O milho é “Nac e Pop” (nacional e popular). Mas as máquinas industriais que transformam o milho em ‘pochoclo’ (pipoca) são estrangeiras.
A bateria de medidas protecionistas impostas pelo governo da presidente Cristina Kirchner está a ponto de liquidar um dos prazeres dos espectadores dos cinemas argentinos: a pipoca. Este alimento fast-food, inexoravelmente associado ao ato de assistir um filme, está em vias de extinção na Argentina, já que o secretário de Comércio Interior do país, Guillermo Moreno, além de limitar a entrada de produtos como fraldas, autopeças, seringas, remédios (inclusive oncológicos), pneus e livros, entre centenas de outros manufaturados ou insumos estrangeiros, também está bloqueando a entrada de máquinas de produção industrial de pipoca, importadas dos Estados Unidos, China e Rússia.
Os gerentes de cinema sustentam que a venda de pipoca é um dos pilares das salas de cinema na Argentina. Sem a venda desse produto para os espectadores, as entradas de cinema custariam 50% a mais no país.
“O único consolo que temos é que a situação poderia ser pior, caso o milho de pipoca fosse importado. Mas, por sorte, ele é 100% argentino”, me explicou em off um gerente de um cinema no bairro da Recoleta.
Recentemente os cinemas argentinos também haviam padecido problemas para renovar as poltronas das salas, já que também são um produto importado que estava barrado na alfândega.
Em dezembro passado a presidente Cristina Kirchner havia dado o tom de sua política econômica: “não queremos importar um prego sequer!” A ordem era para bloquear ao máximo a entrada de produtos do exterior, inclusive de seus sócios do Mercosul.
E falando em pipoca…o Crónica TV, um canal de TV especializado em notícias surrealistas, deu estas surrealistas manchetes em 2005 sobre a morte da Rainha do Milho, que havia falecido eletrocutada.
COPOS NACIONAIS – As barreiras aplicadas às importações por parte do secretário Moreno também causaram problemas para a rede de cafés Starbucks na Argentina. Na terça-feira de manhã a empresa divulgou pelo twitter e por seu blog um pedido de “perdão” aos clientes pela escassez dos tradicionais copos de papelão da Starbucks com o logotipo da empresa, além da falta de suas mangas.
Segundo a empresa, os produtos que eram importados tiveram “uma interrupção temporária do estoque”, fato que provocou a necessidade de usar material nacional. Os copos nacionais eram idênticos, embora brancos e sem logotipo algum.
“Estamos trabalhando para que esta situação seja normalizada o mais rápido possível e que cada um de vocês possam desfrutar sua bebida como sempre”, informou a Starbucks.
O comunicado desatou a fúria nos usuários das redes sociais e nos leitores de meios digitais. Imediatamente, milhares de pessoas – embaladas pelo nacionalismo econômico que cresceu nos últimos anos – escreveram irritadas mensagens no twitter protestando contra o “pedido de perdão” da Starbucks, considerando-o “ofensivo” com os produtos Made in Argentina.
A intensa reação negativa na opinião pública levou a empresa a pedir perdão por seu perdão inicial.
O gerente-geral da Starbucks, Diego Paolini, explicou que o pedido de desculpas pelo uso de copos nacionais havia sido “um erro de redação no comunicado”. O executivo ressaltou que 70% dos produtos usados pelos cafés Stabucks na Argentina são de origem nacional.
O affaire Starbucks tornou-se um dos assuntos mais comentados na rede de micro-blogging Twitter com as hastags #labandadelStarbucks e #pedimosdisculpas, que foram trending-topic na Argentina.
E para encerrar, lembrando do milho mais uma vez, “El Choclo” (‘O milho verde’…na postagem original havia colocado ‘sabugo’, mas minha mãe, tradutora, me corrigiu), com a orquestra de Francisco Canaro (música de Ángel Villoldo):
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Celebração de arromba toma conta do quartel-general náutico do blog “Os Hermanos” na noite do dia 23, a pré-Véspera Natalina. A noitada foi embalada por um de nossos dois grupos (amadores) de gaita de foles, o “Los troesmas de Villa Crespo”. Os integrantes do outro conjunto, de “Los avivados de Balvanera”, passaram mal com a maré do Rio da Prata, assaz encrespado. O grupo embalou o início da ceia com o clássico “I left my heart in Chascomús”, passando depois para uma versão techno-milonga de “Adiós Quixeramobim mía”. Como de costume, o deputado Mutatis de Olivera e seu irmão e senador Mutandis de Olivera – reeleitos em outubro passado – fizeram discursos com um balanço de 2011 (Mutatis) e sobre as perspectivas para 2012 (este, o Mutandis). Na seqüência, o senador Byron Bezerra, que veio especialmente de S.Luis (Maranhão, não o território puntano), começou a recitar um poema épico. No entanto, a ingestão opípara de mollejas, preparadas por nosso chef, Bolívar Pueyrredón-Billinghurts, somado ao balançar do navio, e um chimichurri de duvidosa validade, provocaram distúrbios de caráter estomacal que interromperam a leitura poética. No entanto, o parlamentar não perdeu a oportunidade de despotricar contra o monopólio do sal de frutas e pediu “alka-seltzer para todos”. Foi ovacionado pelos presentes, que pediram a criação de uma comissão – em caráter de urgência – para encaminhar um projeto de lei a ambos países “nesse sentido”. Menu da noitada: mollejas à provençal, pizza e fainá “revisitado”. Tudo regado – comme il faut – com moscato “El Vasquito”.
Aos amigos, comentaristas e leitores, uma supimpa jornada natalina!
Abraços,
Ariel
PS: De obséquio natalino, deixo esta breve seleção musical:
Ariel Ramírez e sua “Misa Criolla” (Gloria e AgnusDei):
A voz de Mercedes Sosa, que canta “Todo cambia” na delirante cena de “Habemus papam” do diretor italiano Nanni Moretti:
Charles Trènet canta “La Mer”
Charles Trènet canta “Boum!”
Sweet Georgia Brown, com Django Reinhardt e Stephane Grapelli
Sweet Georgia Brown, na versão de Mel Brooks e Anne Bancroft…em polonês!
E Oscar Alemán, em “Al gran Horacio Salgán”
Los Troesmas de Villa Crespo em todo seu esplendor.
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E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. Paisagem saltenha é cinematográfica. Aqui, um parque com milhares de cactos (fotos de Ariel Palacios)
“La linda” (A linda). Com estas duas e simples palavras os argentinos definem a província de Salta, incrustada no noroeste argentino, no sopé da Cordilheira dos Andes. Argumentos para defender a expressão que costuma designar Salta existem de sobra. Além da arquitetura colonial da capital homônima – e da suculenta gastronomia local, que mistura origens indígenas com a contribuição do colonizador espanhol e um touch de imigrantes árabes e italianos – a província conta em seu lado oriental com paisagens monumentais talhadas pelas água e o vento onde acumulam-se vinhedos, cactos, areias e riachos. Além do turismo, a província está sendo cada vez mais procurada como destino de eventos e incentivos em virtude de suas paisagens exóticas e dos programas relacionados ao mundo dos vinhos.
Igreja de São Francisco, na cidade de Salta.
Cabildo da cidade de Salta.
Salta, a cidade capital, conta com o museu de Arqueologia de Alta Montanha, que exibe múmias indígenas (os denominados “Niños de Llullaillaco”, uma oferenda aos deuses feita no ritual “Capacocha” encontrada a 6.700 metros de altura na Cordilheira) dos tempos da presença do império inca no noroeste da Argentina, além de um rico artesanato dos tempos pré-colombianos.
O Cabildo de Salta, a antiga sede do poder político, exibe a riqueza que a província teve nos tempos coloniais, quando era uma escala comercial entre o porto de Buenos Aires e as minas de ouro e prata da atual Bolívia. Nesse período também floresceram conventos, mosteiros e igrejas, das quais os exemplos mais emblemáticos são o convento de San Bernardo, habitado pelas carmelitas, e a Igreja de San Francisco. A catedral da cidade, construída no século dezenove, exibe a imagem da Virgem do Milagre, à qual os setores mais religiosos de Salta atribuem a salvação de parte da cidade no violento terremoto de 1642.
Com seu magnetismo gerado pela arquitetura, gastronomia e intensa vida cultural, Salta costuma reter o turista na cidade. Mas, a província oferece uma miríade de pontos de interesse mais além da cidade.
Praça central da cidade. Vista da catedral desde os cafés.
Mais um detalhe da catedral.
Desde Salta, em direção à cidade de Cafayate sai a estrada número 68, em direção ao sul. Após passar pelo vilarejo de Alemanía – que desde os anos 80 e 90 transformou-se em refúgio de hippies remanescentes da década de 70 - a paisagem verde dos campos saltenhos transforma-se drasticamente e é substituída por montanhas polidas pela erosão ao longo dos séculos. Ali começam os Vales Calchaquíes.
Um dos pontos de interesse para os turistas na Quebrada de las Conchas (rochas sedimentarias de 60 a 90 milhões de anos) é o “anfiteatro”, uma espécie de “sala de ópera” cavada pela natureza que ocasionalmente é usada para concertos de música erudita e folclórica.
Bodes trafegam placidamente na lateral da estrada entre Salta e Cafayate.
O “anfiteatro”.
Músicos entoam melodias no Anfiteatro.
Continuando pela estrada número 68 os turistas alcançam a cidade de Cafayate, cujo nome provém da expressão “Capac Yac”, que em língua indígena significa “Povo que tudo tem” ou “Sepultura das tristezas”.
A cidade, encravada no sopé da Cordilheira, possui um ritmo pacato. No entanto, suas noites são embaladas por grupos espontâneos de jovens e idosos que apreciam o folclore e os bailes locais.
Acima, paisagem pouco depois de sair de Cafayate em direcao à Cachi. É a “Quebrada de Las Flechas”.
Rumo ao norte, pela estrada número 40 o turista encontrará os vilarejos de Molinos, centro das festividades da Virgem da Candelaria. A igreja San Pedro Nolasco, seu primeiro templo, é de 1659.
Um pequeno desvio pela empoeirada estrada número 53 leva o curioso turistas por um trajeto com uma natureza agreste até Colomé, onde está instalada uma das mais antigas adegas do país.
Voltando à estrada número 40, pouco ao norte de Molinos está Seclantás, famosa por seus “ponchos” e demais produtos de tecelões que acumulam gerações familiares de experiência no ramo.
Seguindo por ali o turista chega a Cachi, um pitoresco vilarejo famoso por seu delicado artesanato e doces locais.
Ao sair de Cachi, rumo ao leste, voltando para Salta, está a estrada número 33, que atravessa o Parque Nacional Los Cardones. O parque exibe uma paisagem de milhares de altos cactus.
Vista da piscina do hotel Patios de Cafayate. Ao fundo, a pré-cordilheira dos Andes.
Vista dos corredores e páteos do hotel.
Adega El Esteco, dentro da cidade de Cafayate.
HOTÉIS E SPAS DE SALTA OFERECEM BANHO DE VINHO
O Hotel & Spa Patios de Cafayate é um dos mais interessantes da pequena cidade de Cafayate. O foco do estabelecimento é o vinho, já que os hóspedes bebem vinho e desfrutam da gastronomia local, intensamente vinculada à essa bebida. Além disso, ficam por dentro dos detalhes de sua produção, entre elas os vinhedos e visitas aos lugares onde a bebida é elaborada e envelhece.
Os passageiros também podem – literalmente – tomar banho em vinho no spa, onde os tratamentos para o relax são realizados com sais e cremes enológicas (das vinhas do hotel) que contêm as propriedades antioxidantes dos polifenóis da uva.
O hotel, além do “wine spa” é famoso por contar com um restaurante refinado que propicia ao hóspede os quitutes locais com um touch “aggiornado”, possui uma piscina ao ar livre que tem vista para as montanhas da pré-cordilheira dos Andes. Os preços no Patios de Cafayate estão acima de US$ 484 www.patiosdecafayate.com).
Na cidade de Cachi, no ponto central dos vales Calchaquíes, está um antigo mosteiro transformado em hotel, o “La Merced del Alto”, administrado pela tradicional família Patrón Costas. O estabelecimento está em uma área elevada da periferia de Cachi, que propicia uma vista panorâmica do vilarejo e das montanhas ao redor. Dali partem diversos trekkings nas colinas da região. O restaurante do hotel, que conta com um menu repleto de iguarias – além de uma adega que desperta a inveja de muitos concorrentes - é um dos mais famosos da região. O “La Merced” conta com preços a partir de US$ 150 www.lamerceddelalto.com).
Em Colomé, ao oeste dos vales Calchaquíes, o turista tem a opção de repousar na fazenda e adega Colomé, criada pela família Hess que ali estabeleceu um requintado hotel, que conta com um restaurante com vista para os vinhedos. A adega também conta com o museu que reúne grande parte da obra do artista plástico James Turrell. Os preços do hotel em Colomé estão a partir de US$ 390 www.estanciacolome.com).
Ao voltar à cidade de Salta, uma das melhores opções é o Hotel Sheraton Salta, construído em 2005, é um dos principais da capital, situado em um bairro residencial ao lado do monumento a Miguel de Güemes, o herói par excellence dos saltenhos, famoso por sua coragem e gosto acentuado pelos uniformes elaborados com requinte. O hotel possui um dos melhores restaurantes da cidade e uma bela vista panorâmica desde seu lobby bar, ideal para assistir o pôr-do-sol. O Sheraton conta com valores acima de US$ 184 www.starwoodhotels.com).
Salta também conta com o hotel “Solar de La Plaza” está em pleno centro histórico de Salta, a três quarteirões da catedral. O elegante edifício em estilo neo-colonial, com quartos decorados com móveis antigos – mas sem perder os confortos tecnológicos atuais – é um dos marcos da área central da capital provincial. O Sola de la Plaza possui preços acima de US$ 190 (www.solardelaplaza.com.ar).
Cemitério na estrada entre Cafayate e Molinos.
‘TORRONTÉS’ É A ESTRELA ASCENDENTE DOS VINHOS DO NOROESTE ARGENTINO
Cafayate é o centro de diversas adegas boutique da província. Seu clima seco, as temperaturas de 15 a 18 grus Celsius durante o período de crescimento das uvas, luz solar ao longo de 350 dias por ano além do solo arenoso, permitiu nos últimos anos o desenvolvimento de vários vinhos de alta qualidade. Diversas adegas existiam ali desde o final do século dezenove. Mas, só começaram a prosperar nos anos 90, quando novas tecnologias foram incorporadas às pequenas empresas. Os vinhos de Cafayate são mais estruturados e possuem cores mais fortes.
A estrela dos vinhos da região é o “Torrontés”, um vinho branco com prestígio ascendente na Argentina, EUA e Europa. As adegas da região também produzem Malbec, e o Tannat. Este último era considerado o vinho uruguaio par excellence. Mas, a crescente produção em Cafayate chamou a atenção dos uruguaios, que –assustados com a qualidade do Tannat cafayatenho – passaram a associar-se com adegas da região.
Umas das adegas de maior destaque em El Cafayate é “El Porvenir”, fundada em 1890 por uma família de imigrantes italianos. Seus vinhedos, espalhados em 78 hectares estão a 1.750 metros de altura. A produção é de 200 mil garrafas por ano. O vinho é armazenado em 600 barris de carvalho americano e francês,
A outra adega de prestígio é “El Esteco”, cujas instalações estão na mesma área do hotel Patios de Cafayate. Na época da colheita das uvas o Patios realiza para seus hóspedes degustações coordenadas por enólogos, além de jantares no meio dos vinhedos.
Na entrada da cidade, “El Esteco”, possui 400 hectares de vinhedos, plantados em 1946. Entre as variedades estão o Malbec, Cabernet Sauvignon, Bonarda, Shiraz e o Tannat. “Altimus” e “Ciclos” são os vinhos mais caros da “El Esteco”. O grande destaque desta adega é a linha “Don David” pela relação custo/benefício”.
Além dessa, existem várias adegas que estão no centro de Cafayate. Uma das mais antigas é a “Vajilla Secreta”. Outras adegas de peso na cidade são a “Finca Las Nubes” e “San Pedro de Yacochuya” (esta última, do famoso especialista internacional em vinhos Michel Rolland).
Outras adegas espalham-se pelos vilarejos de Molinos e Colomé. A maior parte das adegas está em uma franja de altitudes que varia dos 1.750 a 2.600 metros de altura.
Uma taça de torrontés brilha sob o sol. Ao fundo, os vinhedos de Colomé.
O restaurante e os vinhedos da adega Colomé.
SALTA POSSUI AGENDA CHEIA DE FESTAS POPULARES TODO O ANO
A província de Salta possui uma agenda cheia de festas populares ao longo de todo o ano. O calendário começa no dia 22 de fevereiro quando Cafayate é embalda pela “Serenata”, que constitui um festival folclórico que reúne músicos de toda a região, além de feiras de artesanato, gastronomia regional e vinhos locais.
Abril é o mês que agita a cidade de Salta com “Abril cultural saltenho”, que aglutina na capital provincial artistas plásticos, atores e músicos.
Em meados de julho (as datas variam de acordo com o calendário escolar) a cidade de Salta é o cenário do “Concurso das empanadas”. O quitute sine qua non da província é o foco da competição entre centenas de “empanaderas” que disputam a glória do prêmio.
Na primeira semana de agosto as festas mudam-se para San Antonio de los Cobres, no centro-oeste da província. Ali é realizada a Festa Nacional da Pachamama (mito incaico da mãe-terra fortemente arraigado nas comunidade indígenas).
Novembro é o mês da Festa da Tradição, que reúne nos vilarejos de La Candelaria e Campo Quijano desfile de “gauchos” e carroças, além de corridas de cavalo e destreza hípica (da qual os saltenhos são muito orgulhosos). E, como não podia deixar de ser na musical Salta, a festa também é acompanhada de um festival de música folclórica.
Turistas europeus nas ruas da pintoresca Cachi.
O hotel Merced del Alto. Ao fundo, a pré-cordilheira. Desde esse hotel partem vários trekkings nas montanhas da vizinhança.
Paisagem ao redor do Merced del Alto.
Vista da sala do restaurante do Hotel Sala de Payogasta (ali, o queijo de cabra é … “sublime”, para ser espartano no elogio). O site: http://www.saladepayogasta.com.ar/ Dali para a frente, a imensidão.
Pimentões secando no sol saltenho.
Paisagem em estrada saltenha.
O blogueiro (que nesta ocasião era também fotógrafo) viajou a convite de Venturas & Aventuras, Andes Linhas Aéreas e Governo da província de Salta.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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Suculentas uvas da variedade Malbec
No dia 17 de abril a Wines of Argentina, entidade privada que reúne as adegas argentinas, celebrará pela primeira vez o “Dia Mundial do Malbec” em trinta países com a realização de eventos de degustação, promoções em restaurantes e até brindes – nas alturas – em balões aerostáticos. O objetivo das adegas é o de consolidar a Argentina como o “país do Malbec”, já que esta variedade de uva, que foi parcialmente devastada por geadas há seis décadas na França – sua pátria-mãe – sobreviveu e espalhou-se na Argentina, transformando-se, praticamente, no “vinho nacional” deste país.
Atualmente, adegas francesas – inclusive as de Cahors, região original desta uva na França – importam esse vinho da Argentina, considerado pelos enólogos como o melhor Malbec do mundo.
Segundo dados da Caucasia Wine Thinking, desde 2002 as exportações argentinas de Malbec passaram de 850 mil caixas de 9 litros para 8,6 milhões de caixas em 2010, volume que implica em um aumento de 916%. No mesmo período, o volume de dólares FOB passou de US$ 23,1 milhões para US$ 306 milhões, equivalente a um aumento de 1.220%.
Atualmente, do total de vinho exportado pela Argentina, 47% correspondem às vendas de Malbec para o exterior.
Com o Malbec World Day as adegas argentinas pretendem que o país seja automaticamente identificado com esta variedade. Em Nova York, a Biblioteca Pública Nacional será iluminada com a cor do Malbec, enquanto o edifício alberga uma série de atividades, que irão de palestras às degustações.
A Wines of Argentina organizará em Londres e Toronto sessões especiais nas quais os convidados poderão pisar as uvas nos tonéis.
Os eventos internacionais serão acompanhados por substanciais churrascos com carne argentina, shows de tango e reuniões empresariais.
As principais celebrações ocorrerão em Mendoza, no oeste da Argentina, onde estão as adegas mais importantes do país. Ali, 200 convidados VIP brindarão em balões, a 30 metros de altura sobre os vinhedos.
O Brasil, um dos grandes mercados do vinho argentino, terá uma data diferenciada, já que será no dia 18, segunda-feira, na cidade de São Paulo.
A indústria vinícola argentina vive um boom sem precedentes em toda sua História. O setor exportou US$ 741,4 milhões em 2010, equivalente a 16,44% a mais do que em 2009.
TÉDIO – No entanto, nem todos consideram que o boom do Malbec chegou para ficar. Segundo Gerard Basset, melhor sommelier do mundo em 2010, durante a recente cerimônia do Argentina Wine Awards, causou polêmica ao afirmar que “o Malbec vai passar de moda”. Segundo ele, o público consumidor “vai entediar-se”, já que “sempre procura coisas novas”.
Basset alertou para uma eventual “malbec-dependência” e sustentou que as adegas argentinas “deveriam experimentar coisas novas, não somente o Malbec”.
O especialista também sustentou que ainda não existem vinhos que sejam “embaixadores” da Argentina no exterior: “há marcas respeitadas.. mas não verdadeiros ícones”.
Alberto Arizu, presidente da Wines of Argentina, considera que o “furor” pelo Malbec continuará “por muitos anos”. No entanto, destacou que “a Argentina não é somente este varietal. Temos muito potencial com o Cabernet Sauvignon, Bonarda, Syrah e Torrontés”.
“Uva emblema pode ser uma casta de dois gumes”, texto do Luiz Horta sobre os vinhos portugueses, com breve referência sobre o Malbec, aqui.
E FALANDO EM VINHO… EXPRESSÕES PORTENHAS RELATIVAS A BEBER E COMER
CHUPAR: Beber abundantemente. Álcool, evidentemente (acho que em lugar algum no mundo há gírias para referir-se ao ato de beber água mineral com gás). Entornar. Quem “chupa” muito fica “mamado” (bêbado) ou “curda” (bêbado). O mesmo verbo no espanhol da Argentina – tal como no idioma de Eça de Queirós e Sidney Magal – também pode ser usado para a prática do fellatio.
ESCABIO: Bebida alcoólica. Vem de uma antiga palavra italiana, ‘scabi’, usada para referir-se ao vinho.
ESCABIAR: Ingerir generosas quantias de destilados e fermentados.
BORRACHO: Palavra em espanhol para bêbado. Não é à toa que os hispano-falantes riem quando leem nas estradas brasileiras a placa “borracharia”.
A borracharia, isto é, o lugar ad hoc para pneus e serviços relativos, denomina-se “gomería” nos países do Cone Sul.
BEODO: Gíria (fina) para bêbado. Não confundir com “Boedo”, o bairro vizinho a Almagro.
CURDA: Gíria para bebedeira substancial.
Anibal Troilo, intérprete de tangos que discorriam sobre bebedeiras
“La última curda” (A última bebedeira), tango de Aníbal Troilo, letra de Cátulo Castillo. O cantor, nesta ocasião, é Roberto Goyeneche. Aqui.
Outra versão de “La última curda”, com o roqueiro Fito Páez, aqui.
MORFI Y CHUPI: Forma ligeiramente abreviada para referir-se ao conjunto de “comida” e “bebida”. Exemplo: “Vamos al cóctel que el diputado Troesma Piola de Prepo ofrece a la artista plástica Amnésia de Souza-Naves! Hay morfi y chupi!” (Vamos no coquetel que o deputado Troesma Piola de Prepo oferece à artista plástica Amnésia de Souza-Naves! Há comes e bebes)
MORFAR: Comer. Comer para valer, com voracidade pantagruélica. Exemplo: “me morfé tres platos de ñoquis!” (comi – para valer – tres pratos de nhoques). A palavra origina-se do termo “morfellier” que no ‘argot’ (a gíria francesa) do final do século XIX e começo do XX significava “comer”. Séculos antes disso, François Rabelais, o autor de “Pantagruel”, o anti-anoréxico personagem, usava o verbo “morfiailler” em suas obras.
MORFÓN: glutão.
ZAPÁN: “Pança”, mas ao contrário. É um exemplo do “vesre”, a forma do lunfardo de falar ao contrário. Os parisienses possuem uma forma equivalente, o “verlan” (o contrário fonético de ‘l’envers’, ‘o contrário’ em francês).
E de novo Aníbal Troilo, com um emblemático tango, o “Quejas de bandoneón” Aqui.
…E um epílogo musical com a “Valse Triste”, do finlandês Jean Sibelius, com a batuta do batuta Herbert Von Karajan. Aqui.
Na foto acima, Sibelius em 1913
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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Teatro Solís, um marco na Ciudad Vieja de Montevidéu (foto de Ariel Palacios)
San Felipe y Santiago de Montevideo foi fundada em 1726 pelos espanhóis para proteger suas colônias do Rio da Prata dos portugueses. A meados do século XIX expandiu-se além das muralhas que durante longos anos a defendeu sucessivamente dos invasores lusitanos, dos ingleses, argentinos e brasileiros, além de servir de proteção nas inúmeras guerras civis que este país padeceu antes de transformar-se na pacata “Suíça latino-americana”. A cidade conseguiu crescer dentro de uma escala humana, sem perder a orgulhosa identidade.
Fascinada por ela, a Prêmio Nobel de 1945, a poetisa chilena Gabriela Mistral, resumiu o espírito de Montevidéu: “existe nas Américas um pequeno país – o Uruguai – que todos aceitaríamos por pátria, porque tem um quê de mãe perfeita. Os melhores homens das Américas, quando olham para ali, encontram pelo menos alguma das coisa que amam. A liberdade, o sentido da democracia, a cultura. Se, em algum momento, a América Latina se tornasse uma unidade, talvez fosse Montevidéu, a capital escolhida por todo nós, sem ciúmes ou vacilações”.
Meio século após as definição de Mistral, Montevidéu mantém o mesmo charme e clima cálido. O ambiente acolhedor é sentido principalmente na pequena Ciudad Vieja, a Cidade Velha, onde atualmente misturam-se moradores das mais diversas classes sociais – desde remanescentes da aristocracia uruguaia até trabalhadores do porto – junto com ministérios, os principais bancos do setor financeiro uruguaio e edifícios históricos. A área está sendo intensamente reciclada, o que permitiu-lhe que recuperasse o velho charme, após décadas de estancamento.
Das velhas muralhas, que formavam os limites da Ciudad Vieja, só restam a Porta da Cidadela, no ponto no qual a rua Sarandí encontra a Praça Independencia; além de pequenos bastiões na avenida beira-mar. O maior de todos é o que está na rambla Gran Bretaña, na frente do Hotel NH.
Ali também está a peculiar Catedral da Santíssima Trindade (www.uruguay.anglican.org, tel: 5982 – 915 4626), a única igreja anglicana da capital uruguaia, de estilo neo-clássico (com um interior com elementos vitorianos) onde nos domingos pode-se desfrutar de música religiosa (órgão e coro) de alta qualidade.
A poucos metros da porta da Cidadela está o teatro Solís (www.teatrosolis.org.uy, calle Buenos Aires, sem número; tel 5982 – 915 9770), fundado em 1856 com a Ópera Ernani, de Giusseppe Verdi). O teatro foi reformado durante vários anos e reinaugurado em 2005. O resultado foi impecável, e tornou o Solís novamente em uma escala das grandes companhias operísticas, de balé e orquestras sinfônicas, além de cantores populares latino-americanos e europeus.
Voltando para a rua Sarandí está o museu Torres García (www.torresgarcia.org.uy, calle Sarandí 683, tel: 5982 – 916 2663) que reúne parte da obra do pintor mais celebrado pelos uruguaios, Joquín Torres García (1874-1949), fundador do “universalismo construtivo”. Sua obra mais emblemática é um mapa da América invertida, no qual a América do Sul transforma-se na América do Norte.
Obra de Torres García, de 1932.
Caminhando pela Sarandí, na esquina com a rua Juan c. Gómez, está o Cabildo, concluído no começo do século XIX, que foi a sede do poder colonial espanhol em seus últimos anos de domínio.
Cabildo de Montevidéu (foto de Ariel Palacios)
Na frente está a praça da Constituição, onde realiza-se diariamente uma pequena feira de antigüidade e a Catedral.
La Pasiva, point dos chopps em Montevidéu.
Na outra esquina está “La Pasiva”, um tradicional bar e ponto de encontro, ideal para saborear uma cerveja no fim da tarde e os “frankfurters” (uma espécie de cachorro quente) com a mostarda à moda de La Pasiva (feita com um pouquinho de cerveja).
O miolo da Cidadela possui vários marcos arquitetônicos, entre eles o da praça Zabala, com o palácio Taranco, edifício usado pelo governo uruguaio para recepções oficiais.
Praça Zabala. Os vizinhos, todas as semanas, ensaiam o candombe com seus atabaques nessa praça que possui marcos do art-déco de Montevidéu (Foto de Ariel Palacios)
Nos arredores existem vários edifícios art-déco, estilo arquitetônico que em Montevidéu possui um grande número de exemplares. Entre os edifícios interessantes estão a Câmara de Vereadores, em estilo Tudor, nas esquinas das ruas 25 de Mayo e Juan C. Gómez; o Banco de la República; um antigo edifício de escritórios nas esquinas das ruas Cerrito e Bartolomé Mitre; o imponente Clube Uruguaio, na frente da praça Constituição, entre outros.
Arquiterura do centro de Montevidéu possui grande variedade de estilos.
Em uma das beiradas da Ciudad Vieja, na rambla 25 de Agosto, está “el Mercado del Puerto” (o Mercado do Porto), que durante mais de um século foi o mercado que vendia peixes, frutas e verduras. Feito em ferro e vidro (foi fabricado na Inglaterra em 1868), o lugar atualmente concentra restaurantes e bares, especializados em pratos de carne bovina. O ambiente é descontraído. Os cozinheiros e garçons fazem o possível para atrair os clientes a seus respectivos estabelecimentos.
Mercado del Puerto. Um lugar emblemático para um repasto carnívoro: morcillas, bifes, chorizos, entre outros produtos. Tudo o que a vaca propicia ao Homo Sapiens (menos o couro e os ossos) ali aparece em cima de um prato. E do prato rapidamente desaparece para ir à ‘busarda’ (pança) dos clientes.
A higiene – em vários estabelecimentos – não é das melhores, mas comida é saborosa. Nos sábados o mercado é geralmente embalado por música típica, entre eles o “candombe”, um ritmo de origens afro.
As ruas Juncal e Bartolomé Mitre, que atravessam a Sarandí, transformaram-se no ponto de agito dos jovens montevideanos ao longo da última meia década. Os bares ficam entupidos até as 4:00 da madrugada.
Os dias mais agitados são a quinta (uma espécie de “pré-fim de semana”), sexta-feira e sábado. Os bares também são freqüentados por jovens estrangeiros que estudam no Uruguai ou que estão de férias na capital uruguaia. Apesar da multidão que circula na área, são raros os casos de bebedeira misturada com violência. O jovem uruguaio costuma desfrutar a diversão em paz.
O general Artigas, herói da independência uruguaia, está por todos os lados. Aqui, na frente do Banco Central, em pose plácida. Embaixo, na frente do palácio presidencial, na praça Independencia, em pose heróica, a cavalo. Mas, como bom uruguaio, embora a pose seja heróica, é sóbria. Isto é, ao contrário de outros heróis na região, o cavalo não está empinado e o general citado não ostenta o sabre em riste.
MONTEVIDÉU INSPIRA A NOSTALGIA
“Deteve-se no tempo” é uma expressão usada, de forma geral, com tom depreciativo. No entanto, quando os montevideanos ouvem essa expressão, em referência à capital do país, enchem-se de orgulho. “Sim, não é fantástico?”, exclamam a modo de resposta. A cidade manteve o ar dos anos 40, 50 e 60. Até os cartazes das lojas permanecem inalterados pela passagem dos anos. Os portenhos – que passam por ali a caminho do balneário de Punta del Este – costumam dizer que ir à Montevidéu é como entrar em uma máquina do tempo e retroceder quase meio século. As ruas são calmas, os engarrafamentos são uma raridade, embora seja uma cidade de 1,5 milhão de habitantes (metade dos uruguaios reside ali).
Não é uma cidade adequada para as pessoas que desfrutam a modernidade e o agito. Tampouco é cidade para o show off. Os vaidosos e ostensivos abstenham-se. Os uruguaios – que apreciam cores creme e cinzentas tanto na arquitetura como na vestimenta – costumam abominar a ostentação.
A sobriedade é um orgulho nacional. Por esse motivo, costumam olhar com desprezo as hordas de novos ricos e socialites brasileiras e argentinas que entopem Punta del Este no verão.
Montevidéu é para os calmos, que gostam de caminhar e da vida sem estresse. Os montevideanos, ao contrário dos portenhos, desfrutam o rio da Prata como se essa larga via fluvial fosse o próprio mar. Durante todo o dia, milhares de pessoas fazem footing, correm ou tomam sol nas avenidas beira-mar, chamadas “ramblas”. A própria arquitetura de Montevidéu inclui amplos janelões, tal como uma cidade à beira-mar.
Os bairros que mais desfrutam da condição praieira são o de Pocitos, Buceo e Carrasco. Pocitos, no século XIX era o bairro onde as empregadas lavavam as roupas. No século XX já era conhecido como a “Biarritz uruguaia”. Ainda hoje tem um clima de dolce vita que o torna incomparável. Os cafés sobre a orla fluvial embalam os happy hours.
Palácio Salvo, o irmão do portenho Pasaje Barolo. Para ver detalhes sobre o peculiar parente que está em B.Aires, clique aqui.
Longe do rio, no interior da cidade, todos os domingos, os montevideanos e turistas passeiam pela feira de Tristán Narvaja, onde encontram-se desde alimentos artesanais, quinquilharias, livros, antigüidades e até os atabaques utilizados no “candombe” uruguaio. O carnaval uruguaio, com características próprias, que o diferenciam parcialmente do brasileiro, é geralmente festejado no bairro de Palermo, quase ao lado do edifício da Secretaria do Mercosul, um antigo hotel transformado na sede burocrática do Cone Sul, sobre a rambla República Argentina. Ao lado está o parque Rodó, que entre suas peculiaridades, conta com a única estátua do filósofo chinês Confúcio na América Latina.
Entre os edifícios públicos de interesse para o turista está o Parlamento, no final da avenida Libertador Lavalleja; o antigo palácio presidencial, na praça Independencia, e, para os fanáticos do futebol, o estádio Centenário, cenário da primeira Copa do Mundo (1930). No extremo oeste da cidade, sob o morro de Montevidéu, está a fortaleza da cidade. No trajeto, desde o centro, até o sopé do morro, ao passar pelo bairro de La Teja, o turista se deparará com as instalações da estatal ANCAP, que além de produzir cimento, cuidar da distribuição de combustíveis, elabora o único uísque estatal da América do Sul, o Mac Pay.
Café Brasileiro: ponto de reunião de intelectuais. Eduardo Galeano é habitué.
BARES SURGIRAM JUNTO COM FUNDAÇÃO DE MONTEVIDÉU
No interior do Brasil um ditado popular indicava anos atrás que toda cidade, quando era fundada, logo no início tinha que ter, como condição sine qua non uma igreja, a Casa Pernambucanas e a zona de meretrício. Montevidéu, quando foi fundada, foi sui generis, pois contou imediatamente com uma fortaleza e um bar. O boteco, que não era da esquina, pois a cidade não contava com ruas formais, teve primeiro a denominação formal de “armazém de produtos gerais”.
O primeiro bar já desapareceu. Mas um bar quase contemporâneo dele, também do século XVIII é o “Almacén del Hacha” (Armazém do Machado), está na rua Buenos Aires 202.
O nome do estabelecimento recorda que naquele bar, em 1794 (tempos em que as discussões sobre mulheres ou um jogo de cartas eram argumentadas de forma drástica) um dos clientes, Domingo Gambini, enviou para o além um dos empregados, Bernardo Paniagua, utilizando um afiado machado.
Hoje em dia, o ambiente do bar é muito mais saudável.
Perto dali está o Café Bacacay (www.bacacay.com.uy, tel: 5982 – 916 6074) , na frente do Teatro Solís. O lugar é point de pessoas da área teatral e musical. Jornalistas e escritores também costumam reunir-se ali.
Outro ponto de reunião de intelectuais, especialmente da velha guarda, é o Café Brasilero (Ituzaingó, 1447), fundado em 1877 e redecorado em 1920. É o lugar ideal para estar sentado nas tradicionais cadeiras Thonet, bebericar um café, saborear a torta de ricota com passas, enquanto olha pela vidraça o tempo passar.
Perto dali, na esquina das ruas Misiones e 25 de Mayo está o “Las Misiones”. O bar vale mais a pena pelo lado de fora do que de dentro. Seu revestimento externo é ímpar, similar ao dos pubs da cidade inglesa de Manchester.
Outro bar de impreterível visita é o clássico “Fun Fun”, na rua Ciudadela 1229 (tel 5982 – 915 80 05). É moda há décadas ir nos fins de semana ali para beber grapa com limão. Ou, também provar a emblemática “uvita”, um adocicada bebida de composição misteriosa (sua fórmula é um segredo centenário), mas que os montevideanos bebem há gerações sem perguntar a estrutura do milagre.
Oro del Rhin, emblemática confeitaria de Montevidéu. Uma das especialidade é a torta-árbol (bolo-árvore). Um festival de wagnerianas calorias.
WAGNERIANAS CALORIAS - E entre as confeitarias está minha preferida, a “Oro del Rhin” (Ouro do Reno), o mesmo nome da ópera de Richard Wagner, teutônico compositor. Esta agradável confeitaria, cuja clientela é de todas as idades, embora predomine a terceira, está na rua Convención, 1413. Telefone: 902 2832.
Ideal para um chá no fim da tarde. E um chá ao meio-dia. E também o café da manhã…bom, confesso, é ideal para qualquer momento. Um paraíso de sanduíches, doces… um perigo para dilatar o ventre e outras partes adiposas do corpo. Uma verdadeira ópera wagneriana calórica. Ao sair dali vai parecer um integrante da ópera Der Fliegende Holländer (“O holandês voador”). Não o capitão Daland, protagonista desta emblemática obra lírica, mas sim o próprio bojudo navio…
E para encerrar, o cantor uruguaio Rubén Rada, cantando “Muriendo de plena”. Aqui.
E nada a ver com o Uruguai, “La Folia”, de Arcangelo Corelli (1653-1713), aqui.
E, diria, melhor ainda, esta outra de Corelli, o “Concerto Grosso”. Aqui.
E outra coisa, já que falamos no Holandês Voador, a abertura, aqui.
E, como hoje – 8 de dezembro – é o aniversário de Lucien Freud (nascido em 1922), um de meus pintores preferidos (e neto de Sigmund Freud), aqui seguem dois quadros deste genial artista germano-britânico.
Primeiro, seu auto-retrato.
E aqui, um detalhe da face.
E este outro ilustra um assunto frequente na obra de Lucien Freud: os cachorros. Um quadro que retrata uma estupenda modorra canino-humana.
MOMENTO SENTIMENTAL - Nada a ver com Montevidéu, Freud e o rio da Prata, é o momento de parabenizar Londrina, minha cidade, por seu aniversário, hoje, dia 10 de dezembro. A cidade, desde sua fundação sempre aberta a pessoas de todo o Brasil e de todo o planeta, completa 76 anos.
O hino da cidade, uma apologia ao recebimento dos imigrantes, aqui.
Bom fim de semana a todos!
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
...E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
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Taça de torrontés da adega Colomé, na província de Salta (foto de Ariel Palacios)
“É elemento básico da identidade argentina!”. Com esta exclamação a presidente Cristina Kirchner declarou o vinho como a “bebida nacional” oficial da Argentina. O anúncio sobre o vinho – produto que representa 1,37% do PIB argentino – foi realizado durante uma cerimônia com toda pompa no antigo palácio dos Correios. Desta forma, o vinho argentino passará a ter respaldo oficial e estará presente nas embaixadas e consulados argentinos, eventos governamentais internacionais, além de receber diversos estímulos para a expansão das exportações. “O vinho tem a ver com a cultura de nosso povo”, disse a presidente, que também recomendou – em tom professoral – “beber com moderação”.
A Argentina é quinto maior produtor mundial de vinho, com 1,375 bilhão de litros. Além disso, é o sétimo maior exportador, com 230 milhões de litros. “Só não exportamos mais porque temos um mercado interno muito poderoso”, disse a presidente Cristina. Entre os cinco principais mercados de exportação estão os Estados Unidos, Canadá, Brasil, Grã-Bretanha e Holanda.
O país está no nono lugar em superfície cultivada, com 228 mil hectares. A produção vinícola está concentrada nas províncias de Mendoza, San Juan, Salta, La Rioja, Catamarca, Neuquén e Río Negro. O setor emprega 400 mil pessoas de forma direta e indireta.
No total, existem 400 adegas argentinas disputam o mercado para colocar 3.500 marcas.
Nos primeiros dez meses deste ano as vendas de vinho foram de US$ 2,63 bilhões.
O ministro da Agricultura, Julián Domínguez, afirmou que o volume comercializado neste ano foi de 1,3 bilhão de litros. Do total, 77% foi vendido no mercado interno, enquanto que 23% foi exportado.
AUGE DO MALBEC – No quesito consumo de vinho a Argentina está no sétimo posto no ranking mundial. Em média cada argentino bebe 26,7 litros anuais, segundo dados do Instituto Nacional de Vinícolas. O volume registra uma queda em comparação com o ano 2000, quando os argentinos bebiam 37,7 litros per capita. “Menos, mas melhor qualidade” afirmam os donos das adegas.
Nos últimos anos cresceu a preferência pelos tintos, que passaram de 71% das vendas no mercado interno em 2004 para 77% do total neste ano, segundo uma pesquisa da consultoria CCR elaborada para o Fundo Vinícola. Entre os tintos, as preferências dos argentinos focalizou-se no Malbec e no Cabernet Sauvignon.
A venda dos Malbec disparou em 122% em volume entre 2004 e 2010. Atualmente esta uva representa 21,6% do total de litros de vinho tinto. Há seis anos representava 10,4% do consumo argentino.
O Cabernet Sauvignon está nos calcanhares do Malbec, pois passou no mesmo período de 11,7% para 18%.
A cômica campanha para o consumo do vinho de 2008, aqui
… e aqui.
E esta publicidad dos vinhos Hereford, um spot com um inesperado desfecho, aqui.
Outro, em tom de humor, do vinho Toro, aqui.
Libertango, de Astor Piazzolla, com o “Cello project”, aqui.
Outra vez Libertango, mas com Yo Yo Ma no cello e Néstor Marconi no bandoneón. Aqui.
Do grupo satírico musical “Les Luthiers”, uma composição do eterno Johann Sebastian Mastropiero (o alter ego do grupo): “Candonga de los colectiveros” (uma ácida visão dos portenhos motoristas de ônibus). Aqui.
E nada a ver com tango, mas com duas terras-mães da Argentina, a Espanha e a Itália. Ergo, temos de Luigi Boccherini a ‘Ritirata notturna di Madrid’. Aqui.
E para encerrar, uma tirinha de Quino, com o preguiçoso Felipe. Bom fim de semana a todos!
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Raquel Welch – sex symbol durante décadas – completa neste domingo, dia 5 de setembro, 70 anos de idade.
Seu umbigo – que obviamente, também celebra sete décadas de existência – foi considerado o mais perfeito da História universal por diversos especialistas em onfalomorfologia. Isto é, a morfologia do umbigo. O umbigo da sra. Welch é classificado como um representante do formato de “grão de café” (mais latino-americano ainda, embora o café seja originário da África).

Mas, o que tem a ver a señora Welch – dona de curvas superlativas, distante das anoréxicas que pululam atualmente – e seu emblemático umbigo com este blog?
“Os Hermanos” é dedicado costumeiramente à Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile. Muito escassamente nos referimos à Bolívia (já que não é minha área tradicional de cobertura). Mas, nesta ocasião de efeméride umbilical, voltamos à terra das ruínas de Tiahuanaco, do presidente Evo Morales e do playboy, milionário e diretor de cinema Antenor Patiño (o “rei do estanho”), já que Raquel Welch é na verdade “Jo Raquel Tejada”, filha do boliviano Armando Carlos Tejada Urquizo (1911-1976).
Isto é, o umbigo considerado por muitos como o mais perfeito do planeta existe graças (em parte) à genética boliviana!
O ensaísta mexicano Gutierre Tibón, na breve mas impactante obra “El ombligo como centro erótico” (editada pelo prestigiado Fondo de Cultura Económica), chama o umbigo da sra Welch de “yankee-boliviano” e destaca o excelso formato desta parte da anatomia da atriz.
Bom, já que falamos em México, a própria palavra, no idioma náhuatl significa “no umbigo da lua”.
Hieróglifo de Xicco, antigo centro cerimonial no México. Foi interpretado como um umbigo que simboliza o centro do universo.
Armando Tejada Urquizo partiu da Bolívia aos 17 anos. Migrou para a Califórnia, onde estudou especializou-se na área de engenharia aeronáutica.
Por parte materna é filha de Josephine Sarah Hill (1909-2000), descendente do presidente John Quincy Adams (o sexto presidente dos EUA, que governou entre 1825 e 1829).
Raquel nasceu em Chicago no dia 5 de setembro de 1940. O Welch apareceria em seu nome anos depois, quando casou-se com seu primeiro marido, James Westley Welch.

Raquel, no papel de uma inverossímil – mas fantástica – mulher da idade da pedra. Nas fotos acima e embaixo.

No filme “The Shawshank redemption” um prisioneiro – interpretado pelo ator Tim Robbins – fez um túnel cuja entrada estava coberta por um poster de Raquel Welch (a cena em questão, quando o diretor da prisão descobre o poster, aqui ). Em 2007, prisioneiros da vida real fizeram o mesmo (mais detalhes desta fuga, aqui). No filme, Tim Robbins, à revelia dos guardas, tranca-se na sala dos alto-falantes da prisão para colocar para todos os prisioneiros a “Canzonetta sull’aria”, da ópera Le nozze di Figaro, de Wolfgang Amadeus Mozart. Neste link cantam Renata Scotto, no papel da ‘Contessa’ e Mirella Freni, no papel de ‘Susana’. Aqui. E a cena do filme, com o Tim Robbins, aqui.
Esta contribuição de gens provenientes do planalto boliviano ficaria conhecida em todo o planeta com o filme “Um milhão de anos antes de Cristo” (não era sua estreia no cinema, mas foi o filme que a fez famosa).
Ali, ela ostentava um inverossímil biquíni de pele, interpretando uma (mais ainda inverossímil) cenozoica mulher do tempo das cavernas (em uma sui generis cronologia paleontológica típica de Hollywood que assustaria qualquer arqueólogo). O umbigo de Welch perdurou nos corações e mentes dos espectadores mais além da breve frase que pronunciou na ocasião: “Me Loana… you Tumak” (Eu Loana… você Tumak).

Em 1966 Raquel Welch foi a mulher mais fotografada em todo o planeta pela mídia
Welch só visitou a terra natal de seu pai há 10 anos, no ano 2000.
Ela afirma que é “Raquel” (em espanhol) e não “Rachel” (versão em inglês) pois recebeu o nome em homenagem à sua avó materna, Raquel, que conheceu quando tinha 32 anos.
Em suas bem-humoradas memórias, intituladas “Beyond the cleavage” (Mais além do decote), Welch recorda como sua mãe guardava as fotos que ela havia feito durante os dois anos que havia residido em La Paz com seu marido, pouco depois de casar e logo antes de Raquel nascer (a atriz é sobrinha de Lidia Gueiler Tejada, ex-presidente da Bolívia entre o 16 de novembro de 1979 e o 17 de julho de 1980. Ela foi presidente interina do país, eleita pelo Parlamento. Lidia Gueiler Tejada foi a única presidente da História da Bolívia … e a segunda na História latino-americana, depois de Isabelita Perón, que havia governado a Argentina entre 1974 e 1976).
Raquel Welch quase foi escolhida para fazer “Barbarella”. Mas, em seu lugar foi colocada a jovem Jane Fonda, que ostentava modelitos nos quais também exibia seu umbigo, embora, com menor transcendência internacional do que o já citado integrante da anatomia “yankee-boliviana”.
A atriz quebrou preconceitos ao protagonizar no filme “100 rifles”, de 1969, a primeira cena de sexo interracial do cinema dos EUA com o ator afro-americano Jim Brown (o primeiro beijo interracial em uma série de TV foi no capítulo 67 da terceira temporada de Star Trek, entre William Shatner – o capitão James T.Kirk – e a atriz Nichelle Nichols, a personagem Nyiota U.Uhura).
Welch, esse festival de curvas e sex-appeal foi batizada (muito antes de Elle Mc Pherson) de “The Body” (O Corpo). Nos anos 60 foi a sex symbol par excellence, depois do falecimento de Marilyn Monroe.
COLÔMBIA - Nosso colega Felipe Machado, autor do blog “Palavra de homem” (seu link, aqui) foi inquirido por “Os Hermanos” sobre umbigos de destaque desde a virada do século. Felipe matutou brevemente e respondeu: “o da Shakira”. Segundo ele, a cantora colombiana descendente de libaneses e catalães possui uma cintura supimpa que serve de moldura a um batuta umbigo. Algo assim como o sorriso de Mona Lisa dentro do quadro geral de Da Vinci, Leonardo.

Shakira, um umbigo latino com carga genética do Oriente Médio
Desta forma, Shakira faria que o umbigo comme il faut fique ainda dentro de nossa esfera latino-americana (se for o caso de ufanar-se de nossos umbigos regionais). Shakira ainda tem como valor agregado seu know-how em danças do ventre, resultado de sua herança cultural do Oriente Médio.
Ela teve sucesso de forma quase simultânea a um novo fenômeno na moda destacado por Desmond Morris, o antropólogo americano, que sustenta que o mundo ocidental, que tradicionalmente havia coberto o ventre das mulheres ao longo dos séculos (pelo menos, na vida cotidiana) começou, a partir dos últimos anos (1998, para ser exato, segundo o próprio sustenta) a instalar (nas mulheres) os jeans de cintura baixa, de forma a revelar de forma persistente o umbigo.
Morris também destaca que a organização “Observatório do umbigo”, nos EUA, classifica os umbigos em 10 tipos diferentes, entre os quais, o já citado tejada-welchiano “grão de café”.

A bela Onfalia e seu umbigo. E Hércules. Quadro de François Boucher, de 1735. Museu Pushkin, Moscou.
REFERÊNCIAS UMBILICAIS
Onfalia (ou Ónfale, ou ainda Ὀμφάλη ), era na mitologia grega filga de Iardanos e esposa de Tmolos, rei de Lídia (região na Ásia Menor). Quando seu marido foi bater alcatra na terra ingrata – tal como dizemos lá em Londrina – Onfalia seduziu o semi-deus Hércules. Este, ficou totalmente submetido aos encantos da rainha recém-empossada. Seu umbigo havia deixado Hércules fascinado. O nome dessa sex symbol helênica vinha de “omphalos” (umbigo). Isto é, Onfalia era a tal do (belo) umbigo.

Mais Onfalia, exibindo seu umbigo. E o Hércules. “Hércules e Onfalia”, de François Lemoyne. Obra de 1724. Museu do Louvre, Paris.
Na Bíblia, o único trecho hot deste livro sagrado é o “Cântico dos cânticos”, atribuído ao rei Salomão, famoso por seu apreço pelo belo sexo. E ali, para exaltar a estonteante Sulamita, o monarca indica: “teu umbigo, como cálice redondo, ao qual nunca lhe falta o licor”.
Mário Quintana, querido falecido poeta gaúcho, cita o umbigo em um de seus poemas:
O teu querido umbiguinho,
Doce ninho do meu beijo Capital do meu desejo,
Em suas dobras misteriosas, Ouço a voz da natureza
Num eco doce e profundo,
Não só o centro de um corpo,
Também o centro do mundo

Um prato de tortellini, a pasta que representa o belo umbigo. De Vênus ou de Lucrécia Borgia, tanto faz (foto da Wikipedia)
TORTELLINI (OU A ONFALOFAGIA) – Os tortellini são a pasta recheada, originária de Bologna e Modena. Esta massa, que emula o formato de um umbigo, tem uma lenda que indica que ela surgiu quando uma noite em pleno Renascimento, depois de uma batalha entre tropas de Bologna e Modena os deuses Baco e Marte, acompanhados pela deusa do amor e da beleza, Vênus, fizeram um pit-stop em uma taverna à beira de uma estrada.
Na manhã seguinte, Baco e Marte saíram para esticar suas olímpicas pernas, enquanto deixavam Vênus dormindo. A deusa depois acordou e, não vendo seus partners, começou a chamar alguma pessoa. Apareceu o dono da taverna, que, ao ver a deusa – e impressionado com tanta beleza – voltou à cozinha e, pegando um pouco de farinha de trigo, fez uma massa com o formarto do umbigo da deusa. Assim, segundo diz a lenda, nasciam os tortellini.
Outra lenda indica que não era Vênus a protagonista da cena que propiciou o surgimento dos tortellini, mas sim Lucrécia Bórgia, uma das mais famosas representantes do jet-set do Renascimento. O taverneiro em questão teria espiado La Borgia pela fresta da fechadura, podendo vislumbrar somente seu umbigo.
Atualmente, Castelfranco Emilia, no meio do caminho entre Modena e Bologna, celebra a festa dos tortellini.
Em resumo: a próxima vez que o caro/a leitor/a comer um prato de tortellini, estará deglutindo símbolos eróticos. Em resumo, parte 2: onfalofagia.

Em todo seu esplendor, a deusa Vênus, segundo o genial Sandro Boticelli (1445-1510). O quadro chama-se “Nascita di Venere” (O nascimento de Vênus). Foi pintada em 1484. Está na Galeria Uffizi, em Florença, Itália. O umbigo é o foco do quadro. Obviamente.

ANONFALIA (a ausência do umbigo): Assunto debatido por teólogos na Idade Média no qual discutia-se se Adão e Eva tinham ou não umbigo. Já que não tinham pais e mães biológicas (nem sogros, teoricamente, muito menos cunhados e cunhadas), não teriam umbigos (pois não haviam nascido de partos).
Vários pintores da Idade Média e do Renascimento também depararam-se com esse dilema. Sempre estava o risco de que algum representante da Igreja não gostasse da representação pictórica dessas famosas duas primeiras pessoas, que, por uma questão de roteiro bíblico precisavam ser exibidas nuas. E portanto, tinham que mostrar se tinham ou não umbigos.
Também pairava a questão: se Adão e Eva eram pintados com umbigos… e se haviam sido feitos à imagem e semelhança de Deus, logo Deus deveria ter umbigo. E se tinha umbigo, quem havia dado luz a Deus?
Os turcos, muçulmanos (Adão e Eva também fazem parte da teologia muçulmana), conseguiram criar uma lenda que explicava o problema do primeiro umbigo. A explicação era que, Satã havia ficado furioso quando Alá criou o primeiro ser humano e cuspiu na direção do ventre de Adão. Sua saliva caiu no centro da barriga do primeiro homem. Mas, Deus rapidamente limpou a mancha causada em Adão. No entanto, a saliva cuspida pelo demônio deixou um pequeno buraco… e assim surgiu o primeiro umbigo.
Anonfalia e humor: Uma piada britânica no início do século XX seguia esta linha teológica. A piada indicava que um dia Sherlock Holmes morria e ia para o Céu. Nas portas do Paraíso era recebido, como corresponde, por São Pedro. E ali começava o diálogo:
- Bem vindo, sr. Holmes. Lhe aviso que o deixarei entrar se, no meio dos bilhões de pessoas que aqui estão, descobrir quais delas são Adão e Eva.
- Elementar, caro São Pedro…são as únicas pessoas que não possuem umbigo.

Holmes explica não a São Pedro, mas sim a Watson, algumas de suas deduções. Ilustração do emblemático Sidney Paget, na revista britânica Strand. Um de meus atores preferidos que interpretaram o detetive era o falecido Jeremy Brett, que além de brilhante ator era cantor. Neste link ele canta Da geh ich zu Maxim (em inglês) da opereta “A Viúva Alegre”, de Franz Léhar. A letra é uma ácida ironia sobre o dolce far niente dos diplomatas. Aqui.
Omphaloskepsis: em grego, contemplação do umbigo próprio como ajuda para meditação.
Onfalocêntrico: pessoa que olha para o próprio umbigo. Egocêntrico.
Onfalamomancia: a arte de adivinhar o futuro dos bebês pelos nós e contornos do umbigo.

Mais uma vez, feliz dia do umbigo! E feliz aniversário, señora Raquel!

PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
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Uruguaios acabam de ocupar a pole position mundial de consumo de carne bovina per capita. Argentinos, os maiores ‘carnívoros’ da turma de Homo Sapiens durante mais de um século, ficaram sem segundo lugar no pódio da bovinofagia. Acima, um exemplar de Bos taurus, simpático e apetitoso integrante da família dos Bovidae. O ‘bos’aqui ilustrado é do espanhol Pablo Picasso (gravura de 1945).
“Os argentinos são carnívoros por excelência”. Esta era o argumento oficial do Instituto de Estímulo e Divulgação da Carne Bovina da Argentina até o ano passado. Motivos havia de sobra para isso, já que comer carne bovina praticamente definiu o modus vivendi dos argentinos durante o século vinte e no início desta centúria, quando foram os maiores “carnívoros” do planeta. Em 1969 os habitantes deste país chegaram ao consumo recorde mundial de 100 quilos per capita por ano de carne. Embora o volume tenha caído nas décadas seguintes – por diversificação alimentícia, temores ao colesterol e perda do poder aquisitivo – os argentinos continuaram ostentando as principais marcas mundiais, muito acima de outros países. No entanto, a Argentina – a emblemática terra do ‘bife de chorizo’ – acaba de perder a pole position mundial no consumo de carne bovina.
BOVINÓFAGOS EM RECUO - Segundo a Câmara da Indústria e Comércio de Carnes da Argentina (CICCRA) o consumo de carne bovina per capita caiu dos 68, 1 quilos registrados em 2009 para uma média de 56,7 quilos nos primeiros seis meses deste ano.
Desta forma, o primeiro posto no pódio passou para o vizinhos uruguaios. Beatriz Luna, assessores de imprensa do Instituto Nacional de Carnes do Uruguai (INAC) disse ao Estado que o consumo per capita de carne bovina no Uruguai neste ano é 58,2 quilos, isto é, um quilo e meio a mais do que os argentinos.
Por trás da queda do consumo da carne bovina na Argentina – 16,7% em relação ao ano passado – está o sideral aumento dos preços, de 60%, registrado desde janeiro deste ano. Esse aumento acumula-se à alta de 180% entre janeiro de 2007 e dezembro de 2009.

Os quadrúpedes estão aqui ilustrados pelo holandês Vicent Van Gogh.
CONFLITO - Os produtores acusam os governos do ex-presidente Néstor Kirchner e sua esposa e sucessora, a presidente Cristina Kirchner, de torpedear a produção de carne bovina por intermédio da imposição de um controle de preços a partir de 2006.
“O governo aplica uma política anti-pecuarista elaborada por um incompetente funcionário”, afirmou a Ciccra nesta semana em um comunicado que faz alusões indiretas ao secretário de Comércio, Guillermo Moreno, conhecido no Brasil por ordenar verbalmente proibições contra a entrada de alimentos não frescos importados.
Em meio ao conflito que mantém há vários anos com os produtores agropecuários, a presidente Cristina retruca as críticas dos ruralistas, chamando-os de “golpistas” e de pretender “lucros abusivos”.
Ambas administrações Kirchners aplicaram uma controvertida redução das exportações com o objetivo de redirecionar o produto para o mercado interno, e assim, forçar a queda de seu preço. No entanto, segundo a CICCRA, “apesar da intervenção estatal para garantir o abastecimento doméstico e controlar os preços da carne, a queda da oferta de gado provocou uma escalada de preços ao consumidor desde o início de 2010”.
Sem estímulo, os pecuaristas estão investindo menos no setor. Segundo a CICCRA, o abate registrou em junho uma queda de 30,7% em comparação com o mesmo mês do ano passado. No primeiro semestre de 2010, a redução do abate foi de 22,4% em relação ao mesmo período de 2009.

Um típico ‘asado’ em pleno Pampa. Esta cena ainda é muito frequente. Mas, cada vez menos.
DE EXPORTADOR A PAÍS IMPORTADOR - As exportações argentinas registraram uma queda de 41,9% em volume. Das 274.497 toneladas exportadas no primeiro semestre de 2009, no período janeiro-junho deste ano as vendas ao exterior caíram para 159.366 toneladas. O governo afirmou que – para impedir maiores altas de preços no mercado interno – impedirá que as exportações passem de 400 mil toneladas em 2010.
A queda das exportações em valor foi de 20,9%, passando de US$ 732,5 milhões na primeira metade de 2009 para US$ 579 milhões no primeiro semestre de 2010.
A perda argentina da pole position no ranking mundial de consumo de carne – e a queda da produção interna – está sendo acompanhada da importação de carne do Uruguai. Segundo o INAC, a Argentina “é um bom nicho para colocar a carne uruguaia”.

Noé, famoso neto de Matusalém e supostamente o construtor do primeiro transatlântico. E além disso, carnívoro com a permissão divina. “Tudo que vive e se move vos servirá de comida” (Gênesis 9:3-6, de acordo com a tradução da Bíblia pela Editora Vozes) teria dito Deus a Noé. Acima, quadro do pintor conhecido como Französischer Meister (O Mestre Francês), de 1675. O quadro está exposto em Budapeste, no Magyar Szépmüvészeti Múzeum.
DA VACA AO LEITÃO E AO FRANGO (o torresmo no leito presidencial) - “Neste país, os vegetarianos são uma raridade” afirma ao Estado Carlos Príncipe, açougueiro do Mercado del Progreso, no bairro de Caballito, onde sua família tem um estabelecimento desde 1938.
No entanto, perante o aumento dos preços da carne bovina, a própria presidente Cristina envolveu-se pessoalmente em uma campanha para tentou desviar o consumo dos argentinos para a carne suína, atribuindo-lhe poderes afrodisíacos, que, segundo disse, comprovou com seu próprio marido em um fim de semana de arromba em El Calafate, província de Santa Cruz, após degustar um leitão da província de Córdoba (*). Além disso, Cristina Kirchner também alardeou os valores da carne de frango para as mulheres argentinas que pretendem fazer regime.
* Na prática, o casal Kirchner violou a lei, já que as normas fitossanitárias argentinas impedem que a carne de leitão produzida em Córdoba possa entrar na zona sul do país, isto é, a Patagônia.

As vacas, presentes até no nome de um vinho argentino, o “Quatro vacas gordas”.
GAÚCHOS, OS MAIS CARNÍVOROS DO BRASIL - O volume uruguaio e argentino é substancialmente superior ao consumo brasileiro, onde a ingestão é de 36 quilos anuais. No entanto, a proporção sobre no Estado mais “carnívoro” da federação, o Rio Grande do Sul, com 46 quilos por ano.

Nota de cinco pesos emitida em 1869 pela província de Buenos Aires. A efígie é a de algum herói da independência ou de um caudilho do momento? Que nada! A homenageada é a vaca, essa heroína nacional.
PONTOS BÁSICOS SOBRE OS ARGENTINOS E SEU QUITUTE NACIONAL, A CARNE
- As primeiras vacas que entraram na Argentina, em 1580, vieram do Paraguai. Estas – sete vacas e um touro da raça holandesa – haviam vindo da Espanha em 1555, atravessando o estado brasileiro de Santa Catarina, levadas aos pastos paraguaios pelos irmãos portugueses Scipião e Vicente Góes.
- Em 1969 o consumo de carne bovina per capita argentino chegou a seu recorde, de 100 quilos anuais.
- Ao longo do século vinte a carne e o trigo foram símbolos da Argentina no mundo.
- Ao longo do século vinte, as crianças argentinas não escreviam a clássica redação “Minhas Férias” (como ocorria no Brasil). A redação por excelência era “La Vaca” (A Vaca), na qual o quadrúpede era exaltado pelos estudantes por sua carne e couro, como fonte da riqueza argentina.
- Em 2002, no meio da maior crise da História argentina, o consumo foi de 51 quilos per capita (o mais baixo desde 1914, ano em que o consumo começou a ser medido).
- Política do governo Kirchner com setor pecuário provocou alta de preços e queda drástica de consumo do principal quitute gastronômico argentino.
- Consumo per capita argentino em 2009 foi de 68,1 quilos, o mais alto do mundo. Nos primeiros seis meses deste ano despencou para 56,7 quilos.
- Uruguaios ostentam atualmente a pole position do consumo de carne mundial, com 58,2 quilos per capita.

Touro, tão adorado em Creta que até surgiu ali a lenda do Minotauro. Mural no palácio de Cnossos.
E O BOI SUBIU NO TELHADO… : “O boi no telhado” não tem nada a ver com o emblemático e anônimo felino sempre citado no Brasil que subiu no teto da casa como prenúncio de problemas. Não. Sequer é uma pálida alusão. Bos taurus de um lado, os Felis silvestris catus de outro.
Neste caso trata-se de uma animada melodia do batuta compositor francês Darius Milhaud (1892-1974. Na verdade, trata-se de uma desculpa minha para falar sobre Milhaud, já que estamos falando de bifes, bois e vacas. “Le boeuf sur le toit” (O boi no telhado) é uma das mais conhecidas composições de Milhaud, que foi adido na Embaixada da França no Rio de Janeiro entre 1917 e 1919. Ele voltou para a França empapado de ritmos sul-americanos, principalmente brasileiros. Em 1922 foi aos EUA, onde também absorveu os ritmos do jazz.
Le boeuf sur le toit (O boi no telhado) com o “AlmaViva Ensemble”, em apresentação em Paris. O link do Youtube, aqui.
O “AlmaViva Ensemble” foi criado em 2003 por um grupo de músicos argentinos radicados na França. O site do grupo, dedicado à música de câmara latino-americana (ou com um touch latino-americano, como o caso de Milhaud), aqui.
E o AlmaViva, neste vídeo, tocando “Adiós Nonino”, de Astor Piazzolla. O link, aqui.
E voltando à vaca fria, isto é, ao boi, de brinde, um detalhado ensaio de Daniella Thompson sobre como o boi foi parar em cima do telhado. Aqui.

Darius Milhaud, com plácido olhar bovino. O autor de “Le boeuf sur le toit”.
VACAS E BATMAN. E O GATO QUE NÃO SUPORTA LA ‘RADICIAÓN’ - E já que estamos em ritmo bovino, Alfredo Casero, em canção na qual faz paródia das visitas à feira da Sociedade Rural, um dos passeios top tem do inverno portenho. Aqui.
Casero foi citado no ano passado na postagem sobre o batman portenho, o “Juan Carlos Batman”. Aqui.
E além disso, uma paródia de Casero sobre a bossa nova, “O Gato não suporta a radiação”. Em portunhol, comme il faut, com legenda em espanhol… aqui.
APOLOGIA INFANTIL DA VACA LEITEIRA – Gaby, Fofó e Miliki formaram o trio de cômicos infantis que teve descomunal sucesso na América Latina e na Espanha entre os anos 40 e 80. Em 1946, os três irmãos deixaram a Espanha arrasada pela guerra civil e controlada pelo franquismo e partiram em exílio voluntário para Cuba (onde participaram das primeiras transmissões de TV da ilha) e México.
Em 1970 instalaram-se na Argentina (país para onde voltaram várias vezes). Em 1972, com o início do fim do regime de Franco, voltaram à Espanha.
Gaby, Fofó, Miliki (e Fofito, um dos filhos, neste vídeo) cantam “La vaca lechera” (A vaca leiteira), um hit parade das canções infantis durante mais de meio século no mundo hispano-falante. O link, aqui.
A letra:
Tengo una vaca lechera,
no es una vaca cualquiera,
me da leche merengada,
ay! que vaca tan salada,
tolón , tolón, tolón , tolón.
Un cencerro le he comprado
Y a mi vaca le ha gustado
Se pasea por el prado
Mata moscas con el rabo
Tolón, tolón
Tolón, tolón
Qué felices viviremos
Cuando vuelvas a mi lado
Con sus quesos, con tus besos
Los tres juntos ¡qué ilusión!
A letra da canção foi composta pelo espanhol Jacobo Morcillo Uceda, em 1946. Uceda era um sobrevivente da Divisão Azul, o grupo de milhares de soldados que o general e ditador da Espanha, Francisco Franco, enviou aos campos de batalha da Rússia, para lutar ao lado das tropas nazistas.
Depois da guerra, Uceda dedicou-se à publicidade. Ele compôs a letra de La vaca lechera enquanto viajava em um trem de Madri à Galícia. Uceda não era músico, mas ficou assobiando a melodia que havia bolado durante horas, até que desceu do trem e foi procurar às pressas um parente seu, o maestro García Morcillo, a quem removeu pelo braço de um ensaio que estava dirigindo. A melodia, apresentada no Teatro Jai de Madri, foi um sucesso. Uceda acompanhou a apresentação tocando um sino de vaca.
Um dia, o ginecologista de sua esposa lhe pediu um favor: “ouça meu filho cantar”. Uceda o ouviu e ajudou o rapaz a dar seus primeiros passos na carreira musical. O ginecologista era Julio Iglesias Puga, pai do posteriormente cantor Julio Iglesias.
O autor da letra de La vaca lechera morreu aos 87 anos em 2004 em Madri.
XPRESSÕES IDIOMÁTICAS
“No decir ni mu” (Nem dizer sequer mu): expressão usada em espanhol para indicar que a pessoa fica caladinha e sequer se atreve a dar um mugido. Exemplo: “Juan le gritó a Carlos… y Carlos no dijo ni mu” (João gritou com Carlos… e Carlos nem disse mu).
Sobre não dizer sequer um ‘mu’, aqui está a tira do cartunista chileno Alberto Montt. Seu engraçadíssimo site, aqui.

PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Obra do pintor suíço Jean-Étienne Liotard (1702-1789), “Dama servindo chocolate”, de 1744. Na National Gallery, Londres. A palavra “Chocolate” provém de “chocolātl”, palavra do idioma asteca, o ‘nahuatl’. A palavra em nahuatl proviria, por seu lado, das palavras “xococ”, que significa ‘amargo’, e “ātl”, que quer dizer ‘água’. É que o chocolate, em sua forma primitiva, era bebido, e não comido. Mas, a denominação científica da planta de cacau é que exprime melhor o espírito deste quitute: a palavra grega Theobromas, que vem de θεός (“teos”, isto é, deus) mais βρώμα (“broma”, isto é, alimento). Em resumo, o cacau seria “alimento dos deuses”.
Em meio à Copa do Mundo, o chocolate Cadbury lançou uma irônica campanha publicitária cujo target são as mulheres argentinas cujos maridos, namorados ou amantes estarão obsessivamente ocupados com os assuntos futebolísticos que transcorrem na África do Sul. A empresa criou especialmente para este nicho de mercado uma comunidade na rede social Facebook, a “Não nos interessamos pelo futebol”, na qual as mulheres “vítimas da Copa” poderão encontrar “homens disponíveis” para “dar prazer às mulheres” durante esse período de atividade esportiva. Isto é: homens que consideram que as mulheres são mais interessantes do que o futebol.
HOMENS DISPONÍVEIS - A comunidade para as mulheres atingidas pelos efeitos colaterais da Copa foi lançada há duas semanas e meia e já ultrapassou a faixa de 27 mil usuários ativos. A campanha da Cadbury está sendo veiculada na Argentina e Uruguai.
Os irônicos spots publicitários da campanha da Cadbury:
O primeiro, aqui.
O segundo, aqui:
Maximiliano Itzkoff e Mariano Serkin, diretores-gerais criativos da agência de publicidade Del Campo/Nazca Saatchi & Saatchi, encarregada da campanha do chocolate, me explicaram que “as mulheres argentinas assistem os jogos da Argentina. E depois disso, a Copa acaba para elas. Mas, os homens, além dos jogos da seleção argentina, continuam vendo todos os jogos. Estudam as seleções rivais, fazem apostas, falam sobre o assunto em cada momento livre no escritório”.
Com ironia, os dois publicitários destacaram que “os homens vivem para as Copas do Mundo. E o resto de suas vidas tentam ocupá-lo com alguma coisa para passar o tempo…até que chegue a próxima Copa do Mundo”.
Por esse motivo, explicam, criaram a aplicação do Facebook “No nos importa el fútbol”, na qual “elas podem encontrar um book de homens tentadores para conversar, sair.. ou talvez algo mais”.
Um dos outdoors da campanha “Nos nos importa el fútbol”
Uma pesquisa elaborado pela consultoria Datos Claros indicou que em tempos de Copa do Mundo, 17% das mulheres decidem ignorar totalmente os eventos futebolísticos e aproveitam esse período de ocupação de seus homens para realizar outras atividades. As jovens de 18 a 25 anos constituem o setor feminino menos interessado nos jogos. Nesse grupo, o desinteresse pela Copa sobe para 23%.
Embarcando na onda anti-copa, várias lojas em Buenos Aires aproveitaram o nicho de mercado representado por mulheres que não estão nem aí com o evento futebolístico da FIFA (paradoxo: o verbo “Fifar”, no lunfardo portenho, significa “transar”, embora de forma chula) e oferecem descontos especiais para tratamentos estéticos ou compra de roupas durante os jogos da Argentina.

Escultura asteca que representa um homem carregando um fruto de cacau. Em 1519, o conquistador espanhol Hernán Cortés ficou sabendo dessa bebida consumida pelos indígenas. Em 1528 levou o chocolate para a Europa.
ROUBO – Não somente o público feminino aproveita o período da Copa para ocupar-se com outras atividades. Além delas, os ladrões também utilizam o período para entrar em casas cujos proprietários estão vendo o jogo em outros lugares, e assim, pelo período de uma hora e 45 minutos, contam com tranquilidade para apropriar-se dos bens alheios. Esse foi o caso do ladrão que roubou dois valiosos quadros expostos – um deles do falecido pintor Xul Solar – no Teatro Argentino, na cidade de La Plata, durante o jogo da Argentina contra a Nigéria. O ladrão não foi visto pelos guardas, que estavam assistindo pela TV o jogo da seleção.
O quadro acima é ”La cioccolata del mattino”, pintado entre 1775 e 1780, um óleo em tela do veneziano Pietro Longhi (1701-1785). Exibe-se na galaria Ca’ Rezzonico, Veneza. É um antigo palácio do século XVII onde estão coleções do século XVIII. O poeta inglês Robert Browning comprou o palácio em 1888, e ali morreu um ano depois.

Outra mulher que idolatrava o chocolate: Marie de Rabutin-Chantal (1626-1696), a marquesa de Sévigné, que em sua antologia de cartas, a “Lettres”, sustentava à sua filha: “o chocolate te adula por um tempo… e depois te incendeia de um golpe só com uma febre contínua” (Marcel Proust, em sua obra “Em busca do tempo perdido” cita a Marquesa de Sévigné como a escritora preferida de sua mãe). O quadro acima é de Claude Lefebvre (1632-1675), exposto no Museu Carnavalet, em Paris.

Nossa querida ‘Xochi’, em uma imagem histórica do Códice Borgia (sobre o códice, este link aqui)
LIBIDO E CHOCOLATE - E se o chocolate é afrodisíaco, na mitologia asteca existem associações de sobra. O quitute é relacionado intensamente a Xochiquétzal, a jovem deusa da beleza, das flores, do amor, do prazer amoroso e das artes. Aliás, ela foi a primeira protagonista do primeiro ato sexual da História, segundo a mitologia asteca (e também do primeiro parto).
Sua vida sexual foi intensa: seu primeiro esposo foi Tláloc. Depois casou-se com Ixotecutli, o deus da liberdade. E também foi casada com Piltzintecuhtli (que, por seu lado, era o senhor das plantas alucinógenas e havia sido filho do primeiro casal de homens, Cipactónal y Oxomoco). Xochiquétzal foi, de quebra, amante de Huitzilopochtli, de Tezcatlipoca e Quetzalcóatl (e vários outros). E finalmente casou com Centéotl.

Representação moderna da deusa nos braços de um de seus homens

E de bônus track, dois blogs ‘copa-fóbicos’:
O antifutebol: http://mundial.ambito.com/blogs/9/gondorro
Podeti: http://weblogs.clarin.com/podeti/archives/206649.php
E, para arrematar, uma imagem da ‘Sachertorte’, uma espécie de ‘nec plus ultra’ daquilo que pode ser feito com chocolate. E já que estamos mesmo no inverno, acrescente em cima uma boa quantidade de crème chantilly. O regime fica para o fim de semana.
E falando em chocolate, lembrei de potássio (que não tem nada a ver). E por lembrar da falta de potássio, lembrei de cãibras… que é “calambre” em espanhol. E, bom, Astor Piazzolla compôs um tango com esse nome.
E aqui está “Calambre”, interpretado por um grupo que teve muito sucesso nos anos 70 e início dos 80, o “Buenos Aires 8”.
Para o link do ‘Calambre’, clique aqui.
Neste outro, uma versão “remix” do mesmo tango, por John Arnold. A música em si começa lá pelo 1:40 minuto. As cenas são de uma peculiar dança de marionetes… O link, aqui.
E mais um “Calambre”. Aqui.
E para encerrar, o “Calambre” na versão convencional de Piazzolla (bom ‘convencional’ é forma de falar para o querido Astor…), com o quinteto de Ferndando Suárez, que foi o violinista do famoso compositor: aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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AVISO: Caras e caros leitores-comentaristas. Ontem, dia 8 de março, completamos um ano de blog! Póc! Póc! Póc! Fiuuummm-fiummm! (onomatopéia para fogos de artifício). Foram 125 postagens desde que iniciamos o blog. Isto é, uma a cada três dias. E graças ao blog, pude conhecer vários de vocês. Alguns pelo intercâmbio de opiniões nos comentários, outros por mail, e vários pessoalmente. Esse intercâmbio foi um imenso deleite que continuará ao longo deste ano!
E também lhes aviso que desde ontem também estou em férias. Por isso, ao longo deste mês tentarei colocar os comentários de vocês a cada 4 ou 5 dias. E, na medida do possível, irei respondendo.
Agradeço a vários comentaristas a preocupação que expressaram durante minha cobertura do terremoto no Chile!
Abraços a todos,
Ariel
Vaca é heroína, açougueiro é galã, e governos evitam aumentos do preço da carne para não irritar eleitorado
“A carne bovina é a única droga que qualquer governo argentino jamais proibirá”. A frase, do ensaísta Alan Pauls, ilustra a paixão de seus compatriotas pela carne bovina e o risco que corre qualquer governo em limitar o consumo desse quitute. A carne, para os argentinos, é mais do que um alimento, afirmam os especialistas, que consideram que é um modus vivendi dos habitantes deste país, que devoram 70 quilos per capita por ano, quantidade que os coloca com ampla vantagem na pole position mundial de consumo, acima do Uruguai e EUA. O volume também é significativamente superior ao do Brasil, onde a ingestão é de 36 quilos anuais (o Estado mais “carnívoro” da federação é o RS, com 46 quilos por ano).
Mas, a carne está sob perigo de escassez. No último ano a produção caiu em 25% por causa do confronto dos pecuaristas a presidente Cristina Kirchner. A queda foi agravada por uma inédita seca que assolou o país em 2009 e a falta de ajuda governamental aos produtores. Estes entraram na mira da presidente Cristina, que os acusa de “golpismo”.
O debate sobre a carne está ocupando há semanas as manchetes dos jornais portenhos e é assunto constante nos programas de TV. As associações ruralistas afirmam que a terra do baby beef depararia-se em 2011 com a necessidade de importar carne, pela primeira vez na História. Só nos últimos três anos o preço do quilo da carne cresceu em 180%. Só nos primeiros dois meses deste ano houve uma nova escalda, chegando a um aumento de 35%. O governo, no entanto, afirma que o preço só aumentou 4,5%.
O aumento do custo do quitute nacional irrita cada vez mais os argentinos com a presidente Cristina, colaborando na queda de sua popularidade. Ela reage colocando a culpa nas “excessivas chuvas” e na “cobiça” dos pecuaristas. Recentemente a presidente tentou desviar o consumo dos argentinos para a carne suína, atribundo-lhe poderes afrodisíacos que ela própria teria comprovado empiricamente com seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, dois fins de semana antes deste passar mal e ser operado de uma obstrução na carótida.
Sr. Príncipe, açougueiro-mor do Mercado del Progreso, no bairro de Caballito, prepara-se para cortar um substancial pedaço de bovino falecido
VEGETARIANOS - Os preços sobem, as recessões assolam o país, e os governos tentam desviar o consumo. Mas, nada disso consegue evitar que os argentinos continuem aferrados à carne. “Quando os preços sobem, as pessoas começam a procurar cortes de carne de menor qualidade…mas sempre comem carne!”, afirmou ao Estado Carlos Príncipe, açougueiro do Mercado del Progreso, no bairro de Caballito, onde sua família tem um estabelecimento desde 1938. Terceira geração de açougueiros (seus avós foram açougueiros do conde de Romanones, ministro do rei Alfonso XIII da Espanha) – enquanto afia duas facas como se fossem um sabre – Príncipe sustenta: “neste país, os vegetarianos são uma raridade”. As autoridades reforçam a ideia. Segundo o Instituto de Estímulo e Divulgação da Carne Bovina, “os argentinos são carnívoros por excelência”. Em 2007 o então presidente Néstor Kirchner tentou conter a escalada de preços generalizada. O produto mais visado pelas medidas foi a carne. Kirchner, para reduzir o preço aos consumidores, proibiu as exportações do produto, de forma a redirecioná-lo ao mercado interno.
VACA, A HEROÍNA - Ao contrário de outros países, onde as crianças na escola primária escreviam a redação “Minhas férias”, os alunos argentinos redigiram durante décadas “La Vaca” (A Vaca), uma apologia dessa heroina quadrúpede que propiciava à Argentina riquezas e prestígio mundial por seus baby beefs.
A presença da carne está presente também na gíria portenha, especialmente para designar atração sexual. Esse é o caso da expressão “que lomo!” (que lombo!), para referir-se ao “apetitoso” corpo de um homem ou mulher. Além disso, a presença da carne na cultura também é evidente nas telenovelas, em várias das quais os protagonistas galãs interpretavam açougueiros. No início desta década o churrasco foi o centro do talk show “Um aplauso para o churrasqueiro”, onde o apresentador, Roberto Petinatto, entrevistava seus convidados enquanto preparava os sanguinolentos nacos de carne que posteriormente eram consumidos enquanto respondiam as perguntas.

A vaca raivosa (La vache enragée) de Toulose Lautrec, cartaz de 1896
‘CARNE, NA ARGENTINA, NÃO É CONVENIÊNCIA, MAS SIM CULTURA’
Juan José Becerra não somente ostenta alusões bovinas em seu sobrenome (becerra é ‘bezerra’ em espanhol). Ele também é autor de “A Vaca”, ensaio que disseca a importância econômica, gastronômica, política, cultural e social dos bovinos na Argentina.
Estado – Qual é o espírito do clássico da escolar, a redação “A Vaca”,?
Becerra – O patrão formal dessa redação não obedecia à descrição da vaca como unidade industrial, o que ela verdadeiramente é, mas sim, uma descrição sentimental na qual a pobre besta aparecia como prodígio de bondade. A ideia era que a vaca nos ‘dava’ coisas, como a carne, couro, etc.
Estado – A escassez de carne pode irritar o eleitorado com um governo aqui?
Becerra – Não falaria em ‘eleitores’, mas sim em ‘comensais’. Há uma conexão entre as duas categorias. “O Matadouro”, primeiro texto narrativo de nossa literatura trata de um grupo de pessoas que mata um adversário político no meio de uma proibição da carne em 1830. Pelo menos, na literatura, os argentinos matam se ficarem sem carne bovina. É que comer carne na Argentina não está indicado por uma dieta de conveniências, mas sim pela cultura.
Estado – A carne está tão presente até rendeu telenovelas sobre o assunto…
Becerra – Uma comédia de TV, “De carne somos”, era protagonizada por um açougueiro. Os açougues foram em nossas telas cenários cômicos ligados ao sexo. Em vários filmes aparecem os churrascos como área de ‘descanso narrativo’, mas também como verdade sociológica de um país cujos habitantes volta e meia fazem a pergunta “e quando fazemos um churrasco?”. Em nosso horizonte pode ser que não exista um destino de grandeza…mas sobram churrascos!
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
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