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Ariel Palacios

 

 A “Vênus do espelho”, de Diego Velázquez (1599-1660), um dos mais destacados pintores do “século de ouro espanhol”. Pintado entre 1647 e 1651. Está na National Gallery em Londres, Grã-Bretanha. Na época em que foi pintada, causou um rebu assaz significativo, já que, mais do que uma referência à mitologia greco-romana, o quadro era uma desculpa para exibir os glúteos desta desconhecida modelo espanhola (que também teria servido de inspiração para o quadro “A coroação da Virgem”). A obra foi comprada por um nobre inglês em 1813, saindo da Espanha. Em 1906 o britânico Fundo de Coleções Nacionais tentou arrecadar dinheiro para colocar a obra – que estava em mãos privadas – em um museu do Estado.  O próprio rei Eduardo VII, admirador de glúteos e desta obra específica, forneceu fundos para que a instituição comprasse o quadro de Velázquez. Um século depois, também em Londres, a revista Zoo fez um ranking dos melhores derrières do mundo.

A revista britânica Zoo lançou há poucos dias seu ranking dos melhores derrières femininos do planeta. Na lista, entre as 10 melhores, por incrível que pareça, nenhuma brasileira. No entanto, aparecia uma argentina (a solitária sul-americana da lista) que ficou em oitavo lugar: ela é Keyra Agustina (pseudônimo, soube-se há pouco tempo, de Julieta Machado, uma estudante universitária portenha) que em meados da década passada foi a anônima “rainha glútea” da internet.

Keyra ou Keyra Agustina é a dona de uma esférica retaguarda que desde 2004 tornou-se furor na internet. Em 2006 foi declarada “a perfeita bunda do ano” (the perfect ass of the year) por Howard Stern, um dos mais famosos apresentadores da rádio e TV dos EUA.

O frequentadíssimo site ibérico “Super-tangas”, de alta popularidade na Espanha e no mundo latino-americano a entronizou como a preferida ao longo de vários anos. Mas, apesar do tempo transcorrido, sua vigência na web permanece.

Os motivos para o sucesso de Keyra – ou melhor, de seu derrière – seriam os seguintes:

1 – Ela não era previamente famosa (isto é, não era cantora, atriz de novela, namorada de jogador de futebol, nem amante de político, jogadora de vôlei ou tenista, menos ainda participante de reality show).

2 – Durante vários anos jamais mostrou a cara, fato que aumentava o mistério.

3 – Suas fotos foram feitas de forma caseira, longe das produções em Bora-Bora da Playboy ou o cetim/rendas/colares de pérolas da Penthouse. Ao contrário: são fotos feitas em um cantinho prosaico da casa. Isto é: sem fotoshop algum.

4 – Se levarmos em conta que Keyra está presente na internet sem marketing, de forma “autônoma”, temos que admitir que possui maiores méritos que os glúteos de modelos, cantoras e similares. São glúteos “antissistema”.

Retaguarda da jovem argentina Keyra Agustina é considerada obra de arte por milhões de admiradores em todo o planeta Terra.

A figura de Keyra foi divulgada pelos fãs e hoje está estampada virtualmente em quase 700 mil sites na web nos quais entusiastas internautas tecem cantos de louvor à sua retaguarda, que há poucos anos era uma ilustre desconhecida. Habitante do bairro de Palermo, alcançou fama mundial quando seu namorado a fotografou e distribuiu as fotos pela internet. A partir dali a coisa foi viral.

ALTRUÍSMO – Keyra nunca ganhou dinheiro com a exibição de seu derrière: ela recusou a ofertas para ser a estrela de programa de TV na Espanha e convites de diversas revistas masculinas internacionais. Keyra só posou para uma revista, argentina, uma única vez e de graça (a Maxim). Resgatando o axioma “faça o bem sem olhar a quem”, seu único interesse é o de inspirar milhões de homens em todo o mundo.

Cenário para poses de Keyra são prosaicos. Aqui, ao lado da porta de seu armário, em um cantinho do apartamento. Na maior parte das fotos, Keyra posa vestida. Com vestimenta exígua, mas vestida.

LISTA: Esta é a lista oficial do ranking de glúteos excelsos da revista “Zoo”: 1-Kim Kardashian, 2. Rihanna, 3. Geena Mullins, 4. Pixie Lott ,5. Caitlin Wynters, 6. Scarlett Johansson , 7. Charlotte Herbert ,8. Keyra Agustina, 9. Melissa D , 10. Stacey Pool.(na segunda dezena somente uma sul-americana, Shakira, que ficou no undécimo posto…Jennifer López, americana de antepassados hispano-americanos, ficou no vigésimo-primeiro)

Keyra posa com uma camiseta alusiva à seleção argentina.

NACIONALISMOS GLÚTEOS - Os glúteos das brasileiras foram durante décadas reconhecidos como os “derrières” par excellence deste planeta. Dentro do país, foram assunto tratado por poetas como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, escritores como Jorge Amado, pintores como Di Cavalcanti, além de fotógrafos, músicos, carnavalescos e até arquitetos.

Fora do país, artistas internacionais, desde Marcelo Mastroiani até Frank Sinatra, passando por Orson Welles, também realizaram elogiosos comentários sobre esse aspecto da anatomia nacional.

Para horror dos setores mais nacionalistas, Keyra é argentina, nacionalidade da qual jamais poderíamos ter esperado tal concorrência.

No entanto, o apreço pelas formas deste jovem deusa calipígica liquida eventuais chauvinismos territoriais, já que a exaltação dos glúteos de Keyra chegou até o Brasil. No país, existem centenas de sites com cantos de louvor aos quadris da vizinha do Mercosul.

No Orkut e outras redes sociais, as rivalidades no futebol e no comércio bilateral foram deixadas de lado, já que diversas comunidades dedicam-se ao intercâmbio de opiniões, análises e dados sobre como conseguir novas fotos da ídola argentina. Uma das comunidades, a “Keyra Agustina Brasil”, destaca que a jovem é “quase perfeita”, já que seu único defeito é “ser argentina e não brasileira”.

 

Analistas explicam que derrières argentinos costumam ser mais “contidos”. Acima, Keyra ilustra o assunto que gera debates.

TEORIAS: EXPANSÃO VERSUS SOBRIEDADE - “A bunda argentina é mais ‘contida’, enquanto que a brasileira é ‘expansiva’”, me diz o ensaísta argentino Martín Caparrós, enquanto beberica um café em um bar de Palermo.

Eu, modesto estudioso do assunto, sintetizo uma série de opiniões amateurs sobre o assunto que havia ouvido nos últimos tempos: “Martín, muitas pessoas que consultei acreditam que a argentina possui uma retaguarda ‘aristotélica’, já que o filósofo grego considerava esfera como a forma perfeita. A brasileira, segundo estas pessoas em Buenos Aires, São Paulo, Rio e Bogotá, recordaria a frase do duce italiano Benito Mussolini que dizia ‘é meglio un giorno di leone che cent’anni de pecora’ (é melhor um dia de leão do que cem anos de ovelha). Isto é, glória, embora breve. A problemática da (eventualmente) mussoliniana bunda brasileira é que – segundo os consultados – tal como a arquitetura de Oscar Niemayer, desafia a gravidade. E tal como as obras de Niemayer, com o tempo sofrem problemas estruturais. Já os glúteos argentinos, mais conservadores em seu design, perdurariam mais, segundo as avaliações ouvidas”.

Caparrós ouve, pensa, dá outro gole de café (brasileiro). Na seqüência, arremata com alusões à astronomia: “os glúteos brasileiros são esbanjadores, como uma explosão, que acontece, mas deixa de ser imediatamente”. Depois, levanta o índice, pontificando: “mas elas possuem a glória de uma estrela supernova!”.

Autor de “Boquita” (considerada o melhor livro de História sobre o Boca Juniors), Caparrós faz um brinde com o resto de seu café: “argentinos e brasileiros – rivais no futebol – confraternizamos no apreço comum pelos derrières”.

Germán Pitelli, chefe de redação da edição argentina da revista “Maxim” na época da publicação das fotos da musa da web, sustenta que Keyra, “como boa exibicionista, desfruta que seu traseiro seja admirado por todo o mundo”. Do alto de sua vasta experiência, Pitelli afirma que “nunca” viu alguém posar com “tanta naturalidade” como Keyra.

Pitelli é diplomático e elogia glúteos brasileiros e argentinos: “o bumbum argentino é por excelência firme, compacto, pequeno e provocador…já, o das brasileiras é todo um continente a explorar”.

“Suas poses são prosaicas, quase sempre tendo como fundo uma persiana ou um cantinho de seu modesto quarto. Não há cetim, nem pérolas ou cenários paradisíacos como em certas revistas masculinas. Ela não tem pretensões, nem ambições”, avaliou, por telefone, meu amigo porto-riquenho Héctor Feliciano, ex-correspondente cultural do “The Washington Post” em Paris, autor do livro “O Museu Roubado” (sobre o saque de obras de arte durante a Segunda Guerra Mundial), conferencista em Nova York que atualmente mora em Puerto Rico.

O colombiano Raúl Trujillo, especialista em pesquisa de grupos de consumo e sociologia da moda, afirma que a anônima e caseira Keyra simboliza a derrota da indústria da comunicação, que tenta impor atrizes e modelos famosas como sex-symbols. Trujillo sustenta que “o público agora não quer mais a pessoa famosa…ele quer a cotidianeidade!”.

Os gregos criaram uma deusa ad hoc para as questões glúteas: Aphrodite Kallipygios (Ἀφροδίτη Καλλίπυγος). Esta é uma estátua de mármore feita pela Academia Fancesa de Roma, em 1683, cópia da estátua romana da coleção Borghese. A versão original é de uma Vênus nua. Mas, este drapeado foi colocado por Jean Thierry (1669-1739) por “razões de decência”

GLÚTEOS: CULTURA, TEOLOGIA E ARQUEOLOGIA

Os gregos criaram uma deusa do amor, a Aphrodite Kallipygios, cujo nome significa, literalmente, “deusa das formosas nádegas”. Para os gregos era uma parte destacada da anatomia humana, não só pela agradável curva, mas também porque o diferenciava dos símios.

Na Idade Média tornou-se parte da cultura popular a ideia de que o diabo, ao contrário dos seres humanos, não possuía nádegas. Isto é, os glúteos, consequentemente, seriam uma marca celestial.

O diabo podia simular que era um humano, fantasiar-se e assumir uma forma de homem ou mulher. Mas, essa atitude camaleônica nunca conseguia ser completa, já que falhava nos quartos traseiros.

 

Bunda-less demônio fulo da vida com senhoritas de abundantes ancas. Na ilustração, demo é acompanhado do sr. Morte, também carente de glúteos. Gravura de Daniel Hopfer, ao redor de 1500 a 1510.

A ausência de uma “poupança” satânica incomodaria Belzebu de forma atroz. Desta forma, uma maneira de afugentar o ‘demo’ seria a de arriar as calças (ou levantar saias, saiotes, kilts, batinas, etc) e exibir ao próprio Senhor do Mal as humanas nádegas. Assim, o demônio, furioso, olharia para o lado, colocando longe seu “mau-olhado” e se consumiria em inveja.

Adrianus Spigelius: anatomista brilhante. No entanto, considerava que os glúteos que havia estudado haviam sido criados com fins ‘elevados’.

Há alguns séculos, o anatomista flamenco Adriaan van den Spiegel, também chamado de Adrianus Spigelius (1578-1625) afirmava em sua obra póstuma “De humani corporis fabrica libri X tabulis aere icisis exornati” que “as nádegas foram dadas ao homem para que, ao poder sentar-se sem fadiga, possa dedicar-se mais confortavelmente ao estudo das coisas divinas”. Era a negação do físico e uma reinterpretação funcional das partes do corpo onde parecia residir o pecado.

Colaborando com o fim da era vitoriana, o escritor britânico D.H.Lawrence, em “O amante de Lady Chaterley” faz uma apologia aos glúteos femininos ao exaltar a “redonda e inativa firmeza das nádegas”.

Poucos anos antes, do outro lado do canal da Mancha, o poeta francês Arthur Rimbaud indicava que o derrière trata-se de “dois arcos excepcionais”.

Arthur Rimbaud (1854-1891) poeta francês que trafegou entre o simbolismo e o decadentismo também referiu-se aos derrières e seus encantos. Acima, famosa foto do poeta quando jovem. Na imagem, de 1871, tinha 16 anos e estava produzindo os melhores versos de sua vida.

Voltando ao outro lado do canal, no começo do século XIX Lord Byron, poeta inglês, sustentava que o bumbum “é algo estranho e belo de contemplar”.

O pintor espanhol Salvador Dali considerava que “a bunda é onde podem ser desvendados os maiores mistérios da vida”.

Outro espanhol, o poeta espanhol Federico García Lorca referia-se aos glúteos femininos pequenos, quase minimalistas, (seu objeto de desejo eram os masculinos, mas ele sabia apreciar e admitia a beleza dos derrières femininos) como “planetas de cobre”.

Ainda os espanhóis: No século XVII Diego Velázquez pintava bundas “atuais”. É o caso da “Vênus do Espelho”, por exemplo. O quadro está todo montado para mostrar um derrière. Há escritores que se destacam por um livro. Há pintores que se salvam por um bumbum. Pablo Picasso (mais um espanhol) brincou de desestruturar as bundas. E toda a anatomia. Uma vezes acertou. Outras não. O erotismo de Picasso é agressivo, fáunico. Parece dar mais valor ao ímpeto da possessão que à beleza da mulher.

Fellini: cineasta deu espaço aos glúteos expansivos no celulóide.

Saindo do Mediterrâneo ocidental para o central, o cineasta italiano Federico Fellini afirmava que “a mulher bunduda é uma epopéia molecular de feminilidade”.

Aliás, durante muitos anos o diretor de cinema Federico Fellini freqüentou as tardes de uma prostituta. Não mantinha relações sexuais com ela, que se deitava na cama, enquanto ele fumava e ficava bebendo, olhando para sua bunda.

Quando seu roteirista Tonino Guerra lhe perguntou o porquê disso – assim ele me disse em uma entrevista na cinemateca de Madri em 1994 – Fellini respondeu: “un giorno senza culo é un giorno senza sole” (um dia sem bunda é um dia sem sol).

Depois, Guerra fez uma pausa, olhou para o teto do café da cinemateca como se estivesse procurando o amigo, que havia falecido cinco meses antes, e completou com uma observação própria: “são esferas harmoniosas sobre o caos. Sem bunda não há salvação”.

E já dizia o poeta Drummond: “Existe algo mais? Talvez os seios/ Ora, murmura a bunda – Esses garotos/ ainda lhes falta muito que estudar”.

Ilustração do Codex Manesse (1305-1340) que mostra o Duque Von Anhalt em meio à tresloucada pancadaria com outros cavaleiros. Todos ostentam roupas com seus brasões. E “brasão” vem do latim “blasus”, que significa “arma de guerra”, tal como os glúteos, utilizados nas batalhas da sedução.

HERÁLDICA GLÚTEA - Na contra-mão de Drummond, diversos antropólogos consideram que os glúteos seriam um luxo da natureza, mera sexualidade. Os seios seriam funcionais, nutritivos. A bunda seria pura gratuidade. Como a cauda de um pavão.

Mas, além de gratuidade, também possuem a qualidade de uma arma. Arma de sedução, mas armas enfim. Neste caso, existiria – por parte de alguns escritores – a tentativa de definir uma “herálica dos glúteos”.

Heráldica é a ciência do brasão, isto é, o estudo das armas. E “brasão” vem do latim “blasus”, que significa “arma de guerra”.

Um desses heraldicistas glúteos conversou comigo sobre o assunto em 1993 em Madri. Ele era Francisco Umbral (1932-2007), literato espanhol, um raro machista respeitado pelas feministas do país do Quixote.

Francisco Umbral, heraldicista glúteo e intelectual espanhol já defunto.

Aqui embaixo segue o resumo da conversa com o escritor:

“Nádegas é fonéticamente frouxo”, disse Umbral. Segundo ele, “essa palavra sugere bundas flácidas, caídas. Além disso, ao falar de bunda no plural, “nádegas”, parte-se em dois. E a bunda deveria ser uma unidade, singular, como a alma. Indivisível”.

GLÚTEOS: “Possuem glúteos as campeãs olímpicas, as de bodyboarding”, sustentou Umbral.

POUPANÇA (“Pompis” em espanhol da Espanha): “Possuem poupança nossas tias, todas as professoras de piano e as garotas educadas em colégios de freiras. Exemplo: Margareth Thatcher”.

NÁDEGAS: “São uma particularidade das solteiras de profissão. Funcionárias de correios ou municipais, integrantes do corpo de arquivistas e bibliotecárias. As longas horas sentadas afrouxam o glúteo, transformando-o em nádegas”.

TRASEIRO (“Traste” em espanhol da Espanha): “As potrancas o possuem. As que estão convencidas que detêm a melhor bunda de seu município.

BUNDA (“Culo”, em espanhol da Espanha e vários países latino-americanos): Geralmente é aquela que caminha à nossa frente, em tênue vaivém. A inacessível. Essa bunda heráldica e breve com a qual gostaríamos de praticar

Mas, quando expliquei o conceito brasileiro de “bunda” ao escritor espanhol (e apresentei um material iconográfico sobre o caso), ponderou: “bunda é uma criação brasileira. Digna de um Nobel da Paz. Se todos pensassem em ‘bundas’ (pronunciou a palavra fazendo ênfase na ‘u’) não haveria mais Bósnias (em referência à guerra balcânica, que transcorria naquele ano). É o ‘culo’ do ourives. É quase o ‘culo’ arquetípico”.

No fundo, indepedentemente desses debates, temos que dar nossos agradecimentos aos Australopitecus afarensis, já que ao transformar-se em bípedes, os músculos glúteos expandiram-se exponencialmente, criando o derrière

Se os homens pensassem mais em sexo haveria menos guerras como a da Bósnia, argumentava ‘Paco’ Umbral, resgatando o velho slogan hippie, “faça o amor e não a guerra”. Mapa da Bósnia-Hezergovina e seus vizinhos Sérvia e Montenegro no começo do século XX.

  

Aos leitores e comentaristas: aqui seguem algumas explicações sobre o novo sistema de comentários dos blogs do Estadão.com.br. Os detalhes, aqui. 

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 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

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O ex-ditador e general Jorge Rafael Videla volta a causar polêmica: em declarações à imprensa espanhola, afirma que julgamento dos militares envolvidos em crimes durante a ditadura não passa de “vingança”. O militar também sustentou que seu golpe, em 1976, deu início a uma “Nova Era” na Argentina.

Caros comentaristas e leitores, volto hoje à labuta depois de plus-que-merecidas férias! Neste período de tentativa de relax e repouso aconteceu uma saraivada de assuntos na Argentina e região. Alguns deles saíram temporariamente da agenda (o caso dos conflitos comerciais Brasil-Argentina, que logo logo voltarão), outros permanecem diariamente (os crescentes qüiproquós sobre as ilhas Malvinas, a pancadaria desatada da polícia sobre manifestantes, protestos em cidades com mineradoras multinacionais). E alguns marcaram alguns dias, como o caso da morte do roqueiro Alberto “El Flaco” Spinetta.

Nesta quarta-feira, último dia das férias, o general Jorge Rafael Videla, ditador da Argentina entre 1976 e 1981 (a ditadura, com outros generais, durou até 1983), preso há vários anos, condenado à perpétua por crimes contra a Humanidade, causou polêmica ao fazer as primeiras declarações à imprensa desde o fim do regime militar.

Videla, em entrevista à revista espanhola Cambio 16, afirmou que não se arrepende do golpe militar que protagonizou há três décadas e meia e acusa a presidente Cristina Kirchner de procurar “vingança” em vez de “justiça” com o julgamento dos militares envolvidos na ditadura argentina.

“São todos julgamentos políticos”, disparou Videla, que nos anos 70 era conhecido como “a pantera cor de rosa”, por seu jeito similar de caminhar e a sorte para escapar incólume de atentados. “É parte de uma vingança, dessa revanche, como parte de um castigo coletivo com o qual pretende castigar todas as forças armadas”, disse.

Segundo o ex-ditador, o governo mostra os militares como os “maus” e “responsáveis dos crimes contra a Humanidade”, enquanto que – sustenta Videla – os “terroristas” são exibidos como os “bons”.

O ex-ditador justificou a necessidade do golpe e da implantação da ditadura militar, indicando que o país estava sob o perigo da “anarquia imediata” e do terrorismo (no entanto, os próprios militares afirmavam meses antes que a guerrilha havia sido debelada). Segundo Videla, com o golpe começava uma “Nova Era” para o país (os generais pretendiam que a ditadura, a princípio, durasse até 1990…mas o fracasso na Guerra das Malvinas precipitou o fim desses planos).

AS INSTITUIÇÕES, SEGUNDO O HOMEM QUE DEU O GOLPE - Videla também disparou contra os senadores e deputados argentinos. Segundo o ex-ditador, o Parlamento (que ele próprio fechou em 1976), “está composto por ambiciosos que temem ficar sem seus postos e se vendem a quem paga mais”.

Segundo Videla, a situação institucional atual é “pior” do que na época de Maria Estela Martinez de Perón, mais conhecida como “Isabelita”, a presidente que o general depôs no dia 24 de março de 1976.

O ex-ditador, que violou a Carta Magna há quase 36 anos, sustenta que atualmente “as instituições estão mortas” na Argentina.

Videla, que durante o julgamento das juntas militares em 1985 havia jurado que não haviam ocorrido assassinatos de civis por parte da ditadura, na entrevista admite a existência de 7 mil desaparecidos (número inferior aos 30 mil desaparecidos alegados pelos organismos de defesa dos direitos humanos e dos 10 mil verificados pela Comissão Nacional de Desaparecidos, a Conadep).

Na entrevista Videla coloca em problemas a Igreja Católica ao afirmar que o clero manteve uma relação “cordial” e “muito sincera” com o regime militar. “Nós tínhamos capelães militares dando assistência para a gente. Nunca foi quebrada essa relação de colaboração e amizade”.

Durante a ditadura a Igreja esteve intensamente alinhada com os militares. Padres católicos presenciaram torturas realizadas nos centros clandestinos de detenção e pressionaram os prisioneiros a delatar, com o encobrimento da confissão, o nome de militantes políticos que haviam conseguido escapar. Um dos clérigos envolvidos nas ações do regime militar, o capelão Christian Von Wernich, além de presenciar, protagonizou torturas nos centros clandestinos na província de Buenos Aires. Em 2007 Von Wernich foi condenado à prisão perpétua por 34 sequestros, 31 casos de torturas e sete homicídios.

DITADURA ARGENTINA FOI FRACASSO MILITAR E ECONÔMICO - No dia 24 de março de 1976 uma junta militar derrubou a presidente civil Isabelita Perón. A ditadura, que duraria sete anos – considerada a mais sanguinária da História da América do Sul – teria um saldo estimado pelas organizações de defesa dos direitos humanos de 30 mil civis assassinados nos centros clandestinos de detenção. A ditadura também sequestrou 500 bebês, dos quais somente 105 recuperaram sua identidade até hoje.

O saldo econômico do regime também foi desastroso. Em sete anos de ditadura a dívida externa disparou de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões. A inflação aumentou de 182% anual para 343%. Além disso, a pobreza cresceu de 5% da população para 28%. De quebra, a ditadura implantou uma ciranda financeira que intensificou o caos econômico.

Na área militar a ditadura implementou uma corrida armamentista com o Chile em 1978. Os dois países, que disputavam o canal de Beagle, quase entraram em guerra. A invasão argentina foi detida graças à mediação do papa João Paulo II.

Quatro anos depois, o ditador Leopoldo Galtieri ordenou uma improvisada invasão das ilhas Malvinas, sob controle britânico, desafiando a primeira-ministra Margareth Thatcher a enviar tropas. A guerra terminou com a estrepitosa derrota da ditadura em dois meses e meio.

“Excelente goleiro!”, afirmam seus colegas e admiradores. “Mas, péssima e sórdida pessoa”, complementam.

GATO E TORTURAS – A Justiça da província de Santa Fe declarou que Edgardo “El Gato” Andrada não será levado a julgamento pela suposta participação do assassinato de civis durante a ditadura argentina. Segundo o juiz Carlos Villafuerte Ruzzo, não existiam provas suficientes para levar Andrada ao banco dos réus no momento.

Andrada – que morou no Brasil entre 1969 e 1976 – tem um passado peculiar: no dia 19 de novembro de 1969 teve o prestígio de levar o gol número 1.000 de Pelé como goleiro do Vasco da Gama, onde trabalhava na época. Na Argentina Andrada também é recordado, mas por questões pouco esportivas: ele colaborou ativamente com a Ditadura Militar. E, segundo diversas denúncias é um dos responsáveis pelo sequestro de duas pessoas em maio de 1983, poucos meses antes que a Ditadura terminasse.

Andrada, segundo as denúncias, trabalhava para o serviço de inteligência do Exército na cidade de Rosario, e integrava as “patotas” (gíria que na Argentina refere-se a grupos de caras violentos, jagunços, que capturavam, torturavam e assassinavam civis que se opunham ao regime militar).

Ao longo dos últimos três anos Andrada foi processado na Justiça pelo sequestro realizado em um bar em pleno centro da cidade de Rosário. Os dois civis apareceram mortos dois dias depois. Na época, o governo militar anunciou que as duas pessoas haviam sido mortas em um combate com forças do exército. Mas, a autópsia indicou que eles haviam sido espancados, torturados com choques elétricos e posteriormente baleados a queima-roupa.

                                     Andrada era chamado de “El Gato”, por seu jeito de “felino”

Andrada nega os crimes. Ele admite que estava dentro da estrutura do Exército, mas, misteriosamente, nega-se a explicar qual era seu trabalho específico.

Os advogados dos parentes dos civis mortos afirmam que vão recorrer na Justiça, de forma a reverter a decisão do juiz Ruzzo.

Além de Andrada, outros ex-jogadores e técnicos também são suspeitos de terem participado do sequestro de civis. Em vários desses casos as vítimas eram seus próprios colegas jogadores, que foram detidos e torturados por criticar a ditadura militar.

Uma dessas histórias, a do jogador Claudio Tamburrini, virou filme, o “Crônica de uma fuga”, do diretor Adrián Caetano.

Tamburrini foi detido e enviado ao centro de torturas “Mansão Serré”. Mas, depois de seis meses preso ali, conseguiu fugir com outros três prisioneiros. É o único caso de sucesso de uma fuga de um centro de tortura da Ditadura.

Luis Alberto Spinetta, a.k.a. “El Flaco”. Ou, “pai do rock argentino”.

DA GUITARRA À HARPA, UM ÍCONE PARTE - Um dos expoentes do rock nacional, Luis Alberto Spinetta, morreu em sua casa, rodeado de seus seres queridos há poucos dias, na quarta-feira dia 8 de fevereiro. “El Flaco” (O Magro), como era chamado carinhosamente, tinha câncer de pulmão.

Spinetta foi integrante da banda Almendra, que junto com Manal e Los Gatos, integram o trio de grupos fundadores do rock nacional argentino. Ele também participou da banda Pescado Rabioso, entre outras. Spinetta é considerado o “pai do rock argentino”.

Ao longo de sua carreira Spinetta cantou com outros pesos-pesados do rock nativo, como Charly García e Fito Paez.

Em junho passado Spinetta fez sua última apresentação, no Chile. Uma semana depois soube que tinha câncer.

Os admiradores de Spinetta afirmam que ele foi para o Paraíso dos roqueiros. Portanto, sustentam, ele largou a guitarra e passou para a harpa.

“Obrigado, gosto muito de vocês” foi a frase que “El Flaco” destinou a seus fãs em seu último comunicado público, pouco tempo antes de morrer.

Aqui, a modo de réquiem, algumas de suas obras:

 

E aqui, uma composição de um colega de Spinetta, Charly García, que compôs “Canción para mi muerte” em 1972.

Os especialistas a definem como uma “balada com um touch tangueiro, pessimista e nostálgico” que retoma o espírito de “Volver”, de Carlos Gardel.

Nos próximos dias falaremos das minas polêmicas em Catamarca e San Juan. E também, ainda dentro do quesito “minas”, embora não as geológicas, explicaremos o fenômeno de internet de Keyra Agustina, pseudônimo de uma jovem argentina cujos anônimos e altruístas (estes adjetivos explicarei no post) glúteos são os únicos representantes sul-americanos em um ranking mundial dos 20 mais excelsos derrières femininos do planeta Terra, elaborado pela britânica revista Zoo há poucos dias.   

   

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

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25.janeiro.2012 16:34:52

Habemus Férias!!!!!!!

Caríssimos, estou em férias (iiiiuuupiiii, heeeeeiaaaaaaaaaa, eeeebaa). Por esse motivo, voltarei às postagens no dia 15 de fevereiro.

Teremos assuntos a granel, alguns dos quais foram acumulando-se nos últimos tempos: Malvinas, China Zorrilla, o bairro de Palermo, Keyra Agustina e os glúteos altruístas, o suposto delfim da França enterrado na Recoleta, Cristina Kirchner e a mídia, etc.

Além disso, faremos a reentrée triomphale sem os problemas técnicos do novo sistema de comentários, que estão sendo resolvidos.

Enquanto isso, deixarei a sra. Ágata Salgado-Simpson, honorável septuagenária secretária e ornitóloga a cargo de responder a cada 4 ou 5 dias os comentários dos comentaristas.

Dona Ágata, entre uma bebericada de chá e outra, tomando nota de minhas indicações.

Abraços,

Ariel

   

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Comente!

“Milagre divino”, segundo alguns militantes kirchneristas, teria eliminado o câncer que a presidente tinha no pescoço. “Primeiro milagre de São Néstor”, ironizaram colunistas políticos pelo twitter. “Uma alta hospitalar”, dizia o governo, esquivando explicações constrangedoras. “Estou muito feliz”, disse o presidente venezuelano Hugo Chávez, que uma semana antes afirmou que depois do anúncio do câncer de Cristina estava suspeitando que os EUA tinham uma arma para provocar câncer nos presidentes sul-americanos. Da arma yankee não voltou a falar.

   porta-voz presidencial, Alfredo Scoccimarro, anunciou neste sábado pouco após o meio-dia a alta médica de Cristina E.F. de Kirchner. A presidente, de 58 anos, foi levada à mesa de cirurgias na quarta-feira no hospital Austral, na cidade de Pilar, na zona noroeste da Grande Buenos Aires, para a extração de um carcinoma – um tumor cancerígeno – que os médicos haviam diagnosticado no lóbulo direito da tireoide.

Scoccimarro soltou um pigarro e enfatizou a alta da presidente argentina. Além disso, disse que Cristina estava com a saúde “ótima”.

Na seqüência – e rapidamente – explicou que os médicos não haviam detectado células cancerígenas, ao contrário do que haviam indicado os diagnósticos originais. Portanto, a presidente não terá que ser tratada com iodo radioativo, tal como era inicialmente previsto.

Cristina tinha somente uns nódulos na tireóide. Nunca havia tido – nem tem – o câncer que havia sido anunciado oficialmente pelo governo.

No comunicado oficial, ao sair do Hospital Austral – administrado pela Opus Dei – agradeceu a “Deus” e à “bênção dos argentinos”.

Nas portas do hospital Austral várias centenas de militantes kirchneristas – que realizavam uma vigília pela saúde de Cristina nas portas do hospital desde a segunda-feira, mesmo antes que ela fosse internada – estavam esperando que a presidente saísse de carro para vê-la de perto. No entanto, Cristina partiu do hospital no helicóptero presidencial, que estava pousado nos jardins do hospital, rumo à residência presidencial de Olivos.

Os argentinos, estupefatos com a notícia, começaram a referir-se ao assunto como o “não-câncer de Cristina”.

ÉDICOS E GOVERNO– Os especialistas que haviam diagnosticado o câncer – e todos aqueles que participaram das interconsultas, inclusive ao médico presidencial – não foram alvo de críticas do governo, que costuma ser implacável com qualquer desliz.

Ao contrário, receberam elogios da presidente Cristina que neste sábado, em um comunicado, ao sair do hospital, agradeceu à equipe médica que havia diagnosticado o tumor. Analistas afirmam que esse silêncio talvez deve-se à hipótese de que o governo foi apressado em anunciar – de forma categórica – dias atrás, que a presidente tinha câncer.

A própria Cristina fez questão de referir-se a si própria como uma doente do câncer ao comentar há uma semana e meia a proposta do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de criar um “clube para os presidentes que haviam vencido o câncer”, entre eles Fernando Lugo do Paraguai e a presidente Dilma Rousseff, além dele próprio. Nesse dia, Cristina disse que disputaria com Chávez a presidência desse clube.

Depois, Cristina ressaltou que não tem condições de fazer “tudo sozinha ao mesmo tempo” e, indicando que estava fazendo um sacrifício pessoal, disse que estava “colocando a saúde a serviço do país”.

Seu ex-chefe de gabinete, o atual senador Aníbal Fernández, declarou semana passada que o câncer de Cristina era fruto do intenso “estresse” que sofria.

SEM EXPLICAÇÕES - Nestas horas transcorridas desde a alta de Cristina Kirchner, nem os médicos presidenciais, nem o time do Hospital Austral e outros profissionais da área envolvidos no diagnóstico e atendimento da presidente deram qualquer tipo de explicações públicas sobre o assunto.

 NÃO-CÂNCER, NÃO-FILHOS E NÃO-INFLAÇÃO. E A NÃO-ARMA - Vários colunistas políticos acusam o governo de ter usado o suposto câncer para desviar a atenção do público de uma série de escândalos, entre eles – poucas horas antes anúncio do câncer – da compra de um milionário mega-apartamento por parte da presidente Cristina no elitista bairro de Puerto Madero.

Eles também afirmaram que o anúncio do câncer coincidiu com a incômoda revelação dos exames de ADN que mostravam que os herdeiros do Grupo Clarín não eram filhos de desaparecidos da ditadura militar (1976-83). Nos dois anos anteriores o governo Kirchner havia denunciado que os irmãos Noble, adotados pela dona do Clarín, Ernestina Herrera de Noble, haviam sido bebês sequestrados. Além da presidente, seus ministros embarcaram nessa campanha para acusar a dona do jornal e seus executivos. Mas, naquele dia, de manhã (o anúncio do câncer foi à noite) uns poucos jornais publicaram as declarações da líder das Avós da Praça de Mayo, Estela de Carlotto, que havia admitido cabisbaixa e com voz grave que Marcela e Felipe Noble não haviam sido bebês seqüestrados, segundo indicavam todos os exames genéticos. No entanto, o assunto passou em brancas nuvens na agência estatal Télam e em jornais de empresários amigos do governo. Vários jornais governistas não deram a notícia até hoje.

De quebra, a semana e meia do não-câncer da presidente coincidiu com os primeiros passos de um plano gradual de ajuste econômico.

Os colunistas destacavam que existiam motivos de sobra para desconfiança, já que o governo também manipula os índices de inflação e pobreza (estatísticas que até aliados do governo criticam).

Alguns analistas sustentam que existem duas chances para esta tragicomédia de erros: ou a presidente Cristina teve um errado diagnóstico inicial…ou tudo não passou de uma jogada política. Isto é: as duas opções são preocupantes.

No Twitter predominou o silêncio por parte dos aliados e simpatizantes do governo, enquanto que os críticos e independentes dispararam uma saraivada de ironias, indicando que este era o “primeiro milagre” de “São Néstor”, ou seja, o ex-presidente Nestor Kirchner, falecido há quase um ano e meio, cuja imagem foi intensamente mitificada nos últimos tempos.

Outras ironias referiam-se a “São La Cámpora” (em referência à organização que reúne a juventude kirchnerista), a Escrivá Balaguer (fundador da organização Opus Dei, que administra o Hospital Austral). De quebra, alguns jornalistas recordavam quando, nos anos 90, o então presidente Carlos Menem apareceu com a cara inchada. “Foi uma vespa que me picou”, afirmou durante semanas. Depois, ele admitiu a realidade: “fiz um lifting”.

Entre as centenas de militantes kirchneristas que hoje estavam nas portas do hospital Austral, celebrando a alta hospitalar da presidente Cristina, vários falavam em “milagre divino”.

A oposição, com muito tato – mas também um toque de ironia – deu os parabéns à presidente Cristina. O ex-candidato presidencial Ricardo Alfonsín, da União Cívica Radical, filho do falecido ex-presidente Raúl Alfonsín, declarou que está “feliz” e “tranquilo” por saber que “a presidente não padece a doença que supunha que tinha”.

 

ARMA CANCERÍGENA - O presidente Hugo Chávez, da Venezuela, aliado da presidente argentina, que disse que após o anúncio da doença em Cristina estava suspeitando que os Estados Unidos haviam criado uma arma especial que havia provocado câncer em vários líderes sul-americanos. Mas, neste sábado, depois do anúncio do não-câncer de Cristina Kirchner, Chávez ficou quieto durante várias horas. Depois, declarou, em uma coletiva ao lado do presidente peruano Ollanta Humala: “Estamos muito contentes pela notícia! Bravo, Cristina!”. No entanto, sobre a suposta falha técnica da suposta cancerígena arma yankee não pronunciou palavra alguma.

Um doente, neste caso imaginário. Ou melhor, “Le malade imaginaire”, do pintor francês Honoré Daumier, baseado no livro de Molière, “O doente imaginário”. O quadro é de 1878.

HIPÓTESES DE TODO TIPO

Ao longo deste fim de semana surgiram no âmbito político (aliados e opositores), na mídia e na população as mais diversas hipóteses sobre o que teria acontecido com o suposto câncer que a presidente Cristina, finalmente, não tinha.

1 – ERRO MÉDICO (DOS VÁRIOS MÉDICOS) – Cristina recusou-se a utilizar a unidade de atendimento presidencial do hospital público Argerich, inaugurada por ela própria e seu marido Nestor Kirchner em 2003. Ela optou pelo privado hospital Austral. No diagnóstico do câncer de Cristina participou um batalhão de médicos (que o governo afirmava que era de primeiro nível). Além deles, o médico presidencial. Mas, por algum motivo, falharam no diagnóstico (as chances de erro nesse caso, são de 2,5%). No entanto, apesar do erro, o governo não colocou a culpa nos médicos. O silêncio e a falta de explicações oficiais sobre a doença (ou não-doença) da chefe do Poder Executivo de um país de 40 milhçoes de habitantes desperta a atenção.

2 – NÃO HAVIA CÂNCER E NÃO HÁ CÂNCER – A outra teoria indica que a presidente Cristina Kirchner não tinha câncer e o governo sabia disso. Neste caso, não houve erro médico e tudo não teria passado de uma operação política. Esta teoria afirma que o câncer da presidente foi “inventado” para ter dividendos políticos. A esta teoria acopla-se uma saída à francesa: o governo, dando ênfase à alta, nada explicou sobre o erro médico.

3 – HAVIA CÂNCER…E AINDA HÁ CÂNCER – Esta outra teoria indica que Cristina foi operada de um câncer na tireóide. Mas, teria ocorrido metástase. Neste cenário, o governo preferiu dizer que não havia câncer para esconder um grande câncer real. Perguntei: “mas, e se o governo tivesse dito que era outra doença qualquer, por exemplo, uma úlcera?”. Me responderam: “aí todo mundo teria ficado desconfiado e as pessoas achariam que tinham inventado uma úlcera para cobrir a existência de um câncer”. Bom, no país das conspirações, tudo é possível de ocorrer ou de imaginar.

4 – MILAGRE DIVINO – Para os crentes, esta é a hipótese preferida, já que indicaria que a presidente Cristina realmente tinha câncer. Mas, este desapareceu graças à intervenção do Deus Supremo (ou, de alguma outra entidade da hierarquia divina). Ou, afirmavam algumas militantes no sábado nas portas do hospital Austral, “foi Ele quem a salvou”. “Ele”, neste caso, seria Néstor Kirchner, que morreu na Santa Cruz em outubro de 2010 (Santa Cruz, neste caso, é a província onde ele faleceu).

Nesta fotomontagem feita pela revista Notícias tempos atrás, San Néstor Kirchner aparece acompanhado de outras figuras do apostolado kirchnerista.

  

SEÇÃO “GOLD” DAS TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO

Em setembro de 2009 um médico conseguiu aproximar-se da presidente Cristina Kirchner na Casa Rosada para afirmar que ela estava sendo alvo de um ataque químico para provocar câncer. O médico sustentava que inimigos estavam dedetizando – a propósito – terrenos próximos à residência presidencial. Isto é: com a intenção de assassinar Cristina. Na época, militantes kirchneristas difundiram os alertas do médico. Aqui, o vídeo com o alerta sobre o “magnicídio-cancerígeno” de dois anos e meio atrás, anterior mesmo à arma-cancerígena yankee denunciada pelo presidente Chávez.

   

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

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1 Comentário | Comente! !

Aos leitores, comentaristas e amigos, um 2012 sem profecias maias (mas pelo menos lendo Os Maias, do Eça de Queiroz) e com superavitária alegria, plenitude no amor, colesterol de 120 e respaldo financeiro abundante!! 

Que todos seus desejos possam ser cumpridos. Ou, pelo menos, parcialmente cumpridos.

Nos veremos no ano que começa.

Abraços a todos,

Ariel

Mafalda, de Quino, e a esperança de um ano novo melhor para todos

E para começar o ano novo, “Le Grand Tango”, de Astor Piazzolla, interpretado por Mstislav Rostropovich:

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Comentários (2)| Comente!

 

“El sillón de Rivadavia”, apelido da cadeira presidencial. Cristina Kirchner estará ausente durante algumas semanas dessa sala. Seu vice, Amado Boudou, estará ali sentado (foto da presidência da República Argentina).

A presidente Cristina Kirchner está com câncer na tireóide. Ela será operada no dia 4 de janeiro. O anúncio de sua doença foi feito na terça-feira no final da noite por seu porta-voz, Alfredo Scoccimarro. Muitos argentinos foram dormir sem saber nada sobre a notícia. Na manhã seguinte, milhares de argentinos, ao serem informados da doença da presidente Cristina acharam que era uma piada, já que era o dia 28 de dezembro, denominado “Dia dos Inocentes”, o equivalente hispano-americano ao 1 de abril, o dia da mentira. Vários governadores kirchneristas ficaram sabendo pela TV da doença da presidente ou muitas horas depois.

Mas, apesar do impacto inicial que a notícia teve na presidente, nesta quarta-feira, poucas horas depois do anúncio de sua doença, Cristina cumpriu rigorosamente sua agenda do dia e até fez um discurso no qual falou sobre sua saúde.

Exibindo bom ânimo, a presidente reuniu-se com governadores das províncias argentinas, prometeu-lhes a rolagem da dívida provincial e agradeceu o apoio recebido por diversos setores políticos e sociais. No entanto, Cristina aproveitou o discurso, transmitido pela maioria dos canais, para disparar críticas contra os meios de comunicação, os sindicatos e as companhias de combustíveis.

Cristina exigiu mais esforços de todos os setores e indicou que ela não tem condições de fazer tudo ao mesmo tempo. Depois, sugeriu que está sacrificando-se, “colocando a saúde a serviço do país”.

Cristina disse que o presidente venezuelano Hugo Chávez foi o primeiro em telefonar para desejar uma recuperação rápida. Cristina recordou que o líder bolivariano propôs a criação de um clube de presidentes que venceram o câncer e ressaltou que ela disputaria a presidência dessa entidade.

Nesta quinta-feira a presidente viajará para El Calafate, no extremo sul do país, onde possui uma elegante casa para descanso. Ali ela passará o Reveillon junto com a família. Ela volta direto de El Calafate para sua operação na semana que vem.

HOSPITAL PRIVADO - A presidente Cristina não utilizará a unidade presidencial do Hospital Argerich (um hospital público) inaugurado em 2003 pelo então presidente Néstor Kirchner (acompanhado de sua esposa e então primeira-dama e senadora Cristina) para atendimento dos presidentes argentinos.

Cristina, em vez desse centro, utilizará o elegante e privado hospital Austral, da Opus Dei, na zona noroeste da Grande Buenos Aires, em Pilar (a principal área dos condomínios fechados na Argentina).

O casal Kirchner nunca utilizou as instalações do Argerich.

MERCADOS, PREOCUPAÇÕES E O VICE ROQUEIRO - Os mercados ficaram relativamente preocupados com a notícia sobre o câncer de Cristina Kirchner. A Bolsa de Buenos Aires teve queda de 1,3%.

O motivo da preocupação é que o sistema político argentino está extremamente centralizado na figura do presidente, fato que gera incertezas quando a pessoa que comanda o país está com problemas de saúde.

Os aliados do governo declararam apoio enfático para Cristina Kirchner, enquanto que grupos de militantes já planejam uma vigília que começará na frente do hospital um dia antes da operação do câncer na tireóide.

Durante a ausência de Cristina – a presidente terá uma licença de 20 dias – ficará na presidência interina do país o vice-presidente Amado Boudou. Nesta quarta-feira, no discurso, Cristina até fez uma piadinha com seu vice-presidente: “olha aí o que você vai fazer, hein?”.

Piadas à parte, o vice Boudou não é pessoa do agrado de Máximo Kirchner, filho da presidente, que embora sem cargo algum, é muito influente no governo de sua mãe.

Boudou, roqueiro nas horas vagas – e também em horário de trabalho – tampouco conta com o apreço dos setores mais à esquerda do kirchnerismo, que não esquecem que ele foi um economista da ala mais ortodoxa do neoliberalismo há menos de uma década. Além disso, ele é visto como um “arrivista” pelos kirchneristas mais puros.

Os analistas afirmam que Boudou não tem o jogo de cintura que é imprescindível para lidar com a costumeiramente turbulenta política argentina.

Para complicar, Boudou tampouco base política própria. Ele era o ministro da Economia de Cristina Kirchner, sem muita autonomia, já que o ex-presidente Nestor Kirchner, enquanto esteve vivo, foi o ministro da economia virtual do governo de sua mulher. Depois da morte de Kirchner, a economia ficou em piloto automático.

Cristina escolheu Boudou para o cargo de vice porque confia plenamente em sua lealdade, de forma a evitar a traumática experiência que teve com o vice de seu primeiro mandato, Julio Cobos. E, além disso, porque Boudou não representa um perigo interno.

O vice apareceu recentemente, durante sua festa de aniversário, de cueca samba-canção tocando a guitarra elétrica ao lado do roqueiro Andrés Calamaro. A presidente Cristina não gostou da imagem e deu um puxão de orelhas no vice.

Há poucas semanas Cristina chamou Boudou – em rede nacional de TV – de “mauricinho”, já que o vice reside no elitista bairro de Puerto Madero.

Boudou entoa um rock nacional com o roqueiro Andrés Calamaro. Foto da revista Gente.

APOGEU - O surgimento desta doença coincide com o momento de apogeu de Cristina, que foi reeleita com 54% dos votos em outubro. Ela tomou posse de seu segundo mandato há 18 dias, conta com a obediência de 21 dos 24 governadores argentinos, tem maioria no Senado e na Câmara de Deputados.

BLINDAGEM - Os analistas afirmam que Cristina Kirchner será fortalecida com este cenário, da mesma forma que sua popularidade disparou quando ficou viúva no ano passado. Eles sustentam que esta é uma chance de mostrar o lado mais “humano” de Cristina, que costuma ter fama de durona. Além disso, ela ficará temporariamente “blindada” contra as críticas.

Hugo Moyano, líder da Confederação Geral do Trabalho (CGT), a principal central sindical do país, que havia disparado fortes críticas sobre Cristina nas últimas semanas, exigindo aumentos salariais e mais espaço de poder aos sindicatos, declarou nesta quarta-feira que estava “consternado” pela notícia. Moyano, em rota de colisão com Cristina há meses, fez uma trégua temporária e expressou que a presidente conta com toda a “solidariedade” dos operários argentinos.

Scully e Mulder poderiam resolver o caso? H.Chávez considera que “El Império” aplicaria tecnologia para induzir ao câncer de presidentes da esquerda (ou esquerda light ou esquerda ma non troppo) sul-americana. Não incluiu seu antigo rival, Alvaro Uribe, na equação.

X FILES CARIBENHO - Não é trama de filme de James Bond nem ficção-científica. Mas, quase isso: o presidente Hugo Chávez apresentou nesta quarta-feira sua teoria de que “El Império” – o “O Império”, isto é, os Estados Unidos – estaria por trás dos casos de câncer que afetaram diversos presidentes e ex-presidentes sul-americanos desde 2009.

O líder bolivariano disse que suspeita que os americanos teriam desenvolvido uma tecnologia para induzir ao câncer. Chávez citou a lei das probabilidades e disse que é muito difícil encontrar explicações para o que está acontecendo com os políticos da esquerda ou esquerda light (ou esquerda ma non troppo) sul-americana, como os presidentes do Paraguai Fernando Lugo, o próprio Chávez, além de Cristina Kirchner agora. Nessa lista Chávez inclui Dilma Rousseff, quando ainda era ministra, além de Luiz Inácio Lula da Silva, já na categoria de ex-presidente.

Mas, Chávez não incluiu na lista seu inimigo, o ex-presidente colombiano Alvaro Uribe, que sofria de uma queratose actínica, doença que pode transformar-se em um câncer de pele.

No entanto, o fato é que – teorias conspiratórias à parte – os líderes políticos sofrem tensões acima do normal e cuidam pouco da saúde. Se for para encontrar um grupo de outros líderes com problemas de saúde podemos ver qualquer época.

Por exemplo, o ano 1940, quando Adolf Hitler e Benito Mussolini tinham sífilis (com seus efeitos no sistema nervosos); o britânico Winston Churchill com problemas cardíacos (e inícios de problemas vasculares cerebrais) e Iósif Stálin e Franklin Delano Roosevelt com AVCs que escondiam da população. Na época, só Charles De Gaulle exibia uma saúde de ferro.

O colunista político e médico argentino Nelson Castro chama estes males de “doença do poder”.

“É só uma gripe” ou “é apenas um check up”: frase clássicas dos governo argentinos para dissimular doenças graves de seus presidentes. Em 1993 Carlos Menem – a.k.a. “El Turco” (ou “Méndez”) estava sendo operado da carótida. Mas governo tentava convencer que era um baita resfriado.

DOENÇAS PRESIDENCIAIS - Os governos argentinos, de forma geral, não sabem lidar bem com a comunicação sobre as doenças dos presidentes. Esse foi o caso em 1974, quando o presidente Juan Domingo Perón estava gravemente doente, o governo afirmava que ele tinha “apenas uma gripe”.

Em 1993 o então presidente Carlos Menem foi internado às pressas. Nas primeiras horas o governo disse que não passava de uma gripe. Mas, na realidade ele estava sendo operado da carótida. Quando a verdade veio à tona os mercados ficaram tumultuados, já que o país estava em plena etapa de privatizações e o ministro da Economia, Domingo Cavallo, teve que aparecer na TV diversas vezes para acalmar os ânimos.

Em 2001 foi a vez do presidente Fernando De la Rúa, que teve uma obstrução na carótida em meio à grave crise econômica e à fuga de divisas que levaria ao colapso da economia argentina no final daquele ano. O ministro da Saúde, Héctor Lombardo, médico pessoal de De la Rúa, complicou o cenário ao afirmar de forma naif que o presidente tinha “um pouquinho de arteriosclerose…”.

Em 2004 o presidente Néstor Kirchner foi internado com uma hemorragia no duodeno. Nas primeiras horas os porta-vozes da Casa Rosada afirmavam que a internação às pressas do presidente não passava de uma reação a um medicamento do tratamento dentário. Posteriormente revelaram a verdade.

No ano passado, Kirchner foi operado duas vezes por obstruções da carótida. Mas, em ambas ocasiões o governo – nas primeiras horas – afirmava que havia sido internado para um mero “check-up”.

Uma semana depois da segunda operação Kirchner havia retomado plena atividade política apesar das recomendações médicas. Em setembro foi submetido à uma angioplastia. Menos de 48 horas depois participava de um comício ao lado da mulher. E um mês e meio depois, morreu.

CRISTINA E SUA SAÚDE - Em janeiro de 2009 a presidente Cristina passou mal e cancelou todas suas atividades durante cinco dias. Na época o governo disse que Cristina havia sofrido um desmaio por causa de uma “desidratação”.

Mas as explicações oficiais não convenceram, já que a presidente sempre carrega uma garrafinha de água mineral.

Nelson Castro, colunista político e médico – que escreveu um livro sobre o sigilo que costuma aparecer em torno às doenças dos presidentes argentinos disse na época que o comunicado oficial sobre o desmaio “não refletia toda a verdade”.

Castro sustentou que a versão sobre o desmaio de Cristina Kirchner foi uma demonstração de que as doenças dos presidentes “são assuntos de Estado que tem enormes implicâncias políticas”.

Neste ano a presidente Cristina passou mal em cinco ocasiões.

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Celebração de arromba toma conta do quartel-general náutico do blog “Os Hermanos” na noite do dia 23, a pré-Véspera Natalina. A noitada foi embalada por um de nossos dois grupos (amadores) de gaita de foles, o “Los troesmas de Villa Crespo”. Os integrantes do outro conjunto, de “Los avivados de Balvanera”, passaram mal com a maré do Rio da Prata, assaz encrespado. O grupo embalou o início da ceia com o clássico “I left my heart in Chascomús”, passando depois para uma versão techno-milonga de “Adiós Quixeramobim mía”. Como de costume, o deputado Mutatis de Olivera e seu irmão e senador Mutandis de Olivera – reeleitos em outubro passado – fizeram discursos com um balanço de 2011 (Mutatis) e sobre as perspectivas para 2012 (este, o Mutandis). Na seqüência, o senador Byron Bezerra, que veio especialmente de S.Luis (Maranhão, não o território puntano), começou a recitar um poema épico. No entanto, a ingestão opípara de mollejas, preparadas por nosso chef, Bolívar Pueyrredón-Billinghurts, somado ao balançar do navio, e um chimichurri de duvidosa validade, provocaram distúrbios de caráter estomacal que interromperam a leitura poética. No entanto, o parlamentar não perdeu a oportunidade de despotricar contra o monopólio do sal de frutas e pediu “alka-seltzer para todos”. Foi ovacionado pelos presentes, que pediram a criação de uma comissão – em caráter de urgência – para encaminhar um projeto de lei a ambos países “nesse sentido”. Menu da noitada: mollejas à provençal, pizza e fainá “revisitado”. Tudo regado – comme il faut – com moscato “El Vasquito”.

Aos amigos, comentaristas e leitores, uma supimpa jornada natalina!

Abraços,

Ariel

PS: De obséquio natalino, deixo esta breve seleção musical:

Ariel Ramírez e sua “Misa Criolla” (Gloria e AgnusDei):

A voz de Mercedes Sosa, que canta “Todo cambia” na delirante cena de “Habemus papam” do diretor italiano Nanni Moretti:

Charles Trènet canta “La Mer”

 

Charles Trènet canta “Boum!”

Sweet Georgia Brown, com Django Reinhardt e Stephane Grapelli

Sweet Georgia Brown, na versão de Mel Brooks e Anne Bancroft…em polonês!

E Oscar Alemán, em “Al gran Horacio Salgán”

 

Los Troesmas de Villa Crespo em todo seu esplendor.

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 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Pinguins de Madagascar preparados para o Natal, com gorrinho de Papai Noel ad hoc. No Senado em Buenos Aires, “los pinguinos” (os pinguins, denominação do entourage kirchnerista) aprovaram uma série de leis que entregaram como presente natalino à presidente Cristina Kirchner, a.k.a. ”La Pinguina”.

CONTROLE SOBRE O PAPEL-JORNAL - Nesta quinta-feira o Senado aprovou o projeto de lei do governo da presidente Cristina Kirchner que declara de “interesse público” a produção, comercialização e distribuição do papel-jornal em todo o território argentino. A lei é um golpe direto aos jornais “Clarín” e “La Nación”, críticos do governo Kirchner, que possuem respectivamente 49% e 22,49% das ações da Papel Prensa, a única fábrica de papel-jornal em funcionamento no país. O Estado argentino é o segundo acionista, com 27,6%. Os restantes 1,05% estão nas mãos de pequenos investidores.

Com a nova lei o Estado argentino poderá aumentar sua participação acionária, sem limites, dentro da empresa. Além disso, a norma cria um sistema que implica na fiscalização de todos os compradores de papel-jornal do país.

Desta forma, os parlamentares kirchneristas, com maioria no Senado, cumpriram sua promessa de aprovar esta lei como “presente de Natal” para a presidente Cristina, que desde 2008 mantém um duro confronto com os meios de comunicação não-alinhados, especialmente o Grupo Clarín.

Presidente Cristina Kirchner segue o pedido de seu defunto marido, o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), o de “colocar o Clarín de joelhos”. Ofensiva contra os meios de comunicação não-alinhados promete ficar mais intensa em 2012.

A oposição afirma que essa lei levará à uma “estatização encoberta” da Papel Prensa. Os constitucionalistas afirmam que viola a Carta Magna, pois o governo passaria a exercer um controle direto sobre um insumo necessário para a liberdade de expressão.

Neste cenário, o governo – tal como faz há vários anos com as verbas de publicidade oficial – poderá determinar que jornal vai receber mais ou menos papel, condicionando a mídia não alinhada.

A Constituição argentina reconhece a liberdade de expressão, isto é, a liberdade de poder criticar o governo, entre outros. Mas, a lei aprovada pelo Senado estabelece um controle estatal sobre o papel no qual essas críticas seriam impressas.

O octogenário senador Carlos Menem, ex-presidente, é cumprimentado cálidamente pelo líder do bloco kirchnerista no Senado, Miguel Ángel Pichetto. Menem deixou de ser “arqui-inimigo” e transformou-se em enfático aliado do governo da presidente Cristina. Em outubro Menem foi reeleito para o senado com respaldo dos kirchneristas da província de La Rioja. Nos últimos meses, em diversas ocasiões, Menem afirmou que a política da presidente Cristina “está mais do que certa”. O ex-presidente foi absolvido recentemente no julgamento sobre suas responsabilidades no caso do contrabando de armas para o Equador e a Croácia.

VOTOS E MENEM - Na Câmara de Deputados – onde o governo, desde o dia 10 de dezembro, conta com maioria – o projeto de lei foi aprovado por 134 votos a favor e 92 contra.

Do total de 72 cadeiras do Senado, o governo Kirchner obteve 41 votos a favor e 26 contra, além de uma abstenção. Um dos votos favoráveis foi o do senador e ex-presidente Carlos Menem, que nos últimos dois anos passou de ser “inimigo” a “aliado” da presidente Cristina.

A Associação de Entidades Jornalísticas da Argentina (Adepa) sustenta que, com a nova lei, o governo controlará e distribuirá o papel-jornal de forma arbitrária.

 

Lei do governo Kirchner segue caminho de legislações similares do presidente chileno Sebastián Piñera e do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe. A forma de definir o que é terrorismo poderia englobar qualquer um. Acima, falando em terroristas comme il faut, Ossama Bin Laden.

PODER PARA DEFINIR QUEM É TERRORISTA – O Senado também aprovou a lei anti-terrorismo, que determina de forma extremamente abrangente quem é “terrorista”. Líderes kirchneristas no Congresso, como Carlos Kunkel, deixaram claro que o “terrorista” não é somente a pessoa que coloca bombas, mas também a pessoa que “aterrorize” a população e o obrigue o governo argentino a “realizar um ato ou abster-se de fazê-lo”.

O diretor da Unidade de Investigações Financeiras (UIF), José Sbatella, indicou que que um jornalista que publique uma notícia que gere uma corrida bancária, poderá ser preso. Segundo ele também seria punida uma medida especulativa que que “bata no governo” (sem especificar o que seria “bater”)

De acordo com a nova lei, as penas previstas no Código Penal serão “duplicadas” quando os delitos previstos tenham sido cometidos com a finalidade de aterrorizar a população”.

Isto é, hipoteticamente, caso um jornalista publique suas investigações sobre um plano do governo de realizar um confisco bancário, ele poderá ser detido por publicar a realidade.

A lei levantou mais de uma sobrancelha no âmbito jornalístico argentino, já que a presidente Cristina Kirchner costuma afirmar que é vítima de um “fuzilamento midiático” e que existe uma “tentativa de golpe de Estado” dos meios de comunicação (embora nunca tenham realizado uma denúncia na Justiça sobre algum organizador de um suposto coup d’état).

A interpretação de “aterrorizar” ficará nas mãos dos juízes argentinos.

O.B.L. em montagem fotográfica ostentando a vestimenta de Papai Noel, o bom e adiposo – e barbudo – velhinho que veste-se totalmente de vermelho.

A publicação dos índices de inflação calculados pelos economistas independentes, na contra-mão do índice oficial (acusado de maquiagem), também poderiam ser punidos pela lei, caso os juízes considerem que essas informações “aterrorizam” a população.

Essa lei causou uma intensa reação na oposição. O deputado Fernando “Pino” Solanas, líder do esquerdista Projeto Sul, afirmou que é um “absurdo” deixar à legislação penal as interpretações futuras sobre as intenções dos protestos sociais.

Isto é: quem quiser fazer uma manifestação corriqueira e tradicional (elementos da paisagem do cotidiano argentino) agora ficará na dúvida se seu protesto poderá ser considerado “terrorista” ou não. Ou, tudo dependerá do grupo que realize o protesto.

A lei também abre espaço para a criminalização dos protestos sociais. Desta forma, poderiam ficar na mira do governo as organizações ecologistas e comunidades indígenas que realizaram vários protestos no último ano.

Diversas organizações não-governamentais aliadas da presidente Cristina perceberam que o governo havia ido “longe demais” e criticaram a lei.

Esse foi o caso do Centro de Estudos Sociais e Legais (CELS), comandado pelo veterano jornalista Horacio Verbitsky, costumeiramente um enfático defensor do casal Kirchner. No entanto, desta vez, o CELS emitiu um comunicado no qual afirma que a forma “vaga” do texto da lei que define os delitos terroristas implante um limite difuso que poderia atingir os protestos sociais: “criminalize modalidades de participação sem precisar quais são os delitos para os quais a figura está destinada”.

As Avós da Praça de Mayo também fizeram objeções à nova lei. As Mães da Praça de Mayo-Linha Fundadora expressou “profunda discordância” com a lei.

No entanto, o outro grupo, as Mães da Praça de Mayo, comandadas por Hebe de Bonafini, evitaram qualquer tipo de comentário negativo sobre a lei.

O juiz da Corte Suprema de Justiça, Eugenio Zaffaroni, aliado do governo, também considerou que desta vez o cenário estava degringolando. O juiz, que recentemente esteve envolvido em um escândalo sobre a existência de prostíbulos em cinco apartamentos que ele alugava, sustentou que a lei era uma “extorsão” internacional do Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI), que recomendou esta lei. “Mas no país não precisamos esta lei anti-terrorismo”, sustentou.

A lei do governo Kirchner segue caminho de legislações similares do presidente chileno Sebastián Piñera (onde foi usada para prender índios mapuches que protestavam para exigir a devolução de terras indígenas) e do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe.

UM SUICÍDIO NA CÚPULA

O corpo sem vida de Iván Heyn, pendendo do cabideiro do armário de seu quarto do Hotel Victoria Radisson, no centro da capital uruguaia, com um cinto enforcando seu pescoço, tumultuou nesta semana a reunião de cúpula de presidentes e ministros dos países do Mercosul. O jovem, de 34 anos, ocupava há 10 dias o cargo de sub-secretário de comércio exterior da Argentina.

Na terça-feira ao meio-dia sua ausência nas reuniões no edifício da Secretaria do Mercosul chamou a atenção dos integrantes da equipe econômica, que foram buscar o economista, que foi encontrado morto. Ao ser informada do suicídio do subsecretário – que estava nu na hora da morte – a presidente Cristina Kirchner passou mal e foi atendida por seu médico pessoal na sede da Secretaria do Mercosul.

A morte de Heyn – que integra a equipe que intensificaria o protecionismo do segundo mandato da presidente Cristina – provocou o cancelamento da tradicional foto oficial dos presidentes do Mercosul. É a primeira vez, em 42 cúpulas, que o bloco do Cone Sul registra a morte de um de seus negociadores durante o período de reuniões.

A notícia do suicídio interrompeu os trabalhos no meio da tarde, que, no entanto, foram retomados na seqüência.

ESTRELA - Heyn foi velado na quarta-feira em Buenos Aires. A morte de Heyn, ocorrida durante a cúpula de presidentes do Mercosul na capital uruguaia, causou grande impacto dentro do governo, já que o jovem, de 34 anos, despontava como o economista-estrela do kirchnerismo. Além disso era amigo pessoal do filho da presidente Cristina Kirchner, Máximo, que possui grande influência no governo de sua mãe.

Os analistas consideravam que Heyn tinha potencial como futuro ministro da economia, devido a seu jogo de cintura que lhe possibilitava relações fluidas com o empresariado e simultaneamente com a ala radical do kirchnerismo.

Grande parte do gabinete de ministros foi ao velório de Heyn, além de militantes da organização “La Cámpora”, denominação da juventude kirchnerista, que ele integrava.

“Quando me comunicaram sua partida, senti que ficava sem ar”, admitiu na quarta-feira em Buenos Aires a presidente Cristina, durante um discurso em rede nacional de TV. “Ele tinha a idade de meu filho, 34 anos”.

A presidente indicou que se pudesse colocar um nome ao decreto que assinou ontem, que determina um teto para as taxas de juros dos créditos para os aposentados, “poria o nome de Iván Heyn”.

O economista, que suicidou-se nu, não deixou cartas com explicações sobre os motivos que o levaram à morte em seu quarto do décimo andar do Hotel Victoria Radisson. Diversos amigos do subsecretário morto afirmam que ele estava “muito cansado”, “sobrecarregado de trabalho” e “zangado”.

A Polícia uruguaia indicou que o corpo de Heyn “não exibia sinais de violência”. Além disso, descartam, a princípio, um assassinato, já que as gravações das câmeras de segurança do hotel não mostravam pessoa alguma entrando em seu quarto.

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Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Foto que mostra a mão esquerda amarrada de uma vítima dos voos da morte. O corpo foi fotografado nas areias de uma praia uruguaia.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) entregou nesta quinta-feira 130 fotos inéditas de vítimas dos denominados “voos da morte”, denominação dos voos que a aeronáutica naval argentina realizava durante a ditadura militar (1976-83) sobre o rio da Prata e o mar para jogar nas águas os prisioneiros, ainda vivos, desde os aviões. A maior parte dos cadáveres dos prisioneiros políticos argentinos encontrados naquela época foram levados pela correnteza às costas do Uruguai, cujo governo acreditava no início que eram vítimas de um naufrágio de um navio asiático.

Além das fotografias – de alta qualidade – a CIDH enviou à Buenos Aires relatórios dos anos 70 da Guarda Costeira e dos serviços de inteligência do Uruguai sobre a descoberta dos corpos nas praias uruguaias.

O material também contém mapas indicando onde os corpos foram encontrados. A maior parte dos cadáveres apareceram nas praias entre as cidades de Colônia (sobre o rio da Prata) e La Paloma (no oceano Atlântico).

As fotografias mostram pessoas nuas, a maioria com as mãos e os pés amarrados com cordas. Os militares argentinos teriam amarrado os prisioneiros para evitar distúrbios dentro dos aviões, além de impedir que tivessem qualquer chance de nadar, em caso de sobrevivência quando eram arremessadas desde os aviões.

Os corpos também exibem marcas de torturas, como fraturas ósseas múltiplas no tórax e membros, além de crânios esfacelados. Os cadáveres exibem marcas de choques elétricos.

Em vários casos, especialmente mulheres, os cadáveres tinham marcas de perfurações feitas com objetos pontiagudos em seus púbis e ânus. Outra foto mostra um homem que havia sido castrado com um certeiro corte de faca pouco tempo antes de sua morte.

O material fotográfico e os relatórios feitos na época pela Guarda-Marinha do Uruguai foram entregues ontem ao juiz federal Sérgio Torres, responsável pelas investigações e o julgamento dos envolvidos no “mega-processo ESMA”, denominação do processo que envolve dezenas de ex-torturadores da Escola de Mecânica da Armada (ESMA).

Os arquivos confidenciais, que pertencem ao relatório secreto realizado pela CIDH entre 1979 e 1980 na Argentina e no Uruguai, foram encontrados em novembro pelo juiz Torres dentro de 65 caixas na sede da Comissão Interamericana, nos EUA.

Ao ver os primeiros relatórios Torres fez algumas fotocópias. Mas, depois, ao perceber que ali poderia estar material que pudesse comprovar a existência dos “voos da morte”, solicitou à CIDH o material original.

O secretário-executivo da CIDH, Santiago Cantón, declarou que estes documentos possuem alto valor, já que até agora, todas as provas sobre os voos da morte eram depoimentos.

Os integrantes atuais da CIDH não sabem qual é a origem dos documentos encontrados. No entanto, suspeitam que poderiam ter sido entregues pelo ex-marinheiro e fotógrafo da Marinha uruguaia, Daniel Rey Piuma, que – chocado pelos horrores da ditadura de seu país (1973-85), desertou e fugiu para o Brasil. Posteriormente pediu asilo na Holanda, onde reside. Piuma teria escapado do Uruguai com material fotográfico que teria entregue a representantes do CIDH no Brasil na época.

A revelação da documentação é uma atitude inédita da CIDH, que pela primeira vez abre seus arquivos confidenciais para seu uso em um processo na Justiça. Além disso, os documentos poderiam gerar um pedido da Justiça argentina ao Estado uruguaio para que Montevidéu desclassifique os documentos relacionados à descoberta de corpos de argentinos nas costas do Uruguai nos tempos da ditadura.

Estimativas de ONG argentinas e de organismos internacionais como a Anistia Internacional indicam que a ditadura argentina assassinou 30 mil civis. Destes, 5 mil teriam passado pela ESMA. Menos de 150 sobreviveram às torturas e os fuzilamentos feitos pelos oficiais da Marinha.

A ESMA era comandada pelo almirante Emilio Massera, definido pelo escritor Miguel Bonasso como “o serial killer com sorriso de Gardel”, em alusão à sua crueldade e personalidade esquizofrênica. Massera morreu em novembro do ano passado, após uma década em estado vegetativo.

Floreal, aos 14 anos, pouco antes de ser sequestrado, torturado nas mãos e genitais e finalmente empalado vivo.

EMPALADO VIVO - Uma das fotos, relativas a três corpos encontrados no dia 22 de abril de 1976, quase um mês após o golpe que deu início à ditadura argentina, mostra o cadáver de um jovem com a marca de uma tatuagem com as letras “FA”. Segundo a Equipe Argentina de Antropologia Legista – responsável pela identificação de centenas de corpos de desaparecidos nos últimos anos – a foto seria do cadáver do adolescente Floreal Avellaneda, sequestrado no dia 15 de abril. O corpo, com a tatuagem que o jovem havia feito, foi encontrado pelos uruguaios e enterrado em Montevidéu. Posteriormente sua família foi informada sobre a descoberta do corpo do garoto.

Filho de um casal de sindicalistas militantes do Partido Comunista, Floreal, que tinha 14 anos quando foi sequestrado, sofreu torturas nas mãos e genitais. Depois, foi empalado vivo.

Mapa da Guarda Costeira do Uruguai que mostra a origem dos corpos encontrados no litoral uruguaio.

CORPOS NAS PRAIAS - Na época do surgimento dos primeiros cadáveres, a ditadura militar uruguaia acreditou que tratavam-se de pessoas afogadas em um naufrágio de um navio asiático. Os militares confundiram no início que eram de etnias orientais, pois os corpos estavam “amarelos”. Mas, posteriormente perceberam que tratavam-se de ocidentais.

Nos anos seguintes os militares em Montevidéu reclamaram aos colegas argentinos em Buenos Aires que o surgimentos de corpos em suas praias estavam causando constrangimentos ao regime, além de pânico nos turistas, que deparavam-se com os cadáveres trazidos pela maré. A partir dali, os pilotos argentinos deixaram de arremessar os prisioneiros na área do rio da Prata começaram a fazer voos até o mar. No entanto, as correntes marítimas continuaram levando os corpos às costas uruguaias.

VALOR DOS DOCUMENTOS - Valeria Barbuto, diretora da área de pesquisa do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), disse ao Estado que a revelação das fotos e documentos por parte da CIDH é “fantástico”, pois “demonstra que ainda existem muitos documentos que ainda não conhecemos e que podem ser de utilidade para a memória e as investigações na Justiça”. Segundo ela, “esta contribuição de documentos confere mais solidez aos processos na Justiça” sobre os crimes da ditadura.

Barbuto sustentou que o real valor destes documentos “poderá ser avaliado ao longo das próximas semanas”. Segundo ela, o material entregue pela Comissão Interamericana “servirá para provar que os voos da morte eram uma sistemática da ditadura e não algo circunstancial”.

A representante do CELS considera que a desclassificação dos documentos da CIDH estimulará que vários países da região acelerem o processo de abertura de seus arquivos sobre os períodos das ditaduras no Cone Sul.

DITADURA ARGENTINA APLICOU VÁRIOS MÉTODOS PARA ELIMINAR PRISIONEIROS

Tal como os funcionários do Terceiro Reich que recorreram aos fornos crematórios para eliminar os prisioneiros dos campos de concentração – como forma rápida de eliminar os vestígios dos corpos dos judeus massacrados – a ditadura argentina optou pelos “voos da morte” como uma de suas modalidades preferidas para “desaparecer” as pessoas sequestradas.

Adolfo Scilingo, ex-capitão da Marinha que em 1995, arrependido de sua participação nos “voos da morte”, revelou que 4.400 pessoas foram assassinadas ao serem arremessadas no rio da Prata e no mar desde os aviões da Marinha. Scilingo, condenado a 640 anos de prisão pelos tribunais da Espanha por crimes contra a Humanidade, sustentou que os voos da morte não eram um procedimento circunstancial, mas sim, parte de um plano de grande escala de eliminação dos corpos dos desaparecidos.

Além da Armada argentina, a Aeronáutica e o Exército também realizaram “voos da morte”, embora em menor escala, já que estas duas forças preferiam o enterro dos cadáveres em fossas comuns clandestinas. Na quarta-feira, na província de Tucumán, no norte da Argentina, a Justiça revelou a descoberta de uma fossa comum com quinze corpos de desaparecidos da ditadura.

Um dos corpos encontrados foi o do ex-senador Guillermo Vargas Ainasse, que foi sequestrado pelos militares em abril de 1976, aos 35 anos. A Equipe de Antropologia Legista fez um exame de DNA

A ditadura argentina também amarrava prisioneiros e os dinamitava vivos, além de fuzilamentos em massa.

A fossa comum com os esqueletos dos desaparecidos da ditadura na província de Tucumán.

PROTAGONISTA DOS VOOS FALAVA COM O ‘PEQUENO JESUS’ - Um dos criadores dos “voos da morte” foi o capitão de corveta Jorge “Tigre” Acosta, uma das “estrelas” da ESMA. O oficial, que falava sozinho à noite, em delírio místico explicava aos colegas e prisioneiros que mantinha longas conversas noturnas com “Jesucito” (O pequeno Jesus), ao qual perguntava qual dos prisioneiros deveria torturar no dia seguinte e jogar dos aviões.

Acosta – famoso pelos requintes de crueldade que aplicava aos detidos – também foi um dos principais sequestradores dos bebês de prisioneiras da ESMA, em cuja maternidade clandestina nasceram mais de cem bebês.

Em outubro passado, Acosta, acusado de violar diversas prisioneiras, foi condenado à prisão perpétua por seus crimes durante a ditadura. 

 Mudando de assunto: Na segunda-feira que vem, dia 19, às 17h, a TV Estadão fará um debate sobre a Primavera Árabe com Reginaldo Nasser e Heni Ozi Cukier, moderado pelo Lameirinhas. O debate será transmitido ao vivo no portal e permitirá participação em tempo real dos internautas pelo Twitter, Facebook, email e pelo Radar Global.

Mais informações, aqui.

As perguntas para o debate poderm ser enviadas aqui: estadaointer@gmail.com

 

ara encerrar esta semana, de Ludwig van Beethoven, Sétima Sinfonia, 2º movimento. Com o maestro Leonard Bernstein, que rege a Weiner Philharmoniker.

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A presidente Cristina Kirchner assinou um decreto publicado na segunda-feira no Diário Oficial da Argentina, no qual convoca o Congresso Nacional a realizar sessões extraordinárias para debater e votar uma série de projetos de lei, entre os quais está a declaração de “interesse público” da produção, comercialização e distribuição de papel de jornal em toda a Argentina. A presidente Cristina, no decreto, determinou que esse projeto – entre outros – sejam votados no plenário da Câmara de Deputados e no Senado no máximo até a véspera do Reveillon, dia 30 de dezembro.

O projeto – aprovado na comissão da Câmara nesta terça-feira com uma velocidade nunca antes vista – é um golpe direto aos dois maiores jornais do país, o “Clarín” e o “La Nación”, ambos de posições críticas com o governo.

O projeto poderia ser votado na Câmara de Deputados nesta sexta-feira. Se for aprovado – como tudo indica, graças à maioria do governo no plenário – irá na semana que vem ao Senado.

Se for aprovada, a lei irá na contra-mão da Convenção Americana de Direitos Humanos – o Pacto de San José de Costa Rica – que proíbe expressamente a aplicação de controles sobre papel-jornal.

Alguns setores da oposição – principalmente os partidos de centro e centro-direita – afirmam que o projeto da presidente Cristina não passa de uma “estatização encoberta” da única fábrica de papel de jornal em funcionamento no país.

Atualmente o Clarín possui 49% das ações da Papel Prensa. O Estado argentino é o segundo acionista, com 27,6%. O jornal “La Nación” possui 22,49%. Os restantes 1,05% estão nas mãos de pequenos investidores.

Caso o projeto seja aprovado, o “Clarín” e o “La Nación” serão forçados a vender suas ações, já que as novas normas proíbem que empresas de jornais impressos possam ter ações na “Papel Prensa”.

“Claramente, é um projeto com intencionalidade política. Apesar do impacto que isto pode ter, o governo pretende votá-lo às pressas, antes do fim do ano, com um Parlamento novo, que acabou de tomar posse há poucos dias. Além disso, nenhum meio de comunicação foi convocado às comissões parlamentares para expressar sua opinião sobre o caso”, disseram ontem ao Estado fontes do jornal “Clarín”. “É um confisco encoberto”, sustentaram as fontes, que ressaltaram que o projeto visa, além de um controle estatal sobre o papel de jornal, o favorecimento dos meios de comunicação aliados do governo, o denominado ‘amigopólio’”.

O projeto também determina que qualquer pessoa que tenha mais de 10% de ações de uma empresa de jornal impresso não poderá participar da “Papel Prensa”. Desta forma, fica aberto o caminho para que os novos acionistas sejam empresários de outros setores da economia. Analistas afirmam que donos de empreiteiras, com boa relação com o governo Kirchner, já estão de olho na “Papel Prensa”.

Nos artigos 16 e 41 o projeto determina que o Estado, que possui atualmente 27% das ações da Papel Prensa, poderá ampliar seu capital na empresa.

FISCALIZAÇÃO ESTATAL - Caso o projeto seja transformado em lei o papel de jornal será fiscalizado por uma entidade ainda a ser criada, a Autoridade Federal para o Controle e Acompanhamento da Produção, Distribuição e Comercialização de Papel de pasta de celulose para os jornais (AFePDICop). Esta entidade será comandada por um funcionário, designado pelo Poder Executivo, com um mandato de quatro anos de duração.

O governo Kirchner havia tentado aprovar esse projeto no ano passado, quando estava em minoria no Parlamento. No entanto, desde a semana passada a presidente Cristina conta – somando parlamentares próprios e aliados – com uma confortável maioria para obter a aprovação da lei.

CARTAZES - Neste fim de semana, após a posse de Cristina, reeleita para um segundo mandato que se prolongará até 2015, cartazes com os dizeres “Tchau, Clarín” em letras garrafais foram colocados nas paredes de Buenos Aires.

Os cartazes, de autoria da Juventude Peronista, do Movimento de União Popular e da “Kolina” (grupo político da ministra da Ação Social, Alicia Kirchner, irmã do ex-presidente Nestor Kirchner, morto em outubro de 2010 e cunhada da presidente Cristina), também ostentavam a frase “nenhum monopólio resistirá três governos populares” (alusão ao governo de Kirchner e os dois mandatos de Cristina).

“O FIM” - O jornalista e historiador Jorge Lanata, fundador do jornal “Página 12” na segunda metade dos anos 80, disse ao Estado que a eventual aprovação da declaração de “interesse público” da produção e distribuição de papel de jornal, será “o fim do jornalismo na Argentina”. Segundo Lanata, os governos de plantão poderão determinar maiores quantidades de papel de jornal aos periódicos alinhados ou condescendentes com a Casa Rosada, enquanto que os jornais críticos correriam o risco de receber quantidades mínimas desse insumo.

Lanata foi recentemente apedrejado por militantes kirchneristas enquanto o jornalista participava ao ar livre de um debate sobre liberdade de imprensa na Universidade de Palermo.

Ao longo do ano passado o governo tentou culpar o “Clarín” e o “La Nación” de terem realizado em 1976 uma compra irregular, por intermédio de torturas, durante a ditadura, da “Papel Prensa”. No entanto, nada foi comprovado até o momento.

Um breve interlúdio musical com o argentino-israelense Daniel Barenboim e a Filarmônica de Berlim. Barenboim rege um clássico das milongas argentinas: “Taquito Militar”. Na sequência, a rocambolesca história da Papel Prensa.

A PECULIAR HISTÓRIA DA PAPEL PRENSA

 

David Graiver, banqueiro de Perón que financiava militares de direita e guerrilheiros de esquerda, morreu misteriosamente no México.

Em 1969 Papel Prensa foi criada por decreto do general Juan Carlos Onganía. Em 1972, quando governava o general Alejandro Lanusse, a empresa foi entregue a Cesar Augusto Civita e à Editora Abril. Em 1973, durante o governo de Juan Domingo Perón, o ministro da Economia, José Ber Gelbard, forçou a venda ao banqueiro David Gravier, aliado do governo peronista. Além desta aliança com Perón o banqueiro também tinha intrincadas relações financeiras com os militares e com o grupo guerrilheiro Montoneros.

Em 1975 os guerrilheiros entregaram a Graiver US$ 17 milhões de um total de US$ 60 milhões obtidos com sequestro dos irmãos Born (os principais milionários da Argentina na época) para que o banqueiro os investisse.

Em 1976 os militares derrubaram o governo de Isabelita Perón. Graiver morreu em agosto de 1976 em estranho acidente de avião no México. Seus bancos na Europa e EUA faliram. Nessa conjuntura complicada, seus herdeiros venderam as ações da Papel Prensa no dia 2 de novembro daquele ano. Um mês depois, os Montoneros pressionaram a víuva para que entregasse o dinheiro que seu falecido marido havia administrado para a guerrilha, ameaçando-a jogar pela janela de seu edifício.

Seis meses depois Papaleo e seu cunhado, Isidoro Graiver, foram detidos pelos militares, acusados de ter o dinheiro do sequestro feito pelos Montoneros. Os militares confiscaram diversos bens da família e torturaram Lídia e Isidoro.

Em 1986 Papaleo prestou depoimento nas investigações realizadas na época sobre crimes da ditadura. Na ocasião afirmou que havia sido detida em março de 1977, meses depois da venda de Papel Prensa. Ela foi indenizada em US$ 84 milhões pelo presidente Raúl Alfonsín pelos confiscos aplicados pelos militares. Na ocasião, Lídia nada reclamou sobre a Papel Prensa.

O surgimento da polêmica sobre Papel Prensa trouxe à tona, além de Lídia Papaleo, seu irmão, Osvaldo, que foi porta-voz em 1975 da então presidente Maria Estela Martinez de Perón, a.k.a. “Isabelita”, viúva de Perón.

Osvaldo Papaleo, que participou abertamente de reuniões políticas com integrantes do kirchnerismo, foi também um dos principais homens de José López Rega, astrólogo e super-ministro da então presidente Isabelita Perón. López Rega criou na época uma força paramilitar de extrema-direita, a “Tríplice A”, com a qual perseguia representantes de partidos da esquerda e da própria ala esquerdista do partido governista, o Justicialista.

OS TIMERMAN - Graiver também havia investido no jornal “La Opinión” e no “La Tarde”, respectivamente de Jacobo Timerman e de Héctor Timerman, pai e filho.

Jacobo, que foi um enfático defensor do golpe de Estado de 1976 (já havia defendido o golpe de 1966, que derrubou o então presidente Arturo Illia), posteriormente foi detido e torturado selvagemente pelos militares, seus ex-aliados. Jacobo foi salvo graças à intervenção pessoal do presidente americano Jimmy Carter.

O filho de Jacobo, Héctor, que também comandou um jornal que respaldou a preparação do golpe militar, transformou-se nos anos 80 em ativista dos direitos humanos. Atualmente é o chanceler do governo Kirchner.

DIFERENTES VERSÕES PARA UMA HISTÓRIA

- Dos jornais Clarín e La Nación

a) Ambas empresas – junto com o já extinto La Razón – afirmam que compraram as ações da família Graiver-Papaleo em novembro de 1976. As torturas, nas quais indicam que não tiveram participação, só começaram em março de 1977.

b) Além disso, o jornal “La Nación” publicou em 2010 uma denúncia feita pelo presidente da diretoria do próprio periódico portenho, Julio Saguier, que indica que Lidia Papaleo de Graiver, a viúva de David Graiver – o falecido dono da empresa Papel Prensa – teria negociado com a presidente Cristina Kirchner e seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner um pagamento para contar outra versão da História sobre a venda em 1976 da companhia, a única produtora de papel de jornal da Argentina.

Saguier afirma que reuniu-se em maio deste ano com Papaleo para um café no elegante Hotel Alvear. Na ocasião, o governo Kirchner já havia deslanchado o confronto com o “Clarín” e o “La Nación” por causa da Papel Prensa. Papaleo aceitou conversar com Saguier por agradecimento à boa relação que teve com seu pai, Julio César Saguier, primeiro prefeito de Buenos Aires com a volta da democracia, em 1983.

Papaleo, nessa conversa, teria confessado a Saguier que os Kirchners lhe ofereceram US$ 200 mil de entrada, caso confirmasse a versão do casal presidencial sobre o caso de Papel Prensa. Mas, na hipótese de que a “operação fosse coroada com sucesso” contra ambos jornais, receberia outros US$ 2 milhões.

Papel Prensa era comandada em meados dos anos 70 pelo banqueiro David Graiver. Mas, com a misteriosa morte deste, em agosto de 1976, em um acidente de avião no norte do México, as ações passaram para sua viúva Lídia, que era psicóloga e mãe da filha de ambos, María Sol Graiver. Em novembro daquele ano, em meio a problemas financeiros provocados pela falência dos bancos do falecido marido, Papaleo vendeu as ações aos jornais “Clarín”, “La Nación” e o “La Razón” (posteriormente extinto).

Na conversa com Saguier a viúva admitiu que precisava do dinheiro oferecido pelos Kirchners, já que sua fortuna havia ficado com sua filha María Sol, com a qual não conversa há anos. Papaleo teria dito a Saguier que o acordo com os Kirchners foi pactuado após três reuniões. Para evitar a filtragem de informações sobre esses encontros realizados na residência presidencialde Olivos, o deputado Carlos Kunkel, amigo de juventude dos Kirchners e um de seus principais homens no Parlamento, levou Papaleo pessoalmente em seu carro.

- Do governo Kirchner

Meses atrás o governo afirmou que Lidia Papaleo foi torturada em novembro de 1976, ocasião na qual foi forçada a vender as ações da empresa.

Depois, perante a polêmica, o governo emitiu uma segunda versão, na qual sustentava que os membros da família Graiver-Papaleo viviam em uma “liberdade ambulatória” e que haviam sido levados à força para a assinatura da venda das ações.

- Da viúva Papaleo (quatro versões diferentes)

a) Na segunda metade dos anos 80 declarou perante a Justiça – durante o julgamento das juntas militares – que havia sido torturada em março-abril de 1977 porque os militares suspeitavam que ela tinha dinheiro da guerrilha Montoneros. Na ocasião, Papaleo não vinculou suas torturas com a venda de Papel Prensa.

b) Nos últimos meses sustentou que foi intimidada e posteriormente detida e torturada para vender as ações de Papel Prensa.

c) Perante a Justiça em La Plata afirmou que enquanto esteve detida pelos militares não saiu da prisão para assinar a venda das ações de Papel Prensa.

d) A mais recente versão é a da conversa com Saguier, na qual teria admitido que receberia dinheiro para inventar um relato favorável às intenções dos Kirchneres.

- De Isidoro Graiver, irmão do falecido David Graiver, torturado no mesmo centro de detenção de Lidia Papaleo

A venda das ações foi em novembro de 1976; prisão e torturas ocorreram em março e abril de 1977. Segundo Isidoro, não há vínculos entre os dois jornais e as torturas contra a família.

- De Gustavo Caraballo, ex-embaixador do governo de Juan Domingo Perón na Unesco

Caraballo afirma que foi torturado junto com Lídia Papaleo de Graiver em 1977, confirmou que as sessões de tortura ocorreram vários meses depois da operação de venda

 

Presidente argentina tenta conseguir controle da mídia, tal como fundador do peronismo fez há 60 anos. Na foto, Perón abraça o ditador e general paraguaio Alfredo Stroessner.

NA GUERRA CONTRA A IMPRENSA, CRISTINA SEGUE OS PASSOS DE PERÓN

Poucos meses antes de morrer em 1974, o presidente Juan Domingo Perón admitiu: “fui colocado para fora do governo quando tinha todos os meios de comunicação a favor…e ganhei as eleições quanto os tinha todos contra mim!”. Perón referia-se à sua queda, em 1955, época em que ostentava um controle sem precedentes da maioria dos meios de comunicação, e de sua vitoriosa eleição, em 1974, quando a mídia era majoritariamente contra o septuagenário caudilho.

A presidente Cristina Kirchner, afirmam analistas e representantes da oposição, em vez de comportar-se como o Perón dos últimos anos, reprisam a ambição de controle dos meios de comunicação que o caudilho exercia nos anos 40 e 50.

Um dos sinais mais evidentes foi a aprovação – em 2009 – da polêmica lei de radiodifusão – também denominada de “lei de mídia” – que determina maior controle da mídia por parte do governo.

Da mesma forma que os Kirchners tentam atualmente destruir o poder do Grupo Clarín, o maior holding multimídia argentino, Perón e sua esposa Eva colocaram uma série de restrições à mídia privada e armaram uma super-estrutura de meios de comunicação estatais, além de redes privadas de empresários “amigáveis”.

DEFENSIVA E OFENSIVA - Segundo o historiador Eduardo Lazzari, Perón inicialmente tentava defender-se dos ataques da oposição. Mas, logo depois percebeu que a defesa não era suficiente e fechou jornais como “La Prensa”, entregue a sindicalistas fiéis.

Nos dois primeiros governos de Perón (1946-55), grande parte dos donos de meios de comunicação foram pressionados a vender seus jornais, revistas e estações de rádio. Em alguns casos, se os empresários mostrassem obediência, podiam ser designados como diretores de suas ex-empresas, agora estatizadas, de forma a camuflar a compra compulsória realizada pelo governo.

O modus operandi era o de destinar os fundos necessários para essas compras eram provenientes do Instituto Argentina para o Estímulo ao Intercâmbio (Iapi), comandado por Miguel Miranda, um gênio da contabilidade criativa.

MÍDIA ALIADA - O governo peronista contava com um quarteto de redes de comunicação. Além do colossal monopólio estatal, o Alea SA, tinha o respaldo de três grupos nominalmente privados: a editora Heynes, a Associação Promotores de Teleradiodifusão e a editora La Razón, que editava o influente jornal homônimo.

Tal como o governo da presidente Cristina Kirchner fez com o jornal “Clarín” em 2009 ao realizar uma blitz de insólitas proporções da Afip (a receita federal argentina) – as companhias jornalísticas que resistiam ao assédio de Perón eram pressionadas com o Fisco.

O braço inquisidor do governo peronista era a Comissão Bicameral de Atividades Argentinas, comandada pelo ultra-peronista deputado Emilio Visca, que vasculhava os livros de contabilidade dos jornais não alinhados com Perón para ter argumentos para seu fechamento, confisco ou intervenção.

Capas do La Prensa quando havia sido confiscada pelo governo de Perón. Manchetes mostram alinhamento ostensivo com Perón, que havia ficado viúvo (pela segunda vez) com a morte de Eva Perón.

LA PRENSA - Esse foi o caso de “La Prensa”, jornal da aristocrática família Paz – definido pela revista americana “Time” como um dos mais respeitados periódicos do mundo na época – e detestado por Evita Perón, a primeira-dama. O “La Prensa”, cuja tiragem era de 480 mil exemplares, tornou-se alvo de uma campanha do governo a partir de 1947.

O “La Prensa” foi atacado pelas rádios aliadas do governo e enfrentou uma campanha oficial que promovia o boicote da compra de seus exemplares. Os anunciantes eram pressionados para não colocar publicidade nas páginas do “La Prensa”. O racionamento de papel encolheu o jornal das 40 páginas costumeiras a apenas 12. Mas, o jornal, apesar das pressões, continuava saindo às ruas.

Em 1950, o governo confiscou as novas rotativas importadas e as destinou para o “Democracia”, jornal editado pelo próprio Estado argentino. Em 1951 o sindicato dos jornaleiros ameaçou não distribuir mais o periódico.

Na sequência, com a aprovação do Parlamento – no qual o peronismo era maioria – foi confiscado e entregue à Confederação Geral do Trabalho (CGT), a única central sindical autorizada por Perón. O líder do bloco peronista na Câmara, John William Cooke, afirmou que o governo estava contra “La Prensa” porque, segundo ele, o jornal “estava contra os operários e contra os peronistas”.

Outros jornais, como “La Nación” – que já enfrentava o racionamento de papel de jornal, controlado pelo governo – tiveram que moderar suas críticas ao presidente Perón, para evitar correr destino similar ao “La Prensa”.

Com a queda de Perón em 1955, o “La Prensa” voltou às mãos de seus donos originais. No entanto, o jornal nunca mais foi o mesmo, já que durante a intervenção iniciou uma fase de decadência que foi aproveitada por um períodico que começava seus primeiros passos, o “Clarín”, a atual fonte de irritação para o casal Kirchner.

 

Modelo francesa da década de 1920 posa com vestido feito de papel-jornal.

“Tranqüilo, viejo, tranqüilo”, com Tita Merello:

“Se dice de mi”, também com Tita Merello:

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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