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Ariel Palacios

O ex-ditador e general Jorge Rafael Videla volta a causar polêmica: em declarações à imprensa espanhola, afirma que julgamento dos militares envolvidos em crimes durante a ditadura não passa de “vingança”. O militar também sustentou que seu golpe, em 1976, deu início a uma “Nova Era” na Argentina.

Caros comentaristas e leitores, volto hoje à labuta depois de plus-que-merecidas férias! Neste período de tentativa de relax e repouso aconteceu uma saraivada de assuntos na Argentina e região. Alguns deles saíram temporariamente da agenda (o caso dos conflitos comerciais Brasil-Argentina, que logo logo voltarão), outros permanecem diariamente (os crescentes qüiproquós sobre as ilhas Malvinas, a pancadaria desatada da polícia sobre manifestantes, protestos em cidades com mineradoras multinacionais). E alguns marcaram alguns dias, como o caso da morte do roqueiro Alberto “El Flaco” Spinetta.

Nesta quarta-feira, último dia das férias, o general Jorge Rafael Videla, ditador da Argentina entre 1976 e 1981 (a ditadura, com outros generais, durou até 1983), preso há vários anos, condenado à perpétua por crimes contra a Humanidade, causou polêmica ao fazer as primeiras declarações à imprensa desde o fim do regime militar.

Videla, em entrevista à revista espanhola Cambio 16, afirmou que não se arrepende do golpe militar que protagonizou há três décadas e meia e acusa a presidente Cristina Kirchner de procurar “vingança” em vez de “justiça” com o julgamento dos militares envolvidos na ditadura argentina.

“São todos julgamentos políticos”, disparou Videla, que nos anos 70 era conhecido como “a pantera cor de rosa”, por seu jeito similar de caminhar e a sorte para escapar incólume de atentados. “É parte de uma vingança, dessa revanche, como parte de um castigo coletivo com o qual pretende castigar todas as forças armadas”, disse.

Segundo o ex-ditador, o governo mostra os militares como os “maus” e “responsáveis dos crimes contra a Humanidade”, enquanto que – sustenta Videla – os “terroristas” são exibidos como os “bons”.

O ex-ditador justificou a necessidade do golpe e da implantação da ditadura militar, indicando que o país estava sob o perigo da “anarquia imediata” e do terrorismo (no entanto, os próprios militares afirmavam meses antes que a guerrilha havia sido debelada). Segundo Videla, com o golpe começava uma “Nova Era” para o país (os generais pretendiam que a ditadura, a princípio, durasse até 1990…mas o fracasso na Guerra das Malvinas precipitou o fim desses planos).

AS INSTITUIÇÕES, SEGUNDO O HOMEM QUE DEU O GOLPE - Videla também disparou contra os senadores e deputados argentinos. Segundo o ex-ditador, o Parlamento (que ele próprio fechou em 1976), “está composto por ambiciosos que temem ficar sem seus postos e se vendem a quem paga mais”.

Segundo Videla, a situação institucional atual é “pior” do que na época de Maria Estela Martinez de Perón, mais conhecida como “Isabelita”, a presidente que o general depôs no dia 24 de março de 1976.

O ex-ditador, que violou a Carta Magna há quase 36 anos, sustenta que atualmente “as instituições estão mortas” na Argentina.

Videla, que durante o julgamento das juntas militares em 1985 havia jurado que não haviam ocorrido assassinatos de civis por parte da ditadura, na entrevista admite a existência de 7 mil desaparecidos (número inferior aos 30 mil desaparecidos alegados pelos organismos de defesa dos direitos humanos e dos 10 mil verificados pela Comissão Nacional de Desaparecidos, a Conadep).

Na entrevista Videla coloca em problemas a Igreja Católica ao afirmar que o clero manteve uma relação “cordial” e “muito sincera” com o regime militar. “Nós tínhamos capelães militares dando assistência para a gente. Nunca foi quebrada essa relação de colaboração e amizade”.

Durante a ditadura a Igreja esteve intensamente alinhada com os militares. Padres católicos presenciaram torturas realizadas nos centros clandestinos de detenção e pressionaram os prisioneiros a delatar, com o encobrimento da confissão, o nome de militantes políticos que haviam conseguido escapar. Um dos clérigos envolvidos nas ações do regime militar, o capelão Christian Von Wernich, além de presenciar, protagonizou torturas nos centros clandestinos na província de Buenos Aires. Em 2007 Von Wernich foi condenado à prisão perpétua por 34 sequestros, 31 casos de torturas e sete homicídios.

DITADURA ARGENTINA FOI FRACASSO MILITAR E ECONÔMICO - No dia 24 de março de 1976 uma junta militar derrubou a presidente civil Isabelita Perón. A ditadura, que duraria sete anos – considerada a mais sanguinária da História da América do Sul – teria um saldo estimado pelas organizações de defesa dos direitos humanos de 30 mil civis assassinados nos centros clandestinos de detenção. A ditadura também sequestrou 500 bebês, dos quais somente 105 recuperaram sua identidade até hoje.

O saldo econômico do regime também foi desastroso. Em sete anos de ditadura a dívida externa disparou de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões. A inflação aumentou de 182% anual para 343%. Além disso, a pobreza cresceu de 5% da população para 28%. De quebra, a ditadura implantou uma ciranda financeira que intensificou o caos econômico.

Na área militar a ditadura implementou uma corrida armamentista com o Chile em 1978. Os dois países, que disputavam o canal de Beagle, quase entraram em guerra. A invasão argentina foi detida graças à mediação do papa João Paulo II.

Quatro anos depois, o ditador Leopoldo Galtieri ordenou uma improvisada invasão das ilhas Malvinas, sob controle britânico, desafiando a primeira-ministra Margareth Thatcher a enviar tropas. A guerra terminou com a estrepitosa derrota da ditadura em dois meses e meio.

“Excelente goleiro!”, afirmam seus colegas e admiradores. “Mas, péssima e sórdida pessoa”, complementam.

GATO E TORTURAS – A Justiça da província de Santa Fe declarou que Edgardo “El Gato” Andrada não será levado a julgamento pela suposta participação do assassinato de civis durante a ditadura argentina. Segundo o juiz Carlos Villafuerte Ruzzo, não existiam provas suficientes para levar Andrada ao banco dos réus no momento.

Andrada – que morou no Brasil entre 1969 e 1976 – tem um passado peculiar: no dia 19 de novembro de 1969 teve o prestígio de levar o gol número 1.000 de Pelé como goleiro do Vasco da Gama, onde trabalhava na época. Na Argentina Andrada também é recordado, mas por questões pouco esportivas: ele colaborou ativamente com a Ditadura Militar. E, segundo diversas denúncias é um dos responsáveis pelo sequestro de duas pessoas em maio de 1983, poucos meses antes que a Ditadura terminasse.

Andrada, segundo as denúncias, trabalhava para o serviço de inteligência do Exército na cidade de Rosario, e integrava as “patotas” (gíria que na Argentina refere-se a grupos de caras violentos, jagunços, que capturavam, torturavam e assassinavam civis que se opunham ao regime militar).

Ao longo dos últimos três anos Andrada foi processado na Justiça pelo sequestro realizado em um bar em pleno centro da cidade de Rosário. Os dois civis apareceram mortos dois dias depois. Na época, o governo militar anunciou que as duas pessoas haviam sido mortas em um combate com forças do exército. Mas, a autópsia indicou que eles haviam sido espancados, torturados com choques elétricos e posteriormente baleados a queima-roupa.

                                     Andrada era chamado de “El Gato”, por seu jeito de “felino”

Andrada nega os crimes. Ele admite que estava dentro da estrutura do Exército, mas, misteriosamente, nega-se a explicar qual era seu trabalho específico.

Os advogados dos parentes dos civis mortos afirmam que vão recorrer na Justiça, de forma a reverter a decisão do juiz Ruzzo.

Além de Andrada, outros ex-jogadores e técnicos também são suspeitos de terem participado do sequestro de civis. Em vários desses casos as vítimas eram seus próprios colegas jogadores, que foram detidos e torturados por criticar a ditadura militar.

Uma dessas histórias, a do jogador Claudio Tamburrini, virou filme, o “Crônica de uma fuga”, do diretor Adrián Caetano.

Tamburrini foi detido e enviado ao centro de torturas “Mansão Serré”. Mas, depois de seis meses preso ali, conseguiu fugir com outros três prisioneiros. É o único caso de sucesso de uma fuga de um centro de tortura da Ditadura.

Luis Alberto Spinetta, a.k.a. “El Flaco”. Ou, “pai do rock argentino”.

DA GUITARRA À HARPA, UM ÍCONE PARTE - Um dos expoentes do rock nacional, Luis Alberto Spinetta, morreu em sua casa, rodeado de seus seres queridos há poucos dias, na quarta-feira dia 8 de fevereiro. “El Flaco” (O Magro), como era chamado carinhosamente, tinha câncer de pulmão.

Spinetta foi integrante da banda Almendra, que junto com Manal e Los Gatos, integram o trio de grupos fundadores do rock nacional argentino. Ele também participou da banda Pescado Rabioso, entre outras. Spinetta é considerado o “pai do rock argentino”.

Ao longo de sua carreira Spinetta cantou com outros pesos-pesados do rock nativo, como Charly García e Fito Paez.

Em junho passado Spinetta fez sua última apresentação, no Chile. Uma semana depois soube que tinha câncer.

Os admiradores de Spinetta afirmam que ele foi para o Paraíso dos roqueiros. Portanto, sustentam, ele largou a guitarra e passou para a harpa.

“Obrigado, gosto muito de vocês” foi a frase que “El Flaco” destinou a seus fãs em seu último comunicado público, pouco tempo antes de morrer.

Aqui, a modo de réquiem, algumas de suas obras:

 

E aqui, uma composição de um colega de Spinetta, Charly García, que compôs “Canción para mi muerte” em 1972.

Os especialistas a definem como uma “balada com um touch tangueiro, pessimista e nostálgico” que retoma o espírito de “Volver”, de Carlos Gardel.

Nos próximos dias falaremos das minas polêmicas em Catamarca e San Juan. E também, ainda dentro do quesito “minas”, embora não as geológicas, explicaremos o fenômeno de internet de Keyra Agustina, pseudônimo de uma jovem argentina cujos anônimos e altruístas (estes adjetivos explicarei no post) glúteos são os únicos representantes sul-americanos em um ranking mundial dos 20 mais excelsos derrières femininos do planeta Terra, elaborado pela britânica revista Zoo há poucos dias.   

   

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Cristina Kirchner teria hoje uma vitória esmagadora nas urnas. Ilustração do cartunista argentino “El Niño Rodríguez”. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/ 

“Hegemonia kirchnerista” e “hiperpresidencialismo” são as expressões que integrantes da oposição usam para definir o cenário político que surgiria neste domingo com a virtual reeleição da presidente Cristina Kirchner. Segundo as pesquisas a presidente Cristina Kirchner venceria com uma proporção que oscilaria entre 51% e 57% dos votos, embora alguns analistas afirmem que poderia chegar aos 60%. Nenhum partido da oposição conseguiria, sozinho, na melhor das hipóteses, mais de 17% dos votos, segundo os prognósticos dos analistas de opinião pública. Os argentinos também irão às urnas para renovar o Parlamento e os governos provinciais.

A presidente, que nos últimos dois anos – após a derrota nas eleições parlamentares de 2009 – havia ficado em minoria no Parlamento, conseguiria (com parlamentares próprios e os aliados) uma confortável maioria em ambas câmaras. Em seu eventual novo mandato Cristina teria uma margem de manobra política que nenhum governo teve desde o presidente Juan Domingo Perón nos anos 50.

Desta forma, a presidente Cristina conseguiria para o kirchnerismo outros quatro anos no poder. Somados ao período de governo de seu marido, o ex-presidente Nestor Kirchner (2003-2007) e os quatro anos do primeiro mandato de Cristina, esta reeleição possibilitaria um total de doze anos de kirchnerismo na Argentina. Isso implicaria no período mais prolongado na História argentina de um mesmo grupo político no poder de forma ininterrupta nos últimos 150 anos.

A hegemonia que surgiria hoje nas urnas está gerando um clima político favorável aos planos de setores do governo de tentar uma reforma constitucional que permita uma segunda reeleição de Cristina em 2015.

“Uma democracia real na Argentina baseia-se na reeleição indefinida”, sustentou na semana passada durante uma conferência em Buenos Aires Ernesto Laclau, filósofo preferido de Cristina, que transformou-se no mentor ideológico do governo. Laclau, que reside parte do ano em Londres e é professor em Essex, Inglaterra, afirmou que “quando se constrói toda a possibilidade de um processo de mudanças ao redor de um nome determinado, se esse nome desaparece, o sistema fica vulnerável”.

Segundo o filósofo – que agora conta com um programa no “Encuentro”, o estatal canal de TV cultural – “se a Cristina se eternizar” no poder “não será algo que vá contra o sistema democrático”.

“Cristina Eterna” é a proposta de filósofo que transformou-se em mentor intelectual do kirchnerismo. Cristina seria reeleita hoje para o terceiro mandato do kirchnerismo. A idéia é um quarto mandato “Pinguim”. Pelo menos, “pra começar” (acima, os quatro pinguins do filme “Madagascar”).

PARLAMENTO - Na Câmara, Cristina Kirchner, por intermédio de seu partido, o Justicialista (Peronista), em conjunto com seus aliados, passaria das atuais 116 cadeiras para um total de 132. Os partidos da oposição, em conjunto, cairiam das atuais 141 cadeiras para 125.

No Senado o governo havia ficado em minoria após as eleições parlamentares de 2009. No entanto, ao longo do último ano conseguiu atrair os votos de dois senadores, um deles o ex-arquiinimigo do casal Kirchner, o ex-presidente e senador Carlos Menem. Desta forma, atualmente possui 37 cadeiras, contra as 35 da oposição. Mas, após as eleições deste domingo, o governo Kirchner conseguiria aumentar seu peso na câmara alta para 38 cadeiras. A oposição cairia de 35 para 34 senadores.

O professor de relações internacionais da Universidade Católica Argentina (UCA) e especialista em meios de comunicação Jorge Liotti disse ao Estado que além de “aprofundar o modelo econômico” o governo tem a ambição de “aproveitar a ausência de contra-pesos políticos da oposição para ocupar maiores espaços de poder”. Neste contexto, segundo Liotti, “o governo considera que o diálogo com a oposição é desnecessário”.

ÊXODO - Os analistas não descartam que as proporções a favor da presidente Cristina, especialmente na Câmara de Deputados, aumentem mais nos próximos meses, já que prevêm um êxodo de integrantes da oposição para o governo. Nas últimas semanas, diversos peronistas dissidentes deixaram de lado suas antigas diferenças com a presidente Cristina e voltaram para o seio do governo, que – pragmaticamente, sem rancor político – os recebeu com os braços abertos.

A oposição, enquanto isso, amarga a expectativa de uma derrota assegurada. No entanto, alguns líderes já pensam no futuro a médio prazo, como Ricardo Alfonsín, candidato presidencial da UCR, que declarou ontem que “será difícil conseguir um segundo turno nas presidenciais. Mas, nas eleições parlamentares de 2013 chegaremos cabeça a cabeça. E nas presidenciais de 2015 seremos uma opção firme de governo”.

Outros, como o prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, do partido de centro-direita Proposta Republicana (Pro), estrategicamente deixaram de lado o confronto e optaram por declarar “todo o apoio” à presidente Cristina.

PROVÍNCIAS - Das 24 províncias argentinas 14 já realizaram suas eleições desde março passado, fora de sincronia com as presidenciais de hoje, dia no qual os argentinos de outras nove províncias irão às urnas para concluir a definição do mapa dos governadores do país.

Cristina, por vias diretas, ficaria com o controle de 17 (de um total de 24) províncias, número que indicaria a melhor performance do peronismo em um quarto de século.

No entanto, outras três – Neuquén, Chubut, Tierra del Fuego – embora nas mãos da oposição, estão nas mãos de governadores que já declararam seu alinhamento pragmático com o governo Kirchner. Desta forma, a presidente teria o controle direto ou indireto de 83% das províncias da Argentina.

E, para embalar este domingo, um pouco de música:

Mercedes Sosa canta “Todo cambia” (na genial cena de Habemus Papa, de Nani Moretti). Aqui.

“Libertango” de Astor Piazzolla. Na versão de Yo-Yo Ma e Nestor Marconi. Aqui.

Mais um Piazzolla, “Adiós Nonino”, com o próprio don Astor e a sinfônica da Rádio de Koln, Alemanha. Aqui.

Mais tango: Edmundo Rivero canta “Te lo digo por tu bien”. É lunfardo puro. Aqui.

Carlos Gardel cantando “Chorra” (Ladra), irônico tango que relata a história de uma profissional do ramo. Aqui.

Outra pérola de Edmundo Rivero: “Araca la cana” (Olha aí a polícia). Aqui. 

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

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Amado Boudou – Aimé para os parentes e amigos – dá uma de Bob Dylan durante um anúncio de medidas econômicas por parte da presidente Cristina Kirchner.

oqueiro, amante das motos Harley Davidson e DJ de festas. Embora pouco costumeiro para um político e um futuro vice-presidente, este é o perfil de Amado Boudou, economista de 48 anos com physique du rôle de galã, que passou da direção do sistema de aposentadorias ao posto de ministro da Economia em 2009. Agora ele é o candidato a vice-presidente na chapa de Cristina Kirchner, que disputa sua reeleição no dia 23 de outubro. Nas últimas semanas, Boudou assumiu a missão de fazer comícios em todo o interior do país, para suavizar a tarefa da presidente Cristina, que na terça-feira, pelo cansaço e estresse, teve um quadro de hipotensão. O ministro aproveita cada ato público para – vestido com camiseta e jeans – mostrar discutidos dotes de guitarrista e encerrar os comícios ao lado da banda de rock “La Mancha de Rolando”.

Caso seja eleito com Cristina – assim indicam as pesquisas, de forma unânime – Boudou, a partir do dia 10 de dezembro, será também o presidente do Senado (na Argentina o vice-presidente da República é o presidente da câmara alta).

Além disso, diversas especulações no âmbito político indicam que a partir de abril do ano que vem Boudou poderia ocupar o cargo de presidente do Partido Justicialista (Peronista), caso a presidente Cristina não aceite o comando partidário oferecido pelas principais autoridades peronistas. O último presidente do partido foi o ex-presidente Nestor Kirchner, que morreu em outubro passado, vítima de um fulminante ataque cardíaco. Depois, o posto foi ocupado de forma provisória pelo governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli.

A eventual designação de Boudou para o comando do peronismo irrita a ala tradicional do movimento político fundado pelo general Juan Domingo Perón há 66 anos. Motivos existem de sobra, já que o bem-apessoado ministro – um recém-chegado no estatizante peronismo – foi durante a maior parte de sua vida um militante da União de Centro Democrático (Ucedé), partido de centro-direita que durante décadas foi o principal reduto do neo-liberalismo argentino. Além disso, foi professor da Universidade do Centro de Estudos Macroeconômicos Argentinos (Ucema), que serviu de “think tank” para as privatizações do governo de Carlos Menem nos anos 90.

Caso a presidente Cristina não consiga uma reforma constitucional que permita uma segunda reeleição (segundo indicam os rumores no âmbito político), Boudou é indicado como o principal “delfim” para sua sucessão.

Velhos integrantes do governo irritam-se com os comentários da presidente sobre Boudou, denominado de “o baby face” do gabinete. “Ele tem 48 anos. Mas parece bem menos, reconheço”, disse Cristina recentemente em um discurso, enquanto sorria olhando para seu futuro vice. O ciúme dos outros ministros foi evidente.

VICE LEAL – Boudou, que não tinha cacife político próprio, demonstra incondicional lealdade a Cristina. Essa é sua vantagem, afirmam os analistas, que destacam que a presidente Cristina buscava essa característica, de forma a evitar os problemas que teve com seu atual vice, Julio Cobos, que rachou com a presidente em julho de 2008, causando a pior crise política da administração Kirchner. Na ocasião, com seu voto de Minerva, Cobos derrubou no Senado o projeto de lei de Cristina que pretendia um “impostaço agrário”. Desde então a ela não fala mais com Cobos, encarado como “traidor”.

“A partir dos fatos que são de público conhecimento, a escolha de um vice é fundamental”, disse Cristina no dia em que anunciou sua escolha por Boudou.

“O principal mérito de Boudou para ser o vice é que ele é leal a Cristina. A presidente quer evitar a ‘Síndrome de Cobos”, afirmou ao Estado a analista política Mariel Fornoni, da consultoria de opinião pública Management & Fit.

Boudou com sua namorada Agustina Kampfer. O casal protagoniza tórridos beijos nas festas.

RUIVA E BEIJOS - Boudou namora a bela e ruiva jornalista Agustina Kampfer, duas décadas mais jovem que o ministro, com a qual protagoniza beijos cinematográficos em festas. “Amado me liga mil vezes por dia”, disse há poucos meses. A jornalista também usa o twitter para tercer elogios sobre o namorado.

O uso intensivo da guitarra e a dedicação intensiva a festas é o alvo de críticas que empresários e economistas disparam contra Boudou. Segundo eles, o ministro não está tomando medidas para blindar o país perante a crise internacional, além de não adotar medidas contra a escalada inflacionária, cuja existência ele nega.

Elisa Carrió, candidata presidencial da Coalizão Cívica, de oposição, comentou ao Estado sobre Boudou: “como ele toca a guitarra!”. O comentário era uma ironia, já que na Argentina a expressão “tocar a guitarra” equivale a “enrolar”.

GOVERNO ROQUEIRO - Boudou ganhou espaço de poder dentro do governo Kirchner quando, em 2008, no comando do sistema previdenciário, propôs ao casal Kirchner a ousada jogada de implementar uma reestatização da totalidade das aposentadorias. Embora o objetivo oficial a longo prazo fosse oferecer garantias para os futuros aposentados, a curto prazo a reestatização permitiu que o governo conte com uma caixa de US$ 25 bilhões extras que são destinados para fazer política.

A medida foi duramente criticada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), as principais agências qualificadoras e por vários setores da oposição de centro e centro-direita.

Recentemente, já candidato a vice, Boudou foi ao programa de auditório “Sabado Bus” e recebeu, em um sorteio, uma moto zero km. Depois, durante o programa, demonstrou seus dotes de guitarrista.

Neste link, a performance do ministro e futuro vice no programa do Telefé, canal que pertence à Telefônica da Espanha. Aqui.

nquanto Nestor Kirchner esteve vivo, o ocupante da pasta de Economia tinha pouco peso, já que o virtual ministro era o próprio ex-presidente. Mas, com a morte de Kirchner, cresceu a influência de Boudou, que tece longas apologias à sua chefe em cada discurso.

Boudou, que aprecia ternos bem-cortados e coleciona canetas-tinteiro, atualmente conta com o respaldo de Hugo Moyano, líder da principal central sindical do país, a CGT e da organização de defesa dos direitos humanos das Mães da Praça de Mayo.

Boudou, rechaça as críticas com ar rebelde. Recentemente, em um entrevista à edição argentina da revista “Rolling Stone” o ministro e eventual futuro vice resumiu a essência da administração Kirchner com uma analogia de rock and roll: “este é um governo muito roqueiro, pois tem esse espírito de atrever-se a mudar as coisas que não gosta”.

 

AIMÉ - Amado Boudou, chamado de “Aimé” (Amado em francês) por sua família e amigos, estudou no balneário de Mar del Plata, onde formou-se em Economia. Depois de trabalhar como DJ em festas no litoral, o jovem

“Era um playboy naquela época”, afirma ao Estado uma ex-colega de faculdade. Ela formou-se rápido. Mas Boudou levou vários anos a mais. “É que ele estava ocupado com sua militância política na juventude da Ucedé”, explica.

 

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Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Paródia finlandesa da “Criação de Adão” de Michelangelo Buonarroti mostra uma alterada Mão de Deus capelasistiniana como a Mão do ‘Diez’, isto é, D.A.Maradona (ex-técnico e ex-jogador). Ilustração acima mostra o irônico grafite estampado em uma parede da capital finlandesa, Helsinqui. Mas, desta vez não é “Vox populi, vox Dei”, pois torcida argentina está ateia e rechaça vontade de “Dios” ressuscitar e comandar novamente a seleção. No entanto, Maradona diz que pretende voltar. E que voltará com a ajuda dos Kirchners.

OPERAÇÃO RETORNO - Diego Armando Maradona, outrora chamado de “Dios” (Deus) pela torcida argentina, depara-se atualmente com um cenário de ateísmo futebolístico alastrado em seu país. Nesta sexta-feira, em entrevista ao canal Fox Sports, candidatou-se ao cargo de técnico da seleção de futebol argentina. Mas, as pesquisas realizadas pouco depois da notícia aparecer, indicaram que os argentinos rejeitam o retorno de “Dios”.

Maradona declarou que está “desesperado” e “com muita vontade” de retornar ao posto de técnico da seleção, onde esteve ao longo de 637 dias entre novembro de 2008 e julho de 2010. “Daria minha vida para voltar ao cargo de técnico”, disse.

Quando partiu, em julho passado, disparou uma saraivada de críticas contra Julio Grondona, presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA), que havia rejeitado a permanência de boa parte dos assessores de Maradona. Na ocasião, o ex-técnico chamou Grondona de “traidor” entre vários outros adjetivos (Grondona é o comandante da AFA desde 1978, tempos da ditadura militar; o cartola há dois anos transformou-se em um firme aliado do casal Kirchner).

Um dos motivos principais para a não renovação do contrato de Maradona foi sua determinação em manter todo seu time de assessores. Na ocasião, o ex-astro disse que seria fiel a seus colegas e não permitira a demissão de nenhum deles (seus contratos não foram renovados, junto com a não renovação de Maradona).

Mas, nesta sexta-feira, “El Diez” indicou que poderia voltar ao cargo de técnico sem seus colaboradores. “Isso é algo sobre o qual podemos conversar”, disse o ex-técnico.

Com um tom inesperado, Maradona tentou colocar panos quentes nos entreveros que manteve com o presidente da AFA e afirmou que sabia que “o projeto não existe sem Grondona. Mas o patrão (Grondona) tem que falar comigo… se ele fala comigo, a gente soluciona isso”.

Na semana passada Maradona teve um encontro com a presidente Cristina Kirchner e o ex-presidente Néstor Kirchner na residência de Olivos que rendeu especulações sobre manobras do governo para recolocar “El Pibe de Oro” (O Garoto de Ouro) no cargo. Depois de dias em silêncio Maradona confirmou a intenção dos Kirchners de ver o ex-jogador novamente no posto. “Kirchner disse que estava zangado com a decisão de não me renovar como técnico”, disse Maradona categórico. “Néstor e Cristina foram bem clarinhos nisso”, afirmou.

 

Presidente Cristina Kirchner (da República) e presidente Julio Grondona (da AFA) . Kirchners querem Maradona de volta. Maradona diz que topa conversar com Grondona, a quem haviam chamado de ‘traidor’ há dois meses. A AFA de Grondona, coincidentemente, recebeu verbas extras do governo federal nesta semana.

 ALTERNATIVAS PARA MARADONA – O governo, nas últimas semanas, expressou em diversas ocasiões que desejava que Maradona estivesse no cargo de técnico da seleção durante a Copa América, que será realizada no ano que vem na Argentina. Além disso, circularam rumores provenientes do entourage presidencial que indicavam que os Kirchners planejavam colocar Maradona como Secretário dos Esportes, caso não fosse viável seu retorno ao posto de técnico. Diversos setores do governo sonham em colocar Maradona na lista de deputados federais nas eleições parlamentares e presidenciais do ano que vem.

 PESQUISAS - No entanto, as pesquisas indicam que os argentinos não querem que “Dios” volte a comandar a seleção.

No conservador “La Nación”, os internautas responderam de forma negativa à pesquisa que fazia a pergunta “Diego se desespera por voltar à seleção. Você gostaria que ele volte?”. Na noite desta sexta-feira 5,68% dos internautas diziam que “sim”, queriam Maradona novamente como técnico. Mas, uma avassaladora proporção de 94,32% deixou claro que “não” deseja sua volta.

O jornal “Infobae”, de simpatias governistas e que evitar criticar Maradona, mostrou que os leitores não desejam que o desejo de “El Diez” e dos Kirchners se concretize. À pergunta: “você quer que D.Maradona volte a ser o técnico da seleção nacional?”, 12,04% dos internautas responderam “sim”. Mas, 87,96% indicaram que “não” querem Maradona no cargo outra vez.

No jornal esportivo “Olé” a rejeição a Maradona era um pouco menor que em outras pesquisas. No entanto, exibia uma categórica negativa à hipotética volta de “El Diez” ao posto. Somente 21% apoiavam o retorno de Maradona. Outros 79% eram contra sua volta.

COMO TÉCNICO, REJEIÇÃO CONSTANTE - Maradona – ídolo futebolístico nos anos 80 e nos 90 – ostentou uma constante rejeição como técnico desde que foi designado para o posto por Grondona.

Em 2008, quando tomou posse, 65% dos torcedores não queriam Maradona de forma alguma no comando da seleção. Em novembro de 2009 as pesquisas indicavam que apesar de conseguir de forma suada a classificação para a Copa, 85% dos torcedores exigiam sua remoção. Após a eliminação da Argentina da Copa, 70% exigiam sua retirada.

Camisetas com pensamentos de Maradona foram vendidas na web

MARADONA TÉCNICO – Breve antologia de frases pronunciadas durante os 637 dias da Era Maradona

- “O que busco em meus colaboradores é a lealdade total e que sigam as ordens da mente absoluta, que sou eu” (ao tomar posse como técnico, em novembro de 2008)

- “Que vocês me c… !” (quando, em novembro passado, convidou os jornalistas a praticar sexo oral nele próprio, depois de derrotar o Uruguai e conseguir uma suada classificação da seleção argentina).

- “E que vocês continuem me mamando!” (reiteração do convite para o sexo oral, meia hora após a primeira proposta)

- “Não estou levando muitas coisas na mala…é que a coisa mais importante é aquela que vou trazer da África do Sul” (antes de partir para a Copa, confiante de que voltaria à Buenos Aires com a taça da FIFA).

- “O time é este aqui. Não há motivos para mexer nele!” (categórico, rejeitando sugestões, poucas horas antes de enfrentar a Alemanha nas quartas de final)

- “Se mexerem no cara do almoxarifado, vou embora da seleção” (em julho, quando indicou que só ficaria no cargo de técnico se todos os homens de sua equipe permanecessem em seus respectivos lugares).

Falando em “Dios”, cá está uma reprodução do original de M.Buonarrotti.

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra ).

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Ruínas ilustradas por Giovanni Battista Piranesi (1720-1778), o batuta artista italiano do settecento. As escolas portenhas não estão muito longe disso.

blog1dedo2bEstudantes do ensino médio e superior protagonizaram nas últimas semanas inéditos protestos simultâneos contra o prefeito Maurício Macri, da oposição, e do governo da presidente Cristina Kirchner. Na terça-feira da semana passada os estudantes bloquearam vinte ruas em diversos pontos da capital argentina para manifestar-se contra o que denominam de “péssimas condições” da estrutura dos edifícios de escolas e faculdades em Buenos Aires.

Além de colapsar o trânsito portenho, os estudantes ocuparam ao longo dos últimos 38 dias um total de vinte e oito escolas, quatro faculdades e outras seis instituições educativas.

Em um comunicado, a Federação Universitária de Buenos Aires (Fuba) afirmou que a crise da educação pública é responsabilidade do governo municipal e federal.

Os estudantes reclamam do péssimo estado dos antigos edifícios das escolas e faculdades portenhas, a maioria das quais são edifícios neo-clássicos construídos na primeira metade do século vinte.

Segundo eles, desde o início deste ano houve queda de forros dos tetos de escolas, somados à vários anos acumulados de goteiras a granel, a ausência de aquecimento em meio dos piores invernos dos últimos tempos, ausência de quadros-negros e giz, entre outros problemas.

O prefeito Macri prometeu um plano de obras para as escolas, mas os estudantes, céticos, afirmam que não acreditam em suas promessas.

No meio da crise dos estudantes, Macri viajou à Roma, deixando seus secretários a cargo de um conflito que continuou sua escalada. O prefeito só voltou à cidade depois que um desabamento em uma discoteca causou a morte de suas adolescentes. Para complicar, em vez de telefonar às famílias das vítimas, o prefeito enviou condolências via twitter. Moderno, mas pouco adequado no meio de um luto.

A personalidade – e psique – do prefeito foi foco de debates no último mês. Gabriela Cerruti, autora de “El Pibe” (O Garoto), biografia não-autorizada do prefeito, sustenta que Macri “não passa de um homem que quis ser empresário de sucesso, fracassou, e refugiou-se no Boca Juniors e na política para fugir do pai todo-poderoso”. O pai em questão é o empresário Franco Macri, ícone do capitalismo argentino dos anos 90. Macri senior afirmou recentemente que tem afeto pelo filho…mas prefere votar nos Kirchners.

blog1vinheta91

TIRO CONTRA - A presidente Cristina Kirchner – cuja psique também é foco de debates há alguns anos – também tornou-se alvo das manifestações estudantis na semana passada, quando tentou aproveitar a ocasião para criticar Macri – um dos líderes da oposição – ao declarar “respaldo” aos estudantes.

Os analistas políticos destacaram que o plano da presidente era o de ter influência no novo movimento estudantil, onde a estrutura do governista Partido Justicialista (Peronista) é fraca (no movimento estudantil predominam os partidos da esquerda tradicional, que consideram os Kirchners meros ‘burgueses’ e os militantes estudantis da União Cívica Radical, de centro).

No entanto, o efeito do respaldo da presidente Cristina foi oposto ao que ela previa, já que os líderes estudantis declararam que Cristina Kirchner não os representa. A partir dali, a presidente também começou a ser alvo de críticas dos estudantes.

Alejandro Lipcovich, um dos presidentes da Federação de Estudantes da Universidade de Buenos Aires (Fuba), disparou contra o governo do casal Kirchner: “Néstor Kirchner teve que fazer um comício fechado lá dentro do Luna Park…nós podemos nos manifestar nas ruas, nas praças. Cristina Kirchner faz demagogia barata. Eu digo para a presidente: ‘cala a boca!’.

O chefe do gabinete de ministros do governo Kirchner, Aníbal Fernández, confirmou – irritado – sua oposição à mobilização dos estudantes que ocupam escolas e faculdades: “continuou pensando que essas ocupações não servem para nada”.

A Coordenação de Estudantes Secundaristas (Cues) realizou na quinta-feira uma marcha de protesto que reuniu 40 mil jovens na avenida de Mayo.

Nesse dia comemoraram-se os 34 anos da “Noche de los lápices” (Noite dos lápis), denominação da operação militar, no primeiro ano da ditadura, de sequestro, tortura e assassinato de alunos de segundo grau. Os estudantes haviam sido torturados e assassinados por pedir a redução das tarifas de ônibus para estudantes.

Em meio à crise na cidade de Buenos Aires – e com a imagem pública em queda – o prefeito Macri, do partido de centro-direita Proposta Republicana (Pro) confirmou que será candidato presidencial nas eleições do ano que vem.

Nesta quarta-feira os estudantes tomaram o Colégio Nacional Buenos Aires, o principal da Argentina.

GRADES ANTI-TEENAGERS – Nesta quinta os estudantes secundaristas, junto com setores universitários, realizaram mais marchas de protesto na capital do país. Uma delas foi feita na frente do Ministério da Educação. Ali, no final da tarde, os alunos – principalmente liderados pelos estudantes do Colégio Nacional Buenos Aires, de tendência de esquerda – protestaram contra Cristina Kirchner. Diversos alunos ostentavam cartazes com dizeres alusivos ao estilo “Louis Vuitton” da presidente argentina.

A manifestação foi pacífica. No entanto, o ministro Alberto Sileoni recusou-se a receber os estudantes. O edifício foi protegido dos adolescentes por carros de jatos d’água da Polícia Federal e grades para impedir o acesso dos jovens.

 blog1vinhetas25 

blogvinhetaanjoscorneta1 E já que falamos dos estudantes, um clássico de Mercedes Sosa sobre estes jovens:

“Me gustan los estudiantes”aqui. 

Outra versão dessa canção escrita pela poetista e cantora chilena Violeta Parra. Nesta caso, por um grupo de Puerto Rico (com um ritmo mais ‘caribenho’). Aqui. 

blog1vinheta71bE Piazzolla, em polonês, por Marta Górnicka, cantando “Ciudades”, aqui. 

 Os tangos em polonês não ficam bem? Aqui.

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Paul Schaefer, com permanente enigmático meio-sorriso, foi o líder político e espiritual absoluto da Colônia Dignidade durante três décadas

blog1hand-prawo2Paul Schaefer foi enterrado ontem, segunda-feira, em um túmulo sem nome no cemitério Parque Recuerdo de Puente Alto, depois que os habitantes de Villa Baviera, que ele fundou e administrou durante três décadas e meia, recusaram-se a albergar seu corpo para o descanso eterno em suas terras.

Somente cinco pessoas acompanharam seu féretro em Puente Alto, que ao sair da casa funerária Lar de Cristo precisou esquivar uma multidão que lhe arremessou .

Motivos para que Schaefer fosse considerado persona non grata havia de sobra, já que possuía um currículo controvertido. Esse ex-cabo do exército do Terceiro Reich, além de declaradas simpatias (e militância) nazista, era pedófilo. De quebra, participou de torturas a prisioneiros políticos da ditadura militar chilena, com a qual colaborou ativamente com a “Colônia Dignidade”, uma fazenda de 17 mil hectares, que serviu de centro de detenção clandestino. E, além disso, era declarado amigo do general Augusto Pinochet.

Schaefer, que morreu no sábado no hospital da ex-penitenciária de Santiago do Chile, estava preso desde 2005, quando foi detido na Argentina, para onde havia fugido em 1997.

Durante oito anos esteve escondido em território argentino.O motivo: fugir da Justiça chilena, que o havia condenado a 7 anos de prisão por homicídio, a 3 anos por posse ilegal de armamento, outros 3 anos pela aplicação de torturas, além de 20 anos por abusos sexuais a meninos.

 A carreira de Schaefer começou em Sieburg, um vilarejo à beira do Reno, próximo a Bonn. Ali, entrou para o partido nacional-socialista de Adolf Hitler. Na sequência, alistou-se nas tropas nazistas que invadiram a França.

Com a derrota germânica em 1945, Schaefer entrou em uma igreja batista na Alemanha. No final dos anos 50, decidiu criar sua própria instituição social, a “Missão Social Privada”. Ali comandava sessões de leituras bíblicas nas quais seus seguidores começaram a acreditar que ele possuía “características divinas”. Mas, o que poucos sabiam é que Schaefer sodomizava os menores de idade levados pelos pais à instituição do ex-cabo nazista.

blogcoloniadignidad

Entrada da Colônia Dignidade

Em 1961, foi denunciado. Schaefer decidiu fugir para o distante Chile. Ali, acompanhado por dezenas de seguidores, criou a “Sociedade Beneficente Dignidade” na região de Maule.

Schaefer fez da “Colônia Dignidade” seu feudo pessoal, um espécie de pequeno país-igreja que continha em suas 17 mil hectares uma escola, padaria, refeitórios, um hospital, moradias, áreas de plantação, cinco empresas (que funcionou fora da legislação trabalhista e tributária do Chile durante décadas), além de uma rede secreta de túneis e bunkers. A colônia, protegida por cercas de arame farpado, havia ficado de fora de todos os censos realizados no Chile. Os habitantes tinham um contato mínimo com o exterior e eram doutrinados constantemente. Todos os colonos provenientes da Alemanha eram proibidos de manter contato com seus parentes na terra natal.

Schaefer determinou que as famílias que residiam na Colônia deveriam ser separadas. Desta forma, sob ordens de seu líder, os pais não podiam falar com seus próprios filhos. As crianças não sabiam que tinham irmãos. As relações sentimentais estavam controladas por Schaefer e só podiam acontecer após sua autorização.

Crianças dos camponeses da área de fora da Colônia eram entregues a Schaefer, que prometia a seus pais que seus filhos teriam “educação gratuita”. Schaefer gostava de ser chamado de “tio permanente” de Dignidade.

A maior parte dos habitantes da Colônia – boa parte deles imigrantes alemães e camponeses chilenos – trabalharam durante anos de graça para Schaefer. “Era um Estado dentro do Estado”, afirmaram juristas, sociólogos e políticos chilenos nos anos 90, quando o funcionamento da sinistra estrutura tornou-se público.

A SERVIÇO DE PINOCHET

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O general Augusto Pinochet, acompanhado por sua esposa Lucía, em visita à Colônia Dignidade, centro onde Schaefer praticava a pedofilia sem impedimentos do governo militar

blog1hand-prawo2A partir do golpe de 1973, protagonizado pelo general Augusto Pinochet, a Colônia Dignidade transformou-se também em um centro clandestino da DINA (o serviço secreto do regime de Pinochet). Ali foram detidas e torturadas centenas de prisioneiros do regime.

O estabelecimento de Schaefer também foi usado para a fabricação clandestina de gás sarin, que a ditadura utilizava em pequenas doses para realizar atentados contra exilados políticos no exterior.

O lugar também transformou-se em um estabelecimento de produção de armas. Um dos túneis da colônia os homens de Schaefer copiaram uma sub-metralhadora israelense e a produziram de forma clandestina.

A colônia começou a chamar a atenção em 1985, quando o acadêmico americano Bris Weisfeiler, judeu nascido na Rússia, desapareceu quando estava acampando nas proximidades do feudo de Schaefer. Weisfeiler, cujo corpo jamais foi encontrado, teria sido detido e torturado por Schaefer e outros nazistas do lugar durante três anos, segundo indicam relatórios do Departamento de Estado dos EUA.

Pouco tempo depois foi a vez do turista holandês Marteen Visser, um belo jovem de 18 anos de cabelos loiros encaracolados que teria sido usado por Schaefer para satisfazer seus instintos pederastas. Marteen nunca foi localizado. Mas, diversas testemunhas afirmam que foi prisioneiro de Schaefer durante anos.

Diversas denúncias sobre abusos sexual de crianças e adolescentes foram realizadas na Alemanha ao longo dos anos 80. No entanto, o governo Pinochet ignorou todos os pedidos de investigações.

FIM DE SCHAEFER

blog1hand-prawo2Em 1990 o governo Pinochet acabou. A proteção de Schaefer estava terminada.

Entre 1991 e 1994 a Justiça pressionou Schaefer, que ainda contava com respaldos de setores políticos civis alinhados com o ex-ditador.

Com a volta da democracia começaram a aparecer denúncias contra o líder da Colônia, indicando que havia abusado sexualmente de dezenas de crianças.

Em 1997 a Justiça chilena entrou na Colônia Dignidade para prender Schaefer, o líder da comunidade havia desaparecido. Escondido nos túneis secretos da colônia, ali permaneceu até que conseguiu fugir para a Argentina com a ajuda de velhos amigos ex-integrantes das ditaduras de ambos países.

A Justiça encontrou os restos de diversos automóveis enterrados nos terrenos da Colônia Dignidade. Os carros pertenciam a opositores políticos do regime de Pinochet que haviam sido assassinados.

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Schaefer foi detido na Argentina em março de 2005 graças à uma investigação jornalística do Canal Trece, do Grupo Clarín. Sua filha adotiva, Rebeca, foi sua permanente companheira Schafer nunca explicou em quais circunstâncias havia adotado a filha.

Nesse mesmo ano o presidente Ricardo Lagos envia um interventor à Colônia Dignidade. As autoridades chilenas descobrem um colossal arsenal no lugar, incluindo lança-mísseis, granadas, além de armas leves automáticas.

Simultaneamente, centenas de ex-colonos retornam para a Alemanha, enquanto que os 200 habitantes que ficam iniciam uma revisão coletiva do sinistro passado. Com o respaldo da embaixada da Alemanha, os habitantes remanescentes são ajudados por uma equipe de psicólogos.

Segundo um dos psiquiatras, Niels Biederman, somente Schaefer praticava a pedofilia. “Somente ele, mais ninguém…”.

Com o fim do reinado de Schaefer, Colônia Dignidade foi rebatizada de “Vila Baviera”.

Em 2008, a comunidade de Vila Baviera divulgou uma carta aberta na qual expressa o repúdio ao passado do estabelecimento e sobre a “perversidade” de Schaefer e sua intenção de inserir-se na sociedade chilena.

Atualmente, Vila Baviera vive do turismo, dos trekkings, e mantém um dos melhores restaurantes da região, especializado em gastronomia alemã.

Vídeo sobre a Colonia Dignidade, aqui. 

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O general Augusto Pinochet, protetor de Paul Schaefer

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

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Kirchner, considerado o verdadeiro poder do governo de sua esposa e sucessora, Cristina Kirchner, pretende ter um cargo internacional

 

blog1mao3O ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), atual deputado – e considerado o verdadeiro poder no governo de sua esposa, a presidente Cristina Kirchner – contaria com o respaldo da maioria dos presidentes dos países da América do Sul para transformar-se no secretário-geral da Unasul, entidade supranacional criada em 2007 com a intenção de aprofundar a integração econômica e política da região. O mais recente respaldo concedido a Kirchner provém do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O apoio do governo brasileiro à candidatura de Kirchner – conhecido por ter pouco tato, ausência de diplomacia e por sua aversão a reuniões internacionais – foi anunciado dias atrás pelo governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, homem de confiança do casal presidencial. Scioli, ex-vice-presidente da república (2003-2007), afirmou em Nova York: “a administração do Brasil deu seu respaldo a Kirchner”.

O plano é que Kirchner seja entronizado no comando da Unasul na reunião de cúpula que esta entidade regional realizará nos dias 4 e 5 de maio em Buenos Aires.

Nesse conclave, além da candidatura de Kirchner, os presidentes discutiriam a formação de um fundo de ajuda sul-americano para o Haiti. O encontro também servirá para debater que posição a Unasul assumirá perante o governo do novo presidente de Honduras, Porfírio Lobo, ainda não reconhecido por vários países da América do Sul.

O sonho de Kirchner de ter um cargo internacional conta com o respaldo explícito do presidente boliviano Evo Morales, além do venezuelano Hugo Chávez e do equatoriano Rafael Correa. Outros países da região concordam com a essa candidatura, embora sem tom enfático.

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O presidente venezuelano Hugo Chávez é um dos mais entusiastas defensores da candidatura de Kirchner

O Uruguai foi o único empecilho declarado contra Kirchner ao longo dos últimos dois anos por causa da tensão diplomática entre o governo argentino e o presidente uruguaio Tabaré Vázquez (que vetou a escolha de Kirchner).

No entanto, o novo presidente do Uruguai, José Mujica, que tomou posse em março, segundo informações extraoficiais, teria indicado à presidente Cristina Kirchner que não teria obstáculos contra a candidatura de seu esposo. 

Oficialmente, o governo uruguaio ainda não confirmou que respaldará Kirchner. Fontes diplomáticas indicam que o governo uruguaio está esperando nesta terça-feira a definição na corte internacional de Haia sobre o conflito que o país mantém com a Argentina por causa da fábrica de celulose da empresa finlandesa Bótnia, instalada nas margens uruguaias do rio Uruguai, na fronteira de ambos países.

Caso o parecer seja favorável ao Uruguai (e na hipótese que a presidente Cristina o acate) o presidente Mujica apoiaria a candidatura de Kirchner.

Mas, na semana passada, o chanceler equatoriano Ricardo Patiño indicou que a unanimidade não seria necessária para colocar Kirchner no posto de secretário-geral. Segundo ele, o “ideal” é que a pessoa eleita pelos membros da Unasul seja eleito de forma unânime…mas, caso isso não seja possível, será consagrado quem conseguir maior número de adesões.

Atualmente, o único candidato é Kirchner.

blogvinhetas19 Sobre o conflito Uruguai-Argentina: O governo uruguaio está irritado com Kirchner, pois ele, desde 2005, apoiou os manifestantes argentinos que fazem piquetes nas pontes que ligam a Argentina com o Uruguai. Os manifestantes protestam contra o funcionamento da fábrica de celulose Botnia, do lado uruguaio da fronteira, alegando que a empresa polui o rio Uruguai, que divide os dois países.

Os manifestantes argentinos bloqueiam uma das pontes de forma ininterrupta, há quase quatro anos, impedindo a passagem de pessoas, bens e veículos.

O Uruguai levou o caso à Corte Internacional de Haia, alegando que os piqueteiros argentinos, com a conivência da Casa Rosada, viola o direito de livre circulação do Mercosul.

blogvinhetas41TRANSFERÊNCIA TEMPORÁRIA – A certeza da eleição de Kirchner é uma certeza no círculo do ex-presidente. Assessores do ex-presidente avaliam reciclar um edifício governamental abandonado da rua Juncal, na área central de Buenos Aires, para que Kirchner ali instale a secretaria-geral da entidade.

O Secretariado permanente da Unasul, quando seja estabelecido, ficará em Quito, Equador. Mas Rafael Correa, amigo de Kirchner, estaria de acordo na transferência temporária da sede para Buenos Aires.

Atualmente, a Unasul conta com presidentes pro-tempore, de um ano de duração. O posto é ocupado, de forma rotativa, pelos presidentes dos países que integram a entidade. O objetivo do posto de Secretário-Geral é de que a entidade conte com alguém que se ocupe de forma executiva da estrutura.

A duração do mandato é de um ano. A não ser que as regras sejam modificadas.

 

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Kirchner, um dia antes de passar a presidência para a esposa em dezembro de 2007, reunido com presidentes sul-americanos para a assinatura da ata de criação do Banco do Sul (foto da presidência da República)

blogvinhetas41COQUETÉIS, AUSÊNCIA PARLAMENTAR E PERGUNTAS – Diplomatas consultados pelo Estado ressaltam que Kirchner não se enquadra no papel de um líder regional para armar consensos e desativar crises, já que não tem papas na língua e aplica a estratégia de ‘bater primeiro para conversar depois’. Eles ressaltaram que o próprio possui aversão às cúpulas. “Não gosto de ir por aí de coquetel em coquetel”, disse Kirchner durante seu governo.

No entanto, em Buenos Aires, no âmbito político também comenta-se que Kirchner não se adapta à sua nova função, isto é, a de deputado federal (foi eleito em junho e tomou posse em dezembro). O marido da presidente Cristina só foi à sessão de juramento do cargo e à abertura do ano parlamentar. Nunca mais colocou os pés no plenário, apesar do salário que recebe para desempenhar a função (seu colega ex-presidente, Carlos Menem, atualmente senador, tampouco costuma dedicar-se às atividades de seu cargo, embora também seja pago para estar no plenário).

O regulamento da Unasul determina que a pessoa escolhida para coordenar essa entidade sul-americana não poderá intervir na política nacional de seu país. Isso levou os analistas em Buenos Aires a perguntar: “Kirchner conseguirá conter a si próprio e não intervir na política argentina?”

blog1vinhetas44 ORIGENS

A Unasul é composta pelos 12 países da América do Sul: a Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Suriname e Guiana (a ex-Guiana Britânica). As únicas exclusões da Unasul na América do Sul são a Guiana Francesa (departamento de além-mar da França) e as Ilhas Malvinas (pertencente à Grã-Bretanha).

 A Unasul foi criada em 2007 com a intenção de aprofundar a integração econômica e política da região. Ela foi constituída formalmente em maio deste ano em Brasília. Sua antecessora foi a Comunidade Sul-americana de Nações (CSN), fundada em 2004.

A suposta praticidade da Unasul como organização supranacional é constante alvo de críticas por parte de partidos da oposição dos vários governos da região, que consideram que este organismo só acrescenta mais burocracia regional.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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A fiaca é expansiva. Nesta ilustração de 1890, vemos um grupo de amigos contagiados pela fiaca

A fiaca é expansiva. Nesta ilustração de 1890, vemos um grupo de amigos contagiados pela fiaca

CONCEITO

No Lunfardo, denominação da gíria falada em ambas margens do Rio da Prata, a palavra “Fiaca” designa a “preguiça involuntária”. Isto é, a preguiça sem premeditação. Portanto, preguiça digna de todo respeito. Um termo que poderíamos usar a granel nestes dias de pós-Carnaval.

AFINS

Apolillar (ou Apoliyar): Verbo que origina-se no napolitano “appollaiare”, que refere-se ao “pollaio” (o galinheiro). Isto é, faz alusão às galinhas, que vão dormir cedo. Neste caso, ‘apolillar’ era usado como “descansar”. Mas, com o passar das décadas, começou a ser algo equivalente a “descansar mesmo!”.

Fiacún: O protagonista e praticante da fiaca.

Vago: Equivalente ao termo “vagal” usado no Brasil

Vagoneta: Uma derivação de vagal. Mesmo significado.

Squenum: palavra do lunfardo que provém do italiano “squena”. Mais especificamente, do dialeto lombardo, e significa “costas”. Usado em Buenos Aires no final do século XIX e primeira metade do XX. É a pessoa que não trabalha mas consegue passar desapercebido em sua preguiça pois sabe fingir muito bem que trabalha (enquanto não faz nada).

Dolce far niente: Expressão italiana perfeitamente compreendida na italianizada Argentina. Trata-se do “doce nada fazer”.

 FRASE TÍPICA, inquisitiva:

“Tenés fiaca?” (pode ser dita a alguém ao ver que boceja ou se espreguiça)

Mafalfa, a menina-filósofa de Quino, em um êxtase fiacún

Mafalfa, a menina-filósofa de Quino, em um êxtase fiacún

DEFESA DA FIACA

O escritor argentino Roberto Arlt (1900-1945), autor de “Os sete loucos”, “O brinquedo raivoso” e “Saverio o cruel” fez uma enfática defesa da “fiaca” em suas crônicas reunidas no livro “Aguafuertes porteñas”.

Segundo Arlt, “confundir a ‘fiaca’ com o ato de ‘tirarse a muerto’ (se fazer de morto) é a mesma coisa que confundir um asno com uma zebra ou um burro com um camelo. Exatamente a mesma coisa. ‘Tirarse a muerto’ supõe premeditação de não fazer algo, enquanto que a ‘fiaca’ exclui toda a premeditação, elemento constituinte de dolo, segundo os juristas. Isto é, o ‘fiacún’, ao negar-se a trabalhar não opera com premeditação, mas sim intuitivamente, fato que o torna digno de todo respeito!”.

 

Arlt, o teórico da fiaca

Arlt, o teórico da fiaca

Arlt afirma que “o ‘squenum’ (vagal) não trabalha. O homem que ‘se tira a muerto’ (se faz de morto) faz de conta que trabalha. O primeiro é um cínico da preguiça; o segundo, um hipócrita do ‘dolce far niente’. O primeiro não oculta sua tendência a ser vagal. Ao contrário. A estimula com longos banhos de sol. O segundo vai até o lugar de trabalho. Não trabalha mas faz de conta que trabalha quando vê que seu chefe está chegando perto. E logo ‘se tira a muerto’ deixando que seus companheiros se matem trabalhando”. 

Arl também sustenta que “fiaca” provém do genovês, cujo sentido original referia-se ao “esgotamento físico provocado pela falta de alimentação momentânea”. Languidez e sopor.

 FIACA, TEATRO E CINEMA

Filme retrata vida de aplicado trabalhador que um dia é tomado pela 'fiaca'

Filme retrata vida de aplicado trabalhador que um dia é tomado pela 'fiaca'

A presença da fiaca gerou uma das mais saborosas obras do teatro e do cinema argentino, “La Fiaca”.

A peça é da autoria de Ricardo Talesnik. O filme é de Fernando Ayala.

No caso do filme o ator protagonista é Norman Briski. A atriz principal é Norma Aleandro, conhecida no Brasil pelos filmes “A História Oficial” e “O filho da noiva”.

A obra trata da história de um homem – que costumava ser o protótipo do obediente trabalhador de um escritório – que um dia decide não ir ao trabalho porque tem fiaca. Sua família e colegas de trabalho tentam dissuadi-lo, sem sucesso.

Em 2005 a obra transformou-se em um musical. Mais detalhes neste artigo do jornal “La Nación”. Clique aqui:  

 PENSAMENTOS SOBRE A FIACA NA FILOSOFIA PORTENHA

- A fiaca não se cria nem se destrói, ela somente é transmitida

- A fiaca é inversamente proporcional ao trabalho e diretamente proporcional a todo o resto das coisas.

- A fiaca em um grupo de pessoas tende ao equilíbrio.

- A fiaca é uma energia que não se transforma em trabalho.

- A fiaca sempre é absoluta.

- A fiaca jamais é relativa.

- A fiaca não tem limite.

- A fiaca sempre incrementa.

- A fiaca se reproduz exponencialmente.

- A fiaca é eterna.

- A fiaca é parte da Criação. Foi criada no sétimo dia.

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