Notória: Figura da mitologia grega, Medeia – filha de Eetes (rei da Cólquida) e da ninfa Ídia – ficou famosa por matar os dois filhos que havia tido com Jasão (o famoso rapaz dos argonautas). O motivo? Vingança. A colquidense personagem deu origem ao termo “síndrome de Medéia”, para designar o caso no qual um progenitor mata um filho para ferir o cônjuge. No quadro acima, Medéia, retratada pelo francês Eugène Delacroix. E seus dois filhos, os quais assassinou, segundo a versão de Eurípides. A pintura é de 1862. Está exposta no Musée des Beaux-Arts de Lille, norte da França.
“Lo maté para cagar al padre!” (o matei para cagar o pai!). Com estas palavras, no claro idioma de Cervantes – embora expresso de forma chula – a brasileira Adriana Cruz confessou nesta quinta-feira que havia assassinado seu próprio filho, Martín, de 6 anos, entre a noite da segunda-feira e a madrugada da terça-feira no luxuoso condomínio fechado San Elíseo Golf & Country Club. O objetivo do filicídio de seu caçula, segundo admitiu, foi o de atingir seu ex-marido e pai da criança, o empresário Carlos Vázquez, do qual estava separada há seis meses. Adriana fez as declarações ao canal de TV Telefé ao sair dos tribunais do município de San Vicente, na zona sul da Grande Buenos Aires, onde foi convocada para depoimento ao procurador Leandro Heredia.
“Foi uma vingança?”, insistiu o repórter enquanto o carro da polícia acelerava, deixando o lugar. “Sim!”, respondeu Adriana, sem vacilar, em relação ao enforcamento e afogamento de seu filho.
Na sequência, foi levada à unidade penitenciária da cidade de La Plata, capital da província de Buenos Aires.
O promotoro Heredia afirmou que Adriana “estava lúcida e compreende a criminalidade de suas ações”.
O promotor definiu o crime realizado no elegante condomínio fechado de San Eliseo, no município de San Vicente, de “abominável e desprezível”. Segundo ele, o cenário do crime era “dantesco”.
Heredia também explicou que Adriana teria assassinado Martín na noite da segunda-feira. Após o assassinato, a mãe dormiu no quarto, enquanto o cadáver da criança estava na banheira. Segundo o promotor, ninguém visitou Adriana, “sequer seu pai, que mora em São Paulo que veio vê-la no ano passado quando esteve internada em uma clínica psiquiátrica”.
Adriana Cruz poderia ser condenada à prisão perpétua.
Adriana Cruz, de 41 anos, foi mãe de Martín, assassinado no início desta semana aos 6 anos de idade. Foto do perfil da assassina confessa no Facebook.
ASSASSINATO COM MENSAGEM - “Traidor. Você merece isto, filho da p….”. Esta era a frase pichada com aerossol na parede da suíte do luxuoso casarão de Adriana. Embaixo da pichação, na hidromassagem, estava submerso o corpo de Martín Vázquez, um menino de seis anos, que previamente havia sido asfixiado. A poucos metros, na cama de casal da suíte, a mãe do menino – a brasileira Adriana Cruz, de 41 anos – tentava suicidar-se por enforcamento com uma gravata do ex-marido. Do lado, uma navalha manchada com sangue. Nos braços da mulher, vários cortes de faca.
Essa era a cena com a qual deparou-se a empregada doméstica da casa, Dominga, na terça-feira, quando entrou na suíte depois de ter achado estranho que sua patroa ainda não havia saído do quarto naquela manhã. Dominga deteve o enforcamento de Adriana, que estava semi-dopada.
O destinatário da mensagem pichada na cena do crime seria Carlos Vázquez, ex-marido de Adriana, um empresário vinculado ao Grupo Covelia de coleta de lixo. Martín, segundo boatos ontem no condomínio privado, era o “preferido” de Vázquez.
O caso tomou conta do noticiário nos canais de TV e rádios de Buenos Aires. Os psicólogos consultados enquadravam o caso de San Elíseo dentro da “síndrome de Medéia” – em alusão à figura da mitologia grega – na qual um progenitor mata um filho para ferir o cônjuge.
Adriana teria assassinado o filho com uma gravata, para depois afogá-lo na hidromassagem. Na sequência, fez a pichação e depois ingeriu uma grande quantidade de barbitúricos, tentou cortar os pulsos com uma navalha e ainda fez a tentativa de enforcar-se com uma gravata de seda.
Meses antes de sua morte, Martín, em uma piscina, diverte-se com uma de suas duas irmãs.
RECADO À FILHA - A outra filha de Adriana, de 15 anos, entrou no quarto com a empregada e viu a cena do crime. Para a adolescente havia um recado no espelho do banheiro, escrito com batom – hipoteticamente redigido pela mãe – no qual pedia perdão. O recado também continha um conselho: “se salva, se independiza, que não te aconteça o mesmo que a mim”.
O pai, alertado pela empregada doméstica, foi à casa da ex-mulher. O empresário chegou meia hora depois do telefonema. Quando entrou e viu a cena do assassinato, ficou em estado de choque. Imediatamente foi levado em uma ambulância a um hospital.
O caso está sendo investigado pelo promotor Leandro Heredia, que sustentou que o filho “tentou resistir” ao enforcamento feito supostamente pela mãe. “Mas não conseguiu e foi vencido. Foi como Davi contra Golias. Mas desta vez ganhou Golias…”.
Adriana, segundo as fontes policiais, estava sob tratamento psiquiátrico há quase um ano, época na qual teriam começado os trâmites do divórcio. Nesse período, a brasileira, segundo as informações extraoficiais, ela já teria feito ameaças de matar seu próprio filho. Adriana e Carlos teriam estado casados ao longo de dezesseis anos. No ano passado, segundo a polícia, Adriana esteve internada durante 30 dias em novembro. No dia do crime, a empregada doméstica explicou à polícia que sua patroa “tomava muitos remédios”.
CASAL - Adriana e Carlos conheceram-se há 16 anos no Rio de Janeiro. Na sequência, instalaram-se em Buenos Aires, onde casaram-se. O casal teve três filhos. O caçula, Martín, permanecia ontem inerte no Instituto Médico Legal.
LUGAR BELO - O condomínio privado San Elísio, que autodefine-se em seu site na internet como “um dos lugares mais belos da província de Buenos Aires” possui 173 hectares de extensão, e conta com um campo de golfe, além de dez lagos.
A atriz alemã Klara Zieger (1844-1909) interpretando a Medeia de Eurípides (não tem um quê de parecido?)
“FALTA DE SEGURANÇA”: Em 2006 Adriana Cruz havia sido coincidentemente entrevistada pelo Canal 13 sobre um delito que havia ocorrido em San Elíseo. “Vivo sempre fechada e com a porta trancada com chave”, disse na época.
E, para encerrar, Maria Callas como Medéia na ópera homônima de Luigi Cherubini. Libreto em francês de François-Benoît Hoffmann.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
Tonino Guerra, poeta e roteirista italiano, depois de 92 anos de intensa atividade e de desfrutar a vida, fechou os olhos para sempre nesta quarta-feira em sua cidade natal, Santarcangelo de Romagna. O vilarejo está perto de Rímini, berço de outro expoente do cinema, Federico Fellini.
Guerra e Fellini, além de amigos, trabalharam juntos. O primeiro fez roteiros para diversos filmes do segundo.
No início de 1994 fiz uma entrevista com Guerra no café da Filmoteca de Madri, depois da primeira noite de uma mostra de sua obra.
Federico Fellini, seu grande amigo, havia falecido poucos meses antes, no dia 31 de outubro de 1993. Desta forma, grande parte da conversa teve o diretor de Armarcord como epicentro.
A intenção original era publicar a entrevista em Madri, onde morava na época e trabalhava como freelancer. Mas, por diversos motivos, a entrevista nunca saiu. Ela ficou guardada, impressa, no meio de uma variada e empoeirada papelada. Recentemente, revendo no Youtube as cenas finais de “E la nave va”, lembrei da conversa com Guerra e procurei a entrevista entre os papéis (acumulo muuuuuuitos papéis). Ela não estava em disquete (Virge, sô! Que coisa antiga!). Mas, a encontrei impressa, em três páginas presas com um clip.
Aqui segue o texto que escrevi na época contendo a conversa com Guerra, que na ocasião tinha 73 anos. No ano passado publicamos esta entrevista no blog. Mas, hoje voltamos a postá-la como homenagem ao brilhante roteirista.
E assim, hoje “Os Hermanos” transforma-se brevemente em “Os Fratelli”.
Tonino Guerra trabalhou com os melhores diretores de cinema europeu. Foi roteirista de Federico Fellini (“Amarcord”, “Ginger e Fred”, “E la Nave va”), Andrei Tarkóvski (“Nostalgia”) e Michelangelo Antonioni (“A Aventura”, “Deserto Vermelho”). Colaborou com Francesco Rossi em “Carmen”. É também poeta e escreve em dialeto romagnolo. Modesto, com o tranquilo estilo de quem foi criado na pequena Santarcangelo, vizinha da felliniana Rimini, diz: “não, não quero falar sobre mim. Me pergunte sobre Fellini, Antonioni…deixe que lhe conte histórias sobre eles. Eu não sou tão importante..”.
Pergunta: Va bene, signore Guerra, mas me deixe perguntar se o sr. vai tanto a Santarcangelo quanto Fellini ia a Rimini para abastecer-se de ideias…
Guerra: Em Roma jamais saio de casa. Não dá para fazer isso em uma cidade onde os homens são menores que os monumentos. Vou para minha cidade, onde tenho um apartamento, na praça central. Todos ali estão bebendo nos cafés…e ali posso ouvir conversas muito sérias, como “quanto pesa um olho?”, e outros assuntos desse estilo. Há uns dez anos, atravessava a região da Úmbria, quando olhei o campo e suas suaves colinas…totalmente cobertas pela geada, como se fosse um véu. Mas o sol aparecia e a capa de geada sobre o chão desapareceu. Sob as árvores e nos lados das casas ainda permanecia essa ‘sombra branca’ do gelo…que momento poético! No camarote do trem um homem sentado em minha frente lia o jornal. Então eu disse, apontando pela janela: “puxa…mas olhe isso!”. E ele respondeu: “e daí? Não me importa”. Mais cedo ou mais tarde esse fato se transformará em uma cena de filme ou em dois versos de uma poesia.
Pergunta: Como foi seu trabalho com Antonioni?
Guerra: Nos uniu uma grande amizade. Primeiro fizemos “A Aventura”. Depois, realizamos “A noite”, “Zabriskie Point”, “Blow-up”, “Identificação de uma mulher”…o que eu admiro nos filmes de Antonioni é a imobilidade de suas cenas. A imagem se detém. São os personagens aqueles que continuam em movimento, embora sempre bloqueados.
Antonioni e Guerra em um break durante uma rodagem
Pergunta: Qual conexão o sr. possui com a Rússia?
Guerra: Minha mulher é russa e admiro os desenhos animados russos..o mundo deveria descobrir os verdadeiros poemas que são esses desenhos. Trabalhei com Tarkovski e filmei com Antonioni na Rússia. Juntos estivemos no Usbequistão, buscando os lugares para as cenas externas para uma fábula que chamava-se “A pipa”. Em uma camionete, íamos em direção ao Tajiquistão. Neste lugar vimos três muçulmanos. Naquela região, a pessoa que tem 63, 65 anos, é muito respeitado. Eles pareciam montanhas iluminadas, ausentes…Levamos os três de carona, por alguns quilômetros. Parecia que levávamos algo delicado … como se fosse um carregamento de açúcar. Ao descer, fizemos uma foto polaroid dos três. Eu dei a foto para eles. A olharam e a devolveram. Um deles disse: “para que deter o tempo?”.
Pergunta: Como era sua relação com Nino Rota? (Rota foi o autor das trilhas sonoras da grande maioria dos filmes de Fellini)
Guerra: Antes desta conversa, estava escutando a música de Nino Rota no hall (na Filmoteca de Madri, onde fiz esta entrevista)…Ele era um colaborador que Fellini amava: uma espécie de anjo apagado, indiferente a muitas coisas. Relembro muitas coisas. Especialmente que era muito distraído. Em uma ocasião, eu o visitei em sua casa. Ele estava sentado em um sofá. Subitamente, retirou sua mão de dentro de umas almofadas do sofá, segurando uma carta! E me disse: “Madonna mia! Tenho que fazer um presente. Dois jovens que eu conheço acabam de se casar”. E eu perguntei: “quando?”. Rota olhou a carta e disse: “…há sete anos”. Eu lhe disse: “há muito tempo, Nino”. E ele me respondeu: “compreenderão que sou distraído”. Em outra ocasião Nino Rota estava tocando piano. A seu lado, Fellini. Então, entrou um homem, que era um advogado, e que havia vindo para falar com ele. Rota estava compondo. Sem levantar a cabeça, pergunta ao advogado:
- De onde é?
- De Lecce (cidade no sul da Itália)
- E daí?
…E continuou compondo no piano. O homem deixou seu cartão de visita e saiu, decepcionado porque Rota não lhe prestou atenção.
Fellini disse a Rota:
- Por qual motivo você fez isso a esse bom homem?
- Qual homem?
- Esse que esteve aqui e que você tratou tão mal! (Fellini conta a Rota tudo o que ocorreu). Ele te deixou o telefone do hotel onde está.
- Não vi o homem, Federico! Você sabe como eu sou distraído! Por favor, chama esse homem e pede desculpas.
- Eu, pedir desculpas de tua parte??
- Sim, por favor, eu não sei fazer essas coisas!
Fellini então telefona para o homem:
- Olhe, sou Federico Fellini, e queria pedir desculpas por meu amigo.
- Mas, por qual motivo?
- É que quando ele disse “De onde o senhor é…?”
- De Lecce!
- Eu sei, deixe que lhe conte. Quando ele lhe perguntou “de onde o senhor é?”..
- De Lecce!
- Eu sei, cazzo!! Deixe lhe contar que a história é minha!
(Guerra continua falando)
Este homem excepcional, que morreu em um dia de chuva, está para sempre em nossa memória. No funeral estava minha mulher e eu, Giulietta (Giulietta Masina, mulher de Fellini), Fellini e dois amigos mais, em uma igreja vazia. Agora, os dois, Fellini e Rota, encontraram-se no céu.
Pergunta: Esteve com Fellini pouco antes de sua morte?
Guerra: Soube algo que não contou a sua esposa. Fellini acreditava muito nos sonhos. Hoje existem psicólogos que estudam seus sonhos. Um mês antes de sua ida a Zurique onde foi operado, teve um desses sonhos. Nele, ia à agência de Correios da Via del Corso, em Roma, e via que a caixa de correios era uma tumba…ele percebe que na boca da caixa de correios havia uma carta que saía. Nela, do lado de fora, estava escrita a frase “ao distraído dos distraídos”. Ao longo de um mês ou dois ele perguntou a si próprio o que poderia significar este sonho, pois, ao abrir o envelope, o que estava dentro, uma folha, estava em branco. Sobre este sonho ele falou comigo antes da operação em Zurique. Dizia: “acredito que vejo mais claramente o que aquilo queria dizer…”. Houve uma operação, uma segunda, depois a tragédia, até a morte.
Fotograma final de “E la nave va”
Pergunta: Como era o processo de escrever a quatro mãos o roteiro de “Amarcord”?
Guerra: O escrevemos em oito manhãs, das 8:00 hs da manhã até o meio-dia. Somos da mesma região. De Rimini ele, eu de Santarcangelo…portanto, uma memória comum muito próxima. Uma das características de Fellini era sua pontualidade. Sabia que às 8:00 em ponto Federico tocava a campainha, eu descia e ele ali estava. Mas, uma manhã fazia um belo tempo e eu desci antes da hora marcada para o encontro. Ele estava li, lendo. E ficou furioso por minha chegada. “Você acabou com os 10 minutos mais belos destes dias! Nesses minutos eu posso pensar no que eu quiser…até em mulheres”, disse. Na sequência, pegou seu carro e foi embora…
Pergunta: Por qual motivo “A voz da lua” e “Ginger e Fred” são considerados “fellinis” menores?
Guerra: O baile de Mastroianni e Giulietta, a queda de Marcello, não era a queda de um homem. Era a queda da Humanidade, de uma Humanidade que possuía graça, que é doce, que é a graça da civilização cidadã. Esse filme está entre os filmes menores de Fellini, afirmam os críticos. Não acho que assim seja…Como também “A voz da lua”. Quando as pesoas estão dançando naquela imensa discoteca e todos fazem um grande círculo para vê-los valsar…
Pergunta: Que relação existe entre seu trabalho de poeta e roteirista?
Guerra: Minha paixão pessoal é a de escrever poemas. Todo grande diretor, cada vez que me chama, sabe o que quer de mim: imagens poéticas. A poesia eu a escrevo em dialeto romagnolo. Mas um roteiro…com sinceridade…os diálogos eu os faço em último lugar. A imagem vem antes. Em “Amarcord” há dois poemas meus. Um é assim (declama):
“Meu avô fazia tijolos,
Meu pai fazia tijolos,
E eu não tinha uma casa”
Pergunta: Que tal foi escrever o roteiro de “Ginger e Fred”?
Guerra: Escrever “Ginger e Fred”, “Amarcord”, foi fácil. Escrever com Fellini…é esquecer que a gente está escrevendo um roteiro. Falamos de tudo. O cachorro que latem a janela que o vento sacode.
A Itália mussoliniana, retratada em Armarcord
Pergunta: E “E la nave va”?
Guerra: Nessa época eu estava apaixonado pelos grandes funerais. Havia estudado os funerais de (Josef) Stálin e (Rodolfo) Valentino, onde tantas pessoas foram pisoteadas. Publiquei um conto que se chamou “Os funerais de Mussolini se ele tivesse vencido a guerra”.
Pergunta: Como era essa história?
Guerra: Bene…o Duce havia falecido. Não era possível chegar até Roma. As autoestradas estavam entupidas. Por todos os lados havia caravanas de cavalos, camelos…resultados das conquistas na Etiópia. Nos vilarejos os padres comentavam coisas como “um dia, em um desfile, pude perceber que ele me olhava, brevemente..em meus olhos!”. E sobre a Itália sobrevoava um retrato de Mussolini, feito de néon…e de vez em quando uma orelha apagava-se, às vezes a outra. Em “E la nave va” queria fazer uma cena forte…fazer um funeral em um transatlântico! Imaginei os funerais de Edmea Tetua, uma diva da ópera. Uma evidente analogia a Maria Callas.
Pergunta: Fellini ainda é um incompreendido?
Guerra: Se até a “Divina Comédia” ainda não é compreendida…
Blow-up. Filme de Antonioni com roteiro de Guerra. E baseado em um conto de Julio Cortázar. Como diriam popularmente, “quer mais?”
Cena do funeral de “E la nave va”, de Fellini, com roteiro de Tonino Guerra:
O personagem de Tetua é baseado em parte em Maria Callas. A cena do funeral de “E la nave va” inclui “Oh patria mia” (a canção que toca enquanto as cinzas são espalhadas com o vento), uma das preferidas da famosa soprano. Aqui ela canta essa ária:
E para encerrar, Maria Callas cantando “Turandot”, de Giacoma Puccini, no Teatro Colón de Buenos Aires, em Turandot, em 1949:
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. Litografia francesa de 1914 com ironia sobre os ‘suinizados’ soldados prussianos
O governo da presidente Cristina Kirchner arrancou do Brasil um compromisso para limitar a entrada de carne suína brasileira no mercado argentino. Desta forma, os exportadores brasileiros terão que aceitar a imposição de cotas exigidas pela administração Kirchner, que oscilariam entre 3 mil e 3,5 mil toneladas por mês. A decisão sobre as cotas – medida que viola o espírito de livre comércio do Mercosul – foi o resultado das negociações realizadas na sexta-feira entre o ministro da Agricultura do Brasil, Jorge Mendes Ribeiro, e seu colega argentino, Norberto Yahuar.
Os produtos suínos Made in Brazil estavam há meses na mira do governo Kirchner, que em fevereiro bloqueou praticamente todas as exportações brasileiras do setor. Esta é a “Quarta Guerra Suína” surgida entre os dois países nos últimos 17 anos. Em todos estes conflitos, desde os tempos do ex-presidente Carlos Menem (1989-99), a Argentina sempre venceu a queda de braço.
Em uma coletiva para os correspondentes brasileiros na Embaixada do Brasil, o ministro Ribeiro afirmou que a cota, que será definida na semana que vem entre ambos governos, “estaria entre 3 mil e 3,5 mil toneladas mensais”.
Nestas conversas, técnicos dos dois países também definirão o prazo que o acordo bilateral terá. “Estou extremamente feliz”, destacou Ribeiro sobre os resultados obtidos em Buenos Aires.
Segundo o ministro, que retorna neste sábado ao Brasil, em fevereiro, por causa das barreiras argentinas, somente haviam entrado no mercado argentino 400 toneladas de cane suína Made in Brazil. “E, passar de 400 toneladas para uma garantia de 3 mil, é muito bom”, alegou sorridente.
Ribeiro afirma que confia que o governo argentino não tentará reduzir a cota de 3 mil toneladas. “Percebi que o mercado interno da Argentina precisa dessa quantia”, indicou.
Apesar das alegações do governo Kirchner sobre uma “avalanche” de produtos brasileiros, a balança comercial na área agrícola é amplamente favorável para a Argentina, que exporta para o Brasil US$ 4 bilhões. Na contra-mão, o Brasil somente vende US$ 710 milhões em produtos agropecuários para o mercado argentino.
O governo da presidente Cristina Kirchner começou a brecar a entrada da carne suína brasileira em janeiro, especialmente a polpa. As barreiras estão provocando falta de produtos suínos nas gôndolas dos supermercados argentinos. Do total utilizado pela indústria alimentícia argentina, 40% da polpa é Made in Brazil.
Ribeiro e Yahuar. Em clima shakespereano de All’s Well That Ends Well (Tudo está bem quando termina bem) o ministro argentino recebeu do brasileiro uma camiseta do Grêmio de Porto Alegre, time para qual Ribeiro torce. Os derrotados deste armistício suíno são os produtores brasileiros. Foto do Ministério da Agricultura da Argentina.
PORCODUTO – Os produtores argentinos alegam que a Argentina padece uma “invasão”, “avalanche” ou “inundação” de derivados suínos provenientes do outro lado da fronteira. “Isto é um ‘chancho-ducto’ (porcoduto) que favorece a entrada da carne suína brasileira”, afirmam os argentinos da Federação Agrária, uma combativa associação agropecuária famosa por suas eficazes mobilizações, que incluem piquetes nas estradas.
Segundo a Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs), as medidas argentinas que restringem a entrada de carne suína brasileira levaram em fevereiro a uma queda de 84,9% em volume em comparação com o mesmo mês de 2011, já que foram embarcadas apenas 478 toneladas. A queda da receita foi 84,1%, passando de US$ 9,5 milhões para US$ 1,51 milhão.
No ano passado o mercado argentino absorveu 42 mil toneladas de carne suína brasileira, pelo total de US$ 129 milhões. No ano 2000, quando a Argentina estava mergulhada em uma recessão que arrastava-se desde 1998 (e que se agravaria na crise de 2001-2002), o Brasil vendeu à Argentina 36,5 mil toneladas do produto.
O presidente da Abipecs, Pedro de Camargo Neto, afirma que a “discriminação que vem sendo praticada pelo país vizinho com a carne suína brasileira torna-se insustentável”.
CONFLITOS SUÍNOS – Os produtores argentinos costumam afirmar que desde 1995-1997, quando ocorreu a “Primeira Guerra Suína”, as “invasões” brasileiras destruíram milhares de postos de trabalho do setor na Argentina, acabando com centenas de granjas. Na época, os empresários locais – que acusavam os brasileiros de fornecerem milho subsidiado como alimentos aos suínos – protagonizaram piquetes nas estradas que ligam os dois países, para impedir a entrada do produto proveniente do Brasil.
O conflito suíno persistiu ao longo dos últimos 17 anos. No entanto, teve picos de grande tensão – com ameaças mútuas de retaliações – em 2001, durante o governo do presidente Fernando De la Rúa, quando a “Segunda Guerra Suína” teve como protagonista a então secretária de Indústria, Débora Giorgi, que pregava mais “firmeza” com o Brasil. Nesta ocasião, o argumento em Buenos Aires era que a desvalorização do real, ocorrida dois anos antes, em 1999, havia tornado a carne suína brasileira mais competitiva, criando um cenário “injusto” entre os dois parceiros comerciais.
A “Terceira Guerra Suína” ocorreu em 2004, com o presidente Néstor Kirchner, que alegava que a Argentina precisava reduzir as importações para “recuperar-se” da crise econômica de 2001-2002.
As primeiras escaramuças do atual conflito – a “Quarta Guerra Suína” – começaram há um ano, quando em fevereiro de 2011 os empresários argentinos ameaçaram bloquear a ponte que ligar a argentina Paso de los Libres com a brasileira Uruguaiana, por onde passa a maior parte da carne suína Made in Brazil destinada ao mercado argentino.Em agosto do ano passado, o então ministro argentino, Julián Dominguez, reuniu-se com seu colega brasileiro, Wagner Rossi, para discutir os diferendos suínos. No entanto, não houve avanços na época.
LEITÕES E CULTURAA História da Guerra do Porco, que em 1859 quase confrontou os Estados Unidos com a Grã-Bretanha no Canadá. O pivô da guerra que não chegou a começar foi um porco, pertencente a um homem do lado britânico, que ignorou as fronteiras estabelecidas pelos homens e entrou no terreno de um americano para comer suas batatas. O americano correu atrás do porco e o matou com um tiro. O incidente teve um efeito dominó e levou os dois governos a colocar tropas na fronteira. Mas, no fim das contas, deu tudo certo. A única vítima fatal do conflito foi o próprio porco, cujo nome não entrou para a História.
http://en.wikipedia.org/wiki/Pig_War
E ainda relativo a nomes suínos, o Diário de la guerra del cerdo (Diário da guerra do porco), livro de 1969 de Adolfo Bioy Casares que relata uma guerra entre gerações na qual os jovens saem à caça dos “porcos”, denominação que aplicam aos velhos nesta angustiante história do autor de “A invenção de Morel”.
“Porco rosso” (Porco vermelho), um desenho animado japonês – “Kurenai no buta” – de 1992, que conta a história de um piloto italiano da Primeira Guerra Mundial que, por um feitiço, foi transformado em um imenso porco. Anos depois, em 1929, ele se dedica a combater “piratas aéreos” na costa do Adriático. Um interessante filme dieselpunk que é um libelo contra a guerra. O trailer do filme, aqui.
E, em clima de William Shakespeare, pelo que indicam os governos acima citado, a primeira página de uma edição de 1623 de “ Tudo está bem quando termina bem”. Em tempo: esta obra do bardo de Stratford-upon-Avon é vista por alguns especialistas como uma comédia…embora outros literatos considerem que, no fundo, é uma tragédia.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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“A gente começa a envelhecer no dia que não temos mais projetos”, diz o monstro sagrado do teatro platino
Breve vídeo do Youtube para explicar o protagonismo da yorkshire Lucrécia na entrevista com a atriz China Zorrilla. Embaixo, no texto, a mesma explicação, com um pouco mais de detalhes. E depois, a entrevista com a atriz.
China Zorrilla, “monstro sagrado” do teatro, cinema e TV do Rio da Prata, completa 90 anos nesta quarta-feira. Aqui segue uma entrevista feita com a atriz em janeiro do ano passado, publicada no Caderno 2. Mas, nesta postagem, coloco a entrevista na íntegra.
Mas, antes de começar, tenho que explicar algo, além de dar uns agradecimentos ao “melhor amigo do homem”. Ou, neste caso, à “melhor amiga do homem”, uma cachorrinha, Lucrécia, que foi crucial para conseguir essa entrevista.
Em 2002 mudei para um apartamento na rua Uruguai. Um ano depois compramos uma cachorrinha, uma Yorkshire, a Lucrécia. Um dia, depois de tentar tosar a cachorra de forma improvisada em casa, decidimos buscar alguém que fizesse isso direito. E assim, uma tarde, caminhando com a Lucrecia pelo quarteirão, vimos uma mulher que estava com uma yorkie impecável, chamada Flor. Perguntamos onde é que ela era tosada. A mulher passou o telefone da pessoa, o Leonardo Fusaro, que havia estudado veterinária e tinha um programa de rádio.
Bom, Lucrecia começou a ser tosada pelo Leonardo. Poucos meses depois, viajamos de férias, para a China. Quem tomou conta da Lucrecia durante nossa viagem foi o Leonardo. Um dia, Leonardo tinha que tosar a Flor, que, coincidentemente, morava em um prédio na calçada da frente.
A Flor era a cachorra da China Zorrilla. Desta forma, Flor – que era mais velha – e Lucrecia viraram amigas. Durante a viagem, Leonardo levou Lucrecia várias vezes à casa de China Zorrilla.
Quando voltamos da viagem, o Leonardo nos contou toda a história. Achamos engraçado. Ele disse “vou ligar à China Zorrilla, para ver se ela está e levo a Lucrecia ali uns minutos”. Mas, a atriz estava ocupada. Leonardo foi embora. Uns 10 minutos depois, o porteiro eletrônico tocou.
“Sim”, disse eu.
“Bom dia, o Leonardo ainda está?”
“Não, ele já foi embora”, disse
“Ahhhh…que pena…queria ver a Lucrécia”
“Mas quem fala?”, perguntei.
“China…sou China Zorrilla”
“Claro! Pode subir”, disse surpreso.
Segundos depois, China Zorrilla estava na sala de estar de nosso apartamento. Lucrecia pulava de alegria.
China Zorrilla sentou no sofá. Aí, olhou pela janela e viu a sacada e a área central do quarteirão (era um quarteirão com muitas árvores e passarinhos no meio, algo que os argentinos chamam de “pulmón de manzana”, isto é, pulmão de quarteirão). Levantou rápido e disse “este é o melhor pulmón de manzana de Buenos Aires…olhe (apontou com o dedo)…antigamente eu morava ali…e na frente, do outro lado, morava a Nini Marshall (outra famosa atriz cômica argentina)”.
Na seqüência, depois de explicar que com freqüência elas falavam aos gritos, de cada janela através do “pulmón”, fez um “diálogo” sozinha, como se estivesse falando com a amiga (colocava as mãos na frente da boca, como quem vai gritar e precisa amplificar):
- Ninííííí….
- Queeee fooooi, China?
- Eu e as amigas estamos aqui e vamos jogar cartas! Quer vir pra cá?
- Não pooooosssoooo, China! Tenho que ensaiar esta peça!
- Ta beeeeemmm! Fica pra próximaaa!
- Tchaaaaaaaaaauuu Chinaaa!
- Tchauu Niníí!
(Miriam e eu olhávamos estarrecidos…China Zorrilla estava interpretando ali, na nossa frente, movendo-se para a direita ou a esquerda, de acordo com quem interpretava…sua amiga Niní ou ela própria)
Depois, virou pra gente, e disse: “mas vocês, onde estavam nesses dias?”
- China (respondi)
- Sim? (disse ela)
- China (voltei a dizer)
- Sim? (disse ela, de novo)
- China…não a Zorrilla…a China de Mao!
- Aaaahhhh! Deve ser um país fascinante. Hahahha…e essa moça, que bonita! Foi modelo (disse, olhando para a Miriam)?
- Não, jornalista, do Brasil. Eu também.
- Ah, um prazer conhecê-los. Mandem a Lucrecia de vez em quando lá pra casa!
Na seqüência, pegou sua bengala, despediu-se e foi embora.
Nos meses seguintes, sempre que a víamos na rua, nos cumprimentava. Se estivéssemos com a Lucrecia. Se estávamos sem a cachorra, ela não nos reconhecia.
E foi assim que muitos anos depois, pedi uma entrevista. Mas China estava muito ocupada, de apresentação em apresentação. Não havia jeito mesmo. “Estou muito cansada, ocupada”, dizia. A secretária dela me disse “fale que traz a Lucrecia, que ela te dá a entrevista na hora”. E assim foi. Levei a Lucrecia e a Carlota (a outra yorkie que entrou na nossa vida em 2006). E desta forma, tive a entrevista com China Zorrilla.
Lucrécia, devo agradecer, “conseguiu” várias entrevistas para mim, especialmente nas caminhadas dominicais. Deputadas, economistas, literatos, ficam encantados com a elegante yorkie e começam a puxar papo. Um dos casos de ajuda canina foi com um sociólogo que tentei entrevistar ao longo de anos e o cara nunca respondia meus telefonemas. Mas um dia, levando a Lucrecia para passear pela avenida Pueyrredón, subitamente encontrei o septuagenário estudioso das ciências sociais, que ficou fascinado com a cachorrinha. “Gostaria de fazer uma entrevista com o sr”, disse, depois de responder qual era o nome da yorkie. “Pode me ligar quando quiser”, disse ele, enquanto afagava a nuca da Lucrecia, que movia o rabo. “Mas sempre que ligo, o sr. nunca responde!”, retruquei. “Desta vez diga que é o pai da Lucrécia, que atenderei”, respondeu. E assim foi…
China Zorrilla e Lucrecia, minha quadrúpede assessora de imprensa
Concepción Zorrilla de San Martín Muñoz, popularmente conhecida como China Zorrilla, monstro sagrado do teatro platino – pois é considerada a atriz mais emblemática da Argentina e do Uruguai – celebra 90 anos de vida. O peso dos anos não impede a grande dama do teatro platino de permanecer em plena atividade e elaborar novos projetos. Hoje, quarta-feira, será homenageada à noite no Teatro Cervantes.
Filha do principal escultor uruguaio, José Zorrilla de San Martín, e neta do poeta nacional Juan Zorrilla de San Martín – passou parte da infância em Paris e na juventude estudou em Londres. De volta a seu país protagonizou as principais obras teatrais – de comédias a dramas – fez montagens de óperas e estrelou filmes argentinos e espanhóis.
Com uma trajetória de 68 anos nos palcos sul-americanos, China Zorrilla foi a protagonista de diversos filmes, entre eles, “Elsa e Fred”, exibido no Brasil há poucos anos.
Atualmente ela realiza um ciclo de “teatro lido”, isto é, a leitura de obras de teatro em diversos centros culturais portenhos onde o público acotovela-se para assistir a lendária atriz.
Entre uma apresentação e outra, além dos convites que constantemente recebe para conferências, Zorrilla – acompanhada por Flor, sua inseparável cachorra yorkshire – recebeu o Estado em sua casa no bairro da Recoleta para falar sobre sua paixão pela dramaturgia, sua experiência no cinema e a velhice .
Estado – Vittorio Gassman disse uma vez que atuar era “quase como um vício ou uma doença”. É assim mesmo?
Zorrilla – Que boa frase! Que boa frase! Quando Gassman esteve em Montevidéu fiquei fascinada. Fiz amizade com ele. Um dia lhe perguntei se queria ver o atelier de meu pai, que era escultor (o famoso José Zorrilla de San Martín). Meu pai fazia muitas esculturas em Buenos Aires. Bom, o atelier dele em Montevidéu era uma espécie de demonstração de que minha família era atípica. Em minha casa era comum ver estátuas de pessoas nuas. E, quando minhas amiguinhas da escola de freiras vinham me visitar (no final da década de 20 e no início dos anos 30), ficavam horrorizadas. Eu dizia a elas que homens e mulheres posavam nus para meu pai, de forma que as estátuas fossem iguaizinhas às pessoas.
Estado – Voltando à frase de Gassman…
Zorrilla – Sim! Seja mímico, cantor ou ator… o que acontece em cima de um palco é mágico. As pessoas me perguntam se não me canso do teatro, de fazer sempre a mesma coisa. Bom, eu não me canso nunca disso. Ora, eu pergunto para elas: “vocês se cansam de beber café com leite todas as manhãs?”. Não. Eu não canso. Estou encantada de fazer o que faço.
Gassman, um dos gênios do teatro e do cinema da Itália da segunda metade do século XX. Acima, durante a preparação do “A Armada Brancaleone”. A cômica música-tema do filme, aqui.
Estado – Em 1975 dirigiu “O Barbeiro de Sevilha”, uma ópera. Como foi essa mudança de atividade para a senhora?
Zorrilla – Quando era criança tocava piano. Queria apertar um dedo sobre algum instrumento e que pudesse ouvir algo. É preciso cantar bem, contando uma história. E quando leio um livro, às vezes penso: “que pena que não há uma canção para este relato”. Isto é, o texto teatral não é somente texto. É texto e música. Isso sempre me divertiu. Cada vez que vejo uma comédia musical, de Broadway, ah! (suspira). É continuidade do texto com a música (interrompe a explicação e começa a cantar uma ária de La Bohème, de Giacomo Puccini) “Che gelida manina, se la lasci riscaldar (que fria mãozinha, deixe-me esquentá-la)”. Que coisa divina!
Estado – Como é o trabalho de composição de um personagem? Há atores que são capazes de mudar para um hospital psiquiátrico para ver como uma pessoa com uma perturbação mental age…
Zorrilla – Não. Eu não sou muito analítica para estas coisas. Olha, se estou fazendo, digamos assim, o papel para um filme de uma princesa russa que está exilada em Paris, e paralelamente te contratam para fazer uma peça de teatro que transcorre no Pampa argentino, eu não páro para pensar “puxa, são dois papéis diferentes!”. Não. É como colocar um vestido e depois trocar de roupa. Não fico me perguntando se o vestido essa passado ou se é bonito. Simplesmente penso: “preciso usar esse vestido”. E aí coloco esse vestido. É assim, você já está “vestida” com esse vestido.
China Zorrilla, durante a interpretação da obra de teatro sobre a vida da escritora Emily Dickinson em 1980.
Estado – Pensa em aposentar-se?
Zorrilla – Não sou rica. Teria que ser rica, mas o dinheiro me incomoda. Fui uma administradora desastrosa de minhas economias. Se fosse rica faria teatro de vez em quando. Mas, não sou rica. Vivo do teatro. E minha sorte é que gosto muito do teatro.
Estado – O que acha do “teatro lido” que está protagonizando atualmente?
Zorrilla – Em 2099 sugeri às autoridades da área cultural um grande ciclo de teatro lido. Começamos ano passado e continuamos neste (a peça atual é “As da frente”, comédia de costume de Federico Mertens, apresentada em diversos centros culturais portenhos a cada mês durante 2011 e 2012). Pode parecer estranho. É como ver uma ópera sem orquestra. Mas, acho importante, para que o público fique mais de olho naquilo que o texto diz. O importante, neste ciclo, é ouvir. Maravilhoso.
Estado – Quando apresenta uma nova obra o teatro sempre fica lotado…
Zorrilla – No teatro não existe uma lógica. Não há uma fórmula para lotar um teatro. Volta e meia um diretor reúne um ator estupendo e um autor genial e o espetáculo é fantástico. Mas, o teatro pode ficar vazio. É mesmo um mistério.
Estado – “Elsa e Fred”, de 2005, é uma história de amor…
Zorrilla – Quando tinha 82 anos, Marcos Carnevale me telefonou. Me disse que queria que trabalhasse com ele em um filme de amor. Eu perguntei: “estupendo! Vou fazer o papel da avó de quem?”. Aí ele me explicou: “não China, não será avó… você será a protagonista dessa história de amor!”.
Estado – A senhora fez teatro shakespeareano, cinema, novelas de televisão…onde sentiu-se mais à vontade?
Zorrilla – Gosto de estar em cima de um cenário, que as pessoas chorem ou riam, aplaudem, e aí vou dormir tranquila e satisfeita. Cada vez gosto mais disso. O pranto, a risada, o aplauso, é uma música para o ator. Quando fazia em Montevidéu, Bodas de sangue, de García Lorca, com Margarita Xirgú, gostava da obra. Mas eu queria fazer as pessoas rirem. No entanto, não ia dizer isso à um monstro sagrado como Xirgú. Mas, essa era a verdade. Fazer drama e comédia… é uma ginástica!
Estado – Em suas declarações a senhora dá muito ênfase ao teatro, mas sua participação no cinema, desde seu primeiro filme, em 1971 (“Um guapo do 900”), já fez 35 obras cinematográficas. O último filme do qual participou foi em 2009, “Sangue do pacífico”, do ator e diretor Boy Olmi…
Zorrilla – É que o cinema entrou na minha vida de forma tardia. O cinema é tão diferente do teatro! O cinema magnifica aquelas palavras que a gente pronuncia no palco. Sempre que faço cinema tento conter a forma exuberante de ser do teatro. Mas depois, sempre, percebo que isso não importa.
Estado – Seu próximo projeto?
Zorrilla – A gente envelhece no dia em que não temos mais projetos. O próximo, eu gostaria, é o de fazer um clássico do teatro. As pessoas acham normalmente que esse gênero é uma chateação… mas, ao contrário, os clássicos são muito divertidos!
Estado – Como gostaria de encerrar a carreira?
Zorrilla – Gostaria me despedir do mundo fazendo uma comédia. Esse gênero tem um coisa muito química… é preciso dizer certas frases naquela décima de segundo exata para que as pessoas riam. Se você a diz depois… é tarde.
Estado – Uma vez quase tentou falar com Greta Garbo. Como foi o desenlace?
Zorrilla – Quando morei em Nova York nos anos 60, um dia procurei o nome de Greta Garbo na lista telefônica. Sabia que o sobrenome verdadeiro dela era Gustafsson. E na lista estava “Gustafsson G”. Liguei. E atendeu ela. “Hallo. Hallo!”, disse Garbo. Eu ouvi a voz dela mas nada disse e desliguei. Imagine só! Greta Garbo já estava aposentada… e não tinha mais de … Ela havia se aposentado aos 36 anos pois pensou que já não era mais jovem, e que já havia filmado o que considerava suficiente. Percebe isso? E eu, que tenho 89 e cá estou?
Estado – Como é envelhecer?
Zorrilla – É uma coisa difícil de explicar. Quando era uma menina eu me perguntava, filosoficamente, como seria chegar aos 50 anos. Um dia cheguei lá e não aconteceu coisa alguma. Também me perguntava como seria quando teria seios. Bom, um dia tive seios, e tudo bem. Minha mãe tinha 95 anos. Estava lúcida e não estava doente. Mas percebeu que havia chegado a hora de morrer. Ela me disse: “agora é iminente minha passagem ao outro mundo. O medo deixou espaço para a curiosidade”.
Estado – ….
Zorrilla (ela faz uma pausa, congela o gesto com as mãos e olha com o canto dos olhos de forma oblíqua para o chão, para o lado esquerdo e conclui, em referência às palavras da mãe) – …Uau! Que frase! (faz outra pausa)…Bom, eu sinto medo e curiosidade.
China Zorrilla com Flor, sua cachorra yorkshire, que faleceu em dezembro passado, aos 14 anos. Flor a acompanhava em todas suas apresentações de teatro e nos sets da rodagem dos filmes. Em algumas peças, ela até contracenou com sua dona.
CACHORROS
Estado – Fora do teatro, possui algum projeto?
Zorrilla – Quero convencer o pessoal do governo que façam mudanças no sistema penitenciário. Acho que os cães podem mudar a vida de alguns presidiários. Imaginemos um minuto…esse homem que está preso, sabe que durante um momento, que na hora de sair ao pátio ele poderá estar com um amigo… terá um cachorro. Descobri sabiamente que os cachorros podem ser muito úteis em uma prisão. Talvez está um preso, detido na cela, pois matou uma pessoa. Este Juan Pérez está ali, e dedica uns carinhos ao cachorro. O cachorro não estará sozinho e o preso não estará mais sozinho. Esse homem terá um amigo. Como no filme sobre o preso de Alcatraz, com Burt Lancaster, que criava passarinhos. Quando era criança, eu e minhas irmãs brincávamos de bonecas. Até que um dia meu pai apareceu com o cachorro. E mudou nossa vida. Descobri tudo o que um cachorro pode fazer por um ser humano. O cachorro mais sujo, mais vagabundo da rua sempre vai querer um amigo que lhe faça um carinho. Estou sem óculos…esta aqui embaixo quem é?
Estado – Lucrécia.
Zorrilla – É divina. Sempre bonita. E a pequena, que não conhecia?
Estado – Carlota.
Zorrilla – Bom, lá vão elas (Lucrécia e Flor saem correndo para o fundo do apartamento. Carlota fica no meio da sala, tímida com o lugar desconhecido). Ei, Leonardo, quem é essa atriz que se maquia muito? É muito pequena….uma atriz, sempre estava com Armando Bo. Ah, Isabel Sarli (na seqüência, vira para mim).. Mas quem chora?
Estado – É a Carlota
Zorrilla – Como rompe las pelotas, che!
A ária que China Zorrilla cita no início da entrevista, “Che gelida manina”, de G.Puccini em “La Bohème”:
O ALÉM CANINO
Estado – Na hipótese de que após a morte exista um Céu…esse Paraíso terá cachorros?
Zorrilla – Se não houver cachorros lá, não é paraíso…
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
“Todo pasa” (Tudo passa) é a inscrição no anel que ostenta Grondona. Mas, seus críticos ressaltam com ironia “tudo passa…menos Grondona!”
“Don Julio”, como é chamado Julio Grondona, preside com mão de ferro a Associação de Futebol da Argentina (AFA) há 33 anos, desde que foi designado pela ditadura militar (1976-83) para ocupar o posto. Grondona – uma versão “gold” argentina de Ricardo Teixeira - sobreviveu ao longo de mais de três décadas com apenas uma Copa do Mundo conquistada (México 1986), oito greves de jogadores, três paralisações de árbitros, mais de 40 casos de doping dos jogadores da seleção, o surgimento – e o fortalecimento dos “barrabravas” (os hooligans argentinos), além de acusações de corrupção e de vínculos controvertidos com o poder e empresários amigos que possuem negócios comerciais com a AFA. Grondona costuma relativizar os contratempos pronunciando sua frase preferida: “tudo passa”.
O todo-poderoso Julio Humberto Grondona, máximo cartola argentino há 33 anos, uma década a mais do que o brasileiro Ricardo Teixeira
“Tudo passa, menos Grondona”, afirmam seus inimigos, já que desde 1979 a AFA teve um único presidente. Mas, a República Argentina está no décimo-terceiro presidente desde aquela época (os generais e ditadores Jorge Rafael Videla, Roberto Viola, Leopoldo Fortunato Galtieri e Reynaldo Bignone, os presidentes civis constitucionais Raúl Alfonsín, Carlos Menem, Fernando De la Rúa, Ramón Puerta, Adolfo Rodríguez Saá, Eduardo Camaño, Eduardo Duhalde, Néstor Kirchner e a atual Cristina Kirchner).
Grondona, inicialmente, seria um presidente provisório. Mas, nos seguintes anos, foi reeleito oito vezes. Somente uma vez enfrentou um opositor, o ex-técnico Teodoro Nitti, em 1991. O rival conseguiu um único voto. Grondona teve 40. Em 2011 foi novamente reeleito. Mas, desta vez a eleição esteve envolvida em um escândalo público, já que o empresário Carlos Ávila tentou realizar uma eleição paralela, sem sucesso. Grondona foi reeleito. Não existem especulações sobre um eventual sucessor de Grondona que não seja o próprio Grondona.
Grondona, sentado à direita da foto. Na cabeceira da mesa, o então ditador e general JR Videla.
Desde que “Don Julio” está no comando, a AFA teve dez técnicos da seleção (César Luis Menotti, Carlos Salvador Bilardo, Alfio Basile, Daniel Passarella, Marcelo Bielsa, José Pekerman, novamente Alfio Basile, Diego Maradona, Sergio Batista).
Os críticos de Grondona afirmam que ele montou uma estrutura que permitiu a consolidação de “uma AFA rica e clubes pobres”.
O poder de Grondona – que preside a Comissão de Finanças da FIFA – não é apenas nacional, pois possui grande influência internacional. O analista esportivo Ezequiel Fernández Moores, autor de livros sobre negociatas no futebol argentino, disse ao Estado que “Joseph Blatter foi reeleito presidente da FIFA em 2002 graças ao respaldo de Grondona, que foi fundamental”.
Cristina Kirchner e Julio Grondona
Nos últimos anos Grondona transformou-se no principal aliado do governo da presidente Cristina Kirchner em sua política de conseguir dividendos eleitorais por intermédio do esporte favorito dos argentinos. Grondona foi a peça crucial para que o governo Kirchner implementasse a estatização das transmissões dos jogos, denominada de “Futebol para todos”.
Em 2009 o cartola convenceu os falidos clubes argentinos a aceitar um suculento contrato de US$ 150 milhões anuais até 2019 oferecido pelo governo para ficar com todos os direitos de transmissão do futebol do país. No ano passado, para agradar Cristina, Grondona batizou o prêmio do campeonato nacional de futebol com o nome do ex-presidente Nestor Kirchner, que morreu em outubro de 2010.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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“O despertar da criada”, obra que gerou grande ziquezira em terras portenhas
“O despertar da criada”, ou, como foi conhecido por seu nome em francês, “Le lever de la bonne”, quadro de 1887, foi pintado pelo argentino Eduardo Sívori (1847-1918). A obra foi enviada o Salão de Paris daquele ano. Ali, na França da Belle Époque, onde a sensualidade começava a aflorar, deixando de lado os tempos vitorianos que imperavam na Europa, o quadro de Sívori – que mostrava uma criada nua acordando em sua prosaica cama no quarto de doméstica – não teve repercussão significativa.
Mas, ao voltar à Buenos Aires, o Despertar da criada provocou um ciclópeo escândalo. O motivo da polêmica não era o nu em si, já que a imagem de mulheres e homens nus era comum nos quadros da época.
O fato que incomodava de verdade a sociedade local era a imagem de uma mulher pobre, nua, morena. E não o nu de mulheres loiras, com as formas dos cânones de beleza da época, ambientado em um cenário de mitologia greco-romana ou alegorias. A outra alternativa para os pintores do século XIX era o de ambientar seus nus em um lugar exótico, por exemplo, o Império Otomano. Desta forma, Jean Auguste Dominique Ingres (1780-1867) fez “Le bain turc”, que mostra uma miríade de jovens totalmente nuas (bom, algumas tem uns colares) em uma sauna de um harém na distante Constantinopla.
Ingres exibe suas moças turcas
No caso de Sívori e sua criada, o nu ocupa quase todo o quadro. Ela está sentada em uma cama, em um quarto simples, sem decoração. É apenas o relato pictórico de uma mulher – uma doméstica – que, dona de fartos seios, está a ponto de levantar da cama, mas antes disso, coloca suas meias nos pés com calos.
Sívori, ao voltar de Paris, mostrou seu quadro na Sociedade de Estímulo das Belas Artes. “Pornografia” foi o adjetivo mais disparado contra a obra.
O quadro causou tal celeuma que os organizadores da exibição tiveram que mostrar o Despertar da criada a portas fechadas. Sequer seu nome em francês – língua da moda na época – ajudou a amainar o impacto causado.
A obra – um dos principais quadros do Museu Nacional de Belas Artes em Buenos Aires – é atualmente vista com freqüência pelos estudantes das escolas primárias.
Por qual motivo falar sobre o “Despertar da criada” hoje? Há tempos queria contar a história deste quadro. Mas, aproveitei a ocasião de que esta segunda-feira é o Dia da Livre Expressão do Nu, movimento que surgiu no Facebook ( http://www.facebook.com/events/353069764… ). O movimento protesta contra a censura peculiar existente contra alguns nus, inclusive o de “Origem do mundo”, de Gustave Coubert (mais detalhes sobre esta obra, aqui ).
Um nu kirchnerista
E, aproveitando os tempos kirchneristas, mostramos aqui um nu pintado por Kirchner. Não Nestor Carlos Kirchner (defunto ex-presidente argentino), obviamente, mas sim o alemão Erns Ludwig Kirchner (1880-1938). Kirchner, que fundou o grupo “Die Brücke”, morreu na Suíça (suicidou-se), terra de onde vieram os antepassados de Néstor, o presidente.
Voltando à criada portenha: o quadro de Sívori pode ser visto no primeiro andar do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no bairro da Recoleta (a uma quadra do cemitério da Recoleta).
Medidas da obra: 1,98 metro por 1,31 metro.
Técnica: Óleo sobre tela.
Eduardo Sívori, o autor do polêmico – e não greco-romano – nu da criada. No ano em que ele fez o Despertar da criada nasceu na França Marcel Duchamp, artista plástico que revolucionaria a arte no século XX. Em 1918, ano em que Sívori morreu, Duchamp muda-se para Buenos Aires, onde passa nove meses jogando xadrez sem cessar.
Duchamp morou na rua Alsina, na altura do número 1700 e tinha seu atelier na esquina das ruas Sarmiento e Paraná, onde atualmente está a pracinha de cimento do Centro Cultural General San Martín.
E nada a ver com o assunto acima, aqui coloco um video de Jessie Norman, impressionante, cantando a ária Liebestod (Morte de amor), de Tristão e Isolda, de Ricky Wagner. Bom início de semana a todos.
E nada a ver com Wagner e Norman, um pouco de Francesco Sinatra, em Ring-a-ding ding
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, brinca com um balão durante a abertura do ano parlamentar no Congresso Nacional. “Globito” – “balãozinho” em castelhano - na gíria portenha equivale a preservativo.
O erotismo argentino não escapou às barreiras protecionistas do governo da presidente Cristina Kirchner. Tal como outros setores, entre os quais as autopeças, alimentos, têxteis, calçados e brinquedos, agora é vez dos preservativos e vibradores, além da lingerie erótica estrangeiros. Estes produtos tornaram-se o mais recente alvo da cruzada anti-importações implementada pelo secretário de Comércio, Guillermo Moreno, homem de confiança da presidente Cristina.
A miríade de barreiras argentinas abarcam valores-critério, licenças não-automáticas, acordos voluntários de autorrestrição de venda para o mercado argentino, entre outros. Além disso, desde o dia 1 de fevereiro incluem uma autorização especial da receita federal como passo prévio para iniciar um trâmite de importação. A “blindagem” da Argentina contra a entrada de produtos provenientes do exterior é coordenada por Moreno.
Durante uma reunião com a empresa Kopelco, que fabrica a marca “Tulipán”, e Buhl, que produz a marca “Prime”, Moreno pediu aos executivos que produzam 3 milhões a 3,5 milhões de unidades mensais a mais em cada empresa. A política do governo é que os preservativos nativos fiquem com o mercado das compras públicas realizadas pela administração Kirchner para o setor de saúde.
Por qual motivo caras como este acima não contam com estátuas? Além de Pinkus, um dos criadores da pílula anticoncepcional, outra figura relativamente esquecida é Gabriele Falloppio, um dos mais importantes anatomistas do século XVI. Ele descreveu as trompas que levam os óvulos do ovário para o útero e que ostentam seu sobrenome. Mas o que o signore Falloppio tem a ver com o assunto desta postagem? Ele foi o criador do primeiro preservativo masculino devidamente documentado, no ano da graça de 1564. O médico defendia o uso desta proteção como forma de combater o flagelo daqueles tempos, a sífilis. E deu certo, segundo ele próprio escreveu: “convenci 1.100 homens a usar (o preservativo). E convoco Deus imortal para testemunhar que nenhum deles foi infectado”. O versátil Fallopio também cunhou a mundialmente famosa palavra “vagina” (e também criou o termo ‘placenta’). Falloppio nasceu em 1523. Deixou de existir 39 anos depois.
Atualmente, o governo precisa recorrer a fornecedores asiáticos. Mas, caso o mercado local fique nas mãos dos fabricantes argentinos, Moreno evitaria a saída de dólares, política que tornou-se uma das principais metas da Casa Rosada.
Os executivos da Kopelco e a Buhl, que respectivamente possuem 52% e 35% do mercado local, prometeram a Moreno que aumentarão a produção para evitar a falta do produto no mercado, já que a escassez – devido ao impedimento para as marcas estrangeiras – começa a ser notada nas farmácias e supermercados.
Os empresários explicaram ao secretário que o consumo de preservativos oscila entre 150 milhões e 180 milhões unidades por ano. Quando foi informado sobre o número – segundo indicou o ”Política Online” - Moreno arregalou os olhos. Na sequência, fez observações sobre o que ele definiu – com palavras de baixo calão – como “uma intensa atividade sexual” de seus compatriotas.
Sexo paleolítico: Uma representação de uma deusa estilizada. É a “Vênus de Dolní Věstonice” (em tcheco, Věstonická Venuše). Esta pequena estátua de terracota, que data do 25 mil a.C, teria sido usada como um primitivo, embora eficaz, consolador. Uma alternativa a ser avaliada pelos consumidores, em caso de escassez dos importados. De quebra, este modelo não requer transferência de tecnologia.
VIBRADORES - Na reunião com os empresários Moreno indicou que havia assinado o bloqueio total para a entrada de vibradores importados (todo o consumo nacional é abastecido pelo exterior). O secretário também brincou sobre as tentativas frustradas dos importadores desse assessório sexual para driblar as barreiras: “nas declarações alfandegárias os caras colocavam ‘artigos para o prazer feminino’. Mas eu percebi logo do que se tratava!”.
Outros “brinquedos eróticos” também estão sofrendo com as barreiras, já que está escasseando no país matéria-prima importada (principalmente o silicone médico), crucial para a elaboração dos produtos. Representantes do setor também ressaltam que a a produção local de lingerie erótica está entrando em colapso, já que grande parte dos tecidos especiais provêm do exterior.
EL BUEN SALVAJE & ALARDE SOBRE GENITÁLIA - Os amigos de Guillermo Moreno o chamam “Napia”, gíria para nariz, devido a seu aquilino perfil. O ex-presidente Néstor Kirchner o chamava de “Lassie”, em irônica alusão à simpática e doce cadela collie imortalizada no cinema junto com Elizabeth Taylor. Ele também é chamado de “Highlander”, em alusão à sequência de filmes dos anos 80 cujo protagonista era um homem imortal – Connor Mc Leod – capaz de sobreviver a todas as circunstâncias (Moreno passou incólume por todas as reformas ministeriais que Cristina e seu marido fizeram, apesar dos pedidos dos empresários, sindicatos, partidos da oposição e intelectuais que pediram – e continuam pedindo – sua cabeça)
Os Kirchners sempre resistiram à ideia de removê-lo, já que Moreno é o homem que faz o “trabalho sujo”. Ele é o responsável pela manipulação de índices da inflação, pobreza, desemprego e o PIB. Estas estatísticas são elaboradas pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), organismo sob férrea intervenção do governo há seis anos.
Moreno (segundo relatos de empresários e sua biografia não-autorizada “El buen salvaje”) eventualmente iniciava encontros com empresários colocando seu revólver em cima da mesa. Ele também telefona aos executivos às 6:00 da manhã – nos fins de semana, inclusive – para exigir, em frases entremeadas de sonoros palavrões, que congelem seus preços. Este comportamento iniciou na época que era secretário de Comunicações.
Dono de um frondoso bigode com as pontas curvas para baixo que fariam inveja ao revolucionário mexicano Emiliano Zapata, o controvertido secretário também inicia as reuniões com executivos com afirmações sobre sua genitália, a qual, indica, é de dimensões superiores às dos presentes. O analista político Jorge Lanata, que nos anos 80 fundou o jornal Página 12, o batizou ironicamente de “El Poronga” (ver significado abaixo no glossário).
Óinc, teria dito o Marquês de Rabicó: a carne suína, considerada ‘afrodisíaca’ pela presidente Cristina, também sofre restrições. Me absterei de fazer comentários sobre o casamento do nobre suíno taubatense e sua união – supostamente ‘branca’ com Emília no sítio do Pica-pau Amarelo. Acima, a vaca Mocha, Emília e o Sus scrofa domesticus marquês.
LEITÕES, SEXO E BARREIRAS - Há dois anos a presidente Cristina Kirchner pregou um maior consumo de carne suína por parte dos argentinos, alegando que era “altamente afrodisíaca”. Em um discurso na TV, transmitido desde o palácio presidencial, Cristina sustentou na época que “é muito mais gratificante comer um leitãozinho do que tomar viagra”. Na ocasião, relatou que havia podido comprovar os efeitos da carne suína no fim de semana que havia passado em El Calafate, na Patagônia, com seu marido, o ex-presidente Nestor Kirchner.
No entanto, o consumo de carne suína, que cresceu após a divulgação presidencial de suas supostas qualidades sexuais, está enfrentando uma queda do abastecimento, já que as barreiras alfandegárias do secretário Moreno complicam a entrada de carne suína brasileira (especialmente a polpa).
Do total consumido no país, 40% da carne suína provinha do Brasil até o final do ano passado. Por este motivo, o preço do produto está subindo, fato que está causando problemas para a continuidade do programa ‘Leitão para todos’, lançado em 2010 por Cristina para ‘democratizar’ o consumo do afrodisíaco leitão entre os argentinos.
GLOSSÁRIO SEXUAL
COGER: Verbo que indica o ato sexual completo. O verbo, na Espanha e outros países de idioma castelhano o verbo é primordialmente utilizado para “pegar” ou “colher” (como “colher algo do chão”). Isto é, uma pessoa poder referir-se a “coger el autobús (ônibus)”, para explicar que poder “pegar o ônibus”. Na Argentina, equivaleria a dizer que teria um coito com o veiculo de transporte coletivo (e não dentro de tal veículo). No entanto, não é uma forma polida de referir-se ao ato sexual.
COGIDA: “Uma cogida”. O coito.
GARCHAR: Verbo que designa o ato de copular. No entanto, é uma forma chula. “Coger”, perto de “garchar”, acaba parecendo uma forma elegante…
GARCHE: A cópula, expressada sem elegância
EMPOMAR: Verbo que refere-se a “pomo”, isto é, o equivalente a “bisnaga” Ergo, indica o membro viril. Desta forma, “empomar” é o verbo utilizado para referir-se à penetração.
TRANSAR: O verbo foi recolhido pelos turistas argentinos que foram ao Brasil nos anos 80. Mas, em vez de referir-se ao coito em si, na Argentina, esta gíria utiliza-se de forma adulterada. Neste contexto de readaptação do verbo, transar aqui refere-se aos beijos e carícias. Preliminares sexuais com abundante produção hormonal mas sem a cópula em si.
FRANELEO: Uma versão local da “transa” (isto é, a “transa” em sua versão adaptada). “Franela” é “flanela”, produto utilizado para passar – e esfregar – sobre um automóvel ou um móvel. No contexto sexual, uma “franela” seria o ato intenso de fricção de epidermes de duas pessoas.
VACUNAR: Vacinar. Refere-se ao ato de penetrar alguém.
ACABAR: Cuidado ao utilizar esseverbo na Argentina, já que é um sinônimo frequente de “ejacular”. Ou, no caso das mulheres, de chegar ao orgasmo. Para indicar o “acabar” nosso é mais adequado a utilização de “terminar”. Ou “concluir”.
TUJE: Proveniente do antigo yiddish “tuches”, utilizado com frequência na Argentina para indicar os glúteos. Traseiro. Bumbum.
VERSO: Galanteio semi-picareta. Afirmação – ou conjunto de afirmações – geralmente sem base concreta (“se você quiser conhecer meu iate…”) destinados a conseguir a conquista-sedução de alguém.
VERSERO/A: O praticante do ‘verso’.
TRAMPA: Literalmente, “trapaça”. Quando uma pessoa está “de trampa” é que está casada mas está tendo (ou tentando) ter um encontro sexual com outra pessoa que não é a cônjuge.
PIRATA: Aquele que pratica a ‘trampa’.
CABARULO: Refere-se aos cabarés, palavraemBuenos Aires aplicado para casas de strip-tease e também, ocasionalmente, para bordéis.
PRIVADO: Prostíbulo instalado em um apartamento.
CAFISHIO: O gigolô.
TRAVIESSA: Literalmente, “travessa”. Mas refere-se ao ‘travesti’.
FORRO: Forma chula-light de referir-se ao preservativo.
E falando em coitos e leitãozinhos, aqui vai um vídeo de Miss Piggy, uma das estrelas dos Muppets, cantando o tema “Nunca aos domingos”, filme franco-grego cuja personagem principal é uma prostituta com intenso joie de vivre.
E, na seqüência, novamente Miss Piggy cantando “Don’t go breaking my heart”, com Sir Elton John:
E aqui, deixando de lado miss Piggy, mas ainda na área sexual,o tango “El Choclo” (O sabugo de milho), de Angel Villoldo, de 1905. O título, indicam historiadores do tango, era no início uma maliciosa referência ao falo (e não a esse alimento emblemático da civilização asteca):
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Vice-presidente A.Boudou celebra com pilotos o final da primeira corrida de TC com a transmissão estatizada
Depois de estatizar as transmissões dos jogos de futebol, de estar a ponto de deslanchar o funcionamento de uma empresa de ibope estatal e de lançar histórias em quadrinhos estatais – e gratuitas – o governo de Cristina Kirchner aumenta sua presença na área de mídia e entretenimento: a presidente estatizou as transmissões das corridas de Turismo Carretera (a principal categoria do automobilismo na Argentina, disputada com veículos antigos da Ford, Chevrolet e Dodge que contam com mecânica envenenada).
O contrato de quatro anos de duração implicará no desembolso de US$ 93 milhões por parte do governo Kirchner, que com esta medida pretende levar o automobilismo à toda a população. As transmissões começaram a ser realizadas no domingo pelo Canal TV Pública, outrora uma estação dedicada a programas culturais que nos últimos anos transformou-se em uma tribuna de propaganda política e de jogos de futebol com publicidade exclusiva de apologia das obras do governo Kirchner.
Até a assinatura deste acordo as corridas eram transmitidas de forma gratuita na cidade de Buenos Aires. Mas, no resto do país eram veiculadas pela TV a cabo. Os partidos da oposição acusam o governo de realizar “populismo esportivo” com as medidas de estatização das transmissões de eventos esportivos.
O lançamento oficial do acordo do Turismo Carretera – que está dentro da política do governo de “esporte para todos” – foi realizado pelo vice-presidente Amado Boudou com uma cerimônia oficial em Mar del Plata (sua cidade natal). Alguns dos mais famosos pilotos argentinos da categoria estiveram presentes. “Conseguimos que esta corrida chegue à toda a população!”, exclamou Boudou, erguendo as mãos para cima, a modo de remake do emblemático gesto do defunto presidente Juan Domingo Perón.
Perón, nos anos 50, sentado no automóvel de corrida do ás argentino Juan Manuel Fangio
Esta estatização, tal como ocorreu com as transmissões dos jogos de futebol (ocorrida em 2009), implicam em mais um revés para o Grupo Clarín, já que o holding multimídia tinha um acordo com a Associação de Corredores de Turismo Carretera (Actc). Mas, a associação anunciou que suspendia o acordo que havia mantido com o o Grupo Clarín ao longo das últimas duas décadas.
Para romper o acordo que tinha com o holding privado, o governo Kirchner triplicou a oferta do Clarín: os pilotos, em vez de receber US$ 8 milhões por ano receberão US$ 23 milhões anuais.
REESTATIZADO E SEM LUCROS - Desde fevereiro de 2010 o governo Kirchner proíbe as publicidades do setor privado durante as transmissões dos jogos de futebol da primeira divisão na Argentina. As únicas publicidades autorizadas nessas transmissões – que foram estatizadas há dois anos e meio graças a um acordo com a Associação de Futebol da Argentina (AFA) – são as do governo Kirchner.
O espectador que assiste os jogos do esporte mais popular dos argentinos é bombardeado por imagens de obras realizadas pela presidente Cristina, além das medidas políticas e auto-elogios sobre seu próprio governo.
No total, desde 2009 o “Futebol para todos” custou ao Tesouro Público um total de US$ 470 milhões, desembolsado à AFA, segundo os dados oficiais. No entanto, estimativas independentes indicam que o gasto total foi de US$ 849 milhões. O contrato com a AFA expira em 2019.
O governo Kirchner não obteve lucro financeiro algum com a estatização das transmissões dos jogos.
IBOPE ESTATAL
O governo Kirchner inaugurará em abril 2012 uma entidade estatal que medirá a audiência das empresas de mídia da Argentina, transformando-se no primeiro caso mundial de um “ibope estatal”. Os assessores da presidente Cristina sustentam que a nova empresa estará aberta para a consulta de todos os setores “dentro de um esquema de democratização de mídia”. O plano, afirmam, é o de “criar uma referência de consumos culturais e de audiência na Argentina”.
A nova companhia pública, que rivalizará de forma explícita com a subsidiária argentina da brasileira Ibope, dependerá da Autoridade Federal de Serviços de Comunicação Audiovisual (Afsca).
O governo afirma que é “necessário” um “sistema público de medição”, já que considera que existe um “monopólio” por parte da Ibope no mercado de medição de audiências na Argentina.
Ricardito Minipyme, jovem que defende a política industrial do governo e luta contra a opressão das grandes multinacionais
HISTÓRIA EM QUADRINHOS ESTATAL
A presidente Cristina pretende conquistar os corações e mentes do público infanto-juvenil argentino por intermédio das primeiras histórias em quadrinhos estatais da América do Sul, distribuídas pela agência estatal de notícias Telam – a maior do país – que podem ser usadas gratuitamente pelos jornais argentinos.
O objetivo destes quadrinhos, segundo os chefes da agência, é o de “recuperar para os leitores o relato das aventuras com um olhar social em consonância com o projeto de país na Pátria Grande impulsado pelo governo do presidente Néstor Kirchner e de Cristina Kirchner”.
Desta forma, os leitores terão a opção de deixar de lado as tirinhas que os integrantes do governo chamam de “estrangeiras” ou “traidoras da pátria” para passar a ler historinhas “nacionais e populares”.
Os personagens das duas primeiras tirinhas lançadas pela Télam são “Juan Sur” (João Sul), agente secreto nacional e popular da União de Nações Sul-americanas (Unasul) que terá a missão de desvendar as tramoias das corporações internacionais contra os governos sul-americanos e “Ricardito Minipyme” (Ricardinho Micro-empresa), que relata a história de um nacionalista e entusiasta jovem que participa da criação de uma microempresa argentina.
Sur, Juan Sur. Agente secreto da Unasul. Ou, a conexão Quito-Buenos Aires.
E, nada a ver com a postagem acima, Armstrong, Louis, canta “When you’re smiling”.
Na foto abaixo, Satchmo toca para duas damas: a esfinge e a esposa.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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Stefan Zweig, best-seller nos anos 20 e 30, suicidou-se há exatamente 70 anos em Petrópolis. Uma de suas amigas era Gabriela Mistral, que após a morte do autor, escreveu uma carta relatando seu encontro com o cadáver do amigo. O texto íntegro da carta publicada na Argentina pela Nobel chilena sobre o escritor austríaco foi resgatada pelo brasileiro Alberto Dines.
“Finalmente entrei no quarto de dormir e estive ali não sei por quanto tempo sem levantar a cabeça. Eu não podia ou não queria ver. Em duas pequenas camas unidas estava o mestre, com sua formosa cabeça somente alterada pela palidez. A morte violenta não lhe deixou violência alguma. Dormia sem seu eterno sorriso, mas sim com uma doçura enorme e com uma serenidade maior ainda”.
Desta forma, a escritora e diplomata chilena Gabriela Mistral (futura Prêmio Nobel de 1945) descreveu o momento em que entrou no quarto da casa do escritor austríaco Stefan Zweig em Petrópolis (RJ), horas após o suicídio do autor de “Novela de xadrez”, “Maria Stuart” e “Brasil, um país do futuro”.
O relato em forma de carta foi destinada a Eduardo Mallea, escritor argentino, que na época comandava o suplemento literário do jornal portenho “La Nación”. O conteúdo integral dessa epístola, publicada originalmente no dia 3 de março de 1942, ficou esquecido durante décadas, até que a carta – da qual só se conheciam trechos esparsos – foi resgatada em sua totalidade há poucos anos pelo jornalista brasileiro Alberto Dines, diretor do Observatório da Imprensa e autor de “Morte no paraíso”.
O jovem Alberto Dines, com cara marota, marcado com o círculo preto. O escritor Stefan Zweig, acompanhado de Lotte, no canto inferior direito. A foto foi feita na Escola Israelita-Brasileira Scholem Aleichem, Vila Isabel, Rio. Naquele momento Zweig colhia material para o “Brasil, um pais do futuro”. Um mês depois embarcou para uma série de conferências na Argentina (Buenos Aires, Cordoba, Rosário, Santa Fé, La Plata).
A quarta edição de ”Morte no paraíso” – uma das principais escritas sobre o suicídio de Zweig – será lançada no final de março e conterá a íntegra da carta de Mistral, entre outros detalhes sobre a vida do escritor.
“O texto da carta de Gabriela Mistral está carregado de emoção”, disse Dines ao Estado. sobre a carta, reproduzida pelo “La Nación” na sexta-feira passada. O jornal recordou que o interesse original de Zweig em conhecer a América do Sul era a Argentina. No entanto, depois de viajar à Buenos Aires nos anos 30, e de fazer uma escala no Brasil, ficou fascinado pelo afeto com o qual foi tratado pelos brasileiros (e havia ficado incomodado com o áspero clima político em Buenos Aires). Desta forma, em 1940, quando partiu da Europa, Zweig – em vez da Argentina – foi para o Brasil, instalando-se em Petrópolis.
Ali preparou um livro cujo título tornaria-se um slogan informal de sua terra de asilo: “Brasil, país do futuro”. Segundo Zweig, “se o Paraíso existe em algum lado do planeta, não poderia estar longe daqui”.
O pacifista Zweig temia que a guerra, que estava arrasando as cidades da Europa, chegaria finalmente à América do Sul (acima, leitores buscam ávidos material de leitura em meio à Segunda Guerra Mundial). Em fevereiro de 1942 – quando Zweig deixou voluntariamente de viver – o Terceiro Reich parecia invencível. Apenas oito meses depois Hitler começaria a quebrar a cara com os ingleses nas areias do Sahara em El Alamein e com os russos nas gélidas planícies onde localizava-se Stalingrado.
AFUNDAMENTO E SUICÍDIO – O dia em que Mistral viu seu amigo deitado placidamente sobre o leito, sem vida, era o 23 de fevereiro de 1942. Menos de uma semana antes, Zweig havia sido informado sobre o afundamento do “Buarque”, navio brasileiro afundado por um submarino do Terceiro Reich. O escritor austríaco, judeu, refugiado na América do Sul para escapar do avanço do nazismo na Europa, considerou que o fim estava próximo, já que a guerra estava atingindo um país sul-americano.
Nas primeiras horas daquele dia Stefan Zweig, autor de sucesso em todo o mundo, havia cometido suicídio. A seu lado estava “Lotte”, apelido de Charlotte Altman, secretária e virtual esposa de Zweig. “Parece que ele morreu antes do que ela”, conjetura Mistral na carta a Mallea. “Sua mulher, que havia visto seu fim, segurava sua cabeça com o braço direito e toda sua cara estava apoiada na dele, Ao ser separada de seu corpo, ela ficou com o braço e a mão tortos e rígidos, e será necessário dar um jeito nesse pobrezinho corpo para colocá-la no ataúde. O rosto dela estava muito parecido (ao de Zweig). Não haverá nada que poderá dissolver em mim esta visão”.
“Nunca se soube o que foi o que ele ingeriu. Possivelmente morfina”, disse Dines ao Estado.
Foto publicada no dia 28 de fevereiro de 1942 pela revista A Semana. Stefan e Lotte em um abraço eterno.
“Foi um livro importante para o Brasil. Mas na época foi muito esculhambado pela imprensa, por razões maliciosas, pois achavam que Zweig havia vendido-se ao Estado Novo de Getúlio Vargas. E, como Vargas não podia ser criticado diretamente, criticavam o Zweig”, explica Dines, que viu o escritor de perto quando tinha oito anos, em 1940, durante uma visita do autor de “Amok” à escola de seu futuro biógrafo. “Ele posou para uma foto com uma centena de alunos e os professores. Naquele dia não tivemos aula. Foi um dia que não esquecerei”, diz.
Morte no paraíso, de Alberto Dines. Nova edição ampliada terá mais detalhes sobre a vida e obra do escritor austríaco.
ATUALIDADE DE ZWEIG - “A efeméride destes 70 anos de sua morte é muito interessante, pois Zweig era, desde o início, um europeu, muito antes de que existisse uma concepção de uma Europa unida”, sustenta o biógrafo. Segundo Dines, “Zweig não morreu. Está vivo. pois continua sendo reeditado e reaproveitado. No ano passado o diretor Bernard Attal preparou um filme baseado em ‘A coleção invisível’, do Zweig, que talvez seja o único livro de ficção na literatura que está centralizada na inflação”.
A carta, na íntegra, de Gabriela Mistral publicada no jornal La Nación no dia 3 de março de 1942:
Eduardo Mallea: van adjuntas unas letras de hace días, donde hallará usted un recado de nuestroStefan Zweig. Yo no podía mandárselas hoy, 24 de febrero, sin añadirles unas palabras sobre el horrible día 23. Salí hacia Petrópolis a las once y media; mi bus ha debido pasar por la casa de nuestro amigo a mediodía: a esa hora él y su mujer agonizaban, allí, solos, sin que nadie supiese esa agonía. La criada tenía costumbre de que sus patrones durmiesen hasta las 10; no le extrañó mucho, al acercarse a la puerta hacia las 12, oír “la respiración del señor Zweig”. Pero la pobre mujer solamente a las cuatro se decidió a abrir la puerta. Avisó a la policía; andaba tan trastornada que al recibir a un arquitecto francés que venía de visita, le contestó: “Sí, allí están; pero están muertos”. La policía llamó al presidente del PEN Club, Dr. [Cláudio] De Souza, a quien estaba dirigida la carta del maestro para sus amigos y que tal vez usted ya ha leído. El doctor fue a comunicar personalmente la tragedia al presidente -quien ordenó hacer las exequias por cuenta del Estado- y avisó a la prensa de Río. Nosotros supimos la desventura por un telefonazo de M. Dominique Braga, a las nueve de la noche. Yo estaba recogida y oía sin entender este diálogo: “No puedo oírle, señor Braga; hable usted más alto. El teléfono está mal. No le oigo todavía. No le puedo oír”. Y después: “¡Qué cosa tan horrible!” y el llanto no dejaba hablar a Connie [Saleva, secretária de G.M.], lo mismo que a M. Braga. Creí que se tratase de un accidente de auto y busqué entre mis amigos de Petrópolis. A cualquiera hallaba menos a ellos. Porque hacían la vida más quieta del mundo, y la más dulce en la apariencia y la más linda de ver.
Tenía tanto miedo de saber, amigo mío, tanto temor, que no quería preguntar. Connie subió llorando como un niño. Aquí los tres teníamos, más que el cariño, la ternura de ese hombre llano como una criatura, tierno en la amistad como no sé decirlo, y realmente adorable. Usted sabe con cuánta frecuencia nos veíamos, ¡ay! Con menos de la necesaria para haber sabido el secreto de ellos y haberlos ayudado, si dable era ayudarles, ¡Dios mío!
Salimos hacia Petrópolis con una sensación de sonámbulos que hacen cosas absurdas: saberlos muertos no era posible para nosotros, y muertos por suicidio, menos. La pequeña casa de columnetas, a media colina, a cuya puerta nos esperaba siempre, subiendo lentamente las escaleras, estaba guardada por la policía. Arriba hallamos al doctor De Souza y a su buena mujer, al presidente de la Academia de Petrópolis, a un grupo de hebreos, al editor brasileño de Zweig y a los consabidos corresponsales de la prensa nacional y extranjera. Nosotros seguíamos hablando y oyéndolo todo como sonámbulos.
Al fin entré en el dormitorio y estuve allí no sé cuánto tiempo sin levantar la cabeza. Yo no podía o no quería ver. En dos pequeños lechos juntos estaba el maestro, con su hermosa cabeza solamente alterada por la palidez. La muerte violenta no le dejó violencia alguna. Dormía sin su eterna sonrisa, pero con una dulzura grande y una serenidad mayor todavía. Parece que él murió antes que ella. Su mujer, que habrá visto ese acabamiento, le retenía la cabeza con el brazo derecho, y toda su cara estaba echada sobre la suya. Al ser separada de su cuerpo, ella quedó con brazo y mano torcidos y rígidos, y habrá que desgobernar el pobrecito cuerpo al ponerla en el ataúd. El rostro de ella estaba muy parecido. No habrá nada que me disuelva esta visión.
Tenía él 61 años; ella, 33. El decía siempre: “En años, soy más que su padre”. Ella supo irse con él, dejando atrás la vida entera. La miré mucho rato en el ademán y en el prodigioso enflaquecimiento del veneno o de la angustia de la última hora: la de verlo muerto a su lado. Mantengo todo mi concepto cristiano sobre el suicidio, amigo mío, pero creo que él no me prohíbe sentir este desgarramiento por el amor de esa mujer hacia un hombre viejo a quien quiso con pasión y amistad. Lo cuidaba con un celo tal que no estaba lejos de él diez minutos: del aire frío, del mucho escribir, del mucho andar -que era su vicio único-, del desaliento: de todo lo guardaba. En mi país yo hubiese rogado que los sepultasen juntos, como a los Berthelot. Zweig dormía sin sueños, aliviado para siempre del tiempo y el mundo vergonzosos que fueron la ración de su vejez.
Mi asombro y el de cuantos lo tratamos aquí es inmenso. Hoy sólo puedo contarle nuestro penúltimo encuentro. Nos invitó a almorzar, añadiendo a nosotros tres a Hortensia Río Branco, que estaba en casa. Lo encontré un poco desmejorado, pero en un ánimo más alegre que otras veces. Le di la noticia de la venida de Waldo Frank, anunciada en la carta suya, y le participé mi proposición de que el amigo viniese a casa, a Petrópolis, para escapar del calor. Entonces ambos me dijeron que compartiríamos a Frank, quien podía pasar días con ellos, días conmigo. Así lo convinimos.
Contó riendo que él había dispuesto un almuerzo austríaco, desde la sopa hasta el postre. Y él lo sirvió, con su linda manera, que nunca se sabía si era de uno muy viejo o muy niño. Habló un poco de Bélgica con doña Hortensia, residente de media vida en ese país.
Luego salimos hacia la terraza, donde a él le gustaba trabajar, pero me detuvo al pasar por su escritorio para leerme una preciosa carta de Martin du Gard, el novelista. Leía y repetía frases y frases, haciéndome sentir el perfecto, el hermoso estado de espíritu de esta otra alma en prueba. Salimos a la terraza hablando de las gentes que están viviendo su tragedia sin la pérdida de una pizca de decoro y de elegancia en la conducta. Entonces me dijo, mirándome de un modo particular y recalcándome las palabras: “Habría que decir lo peligroso que es en América comenzar una persecución de los alemanes; sé que hay algunos signos de eso, y me alarman mucho”. Lo tranquilicé, asegurándole que no habrá inquisición, ni cosas parecidas a las débauches sangrientas de Europa, en nuestros pueblos. Y entramos en una larguísima conversación sobre el indio, el negro y las gentes cruzadas. Le oí una alabanza conmovida de los misioneros portugueses. Yo había procurado antes interesarlo en los misioneros del Continente como asunto para un libro suyo que podría ayudar mucho a nuestros indios. Celebró la bondad del negro, “que es una sola cosa -dijo- con su alegría”. Añadió lindas observaciones del temperamento brasileño en la piedad y el equilibrio pasional. De la gente pasó a la tierra, y me pidió caminar con él por los alrededores de nuestra ciudad, lo cual le prometí. Él me creía entendida en plantas, sólo por haberme visto cultivar un pedazo de jardín de la casa? “Gabriela Mistral -me dijo-, yo tengo este deseo que me va a conceder. Conversaremos mejor de todo esto andando por la tierra rural.”
Hace unos diez días de todo esto: trato de recordar con mucha precisión la parte referente a Frank y la última, porque son dos compromisos que él se hacía y que nadie le había solicitado. Estoy cierta de que no me engañaba -¡para qué!- y de que no pensaba matarse.
Poco después me habló por teléfono para preguntarme si yo iría a una recepción oficial de la Prefectura (o Gobernación) de Petrópolis, pues él tenía la invitación, pero no la compañía. Allá fuimos y estuvo a gusto, a pesar de lo poco que le agradaba la vida mundana.
No creo en las conjeturas que se hacen sobre la situación económica del maestro Zweig. Su editor las desmintió rotundamente anoche, a dos pasos del muerto. Las grandes ediciones suyas lanzadas por la mayor editorial yanqui, más algunos artículos pedidos de los Estados Unidos, podían asegurarle a lo menos unos años de un bienestar modesto, pero suficiente. Por otra parte, no puede ni imaginarse un momento de extravío o de locura: escritor más sensato, más dueño de su alma, menos delirante (a pesar de haber descripto como nadie el delirio), no puede tal vez encontrarse en nuestra generación. Pienso, sin pretensión de adivinar, que las últimas noticias de la guerra lo deprimieron horriblemente y en especial el comienzo de la guerra en el Caribe, el hundimiento de barcos sudamericanos. ¡Ay! ¡Había visto llegar así la guerra a tantas costas! Habrá que añadir su última información: la de los sucesos del Uruguay. También eso se parecía de un modo tremendo a lo visto en Europa, duela o no duela confesarlo. Estaba harto de horror, no podía ya más.
Amigo mío: ya sé que los fáciles dirán para condenar -y hasta algunos estoicos- que Zweig se debía a nosotros y que su escapada de la tragedia común es una gran flaqueza. Y mucho más se dirá. Hablarán de su falta de fe en lo sobrenatural y acaso de la famosa cobardía israelita.
Yo me quedo esperando su autobiografía, escrita aquí mismo, en nuestro Petrópolis, que él amaba tanto como yo. Porque no sabemos todo lo que este hombre padeció desde hace unos siete años, desde que el escritor alemán fiel a la libertad pasó a ser bestia de cacería. Su sensibilidad superaba a la mostrada en sus libros: era una sensibilidad femenina, en el mejor sentido del vocablo; habría que decir “inefable”. Cuando hablábamos de la guerra, yo seguía en su cara, punto a punto, su corazón en carne viva e iba midiendo lo que yo podía decir, lo cual no me ha ocurrido con ningún hombre de letras. Y no era que perdiese en momento alguno su control riguroso; era que los hechos brutales, o simplemente penosos, no parecían ser oídos, sino tocados por él en el mismo instante en que los escuchaba y le caía al rostro una tristeza sin límites que lo envejecía de golpe. (Usted recuerda la juventud de su aspecto; toda ella desaparecía en cayendo la guerra en la conversación.) Su repugnancia de la violencia era no sólo veraz; era absoluta.
Le importaban todos los pueblos y se había apegado muchísimo a los nuestros. Estuvo a punto de irse a Chile, por una invitación de Agustín Edwards; se quedó en Brasil y lo sirvió con un libro ejemplar sobre territorio, historia y pueblo. Halló los Estados Unidos demasiado recios o duros, no sé. Prefería el sur porque, además, necesitaba de mucha dulzura de clima el hombre de sesenta años.
Su melancolía más visible era la pérdida de la lengua materna. En su primera visita a esta casa me dijo que nada del mundo podría consolarlo de no volver a oír en torno suyo el habla de su infancia. “Esto -dijo- es lo único irremediable.” Él esperaba entonces con certidumbre cabal la caída del hitlerismo; pero ya había comprado una casa en Inglaterra y posiblemente, como muchos desterrados, pensaba que al regresar llevaría las heridas de un dictador, y además las de los seudo amigos que traicionan o que consienten. Su sobriedad para juzgar a su patria me pareció completa; jamás un denuesto, ni siquiera un vocablo castigador; su continencia verbal formaba parte de su hidalguía. (El tipo de nariz no era judío; mejor recordaba al español, inglés o francés).
No pudimos hacer nada por él, aparte de quererle en esta casa los tres, porque era lo más natural del mundo el tenerle no sólo admiración, sino una ternura conmovida.
¡Ay! Que no remuevan los creyentes estos huesos de doble fugitivo y renuncien al ejercicio fácil de dar una lección sobre un muerto que deja empobrecida a la humanidad, y en todo caso a los mejores. En él había miel de Isaías, también llama paulista, también ambrosía de Ruth.
Adiós. G. M..
Stefan Zweig e Charlotte Altmann.
Para mais detalhes sobre Gabriela Mistral, aqui.
Para mais detalhes sobre Stefan Zweig, aqui. E também aqui.
E aqui, a versão completa de “Die schweigsame Frau” (A mulher silenciosa), ópera de Richard Strauss, cujo libreto é de Stefan Zweig:
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Passageiros do sistema ferroviário da área metropolitana portenha viajam como sardinhas em uma lata. Desta forma, quando acontece um acidente, o acotovelamento dentro dos vagões magnifica o número de vítimas mortais.
Um trem da ferrovia Sarmiento descarrilou nesta quarta-feira de manhã ao entrar na estação de Once, no bairro de Balvanera, no macro-centro portenho, e bater contra a gare.
O choque – que transformou os vagões em uma massa de ferragens deforme – provocou a morte de 49 pessoas (48 adultos e uma criança). Outros 550 passageiros foram feridos. A maior parte das mortes ocorreu no primeiro e o segundo vagão.
O decadente sistema ferroviário argentino – e especialmente a linha Sarmiento – é famoso por “comprimir” os passageiros nos vagões como se fossem sardinhas em uma lata.
Quase todos passageiros do acidente desta quarta-feira conseguiram sair sozinhos dos vagões – ou foram removidos com ajuda de policiais e civis – nos primeiros minutos. No entanto, 60 pessoas ficaram presas nas ferragens durante quatro horas.
Rubén Sobrero, líder do sindicato dos ferroviários, afirmou que era um “dia de luto”. O sindicalista criticou o governo e as empresas de trensa pelo péssimo estado do sistema. Segundo ele, há anos a organização denuncia “a falta de investimentos” nas ferrovias e na manutenção de trens e vagões.
Os trens da linha Sarmiento são envelhecidos Toshibas dos anos 50 e 60, importados do Japão. Os passageiros costumam reclamar desde os anos 90 – época na qual o sistema de ferrovias foi privatizado pelo então presidente Carlos Menem (1989-99) – sobre a péssima qualidade de manutenção dos vagões e locomotivas.
O deputado e cineasta Fernando “Pino” Solanas, do partido de oposição Projeto Sul, afirmou que “há vários anos que a presidente Cristina Kirchner escuta, lê e vê estas denúncias e nada faz…”. Segundo Solanas, a falta de responsabilidade sobre o sistema ferroviário começou nos tempos de Menem e continua no governo atual.
Nos últimos 10 anos, em diversas ocasiões passageiros furiosos com os atrasos e as péssimas condições de transporte incendiaram vagões dos trens das diversas linhas ferroviárias que ligam a capital argentina com os municípios de sua região metropolitana.
Ao longo do último ano os sucateados trens portenhos protagonizaram cinco acidentes graves (incluindo o da estação Once), dois deles com vítimas fatais. No total, esses acidentes acumularam 780 feridos, além de 65 mortos.
O pior acidente da História da Argentina ocorreu em 1970, quando dois trens chocaram. Na ocasião morreram 200 pessoas.
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