O diretor de cinema e deputado federal Fernando “Pino” Solanas apresentou em dezembro sua candidatura presidencial para as eleições de outubro de 2011. O lançamento foi realizado no estádio de Ferrocarril Oeste, palco tradicional para lançamentos políticos de todo o leque partidário. Solanas, que define-se como o “real” representante da esquerda argentina, acusa a presidente Cristina Kirchner de ser uma “falsa” esquerdista e de ser aliada dos capitais estrangeiros, entre os quais companhias telefônicas e de minérios.
Aos 75 anos (que completará no dia 16 de fevereiro) o parlamentar e diretor de filmes cult como “Tangos, o exílio de Gardel” é o líder do Projeto Sul, partido que reúne representantes da esquerda, de setores do sindicalismo e de organizações de defesa dos Direitos Humanos.
Solanas, casado com a atriz brasileira Ângela Correa, conseguiu 25% dos votos na cidade de Buenos Aires nas eleições parlamentares do ano passado.
O líder do Projeto Sul propôs “desterrar a pobreza” e “instalar a ética pública no Estado argentino”.
O candidato da esquerda pretende ser uma das alternativas da oposição argentina contra o governo da presidente Cristina.
Esta é a terceira vez que Solanas apresenta-se candidato à presidência da Argentina (as anteriores foram em 1995 e 2007). Mas, a hipótese de uma nova derrota nas urnas não intimida o diretor e político: “se não der em 2011, tentarei em 2015…”.
Menem, na época em que era presidente e Kirchner o governador de Santa Cruz.
MENEM, O ESTOPIM – Desde os anos 60 foi um ativo militante do cinema engajado. Em 1968 fez o filme “La hora de los hornos” (A hora dos fornos), uma trilogia em forma de documentário sobre os problemas sociais argentinos. Em 1971 fez uma histórica entrevista com o general Juan Domingo Perón, que estava no exílio em Madri. Em 1975, depois de ser ameaçado pela organização “Tríplice A” e de sofrer uma tentativa de sequestro por parte de um comanda da Marinha, decide exilar-se na França.
Com a queda da ditadura, em 1983, volta ao país. Em 1985 filma “Tangos, o exílio de Gardel”, premiado no festival de Veneza. Em 1988 realiza “Sur” (Sul), que recebe prêmios em Cannes.
Sua entrada na política partidária ocorreu há duas décadas. “Em 1991 tive um confronto com o presidente Carlos Menem (Solanas, em uma entrevista, afirmou que Menem comandava “uma quadrilha de delinquentes que está saqueando o patrimônio público”) que me processou diversas vezes. Reiterei minhas denúncias e por isso sofri um atentado à bala. Nessa época a oposição estava muito desunida. Várias organizações e pessoas comuns pediram que eu fosse candidato a deputado. Assim foi, mas não porque queria ser deputado. Fundei a “Frente Sul” e tive 8% dos votos em Buenos Aires. Como não estava na carreira política tradicional, e sim para criar uma oposição, renunciei à vaga e passei a trabalhar no interior do país fundando a Frente Grande (em 1993). Impulsei o nascimento de uma grande força de oposição ao modelo neoliberal. Mas depois tivemos uma luta interna dentro da próprio Frente”.
Foi eleito deputado em 1994. Mas, pouco antes das eleições presidenciais de 1995, entra em choque com as alianças que os outros líderes da Frente Grande estavam realizando com setores de centro.
Os setores da esquerda partem da organização. Dois anos depois, em 1997, seu mandato de deputado conclui. Na ocasião, Solanas decide dedicar-se novamente ao cinema engajado.
Na época, em 1996, entrevistei Solanas. Decepcionado com a vida partidária clássica, disse: “não me retirarei da política. Tenho mais de 40 anos dedicados a um compromisso político com os grandes temas do país. Seria um erro reduzir isso à atuação na política eleitoral formal. Estaríamos desvalorizando o compromisso político que têm dirigentes sociais, sindicais, culturais que trabalham todos os dias comprometidos com suas comunidades. A esses compromissos não renuncio, são toda minha vida. Cheguei à política sem fazer carreira política tradicional. Não abandonarei a política, mas volto à política que fiz toda minha vida, através do cinema. Não perderei tempo em disputas eleitorais inúteis”.
Em 1998 conclui seu filme “A Nuvem”, premiada em Veneza.
Mas, a crise de 2001-2002 – a maior da História argentina – o empurrou de volta para a política. Enquanto concluía seu filme “Memórias do saque” (sobre a crise econômica e os fatores que a causaram) Solanas reorganizou seus militantes em um núcleo menor e procurou a aliança de setores do sindicalismo de esquerda, não-vinculado com o peronismo tradicional. E assim, fundou o “Projeto Sul”.
Solanas defende a estatização da produção de petróleo e gás, além das jazidas minerais do país.
Nos últimos três anos oscilou entre respaldar algumas medidas do governo Kirchner, como a Lei de Mídia, a estatização do sistema previdenciário e da Aerolíneas Argentinas, e criticá-lo em outras, como a reabertura da reestruturação da dívida com os credores privados que estava em estado de calote, na intervenção do Banco Central e na suspensão da licença da Fibertel, a empresa de internet do Grupo Clarín e a forma como o governo aplicou substanciais impostos sobre as exportações agrícolas, incluindo pequenos e médios produtores, salvando das cargas tributárias os bancos, as empresas de minérios (entre outras que possuem boa sintonia com a presidente Cristina). “A política de Kirchner é de super-direita”, dispara Solanas.
Solanas no comício em que lançou sua candidatura presidencial de 2011
Fragmento do filme “Tangos…”. A cena na qual os exilados discutem sobre a obra que apresentarão, interrompida inesperadamente pela chegada do ‘fantasma’ de Carlos Gardel. Aqui.
Cartaz do filme “Tangos, o exílio de Gardel”
Em 1995 entrevistei Solanas sobre o cinema e a política. A seguir, um breve trecho da longa conversa:
“A IDEIA DE SER COMPRADO POR HOLLYWOOD É PATÉTICA” (1995)
O cinema argentino nos últimos dez anos possui a presença constante de Fernando ‘Pino’ Solanas. Ultimamente este cineasta é um ativo participante da política: em maio (de 1995) foi candidato à presidência de seu país. Mas não chegou aos 2% dos votos. Casado com a brasileira Ângela Correa (“Ela é meu amor, minha secretária, minha companheira. Não nos separamos nunca”), Solanas é um autodidata que estudou teatro e composição musical. Seu primeiro curta-metragem foi em 1962. Seis anos depois já realizava seu primeiro longa: “La Hora de los Hornos”. Dali para cá dirigiu mais seis, entre eles “A Viagem”, “Sur”, e “Tangos, o Exílio de Gardel”. Exilou-se na Europa enquanto durou a ditadura militar, a maior parte do tempo, na França, onde exerceu a docência cinematográfica. “Tangos” ganhou o Festival de Veneza. Em Cannes foi a vez de “Sur” receber prêmios, que também ganhou o prêmio da crítica no Festival do Rio de Janeiro.
Atualmente participa na política argentina no papel de deputado federal. Eleito pelo “Frente Grande”, coalizão de partidos de esquerda com dissidentes peronistas e radicais, mais tarde decidiu fundar seu próprio partido. O nome que escolheu não poderia ser outro: “Sur”.
Estado – Quais são os seus projetos? Como a atividade política interfere na atividade cinematográfica?
Solanas - Apesar de minhas atividades públicas, políticas, integro quatro comissões do Congresso Nacional, não abandonei minhas oficinas de cinema. E não deixo de escrever. Sempre se tende a polarizar as coisas, como se fossem excludentes. Fiz cinema, fiz política. e continuarei em ambas. sempre lutando pela pluralidade da cultura e da identidade. Meu projeto cinematográfico, onde ponho o melhor de mim está sofrendo de falta de tempo. Antes tinha tempo e não tinha produtores. Agora me falta tempo e tenho produtores por todo o lado me procurando…Meu filme “A Viagem” foi feita com onze produtores.
Estado – Muitos diretores da América Latina sucumbiram à tentação de filmar nos EUA. Ouvirá esse canto de sereia?
Solanas - Não. A ideia de ser comprado por Hollywood me parece uma coisa patética. Nunca quis trabalhar para outra concepção cultural que não seja a minha. Sou o autor de meus próprios roteiros, e portanto tenho me nutrido de meu caldo cultural, que não é melhor nem pior que outros. É como a minha mãe ou a sua.
Estado- Mas recebeu convites?
Solanas - Em 1990 me propuseram fazer um filme em Hollywood. Era o produtor italiano Grimaldi com a Warner. “O Amor no Tempo do Cólera”, de Gabriel Garcia Márquez. Disse-lhes que era perda de tempo, que não me interessava em absoluto. Tinha lido a novela e poderia filmá-la com muito prazer, mas como tenho pouco tempo e muitas ideias, o pouco tempo que tive o aproveitei para filmar meus roteiros. Nunca quis ser dependente de outros, e quando quis rodar com produções alheias e não a própria, foram ocasiões muito frustrantes. Não tenho tempo a perder. Como quase todos os diretores autores do mundo terminam sendo produtores, sou o produtor de meus filmes. Não perco tempo e faço o que quero. É como escrever um livro. Um escritor não escreve o livro como o editor deseja. No cinema se está amarrado ao produtor. Não digo que não haja bons produtores. Sempre que produzi com outros eu era o sócio majoritário. Quando me ofereceram rodar a obra de Garcia Márquez disse que já sabia como isso terminaria: filmada em inglês, com duas ou três estrelas norte-americanas importantes para chamar o público. Disse-lhe que montaria este filme com atores colombianos e latino-americanos. Outro ponto: o filme custaria uns U$ 30 milhões. Tampouco estava de acordo, pois quanto mais custa um filme, o diretor menos manda no filme, e mais mandam as companhias de seguro, e o produtor quer direito ao corte. O filme não me pertenceria. Seria um assalariado deles. Ganho bem a vida com os filmes que gosto de fazer. Tenho vários projetos. Se a situação política ficasse um pouco mais tranqüila poderia tomar uns 60 dias de férias e filmar. Um dos projetos é sobre o teatro. Um grande canto à criação.
Estado – O sr. tem um grande cuidado com a imagem, uma área em que muitos diretores da América-Latina ou do Terceiro Mundo preocuparam-se pouco nos anos 70 e 80.
Solanas - No meus filmes a imagem tem um peso enorme. Como também faço o roteiro, faço um todo. Todo artista tem um desafio ao qual não pode renunciar: a invenção de formas e linguagens. Um escritor tem o desafio de criar seus personagens e defini-los com palavras. O pintor expressa a imagem artística com cores e linhas. O diretor de cinema de ficção com as cenas. O diretor de cinema é uma mistura de um diretor de teatro com a de um artista plástico em movimento.
Estado – O público cansou do cinema engajado?
Solanas - Pelo contrário. O que o público quer ver é um filme que o segure. Que vá ao fundo e reflita bem a realidade. Quanto mais comprometida com a vida, com a problemática, o público a festeja. Mas a primeira coisa que se pede é que seja um bom filme.
Estado – “Tangos, O Exílio de Gardel” era um filme engajado, misturado com musical. É uma boa receita para o público despolitizado de hoje?
Solanas - Toda minha vida procurei fazer um filme ‘total’, que recuperasse a linguagem de outras artes. O cinema é uma arte temporal, e portanto muito ligado à mãe das artes temporais, que é a música. Fui músico. Em “Tangos” tenho três canções. Fiz letras para músicas de Piazzolla, como “Volto ao Sul”, recentemente gravada por Caetano Veloso no seu disco “Fina Estampa”.
Estado – O cinema argentino tem um humor muito sarcástico…
Solanas - Somos muito marcados pela influência italiana…Para dizer que uma mulher é muito bonita dizemos “que mulher horrível, que bomba!” ou dizer que um dia ensolarado é um “dia de merda”. Inverter as coisas, misturar o humor negro. E o grotesco. O menemismo é “grotético”, mistura de grotesco e patético. Isso alimentou “A Viagem”, onde os habitantes de Buenos Aires vivem imersos em águas cloacais…a corrupção.
Estado – “Mortos ilustres” apareceram em seus filmes. Em “Tangos…” aparecem Gardel e San Martin…
Solanas - Os mortos são os vivos, que continuam vivendo conosco. O conceito da morte é muito restritivo. O homem sempre lutou pela imortalidade. Mas envolver-se com grande mitos é sempre um risco.
Estado – Existe uma moda em filmar a vida de personagens históricos como Evita e o “Che” Guevara. O sr. faria algo nesse gênero?
Solanas - É lamentável que Evita esteja na moda porque Alan Parker deu início ao fenômeno. Antes do filme dele não existia nenhum projeto sobre ela. Nunca tive projetos em relação ao “Che”. Em uma época pensei em filmar uma “Evita”, mas me pareceu um projeto inalcançável, muito complexo.
Estado – Seu casamento com Ângela Correa transmitiu cultura brasileira à sua obra?
Solanas - Sim! Com certeza há influências, porque o Brasil me fascina como país e adoro sua cultura. Por isso casei com uma brasileira e tenho tantos amigos brasileiros. Era muito amigo de Darcy Ribeiro, adoro a arquitetura do país, seu cinema, sua música. O Brasil exerce forte sedução sobre mim. Parte de meu filme “A Viagem” foi filmado no Brasil. Não descarto a possibilidade de trabalhar ali.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
Vinícius de Moraes em ‘La Fusa’, o templo da bossa nova em Buenos Aires. O poetinha se apresentou ali durante meses seguidos, acompanhado, em boa parte das ocasiões, por Toquinho e Maria Creuza. Os três são considerados – informalmente – “portenhos honorários” por seus fãs (todas as fotos desta postagem são da coleção de Liana Wenner e mostram Vinícius em ‘La Fusa’, que ficava na avenida Santa Fe, na frente da atual livraria El Ateneo).
E, antes de começar este relato, segue um link com uma gravação feita em “La Fusa”, na qual Vinícius e Toquinho cantam “Na tonga da mironga do kabuletê”. Imperdível a conversa dos dois em espanhol no início da gravação. Aqui.
Os argentinos possuem uma relação de intensa admiração por Vinícius de Moraes, um habitué da cidade de Buenos Aires durante uma década partir de 1968. No entanto, mais do que um visitante, o poeta é praticamente considerado um ‘portenho honorário’. Não é à toa que “Nuestro Vinícius” (Nosso Vinícius) foi o título escolhido pela especialista em literatura e empreendedora cultural Liana Wenner para relatar a presença de Vinícius em terras portenhas.
“Cresci ouvindo na casa de meus pais um velho long play do show de ‘La Fusa’. Achava fascinante essa forma de expressar a alegria e a liberdade que vocês brasileiros possuem”, explica ao Estado a autora do livro, Liana Wenner, especialista em literatura e empreendedora cultural, enquanto beberica um café no bar “Duero”, na esquina da avenida Santa Fe e Pueyrredón (a poucos quarteirões onde estava “La Fusa”, o extinto café-concert que durante um decênio foi o templo da bossa nova em Buenos Aires).
O livro, da editora Sudamericana, será lançado oficialmente nesta quinta-feira em meio a uma festa com muita bossa nova e homenagens ao poetinha por parte dos amigos que teve na capital argentina há quatro décadas.
VINÍCIUS, SEUS LIVROS E MAFALDA - A conexão portenha começou em 1966 o então advogado Daniel Divinsky – fascinado com a trilha sonora do filme francês “Um homem e uma mulher” (que incluía várias canções de Vinícius de Moraes) e “Orfeu Negro” – passou 36 horas em ônibus sem conforto algum de Buenos Aires até o Rio de Janeiro para propor ao poeta a edição de seus livros na Argentina.
“Vinícius topou, mas pediu 15% pelos direitos de autor, quase o triplo do que cobravam os autores europeus. Aceitei porque queria ter Vinícius entre nossos primeiros títulos. E assim publicamos ‘Para viver um grande amor’”. O livro foi lançado em agosto de 1968. Nos dois primeiros anos Divinsky vendeu quinze edições da obra.
Divinsky fundou a Ediciones de la Flor, casa editorial que na mesma época em que começou a editar Vinícius de Moraes na Argentina (livros que foram vendidos para o resto da América do Sul), também iniciou a publicação dos livros de tirinhas da personagem “Mafalda”, do cartunista Quino.
ESTREIA, CAFÉ, ATRASO E PELÉ – O desembarque de Vinícius de Moraes ocorreu no dia 8 de agosto de 1968 em Buenos Aires. Cinco depois, ele se faria duas apresentações no Teatro Ópera. “Vinícius veio para esta cidade para ser a ponta de lança de uma intensa campanha dos exportadores brasileiros de café, que queriam divulgar o produto na Argentina contra seus principais concorrentes, os colombianos, que também estavam fazendo uma agressiva divulgação. A delegação brasileira era um luxo”, disse Wenner ao Estado, citando os integrantes: “Dorival Caymmi, o Quarteto em Cy, Baden-Powell e Oscar Castro Neves”.
A primeira apresentação estava marcada para as 20:30 horas. Mas, eram as 20:15 e Vinícius não aparecia no teatro. De seu hotel, a 15 quarteirões dali, havia saído às 17:00. Os organizadores ligaram para a Polícia, temendo que Vinícius teria sido sequestrado. Mas, o poeta simplesmente não havia percebido que era tarde, e chegou em cima da hora.
Às 22:30 horas o show havia terminado. Mas, o público não queria sair. Mas, do lado de fora, na avenida Corrientes, mais de 3 mil pessoas pretendiam entrar para a segunda apresentação da noite.
No meio dessa atribulada “noite mágica”, como define Wenner, quatro jogadores do Santos, que estavam em Buenos Aires para um amistoso contra o River Plate, apareceram na porta para tentar entrar no começo da segunda apresentação. O produtor do show foi abordado pelo lanterninha, que gaguejava emocionado: “senhor, senhor..Pelé está aqui!!!!”.
Minutos depois, Pelé e seus colegas estavam em cima do palco. O público, em delírio, aplaudia freneticamente. Segundo Wenner, “Baden começou a improvisar uma batida de samba ao estilo Pixinguinha. A bateria acompanhou. Vinícius aproximou-se para abraçar os jogadores. Pelé começou a chorar como um garoto”.
LA FUSA, PIAZZOLA E FERRER – Vinícius ficou em Buenos Aires mais além do previsto e começou a frequentar as casas de shows e a intelectualidade portenha. O poeta ia às apresentações que Astor Piazzolla fazia na época e – escondido no meio do público – gritava: “seu filho da p…!”. O sisudo público portenho ria perante a brincadeira. Piazzolla, que ainda enfrentava resistência dos tangueiros tradicionalistas, deleitava-se com o humor de Vinícius, que descontraía o ambiente do show.
O poeta uruguaio Horacio Ferrer – que com Piazzolla preparou a “Balada para um louco” – conheceu Vinícius em Buenos Aires.
Juntos, segundo Wenner, prepararam “um musical com chorinhos e tangos que teria o inquietante nome de ‘Os exilados do cruzeiro do sul’. Mas, este projeto não se concretizou”.
Em 1970 debutou o show em “La Fusa”, um café-concert no bairro da Recoleta. As apresentações de Vinícius no “La Fusa” – acompanhados de Maria Creuza e Toquinho – são considerados um dos pontos altos da vida cultural portenha da primeira metade daquela década. Os shows nesse café-concert prolongariam-se em diversas fases até 1972 e tiveram influência sobre uma geração de músicos e poetas argentinos.
SAMBAS PORTENHOS - Em Buenos Aires compôs “Samba da Rosa”, dedicado a Rosa, a cozinheira e empregada de um amigo, o americano Fred Sill, que emprestava o apartamento da esquina das avenidas Las Heras e Coronel Díaz ao poeta. O samba foi escrito por Vinícius, mergulhado na banheira – com uma máquina de escrever sobre um suporte de madeira – enquanto Toquinho, com o violão, ficava sentado sobre o bidê.
Na mesma época, no apartamento que Renata Deschamps (mãe da modelo e atriz Alexia Deschamps) tinha na ‘calle’ Montevideo (entre as ruas Posadas e Alvear), Vinícius e Toquinho prepararam a versão definitiva de “Tarde em Itapoã”.
Nesse período profícuo Vinícius também compôs “Valsa para uma menininha” (cujo título completo era ‘Valsa para uma menininha chamada Camila’). A garotinha em questão era Camila Goñi, filha da jornalista argentina Helena Goñi, que cobria os shows de Vinícius.
ESPOSA PORTENHA – A presença em terras portenhas também valeu a Vinícius de Moraes uma esposa, a oitava das nove mulheres que tiveram vida de casal com ele. Ela era a argentina Marta Rodríguez Santamarina (única esposa não brasileira de Vinícius), que o poeta conheceu em Punta del Este em 1975.
Em homenagem a Marta, que tinha 23 anos, compôs “Amigo portenho”, canção na qual pede a seu amigo de Buenos Aires que, caso veja uma determinada garota na rua, lhe diga que está morto de saudade.
Meses depois, no dia 18 de março de 1976, poucos dias antes do golpe militar que implantaria a mais sanguinária ditadura argentina, desapareceu em pleno centro portenho seu pianista, Tenório Cerqueira Jr. O pianista teria sido detido e assassinado por engano por integrantes da Marinha argentina. Vinícius o procurou intensamente e mobilizou todos seus contatos para encontrar seu amigo e músico. No entanto, seu corpo jamais apareceu.
Entristecido, Vinícius começou a frequentar Buenos Aires com menos regularidade e instalou-se no Rio com Marta. A relação de ambos prolongou-se de 1976 a 1978.
VINÍCIUS URUGUAIO - Wenner sustenta que, mais do que a presença de Vinícius na Argentina, a expressão correta deveria ser “no rio da Prata”, já que o poeta iniciou sua presença na área na margem esquerda do rio, em Montevidéu, quando era cônsul brasileiro.
O livro de Wenner inicia com o insólito relato de uma noite de véspera de Natal na capital uruguaia em 1958, quando três irmãos de uma família destacada de Montevidéu, procurando um bar aberto para celebrar foram ao “Pigmalión”, um bar de prostitutas. Ali, um deles, Marcelo Acosta y Lara, viu um homem, sentado no fundo do salão. Com pena do solitário cliente, o convidaram para beber.
Nessa noite – regada com abundantes destilados – iniciou uma amizade que levaria Vinícius a fazer sua primeira gravação. “Ele quase ainda não havia gravado discos, pois dizia que tinha uma voz ruim para isso”, relata no livro Acosta y Lara, cuja família era dona de uma estação de rádio em Montevidéu.
Em seu apartamento na capital uruguaia, no bairro de Pocitos, Vinícius compôs “A Felicidade”.
Uma das gravações feitas em “La Fusa”, a canção “Tomara”. Aqui.
Outra das gravações em “La Fusa”: “Que Maravilha”. Aqui.
Mais uma, “Irene”. Aqui.

Capa do livro de Liana Wenner, a primeira obra que relata detalhadamente a presença de Vinícius em ambas margens do Rio de Prata (mais na margem direita do que na esquerda)

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Maradona está atrás de qualquer aeronave que leve seus jogadores à África do Sul
O técnico argentino Diego Armando Maradona não consegue deter o acúmulo de conflitos, queda de prestígio e problemas de comando a granel a poucas semanas do início da Copa do Mundo na África do Sul. Depois de enfrentar brigas entre seus próprios comandados e críticas de ex-técnicos Maradona admitiu que ainda não sabe como transportará seus jogadores através do Atlântico Sul para que cheguem a tempo de concentrar-se e preparar-se para a Copa. O motivo da angústia de Maradona é que seus assessores – entre eles o manager da seleção, Carlos Bilardo – não compraram as passagens para que o time possa viajar para a África do Sul.
No entanto, conseguir as escassas passagens aéreas que restam para a África do Sul é uma tarefa de Hércules, afirmam os agentes de viagens.
Para evitar a vergonha pública, informações extraoficiais indicam que Maradona deixou claro a Bilardo que não lhe importa viajar em classe turista, onde também colocaria integrantes do corpo técnico, caso fosse necessário. Mas, sustentou que pretende que todos seus “muchachos” (rapazes) façam o trajeto em classe executiva. Para conseguir os lugares, os assessores de Maradona estão até telefonando aos passageiros com passagens compradas, para ver se conseguem convencê-los a trocar a viagem para outro dia.
“Ficou difícil para que Bilardo encontre passagens em cima da hora”, afirmou o técnico sobre o manager, com o qual possui uma relação tensa.
“Acho que viajaremos no dia 26…quero viajar no dia 26”, balbuciou Maradona em declarações à imprensa portenha, ao referir-se a seu desejo de partir na quarta-feira da semana que vem.
Segundo o técnico, não seria adequado viajar nos dias 27 e 28, já que não existem voos com lugares suficientes para a viagem do time em um único bloco, cenário no qual a seleção teria que desembarcar na África do Sul de forma parcelada. No entanto, Maradona prefere evitar esta opção: “não é sério que seis rapazes viagem por um lado, outros seis em um dia diferente e outros dez jogadores em outro dia. Não é sério”.
Maradona também confessou que está “conversando” com “pessoas” com as quais o jogador Carlos Tevez fez uma “aproximação” para ver a possibilidade de que todos os jogadores da seleção e boa parte da delegação argentina viagem em conjunto em um voo charter.
O presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA), Julio Grondona, enquanto isso, mantém silêncio sobre os imbroglios de “El Diez”.
Na próxima segunda-feira, dia 24, a seleção enfrentará o Canadá para um amistoso no portenho Monumental de River, estádio no qual Maradona já declarou que não gosta de estar.

PALERMO E A EX – Maradona, além de acumular problemas para transportar a equipe para a África do Sul, as brigas entre seus jogadores, e as recentes acusações de ter “conspirado” contra o ex-técnico Alfio Basile para conseguir o posto de técnico no final de 2008, também enfrenta o risco de ficar sem um de seus jogadores favoritos, Martín Palermo.
O motivo de eventual ausência de Palermo na África do Sul é o processo que a ex-esposa do jogador do Boca Juniors, Lorena Barrichi, abriu contra ele. Os advogados de Lorena, uma ex-modelo que casou-se com Palermo em 2005 iniciaram uma demanda penal por sonegação fiscal contra o jogador, suspeito de não ter declarado a totalidade de seu patrimônio. Desta forma, a Justiça poderia impedir Palermo de sair do país para participar da Copa.
CONFRONTOS E DROGAS - Nas últimas duas semanas Maradona teve uma frenética atividade na mídia. A tensão crescente do técnico com Julio Grondona – presidente da AFA há 31 anos – irritou o filho deste, Humberto Grondona. Em declarações à rádio “La Red”, o filho de Grondona ameaçou, sem sutilezas: “se você ataca meu pai, eu te piso”.
Maradona também participou do programa de auditório da apresentadora Susana Giménez. Ali, jurou que há seis anos não consome drogas, isto é, desde a overdose que em abril de 2004 quase o matou em Buenos Aires, pouco tempo depois de retornar de Cuba.
Na sequência foi o alvo de uma nova polêmica quando o filho do ex-técnico Alfio Basile, Alfio Basile Junior, divulgou pela rede de micro-blogs Twitter que Maradona havia “conspirado” para derrubar seu pai e tomar seu posto de técnico da seleção em 2008.
De quebra, após todos estes quiproquós, Jorge Ribolzi, ex-assessor do ex-técnico Basile, foi categórico ao definir Maradona: “como jogador, foi o melhor que eu vi … como técnico, ele terá que mostrar sua capacidade. Mas, como ser humano, é um lixo de pessoa”.
E ATENÇÃO, FINALMENTE…
Agora há pouco, nesta noite de terça-feira, integrantes do entourage de Maradona anunciaram que os jogadores já possuem uma forma de chegar à África do Sul. Desta forma, a AFA evitou o fiasco sobre as passagens para os jogadores.
Segundo os assessores de Maradona, a seleção partirá no dia 28 de maio, em um voo da South African Airways. O avião partirá do aerporto internacional de Ezeiza nesse dia às 16:45.
Neste avião partirão os 23 jogadores, 10 integrantes do corpo técnico, 16 ajudantes e alguns cartolas.

BREVE FOFOCAGEM COM BACKGROUND, dos arquivos de ‘Os Hermanos‘:
- Maradona e o fellatio, aqui.
- Maradona sob o olhar de um sociólogo, aqui.
- E um pouco sobre Julio Grondona, o cartola comme il faut, aqui.

ANÍBAL TROILO, 35 ANOS DE SUA MORTE
E, mudando de assunto radicalmente, hoje completam-se 35 anos da morte de Aníbal “Pichuco” Troilo, considerado um dos maiores compositores do tango.

Aníbal Troilo, uma espécie de Buda do tango. Ele tocava com a alma.
Um artigo de hoje do jornal “Perfil”, no qual o poeta uruguaio Horacio Ferrer, presidente da Academia Nacional del Tango, relembra o amigo. Aqui.
Uma velha gravação de um programa de TV com Troilo, interpretando “Quejas de bandoneón”. Aqui.
Neste link do Youtube, Troilo com um de seus amigos, Astor Piazzolla, interpretam “Volver”. Aqui.
E neste, para encerrar, um trecho de um documentário sobre Troilo, onde ele, com sua voz áspera, recita “Nocturno a mi barrio”. Para os troilanos xiitas, é o filé-mignon, especialmente na segunda metade do video (onde ele recita) e no último terço, onde está com sua orquestra. Aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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