceiro, que arrasou a Fabricaciones Militares – encerrava-se um dos maiores escândalos de corrupção da História da Argentina. Também foram comprovadas as transferências irregulares de dezenas de milhões de dólares por intermédio do Banco Montevideo e do Exterbanca, além do desembarque e utilização do armamento contrabandeado na Croácia e no Equador.
O tribunal aceitava como verdadeiras todas as provas. No entanto, não encontrou os culpados. Todos os 18 acusados foram declarados inocentes.
O promotor Mariano Borinsky estava estupefato: “não consigo entender de onde saiu esta sentença! Por acaso estive em outro julgamento e não percebi? Sei que podem existir nuances nas sentenças de um tribunal… mas isto aqui foi um abismo. Jamais vi algo assim em toda minha vida!”
Dos três juízes do tribunal que julgou Menem, dois votaram a favor de sua absolvição. Coincidentemente, os dois juízes que favoreceram Menem foram designados no último ano e meio pela presidente Cristina Kirchner (mais detalhes sobre essa peculiaridade, aqui).
Os juízes anunciaram que os fundamentos da decisão do tribunal somente serão divulgados daqui a 40 dias úteis. Isto é, logo depois das eleições presidenciais do dia 23 de outubro.
A deputada da oposição Margarita Stolbitzer emitiu uma observação irônica: “na hora em que Menem tornou-se kirchnerista, a Justiça o absolveu…”
Os envios de armas – um total de 6.500 toneladas remetidas em dez remessas confirmadas (suspeita-se que podem ter ocorrido remessas ainda não descobertas) – foram realizados entre 1991 e1995. A estimativa é que o Estado argentino teve um prejuízo de mais de US$ 180 milhões com o contrabando das armas. As armas foram vendidas de forma clandestina para a Croácia e o Equador.
Um total de 384 testemunhas foram convocadas para prestar depoimento sobre o caso. Esta também foi a primeira vez que um ex-presidente eleito democráticamente passou por um julgamento oral e público neste país.
Na maior parte das sessões Menem evitou comparecer ao julgamento “por problemas de saúde”.
ESCÂNDALO – O escândalo veio à tona quando militares equatorianos reclamaram que as munições e fuzis enviadas pelos argentinos não funcionavam. Na época, o Equador estava em guerra com o Peru pela disputa da Cordilheira do Cóndor.
A Argentina não podia vender armas ao Equador, sequer ao Peru, já que era um dos avalistas do acordo de paz assinado entre ambos países em 1942. No caso da Croácia,a Argentina tampouco podia vender armas a esse país, pois estava sob embargo estipulado pela ONU durante a Guerra dos Bálcãs.
Menem, que assinou os decretos, alega que não leu o conteúdo dos documentos de venda secreta no qual colocou a rubrica. No entanto, diversas testemunhas sustentam que – além de ter assinado – Menem sabia de tudo. De quebra, também estava envolvido Emir Yoma, que ainda era seu cunhado (a fa
Em 2001 – um ano e meio depois do fim do governo Menem – ojuiz federal Jorge Urso processou o ex-presidente e o colocou em prisão domiciliar, por considerá-lo chefe de uma “máfia” que havia protagonizado o maior caso de contrabando de canhões, fuzis, foguetes anti-tanques e munições registrado na História argentina.
Cinco meses e meio depois a Corte Suprema (dentro da qual Menem contava com juízes que haviam declarado publicamente sua amizade com o ex-presidente), no meiode grande polêmica, colocou “El Turco” – como Menem era chamado popularmente – em liberdade.
Mas, em 2007 ele foi novamente processado. Em outubro de 2008 começou o julgamento oral e público do ex-presidente e de outros 17 envolvidos.
Nos últimos anos o status de parlamentar propiciava a Menem a imunidade para evitar que, se condenado, fosse enviado à prisão cumprir uma pena que poderia irde 8 a 32 anos de cadeia. Ele só poderia ser preso se o Senado suspendesse sua imunidade.
EX-INIMIGO FAVORECIDO – Analistas consideram que Menem – antigamente “inimigo” do governo e atualmente seu aliado – conseguiu um pacto com a administração Kirchner para que, em troca do voto crucial de “El Turco” no Senado, a Casa Rosada pressionasse os juízes para “aliviar a barra” do ex-presidente.
Coincidentemente, o governo Kirchner, que costuma pronunciar-se sobre qualquer tipo de casos na Justiça, desta vez optou por um peculiar silêncio.
DO CREPÚSCULO AO VOTO CRUCIAL – Menem, até 2009, estava em seu crepúsculo político. Em seu antigo feudo, sua província natal de La Rioja, só possuía a fidelidade de um único prefeito. Na esfera parlamentar, apenas contava com o respaldo de dois deputados (um deles, seu sobrinho), além dele próprio, que é senador.
Mas, naquele ano deixou de ser o arqui-inimigo dapresidente Cristina Kirchner e do ex-presidente NéstorKirchner para transformar-se inesperadamente em seu principal aliado no Senado.
Menem começou favorecendo o governo com sua abstenção na votação na qual a oposição pretendia rejeitar a indicação da nova presidente do Banco Central, Mercedes Marcó del Pont, amiga dapresidente Cristina e heterodoxa economista favorável à intervenção estatal.
Menem, um ortodoxo neo-liberal e integrante da direita do partido peronista (Justicialista), absteve-se de votar, colocando à pique a tentativa dos partidos da oposição de forçar à saída da favorita do governo de seu posto no BC. Esse foi o primeiro dos favoresde Menem ao governo Kirchner.
Desde dezembro de 2009, até a guinada de Menem em fevereiro de 2010, o governo estava em minoria no Parlamento, fato que criava um cenário de fragilidade para o casal Kirchner, que desde 2003 havia desfrutado de hegemonia.
Com a ausência (ou abstenção) do ex-presidente, a oposição corre o risco de derrotas constantes na câmara alta.
Os analistas indicam que Menem, assolado por vários processos na Justiça, teria pactuado com os Kirchners a redução das pressões do governo na Justiça para levar o ex-presidente ao banco dos réus em troca de sua abstenção ou ausência no Senado. No novo mapa de ajustado poder no Senado, o votode Menem passouaser altamente cotado.
Desde o início deste ano Menem declarou várias vezes que Cristina Kirchner era “a melhor presidente da História da Argentina”. O governador de La Rioja, Beder Herrera, um kirchnerista, declarou seu respaldo a Menem. Idem a principal candidata dapresidente Cristina à Câmara de Deputados. Para manter as aparências, a candidatura de Menem é “por fora”. Mas, a estrutura do kirchnerismo na província trabalha ativamente pela eleição de “El Turco”.
ALGUNS DETALHES:
1 – UM PECULIAR “SUICIDADO”: O CAPITÃO CONTORCIONISTA
A cena poderia ter sido a dos primeiros minutos de qualquer thriller: Uma tranquila manhã na área central de Buenos Aires. A diarista abre a porta do apartamento de seu patrão para mais um dia de limpeza. Apesar de diversas tentativas, a porta não abre. Está fechada com chave, por dentro.A empregada toca a campainha diversas vezes. Desce à rua e chama o patrão pelo telefone público. Ninguém atende. Ela volta como serralheiro, que consegue abrir a porta. A empregada entra, e vê seu patrão – um homem envolvido no tráfico internacional de armas – morto, com um tiro na cabeça. Na sua mão direita, o revólver com o qual se suicidou.
Suicídio? O revólver estava na mão esquerda, mas o capitão-de-navio da reserva Horacio Pedro Estrada, 65 anos, era destro, e não canhoto. Poderia ser a cena de um thriller, mas foi apenas mais um capítulo na complexa trama do escândalo de vendas ilegal de armas da Argentina ao Equador e a Croácia.
Estrada, que fora o encarregado da supervisão do envio das armas à cidade equatoriana de Guayaquil, havia negado comparecer à Justiça. No entanto, o militar havia enviado uma declaração escrita onde admitia sua participação na operação, embora negasse ser o responsável.
Já voltaremos ao capitão Estrada…
Canhão Oto Melara: vários exemplares deste canhão foram enviados da Argentina para a Croácia de forma ilegal.
2 – O ESCÂNDALO DAS ARMAS
A trama começou em 1991 e continuou até 1995, quandoMenem e váriosministros assinaram três decretos presidenciais que autorizavam vendas de armas ao Panamá e à Venezuela.
As armas paraa Venezuela nunca chegaram lá: foram parar na Croácia, país que no meio da Guerra da Ex-Iugoslávia estava sob embargo de armas da ONU. Para complicar, a Argentina participavada missão de paz da ONU na área.
Foram enviadas ao território croata 6.500 toneladas de armas e munições, que incluíram pelo menos 18 canhões Citer de155 milímetros.
E as armas oficialmente vendidas ao Panamá, tampouco chegaram a esse país no istmo americano. Na verdade, o carregamento foi desembarcado no Equador: um total de 5 mil fuzis FAL e 75 toneladas de munições.
O Equador estava em guerra com o Peru pela Cordilheira do Cóndor. Paralelamente,a Argentina era desde 1940, avalista do tratado de Paz entre os dois países. Menem foi criticado pela estranha decisão de ter assinado um decreto de venda de armas ao Panamá, já que desde a invasão norte-americana de 1989, o país não possui forças armadas. De quebra, o Peru havia sido um histórico aliado da Argentina desde os tempos da independência. E além disso, o Peru havia oferecido ajuda (aviões) à Argentina durante a Guerra das Malvinas (1982).
Em 1994, Luis Sarlenga, o interventor da empresa estatal de material bélico da Argentina, a “Fabricaciones Militares”, determinou que o envio clandestino seria feito com armas em uso pelo exército. Esta foi a falha que tornou público o envio ilegal: os equatorianos receberam material defeituoso, e reclamaram, ameaçando processar o Estado argentino.
Com a denúncia pública sobre o envio ilegal das armas, começou uma crise política que foi paliada momentaneamente pela renúncia de vários ministros. Na sequência, a Justiça pediu à Interpol a captura internacional do tenente-coronel Diego Palleros, que agiu como intermediário dos envios de armas, utilizando empresas uruguaias como fachadas.
Palleros foi preso na África do Sul, onde disse que Menem sabia do destino real dos envios de armas e ameaçou contar “tudo o que sabia”. Um mês depois, ocapitão Estrada, sócio de Palleros, foi convocado pela Justiça em Buenos Aires.
Quatro dias mais tarde, Palleros foi solto pela Justiça sul-africana, que simultaneamente recusou o pedido de extradição feito pela Argentina. No mesmo dia, Estrada apareceu morto. A estranha morte de Estrada foi interpretada como um “sinal” a Palleros, para que este não continuasse falando.
Cogumelo criado pela explosão de Río Tercero
3 – EXPLOSÃO E “ACIDENTES” – Após a revelação do escândalo do contrabando, em 1995, uma explosão destruiu grande parte da fábrica militar de Rio Tercero. A chuva de estilhaços e as granadas espalhadas por toda a cidade e arrasou os bairros vizinhos à fábrica.
A explosão causou a morte de sete pessoas e ferimentos em outras 300, além da evacuação de 19 mil habitantes de Río Tercero e prejuízos de US$ 25 milhões.
Os promotores do julgamento de Menem puderam provar que a explosão foi proposital, destinada ao encobrimento da ausência de armas e pólvora que havia sido contrabandeada para o Equador e a Croácia.
No entanto, a seqüência de mortes não parou com a explosão de Rio Tercero: um ano depois, em 1996, o helicóptero onde viajava o general Juan Andreoli, diretor da Fabricaciones Militares, espatifou-se ao tentar um pouso de emergência no Campo de Pólo no bairro de Palermo.
O aparelho tentou um um pouso forçado na pista de pólo da região, mas espatifou-se e todos as dez pessoas que nele viajavam faleceram na hora.
No helicóptero também estava o coronel Rodolfo Aguilar, que havia sido convocado como testemunha no processo sobre a venda ilegal de armas. Além deles, no acidente morreu uma cunhada do general Martín Balza, chefe do Estado-Maior do Exército.
Em 1997, duas testemunhas de irregularidades na venda de armas –CarlosAlberto Alonso(encarregado dos controles da Alfândega) e Vicente Bruzza (operário da fábrica militar de Río Tercero que havia denunciado uma ‘maquiagem’ no registro das armas) morreram na mesma semana de estranhos ataques cardíacos.
Na mesma época, faleceu de um derrame cerebral Francisco Callejas, técnico das Fabricações Militares, que havia ido à Croácia para calibrar os canhões (que deveriam ter sido enviados para a Venezuela.
Outro “suicídio”, com um tiro a um metro de distância (!), do banqueiro Mario Perel, envolvido nesse escândalo ( em outros) também marcou os anos 90. Perel teria “falado demais”com deputados da oposição que estavam investigando lavagem de dinheiro e o escândalo das armas.
Mais uma morte sui generis: o da ex-secretária de Emir Yoma, Lourdes di Natale, pouco depois de prestar 12 horas de depoimento. Lourdes, afirma a Polícia, tentou cortar com uma faca sem dentes um cabo de Tv que pendia a maisde 2 metros da janela de seu edifício em Buenos Aires. Resultado: caiu dezenas de metros e morreu ao encontrar-se com o chão.
E finalmente, a morte do capitão Estrada.
4 – SUICÍDIO PECULIAR
As estranhas circunstâncias da morte de Estrada fizeram que a Justiça rotulasse o processo de investigação como “averiguação de suicídio”.
Estrada apareceu morto sentado, com o torso sobre sua escrivaninha, em cima da qual havia um revólver9 milímetros.
Mas essa não era a arma que havia provocado sua morte: o tiro havia sido disparado do revólver calibre 3.80 que estava caído no chão.
Outro ponto que aumentou as suspeitas foi a trajetória que a bala fez na cabeçade Estrada: o tiro foi dado ao lado da orelha esquerda, perto da nuca, de trás para a frente, e de baixo para cima.
O tiro, feito do lado esquerdo, pareceu mais estranho quando se soube que Estrada não era canhoto. Os conhecidos e amigosde Estradadestacaram que o defunto militar não era “acrobata” ou “contorcionista” para implementar um suicídio com tal esforço de flexibilidade muscular.
Além disso, as duas mãos de Estrada estavam borrifadas de sangue, o que demonstraria que o militar havia disparado a arma com as duas mãos. Uma posição muito incômoda para quem vai se suicidar.
As suspeitas de que Estrada não se matou aumentaram mais pela falta de rastros de pólvora nas mãos, uma evidência que quase nunca falta em quem dispara uma arma.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Pinguim e namorada. Não é “El Pingüino”, isto é, o ex-presidente em questão e a ex-secretária, suposta amante. Neste caso, a ilustração acima mostra o pinguim Skipper, do filme (e série) “Madagascar”, que é o líder de um grupo de adoráveis pinguins mafiosos. Suas frases preferidas são “você não viu nada ainda!” e “manobras evasivas, rapazes!”.
“A outra viúva de Kirchner” é a denominação que está sendo aplicada a Miriam Quiroga, secretária durante 11 anos do ex-governador de Santa Cruz, ex-presidente da República e ex-presidente do partido peronista, Néstor Kirchner. “Era vox populi que eu era amante de Néstor”, disse Miriam à “Notícias”, a revista de informação semanal de maior circulação na Argentina. “Tive uma união muito forte com ele. Deixei tudo para vir com ele desde o sul. Deixei minha família”, declarou Miriam, que autodefine o trabalho que realizou com Kirchner como o de uma “secretária pau para toda obra”.
Miriam – de 50 anos, simples na forma de vestir, embora com mais curvas do que a magra presidente – afirmou que no início de janeiro o secretário-geral da presidência, Oscar Parrilli, lhe comunicou que estava despedida, já que Cristina Kirchner desejava colocar outra pessoa no posto que ocupava formalmente, o de diretora do Centro de Documentação Presidencial. Na reportagem de seis páginas à “Notícias” Miriam afirma tentou falar com a presidente. No entanto, não teve sucesso e teve que partir do governo.
A Secretaria-geral da presidência não respondeu as perguntas da imprensa sobre os motivos da demissão de Miriam.
Capa da revista “Notícias” com a suposta amante de Kirchner, Miriam Quiroga, ex-secretária do ex-presidente, atual defunto. Quiroga está sendo chamada de “a outra viúva”.
Em meio a um delicado ano de eleições presidenciais a notícia poderia abalar a própria imagem da a viúva oficial, a presidente Cristina, já que evidenciaria que ela hipoteticamente sabia e resignava-se sobre a existência da relação de Miriam com seu marido. No entanto, a partir do momento da morte de Kirchner, vítima de um ataque cardíaco fulminante em outubro, Cristina não teria tido mais obstáculos para a demissão sumária da secretária.
Analistas comentaram ao Estado que o sucesso da “sociedade” política de Néstor e Cristina (funcionaram como dupla política com uma interação não vista desde Perón e Evita) e financeira (possuíam vários empreendimentos imobiliários e de hotelaria a nome dos dois) teria impedido a separação formal do casal.
“Temos que pegar essa informação com pinças”, explicou em off ao Estado uma famosa “kirchneróloga”. “Não sei se ela foi amante de Kirchner durante uma década. Talvez tenha sido uma amante ocasional. Minhas pistas apontavam para outra mulher, que era empresária na província de Santa Cruz, não esta aqui”.
Enquanto isso, Miriam aproveita a polêmica suscitada e nega que sua filha de 11 anos seja fruto da suposta relação amorosa entre ambos. Segundo ela afirma, o pai foi um “namorado fugaz”.
REVISTA - A “Notícias”, cuja editora no Brasil edita a “Caras”, foi famosa nas últimas duas décadas por revelar a existência – posteriormente comprovada na Justiça – de filhos extramatrimoniais de políticos importantes (entre eles, do ex-presidente Carlos Menem), além de amantes de ministros, deputados e senadores.
Um baita e anabolizada cobra, com physique du rôle de sucuri ou anaconda. Gravura do século XII.
AMANTES E UMA ANACONDA DE RESULTADO – Ao longo da História argentina a existência de amantes presidenciais foi farta e variada. Carlos Menem (1989-99) era famoso por seus affaires quando ainda era governador de La Rioja. Na presidência intensificou seus contatos extra-matrimoniais, fato que causou a ira de sua mulher, Zulema Yoma, que em vingança entrincheirou-se na residência oficial de Olivos e confiscou a faixa e o bastão presidencial. O casal – que também tinha abundantes diferenças políticas – separou-se oficialmente na sequência.
Menem já havia tido aventuras extramatrimoniais com descendência incluída em 1981, época em que Menem (que havia exercido entre 1973 e 1976 seu primeiro mandato como governador), por ordem do regime militar, que o havia detido, passou meses em prisão aberta no vilarejo de Las Lomitas, Formosa.
Ali, conheceu a jovem Marta Meza – filha de um caudilho local – que ficaria grávida. Menem, na época, estava casado. Mas, prometeu a Marta que reconheceria o menino.
Os anos passaram e a promessa não se cumpria. Em 1989 Menem foi eleito. Nesta ocasião, prometeu que reconheceria seu filho quando deixasse o poder. Essa promessa tampouco foi cumprida. Nesse intervalo a mãe de Carlos Nair foi eleita deputada federal.
No ano 2003, Marta Meza suicidou-se em circunstâncias misteriosas (bebendo herbicidas). Carlos Nair foi vítima de atentados e de ameaças que lhe indicavam que deixasse de insistir com seu pedido de reconhecimento.
Em 1996 a revista “Notícias” publicou as fotos de Menem com seu filho ilegítimo na residência presidencial de Olivos. Após o escândalo, Menem evitou o garoto durante anos. Carlos Nair, após a maioridade, começou a exigir que seu pai o reconhecesse. Menem continuava recusando-se. Mas, em 2005, o juiz Francisco Orella determinou que o jovem era filho extra-matrimonial do ex-presidente. A determinação baseou-se nas fotografias que provam o vínculo e a negativa de Menem em submeter-se ao exame de DNA.
Em meados de 2008, sua fama de latin-lover septuagenário (agora ele é octogenário) foi abalada pelas aventuras amorosas da chilena Cecilia Bolocco, com a qual havia se casado em 2001 (que tinha metade de sua idade).
Cecilia, uma ex-miss Universo, cansada da intensa dedicação de Menem aos jogos de golfe na Argentina (enquanto ela residia com o filho de ambos em Santiago do Chile), começou a ter um tórrido affaire com um playboy italiano em Miami. O resultado foi o divórcio para o casal e fama de “homem traído” para Menem.
O ex-presidente só conseguiu um pouco mais de protagonismo quando, semanas depois do escândalo de Bolocco, seu filho ilegítimo, Carlos Nair, apareceu em “Gran Hermano”, a versão argentina do Big Brother.
O jovem tornou-se celebridade nacional quando, no meio do programa, os integrantes descobriram que o filho do ex-presidente possuía um aparelho reprodutor de consideráveis dimensões. As participantes femininas proferiram frases apologéticas sobre o diâmetro e comprimento do supracitado. Os participantes masculinos que também ali estavam exclamaram expressões de inveja.
Desta forma, Carlos Nair tornou-se famoso em toda a Argentina com o apelido de “La Anaconda”, em alusão à gigantesca cobra que habita a Amazônia.
Menem não perdeu tempo, e reconheceu oficialmente seu filho ilegítimo, algo que não havia feito em 27 anos. “Só podia ser filho meu”, afirmou Menem na época. No entanto, a vedette do teatro de revista Moria Casán – ex-amante de “El Turco” nos anos 80 – com ironia sugeriu que as proporções substanciais da genitália de Carlos Nair não necessariamente tinham correlação com seu genitor, o qual conhecia bem de antanho.
F.De la Rúa pega dentro de sua gaveta presidencial o vigorizante sexual presidencial. Minutos antes havia renunciado à presidência da República.
PICARESCOS ANÕEZINHOS – No dia 20 de dezembro de 2001, o então presidente Fernando De la Rúa (1999-2001), estava ponto de renunciar e escapar em um helicóptero do teto da Casa Rosada, a sede do governo. Nas horas anteriores, uma multidão enfurecida com a crise econômica – e especialmente o “corralito” (denominação do mega-confisco bancário) – manifestava-se na Praça de Mayo para exigir sua renúncia.
As forças de segurança reprimiriam a multidão e mataram cinco manifestantes a poucos metros das janelas presidenciais (no resto da cidade houve mais mortos).
Após renunciar, De La Rúa passou pela sala onde estava seu escritório para pegar os objetos pessoais.
A foto feita na ocasião pelo fotógrafo oficial da presidência, Victor Budge, mostra o pacato e sonolento ex-presidente abrindo uma gaveta. Era última foto na Casa Rosada de De la Rúa,
Um ano depois, em janeiro de 2003, a “Gente”, tradicional revista de fofocas, publicou a mesma foto, embora ampliada. O detalhe mostrava que De la Rúa retirava da gaveta da escrivaninha duas caixas – amostra grátis – de um vigorizante sexual de nome “Optimina Plus”, recomendado para casos de impotência.
A foto de De la Rúa recolhendo seus objetos havia sudo publicada várias vezes ao longo de 2002. No entanto, ninguém havia reparado no detalhe das caixinhas, até que um leitor de “Gente”, curioso em saber o que havia na gaveta presidencial, e munido de uma lupa de aumento, reconheceu o remédio.
As caixas de “Optimina Plus” ostentam na embalagem uma picaresca seqüência de gnomos cuja ponta dos gorros vai ficando ereta gradualmente, em uma analogia aos efeitos que o remédio causaria no órgão reprodutor masculino, neste caso, o órgão presidencial (que a partir desse momento era ex-presidencial).
A revelação de que De la Rúa consumia abundantes doses de “Optimina” foi na ocasião o principal tema de piadas em Buenos Aires.
De la Rúa, até a época, era visto como um homem asexuado, tímido, dominado pela ambiciosa então primeira dama, Inés Pertiné, com a qual padecia problemas conjugais.
No entanto, nos últimos anos haviam circulado rumores de que teria tido affaires com duas de suas assessoras na época, que nunca foram confirmados.
Sexo paleolítico: Uma representação de uma deusa estilizada. É a “Vênus de Dolní Věstonice” (em tcheco, Věstonická Venuše). Esta pequena estátua de terracota, que data do 25 mil a.C, teria sido usada como um primitivo, embora eficaz, consolador.
O GOVERNADOR E O VIBRADOR - “Caudilho com pedigree” é a irônica definição que fazem sobre Adolfo Rodríguez Saá seus críticos na província de San Luis, onde ele e sua família controlam a mídia, a burocracia provincial, além da Justiça. O “pedigree” refere-se à freqüência com a qual os Saá aparecem como governadores nos livros de História nessa província, no centro da Argentina, que durante tantas décadas foi tão pobre que comentava-se com humor que quando um urubu passava por ali, levava marmita para não passar fome.
Rodríguez Saá governou San Luis entre 1983 e 2001, tornando-se assim, o governador que mais permaneceu no cargo na segunda metade do século XX. Junto com seu irmão Alberto – definido pelos opositores como o verdadeiro “Maquiavel” por trás de Adolfo – são acusados de diversos casos de corrupção.
Seus críticos afirmam que é estranho que um homem como ele, que em 1983 tinha como bens somente uma casa, hipotecada, e dois carros usados. Duas décadas depois, só com o salário de governador havia tornado-se milionário.
Em outubro de 1993 Rodríguez Saá protagonizou um sui generis escândalo sexual. Subitamente, uma tarde, Rodríguez Saá apareceu nos aparelhos de TV dos argentinos para explicar que havia sido seqüestrado e colocado no motel de nome “E..no c” (jogo de palavras equivalente a ‘E…não sei’) junto com “La Turca”, nom de guerre de Esther Sesín, que havia sido sua amante.
O próprio Rodríguez Saá explicou que em meio ao sequestro havia sofrido um grave abuso sexual.
Segundo ele, um grupo de pessoas estava tentando extorqui-lo, pois haviam gravado cenas de conteúdo hardcore. Os sequestradores o deixaram em uma estrada de terra, espancado e com a ameaça de divulgar o vídeo caso ele não pagasse US$ 3 milhões. No entanto, a Polícia de San Luis imediatamente encontrou e deteve “La Turca” e seu namorado, Alejandro Salgado, mentor do sequestro.
Quem viu o vídeo, de circulação altamente estrita, afirma que no meio do suposto “abuso” o casal estava utilizando um avantajado vibrador. No entanto, não era “La Turca” – uma quarentona de curvas abundantes – que estava usufruindo do aparelho em questão.
A História daria reviravoltas. No dia 23 de dezembro de 2001, em meio à grave crise política e econômica causada pelo corralito e a queda de De la Rúa, Rodríguez Saá foi designado presidente provisório da Argentina. Sua primeira medida foi declarar o calote da dívida externa com os credores privados. Uma semana depois, alvo de panelaços e sem apoio dos governadores, renunciou. Atualmente é senador.
PINGUINS, SEXO & LEITÕES - Em janeiro de 2009 a presidente Cristina Kirchner, que ainda não era viúva, fez referências sobre sua vida sexual (nunca antes, em 200 anos transcorridos desde a independência da Argentina um presidente da República havia feito alusões sobre sua vida sexual em público, e muito menos realizado referências sobre afrodisíacos químicos e naturais).
Na ocasião Cristina exaltou as propriedades afrodisíacas da carne de leitão. Além da carne suína, a presidente – famosa por preocupar-se com a “linha” – também exaltou as propriedades da carne de frango para emagrecer.
Tudo começou quando a presidente Cristina, ao vivo pela TV, durante uma cerimônia com produtores suínos, anunciou que havia sido informada dos poderes afrodisíacos do leitão. Segundo ela, valia mais a pena um “porquinho na grelha do que tomar viagra”.
Além disso, ressaltou que havia ingerido significativas porções de um saboroso suíno no fim de semana prévio, e que o sábado e domingo transcorrido na companhia de seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner haviam confirmado empíricamente os efeitos eréteis do leitão consumido.
Um dia depois, a presidente exaltou a qualidade da carne de frango como alimento “para fazer dieta”. A mídia deleitou-se com as frases da presidente, definindo Cristina Kirchner como “guru sexual e nutricionista”.
“Pirata”, no lunfardo (gíria) portenha é quem pratica a “trampa”, isto é – literalmente – “trapaça”. Quando uma pessoa está “de trampa” é que está casada mas está tendo (ou tentando) ter um encontro sexual com outra pessoa que não é a cônjuge.
Acima, a captura do pirate Barbanegra, em 1718. O quadro mostra como a pancadaria correu solta entre Barbanegra e o tenente Maynard em Ocracoke Bay. A obra é do americano Jean Leon Gerome Ferris (1863–1930)
Aproveitamos o post sobre sexo e política (e recordamos a frase de Henry Kissinger, “o poder é o maior afrodisíaco de todos”) para mostrar esta lista (citada em outro post antigo) de palavras alusivas ao coito e afins.
COJER: Verbo que indica o ato sexual completo. O verbo, na Espanha e outros países de idioma castelhano o verbo é primordialmente utilizado para “pegar” ou “colher” (como “colher algo do chão”). Isto é, uma pessoa poder referir-se a “cojer el autobús (ônibus)”, para explicar que poder “pegar o ônibus”. Na Argentina, equivaleria a dizer que teria um coito com o veiculo de transporte coletivo (e não dentro de tal veículo). No entanto, não é uma forma polida de referir-se ao ato sexual.
COJIDA: “Uma cojida”. O coito.
GARCHAR: Verbo que designa o ato de copular. No entanto, é uma forma chula. “Coger”, perto de “garchar”, acaba parecendo uma forma elegante…
GARCHE: A cópula, expressada sem elegância
EMPOMAR: Verbo que refere-se a “pomo”, isto é, o equivalente a “bisnaga” Ergo, indica o membro viril. Desta forma, “empomar” é o verbo utilizado para referir-se à penetração.
TRANSAR: O verbo foi recolhido pelos turistas argentinos que foram ao Brasil nos anos 80. Mas, em vez de referir-se ao coito em si, na Argentina, esta gíria utiliza-se de forma adulterada. Neste contexto de readaptação do verbo, transar aqui refere-se aos beijos e carícias. Preliminares sexuais com abundante produção hormonal mas sem a cópula em si.
FRANELEO: Uma versão local da “transa” (isto é, a “transa” em sua versão adaptada). “Franela” é “flanela”, produto utilizado para passar – e esfregar – sobre um automóvel ou um móvel. No contexto sexual, uma “franela” seria o ato intenso de fricção de epidermes de duas pessoas.
VACUNAR: Vacinar. Neste caso não se refere ao ato de inocular alguém com anti-corpos para provocar uma resposta de defesa perante microorganismos patógenos inventado por Edward Jenner em 1796, mas sim, refere-se ao ato de penetrar alguém.
Edward Jenner, criador da outra “vacuna” (vacina)
ACABAR: Cuidado ao utilizar esse verbo na Argentina, já que é um sinônimo frequente de “ejacular”. Ou, no caso das mulheres, de chegar ao orgasmo. Para indicar o “acabar” nosso é mais adequado a utilização de “terminar”. Ou “concluir”.
TUJE: Proveniente do antigo yiddish “tuches”, utilizado com frequência na Argentina para indicar os glúteos. Traseiro. Bumbum.
VERSO: Galanteio semi-picareta. Afirmação – ou conjunto de afirmações – geralmente sem base concreta (“se você quiser conhecer meu iate…”) destinados a conseguir a conquista-sedução de alguém.
VERSERO/A: O praticante do ‘verso’.
TRAMPA: Literalmente, “trapaça”. Quando uma pessoa está “de trampa” é que está casada mas está tendo (ou tentando) ter um encontro sexual com outra pessoa que não é a cônjuge.
PIRATA: Aquele que pratica a ‘trampa’.
CABARULO: Refere-se aos cabarés, palavra em Buenos Aires aplicado para casas de strip-tease e também, ocasionalmente, para bordéis.
PRIVADO: Prostíbulo instalado em um apartamento.
CAFISHIO: O gigolô.
TRAVIESSA: Literalmente, “travessa”. Mas refere-se ao ‘travesti’.
“Que panettone!”. Expressão apologética dos glúteos femeninos.
E, como não podia deixar de ser, tal como em diversas partes do planeta as referências aos alimentos – de preferência tubérculos, legumes e cereais falofórmicos – são amplamente usadas para designar o membro viril. Esta lista já foi apresentada em outro post ano passado. Mas, recuperamos o catálogo para que sirva de guia em caso de necessidade.
ENTERRAR LA BATATA: A ‘batata’ desta frase refere-se à ‘batata-doce’. A nossa batata em português é “la papa”. Mas, em ‘lunfardo’ a batata indica o membro viril. Logo, neste contexto, com alusões à atividade da lavoura, ‘enterrar la batata’ (enterrar a batata-doce) significa, em tradução figurativa, penetrar alguém. Não se usa “enterrar la papa” (isto é, nossa batata, em português). Talvez porque até poderia causar confusão com o termo ‘papa’, isto é, o Sumo Pontífice (e, já que estamos aqui, Pontífice vem do latim ‘Pontifex’, o “construtor de pontes”).
MOJAR LA CHAUCHA: Molhar a vagem. Similar para ‘enterrar la batata’.
MOJAR LA VAINILLA: Molhar a baunilha, isto é, o biscoito champagne. Na Argentina, um dos hits do lanche da tarde, décadas atrás, era o do café com leite (ou chá) com as ‘vainillas’ (biscoito-champange). No fim das contas, a expressão é similar a “enterrar la batata”.
ES UN BOMBÓN: É um bombom. Elogio que indica que alguém é bonito/a. Majoritariamente usado por mulheres (ou homens) para referir-se a homens.
ES UN CHURRO: É um churro. Igual ao bombón. Mas, a expressão é um pouco mais antiga.
QUE LOMO!: “Que lombo!”. Elogio carnívoro ao físico de alguém. Usado tanto por mulheres como por homens. Lomazo: Um corpaço. Usado para homens e mulheres.
QUE PAN DULCE: “Que panettone!”. Elogio aos glúteos femeninos.
“O poder é o maior afrodisíaco de todos!” afirmou no 27 de maio de 1976 o ex-secretário de Estado dos EUA, Heinz ‘Henry’ Alfred Kissinger.
ÉRIAS: Estarei a ritmo lento na próximas semanas, já que hoje começo minhas férias. No entanto, deixarei a sra. Ágata Salgado-Simpson, honorável septuagenária secretária e ornitóloga a cargo de checar e autorizar a cada 4 ou 5 dias os comentários dos comentaristas.
Inté!
uma melodia, um clássico ibérico, para entrar no ritmo das férias, hip-hip-hurrraaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!
“El Relicario”, de J.Padilla, aqui.
Dona Ágata, entre uma bebericada de chá e outra, tomando nota de minhas indicações.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
Do Riachuelo ao Aerolula: O encouraçado brasileiro “Riachuelo”, que transportou Campos Salles do Rio até Buenos Aires. O navio de guerro aparece “estacionado” em Puerto Madero. Na época, os cais haviam sido recém-inaugurados. Um século depois a mesma área seria o point de restaurantes, atualmente entupidos de turistas.
Nesta segunda-feira – longe de Puerto Madero e dos encouraçados de antanho – quando a presidente Dilma Rousseff desembarque do avião presidencial Santos Dumont em Buenos Aires, será do outro lado da cidade, na base aérea do Aeroparque Jorge Newbery, o aeroporto metropolitano portenho.
uas cheias de guirlandas e arcos do triunfo. Esses foram alguns dos elementos que os portenhos colocaram nas ruas da capital argentina para exaltar a visita do presidente do Brasil Manuel Ferraz de Campos Salles à Buenos Aires em outubro de 1900. Na ocasião, 300 mil portenhos (a cidade contava com 1,2 milhão na época, isto é, um de cada quatro habitantes da cidade foi às ruas receber o visitante) urraram o nome do brasileiro nas ruas da cidade, celebrando seu desembarque. Campos Salles dava início às visitas presidenciais brasileiras no exterior.
Campos Salles colocava seus pés em Buenos Aires para retribuir uma visita feita pouco mais de um ano antes, em agosto de 1899, pelo presidente argentino Julio Roca ao Rio de Janeiro. À beira da Bahia de Guanabara, Roca teria dito uma frase histórica, “tudo nos une, nada nos separa”.
A frase, no entanto, é uma daquelas que se encaixam na categoria de ‘se non è vero, è ben trovato’, já que ela seria pronunciada nesse exato formato em 1910, pelo então presidente eleito da Argentina, Roque Sáenz Peña, durante sua visita ao Rio de Janeiro. “Hoje em dia essa afirmação pode parecer banal. Mas na época, foi revolucionária”, me disse o ex-embaixador do Brasil em Buenos Aires, Luiz Felipe de Seixas Correa.
Roca também deixou para os registros históricos uma categórica afirmação (esta, de cunho próprio): “o Brasil e a Argentina devem unir-se por laços da mais íntima amizade, porque juntos serão ricos, fortes, poderosos e livres”.
Com esta visita, o Brasil, depois de 67 anos de monarquia, desejava “republicanizar” sua política externa, atenuando os vínculos com as coroas europeias e privilegiando o espaço sul-americano.
OM TODA A POMPA – Ao contrário das visitas presidenciais atuais – corriqueiras, de apenas 24 horas, com comitivas de poucas dezenas de pessoas, e que muitas vezes passam desapercebidas para o grande público – a viagem de Campos Salles à Buenos Aires no ano seguinte à visita de Roca ao Rio foi em grande estilo. O presidente viajou na companhia de centenas de pessoas, no encouraçado “Riachuelo”, que veio acompanhado de parte da esquadra brasileira, que levava centenas de pessoas que integravam a comitiva presidencial.
Campos Salles permaneceu em Buenos Aires durante uma semana com atividades que incluíram idas à Ópera, ao Hipódromo e diversas recepções com bailes. A ocasião foi tão especial que os dois presidentes foram os protagonistas do primeiro filme rodado na Argentina.
O cinegrafista Eugenio Py gravou as imagens dos dois presidentes conversando em uma escadaria em um palacete portenho.
Chegada de Campos Salles até virou motivo de cartão postal na época da visita. Postal mostra multidão e arco do triunfo no porto.
Depois de Campos Salles passaram várias décadas sem visitas presidenciais brasileiras. Foi necessário esperar até 1935, quando chegou à Buenos Aires o presidente Getúlio Vargas, que aqui reuniu-se com o presidente e general Augustín Justo. Na ocasião, foram assinados 12 acordos bilaterais.
O arquivo da Chancelaria argentina mostra vários dados curiosos sobre a visita de Vargas ao país. Um deles, o desespero da Chancelaria local pela lerdeza da Embaixada argentina no Rio de Janeiro em enviar os dados e fotografias do presidente Vargas para fazer o livro de luxo que celebraria a visita.
Outra peculiaridade teve a pianista Guiomar Novaes como foco, já que o governo brasileiro, a último momento, queria colocá-la de qualquer forma na programação cultural da visita de Vargas à Buenos Aires. Depois de fortes pressões brasileiras os argentinos deram um jeito e finalmente conseguiram um buraco na agenda das festividades para que ela tocasse no Teatro Cervantes.
O general e presidente Justo à esquerda. À direita, Getúlio Vargas.
M PRESIDENTE FASCINADO – Vargas foi hospedado no Palácio Pereda, no início da elegante Avenida Alvear. Encantado com a mansão, o presidente propôs sua compra, para transformá-la na Embaixada do Brasil. Celedonio Pereda, fazendeiro argentino que havia construído o palacete pouco mais de uma década antes, foi seduzido pelas insistentes ofertas que Vargas fez nos anos seguintes. A compra foi efetivada em maio de 1945, nos derradeiros meses do governo Vargas.
Desde os anos 80 o Palácio Pereda é a residência do embaixador brasileiro. A parte administrativa construída nos anos 80, está perto dali, virando o quarteirão, na rua Cerrito.
Segundo a escritura dos tabeliões Juan e José Toribio, em troca do palácio o governo brasileiro cedeu à família Pereda o prédio da Avenida Callao 1555, até então a embaixada do Brasil, junto com 4 mil toneladas de minério de ferro.
O edifício neo-clássico da sede diplomática localiza-se na frente da Praça Carlos Pellegrini, diante do Jockey Club, quase ao lado da refinada Embaixada da França. Erroneamente, a maioria das pessoas consideram que o palácio está no elegante bairro da Recoleta. Mas, esta começa a três quadras dali. Oficialmente, o palácio está no bairro de Retiro.
Dutra, acompanhado por Evita Perón. Atrás da primeira-dama argentina, a “Mãe dos pobres”, está a silhueta do general e presidente Juan Domingo Perón.
UTRA E JÂNIO, NA FRONTEIRA - Na seqüência das visitas presidenciais, a seguinte seria a vez do presidente Juan Domingo Perón, que receberia o presidente Eurico Gaspar Dutra em 1947. No entanto, o encontro ocorreria na fronteira, entre a argentina Paso de los Libres e a brasileira Urugaiana (RS). Na ocasião, com a presença de Evita Perón, a primeira-dama argentina, os dois presidentes inauguraram a ponte que liga as duas cidades. Esta seria a primeira entre os dois países, já que ambos lados da fronteira tradicionalmente evitaram a construção de pontes, já que estas podiam servir para a passagem de tropas invasoras do país vizinho.
O trecho da metade da ponte correspondente à Argentina foi inaugurada com o nome de Agustín Justo, ditador da Argentina nos anos 30. Do lado brasileiro, teve o nome do ditador Getúlio Vargas (na época, Vargas somente havia sido ditador; ele ainda não havia sido eleito democraticamente presidente, tal como aconteceria em 1950).
Em abril de 1961 seria realizado o seguinte encontro, também na divisa dos dois países, entre os presidentes Arturo Frondizi e Jânio Quadros. No encontro, os presidentes tiveram opiniões diferentes sobre o contexto regional (a crise de Cuba, a posição perante os EUA) e internacional (a eventual aproximação aos países africanos que começavam a independizar-se e aos países comunistas da Ásia). Mas, assinaram um importante acordo de amizade e consulta. Quadros, que duraria poucos meses no poder, até especulou com Frondizi retirar as tropas brasileiras da área da fronteira com a Argentina, localizadas especialmente no Rio Grande do Sul, e deslocá-las mais para o interior.
Sorridentes, mas por curto tempo (e por problemas internos): Jânio e Frondizi, na fronteira, no dia 21 de abril de 1961. Jânio duraria quatro meses no poder. Frondizi, 11 meses, antes de ser derrubado pelos militares.
QUINO PRESENTE - Passariam quase duas décadas, quando, en 1980, para apaziguar a tensão surgida entre o Brasil e a Argentina pela construção da hidrelétrica de Itaipu (a obra causava suspicácias no governo argentino e na população do país, que temia que um dia o Brasil poderia abrir suas comportas e alagar várias cidades argentinas), o general João Batista Figueiredo desembarcou em Buenos Aires para reunir-se com o ditador argentino Jorge Rafael Videla. O ditador argentino paparicou o colega brasileiro, que foi presenteado com cavalos Made in Argentina, fato que agradou Figueiredo, um declarado amante da hípica.
De quebra, foi homenageado no estádio do San Lorenzo, time pelo qual Figueiredo havia torcido, quando adolescente, durante o exílio de seu pai, o general Euclides Figueiredo, em Buenos Aires nos anos 30 (o general havia sido exilado pelo governo Vargas por ter participado da revoluçào constitucionalista de 1932).
A visita teve grande impacto, pois foi a terceira viagem de um presidente brasileiro à Argentina em todo o período republicano (os encontros Perón-Dutra e Frondizi-Quadros foram literalmente na fronteira). Videla retribuiu a visita no mesmo ano, indo à Brasília.
Black-tie: Os generais Videla e Figueiredo com suas respectivas primeiras-damas. Figueiredo ganhou cavalo de presente ao visitar Buenos Aires.
NTEGRACIONISTAS E AMIGOS - Depois, em 1985, com ambos países de volta à democracia, o presidente José Sarney reuniu-se com o presidente Raúl Alfonsín sobre a ponte Tancredo Neves (entre a brasileira Foz de Iguaçu e a argentina Puerto Iguazú), inaugurada na ocasião, colocando as bases do futuro Mercosul. O encontro ocorreu nas duas cidades entre os dias 29 e 30 de novembro. No início do século XXI, em homenagem a este passo crucial no aprofundamento das relações entre os dois países, esta última data foi designada o “dia da amizade argentino-brasileira”.
Os dois presidentes assinaram a Declaração Conjunta sobre Política Nuclear. Alfonsín, simbolicamente, visitou Itaipu, que nos dez anos anteriores havia sido a nêmesis para a Argentina.
Em julho de 1986, o presidente brasileiro foi à Argentina. Na ocasião, Alfonsín deu um inesperado gesto de confiança ao receber Sarney e abrir-lhes as portas das instalações atômicas argentinas. Os dois presidentes tornaram-se grandes amigos dali para frente. Eles costumaram realizar visitas mútuas mesmo após terem concluído suas presidências. É o único caso de uma amizade sólida entre presidentes do Brasil e da Argentina que perdurou mesmo após seus períodos de governo. Quando Alfonsín faleceu, em 2009, Sarney foi o único orador estrangeiro a ter a honraria de discursar no enterro.
As cataratas do Iguaçu fazem pose enquanto Sarney e Alfonsín ficam na frente. Foto de 1985 de Victor Bugge, fotógrafo histórico da presidência da República Argentina.
HC, TRADUTOR DE ‘EL TURCO’ – Depois, de Sarney, as visitas presidenciais brasileiras tornaram-se corriqueiras. Foram à Buenos Aires Fernando Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Este último causava profunda inveja no presidente Carlos Menem (1989-99), ao falar com a imprensa argentina em espanhol e com os correspondentes estrangeiros em inglês ou francês. Em diversas ocasiões o políglota FHC serviu de tradutor de coletivas de imprensa para “El Turco”, que era monoglota (o macarrônico inglês de Menem era a delícia dos humoristas argentinos).
FHC continuou visitando Buenos Aires nos anos seguintes ao fim de seu mandato para dar conferências. O ex-presidente continuou tendo tratamento de super-star na mídia e na intelectualidade portenha.
Kirchner, na época em que era presidente; Cristina, nos tempos em que era primeira-dama. E Lula, em seu segundo mandato.
ISITANTE ASSÍDUO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi outro visitante freqüente em seu primeiro e segundo mandato, batendo todos os recordes protagonizados por seus antecessores. Nos primeiros meses de governo, em 2003, visitou o então presidente provisório Eduardo Duhalde (2002-2003), que estava em seus últimos meses de mandato e com quem teve excelente feeling pessoal.
Na seqüência, o anfitrião passou a ser Néstor Kirchner, que tornou-se presidente em maio de 2003. Lula o visitou várias vezes. A partir de dezembro de 2007, os Kirchners continuaram no poder, mas por intermédio da esposa de Néstor, Cristina, que combinou dois encontros presidenciais por semestre com Lula.
O temperamental Kirchner oscilou entre períodos de idílio e de turbulências com Lula. O presidente brasileiro foi pego de supresa várias vezes pelas guinadas drásticas de Kirchner, especialmente as inesperadas medidas protecionistas para – atendendo os pedidos das indústrias nacionais – prevenir as alardeadas – e hipotéticas - “invasões de produtos” Made in Brazil no mercado argentino.
Desta forma, nem todas as ocasiões de visitas de Lula à Buenos Aires e outras cidades argentinas (especialmente para cúpulas do Mercosul) puderam ser definidas de “prazenteiras”. A tensão prevaleceu durante a administração de Néstor Kirchner.
Já com Cristina Kirchner, as cúpulas mantiveram um clima relativamente mais pacífico. Cristina costumava elogiar o empresariado brasileiro, como modelo a ser seguido pela Argentina.
Em todas suas visitas Lula causou frisson na esquerda argentina e exclamações de admiração no establishment portenho. No entanto, o frisson da esquerda foi uma sensação que diminuiu com o passar dos anos, já que setores da esquerda local foram decepcionando-se com a guinada para o centro (ou centro-direita, segundo alguns) do ex-torneiro mecânico. O wishful thinking de que Lula ainda supostamente permanecia - no fundo do coração - um homem socialista, consolava diversos setores progressistas argentinos. Diversas pesquisas, ao longo dos anos, indicaram que se um presidente estrangeiro pudesse ser candidato a presidente na Argentina, Lula venceria outros políticos do exterior, além dos próprios candidatos argentinos.
PRIMEIRA VISITA DE DILMA – A presidente Dilma Rousseff desembarcará em Buenos Aires nesta segunda-feira de manhã, às 11:00 horas, para uma intensa agenda que desenvolverá em poucas horas com sua anfitriã, a presidente Cristina Kirchner, e os ministros argentinos. Embora a visita seja breve, já que a presidente Dilma partirá à tarde, após o almoço de honra que o governo Kirchner organizou no elegante palácio San Martín, sede da chancelaria argentina, o plano de Cristina é o de receber Dilma com toda pompa para este primeiro encontro oficial entre as duas únicas mulheres que atualmente são presidentes na América do Sul.
HILIQUE PELO PÃO DE QUEIJO – Segundo fontes diplomáticas brasileiras, no início dos anos 90, durante uma visita à Buenos Aires, acompanhando seu emtão marido - o presidente Fernando Collor de Mello - Rosane Collor teria protagonizado um insólito chilique. A então primeira-dama pediu aos gritos a demissão da cozinheira da Embaixada do Brasil em Buenos Aires. O motivo da exigência da jovem de Canapi era que a quituteira argentina não sabia preparar o brasileiríssimo pão de queijo, na época, um elemento fundamental do regime do café da manhã da então primeira-dama.
Pão de queijo, o quitute da divergência.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Maurício Macri, filho do empresário ítalo-argentino Franco Macri – um ícone do capitalismo argentino nos anos 80 e 90 – nasceu em 1959 em Tandil, no interior da província de Buenos Aires. Desde que era um jovem engenheiro foi encarado como o herdeiro do grupo Socma. Mas, após trabalhar um breve período nas empresas do pai, foi afastado – segundo as más línguas – por ser péssimo administrador. Na época, foi suspeito de ter realizado contrabando de carros desde o Uruguai por intermédio das empresas.
Em 1995, decidido a ter uma vida independente do pai, Maurício transformou-se em presidente do Boca Juniors. No comando do time – que transformou em uma máquina de marketing esportivo – tornou-se uma figura conhecida do grande público.
No final dos anos 90 começou a flertar com a política, aproximando-se do então presidente Carlos Menem (1989-99).
Em 2003 criou seu partido, o Compromisso pela Mudança (CpC), que desde 2005 integra a coalizão de centro-direita Proposta Republicana (PRO).
Diversos analistas o indicam como um político “preguiçoso”, já que em diversas ocasiões Macri desinteressou-se do partido, para voltar a ocupar-se tempos depois.
Em 2005 foi eleito deputado, mas quase não apareceu no Parlamento.
Após vencer as eleições da prefeitura em junho de 2007, em vez de consolidar-se como líder da oposição, saiu de férias. Os efeitos dessa “preguiça” ficaram evidentes quatro meses depois, nas eleições parlamentares e presidenciais, quando seu partido caiu dos 61,9% dos votos obtidos em junho na cidade de Buenos Aires – seu principal reduto – para somente 12% dos votos portenhos.
Nas eleições parlamentares de 2009 o PRO somente obteve 30% dos votos na cidade governada por Macri.
Nesta semana o prefeito indicou que pretende ser candidato presidencial .
Franco Macri, pai de Maurício e ícone do capitalismo argentino dos menemistas anos 90. Desde 2004 transformou-se em um ativo defensor da política econômica do governo Kirchner. É uma espécie de “guru” da presidente Cristina Kirchner sobre investimentos da China. Famoso por ser playboy, Franco Macri teve uma longa lista de namoradas de quatro décadas a meio século mais novas que ele. Modelos e atrizes integram sua lista de conquistas.
O PAI - O prefeito enfrenta insólitos percalços. Um deles é gerado por seu próprio pai, Franco Macri, que declarou em meados de 2010 que “pelo lado afetivo, votaria em meu filho. Mas, se votar de forma racional, votaria em Néstor Kirchner”.
O empresário não esconde que considera o filho prefeito um garoto mimado e não perde oportunidades para tecer elogios rasgados sobre o casal presidencial. Dias depois das declarações de Franco, Maurício – que anos atrás definiu o pai como “meu principal inimigo” – apareceu com um olho roxo. Os boatos indicavam que era o fruto de uma briga com seu irmão Mariano, que está do lado do pai.
Gabriela Cerruti, autora de “El Pibe” (O Garoto), biografia não-autorizada do prefeito, sustenta que Macri “não passa de um homem que quis ser empresário de sucesso, fracassou, e refugiou-se no Boca Juniors e na política para fugir do pai todo-poderoso”.
Pai e filho possuem discussões pendentes. Segundo a revista “Notícias”, Franco sustenta que o filho tentou remover de suas mãos empresas do grupo. Do lado de Maurício, segundo a publicação, as pessoas do círculo do prefeito indicam que o tempo do octogenário Franco “já acabou” e que o empresário não se resigna a uma aposentadoria.
Macri designou em 2009 Jorge Palacios como chefe da polícia metropolitana. Mas, o ex-delegado é suspeito de desde meados dos anos 90 de ter escondido provas sobre o atentado da AMIA, ocorrido em 1994. No ataque terrorista morreram 85 pessoas. Outras 300 foram feridas ou mutiladas. Macri teve que recuar um mês e meio depois da designação, e removeu Palacios do posto. Analistas indicaram que o caso foi uma demonstração da falta de tato do prefeito para assuntos espinhosos. Acima, pessoas caminham sobre sobre os escombros da AMIA, tentando encontrar sobreviventes.
GRAMPOS – No início de 2010 Macri foi acusado de ordenar grampos telefônicos para espionar políticos. O juiz Norberto Oyarbide – que indicou que 400 pessoas foram espionadas por um grupo de policiais comandado pelo então delegado Jorge “Fino” Palacios – sustentou que “existe uma verdadeira Gestapo” em Buenos Aires, em alusão à polícia secreta do Terceiro Reich.
Um dos alvos da espionagem – focalizada na área financeira dos espionados – foi Sergio Burstein, ativo líder dos parentes das vítimas do atentado realizado em 1994 contra a associação beneficente judaica AMIA.
Entre as pessoas espionadas estavam o próprio braço-direito de Macri, Horacio Rodríguez Larreta (seu chefe de gabinete), parlamentares da oposição e empresários envolvidos em um escândalo de corrupção do setor farmacêutico. Bartolomé Mitre, proprietário do tradicional jornal “La Nación” também foi espionado.
O ex-delegado Palacios possui fama controvertida, já que é suspeito de ter escondido provas sobre o atentado da AMIA em 1994. No ataque terrorista morreram 85 pessoas. Outras 300 foram feridas ou mutiladas.
Em julho de 2009 Palacios foi designado chefe da nova polícia metropolitana criada por Macri. Mas, um mês e meio depois, perante a forte reação da comunidade judaica argentina, Palacios teve que deixar o posto.
Desde o primeiro semestre de 2010 Macri está à beira do julgamento político e do risco de impeachment.
Na mesma época a vida de Macri ficou também complicada por outro confuso episódio, envolvendo seu ex-cunhado, Néstor Leonardo, parapsicólogo de profissão. O ex-esposo da irmã de Macri acusou o prefeito de ordenar o grampo seus telefones. No dia seguinte, o ex-cunhado foi alvo de uma misteriosa tentativa de assalto. O advogado de Leonardo explicou de forma peculiar: “foi uma tentativa de 80% de assassinato”.
O ano 2010 não foi bolinho para o prefeito. Representante dos setores conservadores portenhos, Macri optou por dar um respaldo light à lei que autorizava casamento entre pessoas do mesmo sexo. A decisão de apoio – embora cautelosa – provocou uma forte reação negativa da cúpula da Igreja Católica.
De quebra, de agosto a novembro desse ano a cidade foi abalada por manifestações de estudantes que ocupam mais de trinta escolas e faculdades para protestar pelo péssimo estado dos edifícios dos estabelecimentos escolares. Os protestos incluíram uma manifestação de 40 mil jovens que marcharam no centro portenho para protestar contra Macri e a presidente Cristina Kirchner.
No meio de crises Macri reage com viagens. Assim ocorreu com o surgimento do risco de julgamento político, quando optou por esquiar na Cordilheira dos Andes. Enquanto os estudantes ocupavam estabelecimentos educativos, o prefeito partiu rumo à Roma.
MORTES – Em dezembro a cidade foi abalada pela ocupação do Parque Indo-americano, no extremo sudoeste de Buenos Aires, por parte de pessoas sem-teto, além de outras provenientes de favelas da região. Macri tentou remover os ocupantes com sua recém-inaugurada polícia metropolitana e a polícia federal. A manobra terminou em pancadaria transmitida ao vivo pela TV para todo o país.
Nos dias seguintes a situação complicou-se com a morte de vários imigrantes bolivianos e paraguaios durante os incidentes. Os imigrantes foram mortos pelas forças de segurança federal e municipal, fato que causou perda de imagem para ambos governos. Além disso, os moradores do bairro vizinho ao parque, Villa Soldati, reagiram com fúria à presença dos imigrantes e espancaram centenas deles. Desta forma, durante uma semana, o canto sudoeste de Buenos Aires, preterido sempre pelos governos local e nacional, foi o cenário de batalhas campais entre civis.
Macri teve que implorar ajuda à presidente Cristina Kirchner, que após um período prolongado, finalmente concordou em enviar as tropas da Gendarmería ao lugar dos incidentes.
O zanzibariano (ou zanzibariense?) Farrokh Bulsara, aliás o barítono Freddie Mercury (1946 – 1991), é o ídolo musical do prefeito portenho Maurício Macri.
QUEEN E BIGODE – Macri tampouco escapa dos vexames públicos. Em novembro, durante sua festa de casamento com a elegante empresária do setor de moda Juliana Awada, o prefeito subiu no palco do salão de festas e – vestido com a capa de Freddie Mercury – fez um cover do defunto líder do Queen (Macri, fanático declarado do Queen celebrou vários highlights de sua vida – entre as quais vitórias eleitorais – pulando e cantando como Mercury).
No entanto, a imitação do autor de hits como “We are the champions” foi interrompida inesperadamente quando – com o suor – o bigode postiço que ostentava para emular o defunto cantor deslizou sobre seu lábio superior e rapidamente foi parar em sua garganta interrompendo sua interpretação de “Love of my life”.
Macri quase morreu ao engolir e engasgar com o bigode postiço, tornando-se o primeiro político argentino a passar por uma situação de tal categoria.
Entre os convidados do casamento correu o irônico comentário: “foi o espírito de Freddie Mercury que fez isso, para que Maurício não cante mais!”.
À esquerda, Macri imita Freddie Mercury…enquanto que à direita um imitador imita Macri fazendo a imitação de Mercury. A cena transcorreu em 2009 em “Gran Cuñado”, uma paródia do programa “Gran Hermano” (Big Brother).
Macri (não no casamento, mas sim na festa de seus 50 anos) entoa um dos hits do líder do Queen. O vídeo, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Duhalde, Eduardo, e o Duhalde virtual do telão. Discurso do ex-presidente em dezembro, no dia do lançamento de sua pré-candidatura. O ex-presidente é grande amigo do ex-presidente Lula.
“Tachuela” (Tachinha) é o apelido que os amigos e parentes usam para chamá-lo por causa de sua baixa estatura e ampla cabeça. Mas fora desse círculo, a denominação mais freqüente e carregada de menos sutilezas é “El Cabezón” (O Cabeção), característica que é a delícia dos chargistas argentinos. A presidente Cristina Kirchner costuma chamá-lo de “El Padrino” (O Padrinho), em alusão ao filme “The Godfather” (no Brasil, traduzido como ‘O poderoso chefão’) por suas suposta conexões com máfias. O alvo destas ironias é Eduardo Duhalde, caudilho peronista que foi prefeito de Lomas de Zamora, vice-presidente, governador da província de Buenos Aires, presidente provisório, padrinho político de Néstor Kirchner e posteriormente inimigo de seu ex-delfim e sua esposa e sucessora, a presidente Cristina.
Sua vida política – toda realizada dentro do partido Justicialista (Peronista) – começou como vereador em sua cidade natal, Lomas de Zamora. Em 1983 tornou-se prefeito desta cidade, uma das maiores da Grande Buenos Aires. Em 1988, o exótico governador da província de La Rioja, Carlos Menem, almejava a presidência do país, mas para isso precisava de um homem forte na Grande Buenos Aires que fosse seu vice. O homem escolhido foi Duhalde, e juntos, chegaram ao poder em 1989.
GOVERNADOR - Duhalde ocupou a vice-presidência até 1991, quando deu outro grande passo, o de tornar-se governador da província de Buenos Aires. Controlar essa província implica em influir intensamente nos destinos da Argentina, já que ali habita um terço da população do país. A província de Buenos Aires produz 36% do PIB argentino e conta com quase 40% do eleitorado nacional.
Entre 1994 e 1996 surgiram denúncias sobre supostas conexões de Duhalde com redes mafiosas. O assunto foi o centro de um livro, “El Otro” (O Outro), que foi best-seller no ano que foi lançado, 1996. O autor, Hernán López Echagüe, foi categórico sobre “El Cabezón”: “ele é uma má pessoa”.
Na ocasião Duhalde foi entrevistado sobre as denúncias no programa de auditório da apresentadora Susana Giménez. Sua resposta foi chorar ao vivo para milhões de telespectadores.
CANDIDATO PRESIDENCIAL – O surgimento das denúncias não reduziu em Duhalde a comichão de aspirar à presidência do país que quase todos os governadores bonaerenses sentem. Com esta comichão, em 1994 Duhalde preparava-se para ser candidato a presidente nas eleições de 1995.
No entanto, em 1994, Menem conseguiu a modificação da Constituição Nacional, o que permitiu sua reeleição. “El Turco”, como é chamado Menem, tentou acalmar a irritação de Duhalde, afirmando em 1999, “desta vez, sim”, o apoiaria para ocupar a Casa Rosada.
Mas no início de 1999, Menem começou a mobilizar-se para alterar a Constituição mais uma vez, com a intenção de ser reeleito pela segunda vez, esquecendo das promessas a Duhalde. Menem não conseguiu modificar a Carta Magna, mas sua aliança estratégica com seu antigo vice estava liquidada. Duhalde começou sua campanha eleitoral, sem apoio de Menem, que o sabotou constantemente.
Sua relação com “El Turco” sempre foi uma relação de amor e ódio. Segundo disse ao Estado biógrafa não-autorizada de Menem, Olga Wornat, Duhalde admirava Menem e se sentia inferior a ele.
“Gostaria de ser assim, como ele, extrovertido. Eu sou assim, sem carisma”, confessou na época Duhalde a Wornat.
Sem apoio do próprio chefe do peronismo na época, “El Cabezón” perdeu para Fernando De la Rúa. A derrota foi a pior infligida em uma eleição presidencial ao peronismo em toda sua História. Assessorado por uma enorme equipe comandada pelo marqueteiro brasileiro Duda Mendonça, Duhalde somente obteve 38% dos votos, enquanto que De la Rúa o esmagou com 48%. “Sabia que perderia desde o momento em que comecei a campanha”, disse Duhalde dias depois.
APOSENTADORIA - Alvo da chacota descarada de Menem, e arrasado pela derrota, Duhalde declarou na época: “voltarei à docência e reabrirei o escritório de advocacia”. No peronismo, ninguém aceita perdedores, e tudo indicava que Duhalde descansaria da vida política em sua chácara, onde teria vida de aposentado. Na época, o think tank Oscar Raúl Cardoso disse ao Estado: “duvido que ele se resignará a ficar em sua chácara”.
No ano seguinte Duhalde somente aparecia para realizar declarações ácidas sobre sua classe: “nós, políticos, somos todos uma m…”. Simultaneamente, nunca deixou de lado a vendetta pessoal com Menem, e comemorou a prisão de “El Turco” em junho de 2001, por suspeitas de ter chefiado uma organização mafiosa que teria realizado o contrabando de armas para o Equador e a Croácia entre 1991 e 1995. Duhalde destituiu Menem do comando do peronismo, e criou uma diretoria nova para o partido.
Depois disto, diante da decadência acelerada do governo De la Rúa, Duhalde entusiasmou-se, e candidatou-se ao senado. Em outubro de 2001, obteve uma vitória esmagadora sobre a União Cívica Radical (UCR), e elegeu-se senador.
Seu caminho ao “sillón de Rivadavia”, como é conhecida a cadeira presidencial, que havia sido longo e cheio de obstáculos, encurtou-se rapidamente.
Dois meses depois, quando o país estava mergulhado na maior crise financeira e social de sua História, foi chamado pelo Parlamento para transformar-se em presidente provisório.
PRESIDENTE, EMBORA PROVISÓRIO - Duhalde pilotou a Argentina no turbulento ano e meio que se seguiu, quando, após o “corralito” do governo do ex-presidente Fernando De la Rúa o país estava mergulhado no caos social (com 57% da população abaixo da linha da pobreza e 25% de desemprego). Analistas indicam que Duhalde foi um “bom piloto” na tempestade, e que outro presidente – com menos jogo de cintura – poderia ter colocado à pique o navio da Argentina, que já estava assaz inundado.
Originalmente, o plano da classe política na época era que Duhalde deveria concluir o mandato inacabado de De la Rúa. Mas, em meados de 2002, um protesto de piqueteiros na ponte Avellaneda – e o assassinato de dois militantes de esquerda, Maximiliano Kosteki e Darío Santillán, por parte da Polícia Federal – causou uma grave crise política e levou Duhalde a antecipar o fim de seu mandato em sete meses.
Desta forma, começou a procurar um sucessor presidencial. Tentou com o governador de Córdoba, José Manuel de la Sota, que não decolava nas pesquisas. Tentou com o governador de Santa Fe, Carlos Reutemann, que desistiu semanas depois de ser apresentado como candidato. Na procura desesperada, optou pelo desconhecido governador de Santa Cruz, Néstor Kirchner.
Em 2003 Duhalde colocou toda a máquina do Estado a favor de Kirchner para derrotar o rival Menem nas urnas. Duhalde, que havia iniciado uma sólida amizade com o presidente Lula, pediu a este que recebesse Kirchner em Brasília. No meio da campanha, para fortalecer o candidato do amigo, o presidente brasileiro (que possui boa imagem na Argentina) recebeu “El Pingüino” no Planalto.
Em maio daquele ano Kirchner tomou posse. Mas o novo presidente rapidamente se desfez de seu padrinho político. Nos primeiros dois anos, Kirchner atarefou-se em reduzir o poder de Duhalde, especialmente em Buenos Aires, cooptando seus antigos aliados.
Duhalde passa a Kirchner o bastão presidencial em 2003. Na época a classe política acreditava que Kirchner seria um “títere” de Duhalde. As coisas não foram tal como pareciam.
ENCURRALADO - Em 2005, a esposa de Duhalde, Hilda ‘Chiche’ de Duhalde, foi derrotada por Cristina Kirchner na disputa pelas vagas ao Senado. Duhalde, na época, era o presidente da Comissão de Representantes Permanentes do Mercosul, cargo onde cultivou uma relação de amizade com o então presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. Tudo indicava que o poder de Duhalde – encurralado por Kirchner – estava finalmente arrasado e que não tinha outra alternativa a não ser a de presidir o Mercosul, dar conferência e tomar conta dos netos.
“Ele está esperando dar o bote… ele não tem pressa. É um jogador de xadrez. Ele sabe esperar”. Essa foi a frase que disse ao Estado um colaborador de Duhalde em 2006 para indicar que o ex-presidente não estava “aposentado” e que pretendia recuperar seu poder.
O RETORNO - Em 2008, com a crise da presidente Cristina Kirchner com o setor agrícola, Duhalde percebeu que sua chance de retornar à arena política estava voltando. Em 2009 organizou as fileiras dissidentes do peronismo. Em meados desse ano um de seus aliados, o empresário Francisco De Narváez, derrotou o próprio Kirchner nas eleições parlamentares na província de Buenos Aires.
Em dezembro de 2010 Duhalde anunciou sua pré-candidatura à presidência da República pelo peronismo dissidente. O modelo de país a copiar, segundo disse, “é o Brasil de Lula”. No mesmo mês uma série de protestos sociais abalaram o cenário político argentino. A presidente Cristina afirmou que “El Padrino” estava por trás dos incidentes. Duhalde, calejado, respondeu: “o atual governo me culpa de todos seus problemas”.
Os analistas indicam que Duhalde dificilmente poderia vencer uma eleição presidencial. Eles ressaltam que boa parte da população considera que ele foi o presidente adequado para o período da tempestade econômica de 2001-2002. Mas, apesar desse reconhecimento, não votariam nele para presidente em circunstâncias econômicas normais.
BRASIL – Em declarações ao jornal portenho “Perfil”, há poucas semanas, Duhalde elogiou o Brasil e criticou seus próprios compatriotas: “o Brasil possui uma visão estratégica. Há anos que estou dizendo ‘olhemos o Brasil’, desde antes que Lula chegasse ao poder. Vamos copiá-los. Eles não são ‘pelotudos’ (sinônimo de ‘boludo’, equivalente a “imbecil”)…Nós sim somos ‘pelotudos’ ”.
Duhalde está tentando convencer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a viajar para o balneário argentino de Mar del Plata em meados de janeiro para prestigiar o lançamento de seu livro “De Thomas Moore à fome zero”, sobre políticas públicas. O livro de Duhalde conta com um prólogo de Lula.
MAIÔ FLORIDO - Descendente de bascos franceses, Duhalde nasceu em 1941 na cidade de Lomas de Zamora, na Grande Buenos Aires. Sua mãe, uma simpatizante da UCR, nunca votou nos peronistas.
De família modesta, na juventude trabalhava como salva-vidas em um clube para poder pagar seus estudos. Na piscina, conheceu a miúda e pertinaz Hilde “Chiche” Duhalde, sua futura esposa. O encontro foi peculiar. Ostentando um maiô florido, para atrair sua atenção, “Chiche” fingiu que se afogava. Ela nega essa versão, mas Duhalde a confirma com um sorriso matreiro.
Homem caseiro, torcedor do pouco expressivo “Banfield”, Duhalde e Chiche conseguiram formar a imagem de uma católica família pacata de cinco filhos. No entanto, a imagem bucólica do casal Duhalde foi perturbada com freqüência por denúncias de corrupção e de tráfico de drogas em seu entourage.
Além disso, sobraram críticas para Chiche, que durante o governo de seu marido na província de Buenos Aires, criou uma imensa estrutura de assistencialismo social, que controlava com mão de ferro.
Emulando Evita Perón, Chiche controlou durante quase uma década verbas anuais de US$ 250 milhões e uma rede de 25 mil colaboradoras, as “manzaneras”, que distribuíam comida nas áreas mais pobres da Grande Buenos Aires.
Na década seguinte o governo Kirchner – por intermédio da irmã de Néstor Kirchner, a ministra Alicia Kirchner – montaria outra estrutura assistencialista com os mesmos objetivos políticos nessa conturbada área do país.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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“Suicídio” vem do latim ‘suicidium’, que vem da expressão ‘sui caedere’, isto é, matar a si próprio. Os gregos a chamavam de ‘autólise’, que vem de αὐτο (auto) e λύσις (pronúncia: “lúsis”, que significa ’destruição’). O quadro é “Le suicidé” (O suicida), pintado entre 1877 e 1881 por Édouard Manet (1832-1883). Nada a ver com o assunto, mas Manet passou pelo Brasil em 1849 quando estava no navio-escola “le Havre et Guadeloupe”. Os especialistas afirmam que um certo touch ‘exótico’ em algumas de suas pinturas viria desse período breve nas costas brasileiras.
Hoje continuamos com a série “semana funérea” (iniciada semana passada com o dia de finados) com um suicídio, o mais famoso das últimas décadas na Argentina. Trata-se da misteriosa morte (?) do poderoso empresário Alfredo Yabrán em 1998. Diversas pesquisas feitas ao longo dos últimos doze anos indicam que os argentinos acham que o astuto Yabrán simulou seu suicídio e que vive bem à beça por aí, fora do país.
Próximas postagens: Defuntos & nomes de ruas, a necromania argentina e “El Descamisado” (o anabolizado funéreo monumento).
“Não atirem, o patrãozinho se matou!”. Como epitáfio, estas palavras parecem pouco eloquentes para o suicídio de um suposto mafioso como o poderoso empresário argentino Alfredo Yabrán. Mas na urgência de pensar em pronunciar outras, o caseiro da fazenda do empresário assim explicava aos policiais que realizavam um batida na sede da ‘Estancia San Ignacio’ que seu patrão já havia suicidado-se e que não era necessário entrar atirando no quarto fechado à chave onde se escondia o empresário. A morte ocorreu no dia 20 de maio de 1998 às 13 :30, nessa fazenda a dez quilômetros de Concepción de Uruguai, na província de Entre Ríos.
FUGA - O empresário, amigo do então presidente Carlos Menem, era procurado pela Justiça desde a semana anterior, quando a ex-policial Silvia Belawsky confessou à Justiça que seu marido, o ex-policial e guarda-costas de Yabrán, Gustavo Prellezo, havia assassinado o fotógrafo José Luis Cabezas por ordem do empresário.
Cabezas, fotógrafo que havia sido o autor das primeiras fotos públicas do até então low profile Yabrán, foi assassinado em janeiro de 1997 em misteriosas e cruéis circunstâncias: com dois tiros na nuca, e queimado dentro de seu carro.
Poucos dias antes, Yabrán havia dito que fazer uma foto sua era como “dar um tiro em minha na cabeça”.
O empresário tornou-se o principal suspeito do crime, tese reforçada pelo fato de que guarda-costas seus haviam organizado o assassinato. A partir daí, Yabrán – que até a época havia conseguido manter sua imagem incógnita – começou a ser seguido pela mídia.
Ao sair de uma visita à Casa Rosada – o palácio presidencial – quando já não conseguia passar desapercebido, foi atacado pelos pedestres, que apedejaram seu carro.
A morte de Cabezas foi o motivo de centenas de manifestações contra o governo. O fotógrafo transformou-se no símbolo da luta contra a impunidade. Analistas afirmam que o escândalo provocado pelo assassinato de Cabezas foi uma das causas da derrota do governo Menem nas eleições parlamentares de outubro de 1997.
A notícia da morte de um dos empresários mais vinculados ao governo Menem foi um divisor de águas na política argentina. Com sua morte, a oposição, reunida na Aliança UCR-Frepaso, perdia o principal alvo das denúncias de corrupção envolvendo o entourage de Menem.
Alfredo Yabrán caminha com sua esposa em 1997 em uma praia da província de Buenos Aires. Esta é a foto – realizada pelo fotógrafo José Luis Cabezas – que tornou conhecida a imagem do misterioso Yabrán para os argentinos. Muitos argentinos consideram que não houve suicídio e que Yabrán continua fazendo suas caminhas em praias de remotos países.
CHEFE DAS MÁFIAS - “Chefe das máfias no país”, para o ex-ministro da Economia, Domingo Cavallo. “O único que coloca medo no presidente Carlos Menem”, segundo a ex-primeira-dama Zulema Yoma. “Narcotraficante”, segundo suspeitas de deputados da oposição nos anos 90. “Assassino do jornalista fotográfico José Luis Cabezas”, para a maioria da população argentina. Esta é a descrição do empresário Alfredo Naguib Yabrán, que deixava a vida para entrar na História argentina como o vilão da década.
Filho de imigrantes sírios, Yabrán nasceu na cidadezinha de Larroque na província de Entre Ríos, onde trabalhou como sorveteiro. Adolescente, partiu à Buenos Aires, onde começou trabalhando como motorista de uma transportadora de valores, para depois, durante a Ditadura Militar, e com a ajuda dela, transformar-se em dono de um vasto império empresarial, que controlava a impressão das carteiras de identidade, confecção de passaportes, empresas de segurança privada, táxis aéreos, armazéns de alfândegas e transporte de valores. Em quase todas as empresas Yabrán havia empregado ex-repressores da Ditadura.
Yabrán era íntimo do círculo dos principais assessores do presidente Carlos Menem. O empresário, nas poucas declarações à imprensa, definia a palavra “Poder” como “sinônimo de impunidade”.
A fama de Yabrán cresceu quando tornou-se o principal suspeito de ser o mandante do assassinato do jornalista fotográfico José Luis Cabezas, que havia feito as primeiras fotos publicadas de Yabrán. A morte de Cabezas, em janeiro de 1997 indignou o país. Ao longo de um ano e meio milhares de passeatas em todo o país pediram o castigo de seus assassinos.
MORTE - Quinze minutos depois de divulgada a notícia da morte, Martín Fabre, chefe da assessoria de imprensa da província de Entre Ríos, anunciava de forma prematura e categórica que havia sido um “suicídio”.
O jornalista especializado em temas policiais, Enrique Sdrech, afirmou que era estranho que o corpo, encontrado boca abaixo no chão, pudesse ser considerado o de um suicida: “ele estava trancado no quarto. Como poderiam saber se estava sozinho?”.
Às 16:00, um helicóptero transportou o corpo do empresário ao hospital Urquiza, o mais próximo para sua autópsia, e identificação oficial.
Mas as dúvidas sobre o estilo do falecimento de Yabrán pouco importaram nesse mesmo dia à tarde na capital argentina. Buenos Aires ouriçou-se com a notícia, que ao redor das 16:00 já era o tema de taxistas, donas de casa e todos aqueles que estivessem ouvindo detalhes da inesperada morte, responsável pela interrupção de todos os programas da TV. Os seis canais de notícias 24 horas deram cobertura ininterrupta sobre a morte do empresário.
Alfredo Yabrán controlava correios, impressão de passaportes e dos RGs, além de transporte de valores. E tinha excelentes relações com o governo do então presidente Menem, que havia repassado a Yabrán os contratos de impressão de documentos de identidade. O próprio empresário disse - antes de sua ‘saída do cenário’ – que “poder é igual à impunidade”.
O DEDÃO DO PÉ E O TÊNIS – Nas horas seguintes à notícia sobre o suicídio de Yabrán começam a crescer as suspeitas sobre as estranhas circunstâncias da morte do empresário.
Segundo as versões oficiais do governo da província de Entre Ríos, Yabrán teria se suicidado com uma espingarda High Standard, calibre 16, de cano superposto. O empresário teria se suicidado com um tiro na boca, que poderia ter desfigurado seu rosto, além de destruir sua arcada dentária, elemento básico para sua identificação.
O jornalista Enrique Sdrech, o principal jornalista da área policial na época, sustentou que existiam circunstâncias estranhas nessa morte.
Sdrech ressaltava que as afirmações da polícia indicavam que Yabrán morreu com um par de tênis nos pés, fato que teria complicado gatilhar o tiro da espingarda: “nestes casos, o suicida está descalço e aperta o gatilho com o dedão do pé, pois essa é a única forma de disparar uma espingarda na boca… o braço de uma pessoa não tem o comprimento suficiente para disparar o gatilho nessa posição. Precisa fazê-lo com o pé”.
Sdrech disse que a existência do tênis é tão estranha “como o caso do suicida que dá um tiro do lado direito da cabeça e depois descobre-se que o cara era canhoto…”.
Antonio Llorente, jornalista que investigou a morte de Cabezas, e autor do livro “O Caso Cabezas”, indicou na época que tinha suspeitas das circunstâncias da morte de Yabrán: “ninguém havia falado em identificação do corpo, mas logo em seguida já estavam afirmando que era suicídio”.
Na mesma época, Norma Morandini, uma das mais respeitadas comentaristas políticas (atualmente senadora), concordava. E perguntava: “como um homem tão esperto como Yabrán vai se esconder em sua própria fazenda?”.
Uma das versões que foram divulgadas desde o anúncio do suicídio é a de que Yabrán teria dado um tiro trancado dentro de um quarto da sede de sua fazenda.
Outra versão é a de que para suicidar-se teria utilizado a espingarda na frente do delegado que comandava a batida, fato que teria provocado o desfiguramento de seu rosto, tornando-o – aparentemente – inindentificável.
Segundo Lllorente, “metade do sul da província de Entre Ríos era constituída por fazendas de Yabrán. Além disso, o grupo Exxel havia pago US$ 600 milhões por diversas empresas de Yabrán. Não era exatamente um homem desesperado, por pior que fosse sua situação jurídica”.
Mas, se não era Yabrán quem estava deitado com o crânio esfacelado na fazenda em Entre Ríos? Coincidentemente, na mesma época os moradores da área notaram a ausência de um mendigo – famoso por ser parecido com Yabrán – que nunca mais apareceu.
Dias antes do anúncio da morte de Yabrán, quando o empresário havia fugido, o Departamento de Imigrações da Argentina não sabia o que dizer sobre seu paradeiro.
Durante uma série de entrevistas para canais de TV e estações de rádio entre as 7:10 e as 7:53 da manhã, o diretor de imigrações, Hugo Franco, deu quatro respostas diferentes à pergunta “Yabrán saiu da Argentina?”.
Primeiro disse: “não acho que saiu”.
Minutos depois, em nova entrevista, afirmou: “não teria saído”.
Mais tarde, indicou: “não consta para mim que tenha saído”.
E finalmente disse: “não tenho informação”.
Na época surgiram rumores de que o empresário teria fugido para a Síria, onde o governo Menem possuía excelentes contatos. Além disso, a Síria era o país de seus avôs e – coincidentemente – dos pais do presidente Carlos Menem.
Ambas famílias procedem da mesma região, as vizinhanças da cidade de Yabrud.
Na época pedi o número da prefeitura de Yabrud ao serviço de informação internacional da Telefónica Argentina. Mas, segundo a telefonista, “não está permitido a divulgação de números dessa cidade”.
Em outra tentativa, horas depois, eu ouvi a evasiva resposta: “as telefonistas na Síria devem ter saído por alguns instantes”.
A retirada de Yabrán do cenário parecia minuciosamente preparada: no auge de sua carreira, poucos meses antes de seu suicídio, vendeu grande parte de seu império, o que lhe possibilitou deixar US$ 1 bilhão a seus filhos e viúva.
Como elemento novelesco, poucos dias antes de seu suicídio (ou “suposto suicídio” para boa parte da opinião pública argentina, que considera que o empresário está vivo em algum lugar, vivendo com outra identidade), Yabrán deu de presente a seu amigo Carlos Galaor Mouriño o livro “O Sócio”, do escritor de best-sellers policiais John Grisham, no qual um poderoso homem se faz de morto para fugir da Justiça. As semelhança entre o mafioso da obra, Patrick Lannigan, e Yabrán são impressionantes.
DESCONFIANÇAS – As autoridades sustentaram que o exame oficial de ADN indicava que o corpo encontrado era o de Yabrán, bem como as impressões digitais. No entanto, os argentinos mais desconfiados sustentam que Yabrán tinha suficiente influência na Polícia para trocar as provas. De quebra, o exame de ADN foi feito por um primo do ministro do Interior, possível interessado em que o caso Yabrán concluísse o mais rápido possível.
Segundo sociólogos, a desconfiança argentina tem motivos de sobra, já que desde o início da década de 90 ocorreu uma longa seqüência de fatos nebulosos envolvendo a credibilidade da Justiça.
Um dos casos que geraram desconfianças foi a investigação sobre o atentado à Embaixada de Israel, ocorrido em 1992. A Corte Suprema sustentou durante anos que a explosão havia ocorrido dentro do edifício (dando a entender que havia explodido um arsenal interno) e que não havia sido realizada por um carro bomba, apesar da cratera que havia na rua Arroyo, na frente da Embaixada.
Além disso, ainda é nebulosa a morte de Carlos Menem Jr., o filho do presidente, morto em um acidente de helicóptero em 1995. As únicas seis testemunhas do acidente e dos momentos imediatamente posteriores morreram em peculiares circunstâncias nos meses seguintes à morte de Menem Jr. De quebra, tal como em um filme de suspense, as provas também desapareceram: somente resta 15% da fuselagem do helicóptero. O resto do material – que poderia comprovar se sua morte foi ou não um atentado – desapareceu misteriosamente.
Depois da morte de Cabezas e antes de seu suposto suicídio, Yabrán que quie deixar seu low profile e foi a um punhado de programas de TV para afirmar que não tinha nada a ver com o crime e alegar que era um mero empresário do setor de correios. “Sou um simples carteiro”, disse o milonário sorrindo.
OUTROS SUICÍDIOS PECULIARES NA ARGENTINA
O suicídio de Horacio Estrada, o capitão com um touch contorcionista, aqui.
O suicídio de Marcelo Cattaneo: o enforcado de óculos escuros, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Néstor Kirchner e Cristina Kirchner. A foto, da presidência da República, mostra o casal na posse presidencial de Cristina, em dezembro de 2007. A foto, segundo analistas, ilustra bem a presença de Kirchner no governo de Cristina. No início do governo de Cristina tudo indicava que seria uma presidência bicéfala. Mas, rapidamente a população percebeu que ele era o verdadeiro poder no governo da esposa.
Desde as 9:15 horas da manhã desta quarta-feira a política argentina vive um cenário de total incerteza. Nesse instante faleceu o ex-presidente Néstor Kirchner, considerado o verdadeiro poder no governo de sua esposa, a presidente Cristina Kirchner. O ex-presidente estava em El Calafate, no extremo sul da Argentina, passando o feriado nacional com sua esposa quando passou mal de madrugada, enquanto estava no meio de uma reunião em sua casa. Às 7:00 horas – em uma maca, acompanhado pela presidente Cristina – entrou no hospital José Formenti. Pouco mais de duas horas depois, apesar das tentativas dos médicos em reanimá-lo, o homem mais poderoso da Argentina deixou de existir. Oficialmente, segundo seu médico, Luis Bonuomo, Kirchner teve uma “parada cardíaca com morte súbita”. Sua viúva, a presidente Cristina, terá pela frente a dura tarefa de ocupar o vácuo político que seu falecido marido deixa. Kirchner centralizava as decisões do governo, reunia-se com os ministros da própria esposa, empresários e sindicalistas.
Esse intenso protagonismo havia gerado diversos curto-circuitos entre os cônjuges. Nos últimos dois meses houve uma troca de farpas em público sobre quem seria o candidato presidencial do governo nas eleições do ano que vem. Aliados de Kirchner que eram ministros de sua esposa indicaram que o candidato seria o “Pinguim” (apelido do ex-presidente). Cristina, visivelmente irritada com seus próprios ministros, respondeu durante um comício: “e porque não pode ser a pinguim-fêmea?”. Segundo o analista político Rosendo Fraga “sem Kirchner, Cristina poderá assumir o poder”.
O país, que estava paralisado pelo feriado para a realização do censo nacional, estava surpreso ontem pela notícia da morte de Kirchner. O clima em Buenos Aires era o de morte de um presidente e não de um ex-presidente. Segundo fontes, o clima no âmbito do governo era de “total devastação e estupefação”.
“É um país que parece condenado a viver entre a tragédia e o drama”, afirmou Eduardo van der Kooy, colunista político do jornal “Clarín”.
Os analistas destacaram ontem que a morte de Kirchner abre para a presidente Cristina a possibilidade de reduzir os decibéis dos conflitos desatados por seu marido e tentar aplicar políticas menos radicalizadas. A alta dos bônus da dívida pública argentina indicavam ontem à tarde que o falecimento do confrontativo Kirchner era encarado pelos mercados como uma notícia positiva para a economia da Argentina.
Humoristas ironizaram durante estes anos a forma de governar do casal Kirchner. Montagem fotográfica mostra Néstor como Cristina e vice-versa.
GOVERNABILIDADE – Para evitar rumores sobre problemas de governabilidade o secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), Hugo Moyano, convocou uma reunião de emergência da principal central sindical do país (que é a maior base de apoio social do governo) e declarou “apoio para que o modelo econômico continue”.
Nos organismos de defesa dos direitos humanos o clima era de tristeza. “Morreu um irmão”, disse a presidente das Avós da Praça de Mayo, Estela de Carloto, cuja organização foi beneficiada com o respaldo de Kirchner na investigação dos crimes da ditadura militar (1976-83).
“Cristina, você não está sozinha” era um dos vários cartazes colocados por jovens simpatizantes do governo Kirchner nas grades de proteção da Casa Rosada instaladas na Praça de Mayo, no centro portenho.
Líderes da oposição e empresários, que haviam mantido duros confrontos com Kirchner nos últimos anos ontem deixaram de lado as divergências e ressaltaram seu “pesar” pelo falecimento do ex-presidente. O ex-presidente Carlos Menem (1989-99), que disputou contra Kirchner as eleições presidenciais de 2003, destacou que Kirchner era uma pessoa “trabalhadora”. No ano passado Menem chamou Kirchner de “anti-Cristo da economia argentina”. Mas, desde o início deste ano Menem favoreceu os Kirchners com suas abstenções ou ausências no Senado em votações cruciais para a oposição (setor que Menem formalmente integrava).
VELÓRIO E FUNERAL – O ministro do Trabalho, Carlos Tomada, anunciou ontem que o velório de Kirchner será realizado nesta quinta-feira a partir do meio-dia na Casa Rosada, o palácio presidencial. Segundo Tomada, que foi ministro no governo do ex-presidente (e foi herdado por sua esposa), o velório durará 48 horas e contará com a presença de diversos chefes de Estado da região.
O corpo de Kirchner ficará no salão recentemente batizado de “Salão dos Patriotas latino-americanos”, onde estão pendurados quadros dos presidentes Juan Domingo Perón e Getúlio Vargas, de Tiradentes, do líder guerrilheiro Ernesto Che Guevara e do libertador venezuelano Simón Bolívar.
O enterro de Kirchner seria em Río Gallegos, capital da província de Santa Cruz e cidade natal do ex-presidente. Informações extraoficiais indicavam ontem que o enterro seria no sábado.
Seu filho Máximo, que estava na capital da província, Río Gallegos, após saber da internação de seu pai partiu imediatamente para El Calafate. Sua filha Florencia, que estuda cinema em Nova York, preparava-se para partir rumo à Buenos Aires.
O presidente do Uruguai, José ‘Pepe’ Mujica, expressou ontem em Montevidéu estupefação pela morte de Kirchner: “é incrível como a vida vai embora, não é? A vida vai em um segundo…”.
Cartaz ao estilo de Andy Warhol convocava juventude para comício de Kirchner no dia 14 de setembro. Dois dias antes, no domingo 12, foi inesperadamente submetido a uma angioplastia. Mas, Kirchner não cancelou o comício. Acompanhado de Cristina KLirchner, foi ao Luna Park. Os médicos e os jornais indicaram que era uma “loucura” para sua saúde. Os Kirchners responderam: “é um exagero, está tudo ótimo!” Um mês e meio depois Kirchner morria.
HIPERATIVIDADE E SAÚDE - Analistas e políticos recordaram ontem os diversos alertas que a saúde de Kirchner havia dado nos últimos anos. Em 2004 ele foi internado às pressas por uma grave hemorragia gastrointestinal que o colocou à beira da morte. O então presidente ficou em repouso somente duas semanas e voltou à frenética atividade política. Nos anos seguintes Kirchner teve que manter uma rigorosa dieta de arroz, verduras e frango que começou a deixar de lado no ano passado no meio das tensões políticas.
No início deste ano, em fevereiro, Kirchner foi internado para uma cirurgia de obstrução da carótida. Apenas três dias depois Kirchner – ignorando recomendações médicas – mantinha reuniões em seu quarto de hospital com os ministros de sua esposa, dando ordens sobre como governar.
Os médicos pediram a Kirchner que suavizasse seu ritmo de trabalho. Kirchner respondeu os pedidos com piadas. “Não posso fazer nada. Ele é o presidente”, costumava lamentar seu médico pessoal, Luis Bonuomo.
Em setembro passado Kirchner foi novamente internado, desta vez para uma angioplastia. Kirchner entrou na sala de operações de madrugada e no mesmo dia, à noite, recebeu a alta. Trinta e sete horas depois participava de um comício ao lado de sua esposa Cristina no Luna Park, em pleno centro portenho. Na ocasião, o jornalista, médico e escritor Nelson Castro, alertou: “a fome de poder de Kirchner o leva a ignorar o estado de sua saúde”.
Nos últimos dias Kirchner manteve a costumeira tensão política em níveis elevados. Ele havia protagonizado uma saraivada de acusações contra a mídia crítica do governo de sua esposa, principalmente o jornal “Clarín”, além de desferir acusações de “desestabilização” contra os líderes da oposição. Também retrucou críticas de organismos internacionais sobre a economia argentina, além de lidar com a crise política gerada pelo assassinato de um militante da esquerda, Mariano Ferreyra, na semana passada, por parte de sindicalistas vinculados ao governo. Na terça-feira, sem pausas, Kirchner participou de um comício na cidade de General Lamadrid. Ontem o ex-presidente não contava com agenda definida de trabalho, já que o país estava paralisado para o censo nacional. Esse seria seu dia de descanso.
No círculo íntimo do poder, Cristina Kirchner fica sozinha. Ela perdeu seu principal fator de poder, o marido e antecessor, Néstor Kirchner.
FUNERAL DE KIRCHNER IMPLICARÁ EM ‘TRÉGUA POLÍTICA’
A morte do ex-presidente Néstor Kirchner implicaria em um período de “trégua política” entre o governo da presidente Cristina Kirchner e a oposição. Segundo o analista político Carlos Fara, a expectativa é que a morte de Kirchner ocupe a agenda até o final deste ano. Em entrevista ao Estado ontem, o sociólogo, que também é analista de opinião pública, sustentou que a morte de Kirchner cria novas “equações do poder” no país.
Estado – O que implica a morte de Kirchner para o governo de sua esposa?
Fara – É um abalo. Mas, é uma situação muito menos complicada de lidar do que teria sido em um cenário como o de meados do ano passado, quando os Kirchners haviam sofrido uma pesada derrota parlamentar. A presidente Cristina, nos últimos meses, conseguiu recuperar certa popularidade. Não existiam mais dúvidas sobre sua governabilidade, tal como havia ocorrido no ano passado. E além disso, haverá uma certa “trégua política” entre o governo e a oposição com a morte de Kirchner.
Estado – Acredita que Cristina Kirchner poderia ser a candidata presidencial em 2011?
Fara – Isso seria o mais natural. Mas também acho que a equação natural do ano que vem contemplava que havia duas figuras muito fortes. A ideia era que um Kirchner disputaria a presidência, enquanto que outro Kirchner seria candidato ao governo da província de Buenos Aires (que possui 40% do eleitorado nacional e é responsável por um terço do PIB). Essa situação foi modificada com a morte de Néstor Kirchner. A equação de poder muda…
Estado – O peronismo costuma fazer intenso uso de seus mortos e dos funerais. Kirchner morto pode servir ao poder de sua viúva?
Fara – Temos que esperar para ver como será a utilização. Mesmo sem uso deliberado, a morte de Kirchner transforma-se em um fato político de grande peso. Na opinião pública, sem dúvida, transforma-se em um fato político importante. Nos próximos dias a imagem do falecido Kirchner e também da esposa tende a aumentar. Os Kirchners já estavam conseguido nos últimos meses uma certa recuperação da imagem, graça à reativação da economia.
Estado – Existem paralelos com a morte de Perón em 1974?
Fara – Não foi como Juan Domingo Perón, que morreu em 1974 idoso, com muitos problemas de saúde e de cama dias antes de sua morte. Kirchner estava em plena atividade política, com 60 anos. E, Cristina Kirchner não é como Isabelita Perón, viúva de Perón que assumiu o governo após sua morte por ser sua vice-presidente. Isabelita era fraca, coisa que Cristina não é. E a democracia naquela época estava mergulhado em uma série de problemas e não estava consolidada. Atualmente o cenário é diferente, pois a democracia é sólida e não existem militares que pretendam alterar a institucionalidade, tal como nos anos 70 quando morreu Perón. Levará um bom tempo para que a oposição e o governo “processem” a morte de Kirchner.
Estado – Como a oposição e a opinião pública lidará com este cenário?
Fara – A condescendência com o governo deve ser grande nos próximos meses. Até o final deste ano a agenda política estará embalada com a morte de Kirchner. Os casos de corrupção terão menos incidência na opinião pública. Esta entrará em um compasso de processar de forma diferente tudo o que ocorra daqui para a frente com a presidente, uma viúva. Passarão muitos meses até que a situação política possa voltar a algo que chamaríamos “normal”…
Argentinos diziam que a fórmula funcionava assim: Cristina no governo, Néstor Kirchner no poder.
HIPERATIVO E SEM PAPAS NA LÍNGUA
Deputado federal, secretário-geral da União das Nações Sul-americanas (Unsaul), presidente do Partido Justicialista (Peronista) e candidato virtual do governo da presidente Cristina Kirchner às eleições do ano que vem. Estes eram os cargos que o ex-presidente exercia e acumulava até ontem (quarta-feira) de manhã, quando faleceu em El Calafate, seu refúgio preferido para os feriados e fins de semana. Kirchner, famoso por ser centralizador e por sua hiper-atividade, também ocupava o posto daquilo que os líderes da oposição chamava de “primeiro-cavalheiro”, por ser o marido da presidente. No entanto, era apenas uma ironia para indicar que Kirchner, apesar do prefixo “ex” de seu título, era o verdadeiro poder no governo de sua esposa.
Ao longo dos últimos sete anos Kirchner marcou a política argentina com a modalidade de “bater e depois negociar”. Esta fórmula transformou-se na base de seu modus operandi. A intensa utilização deste axioma foi denominada “estilo K”. Famoso por suas maneiras sem papas na língua e a política do confronto permanente, Kirchner utilizou essa fórmula contra o Fundo Monetário Internacional (FMI), os credores privados, as empresas privatizadas de serviços públicos, militares, ruralistas, mídia, Igreja Católica, partidos da oposição, redes de supermercados, companhias de combustíveis, exportadores de carne bovina e a Fiesp, entre outros. A fórmula gerou um grande círculo de inimigos. Mas também permitiu-lhe acumular poder e popularidade nos setores da centro-esquerda.
A hegemonia kirchnerista foi acompanhada de uma miríade de escândalos de corrupção. Kirchner foi acusado de enriquecimento ilícito, de favorecer empresários amigos e de negócios obscuros com o governo do presidente Hugo Chávez. Facilmente irritável com os grupos não alinhados com seu governo, Kirchner aplicou fortes pressões contra a mídia que criticava sua gestão.
Menem e Kirchner nos anos 90. Na época, Kirchner era seu intenso aliado. No final da década estavam afastados. Em 2003 foram rivais nas urnas e disparavam pesadas críticas bilaterais. Em 2010 Menem foi elemento crucial para que os Kirchners conseguissem vencer ajustadas votações no Senado.
CARREIRA - Kirchner nasceu em Río Gallegos, capital da província de Santa Cruz, em 1950. Nos anos 70 estudou Direito em La Plata, província de Buenos Aires. Ali conheceu a estudante Cristina Fernández, que tornaria-se namorada e posterior esposa. Juntos militavam na Juventude Peronista, embora sem grande protagonismo. Mas, com o golpe de estado de 1976, o casal, já formado, preferiu deixar a militância de lado e mudou-se para Río Gallegos. Enquanto grande parte de seus colegas de militância partiam para o exílio – ou morriam nos cárceres da ditadura – os Kirchners prosperaram trabalhando como advogados especializados na execução de hipotecas.
Com a volta da democracia Kirchner foi eleito prefeito de Río Gallegos em 1987. Em 1991 foi eleito governador. Ao longo da maior parte dos anos 90 Kirchner respaldou ativamente as privatizações do governo do então presidente Carlos Menem. Mas, no final da década estava afastado de Menem e tentava criar um espaço político próprio dentro do peronismo, sem sucesso.
As ambições de Kirchner encontraram uma possibilidade de êxito em 2002 quando o então presidente provisório Eduardo Duhalde, desesperado para encontrar um candidato que pudesse enfrentar seu arqui-inimigo Carlos Menem nas urnas, optou pelo governador patagônio.
Desconhecido até o momento, Kirchner impressionou por sua forma desajeitada, mal-vestido, falta de carisma, além de ser o dono de uma protuberante nariz, estrábico e falar com a língua presa.
PRESIDÊNCIA – Em 2003 Kirchner foi às urnas no primeiro turno das eleições presidenciais e ficou em segundo lugar, com 22% dos votos. Seu rival Menem ficou em primeiro, com 24%. No entanto, nas semanas seguintes, durante a campanha para o segundo turno, as pesquisas indicavam que ao redor de 70% dos eleitores votariam em Kirchner como um voto anti-Menem. “El Turco”, como Menem era chamado popularmente, desistiu da segunda fase eleitoral. Desta forma, com menos de um quarto dos votos, Kirchner foi empossado presidente. Ele foi o presidente menos votado de toda a História argentina.
Tudo indicava que Kirchner seria um presidente fraco, sem poder próprio, que dependeria de seu padrinho Eduardo Duhalde. No entanto, no primeiro ano e meio de seu governo conseguiu desvencilhar-se da imagem de “marionete” ao criar uma esfera própria de poder.
Simultaneamente, conseguiu recuperar a economia argentina, que cresceu de forma exponencial, reduzindo a pobreza e o desemprego até 2007, quando a política econômica a curto prazo acabou trazendo à tona novamente os problemas sociais e a redução de investimentos.
Em 2007 “El Pingüino” estava no pináculo de seu poder. Ele tinha a obediência de 19 dos 23 governadores, controlava o Senado, a Câmara de Deputados, tinha influência na Corte Suprema de Justiça e contava com o respaldo da maior parte da mídia argentina.
Com o poder no apogeu, tomou a decisão inédita no mundo de colocar sua própria esposa como candidata à sucessão presidencial. Com seu respaldo e toda a máquina do governo, elegeu Cristina Kirchner.
Humoristas retratavam Kirchner como um ambicioso ‘Napoleão’. Ilustração do cartunista El Niño Rodríguez mostra um napoleônico Kirchner com pantufas. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/
DECLÍNIO - Mas, nos primeiros meses de 2008 diversos setores começaram a exibir resistência à política dos Kirchners. Primeiro foram os ruralistas, que deslancharam uma série de greves. Depois foi o próprio vice de Cristina, Julio Cobos, que rachou com o casal e transformou-se em presidenciável. Na sequência Kirchner intensificou seus ataques aos meios de comunicação e deflagrou uma guerra pessoal contra o Grupo Clarín, o maior holding multimídia da Argentina.
No ano passado Kirchner sofreu uma derrota histórica ao perder as eleições parlamentares na província de Buenos Aires para o empresário Francisco De Narváez, um novato na política.
Em fevereiro Kirchner foi internado por obstruções na carótida, fato que gerou especulações sobre sua permanência no poder. Em setembro passou por uma nova cirurgia. No entanto, menos de 48 horas após sua operação, participava de um comício e deixava claro que sua intenção era radicalizar o discurso político e disputar as eleições presidenciais do ano que vem.
No entanto, a queda de sua imagem e as fraturas crescentes nas fileiras kirchneristas indicavam que Kirchner teria graves problemas para conseguir a vitória nas urnas em 2011 e assim prolongar a permanência do casal no poder. Todas as especulações dos analistas políticos sobre as chances que o ex-presidente teria nas urnas foram arquivadas ontem com sua morte, ocorrida doze meses antes das eleições presidenciais.
Néstor Kirchner. embora não tivesse cargo oficial no governo da esposa, acompanhava sempre a presidente Cristina na Casa Rosada.
No dia 6 de maio de 2003 Kirchner já havia passado pelo primeiro turno das eleições presidenciais e faltavam poucas semanas para enfrentar Menem no segundo turno. Esse dia, uma terça-feira, fiquei fazendo plantão na porta do prédio onde os Kirchners moravam quando estavam em B.Aires, na esquina das ruas Uruguai e Juncal. Me acompanhava Carmen de Carlos, correspondente do ABC de Madri.
Depois de quatro horas de espera (bom…estava esperando dentro de um café que estava na esquina em diagonal) finalmente apareceu caminhando Néstor Kirchner, acompanhado de Cristina, o então assessor Alberto Fernández (que mais tarde seria seu braço-direito na área política) e um office boy.
Nos aproximamos rapidamente. Eles levaram um susto. Expliquei que era correspondente brasileiro. Minha amiga espanhola explicou que era jornalista de Madri, etc. “Olhe, não temos tempo…” começaram a dizer. “Mas o sr. vai ao Brasil reunir-se com o presidente Lula… precisa falar com a imprensa brasileira!”, disse eu. “E os investimentos espanhóis no país”, exclamou Carmen.
Kirchner e Fernández olharam-se. Nesse instante, Cristina interrompeu e disse: “ok, tudo bem. Podem subir. Mas só terão 15 minutos… o tempo para que eu me maquie e me arrume, pois temos que sair para um jantar”.
Subimos e sentamos com Kirchner na biblioteca do apartamento. Fernández olhava da porta. Cristina foi ao quarto arrumar-se. Tive sorte, pois em vez dos 15 minutos que ela indicou (sete minutos e meio para cada um de nós), demorou quase 40 minutos para a maquiagem e vestir-se. Assim, graças à vaidade da então senadora e futura sucessora presidencial, pudemos alongar nossas respectivas entrevistas.
Aqui estão os principais pontos de minha entrevista, publicada no dia seguinte.
Durante a campanha, consegui falar com Kirchner brevemente duas vezes mais.
No entanto, a partir do momento da posse – e pelo resto de sua presidência – Kirchner fechou-se e decidiu que evitaria entrevistas com a mídia brasileira e do resto do mundo.
KIRCHNER DIZ QUE LULA GEROU ESPERANÇAS DE MUDANÇAS NA ARGENTINA
Se as pesquisas de opinião pública não errarem, o homem que desembarcará hoje (quarta-feira) em Brasília, para reunir-se com o presidente Luis Inácio Lula da Silva, será em um futuro muito próximo o presidente dos argentinos. Por enquanto, ele é o candidato Néstor Kirchner, governador da província de Santa Cruz.
Para os inimigos, um “títere” do presidente Eduardo Duhalde. Para seus amigos, o “vento” de mudança que o país precisa, para “sepultar” o modelo econômico neo-liberal estabelecido pelo ex–presidente Carlos Menem.
É o próprio “El Turco” que Kirchner enfrentará no segundo turno das eleições, no dia 18 de maio. As pesquisas afirmam que Kirchner – até o ano passado um ignoto governador patagônico para a maioria da população – vencerá o segundo turno das eleições com 60% dos votos. O derrotado Menem não passaria de 26%.
Menem, de centro-direita, prega relações intensas com os EUA. Kirchner, de centro-esquerda defende uma aliança com o Brasil. Menem aprofundaria o modelo neo-liberal. Kirchner pretende um Estado mais presente.
Em seu apartamento no bairro de Recoleta, em uma sala cheia de livros com aparência de lidos, onde se destacavam uma longa estante com as obras completas do general Juan Domingo Perón (fundador de seu partido, o Justicialista, mais conhecido como “Peronista”) Kirchner conversou com o Estado sobre seus planos e a viagem ao Brasil, país sobre o qual comenta em voz baixa, quase com vergonha: “Nunca estive ali, sequer de férias. Esta será minha primeira vez”.
Estado: Analistas afirmavam no ano passado que a vitória de Lula no Brasil teria influências na Argentina. Considera que o governo Lula gerou esperanças neste país de que as mudanças eram possíveis e que isso influenciou seus eleitores?
Kirchner: Acredito que a vitória de Lula pode ter tido influência. Lula mostrou que é possível criar um modelo diferente, racional e responsável. Considero que junto com Lula e o presidente do Chile, Ricardo Lagos, podemos construir um espaço latino-americano. Desta forma, o mundo nos verá de forma diferente, e não mais como republiquetas. Se for eleito, quero trabalhar intensamente com Lula. A Argentina e o Brasil possuem grande responsabilidade histórica. Os que estiverem no comando dos dois países precisam estar à altura dos tempos e da História.
Estado: Seu rival, Menem, prega relações “carnais” com os EUA…
Kirchner: Quero ter uma relação séria e responsável com os EUA. Mas não tenho medo do governo americano. Nem me preocupa o que a embaixada americana pode pensar, como fizeram alguns presidentes no passado…
Estado: E as preocupações com a governabilidade? Dizem que o sr. é um “títere” do presidente Duhalde, e que sem ele, não estaria tão perto de vencer…
Kirchner: Bom, antes de tudo, é preciso ganhar as eleições. Sou um homem prudente e sério, e não me atrevo a afirmar que vou ganhar em um período que ainda é pré-eleitoral. Outra coisa: não sou candidato de Duhalde.
Estado: Mas o sr. diria que está no ponto onde está graças ao presidente? Analistas dizem que seu eventual governo poderia ser condicionado por Duhalde.
Kirchner: Duhalde apoiou muitos outros candidatos antes de mim, mas eles não conseguiam o respaldo da sociedade. Com Duhalde tínhamos pontos de convergência e de divergência. Mas estávamos de acordo que era fundamental criar uma alternativa contra tudo aquilo que o “menemismo” representava. Mas fui eu sozinho que comecei este espaço presidencial, tendo apenas 2% nas pesquisas. Aí, comecei a articular com Duhalde, mas também pessoas de outros partidos de centro-esquerda, setores independentes, sindicatos e associações de pequenos e médios empresários. Agradeço a Duhalde e todos esses setores pela confiança que possuem em mim. Mas quero deixar bem claro: uma coisa é estar agradecido e a outra é ter que “pagar a conta”. Sou um homem de profundas convicções e não estou disposto a renunciar a elas…
Estado: O sr. foi um constante anti-menemista ao longo da última década?
Kirchner: No começo, Menem foi um dos líderes que chegou com mais esperanças para os setores populares. Começou o governo até bem, fez coisas importantes como a estabilidade econômica. Mas depois teve uma grande mutação e fez este projeto de exclusão econômica, além de espalhar a corrupção.
Estado: Menem comportou-se com o país como um barão com seu feudo?
Kirchner: Eu não acho que quem torna-se presidente, vira dono da Argentina. Mas Menem, sim.
Estado: Menem denunciou fraude no primeiro turno das eleições. Isso é correto?
Kirchner: Acho que não ocorreu. Alguns políticos argentinos carecem de maturidade. São como crianças. Quando os resultados não são do jeito que alguém quer…esse alguém começa a espernear e gritar que houve fraude.
Estado: Há um ano estava na rabeira das pesquisas. Imaginou chegar até aqui?
Kirchner: Tempos atrás, minha ideia era me candidatar em 2007. Havia outros candidatos com mais chances. Não imaginava que seria candidato agora, em 2003.
Estado: O sr. era daquelas crianças que sonhavam ser presidente?
Kirchner: Quando era um menino queria ser só governador. Quando me tornei governador comecei a ver o que acontecia com a Argentina: as catástrofes causadas por Menem e o ex–presidente Fernando De la Rúa. Então, decidi que devia ser presidente. Com Duhalde, o país já começou a se reativar. Daqui a pouco tempo, a Argentina vai recuperar as esperanças perdidas.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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