Perón abraça Evita, enquanto seus cabelos platinados voam com o vento (não é a famosa sacada da Casa Rosada). Ícone pop, “Mãe dos pobres” já virou musical, filme, camiseta e caneca. Agora é desenho animado. Em 2D.
“Voltarei e serei milhões” era a apócrifa frase de Evita Perón, supostamente pronunciada poucos minutos antes de sua morte em julho de 1952, provocada por um arrasador câncer. Evita indicava que voltaria da morte como milhões de trabalhadores “descamisados” para tomar o poder. Mas, a famosa – e controvertida – segunda mulher do general e presidente Juan Domingo Perón, constantemente citada como “exemplo a seguir” por parte da presidente Cristina Kirchner, voltará como desenho animado no longa-metragem “Eva da Argentina”, que será dirigido porMaria Seoane, diretora da estatal Rádio Nacional.
A notícia sobre a preparação do filme – que conta com fundos do estatal Banco de La Nación- aparece em plenoperíodo de campanha eleitoral argentina. Em outubro apresidente Cristina, que emula Evita com seus gestos, disputará sua reeleição. Coincidentemente, dias antes será a estreia do filme.
“A obra louva a vida de Evita, defensora dos direitos do trabalhador e das mulheres”, afirmaram os produtores em um comunicado.
Os operários, aos quais Perón chamava de “descamisados”. Décadas depois a mesma expressão seria utilizada por Fernando Collor de Mello.
O filme mostrará a atividade política de Evita de forma romanceada, a relação sentimental com Perón e sua luta contra o câncer. “Este será o primeiro filme de desenhos animados da História política argentina. Nossa proposta é a de plasmar um registro dos seis anos de vida política de Evita, que geraram tantas interpretações”, afirmou Seoane.
O desenho animado em tom de épica terá trilha sonora do argentino Gustavo Santaolalla, músico premiado com o Oscar demelhor trilhas sonoras dos filmes “Babel” e “O segredo de Brokeback Mountain”. A produção do filme que retratará a vida de Evita – uma defensora da intervenção do Estado na economia – estaráa cargo da Azpeitia Cine e do Illusion Studios, empresa que pertence ao Grupo Exxel, fundos de investimento que foi um dos ícones do neoliberalismo dos anos 90 durante o governo de Carlos Menem (1989-99).
Aristocracia argentina: as vilãs da História, segundo o filme.
MITOS - O filme, que mesclará cenas de imagens da época, também pretende mostrar o ódio das aristocracias portenhas contra a primeira-damaargentina e como os militares que derrubaram o governo de seu marido, em 1955, sequestraram seu corpo embalsamado.
Uma das cenas, no início do filme, mostra como Evita, que era filha extramatrimonial, foi impedida de ver o velório de seu pai pela própria viúva legítima do morto. No entanto, esta versão, imortalizada no musical britânico “Evita”, não teria a ver com a realidade. Isso é o que afirmou há poucos dias Cristina Álvarez, sobrinha-neta de Evita, aliada da presidente Cristina Kirchner, e presidente da Fundação Museu Evita.
Álvarez – cuja avó materna, Blanca Duarte, era irmã de Eva Duarte de Perón – explicou que a mulher oficial do pai de Evita, Juan Duarte, havia falecido em 1922, quatro anos antes do marido. A sobrinha-neta, considerada a detentora do maior número de documentos e memorabilia de sua tia-avó, desmentiu que Evita e seus irmãos, ao contrário do que dizia a lenda, haviam sido expulsos do velório.
Perón e Evita sob o luar que cai na Praça de Mayo. Ao fundo, à esquerda, o Banco de La Nación. À direita, ao fundo, a Casa Rosada. E na direita do fotograma, o desenho de Rodolfo Walsh, jornalista investigativo, que na vida real escreveu sobre o paradeiro do corpo de Evita. Para mais detalhes sobre Walsh, aqui.
CARNE E OSSO – Várias atrizes interpretaram Eva Perón no cinema. A primeira delas foi Faye Dunaway, que em 1981 fez um filme para a TV com James Fiorentino como Perón. Buenos Aires, nesse filme, aparecia como uma cidade de arquitetura colonial da América Central.
Uma década e meia depois, em 1996, foi a vez de Madonna interpretar Evita em uma transposição do musical de Andrew Lloyd Weber ao cinema por intermédio de Alan Parker. Na mesma época, o cinema argentino decidiu produzir um filme próprio sobre a mulher mais famosa da História do país – e com mais detalhes políticos no enredo – e lançou o “Eva Perón: a verdadeira história”, protagonizado pela atriz Esther Goris e dirigido por Juan Carlos Desanzo.
O revival sobre Evita no cinema, na literatura, na estampa de camisetas e caneras, e até como capa de CD de disco music, levou a escritora mexicana Alma Guillermoprieto a afirmar anos atrás: “evidentemente, a vida de Evita acaba de começar!”
O link para o trailer do filme de Evita, aqui.
E, para mais detalhes sobre como Evita virou ícone pop e os mitos e fatos sobre a principal figura feminina política do século XX na Argentina, uma postagem de dois anos atrás sobre o assunto, aqui.








Aproveitamos a ocasião para desejar hoje um estupendo aniversário a nosso comentarista e leitor Lito Portenho, que acompanha o blog desde sua primeira semana!
E como presente especial, um tango diferente: “Papirosen”, com Zully Goldfarb. Aqui.
E aproveitamos para mandar um abraço imenso a todos os amigos… no Dia do Amigo, isto é, hoje!
Ah, quem não está por dentro desta história, pode ver uma postagem ddo ano passado, exatamente sobre esta data, que foi criada por um argentino. Aqui.
a meu pai, José Elias, que faz aniversário hoje – e que será novamente avô daqui a poucas semanas – um dos tangos com seu cantor preferido, Julio Sosa. Aqui. E mais Julio Sosa, aqui.
E de “yapa” (brinde), mais duas interpretações do emérito uruguaio Julio Sosa, “El Firulete”, uma milonga, ,aqui. …e o tango “Elultimo café”, aqui.
O VERDADEIRO FACEBOOK: Giuseppe Arcimboldi, ou Arcimboldo: acima, seu quadro “O Bibliotecário”, de 1566. Exposto no Castelo Skokloster,
A referência ao pintor milanês do século XVI é só para dizer aos amigos que ainda estou tentando “pegar o jeito” do Facebook,com oqual não tenho muita paciência. Ainda prefiro o mail e o twitter…
Abraços e bom meio de semana a todos!
Ariel
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
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Caro Hammurabi,
Imagino que um pouco depois dos cinemas, o estatal canal TV Pública transmitirá o filme.
E, talvez seja até possível ver o filme em parte pelo site do canal ou pelo youtube.
Abraços,
Ariel
Caro Ariel
No final da matéria você cita produções relativas à vida de Eva Perón, e nesse instante me lembrei de uma muito boa versão argentina da ópera de Lloyd Weber feita por Nacha Guevara, com música de Alberto Favero. O espetáculo concorria em qualidade com o seu irmão mais velho. Foi reprisado no ano passado, eu acho.
Abraço
Cara Márcia,
Pois é, existe uma versão muito boa interpretada pela cantora-atriz argentina Nacha Guevara. Tecnicamente, a produção não deixou nada a dever em comparação com a da Broadway. O único problema é que as duas versões são um tanto quanto romanceadas e pecam por várias falhas históricas. Mas, é a mesma coisa dos filmes de Hollywood quando retratam a vida de Julio César e Cleópatra… para ter mais “punch” o pessoal acaba dando umas alterações que não tem a ver com a História real, mas atrai o público.
Abraços,
Ariel
Em que pese a seriedade da arquiteta Cristina Álvarez, filha de Blanca e sobrinha-neta de Eva, não são verdadeiras as afirmações dela sobre a data da morte de Juán Duarte, pai de Evita e sobre a expulsão da família no velório do pai. Segundo Alicia Dujóvne Ortiz, biógrafa de Evita conforme muitos outros documentos, houve sim uma falsificação no cartório de registro civil, alterando a data do seu ano de nascimento para que o futuro presidente não se casasse com uma bastarda. Quando Eva nasceu seu pai ainda era casado e vivia com sua família original. Quanto à expulsão da mãe, Juana Ibargúren, e filhas e um filho Juancito, inclusive Evita, do velório de Juan Duarte, há muitos documentos que provam ser o fato verdadeiro. Juan Duarte, pai de todos os filhos de Juana Ibargúren, embora permanecesse casado com sua esposa até sua morte em um acidente, registrou como seus todos os filhos de sua “agregada” Juana, menos Evita, curiosamente.
Caro Reinaldo,
Pois é! Evita continuará dando o que falar: o fato é que Cristina Alvarez, sobrinha-neta de Evita, confirma a data do nascimento em 1919, tal como prova a certidão de nascimento original (na qual aparece o nome do pai).
Evita, em um momento de sua carreira, tentou remover três anos de sua idade… mas para 1922, para parecer mais “nova”.
No entanto, todos os documentos indicam que nasceu mesmo em 1919.
No caso de Cristina Alvarez, não suspeito que ela esteja preocupada atualmente se sua tia-avó nasceu como “bastarda” ou não…
A cena da expulsão do velório, sem dúvida, rende mais ibope (ou, como Washington, quando atirou uma moeda de prata através do Potomac e tantos outros exemplos interessantes.. mas não necessariamente verdadeiros). Mas, segundo os parentes, nunca ocorreu.
E as únicas testemunhas vivas desse suposto incidente são as irmãs de Evita, uma das quais está viva, e que passou para a Cristina Alvarez.
Abraços,
Ariel
Ariel.
Aliás, documentos muito fidedignos chegam a afirmar que a obsessão de Evita com o casamento das mulheres pobres argentinas, suas protegidas preferenciais, adviria da frustração de ser filha de um homem casado e que não a registrou como filha. Corrigindo a minha mensagem anterior, quando eu disse “afirmações dela sobre a data da morte de Juán Duarte” eu quis dizer ” afirmações dela sobre a morte da mulher oficial de Juan Duarte”.
Abraços. Vamos aguardar para ver o desenho!
Caro Reinaldo,
Parece que mais do que o período da infância, que foi bastante normal em Junín, onde era de classe média austera (sua mãe tinha uma pensão).
O problema foram os anos de penúria que ela passou quando foi para a cidade grande, longe da família.
O desenho, como você diz, será aguardado com grande expectativa!
Abraços,
Ariel
Afinal, como diz o escritor argentino Tomás Eloy Martínez, autor de “Santa Evita”, ‘escrever história e inventar história é a mesma coisa’. Eu discordo, mas a frase é boa.
Grande abraço.
Reinaldo
Caro Reinaldo,
Hehehehehhe!!! Tem razão, a frase é boa.
Abraços,
Ariel
..
Prezado Ariel
Instruída por Perón, Evita ganhou enorme popularidade em vida, em razão de sua obstinada defesa dos mais pobres. Se tivesse vivido mais uns 10 anos, talvez pela própria instabilidade da política, teria se nivelado ao comum dos mortais. Sua morte trágica, entretanto a elevou à condição definitiva de heroína dos argentinos. Tomara que o novo filme nos revele mais detalhes de sua interessante biografia. É curioso observar como também na política pouco se cria e muito se copia. No reinado de Napoleão III (século XIX), o genial Victor Hugo, em seu livro “Napoleão o pequeno”, classifica os revoltosos parisienses de “descamisados e mortos de fome”; Perón teria achado bonito, mas simplificou: apenas “descamisados”. Já o nosso caçador de marajás, se bem me lembro inovou: “descamisados e pés descalços”…
Caro Xavier,
Possivelmente teria ocorrido isso mesmo.
A imagem de alguns líderes foram favorecidos pela idade, outros pelas tragédias ocorridas nos governos posteriores a eles… morrer cedo, no apogeu – como James Dean – é material farto para a indústria do mito.
Hehehe… é verdade a frase do ex-pr Collor…não lembrava do “aditivo”.
Abraços,
Ariel
Simbolo de atraso da América do Sul. É inacreditável que tenha pessoas que acreditam ainda nisso.
Caro Solilóquio,
Obrigado pelo comentário!
Mas, a qual tópico específico estava se referindo?
Abraços,
Ariel
Caro Ariel, um abraço para você.
Hoje dia dos amigos. Considero você meu amigo, e gosto muitos dos seus escritos.
abçs,
Saulo
Caro Saulo,
Um muito obrigado atrasado por sua amizade!
E obrigado pelo elogio!
Abraços,
Ariel
Excelente post , tomara que o filme seja bom , vou ter q esperar que pase na TV Publica para poder assistir por aqui.
Grande abrazo.
Caro Andrés,
Suponho que poucos meses após a estreia estará disponível!
A diretora é muito boa, e os roteiristas idem. E nem falemos da trilha sonora. Talvez seja uma visão parcial e idealizada da vida e obra de Evita (não incluiria o respaldo a Franco, a entrada dos criminosos de guerra nazistas, etc). Mas, de todas formas, técnicamente, promete ser uma muito boa produção.
Abraços,
Ariel
Ariel
Tive uma sensação de déjà vu hoje cedo, ao ler sua matéria no Estadao. E ficou mais forte ainda com os fotogramas que você trouxe para o blog. Os roteiristas e desenhistas estatais não precisaram de muita inspiração: foram direto aos chavões da Disney e da Pixar, com um “toquecito” de realismo socialista na cena da multidão revoltada, que também parece saída do Corcunda de Nobre Dame. O mais preocupante é que a garotada vai sair do escurinho com uma visão ainda mais distorcida da história argentina do século XX.
Quanto à Evita da vida real, lembro de um verso de Guilherme de Almeida gravado no Obelisco do Ibirapuera, em São Paulo: “Morreram jovens para viver sempre”. Teve uma morte dolorosa, que lamento profundamente, aos 33 anos. Mais dez anos de atividade política, como disse o Fxavier aí em cima, e poderia ser lembrada(?) hoje como uma mera Imelda Marcos do Plata. Pero como se fué temprano, Evita volverá e hará millones en la taquilla.
Abraços
De longe e na frieza da razão, me parece um folhetim dirigido a uma massa semi-analfabeta. Me parece mentira que um cartoon desses seja criação do mesmo povo que deu ao mundo Mafalda, Borges, Gardel, Piazzolla, Ginastera, Berni, Quinquela Martín, Borembaim, Troilo, Florentino Ameghino, San Martín, Tato Bores, Dalmiro Saenz, Mariano Moreno, Gustavo Santaolalla, Ariel Ramirez, Mercedes Sosa, Eduardo Falú, Oscar Alemán, Federico Luppi, Cecilia Roth, Atahualpa Yupanqui, Marta Argerich, Fangio, Mono Villegas, Norma Leandro, Virginia Luque, Ricardo Darín, Gastón Pauls y tantos outros…me recuso acreditar nesse gibi animado…Outrossim, feliz cumpleaños Lito, e parabens Ariel, teu blog segue mexendo comigo, canejo.
Oi Jorge
Voce viu o filme?
Abrazos
responder este comentário denunciar abuso.
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Papo de avô e neto
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- Vô, vamos assistir o quê?
- O desenho animado de Evita…
- Mas eu quero ver é o ‘Procurando Nemo’.
- Desista. Já estou há mais de 50 anos procurando saber porque sou peronista…
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http://gluoncharges.blogspot.com/
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Muchas gracias Jorge,sorprendido por tu recordación.Aprovecho para solicitarle a Ariel una felicitación atrasada para su padre que coincide conmigo en su aniversario.
Abrazos.Lito
Obrigado Lito pela lembrança!
Andres, eu tentarei assistir. Não sei se aqui nos Estados Unidos tem como, mas talvez consiga no YouTube. Se eu estuver errado, farei minha correção. Mas a primeira impressão não foi simpática.
Obrigado pelo toque.
Acho difícil de entender que Evita ainda sirva para mito. No Brasil, por exemplo, Getúlio Vargas há muito não se presta a esse papel, já foi historicamente situado e analisado em suas contradições. Mas lá não, os Perón ainda são forças atuantes, de acordo com a conveniência de quem se utiliza de seu nome, e a Verdade sobre eles não é observada com muito escrúpulo, se um bom pastelão maniqueísta puder ser mais util. E sempre é.
Oi Pedro ,
Os argentinos precisamos desesperadamente de mitos , Peron , Evita , Gardel , el Che , Maradona.
Abrazos
responder este comentário denunciar abusoEsse blog é muito bom. Leitura obrigatória para quem se interessa por política externa. Ariel, parabéns pela contribuição de qualidade.
Só uma ação politica muito firme pode direcionar o pensamento popular para o ideal de uma sociedade equilibrada. A principal função de um partido político é informar corretamente para que haja a reação adequada da população diante dos desafios naturais que se apresentam na História. Essa é a grande batalha contra os mistificadores para que se contrua os novos valores civilizatórios. É batalha para gigantes; só de visualizá-la, sinto-me cansado, ainda mais sabendo que bestas, aos montes, estão cetrados no comando político.
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