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Ariel Palacios

 

Amado Boudou, vice-presidente argentino, na 6afeira passada durante uma coletiva de imprensa que não permitiu perguntas dos jornalistas. Monólogo do vice, ex-ministro da Economia,durou 45 minutos.

O “Boudou-gate”, irônica denominação do escândalo de corrupção cujo principal suspeito é o vice-presidente Amado Boudou, provocou nesta terça-feira por efeitos colaterais a primeira baixa nas fileiras do governo com a renúncia do procurador-geral da República, Esteban Righi. O motivo da saída de Righi – um histórico peronista – foi a denúncia feita pelo vice-presidente na sexta-feira passada, quando acusou Righi e seus assessores de terem tentado suborná-lo em 2009. Na ocasião, Boudou, para esquivar explicações sobre seu suposto envolvimento em tráfico de influências, disparou acusações contra a mídia e integrantes da oposição. No entanto, causou surpresa ao atacar diversos aliados do governo, entre eles Righi.

“Meu passado me defende. A esta altura de minha carreira não tenho que me defender do ataque de Boudou”, teria dito Righi, visivelmente ofendido, a um grupo de amigos na segunda-feira à noite. Ontem à tarde, Righi apresentou formalmente sua renúncia à presidente Cristina. Na carta, o ex-procurador indica que as acusações de Boudou são falsas.

O vice é suspeito de tráfico de influências na licitação da Casa da Moeda que favoreceu a empresa Companhia de Valores Sul-americana, a maior gráfica do país especializada na impressão de cédulas de pesos.

O contrato da Casa da Moeda é para imprimir 50% do total das notas de 100 pesos (seriam 600 milhões de notas).

O dono da empresa, Alejandro Vanderbroele, é – segundo sua ex-esposa, Laura Muñoz – testa de ferro de Boudou. O vice-presidente, no entanto, afirmou publicamente que nunca viu Vanderbroele em sua vida. Mas, Muñoz retruca e afirma que seu ex e o vice são amigos de longa data. Por este motivo, o juiz Rafecas também está investigando Boudou por suposta lavagem de dinheiro.

Além disso, a Justiça investiga se Boudou interferiu a favor da suspensão do estado de falência da gráfica quando foi comprada por Vanderbroele.

Na quinta-feira passada o juiz federal Daniel Rafecas ordenou uma blitz no apartamento que Boudou possui no elegante bairro de Puerto Madero. O vice aluga o imóvel para Fabián Carosso Donatiello, sócio e amigo de Vanderbroele. Mas, na hora em que as forças de segurança entraram no apartamento para fazer a blitz, o imóvel estava totalmente vazio, já que o inquilino não visita o país desde o ano passado. No entanto, o juiz verificou que Vanderbroele paga o condomínio e a TV a cabo do apartamento que Boudou aluga para Donatiello.

Além disso, embora o vice diga que não possui vínculo algum com o empresário, Boudou mora em um apartamento em Puerto Madero que – coincidentemente - aluga de outro sócio de Vanderbroele.

Boudou participa de uma cerimônia oficial na Casa Rosada.

Na sexta-feira, perante o crescimento do escândalo, Boudou – “desesperado”, segundo os analistas políticos – convocou uma coletiva de imprensa para explicar sua posição. Mas, em vez de responder as perguntas dos jornalistas, fez um monólogo de 45 minutos ao longo dos quais lançou uma saraivada de acusações contra a oposição e alguns integrantes do próprio governo Kirchner.

Na segunda-feira, perante o crescimento de pedidos da oposição para que Boudou explicasse porque não havia denunciado a suposta tentativa de suborno feita pelos assessores de Righi, o vice-presidente foi aos tribunais apresentar uma denúncia contra o escritório de advogados do ex-procurador.

Segundo o vice, o escritório de advogados de Righi ofereceu fazer lobby para Boudou,para evitar problemas na Justiça (tal como possui agora, com Vanderbroele). Boudou rejeitou a oferta na época. E, coincide, que o promotor que pediu a investigação sobre o vice é Carlos Rívolo, protegido de Righi.

Boudou também acusou o juiz Rafecas, indicando que age como “uma agência de notícias”, filtrando informações à imprensa. Rafecas, até este escândalo, era um dos juízes mais elogiados pelo kirchnerismo.

O analista político e ex-embaixador Jorge Asís, sustenta que em seu “tobogã” de queda de popularidade “a presidente Cristina cometeu três erros gaves em relação a Boudou. O primeiro foi designá-lo vice; o segundo, o de sustentá-lo mesmo quando o escândalo estava crescendo sem parar. O terceiro, o de ter armado uma defesa de seu vice quando já era tarde demais”.

O vice-presidente Boudou, segundo uma pesquisa elaborada pela consultoria Isonomia, está com a credibilidade arrasada: somente 15,4% dos entrevistados consideram que é totalmente inocente deste escândalo de corrupção.

O ataque a Righi feito por Boudou – que os peronistas tradicionalistas encaram como um ex-neoliberal arrivista no peronismo – foi criticado pelo filósofo Ricardo Foster, um dos líderes do Carta Abierta, grupo de intelectuais ultra-kirchneristas. “Tenho muito respeito por Righi e pelo juiz Rafecas”, disse Foster. “A Justiça seguirá seu caminho, independentemente do que o vice diga”, afirmou o filósofo, em uma inédita crítica a Boudou.

Setores da oposição pedem o julgamento político do vice. Além disso, dentro do próprio governo, um grupo quer que Boudou renuncie, enquanto outros setores consideram que isso implicaria em um imenso custo político. Em off, um alto ex-ministro do ex-presidente Nestor Kirchner afirmou ao Estado que “Cristina não removerá Boudou. Não somente porque isso implicaria em um custo político que ela não quer enfrentar. Mas, principalmente por teimosia. Ela quis colocar Boudou no posto de vice-presidente e não atura que alguém possa lhe recomendar o contrário”.

Na quarta-feira à noite a presidente Cristina Kirchner definiu que o novo procurador-geral da República será Daniel Reposo, homem que colaborou com Boudou em 2009 quando o então economista era o diretor da ANSES, o sistema previdenciário argentino.

No entanto, a designação de Reposo dependerá do Parlamento. Mas, ali o governo possui uma confortável maioria.

Esteban “Bebe” Righi, peronista militante há cinco décadas, renunciou por causa de Boudou, peronista há meia década.

1973, a “Primavera Peronista”: Esteban “Bebê” Righi, na extrema direita da foto. A seu lado, o então presidente Héctor Cámpora.

RIGHI, HISTÓRICO DA ESQUERDA PERONISTA – Esteban “Bebê” Righi – militante do partido peronista há meio século – foi ministro do interior durante os três meses de governo do presidente Héctor Cámpora, em 1973, quando centenas de prisioneiros políticos, entre os quais dezenas de montoneros, foram colocados em liberdade. O período, conhecido como a “primavera peronista”, é admirado pelos atuais integrantes do governo, a maioria dos quais eram jovens militantes nos anos 70, tal como a própria presidente Cristina Kirchner.

Righi, na época, tinha 35 anos. Sua juventude e sua cara arredondada valheram-lhe o apelido de “Bebê”.

Em 2005 o então presidente Nestor Kirchner designou Righi para o posto de procurador-geral da república. O experiente advogado deixou seu escritório, administrado por sua mulher e filho, que continuou com uma carteira de clientes que incluem o ministro do Planejamento Julio De Vido, o secretário de Comércio Interior Guillermo Moreno e o ministro do Trabalho, Carlos Tomada.

No novo posto, Righi foi útil ao governo, arquivando uma série de denúncias de casos de corrupção da Era Kirchner.

 

“Bebê” Righi, recentemente, quando ainda era procurador-geral da República. Righi, com 50 anos de militância peronista, renunciou por causa de Boudou, que está no peronismo há pouco mais de meia década.

ROCK, I PHONE & NACIONAL y POPULAR - Boudou costuma exibir seus dotes de roqueiro amador tocando a guitarra elétrica em cerimônias do governo e comícios. O vice não conta com o respaldo de diversos setores internos do governo, especialmente os peronistas tradicionais, que consideram que Boudou tem um passado “excessivamente neoliberal”. Esses setores encaram o vice como um “arrivista” no estatizante kirchnerismo.

O vice coleciona canetas-tinteiro e motos Harley Davidson (obviamente, importadas). E é um fã dos eletrônicos feitos no exterior. No entanto, o vice faz pose de defensor do “nac y pop” (nacional y popular), denominação da política protecionista do kirchnerismo e de defesa da produção nacional.

Paradoxalmente, na semana passada Boudou protagonizou uma curiosa cena quando, pela rede de micro-bloggings Twitter defendeu a indústria nacional…desde um IPhone importado.

O comportamento de Boudou, definido como “fútil” pelos analistas políticos, parece ter preocupado a própria presidente Cristina. Em dezembro passado, antes de iniciar uma breve licença médica, interrompeu um discurso na Casa Rosada para virar para Boudou – que ficaria na presidência interina do país – e fazer um alerta: “vê lá o que vai fazer, hein? E isto que eu disse não é brincadeira!”

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Vice-presidente A.Boudou celebra com pilotos o final da primeira corrida de TC com a transmissão estatizada

Depois de estatizar as transmissões dos jogos de futebol, de estar a ponto de deslanchar o funcionamento de uma empresa de ibope estatal e de lançar histórias em quadrinhos estatais – e gratuitas – o governo de Cristina Kirchner aumenta sua presença na área de mídia e entretenimento: a presidente estatizou as transmissões das corridas de Turismo Carretera (a principal categoria do automobilismo na Argentina, disputada com veículos antigos da Ford, Chevrolet e Dodge que contam com mecânica envenenada).

O contrato de quatro anos de duração implicará no desembolso de US$ 93 milhões por parte do governo Kirchner, que com esta medida pretende levar o automobilismo à toda a população. As transmissões começaram a ser realizadas no domingo pelo Canal TV Pública, outrora uma estação dedicada a programas culturais que nos últimos anos transformou-se em uma tribuna de propaganda política e de jogos de futebol com publicidade exclusiva de apologia das obras do governo Kirchner.

Até a assinatura deste acordo as corridas eram transmitidas de forma gratuita na cidade de Buenos Aires. Mas, no resto do país eram veiculadas pela TV a cabo. Os partidos da oposição acusam o governo de realizar “populismo esportivo” com as medidas de estatização das transmissões de eventos esportivos.

O lançamento oficial do acordo do Turismo Carretera – que está dentro da política do governo de “esporte para todos” – foi realizado pelo vice-presidente Amado Boudou com uma cerimônia oficial em Mar del Plata (sua cidade natal). Alguns dos mais famosos pilotos argentinos da categoria estiveram presentes. “Conseguimos que esta corrida chegue à toda a população!”, exclamou Boudou, erguendo as mãos para cima, a modo de remake do emblemático gesto do defunto presidente Juan Domingo Perón.

Perón, nos anos 50, sentado no automóvel de corrida do ás argentino Juan Manuel Fangio

Esta estatização, tal como ocorreu com as transmissões dos jogos de futebol (ocorrida em 2009), implicam em mais um revés para o Grupo Clarín, já que o holding multimídia tinha um acordo com a Associação de Corredores de Turismo Carretera (Actc). Mas, a associação anunciou que suspendia o acordo que havia mantido com o o Grupo Clarín ao longo das últimas duas décadas.

Para romper o acordo que tinha com o holding privado, o governo Kirchner triplicou a oferta do Clarín: os pilotos, em vez de receber US$ 8 milhões por ano receberão US$ 23 milhões anuais.

REESTATIZADO E SEM LUCROS - Desde fevereiro de 2010 o governo Kirchner proíbe as publicidades do setor privado durante as transmissões dos jogos de futebol da primeira divisão na Argentina. As únicas publicidades autorizadas nessas transmissões – que foram estatizadas há dois anos e meio graças a um acordo com a Associação de Futebol da Argentina (AFA) – são as do governo Kirchner.

O espectador que assiste os jogos do esporte mais popular dos argentinos é bombardeado por imagens de obras realizadas pela presidente Cristina, além das medidas políticas e auto-elogios sobre seu próprio governo.

No total, desde 2009 o “Futebol para todos” custou ao Tesouro Público um total de US$ 470 milhões, desembolsado à AFA, segundo os dados oficiais. No entanto, estimativas independentes indicam que o gasto total foi de US$ 849 milhões. O contrato com a AFA expira em 2019.

O governo Kirchner não obteve lucro financeiro algum com a estatização das transmissões dos jogos.

IBOPE ESTATAL

O governo Kirchner inaugurará em abril 2012 uma entidade estatal que medirá a audiência das empresas de mídia da Argentina, transformando-se no primeiro caso mundial de um “ibope estatal”. Os assessores da presidente Cristina sustentam que a nova empresa estará aberta para a consulta de todos os setores “dentro de um esquema de democratização de mídia”. O plano, afirmam, é o de “criar uma referência de consumos culturais e de audiência na Argentina”.

A nova companhia pública, que rivalizará de forma explícita com a subsidiária argentina da brasileira Ibope, dependerá da Autoridade Federal de Serviços de Comunicação Audiovisual (Afsca).

O governo afirma que é “necessário” um “sistema público de medição”, já que considera que existe um “monopólio” por parte da Ibope no mercado de medição de audiências na Argentina.

Ricardito Minipyme, jovem que defende a política industrial do governo e luta contra a opressão das grandes multinacionais

HISTÓRIA EM QUADRINHOS ESTATAL

A presidente Cristina pretende conquistar os corações e mentes do público infanto-juvenil argentino por intermédio das primeiras histórias em quadrinhos estatais da América do Sul, distribuídas pela agência estatal de notícias Telam – a maior do país – que podem ser usadas gratuitamente pelos jornais argentinos.

O objetivo destes quadrinhos, segundo os chefes da agência, é o de “recuperar para os leitores o relato das aventuras com um olhar social em consonância com o projeto de país na Pátria Grande impulsado pelo governo do presidente Néstor Kirchner e de Cristina Kirchner”.

Desta forma, os leitores terão a opção de deixar de lado as tirinhas que os integrantes do governo chamam de “estrangeiras” ou “traidoras da pátria” para passar a ler historinhas “nacionais e populares”.

Os personagens das duas primeiras tirinhas lançadas pela Télam são “Juan Sur” (João Sul), agente secreto nacional e popular da União de Nações Sul-americanas (Unasul) que terá a missão de desvendar as tramoias das corporações internacionais contra os governos sul-americanos e “Ricardito Minipyme” (Ricardinho Micro-empresa), que relata a história de um nacionalista e entusiasta jovem que participa da criação de uma microempresa argentina.

Sur, Juan Sur. Agente secreto da Unasul. Ou, a conexão Quito-Buenos Aires.

          

E, nada a ver com a postagem acima, Armstrong, Louis, canta “When you’re smiling”.

Na foto abaixo, Satchmo toca para duas damas: a esfinge e a esposa.

  

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“Esse não”: Presidente Cristina Kirchner não quer que seu vice atual, Julio Cobos, presida a cerimônia de sua segunda posse, dia 10 de dezembro.

A presidente Cristina Kirchner, reeleita nas eleições de outubro passado, não deseja a presença de seu próprio vice-presidente, Julio Cobos, na posse de seu segundo mandato. Cristina, que considera o vice um “traidor”, quer driblar a Constituição argentina e evitar que Cobos – que também acumula o cargo de presidente do Senado – faça a leitura de seu juramento presidencial. No entanto, os assessores jurídicos da Casa Rosada estão elaborando estratégias para modificar a tradicional cerimônia, marcada para o dia 10 de dezembro.

O argumento do governo é que Cristina, por ser reeleita, sucede a si própria. Portanto, afirmam no palácio presidencial, ela própria poderia ler seu juramento. Na sequência, Cristina pegaria de cima da mesa da presidência do Senado a faixa e o bastão presidencial que ela teria ali colocado segundos antes do juramento.

Mas, os historiadores recordam que o caso mais recente de reeleição, o de Carlos Menem em 1995, implicou em uma cerimônia na qual o presidente do Senado (coincidentemente, seu próprio irmão, Eduardo Menem) tomou seu juramento.

A Constituição argentina determina que o vice-presidente da República é o presidente do Senado. Neste posto, em julho de 2008, Cobos, com seu voto de Minerva, desempatou a votação sobre o “impostaço agrário” que a presidente Cristina queria aprovar. “Meu voto não é positivo”, disse Cobos na ocasião, derrubando o projeto de lei do governo Kirchner. Desde então, a presidente Cristina nunca mais falou com seu vice e o ignora em todas as cerimônias públicas.

Em diversas ocasiões os ministros de Cristina exigiram a renúncia do vice. No entanto, Cobos resistiu às pressões.

Rumores no âmbito político indicam que o governo pretenderia que Cobos renuncie a seu cargo minutos antes da posse, de forma a permitir que outra autoridade institucional tome o juramento de Cristina.

Os assessores de Cobos sustentam que por enquanto não foram notificados sobre qualquer alteração da cerimônia de posse.

No entanto, na última semana os sinais foram mais explícitos:

- O ministro da Economia, Amado Boudou, vice-presidente eleito de Cristina, disse publicamente que não quer Cobos “ao redor” na posse da presidente reeleita.

- O deputado kirchnerista Edgardo Depetri alertou Cobos publicamente: “ele deve pular fora e não tentar tomar o juramento da presidente” Cristina.

Cobos, assustado – ou precavido – indicou há poucos dias que não teria problemas em ficar fora da cerimônia, caso façam um pedido oficial desde a Casa Rosada. 

Vice-presidente Julio Cleto Cobos. Charge de El Niño Rodríguez. Site do artista:http://www.elninorodriguez.com/

VICE POLÊMICO - Em 2007, Cobos – na época governador da província de Mendoza – foi escolhido pelo então presidente Nestor Kirchner para ser o vice de sua mulher. Representante dos “Radicais-K” (denominação dos integrantes do setor dissidente da União Cívica Radical, alinhado com o casal Kirchner), Cobos era chamado ironicamente pelos peronistas de “mosquinha morta”, por causa de seu nulo carisma e falta de influência política.

Mas, o protagonismo decisivo de Cobos na derrubada do “impostaço agrário” de Cristina disparou a popularidade do vice, que durante dois anos teve uma aprovação popular que duplicava a da própria presidente (no entanto, sem timing assumir protagonismo político caiu de forma gradual e persistente nas pesquisas, até deixar de ter importância…Hoje em dia Cobos carece de qualquer tipo de influência política).

O próprio Kirchner comentou no final de 2008 que todos os dias, no café da manhã, a presidente Cristina lhe recriminava: “olha o vice que você me colocou!”.

Para os próximos quatro anos Cristina optou por um vice de comprovada fidelidade, o atual ministro da Economia, Amado Boudou, roqueiro nas horas vagas (e também nas horas de trabalho).

Boudou, daqui a 4 anos, quando conclua o segundo mandato de Cristina Kirchner, faria o mesmo que a Constituição Nacional argentina determina, e – tal como Cobos tinha a intenção de fazer (originalmente) – tomará o juramento do sucessor ou sucessora da atual presidente.

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Pinguins e dólares: origami feito com uma cédula americana imita físico dos integrantes da ordem dos Sphenisciformes, família dos Spheniscidae.

Os argentinos vivem desde segunda-feira o denominado “corralito verde”, denominação aplicada às medidas de restrição sobre o dólar que o governo da presidente Cristina Kirchner anunciou no fim da noite da sexta-feira. A ordem do governo é que todas as operações de compra e venda da moeda americana dentro da Argentina deverão passar pelos controles da AFIP (sigla da receita federal argentina), que determinará se os fundos para realizar o câmbio possuem origens justificáveis e se as operações serão autorizadas ou não. A medida, elaborada pela presidente do Banco Central, Mercedes Marcó del Pont (cotada para o posto de ministra da economia no segundo governo de Cristina Kirchner), pretende desestimular a demanda das divisas, já que o país sofre uma intensa fuga de dólares que em outubro teria sido de 3,6 bilhões. As estimativas de diversas consultorias econômicas indicam que em dezembro o país acumularia doze meses de fuga que superaria faixa recorde de US$ 24 bilhões.

A decisão causou polêmica, já que o dólar é – há décadas – o refúgio preferido dos argentinos de classe média para resguardar suas economias dos altos e baixos da economia local. Ironias da vida, o primeiro dia de aplicação das medidas do governo Kirchner coincidiu com o “dia internacional da poupança”

A medida evidencia que o governo – uma semana após a reeleição da presidente Cristina, com 53,9% dos votos – não pretende desvalorizar a moeda nacional, o peso, apesar dos pedidos dos industriais argentinos, que querem recuperar a competitividade perdida com a escalada da inflação na última meia década.

O ministro da Economia, Amado Boudou, defendeu os novos controles para as operações com dólares e afirmou que o crescimento da demanda de dólares desde o início deste ano devia-se a um “golpe especulativo”. Boudou acusou a imprensa de estar por trás desse “golpe”.

Para fiscalizar os bancos e agências de câmbio a AFIP colocou 4.400 funcionários nas ruas. Diversas casas de câmbio optaram por não abrir suas portas na 2afeira na city financeira portenha. Ainda nesta 3afeira poucas pessoas passavam pela rua San Martín, que aglutina a maior parte dessas entidades financeiras.

O dólar oficial manteve os mesmos níveis apresentados na semana passada, de 4,26 pesos para a venda. No entanto, no paralelo, a moeda americana chegou à cotação de 4,65 pesos. No interior do país superou os 5,20 pesos. Simultaneamente os bônus da dívida pública argentina cotados em dólares registraram uma alta de 3%, enquanto que os papéis em pesos tiveram em média uma queda de 3%.

O “corralito” dos dólares é mais uma medida de uma série que o governo aplicou nos últimos dias para impedir a alta do dólar. Na semana passada o governo determinou que as empresas de mineração e petrolíferas deveriam liquidar seus dólares dentro do país. Na luta contra o aumento da cotação da moeda americana, o Banco Central teve que recorrer às próprias reservas, que caíram de US$ 52 bilhões no início do ano para os atuais US$ 48 bilhões. Na semana passada o BC precisou vender US$ 800 milhões para conter o dólar.

TURISTAS, TEORICAMENTE SEM PROBLEMAS (TEORICAMENTE) – Os turistas estrangeirosem Buenos Aires, entre eles os brasileiros, não teriam – teoricamente –problemas para trocar moedas estrangeiras pelo peso argentino. Os únicos problemas seriam operacionais, já que desde segunda-feira diversas casas de câmbio permanecem com as portas fechadas, na espera de um cenário mais definido para o setor. Outros bancos e agências estavam com “problemas” em seus sistemas informáticos e não podiam fazer operação alguma.

Na rua Florida, o calçadão do centro portenho que – apesar de decadente – continua atraindo massas de turistas provenientes do Brasil – desapareceram os “arbolitos” (arvorezinhas), denominação dos cambistas ilegais que visavam principalmente os visitantes do exterior.

No entanto, segundo apurou o Estado, os turistas que optavam por pagar as mercadorias compradas com a moeda americana eram recebidos de braços abertos, já que para vários comerciantes esta será a única oportunidade que terão nos próximos tempos para adquirir dólares. Nestes casos, a cotação oferecida pelos comerciantes era mais favorável do que nas casas de câmbio.

O principal risco para os turistas brasileiros era o de não conseguir trocar para dólares ou reais nas horas prévias ao retorno ao Brasil, fato que implicaria em voltar com pesos argentinos na carteira.

 

Relação dos argentinos com a moeda americana é intensa. Fotomontagem que ironiza a obra de Michelangelo Buonarroti.

“QUEM APOSTA…” - O vice-presidente do Banco Central, Miguel Pesce, afirmou que “quem compra dólares estará fazendo um mau negócio”. A frase fez os argentinos relembrarem de Lorenzo Sigaut, ministro da economia da Argentina em 1981, que declarou “quem aposta no dólar, perde”. No entanto, a realidade contrariou o ministro, já que uma semana após a frase de Sigaut o dólar havia disparado, aumentando sua cotação em 35%. No entanto, a frase – e seu autor – entraram para o panteão dos prognósticos categóricos que falharam na História da economia nativa.

Nesta semana, na city financeira portenha, os analistas veteranos recordavam que diversos governos – civis e militares – tentaram colocar barreiras para a compra e venda de dólares em 1975, 1982, 1989 e 2001. No entanto, em todas as ocasiões as medidas fracassaram perante a tradição dos argentinos em buscar refúgio na moeda americana.

O ex-presidente do BC e atual deputado da oposição, Alfonso Prat-Gay, afirmou que as medidas serão um tiro pela culatra, já que a aplicação de controles sobre o dólar “aumentarão o desejo” dos argentinos pela divisa americana. “Para brecar a fuga, em vez disso, o governo deveria ter um combate frontal contra a inflação”, disse. Outro ex-presidente do BC argentino, Martín Redrado (foi o presidente da entidade durante a maior parte do governo Kirchner), sustentou que “a política cambial do governo gera mais incertezas do que soluções”.

Presidente Cristina E.F. de Kirchner com gesto típico em discurso. A líder do Poder Executivo argentino pede aos argentinos que não apostem de jeito algum na moeda americana. No entanto, ela própria investiu intensamente no dólar durante anos.

CRISTINA, NACIONAL, POPULAR E DOLARIZADA – A presidente Cristina, defensora do “Nac e Pop” (nacional e popular) começou a dar sinais públicos de que pretendia controlar a moeda americana no mercado argentino em julho, quando visitou a Bolsa de Valores. Na ocasião, em um discurso, a presidente pediu aos argentinos que “não apostassem no dólar”. No entanto, o pedido presidencial teve pouco efeito na época, já que as declarações oficiais de bens de 2008 e 2009 da própria Cristina Kirchner (divulgada em 2010) evidenciava que ela e seu marido e ex-presidente Nestor Kirchner, morto em outubro do ano passado, haviam colocado 62% de suas aplicações financeiras na moeda de “El Imperio” (denominação informal dos EUA no jargão político do setor), isto é, o dólar.

De forma geral, a declaração de bens do casal indica que desde 1999 a maior parte dos depósitos bancários do casal Kirchner esteve em dólares.Pouco antes da implantação do “corralito”, o mega-confisco bancário do fim do governo do ex-presidente Fernando De la Rúa (dezembro de 2001), os Kirchners – aconselhados pelo ministro da Economia, Domingo Cavallo, com quem tinham uma relação de amizade desde 1991 – retiraram a totalidade de suas economias em cash, no total de US$ 1,8 milhão (que por causa da conversibilidade econômica equivaliam a 1,8 milhão de pesos), e a colocaram em uma conta corrente do Deutsche Bank, nos EUA. Em 2002, após a desvalorização do peso, os Kirchners trouxeram suas economias de volta ao país. Nessa ocasião, o dinheiro que haviam colocado a salvo da crise no exterior valia, ao retornar 6,2 milhões de pesos (mais detalhes nesta postagem antiga, aqui).

 

“Alguém viu um dólar aí?” perguntou desafiante Perón em 1953 à multidão na Praça de Mayo. Vinte anos depois, o velho caudilho não se atreveu a realizar a mesma pergunta. Perón começou a perceber que a procura desesperada dos argentinos pela moeda americana superava qualquer discurso e carisma. Em 1973, pouco antes de encerrar seu exílio em Madri, afirmou com ceticismo: “o bolso é a víscera mais sensível do corpo humano…”. Na imagem acima, Perón em Buenos Aires, de volta ao poder e pouco antes de morrer, em 1974.

DÓLAR, OBSESSÃO ARGENTINA HÁ CINCO DÉCADAS

Em 1953, perante uma multidão acotovelada na Praça de Mayo, o general e presidente Juan Domingo Perón, desde a sacada da Casa Rosada, o palácio presidencial, fez uma pergunta em tom de desafio: “quem aí viu um dólar de perto?” Perón tentava minimizar a crescente importância da moeda americana no pós-guerra, já que esta começava a despertar o interesse dos argentinos, cansados dos constantes altos e baixos da economia local.

Nas quase seis décadas seguintes o frisson dos argentinos pelo dólar continuou crescendo e transformou-se em parte da cultura local, ao ponto de gerar um vocabulário próprio. Motivos havia de sobra, já que nesse período a Argentina passou por 13 graves crises econômicas (com desvalorizações repentinas, confiscos bancários, recessão e hiperinflação) que levaram os habitantes deste país a buscar a segurança da moeda americana.

Ao contrário dos brasileiros, cuja economia nunca foi dolarizada, os argentinos refugiaram-se no dólar mesmo durante a conversibilidade econômica, quando o governo garantia a paridade entre as moedas dos EUA e da Argentina.

Segundo autoridades americanas os argentinos são o segundo povo estrangeiro mais dolarizado no mundo, atrás – obviamente – dos Estados Unidos. Os russos estão em terceiro lugar no ranking. Os argentinos possuem US$ 130 bilhões fora do sistema financeiro, tanto em contas no exterior, caixas de segurança ou dentro do tradicional colchão e outros refúgios domésticos.

Do total de dólares vendidos ao público argentino em 2011, 80% foi comprado por pequenos e médios poupadores. Os analistas destacam que o dólar é refúgio tradicional das classes médias perante a variação de preços, enquanto que as elites possuem ferramentas mais “sofisticadas”, como ações e outras aplicações.

GLOSSÁRIO DOS DÓLARES NA ARGENTINA

Arbolito: Literalmente significa “arvorezinha”, pois ficavam em pé, imóveis, tais como os arbustos existentes nos anos 70 no meio do calçadão da rua Florida. Eles sussurravam, como o barulho do vento nas folhas: “dólar, dólar…”. O uso do termo posteriormente ampliou-se e é usado atualmente para os cambistas ilegais.

Cueva: Literalmente significa “caverna”, isto é, escritórios no centro de Buenos Aires onde as operações de compra e venda da moeda americana são de volume substancial.

Luca verde: Mil dólares. Uma “luca”, na gíria portenha, equivale a mil.

Palo verde: Um milhão de dólares. Um “palo” equivale a um milhão.

“Donde hay un mango?”: Uma “ranchera” antiga (embora com letra que resistiu à passagem do tempo) sobre a falta de dinheiro. Interpretada por Tita Merello, aqui.

E nada a ver com a temática acima,o tango “Naranjo en flor”. Aqui.

Verne luta contra a morte e procura a luz.

E já que estamos no dia de finados, minha homenagem a todos meus entrevistados e fontes nos governos (e outros âmbitos) que partiram desta vida nos últimos 16 anos. Pessoas de diferentes atividades (e de diversas ideologias e personalidades) como o ensaísta Tomás Eloy Martinez, o ex-guerrilheiro e ativista cultural Envar El Kadri, o historiador José Ignácio García Hamilton, a salvadora de judeus do Holocausto Emile Schindler, o escritor Adolfo Bioy Casares, o diplomata Gustavo Figueroa, a mãe da praça de Mayo Delícia Córdoba, o cartunista Roberto Fontanarrosa e tantos – tantíssimos – outros que de uma forma ou outra colaboraram com a atividade jornalística e com a sociedade enquanto estiveram vivos.

E, como homenagem, uma ilustração que mostra a supimpa tumba de Jules Verne (1828-1905), escritor que – caso exista um céu e caso ele esteja lá e caso eu vá parar ali – adoraria entrevistar.

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Amado Boudou – Aimé para os parentes e amigos – dá uma de Bob Dylan durante um anúncio de medidas econômicas por parte da presidente Cristina Kirchner.

oqueiro, amante das motos Harley Davidson e DJ de festas. Embora pouco costumeiro para um político e um futuro vice-presidente, este é o perfil de Amado Boudou, economista de 48 anos com physique du rôle de galã, que passou da direção do sistema de aposentadorias ao posto de ministro da Economia em 2009. Agora ele é o candidato a vice-presidente na chapa de Cristina Kirchner, que disputa sua reeleição no dia 23 de outubro. Nas últimas semanas, Boudou assumiu a missão de fazer comícios em todo o interior do país, para suavizar a tarefa da presidente Cristina, que na terça-feira, pelo cansaço e estresse, teve um quadro de hipotensão. O ministro aproveita cada ato público para – vestido com camiseta e jeans – mostrar discutidos dotes de guitarrista e encerrar os comícios ao lado da banda de rock “La Mancha de Rolando”.

Caso seja eleito com Cristina – assim indicam as pesquisas, de forma unânime – Boudou, a partir do dia 10 de dezembro, será também o presidente do Senado (na Argentina o vice-presidente da República é o presidente da câmara alta).

Além disso, diversas especulações no âmbito político indicam que a partir de abril do ano que vem Boudou poderia ocupar o cargo de presidente do Partido Justicialista (Peronista), caso a presidente Cristina não aceite o comando partidário oferecido pelas principais autoridades peronistas. O último presidente do partido foi o ex-presidente Nestor Kirchner, que morreu em outubro passado, vítima de um fulminante ataque cardíaco. Depois, o posto foi ocupado de forma provisória pelo governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli.

A eventual designação de Boudou para o comando do peronismo irrita a ala tradicional do movimento político fundado pelo general Juan Domingo Perón há 66 anos. Motivos existem de sobra, já que o bem-apessoado ministro – um recém-chegado no estatizante peronismo – foi durante a maior parte de sua vida um militante da União de Centro Democrático (Ucedé), partido de centro-direita que durante décadas foi o principal reduto do neo-liberalismo argentino. Além disso, foi professor da Universidade do Centro de Estudos Macroeconômicos Argentinos (Ucema), que serviu de “think tank” para as privatizações do governo de Carlos Menem nos anos 90.

Caso a presidente Cristina não consiga uma reforma constitucional que permita uma segunda reeleição (segundo indicam os rumores no âmbito político), Boudou é indicado como o principal “delfim” para sua sucessão.

Velhos integrantes do governo irritam-se com os comentários da presidente sobre Boudou, denominado de “o baby face” do gabinete. “Ele tem 48 anos. Mas parece bem menos, reconheço”, disse Cristina recentemente em um discurso, enquanto sorria olhando para seu futuro vice. O ciúme dos outros ministros foi evidente.

VICE LEAL – Boudou, que não tinha cacife político próprio, demonstra incondicional lealdade a Cristina. Essa é sua vantagem, afirmam os analistas, que destacam que a presidente Cristina buscava essa característica, de forma a evitar os problemas que teve com seu atual vice, Julio Cobos, que rachou com a presidente em julho de 2008, causando a pior crise política da administração Kirchner. Na ocasião, com seu voto de Minerva, Cobos derrubou no Senado o projeto de lei de Cristina que pretendia um “impostaço agrário”. Desde então a ela não fala mais com Cobos, encarado como “traidor”.

“A partir dos fatos que são de público conhecimento, a escolha de um vice é fundamental”, disse Cristina no dia em que anunciou sua escolha por Boudou.

“O principal mérito de Boudou para ser o vice é que ele é leal a Cristina. A presidente quer evitar a ‘Síndrome de Cobos”, afirmou ao Estado a analista política Mariel Fornoni, da consultoria de opinião pública Management & Fit.

Boudou com sua namorada Agustina Kampfer. O casal protagoniza tórridos beijos nas festas.

RUIVA E BEIJOS - Boudou namora a bela e ruiva jornalista Agustina Kampfer, duas décadas mais jovem que o ministro, com a qual protagoniza beijos cinematográficos em festas. “Amado me liga mil vezes por dia”, disse há poucos meses. A jornalista também usa o twitter para tercer elogios sobre o namorado.

O uso intensivo da guitarra e a dedicação intensiva a festas é o alvo de críticas que empresários e economistas disparam contra Boudou. Segundo eles, o ministro não está tomando medidas para blindar o país perante a crise internacional, além de não adotar medidas contra a escalada inflacionária, cuja existência ele nega.

Elisa Carrió, candidata presidencial da Coalizão Cívica, de oposição, comentou ao Estado sobre Boudou: “como ele toca a guitarra!”. O comentário era uma ironia, já que na Argentina a expressão “tocar a guitarra” equivale a “enrolar”.

GOVERNO ROQUEIRO - Boudou ganhou espaço de poder dentro do governo Kirchner quando, em 2008, no comando do sistema previdenciário, propôs ao casal Kirchner a ousada jogada de implementar uma reestatização da totalidade das aposentadorias. Embora o objetivo oficial a longo prazo fosse oferecer garantias para os futuros aposentados, a curto prazo a reestatização permitiu que o governo conte com uma caixa de US$ 25 bilhões extras que são destinados para fazer política.

A medida foi duramente criticada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), as principais agências qualificadoras e por vários setores da oposição de centro e centro-direita.

Recentemente, já candidato a vice, Boudou foi ao programa de auditório “Sabado Bus” e recebeu, em um sorteio, uma moto zero km. Depois, durante o programa, demonstrou seus dotes de guitarrista.

Neste link, a performance do ministro e futuro vice no programa do Telefé, canal que pertence à Telefônica da Espanha. Aqui.

nquanto Nestor Kirchner esteve vivo, o ocupante da pasta de Economia tinha pouco peso, já que o virtual ministro era o próprio ex-presidente. Mas, com a morte de Kirchner, cresceu a influência de Boudou, que tece longas apologias à sua chefe em cada discurso.

Boudou, que aprecia ternos bem-cortados e coleciona canetas-tinteiro, atualmente conta com o respaldo de Hugo Moyano, líder da principal central sindical do país, a CGT e da organização de defesa dos direitos humanos das Mães da Praça de Mayo.

Boudou, rechaça as críticas com ar rebelde. Recentemente, em um entrevista à edição argentina da revista “Rolling Stone” o ministro e eventual futuro vice resumiu a essência da administração Kirchner com uma analogia de rock and roll: “este é um governo muito roqueiro, pois tem esse espírito de atrever-se a mudar as coisas que não gosta”.

 

AIMÉ - Amado Boudou, chamado de “Aimé” (Amado em francês) por sua família e amigos, estudou no balneário de Mar del Plata, onde formou-se em Economia. Depois de trabalhar como DJ em festas no litoral, o jovem

“Era um playboy naquela época”, afirma ao Estado uma ex-colega de faculdade. Ela formou-se rápido. Mas Boudou levou vários anos a mais. “É que ele estava ocupado com sua militância política na juventude da Ucedé”, explica.

 

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Nestor Kirchner foi eleito em 2003 com 22% dos votos. Em 2007 colocou a máquina do Estado argentino para eleger sua própria esposa, a então senadora Cristina Kirchner, como sua sucessora presidencial. Até outubro do ano passado Nestor – considerado o verdadeiro poder no governo da mulher – era o candidato do casal presidencial para as eleições de 2011.

Desta forma, implementava-se o comentado plano “4+4+4+4”. Isto é, Néstor seguido de Cristina, seguido de Néstor novamente, seguido de Cristina mais uma vez, para completar um período de 16 anos. Mas, Kirchner morreu no dia 27 de outubro de 2010. Viúva, a saída para o governo foi a de uma reeleição presidencial de Cristina. O chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, disse há duas semanas que o kirchnerismo prepara-se para governar a Argentina durante os próximos “60 anos”.

A presidente Cristina Kirchner deu a largada à corrida eleitoral com objetivo de conseguir o terceiro mandato presidencial do kirchnerismo. Na noite da terça-feira ela acabou com o suspense que havia feito nos últimos meses e oficializou sua candidatura à reeleição em outubro. Nesta quarta-feira o cenário político argentino estava em polvorosa na expectativa da definição do candidato a vice-presidente, já que este despontaria como seu virtual sucessor, na ausência da possibilidade constitucional de disputar uma segunda reeleição em 2015. Os analistas políticos destacavam que a presidente, além de estar blindada contra os diversos escândalos de corrupção que assolam seu governo, está sendo favorecida pela recuperação econômica, além de uma fragmentação sem precedentes dos partidos de oposição.

Os analistas também ressaltam que Cristina é a favorita nas pesquisas de opinião pública, com uma ampla vantagem sobre os candidatos da oposição.

Caso vença nas urnas, Cristina emplacará o terceiro mandato do kirchnerismo, inciado em 2003 com seu marido, o presidente Nestor Kirchner (2003-2007). O segundo mandato do kirchnerismo foi protagonizado por Cristina, que sucedeu a seu próprio cônjuge, algo inédito na História mundial da democracia. O plano inicial do casal presidencial, até outubro do ano passado, era de uma candidatura de Kirchner para as eleições de 2011. No entanto, sua inesperada morte por um fulminante ataque cardíaco há oito meses, levou Cristina a tentar a sucessão de si própria.

O analista político e sociólogo Carlos Fara, da consultoria Fara e Associados, disse ontem ao Estado que suas pesquisas indicam que Cristina teria 47% das intenções de voto. Outros 18% estariam destinados a Ricardo Alfonsín, filho do ex-presidente Raúl Alfonsín (1983-89) e candidato da União Cívica Radical (UCR), de centro. Outros 14% dos votos seriam absorvidos pelo ex-presidente Eduardo Duhalde, que lidera uma das facções do peronismo dissidente. A deputada Elisa Carrió, candidata da Coalizão Cívica, de centro-esquerda, obteria 9% dos votos, proporção significativamente inferior aos 25% que conseguiu nas eleições de 2007, quando ficou em segundo lugar. Outros 7% dos votos ficariam nas mãos de Hermes Binner, governador da província de Santa Fe.

Com estes resultados, Cristina venceria no primeiro turno, já que no sui generis sistema eleitoral argentino, um candidato vence se conseguir mais de 45% dos votos. Outra alternativa é que obtenha pelo menos 40% dos votos, sempre que o segundo colocado esteja dez pontos percentuais atrás.

Com valores similares à pesquisa de Fara, a consultoria Ceop indica que Cristina contaria com 48,2% das intenções de voto, enquanto Alfonsín possui 12,8%. O ex-presidente Duhalde teria 7,5%, enquanto que o governador de San Luis, Alberto Rodríguez Saá teria 5,5%. Carrió obteria 5,9%.

No en tanto, uma pesquisa da consultoria Management & Fit indicou que Cristina conta com 33,4%. Mas, Alfonsín teria menos da metade de sua intenção de voto, já que teria 15,3%. Duhalde obteria 5,8%, enquanto que Rodríguez Saá conseguiria 7%. Elisa Carrió ficaria com 4%.

Segundo Fara, “independentemente das variações que os números possam ter nos próximos meses, é praticamente uma certeza de que Cristina Kirchner ganhará na primeiro turno em outubro”. O analista destacou que as eventuais variações que podem ocorrer “é a somatória de dois ou três assuntos que possam remover alguns pontos da presidnete. Mas, aí a discussão é sobre qual a amplitude desses votos que poderia perder”.

Fara considera que entre os fatores que provocariam perda de votos está “a crescente inflação, uma atitude soberba do governo – tal como ocorreu em outras ocasiões – além dos escândalos de corrupção. Mas, embora acumulados, esses fatores não provocariam uma derrota do governo”.

“O fato é que estamos registrando os níveis mais altos de otimismo sobre o futuro econômico nos últimos oito anos, graças à obras públicas, entre outros. Matematicamente Cristina Kirchner poderia até obter alguns votos a mais dos 45% conseguidos em 2007”.

O vice-presidente argentino, Julio Cleto Cobos, que rachou com o governo Kirchner em 2008. Cristina agora busca um vice de total fidelidade e alinhamento automático, já que este poderia tornar-se seu sucessor. Charge de El Niño Rodríguez. Site do artista:http://www.elninorodriguez.com/

A SÍNDROME DE COBOS - As especulações no âmbito político indicam que uma potencial vice de Cristina seria sua cunhada, a ministra da Ação Social, Alicia Kirchner, irmã do ex-presidente Néstor Kirchner, que morreu em outubro passado de um ataque cardíaco fulminante. Os rumores também indicam que o vice poderia ser um governador do norte da Argentina, onde o kirchnerismo possui um reduto eleitoral. Entre os nomes mais citados estão o governador do Chaco, Jorge Capitanich, considerado um “ultra-kirchnerista”; Sergio Urribarri, de Entre Rios; e José Alperovich, de Tucumán.

Outras especulações – baseadas nas declarações realizadas durante seu discurso de lançamento, quando ressaltou que pretendia ser “uma ponte e as novas gerações” – reforçaram os boatos de que o futuro candidato a vice poderia ser um dos integrantes da jovem geração de seu gabinete, entre eles o ministro da Economia, Amado Boudou, e o secretário de Comunicação, Juan Abal Medina.

Além disso, na lista dos “vice-presidenciáveis” também desponta o nome de Carlos Zanini, o secretário jurídico do governo, um kirchnerista histórico, já que assessora os Kirchners desde os anos 80. Outro histórico é o deputado Nicolas Fernández, da província de Santa Cruz, aliado há um quarto de século.

Os analistas destacam que este vice será crucial, já que ao contrário dos tempos em que Nestor Kirchner estava vivo, Cristina não contará com seu marido para uma eventual alternância no poder. Desta forma, os analistas sustentam que o vice terá status de “sucessor” de Cristina.

A presidente também quer evitar a “síndrome de Cobos”, em alusão a seu atual vice-presidente, Julio Cobos, da UCR, que rachou com o governo Kirchner em 2008 quando, na categoria de presidente do Senado, com seu voto de Minerva provocou a derrota do governo na votação do “impostaço agrário”. Embora pressionado pela presidente, Cobos recusou-se a renunciar, fato que lhe valeu a denominação de “traidor”. Segundo os analistas, desta vez Cristina buscará um vice de alinhamento automático e que exiba uma “blindagem de fidelidade” à presidente.

A intriga sobre o vice terminará neste sábado, quando vence o prazo para o registro do nome que acompanhará Cristina na chapa presidencial. 

  CANDIDATOS PRESIDENCIAIS

Cristina Kirchner, do partido Justicialista, sublegenda Frente pela Vitória

Ricardo Alfonsín, União Cívica Radical (UCR)

Elisa Carrió, Coalizão Cívica

Hermes Binner, Partido Socialista

Eduardo Duhalde, Partido Justicialista, sublegenda União Popular

Alberto Rodríguez Saá, Partido Justicialista, sublegenda Peronismo Federal

Jorge Altamira, Partido Operário 

Desistiram da corrida presidencial

O vice-presidente Juio Cobos, da UCR

O prefeito Maurício Macri, do Proposta Republicana

O deputado e cineasta Fernando Solanas, do Projeto Sul

 SISTEMA ELEITORAL ARGENTINO E SEU SUI GENERIS SEGUNDO TURNO

Ao contrário de outros países, nos quais para vencer no primeiro turno é preciso 50% mais um dos votos, no sui generis sistema eleitoral argentino, para vencer na etapa inicial das eleições presidenciais basta obter 40% dos votos com uma vantagem de 10% sobre o segundo colocado. A outra opção é a de obter 45% dos votos, proporção suficiente para conseguir a vitória de forma automática.

O primeiro turno está marcado para o dia 23 de outubro. O segundo turno tem data para o 20 de novembro.

A posse do novo presidente será no dia 10 de dezembro.

Charge de jornal da Catalunha mostra o casal com uma única faixa presidencial.

PERANTE “EFEITO VIÚVA”, OPOSIÇÃO APRESENTA-SE FRAGMENTADA E IRRECONCILIÁVEL

“Efeito viúva” é a denominação do clima de compaixão que grandes setores da população argentina sentem pela presidente Cristina Kirchner, cujo marido, o ex-presidente Nestor Kirchner, morreu de um ataque cardíaco fulminante em outubro do ano passado. Em quase todos os discursos públicos que proferiu desde a morte de seu marido a presidente Cristina faz constantes alusões a Kirchner. Ostentando rigorosa vestimenta escura em sinal de luto, ela sustenta que seu marido, desde o além, marca seu caminho político.

Coincidentemente, desde a morte de Kirchner, Cristina disparou nas pesquisas de opinião pública.

“Estamos vendo um espetáculo de circo, um relato de um ato fictício. É óbvio que Cristina Kirchner está mentindo quando chora na frente dos pobres. O vestido preto forma parte de uma cena semiótica. O luto forma parte desse disfarce”, dispara Elisa Carrió, uma das candidatas presidenciais da oposição.

Mariel Fornoni, da consultoria de opinião pública Management & Fit, afirmou ao Estado que “o efeito viúva deveria começar a diluir-se por causa de todos os escândalos de corrupção que apareceram e continuam aparecendo”. Segundo Fornoni, “a presidente continua utilizando o nome do ex-presidente Kirchner em seus discursos. E com certeza continuará fazendo isso”. A analista sustenta que os casos de corrupção estão afetando a imagem da presidente Cristina.

No entanto, o analista político Carlos Fara afirmou ao Estado que “o efeito viúva já passou. As pessoas não votam mais por condolências”.

Quatro pinguins: Plano original dos Kirchners era um mandato de Néstor, um segundo de Cristina, um terceiro de Néstor e um quarto de Cristina. Mas, a morte de Néstor alterou os planos. Cristina só poderá disputar uma reeleição. Se quiser uma segunda reeleição, terá que mudar a Constituição. Em 1999 o então presidente Carlos Menem tentou arrancar da Corte Suprema um parecer favorável a seus planos de segunda reeleição, denominada ironicamente de “la re-reelección” ou simplesmente, “la re-re”.

FRAGMENTADA – Os diversos escândalos de corrupção que envolvem integrantes e ex-integrantes do governo Kirchner não teriam suficiente impacto para levar a presidente Cristina à uma derrota nas urnas em outubro. Segundo os analistas, a recuperação econômica – subsidiada amplamente pelo Estado argentino – seria o fator crucial para que os escândalos tenham pouco peso político atualmente.

Os candidatos da oposição são Ricardo Alfonsín, da UCR; Elisa Carrió, da Coalizão Cívica; o socialista Hermes Binner, os peronistas dissidentes Eduardo Duhalde e Alberto Rodríguez Saá, além do trotskista Jorge Altamira, irmão de Luis Favre, ex-marido da ex-prefeita Marta Suplicy. Mas, apesar de algumas negociações, os diversos candidatos não conseguiram formar alianças para enfrentar o governo.

Segundo Fornoni, a oposição continuará fragmentada: “a realidade é que ainda não deram mostras de poder articular-se”.

“Não acho que a oposição se unirá. Houve várias tentativas de coalizões, todas fracassadas. Não imagino nem Binner e Carrió fazendo uma aliança com a UCR”, sustentou Fara. 

Cristina e Néstor na charge do cartunista argentino El Niño Rodríguez. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/

A TEMPO DA COPA AMÉRICA E DAS ELEIÇÕES, CRISTINA LANÇA O “TV PARA TODOS”

Televisores baratos nas vitrines das lojas argentinas a tempo da Copa América, que começa no dia 3 de julho na cidade de La Plata, um dos principais redutos eleitorais do governo. Este foi o pontapé inicial da presidente Cristina Kirchner para começar sua campanha eleitoral. No anúncio feito em rede nacional de TV – junto com seu lançamento à reeleição – a presidente Cristina ressaltou que o programa governamental “TV para todos” (também chamado de “LCD para todos”) implicará na venda, a partir da sexta-feira da semana que vem, de 200 mil televisores de alta definição LCD de 32 polegadas com um aparelho acoplado que permitirá captar os sinais de TV digital.

“Sou uma presidente que não gosta de uma Argentina para poucos, mas sim, para muitos”, argumentou em defesa da distribuição de créditos do estatal Banco de la Nación para a compra dos televisores, que serão vendidos por US$ 675. A compra pode ser feita em até 60 vezes, isto é, cinco anos, coincidindo com as eleições presidenciais de 2015. “É pão e circo com molho eleitoral, vinculado à Copa América”, criticou o economista Gabriel Rubinztein.

Cristina também anunciou a licitação de 110 sinais de TV em todo o país para empresas privadas. Outros 110 sinais serão distribuídos de forma direta aos governos das províncias, universidades públicas, além de ONGs, setor onde o governo possui grande influência.

O quarteto de Pinguins da série televisiva originada no filme “Madagascar” assistem TV.

“PARA TODOS” - No último ano e meio o governo Kirchner lançou diversos programas sob a égide do “para todos”, que implica em produtos a preços mais acessíveis para a maioria da população. Desta forma, já anunciou o “carne para todos” (cortes de carne bovina a valores mais baixos do que a média do mercado); “milanesas para todos” (programa de distribuição com preços baixos do corte de bife à milanesa, um dos pratos mais populares do país).

Além disso, lançou o “futebol para todos” (estatização das transmissões dos jogos de futebol, que passaram dos canais de TV a cabo a serem veiculados no canal estatal 7, uma TV aberta). Até 2019 o governo desembolsará US$ 150 milhões por ano para a Associação de Futebol da Argentina (AFA) e os clubes em troca dos direitos de transmissão.

Há poucos meses a presidente anunciou o “botijões para todos” (gás em botijão mais barato para os setores da população que não possuem gás encanado); e merluza para todos (o peixe marítimo mais popular na gastronomia argentina), entre outros programas de subsídios.

A oposição acusa o governo de fazer “populismo” com estes programas e ressaltam que, na prática, não passam de subsídios para obter dividendos políticos para as eleições presidenciais de outubro.

Oposição afirma que programa de LDC para todos trata-se de espetáculo para distrair população dos problemas do país, além de servir para publicidade para o governo. “É pão e circo com molho eleitoral, vinculado à Copa América”, criticou o economista Gabriel Rubinztein. Charge de El Niño Rodríguez – “Kirchner crooner”. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/

Nossa semana borgiana foi brevemente interrompida para colocar a postagem acima sobre o lançamento de Cristina Kirchner. Na próxima postagem voltaremos à programação original e encerraremos a semana sobre JL Borges com uma postagem sobre os “Mitos borgianos: Georgie e Mick Jagger”.

  

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Em “The black scorpion”, de 1957, um marombado escorpião que poderia ter contracenado com King Kong segura um Homo Sapiens com propósitos de transformá-lo no lanche dessa noite. Esta espécie de Scorpionida rex é o protagonista deste filme que é quase um farwest de ficção-científica ambientado no México. Segundo Cristina Kirchner, FMI era um escorpião similar. Mas, tudo mudou. Agora, o FMI vai ajudar o governo argentino.

“Fazer um acordo com o FMI seria como abaixar as calças”. A frase, pronunciada no mês passado pelo ministro da Economia da Argentina, Amado Boudou, está arquivada. Na terça-feira à noite, o próprio Boudou, visivelmente constrangido, anunciou que o governo da presidente Cristina Kirchner – que recentemente chamou o Fundo Monetário de “escorpião venenoso” – havia decidido recorrer à ajuda do organismo financeiro para elaborar um novo índice de inflação. O atual índice, feito pelo Instituto de Estatísticas e Censos (Indec), é suspeito de intensa manipulação implementada pelo governo desde janeiro de 2007.

Em dezembro desembarcará em Buenos Aires uma missão do FMI para iniciar os trabalhos de assessoria. Essa será a primeira vez em quatro anos que uma equipe do organismo coloca os pés na capital argentina, já que  o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) – considerado o verdadeiro poder no governo da mulher, a presidente Cristina – opunha-se categoricamente à interferência do Fundo.

“Não queremos mais lições do FMI”, disse Kirchner pouco antes de morrer de um ataque cardíaco fulminante em outubro. Anos atrás, ao pagar a totalidade da dívida argentina com o Fundo, Kirchner exclamou “tchau FMI!”, para indicar que não queria mais a presença do organismo em qualquer aspecto da vida econômica argentina.

Há poucas semanas, o chanceler Héctor Timerman havia feito questão de destacar supostas negociações com o Fundo: “o FMI é uma organização que não possui prestígio. Não espero nada do Fundo. O que o FMI diga não me importa”. Na ocasião, Timerman disse que os jornalistas que estavam publicando informações sobre a existência de negociações entre o governo Kirchner e o FMI não passavam de “mentirosos”.

Ministro Boudou disse há um mês que fazer um acordo com o FMI seria como “abaixar as calças”. Ontem, fez questão de ressaltar que não havia exposto seu underwear ao Fundo. “Não abaixamos nossas calças!”, exclamou. “Quando existem questões que nos servem, as fazemos… e quando existem questões que não nos servem, não as fazemos”, explicou Boudou de forma críptica, perante as sombrancelhas erguidas de vários jornalistas. Na ilustração acima, os atores Warren William e Gene Lockhart em uma cena de calças arriadas em “Times Square Playboy”. Filme de 1936

 Analistas afirmam que com esta manobra a presidente Cristina tenta recuperar a credibilidade perdida do Indec, organismo que está desde janeiro de 2007 sob férrea intervenção do governo. Além disso, a presidente, que na semana passada anunciou a retomada das negociações com o Clube de Paris para o pagamento da dívida de mais de US$ 7 bilhões em estado de calote, estaria tentando mostrar uma imagem mais “market friendly”. Os analistas destacam que esta “virada” na política do governo só foi possível graças à morte do ex-presidente Kirchner, ocorrida há um mês.

A confecção do atual índice de inflação é questionada pelo FMI, o Banco Mundial, partidos da oposição, economistas independentes e a própria opinião pública argentina. O governo sustenta que a inflação acumulada entre janeiro e outubro foi de 9,2 %. No entanto, segundo economistas independentes, ela teria oscilado entre 21% e 23%.

O MINISTRO E OS ‘NAZISTAS’ - O anúncio do pedido de assessoria ao FMI sobre a inflação chamou a atenção, já que Boudou, há três semanas, negou a existência da alta de preços. “Isso não é um assunto para o governo”, disse. Há duas semanas, irritou-se com jornalistas que pretendiam confirmar informações sobre a aproximação do governo com o FMI. Depois de desmentir a notícia, Boudou acusou os jornalistas de “FMI-dependentes”. E depois os chamou de “nazistas”: “são como aqueles que ajudavam  limpar as câmaras de gas no nazismo”.

A comunidade judaica portenha reclamou sobre o uso da expressão. Boudou pediu desculpas à comunidade. No entanto, o ministro – que está sendo investigado na Justiça pela compra sem licitação prévia de 19 carros de luxo – não pediu desculpas aos dois jornalistas. 

 O RAP DE CRISTINA

Além de contar com a emblemática marcha “Los Muchachos Peronistas” para embalar comícios, reuniões e similares dos brothers que militam ou simpatizam com o peronismo, a presidente Cristina Kirchner conta com uma canção própria, o “Cristina Kirchner remix”.

A obra foi feita por Javier de Azkue, que completou o remix com uma melodia de Orlando Cachaito López, o baixo do Buena Vista Social Club.

Azkue considera que o remix da presidente pode ser visto por gregos e troianos, kirchneristas e anti-kirchneristas sem problema algum: “é totalmente político, neutro e objetivo…Tanto pode ser visto por aqueles que a amam, que vão gostar do remix… e aqueles que não gostam dele, com certeza desfrutarão desse rap”.

O remix teve grande sucesso. Nesta quinta-feira de manhã já havia sido visto por 280 mil pessoas. Um dos pontos mais comentados são as mãos da presidente, facilmente adaptáveis ao estilo do rap.

O link do Youtube, aqui.

Um pouco de Quino, que sempre é adequado quando falamos em política…

E um pouco do cartunista Alberto Broccoli, que nos anos 70 e 80 fez sucesso com o “Mago Fafa”, um mago que morria de inveja do Mandrake…

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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