ir para o conteúdo
 • 

Ariel Palacios

Governo Kirchner mantém uma sessão de pugilato com jornais não alinhados há meia década. O rival neste ringue – que está mais pra telecatch – é o Clarín. Acima, o violoncelista Paul Casals lê em 1966 notícias sobre boxe durante o café da manhã em Puerto Rico, onde estava fazendo um tour.

O governo da presidente Cristina Kirchner implementou em fevereiro um congelamento de preços de produtos que foi acompanhado por uma proibição às redes de supermercados e lojas de eletrodomésticos de publicar anúncios com ofertas nos jornais e canais de televisão da cidade de Buenos Aires e da Grande Buenos Aires. No entanto, desde ontem (domingo), a proibição não está sendo mais aplicada para os meios de comunicação.

Ou, quase todos os meios de comunicação. Ficam de fora desta suspensão da proibição os jornais “Clarín”, “La Nación” e “Perfil”. Coincidentemente, estes três periódicos possuem tons críticos com a administração Kirchner. Um deles, o “Clarín”, é considerado “inimigo mortal” pela presidente Cristina.

Os outros meios de comunicação, a grande maioria aliados do governo Kirchner, são ironicamente denominados de “amigopólio” pela oposição, já que constituem em conjunto um grande grupo de mídia, que possui a maioria dos canais e estações de rádio da Argentina. Estes meios foram favorecidos neste fim de semana com a suspensão sobre a proibição de publicidade.

A proibição sobre a publicidade, imposta em fevereiro, não foi escrita, já que o autor da medida, o secretário de comércio interior, Guillermo Moreno (o braço-direito da presidente Cristina na área de medidas sobre a inflação) costuma telefonar pessoalmente aos grandes empresários para avisá-los sobre suas novas medidas, por intermédio de ordens verbais.

O argumento de Moreno era que “se os preços estão congelados, não faz falta publicidade para vender mais”. Mas os líderes da oposição contra-argumentaram, afirmando na época que o governo estava implementando uma forma adicional para “estrangular” a mídia não-alinhada com a administração Kirchner.

Desta forma, nos últimos três meses e meio os consumidores portenhos e da Grande Buenos Aires não tiveram acesso às informações sobre os preços dos produtos. Além disso, as empresas jornalísticas ficaram sem uma de suas principais fontes de renda, os anúncios das grandes redes de supermercados.

O Grupo Clarín, com esta medida, perdeu em média mensalmente US$ 5 milhões em faturamento.

Enquanto que em janeiro deste ano (antes do congelamento de preços, aplicado desde o dia 1 de fevereiro) o “Clarín” contou com 264 de páginas com publicidade de supermercados e lojas de eletrodomésticos, em fevereiro o volume havia despencado para 61 páginas.

Estimativas divulgadas pela Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) indicaram que a proibição sobre a publicação de publicidade de supermercados provocou uma queda de quase 20% nas receitas dos jornais portenhos.

“Isto, em pouco tempo, poderia comprometer a viabilidade destes meios de comunicação”, me disse em abril uma alta fonte de um dos principais matutinos portenhos. “Nos próximos meses, o prejuízo poderia ser equivalente a US$ 80 milhões”, explicou a fonte.

O “Clarín” – o jornal de maior tiragem da Argentina – também foi excluído há pouco tempo da publicidade da maior empresa petrolífera do país, a YPF, expropriada pelo governo Kirchner há quase um ano.

Os analistas destacam que a proibição para os supermercados e lojas de eletrodomésticos de colocar publicidade nos jornais críticos com o governo é uma espécie de mecanismo de censura indireta, já que desfinancia as empresas de mídia, fato que, por tabela, poderia afetar a liberdade de expressão.

Enquanto os meios de comunicação críticos do governo sofrem pressões, diversos empresários aliados da administração Kirchner começaram a comprar canais de TV, jornais e rádios. Representantes da oposição afirmam que o governo está fortalecendo sua própria estrutura de comunicação com os empresários aliados e o sistema estatal de imprensa, que inclui a TV Pública e a Telam (a maior agência de notícias do país e a Rádio Nacional). Com ironia, denominam o conjunto destes grupos amigáveis de “o amigopólio”. Acima, a presidente Cristina em um discurso em rede nacional de TV no ano passado.

CONGELAMENTO - O governo Kirchner – que paradoxalmente nega a escalada inflacionária alertada por economistas independentes e sindicatos – aplica um polêmico congelamento de preços desde o dia 1 de fevereiro a supermercados e lojas de eletrodomésticos. O congelamento seria inicialmente aplicado até o dia 1 de abril.

Mas, em março o secretário de comércio interior, Guillermo Moreno, decidiu ampliar o congelamento até o dia 1 de junho. Informações extra-oficiais sustentam que Moreno poderia eventualmente anunciar em breve uma nova ampliação do mecanismo de freezer, estendendo o prazo até outubro, coincidindo com as eleições parlamentares desse mês.

Segundo os analistas econômicos, o governo tenta chegar até as eleições sem altas inflacionárias que compliquem a popularidade da presidente Cristina Kirchner, em baixa gradual ao longo do último ano.

No ano passado a inflação oficial foi de 10,8%, embora os economistas indiquem que esse índice foi “maquiado” e que a alta real foi superior a 25%.

Desde abril o governo da presidente Cristina Kirchner aplica o congelamento de preços de combustíveis em todo o país. A princípio, este congelamento ordenado por Moreno terá vigência por seis meses.

Perón, pouco antes de voltar para Buenos Aires, em 1973. Na década e meia anterior havia residido em Madri, onde contou com o recebimento do ditador espanhol, Francisco Franco, generalíssimo da Espanha e “caudillo por la gracia de Dios” (a quem Perón havia apoiado intensamente quando era presidente da Argentina entre 1946 e 1955). Um ano depois Perón morreria em Buenos Aires. Uma semana antes de falecer assinou a Lei do Abastecimento.

ABASTECIMENTO - O governo conta com a “Lei do Abastecimento” para o caso das empresas que não acatem o congelamento. Essa lei foi criada em junho de 1974 pelo então presidente Juan Domingo Perón, que morreu uma semana depois de assinar o decreto.

A norma foi anulada parcialmente pelo presidente Carlos Menem nos anos 90 e foi ressuscitada em 2006 pelo presidente Kirchner. A lei – que até agora não foi aplicada em sua totalidade – prevê penas de prisão de até quatro anos.

A Lei do Abastecimento pode ser aplicada para os bens de primeira necessidade, entre eles, alimentos, medicamentos, além dos próprios combustíveis. Ela permite que o governo confisque mercadorias, coloque executivos na prisão e feche empresas em caso de problemas no abastecimento.

A lei também permite que o governo possa fixar preços e congelá-los. Além disso, concede à Casa Rosada os poderes para obrigar empresas a continuar produzindo uma mercadoria e comercializá-la.

“O AMIGOPÓLIO” - O governo Kirchner costumeiramente afirma que enfrenta um “monopólio midiático”, em alusão ao Grupo Clarín, dono de vários jornais, estações de rádio e canais de TV. Mas, a oposição retruca e sustenta que nos últimos anos o casal Kirchner armou seu próprio “monopólio” de meios de comunicação aliados.

Além do Grupo Szpolski, os Kirchners contam com o respaldo midiático (em maior ou menor intensidade) do jornal “Página 12”, do canal “C5N”, do “Canal 9”, e do canal “Telefé” (o de maior audiência do país).

No caso da Telefé, pertencente à Telefônica da Espanha, contava como colunista com o senador Aníbal Fernández, braço-direito de Cristina na Câmara Alta.

Outro caso é o do canal Nueve, pertencente ao empresário mexicano Remígio González-González, que conta com vários programas de explícito respaldo à administração Kirchner.

Tanto o Telefé como o Nueve não poderia continuar existindo, já que seus donos são estrangeiros, algo que está proibida pela Lei de Mídia. No entanto, o governo Kirchner alega com malabarismos jurídicos que os dois canais são “argentinos”.

Além disso, o governo Kirchner possui uma grande rede estatal nacional de TV e rádio (a TV Pública e a Rádio Nacional, entre outras).

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

E, the last but not the least, siga o @inter_estadãoo Twitter da editoria de Internacional do estadão.com.br .
Conheça também os blogs da equipe de Internacional do portal correspondentes, colunistas e repórteres.
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui.
.………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Não é permitido postar links de vídeos. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comente!

 

 Na foto acima, Velasco Ibarra, símbolo da instabilidade institucional que assolou o Equador na maior parte de sua História. Velasco Ibarra foi eleito cinco vezes presidente da República. Mas só completou um único mandato. O atual presidente equatoriano, Rafael Correa – que define-se como “cristão de esquerda” - neste domingo disputa sua segunda reeleição presidencial. As pesquisas indicam que ele vencerá com ampla margem de votos a atomizada oposição e obterá seu terceiro mandato. Correa protagoniza o período de estadia no poder mais longo do último século e meio, algo raro na História equatoriana, marcada pelos mandatos interrompidos.

Ao longo dos últimos 17 anos o Equador teve oito presidentes. Desses, vários foram derrubados pelo Parlamento (um dos casos, o de Abdalá Bucaram, destituído por insanidade mental), diversos caíram por rebeliões populares ou por um mix destas em conjunto com apoio militar. Outros foram apenas presidentes interinos entre uma crise política e outra.

O presidente Rafael Correa, que autodefine-se como um “cristão de esquerda”, eleito em 2007, modificou a Constituição Nacional e encerrou seu primeiro mandato em 2009 ao realizar uma nova eleição presidencial. Na ocasião foi eleito para um mandato de quatro anos, que encerra-se agora. Neste domingo os equatorianos comparecem novamente perante as urnas.

 

Veintemilla, o presidente que mais tempo durou sentado na cadeira do Palácio Carondelet, na conturbada História do Equador. Correa – o presidente que mais tempo permaneceu de forma ininterrupta no século XXI – está a ponto de superar a marca

Junto com a Argentina, o Equador é o país da América do Sul que teve mais presidentes que não conseguiram completar seus mandatos desde a volta da democracia na região nos anos 80.

Correa, que tenta hoje emplacar nas urnas a aprovação para seu terceiro mandato, é o presidente da História de seu país com o mandato ininterrupto mais longo do Equador nos séculos XX e XXI.

O presidente equatoriano que durou mais tempo no poder foi o militar Ignácio de Veintemilla, que presidiu o Equador por sete anos no final do século XIX.

“Se me derem uma sacada em cada cidade, serei presidente”, dizia Velasco Ibarra, cinco vezes presidente, que apostava em seu carisma e oratória para vencer qualquer eleição.

SUCESSO E FRACASSO - Um dos casos mais emblemáticos que ilustra as turbulências políticas do Equador é José Maria Velasco Ibarra (1893-1979), que poderia ser definido como o político de maior sucesso da História de seu país, já que foi o único que conseguiu a marca de ser eleito cinco vezes.

Formado em universidades em Quito e em Paris, foi considerado um dos maiores oradores de seu país, além de ser indicado como o responsável direto da eliminação dos vestígios da economia colonial que ainda predominava no início do século vinte.

Nenhum outro presidente o superou na construção de rodovias ou escolas. Além disso, foi a figura dominante do cenário político durante quatro décadas.

No entanto, Velasco Ibarra também poderia ser classificado como um dos políticos com maior nível de fracasso na História do Equador e de toda a América Latina por não ter conseguido concluir quatro de seus cinco mandatos. Eleito pela primeira vez em 1934 em meio à crise econômica mundial, chegou ao poder com respaldo dos conservadores. Mas, logo afastou-se desses grupos para deslanchar um programa de reforma agrária. Em 1935 foi derrubado por um golpe militar.

Velasco Ibarra foi eleito cinco vezes mas só completou um mandato

Em 1944 foi eleito novamente. Mas, durou menos de três anos no poder. Foi removido pelos militares e teve que partir para o exílio. Ao voltar ao país em 1952 foi eleito para o único mandato (o terceiro) que completou graças à prosperidade que o país desfrutou na época pelo boom da produção de bananas.

Em 1960 foi eleito novamente. Mas durou apenas duas semanas no poder. Desta vez foi destituído pelo Parlamento. Em 1968 foi eleito para seu quinto e último mandato. Influenciado pela Revolução Cubana, pregou o “esmagamento da oligarquia”. Foi derrubado pelos militares na terça-feira de carnaval de 1972, cinco meses antes de terminar seu mandato. Um tom tragicômico encerrou seu derradeiro governo quando a população batizou o golpe de “El Carnavalazo” (O Carnavalaço). por transcorrer durante a terça-feira de Carnaval.

Em 1977, dois anos antes de morrer, seus aliados o procuraram em Buenos Aires para que retornasse do exílio e comandasse o “sexto velasquismo”. Velasco Ibarra, aos 84 anos, declinou: “renuncio à essa vaidade…”.

 

E falando nos mandatos não concluídos de Velasco Ibarra, de nosso querido Franz Schubert, a Sinfonia Número 8, a ”Inconclusa”. Rege Herbert von Karajan:

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

E, the last but not the least, siga o @inter_estadão, o Twitter da editoria de Internacional do estadão.com.br .
Conheça também os blogs da equipe de Internacional do portal correspondentes, colunistas e repórteres.
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui.
.………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Não é permitido postar links de vídeos. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comente!

Para recordar o inefável Ray Bradbury, colocamos nesta postagem o prólogo que o escritor argentino Jorge Luis Borges escreveu em 1955 para a edição da Minotauro das “Crônicas Marcianas”.

Crónicas Marcianas

Prólogo de Jorge Luis Borges

En el segundo siglo de nuestra era, Luciano de Samosata compuso una Historia verídica, que encierra, entre otras maravillas, una descripción de los selenitas, que (según el verídico historiador) hilan y cardan los metales y el vidrio, se quitan y se ponen los Ojos, beben zumo de aire o aire exprimido; a principios del siglo XVI, Ludovico Ariosto imaginó que un paladín descubre en la Luna todo lo que se pierde en la Tierra, las lágrimas y suspiros de los amantes, el tiempo malgastado en el juego, los proyectos inútiles y los no saciados anhelos; en el siglo XVII, Kepler redactó un Somnium Astronomicum, que finge ser la transcripción de un libro leído en un sueño, cuyas páginas prolijamente revelan la conformación y los hábitos de las serpientes de la Luna, que durante los ardores del día se guarecen en profundas cavernas y salen al atardecer. Entre el primero y el segundo de estos viajes imaginarios hay mil trescientos años y entre el segundo, y el tercero, unos den; los dos primeros son, sin embargo, invenciones irresponsables y libres y el tercero está como entorpecido por un afán de verosimilitud. La razón es rara. Para Ludano y para Ariosto, un viaje a la Luna era símbolo o arquetipo de lo imposible, como los cisnes de plumaje negro para el latino; para Kepler, ya era una posibilidad, como para nosotros. ¿No publicó por aquellos años John Wilkins, inventor de una lengua universal, su Descubrimiento de un Mundo en la Luna, discurso tendiente a demostrar que puede haber otro Mundo habitable en aquel Planeta, con un apéndice titulado Discurso sobre la posibilidad de una travesía? En las Noches áticas de Aulo Gelio se lee que Arquitas el pitagórico fabricó una paloma de madera que andaba por el aire; Wilkins predice que un de mecanismo análogo o parecido nos llevará, algún día,a la Luna.

Por su carácter de anticipación de un porvenir posible o probable, el Somnium Astronomicum prefigura, si no me equivoco, el nuevo género narrativo que los americanos del Norte denominan science-fiction o scientifiction (1) y del que son admirable ejemplo estas Crónicas.

Su tema es la conquista y colonización del planeta. Esta ardua empresa de los hombres futuros parece destinada a la época, pero Ray Bradbury ha preferido (sin proponérselo, tal vez, y por secreta inspiración de su genio) un tono elegíaco. Los marcianos, que al principio del libro son espantosos, merecen su piedad cuando la aniquilación los alcanza. Vencen los hombres y el autor no se alegra de su victoria. Anuncia con tristeza y con desengaño la futura expansión del linaje humano sobre el planeta rojo -que su profecía nos revela como un desierto de vaga arena azul, con ruinas de ciudades ajedrezadas y ocasos amarillos y antiguos barcos para andar por la arena-.

Otros autores estampan una fecha venidera y no les creemos, porque sabemos que se trata de una convención literaria; Bradbury escribe 2004 y sentimos la gravitación, la fatiga, la vasta y vaga acumulación del pasado -el dark backward and abysm of Time del verso de Shakespeare-. Ya el Renacimiento observó, por boca de Giordano Bruno y de Bacon, que los verdaderos antiguos somos nosotros y no los hombres del Génesis o de Homero.

¿Qué ha hecho este hombre de Illinois me pregunto, al cerrar las páginas de su libro, para que episodios de la conquista de otro planeta me pueblen de terror y de soledad?

¿Cómo pueden tocarme estas fantasías, y de una manera tan íntima? Toda literatura (me atrevo a contestar) es simbólica; hay unas pocas experiencias fundamentales y es indiferente que un escritor, para transmitirlas, recurra a lo “fantástico” o a lo “real”, a Macbeth o a Raskolnikov, a la invasión de Bélgica en agosto de 1914 o a una invasión de Marte. ¿Qué importa la novela, o novelería, de la science fiction? En este libro de apariencia fantasmagórica, Bradbury ha puesto sus largos domingos vacíos, su tedio americano, su soledad, como los puso Sinclair Lewis en Main Street.

Acaso La tercera expedición es la historia más alarmante de este volumen. Su horror (sospecho) es metafísico; la incertidumbre sobre la identidad de los huéspedes del capitán John Black insinúa incómodamente que tampoco sabemos quiénes somos ni cómo es, para Dios, nuestra cara. Quiero asimismo destacar el episodio titulado El marciano, que encierra una patética variación del mito de Proteo.

Hacia 1909 leí, con fascinada angustia, en el crepúsculo de una casa grande que ya no existe, Los primeros hombres en la Luna, de Wells. Por virtud de estas Crónicas de concepción y ejecución muy diversa, me ha sido dado revivir, en los últimos días del otoño de 1954, aquellos deleitables terrores.

1. Sciencefiction es un monstruo verbal en que se emalgaman el adjetivo scientific y el nombre sustantivo fiction. Jocosamente, el idioma español suele recurrir a formaciones análogas; Marcelo del Mazo habló de las orquestas de gríngaros (gringos + zíngaros) y Paul Groussac de las japonecedades que obstruían el museo de los Goncourt.

 

   

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

E, the last but not the least, siga o @inter_estadão, o Twitter da editoria de Internacional do estadão.com.br .
Conheça também os blogs da equipe de Internacional do portal correspondentes, colunistas e repórteres. 
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. 
.………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Não é permitido postar links de vídeos. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comente!

Caras e caros,

Estarei fora do ar durante duas semanas. Parto daqui a poucos minutos para uma viagem para preparar um material especial.

E já que este é um breve intermezzo blogger, deixo para vocês o intermezzo da “Cavalleria rusticana”, de Pietro Mascagni, aqui.

Até logo! Nos vemos a partir do 30 de maio.

Abraços,

Ariel

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

E, the last but not the least, siga o @inter_estadão, o Twitter da editoria de Internacional do estadão.com.br .
Conheça também os blogs da equipe de Internacional do portal correspondentes, colunistas e repórteres. 
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. 
.………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Não é permitido postar links de vídeos. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comente!

 

Passageiros do sistema ferroviário da área metropolitana portenha viajam como sardinhas em uma lata. Desta forma, quando acontece um acidente, o acotovelamento dentro dos vagões magnifica o número de vítimas mortais.

Um trem da ferrovia Sarmiento descarrilou nesta quarta-feira de manhã ao entrar na estação de Once, no bairro de Balvanera, no macro-centro portenho, e bater contra a gare.

O choque – que transformou os vagões em uma massa de ferragens deforme – provocou a morte de 49 pessoas (48 adultos e uma criança). Outros 550 passageiros foram feridos. A maior parte das mortes ocorreu no primeiro e o segundo vagão.

O decadente sistema ferroviário argentino – e especialmente a linha Sarmiento – é famoso por “comprimir” os passageiros nos vagões como se fossem sardinhas em uma lata.

Quase todos passageiros do acidente desta quarta-feira conseguiram sair sozinhos dos vagões – ou foram removidos com ajuda de policiais e civis – nos primeiros minutos. No entanto, 60 pessoas ficaram presas nas ferragens durante quatro horas.

Rubén Sobrero, líder do sindicato dos ferroviários, afirmou que era um “dia de luto”. O sindicalista criticou o governo e as empresas de trensa pelo péssimo estado do sistema. Segundo ele, há anos a organização denuncia “a falta de investimentos” nas ferrovias e na manutenção de trens e vagões.

Os trens da linha Sarmiento são envelhecidos Toshibas dos anos 50 e 60, importados do Japão. Os passageiros costumam reclamar desde os anos 90 – época na qual o sistema de ferrovias foi privatizado pelo então presidente Carlos Menem (1989-99) – sobre a péssima qualidade de manutenção dos vagões e locomotivas.

O deputado e cineasta Fernando “Pino” Solanas, do partido de oposição Projeto Sul, afirmou que “há vários anos que a presidente Cristina Kirchner escuta, lê e vê estas denúncias e nada faz…”. Segundo Solanas, a falta de responsabilidade sobre o sistema ferroviário começou nos tempos de Menem e continua no governo atual.

Nos últimos 10 anos, em diversas ocasiões passageiros furiosos com os atrasos e as péssimas condições de transporte incendiaram vagões dos trens das diversas linhas ferroviárias que ligam a capital argentina com os municípios de sua região metropolitana.

Ao longo do último ano os sucateados trens portenhos protagonizaram cinco acidentes graves (incluindo o da estação Once), dois deles com vítimas fatais. No total, esses acidentes acumularam 780 feridos, além de 65 mortos.

O pior acidente da História da Argentina ocorreu em 1970, quando dois trens chocaram. Na ocasião morreram 200 pessoas.

   .

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

E, the last but not the least, siga o @inter_estadão, o Twitter da editoria de Internacional do estadão.com.br .
Conheça também os blogs da equipe de Internacional do portal correspondentes, colunistas e repórteres. 
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. 
.………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Não é permitido postar links de vídeos. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comente!

 

Celebração de arromba toma conta do quartel-general náutico do blog “Os Hermanos” na noite do dia 23, a pré-Véspera Natalina. A noitada foi embalada por um de nossos dois grupos (amadores) de gaita de foles, o “Los troesmas de Villa Crespo”. Os integrantes do outro conjunto, de “Los avivados de Balvanera”, passaram mal com a maré do Rio da Prata, assaz encrespado. O grupo embalou o início da ceia com o clássico “I left my heart in Chascomús”, passando depois para uma versão techno-milonga de “Adiós Quixeramobim mía”. Como de costume, o deputado Mutatis de Olivera e seu irmão e senador Mutandis de Olivera – reeleitos em outubro passado – fizeram discursos com um balanço de 2011 (Mutatis) e sobre as perspectivas para 2012 (este, o Mutandis). Na seqüência, o senador Byron Bezerra, que veio especialmente de S.Luis (Maranhão, não o território puntano), começou a recitar um poema épico. No entanto, a ingestão opípara de mollejas, preparadas por nosso chef, Bolívar Pueyrredón-Billinghurts, somado ao balançar do navio, e um chimichurri de duvidosa validade, provocaram distúrbios de caráter estomacal que interromperam a leitura poética. No entanto, o parlamentar não perdeu a oportunidade de despotricar contra o monopólio do sal de frutas e pediu “alka-seltzer para todos”. Foi ovacionado pelos presentes, que pediram a criação de uma comissão – em caráter de urgência – para encaminhar um projeto de lei a ambos países “nesse sentido”. Menu da noitada: mollejas à provençal, pizza e fainá “revisitado”. Tudo regado – comme il faut – com moscato “El Vasquito”.

Aos amigos, comentaristas e leitores, uma supimpa jornada natalina!

Abraços,

Ariel

PS: De obséquio natalino, deixo esta breve seleção musical:

Ariel Ramírez e sua “Misa Criolla” (Gloria e AgnusDei):

A voz de Mercedes Sosa, que canta “Todo cambia” na delirante cena de “Habemus papam” do diretor italiano Nanni Moretti:

Charles Trènet canta “La Mer”

 

Charles Trènet canta “Boum!”

Sweet Georgia Brown, com Django Reinhardt e Stephane Grapelli

Sweet Georgia Brown, na versão de Mel Brooks e Anne Bancroft…em polonês!

E Oscar Alemán, em “Al gran Horacio Salgán”

 

Los Troesmas de Villa Crespo em todo seu esplendor.

.

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

E, the last but not the least, siga o @inter_estadão, o Twitter da editoria de Internacional do estadão.com.br .
Conheça também os blogs da equipe de Internacional do portal correspondentes, colunistas e repórteres. 
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. 
.………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Não é permitido postar links de vídeos. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (2)| Comente!

 

A presidente Cristina Kirchner assinou um decreto publicado na segunda-feira no Diário Oficial da Argentina, no qual convoca o Congresso Nacional a realizar sessões extraordinárias para debater e votar uma série de projetos de lei, entre os quais está a declaração de “interesse público” da produção, comercialização e distribuição de papel de jornal em toda a Argentina. A presidente Cristina, no decreto, determinou que esse projeto – entre outros – sejam votados no plenário da Câmara de Deputados e no Senado no máximo até a véspera do Reveillon, dia 30 de dezembro.

O projeto – aprovado na comissão da Câmara nesta terça-feira com uma velocidade nunca antes vista – é um golpe direto aos dois maiores jornais do país, o “Clarín” e o “La Nación”, ambos de posições críticas com o governo.

O projeto poderia ser votado na Câmara de Deputados nesta sexta-feira. Se for aprovado – como tudo indica, graças à maioria do governo no plenário – irá na semana que vem ao Senado.

Se for aprovada, a lei irá na contra-mão da Convenção Americana de Direitos Humanos – o Pacto de San José de Costa Rica – que proíbe expressamente a aplicação de controles sobre papel-jornal.

Alguns setores da oposição – principalmente os partidos de centro e centro-direita – afirmam que o projeto da presidente Cristina não passa de uma “estatização encoberta” da única fábrica de papel de jornal em funcionamento no país.

Atualmente o Clarín possui 49% das ações da Papel Prensa. O Estado argentino é o segundo acionista, com 27,6%. O jornal “La Nación” possui 22,49%. Os restantes 1,05% estão nas mãos de pequenos investidores.

Caso o projeto seja aprovado, o “Clarín” e o “La Nación” serão forçados a vender suas ações, já que as novas normas proíbem que empresas de jornais impressos possam ter ações na “Papel Prensa”.

“Claramente, é um projeto com intencionalidade política. Apesar do impacto que isto pode ter, o governo pretende votá-lo às pressas, antes do fim do ano, com um Parlamento novo, que acabou de tomar posse há poucos dias. Além disso, nenhum meio de comunicação foi convocado às comissões parlamentares para expressar sua opinião sobre o caso”, disseram ontem ao Estado fontes do jornal “Clarín”. “É um confisco encoberto”, sustentaram as fontes, que ressaltaram que o projeto visa, além de um controle estatal sobre o papel de jornal, o favorecimento dos meios de comunicação aliados do governo, o denominado ‘amigopólio’”.

O projeto também determina que qualquer pessoa que tenha mais de 10% de ações de uma empresa de jornal impresso não poderá participar da “Papel Prensa”. Desta forma, fica aberto o caminho para que os novos acionistas sejam empresários de outros setores da economia. Analistas afirmam que donos de empreiteiras, com boa relação com o governo Kirchner, já estão de olho na “Papel Prensa”.

Nos artigos 16 e 41 o projeto determina que o Estado, que possui atualmente 27% das ações da Papel Prensa, poderá ampliar seu capital na empresa.

FISCALIZAÇÃO ESTATAL - Caso o projeto seja transformado em lei o papel de jornal será fiscalizado por uma entidade ainda a ser criada, a Autoridade Federal para o Controle e Acompanhamento da Produção, Distribuição e Comercialização de Papel de pasta de celulose para os jornais (AFePDICop). Esta entidade será comandada por um funcionário, designado pelo Poder Executivo, com um mandato de quatro anos de duração.

O governo Kirchner havia tentado aprovar esse projeto no ano passado, quando estava em minoria no Parlamento. No entanto, desde a semana passada a presidente Cristina conta – somando parlamentares próprios e aliados – com uma confortável maioria para obter a aprovação da lei.

CARTAZES - Neste fim de semana, após a posse de Cristina, reeleita para um segundo mandato que se prolongará até 2015, cartazes com os dizeres “Tchau, Clarín” em letras garrafais foram colocados nas paredes de Buenos Aires.

Os cartazes, de autoria da Juventude Peronista, do Movimento de União Popular e da “Kolina” (grupo político da ministra da Ação Social, Alicia Kirchner, irmã do ex-presidente Nestor Kirchner, morto em outubro de 2010 e cunhada da presidente Cristina), também ostentavam a frase “nenhum monopólio resistirá três governos populares” (alusão ao governo de Kirchner e os dois mandatos de Cristina).

“O FIM” - O jornalista e historiador Jorge Lanata, fundador do jornal “Página 12” na segunda metade dos anos 80, disse ao Estado que a eventual aprovação da declaração de “interesse público” da produção e distribuição de papel de jornal, será “o fim do jornalismo na Argentina”. Segundo Lanata, os governos de plantão poderão determinar maiores quantidades de papel de jornal aos periódicos alinhados ou condescendentes com a Casa Rosada, enquanto que os jornais críticos correriam o risco de receber quantidades mínimas desse insumo.

Lanata foi recentemente apedrejado por militantes kirchneristas enquanto o jornalista participava ao ar livre de um debate sobre liberdade de imprensa na Universidade de Palermo.

Ao longo do ano passado o governo tentou culpar o “Clarín” e o “La Nación” de terem realizado em 1976 uma compra irregular, por intermédio de torturas, durante a ditadura, da “Papel Prensa”. No entanto, nada foi comprovado até o momento.

Um breve interlúdio musical com o argentino-israelense Daniel Barenboim e a Filarmônica de Berlim. Barenboim rege um clássico das milongas argentinas: “Taquito Militar”. Na sequência, a rocambolesca história da Papel Prensa.

A PECULIAR HISTÓRIA DA PAPEL PRENSA

 

David Graiver, banqueiro de Perón que financiava militares de direita e guerrilheiros de esquerda, morreu misteriosamente no México.

Em 1969 Papel Prensa foi criada por decreto do general Juan Carlos Onganía. Em 1972, quando governava o general Alejandro Lanusse, a empresa foi entregue a Cesar Augusto Civita e à Editora Abril. Em 1973, durante o governo de Juan Domingo Perón, o ministro da Economia, José Ber Gelbard, forçou a venda ao banqueiro David Gravier, aliado do governo peronista. Além desta aliança com Perón o banqueiro também tinha intrincadas relações financeiras com os militares e com o grupo guerrilheiro Montoneros.

Em 1975 os guerrilheiros entregaram a Graiver US$ 17 milhões de um total de US$ 60 milhões obtidos com sequestro dos irmãos Born (os principais milionários da Argentina na época) para que o banqueiro os investisse.

Em 1976 os militares derrubaram o governo de Isabelita Perón. Graiver morreu em agosto de 1976 em estranho acidente de avião no México. Seus bancos na Europa e EUA faliram. Nessa conjuntura complicada, seus herdeiros venderam as ações da Papel Prensa no dia 2 de novembro daquele ano. Um mês depois, os Montoneros pressionaram a víuva para que entregasse o dinheiro que seu falecido marido havia administrado para a guerrilha, ameaçando-a jogar pela janela de seu edifício.

Seis meses depois Papaleo e seu cunhado, Isidoro Graiver, foram detidos pelos militares, acusados de ter o dinheiro do sequestro feito pelos Montoneros. Os militares confiscaram diversos bens da família e torturaram Lídia e Isidoro.

Em 1986 Papaleo prestou depoimento nas investigações realizadas na época sobre crimes da ditadura. Na ocasião afirmou que havia sido detida em março de 1977, meses depois da venda de Papel Prensa. Ela foi indenizada em US$ 84 milhões pelo presidente Raúl Alfonsín pelos confiscos aplicados pelos militares. Na ocasião, Lídia nada reclamou sobre a Papel Prensa.

O surgimento da polêmica sobre Papel Prensa trouxe à tona, além de Lídia Papaleo, seu irmão, Osvaldo, que foi porta-voz em 1975 da então presidente Maria Estela Martinez de Perón, a.k.a. “Isabelita”, viúva de Perón.

Osvaldo Papaleo, que participou abertamente de reuniões políticas com integrantes do kirchnerismo, foi também um dos principais homens de José López Rega, astrólogo e super-ministro da então presidente Isabelita Perón. López Rega criou na época uma força paramilitar de extrema-direita, a “Tríplice A”, com a qual perseguia representantes de partidos da esquerda e da própria ala esquerdista do partido governista, o Justicialista.

OS TIMERMAN - Graiver também havia investido no jornal “La Opinión” e no “La Tarde”, respectivamente de Jacobo Timerman e de Héctor Timerman, pai e filho.

Jacobo, que foi um enfático defensor do golpe de Estado de 1976 (já havia defendido o golpe de 1966, que derrubou o então presidente Arturo Illia), posteriormente foi detido e torturado selvagemente pelos militares, seus ex-aliados. Jacobo foi salvo graças à intervenção pessoal do presidente americano Jimmy Carter.

O filho de Jacobo, Héctor, que também comandou um jornal que respaldou a preparação do golpe militar, transformou-se nos anos 80 em ativista dos direitos humanos. Atualmente é o chanceler do governo Kirchner.

DIFERENTES VERSÕES PARA UMA HISTÓRIA

- Dos jornais Clarín e La Nación

a) Ambas empresas – junto com o já extinto La Razón – afirmam que compraram as ações da família Graiver-Papaleo em novembro de 1976. As torturas, nas quais indicam que não tiveram participação, só começaram em março de 1977.

b) Além disso, o jornal “La Nación” publicou em 2010 uma denúncia feita pelo presidente da diretoria do próprio periódico portenho, Julio Saguier, que indica que Lidia Papaleo de Graiver, a viúva de David Graiver – o falecido dono da empresa Papel Prensa – teria negociado com a presidente Cristina Kirchner e seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner um pagamento para contar outra versão da História sobre a venda em 1976 da companhia, a única produtora de papel de jornal da Argentina.

Saguier afirma que reuniu-se em maio deste ano com Papaleo para um café no elegante Hotel Alvear. Na ocasião, o governo Kirchner já havia deslanchado o confronto com o “Clarín” e o “La Nación” por causa da Papel Prensa. Papaleo aceitou conversar com Saguier por agradecimento à boa relação que teve com seu pai, Julio César Saguier, primeiro prefeito de Buenos Aires com a volta da democracia, em 1983.

Papaleo, nessa conversa, teria confessado a Saguier que os Kirchners lhe ofereceram US$ 200 mil de entrada, caso confirmasse a versão do casal presidencial sobre o caso de Papel Prensa. Mas, na hipótese de que a “operação fosse coroada com sucesso” contra ambos jornais, receberia outros US$ 2 milhões.

Papel Prensa era comandada em meados dos anos 70 pelo banqueiro David Graiver. Mas, com a misteriosa morte deste, em agosto de 1976, em um acidente de avião no norte do México, as ações passaram para sua viúva Lídia, que era psicóloga e mãe da filha de ambos, María Sol Graiver. Em novembro daquele ano, em meio a problemas financeiros provocados pela falência dos bancos do falecido marido, Papaleo vendeu as ações aos jornais “Clarín”, “La Nación” e o “La Razón” (posteriormente extinto).

Na conversa com Saguier a viúva admitiu que precisava do dinheiro oferecido pelos Kirchners, já que sua fortuna havia ficado com sua filha María Sol, com a qual não conversa há anos. Papaleo teria dito a Saguier que o acordo com os Kirchners foi pactuado após três reuniões. Para evitar a filtragem de informações sobre esses encontros realizados na residência presidencialde Olivos, o deputado Carlos Kunkel, amigo de juventude dos Kirchners e um de seus principais homens no Parlamento, levou Papaleo pessoalmente em seu carro.

- Do governo Kirchner

Meses atrás o governo afirmou que Lidia Papaleo foi torturada em novembro de 1976, ocasião na qual foi forçada a vender as ações da empresa.

Depois, perante a polêmica, o governo emitiu uma segunda versão, na qual sustentava que os membros da família Graiver-Papaleo viviam em uma “liberdade ambulatória” e que haviam sido levados à força para a assinatura da venda das ações.

- Da viúva Papaleo (quatro versões diferentes)

a) Na segunda metade dos anos 80 declarou perante a Justiça – durante o julgamento das juntas militares – que havia sido torturada em março-abril de 1977 porque os militares suspeitavam que ela tinha dinheiro da guerrilha Montoneros. Na ocasião, Papaleo não vinculou suas torturas com a venda de Papel Prensa.

b) Nos últimos meses sustentou que foi intimidada e posteriormente detida e torturada para vender as ações de Papel Prensa.

c) Perante a Justiça em La Plata afirmou que enquanto esteve detida pelos militares não saiu da prisão para assinar a venda das ações de Papel Prensa.

d) A mais recente versão é a da conversa com Saguier, na qual teria admitido que receberia dinheiro para inventar um relato favorável às intenções dos Kirchneres.

- De Isidoro Graiver, irmão do falecido David Graiver, torturado no mesmo centro de detenção de Lidia Papaleo

A venda das ações foi em novembro de 1976; prisão e torturas ocorreram em março e abril de 1977. Segundo Isidoro, não há vínculos entre os dois jornais e as torturas contra a família.

- De Gustavo Caraballo, ex-embaixador do governo de Juan Domingo Perón na Unesco

Caraballo afirma que foi torturado junto com Lídia Papaleo de Graiver em 1977, confirmou que as sessões de tortura ocorreram vários meses depois da operação de venda

 

Presidente argentina tenta conseguir controle da mídia, tal como fundador do peronismo fez há 60 anos. Na foto, Perón abraça o ditador e general paraguaio Alfredo Stroessner.

NA GUERRA CONTRA A IMPRENSA, CRISTINA SEGUE OS PASSOS DE PERÓN

Poucos meses antes de morrer em 1974, o presidente Juan Domingo Perón admitiu: “fui colocado para fora do governo quando tinha todos os meios de comunicação a favor…e ganhei as eleições quanto os tinha todos contra mim!”. Perón referia-se à sua queda, em 1955, época em que ostentava um controle sem precedentes da maioria dos meios de comunicação, e de sua vitoriosa eleição, em 1974, quando a mídia era majoritariamente contra o septuagenário caudilho.

A presidente Cristina Kirchner, afirmam analistas e representantes da oposição, em vez de comportar-se como o Perón dos últimos anos, reprisam a ambição de controle dos meios de comunicação que o caudilho exercia nos anos 40 e 50.

Um dos sinais mais evidentes foi a aprovação – em 2009 – da polêmica lei de radiodifusão – também denominada de “lei de mídia” – que determina maior controle da mídia por parte do governo.

Da mesma forma que os Kirchners tentam atualmente destruir o poder do Grupo Clarín, o maior holding multimídia argentino, Perón e sua esposa Eva colocaram uma série de restrições à mídia privada e armaram uma super-estrutura de meios de comunicação estatais, além de redes privadas de empresários “amigáveis”.

DEFENSIVA E OFENSIVA - Segundo o historiador Eduardo Lazzari, Perón inicialmente tentava defender-se dos ataques da oposição. Mas, logo depois percebeu que a defesa não era suficiente e fechou jornais como “La Prensa”, entregue a sindicalistas fiéis.

Nos dois primeiros governos de Perón (1946-55), grande parte dos donos de meios de comunicação foram pressionados a vender seus jornais, revistas e estações de rádio. Em alguns casos, se os empresários mostrassem obediência, podiam ser designados como diretores de suas ex-empresas, agora estatizadas, de forma a camuflar a compra compulsória realizada pelo governo.

O modus operandi era o de destinar os fundos necessários para essas compras eram provenientes do Instituto Argentina para o Estímulo ao Intercâmbio (Iapi), comandado por Miguel Miranda, um gênio da contabilidade criativa.

MÍDIA ALIADA - O governo peronista contava com um quarteto de redes de comunicação. Além do colossal monopólio estatal, o Alea SA, tinha o respaldo de três grupos nominalmente privados: a editora Heynes, a Associação Promotores de Teleradiodifusão e a editora La Razón, que editava o influente jornal homônimo.

Tal como o governo da presidente Cristina Kirchner fez com o jornal “Clarín” em 2009 ao realizar uma blitz de insólitas proporções da Afip (a receita federal argentina) – as companhias jornalísticas que resistiam ao assédio de Perón eram pressionadas com o Fisco.

O braço inquisidor do governo peronista era a Comissão Bicameral de Atividades Argentinas, comandada pelo ultra-peronista deputado Emilio Visca, que vasculhava os livros de contabilidade dos jornais não alinhados com Perón para ter argumentos para seu fechamento, confisco ou intervenção.

Capas do La Prensa quando havia sido confiscada pelo governo de Perón. Manchetes mostram alinhamento ostensivo com Perón, que havia ficado viúvo (pela segunda vez) com a morte de Eva Perón.

LA PRENSA - Esse foi o caso de “La Prensa”, jornal da aristocrática família Paz – definido pela revista americana “Time” como um dos mais respeitados periódicos do mundo na época – e detestado por Evita Perón, a primeira-dama. O “La Prensa”, cuja tiragem era de 480 mil exemplares, tornou-se alvo de uma campanha do governo a partir de 1947.

O “La Prensa” foi atacado pelas rádios aliadas do governo e enfrentou uma campanha oficial que promovia o boicote da compra de seus exemplares. Os anunciantes eram pressionados para não colocar publicidade nas páginas do “La Prensa”. O racionamento de papel encolheu o jornal das 40 páginas costumeiras a apenas 12. Mas, o jornal, apesar das pressões, continuava saindo às ruas.

Em 1950, o governo confiscou as novas rotativas importadas e as destinou para o “Democracia”, jornal editado pelo próprio Estado argentino. Em 1951 o sindicato dos jornaleiros ameaçou não distribuir mais o periódico.

Na sequência, com a aprovação do Parlamento – no qual o peronismo era maioria – foi confiscado e entregue à Confederação Geral do Trabalho (CGT), a única central sindical autorizada por Perón. O líder do bloco peronista na Câmara, John William Cooke, afirmou que o governo estava contra “La Prensa” porque, segundo ele, o jornal “estava contra os operários e contra os peronistas”.

Outros jornais, como “La Nación” – que já enfrentava o racionamento de papel de jornal, controlado pelo governo – tiveram que moderar suas críticas ao presidente Perón, para evitar correr destino similar ao “La Prensa”.

Com a queda de Perón em 1955, o “La Prensa” voltou às mãos de seus donos originais. No entanto, o jornal nunca mais foi o mesmo, já que durante a intervenção iniciou uma fase de decadência que foi aproveitada por um períodico que começava seus primeiros passos, o “Clarín”, a atual fonte de irritação para o casal Kirchner.

 

Modelo francesa da década de 1920 posa com vestido feito de papel-jornal.

“Tranqüilo, viejo, tranqüilo”, com Tita Merello:

“Se dice de mi”, também com Tita Merello:

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

E, the last but not the least, siga o @inter_estadão, o Twitter da editoria de Internacional do estadão.com.br .
Conheça também os blogs da equipe de Internacional do portal correspondentes, colunistas e repórteres. 
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. 
.………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Não é permitido postar links de vídeos. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comente!

“Louvado seja o amor em que não há possuidor nem possuída, mas os dois se entregam” dizia o escritor argentino Jorge Luis Borges.

Aproveitamos o dia dos namorados para colocar uma série de poemas de amor, comentários feitos em entrevistas e pensamentos esparsos sobre o amor e a paixão pronunciados pelo escritor argentino Jorge Luis Borges.

Nesta terça-feira completam-se 25 anos de seu falecimento em Genebra. Estão convidados a voltar ao blog nesse dia, para ver uma ampla postagem sobre o autor de “O Aleph”.

 O AMOR, SEGUNDO BORGES

Apaixonar-se é criar uma religião cujo deus é falível. “O Encontro com Beatriz”, 1949

Vale a pena ser infeliz muitas vezes para ser feliz um minuto. Petit, 1980.

Estar apaixonado é perceber o único que há em cada pessoa, esse único que não pode se comunicar a não ser por meio de hipérboles ou de metáforas. “Assim escrevo meus contos”, 1981

Apaixonar-se é produzir uma mitologia particular e fazer do universo uma alusão à única pessoa indubitável. Contraviento, 1984.

Parece que esta época tem se afastado de todas as versões do amor…parece que o amor é algo que deve ser justificado, o que é raríssimo, porque a ninguém se lhe ocorre justificar o mar, ou um pôr do sol, ou uma montanha: não necessitam ser justificados.  ABC, 1986.

POEMAS

O ENAMORADO                                            1977

Luas, marfins, instrumentos, rosas,

Lâmpadas e a linha de Dürer,

As nove cifras e o mutável zero,

Devo fingir que no passado foram

Persépolis e Roma e que uma areia

Sutil mediu a sorte da ameia

Que os séculos de ferro desfizeram.

Devo fingir as armas e a pira

da epopeia e os pesados mares

Que roem da Terra os pilares.

Devo fingir que há outros. É mentira.

Só tu és. Tu, minha desventura

E minha ventura, inesgotável e pura.

TWO ENGLISH POEMS                         1964

                                          To Beatriz Bibiloni Webster de Bullrich

The big wave brought you.

Words, any words, your laughter; and you so lazily

and incessantly beautiful. We talked and you

have forgotten the words.

(…)

Your profile turned away, the sounds that go to

make your name, the lilt of your laghter;

these are illustrious toys you have left me.

(…)

I must get at you, somehow: I put away those

illustrious toys you have left me, I want your

hidden look, your real smile – That lonely,

mocking smile your cool mirror knows.

II

What can I hold you with?

I offer you lean streets, desperate sunsets, the

moon of the jagged suburbs.

(…) I offer you explanations of yourself, tehories about yourself, authentic and surprising news of yourself.

I can give you may loneliness, my darkness, the

hunger of my heart; I am trying to bribe you

with uncertainty, with danger, with defeat.

A ESPERA

Antes que toque a apressada campainha

E abram as portas e entres, oh esperada

Pela ansiedade, o universo tem

que ter executado uma infinita

série de atos concretos.

Ninguém pode computar essa vertigem,

a cifra daquilo que multiplicam os espelhos,

de sombras que se alongam e regressam,

de passos que divergem e convergem.
A areia não sabia numerá-los.

(Em meu peito, o relógio de sangue mede

O temerário tempo da espera).

Antes que chegues,

Um monge tem que sonhar com uma âncora,

Um tigre tem que morrer em Sumatra,

Nove homens têm que morrer em Bornéu. 

Borges e umas groupies no final dos anos 60

LE REGRET D’HERACLITE                 

Eu, que tantos homens tenho sido, nunca fui              

aquele em cujo amor desfalecia Matilde Urbach.                   

Gaspar Camerarius, em Deliciae Poetarum Borussiae, VII,16.

FRAGMENTOS DE UN EVANGELIO APÓCRIFO (ELOGIO DE LA SOMBRA)

50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor.

AS MULHERES, SEGUNDO BORGES

 É uma sorte que existam; e existem quase mais do que eu. São seres muito mais práticas. Bienek, 1965

Imaginar uma mulher é um ato de fé. Milleret, 1970

No século XIX, Ibsen assombrou toda a Europa com sua “Casa de Bonecas”. Nessa comédia, Nora Helmer deixa seu lar para viver sua própria vida. Em Paris tiveram que lhe acrescentar um amante para que essa decisão não fosse um escândalo. Em Londres e em Berlim, fizeram que se arrependesse e voltasse à casa.

Sou, evidentemente, feminista. É uma insensatez não sê-lo. Nos Estados Unidos ser feminista é algo que não exige explicações. Em nossa América ainda há muito que fazer. Para um homem há algo mágico em todas as mulheres. Montenegro, 1983

Muitos mais sensatas que os homens e a prova está na história universal. Oscar Wilde tinha razão ao dizer que o universal era uma série de crônicas policiais. Em todas essas crônicas – guerras, conflitos, confrontos, etc. – a mulher foi sempre mais sensata que o homem. Conde, 1985

Em uma entrevista perguntaram a Borges:

“Que imagem tem das mulheres?”

Borges respondeu: “A mesma que todo mundo…A mulher é algo tão vago, são tão diferentes uma das outras, não se pode generalizar”.

Apesar de meus 82 anos, elas continuam a ocupar (um lugar em minha vida), porque, de uma maneira ou de outra, a gente se sente jovem (…)com a idade os homens perdem a capacidade de amar. Com a idade eles perdem a capacidade de mentir. Mas eu não perdi, com a idade, a capacidade de me surpreender com tudo.

 Enganam-se aqueles que pensam que não conheci o amor. Posso afirmar que tenho vivido enamorado. O primeiro amor (ideal, certamente) de minha vida foi uma atriz, Ava Gardner. Costumava ver seus filmes duas vezes por dia. Tão logo terminava a sessão, desejava que chegasse o dia seguinte para voltar a vê-la. O amor exige provas. Provas sobrenaturais. (Peicovich, E. 1988, 27)

Adolfo Bioy Casares disse, após a morte de Borges que seu amigo “passou a vida enamorado, sofrendo muitíssimas vezes”, No entanto, não aceitava levar o amor para a literatura. “Borges tinha uma postura quase puritana contra o amor”.

BÔNUS TRACK

“Enamorar-se é criar uma religião cujo deus é falível” (Do prólogo à Divina Comédia. Buenos Aires, 1949).

“Infinitamente existiu Beatriz para Dante; Dante, muito pouco, talvez nada, para Beatriz” ( Do prólogo à Divina Comédia. Buenos Aires, 1949).

“A amizade não é menos misteriosa que o amor e que qualquer das outras facetas desta confusão que é a vida” (O Informe de Brodie, 1970).

“O matrimônio é um destino pobre para a mulher” (1980)

“O coito é aquele momento da felicidade em que cada um é dois, a união em que nos perdemos logo no sonho” (1980).

“Escrevi “Ulrica”, um conto de amor, porque agora posso fazê-lo; porque perdi o pudor” (1980). 

Borges fala sobre o amor e a amizade, aqui.

E, nada da ver com o autor de “O Informe de Brodie” e “A História da Eternidade”, “Love is a many splendored thing”, do filme homônimo, por Nat King Cole, aqui.

E, falando em filmaços românticos, “An affair to remember”, do filme do mesmo nome, cantada pela genial Deborah Kerr, uma das mais emblemáticas ruivas do cinema mundial, aqui.

E – para terminar – do mesmo filme, minha cena preferida, quando Cary Grant visita a avó no sul da França em companhia de Deborah Kerr. Aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (9)| Comente!

Bairro de Villa Soldati, em plena capital argentina, é cenário de batalha campal. Moradores atacam e matam imigrantes bolivianos e paraguaios. Prefeito Macri acusa presidente Cristina de omissão e de permitir massacre, governo federal acusa governo municipal de xenofobia e de incapacidade de lidar com crise. Todos contra todos, tal como nesta gravura de 1550 do geógrafo alemão Sebastian Munster, que mostra monstros marinhos tentando matar uns aos outros.

RESUMO: Na semana passada surgiu um assentamento no parque Indo-americano. Moradores de Villa Soldati, em protesto contra a presença desse grupo, iniciaram protestos que transformaram-se em um dia em ataques violentos. Trinta pessoas, a maioria imigrantes, foram feridas nos incidentes. Quatro imigrantes foram assassinados no meio dos choques, segundo sistema médico SAME. Mas, governo federal e municipal, inimigos políticos, discordam e afirmam que foram três mortos.

As cenas de violência protagonizadas pelos habitantes da classe média baixa de V.Soldati gerou a sensação de que ali poderia ocorrer um mini-pogrom.

Durante três dias, o governo da presidente Cristina Kirchner – apesar da emergência – nada fez para impedir os ataques dos moradores de Soldati contra os imigrantes. No mesmo período, o governo do prefeito Maurício Macri tampouco enviou a maior parte de suas forças de segurança para impedir o caos e separar os dois grupos em choque.

Desde o fim de semana existe uma calmaria aparente na área, quando o governo finalmente enviou a Gendarmería (corpo especial de segurança, especializado em dissipar manifestações e rebeliões sociais) ao parque.

A Gendarmería cercou o assentamento. Por um lado, não permite que entrem moradores para agredir ou queimar os barracos dos imigrantes, tal como ocorreu durante a semana. Por outro lado, não permite que os integrantes do assentamento entrem com materiais de construção para edificar suas casas.

 - Nenhuma pessoa responsável pelas mortes está detida…

COMEÇO DA CRISE

 Cenário: Parque Indo-americano, em Villa Soldati, na área sudoeste da cidade de Buenos Aires. O bairro está dentro das fronteiras portenhas, sob administração do prefeito Maurício Macri, de oposição. V.Soldati é um bairro de classe média baixa. Dentro de seus limites existem três favelas pequenas.

Na área do parque também está um bairro de casas populares construídas para300 famílias do bairro Los Piletones pela organização de defesa dos Direitos Humanos das Mães da Praça de Mayo, cuja líder é Hebe de Bonafini, há vários anos aliada do governo Kirchner.

 Estopim: Na 2afeira, Sergio Schocklender, braço-direito da líder das Mães da Praça de Mayo Hebe de Bonafini, solicitou o auxílio da Polícia Metropolitana porque “narco-traficantes armados tentaram ocupar a tiros a área da construção” das casas construídas pelas Mães da Praça de Mayo. “Eram os narcos das favelas mais conhecidas. Queriam ocupar as casas e nos ameaçavam matar se não fôssemos embora dali”, disse Schocklender. “Uns espertalhões que queriam ocupar as moradias que estavamos construindo”. O integrante das Mães criticou Macri e que disse que em vez de remover os integrantes do assentamento, “a polícia da prefeitura ficava vigiando apenas os bairros de Palermo, Puerto Madero e o norte da cidade”. Schocklender, que antes da ameaça de ocupação do bairro da organização que integra era a favor de assentamentos, nesta semana disse que “não se pode permitir que em cada praça ou terreno seja montada uma favela”. Segundo ele, os “narcos” haviam enganado centenas de pessoas para que se instalassem nos terrenos vizinhos do parque.

 Primeiros choques: Na terça-feira, após o pedido de Schocklender, a Polícia Federal e a Polícia Metropolitana foram ao parque Indo-americano para despejar as famílias que ali haviam instalado-se.

Os integrantes do assentamento responderam com pedradas e tentaram fazer barricadas de pneus em chamas para evitar o despejo. A Polícia Federal espancou com fúria os imigrantes, que foram removidos do lugar.

O saldo do choque nesse dia: dois mortos, Bernardo Salgueiro e Rosemarie Puja. Foram mortos com tiros de armas usadas pela Polícia Federal.

 Mais choques: Na quarta-feira de manhã, mil famílias, de diversas favelas portenhas da área e também da Grande Buenos Aires, instalaram-se novamente nos lotes que haviam marcado nos dias anteriores no parque Indo-americano. O grupo organizou-se e fez um cadastramento das pessoas que eram da área. Eles também indicam que pretendiam negociar com a prefeitura um plano de moradias, em troca de deixar o assentamento. Nesse dia também surgiram denúncias de que dentro do assentamento várias pessoas estavam vendendo os lotes marcados a outras pessoas que não eram do grupo original.

A Polícia, nesse momento, sumiu.

O cenário complicou-se quando moradores do bairro de Villa Soldati começaram a protestar contra a presença dos imigrantes no parque. Na ocasião começaram os gritos xenófobos e as primeiras agressões físicas.

À tarde, a situação estava descontrolada.

 Choques mais intensos: Na quinta-feira as manifestações dos moradores de Villa Soldati cresceram e ficaram mais violentas. Homens armados, encapuzados, atacaram os imigrantes.

Nesse dia morreu um terceiro imigrante com um tiro.

A Polícia Federal, comandada pelo governo Kirchner, e a Polícia Metropolitana, comandada pelo prefeito Macri, ausentaram-se do cenário de violência desatada.

 Área liberada: Na sexta-feira no fim da tarde a área era “área liberada” para a ação de grupos que continuaram atacando os imigrantes. Villa Soldati transformou-se no cenário de uma batalha campal.

De manhã, a viúva de uma das vítimas chorava perante as câmeras de TV a morte do marido. Um morador do bairro, robusto, de cabeça rapada e segurando um pit-bull pela correia, sem se importar com o estado da viúva, lhe gritava: “Vai embora daqui! Vá pedir uma casa para a presidente em El Calafate (trata-se de um acolhedor vilarejo na Patagônia onde a presidente Cristina possui uma luxuosa casa para passar os fins de semana)”.

À noite, o prefeito Maurício Macri pediu auxílio ao governo federal, alegando que a polícia metropolitana, recém-criada, não possui força suficiente para debelar a rebelião surgida em Villa Soldati e impedir que os moradores do bairro ataquem os imigrantes.

Os integrantes do governo da presidente Cristina Kirchner deixaram claro que não pretendiam ajudar Macri e o culpavam de ter permitido que a crise ficasse fora de controle.

Sem a presença das forças de segurança, os imigrantes imploraram aos jornalistas que cobriam os incidentes não fossem embora dali, já que eram sua única garantia do crescimento do ataque. Os jornalistas também foram ameaçados pelos moradores de Villa Soldatti.

Vários imigrantes foram internados em hospitais com feridas de bala na cabeça e nas pernas. Os disparados teriam sido feitos pelos moradores do bairro. 

 FESTA E MASSACRE – Como se estivesse em outro planeta – enquanto imigrantes estavam sendo espancados e assassinados a três quilômetros de distância da Casa Rosada – a presidente Cristina Kirchner, com a presença do juiz espanhol Baltasar Garzón e o neto de Luther Martin King, celebrava o dia internacional dos Direitos Humanos. A data também coincidia com o terceiro aniversários de sua posse como presidente.

Na ocasião, Cristina Kirchner, em discurso em rede nacional de TV, afirmou que não utilizaria a Polícia Federal para reprimir protestos sociais. Os moradores de Villa Soldati e bairros vizinhos interpretaram as declarações da presidente como um sinal de que os imigrantes não seriam removidos do parque.

Minutos depois, milhares de pessoas do bairro fecharam o cerco sobre o assentamento, espancando cidadãos bolivianos, além de queimar as tendas que haviam montado no parque.

Os moradores de Villa Soldati – dezenas dos quais encapuzados – também atacaram jornalistas e destruíram câmaras de TV. Os imigrantes tentaram defender-se com paus e pedras, enquanto os moradores de Villa Soldati atacaram os integrantes do assentamento com armas de fogo.

Depois, o SAME, o sistema de emergência médica pública, anunciou a morte de um quarto integrante do assentamento.

 Sua morte, segundo relato dos enfermeiros e do médico que o acompanhava: a ambulância conseguiu a duras penas entrar no lugar, pegou o jovem, que havia sido gravemente ferido, e começou a sair dali. Mas, quando estava quase saindo, foi apedrejada pelos moradores, que detiveram a ambulância, removeram o ferido, e apontaram com uma arma em sua cabeça.

O médico, perante a cena, teve um pré-enfarte mas sobreviveu. A ambulância teve que sair dali sem o ferido. O corpo dessa pessoa nunca mais apareceu. Ninguém sabe se foi assassinado na sequência e seu corpo foi escondido ou se, ferido, conseguiu refugiar-se em algum lugar.

CAOS E TROCA DE ACUSAÇÕES – No meio do caos que tomou conta de Villa Soldati, a presidente Cristina, na Casa Rosada, indicava que não tomaria medidas contra os imigrantes, pois não era um “governo xenófobo”.

No entanto, tampouco tomava providências para impedir o massacre de imigrantes nas mãos de moradores dos bairros vizinhos e de hooligans.

Na contra-mão, o prefeito Maurício Macri, criticava a presidente Cristina, acusando-a de “omissão”: “o governo diz que não há policiais para enviar a Villa Soldati por causa do risco de desguarnecer o resto da cidade. Mas, neste exato instante, centenas de policiais estão fazendo a segurança de um show de rock para celebrar os três anos de governo da presidente”.

Cristina criticava Macri, Macri criticava Cristina. Enquanto isso, os moradores de Villa Soldati, com a participação de vários elementos integrantes de torcidas organizadas, continuavam os ataques aos imigrantes aos gritos de “fora os estrangeiros”.

NOBEL, CRÍTICAS A MACRI E CRISTINA: O Prêmio Nobel da Paz de 1980, o argentino Adolfo Pérez Esquivel, acusou o governo da presidente Cristina e o prefeito Macri de “ausentes”: “os governos federal e municipal devem buscar uma solução imediata!”.

 NESTE FIM DE SEMANA, CENÁRIO

No sábado durante o dia, a Gendarmería finalmente apareceu no lugar dos crimes e posicionou-se ao redor do assentamento, separando os imigrantes dos moradores de Villa Soldati.

A chuva intensa que caiu sobre a cidade colaborou para impedir as manifestações.

O cenário, neste domingo, permanecia igual.

A Gendarmería pretende realizar um censo dos integrantes do assentamento nesta 2afeira. Também estava em andamento uma tentativa de conseguir “conciliação” entre o assentamento e o bairro.

 

QUEM É QUEM, QUEM GANHA E QUEM PERDE E OUTROS DETALHES

INTEGRANTES DOS GRUPOS DE ATAQUE – No primeiro dia, o grupo que manifestava-se contra o assentamento eram basicamente os moradores do bairro de Villa Soldati. Nos dias seguintes o grupo aumentou com a participação de moradores da vizinha Villa Lugano e de outros bairros do sudoeste portenho. Denúncias dos jornais portenhos indicam que também existiam no grupo de atacantes…

a)      integrantes de “barrabravas” (hooligans) de times de B.Aires e da Grande Buenos Aires vinculados ao governo Kirchner.

b)      integrantes de “barrabravas” (hooligans) de times de B.Aires e da Grande Buenos Aires vinculados ao governo Macri.

INTEGRANTES DO ASSENTAMENTO – Maioria de imigrantes da Bolívia e Paraguai, além de argentinos. Eles argumentam que são trabalhadores e negam que tenham tentado tomar os terrenos das Mães da Praça de Mayo, foco original do conflito que posteriormente foi ampliado para o resto da área.

POSIÇÕES

KIRCHNER: O governo da presidente Cristina Kirchner tem a política de não reprimir manifestações na área mais “sensível” do país, isto é, a Grande Buenos Aires, onde concentra-se a maior parte do eleitorado do país, os formadores de opinião, os meios de comunicação, etc (embora protagonize a repressão em áreas distantes da capital argentina).

MACRI: O governo do prefeito Maurício Macri teve a política de criar uma polícia própria, alegando que a criminalidade aumentou e que não pode ficar dependendo da Polícia Federal, controlada pelo governo federal.

A criação da polícia portenha foi controversa, pois Macri convidou figuras de passado obscuro para participar da organização da força de segurança.

De quebra, a polícia de Macri ainda é pequena e não está preparada para casos de grande magnitude, tal como o mini-pogrom do parque Indo-americano.

ASSENTAMENTO: “Não iremos embora!”. Com estas determinadas palavras, Alejandro Salvatierra, um dos líderes do grupo de imigrantes que ocupam o parque Indo-americano deixou claro que pretende resistir ao despejo.

MORADORES: O fim de semana de chuva acalmou os ânimos e a presença da Gendarmería havia intimidado os setores mais agressivos. Mas, não descartavam no bairro voltar ao ataque caso o assentamento perdure nas próximas semanas.

QUEM PERDE E QUEM GANHA:

- MACRI: É o grande perdedor desta crise. Perde poder político e está perdendo imagem na opinião pública. Ele demorou em responder à crise, não esteve presente no lugar da violência, não satisfez as demandas dos moradores de Soldati nem as demandas dos integrantes do assentamento. A imagem havia sido ridicularizada quando, no mês passado, durante sua festa de casamento, ao protagonizar um ‘cover’ de Freddie Mercuri, engoliu sem querer o bigode postiço, que quase o sufocou-

Macri é o principal líder do partido Proposta Republicana (PRO), de centro-direita, de oposição.

- KIRCHNER: A presidente Cristina Kirchner ganha na área política, depois de ter feito o prefeito Macri implorar ajuda. Mas, perde em imagem, já que estava em plena celebração do dia dos Direitos Humanos enquanto na fronteira da cidade o caos imperava. Não enviou forças federais quando era necessário impedir a violência e as mortes que se alastravam a cada minuto.

MORADORES DE SOLDATI: Os moradores dizem que, com a permanência do assentamento, seus imóveis ficam desvalorizados. Eles argumentam que o assentamento será um foco de ladrões. Ganham ou perdem com esta crise? Isso dependerá do desenlace que ainda poder demorar dias ou semanas.

ASSENTAMENTO: Os integrantes do assentamento afirmam que são trabalhadores e que precisam de um lugar para morar. Eles também sustentam que estão dispostos a pagar terrenos em parcelas. Ganham ou perdem? Se conseguirem permanecer no lugar, é uma vitória a curto prazo, com eventuais problemas a médio e longo prazo, já que no futuro poderão ser alvo de novos ataques dos moradores de Soldati.

FÚRIA: Quatro das onze ambulâncias que tentaram na sexta-feira à noite entrar no parque foram impedidas pelos moradores do bairro Villa Soldati. As ambulâncias foram apedrejadas. Em um dos casos, os moradores retiram um imigrante ferido à força da ambulância que o transportava e o executam com tiro na cabeça.

Jornalistas que cobriam o conflito também foram agredidos pelos moradores.

PECULIARIDADES POLÍTICAS:

O governo da Bolívia reclamou oficialmente das posições “xenófobas” do prefeito Macri.

Mas, não reclamou ao governo Kirchner, seu aliado, sobre a ausência de forças federais para proteger os imigrantes que estavam sendo atacados.

POLÊMICAS SOBRE XENOFOBIAS

Detalhes sobre as declarações do prefeito Macri sobre o que ele denomina de “descontrolada imigração”, aqui.

A líder das Mães da Praça de Mayo, Hebe de Bonafini, no ano passado, inesperadamente expressou opiniões xenófobas na Praça de Mayo, quando tentou expulsar imigrantes bolivianos que protestavam na frente da Casa Rosada pela violência da Polícia Federal, que havia morto o imigrante Juvelio Aguayo Pérez, de 29 anos. “Fora daqui, bolivianos de m… a praça é nossa!”. Aqui.

ARGUMENTOS DE SETORES E CONTRA-ARGUMENTOS SOBRE IMIGRAÇÃO

- No meio desta crise, diversos setores pronunciaram-se contra a entrada de imigrantes no país.

Entre eles, uns setores pronunciavam-se contra a entrada de todos os imigrantes, com o argumento de “Argentina para os argentinos”.

Outros setores alegavam que a imigração poderia continuar, embora com menor flexibilidade que a existente atualmente (as barreiras para entrar na Argentina são as mais flexíveis em todo o Cone Sul).

- Os setores que defendem a imigração (ou pelo menos o fim aos ataques aos imigrantes) recordaram que todos os políticos argentinos são descendentes de imigrantes (recentes ou de várias gerações). O economista Lucas Llach, em sua coluna no jornal “La Nación” criticou o braço-direito de Macri, Horacio Rodríguez Larreta (que havia pronunciado críticas contra a imigração): “é por acaso Rodríguez Larreta um diaguita?”.

Diaguita é o nome de um amplo grupo indígena existente no sopé da Cordilheira dos Andes. Llach ironizava com o fato desse político não contar com antepassados indígenas, mas sim, de imigrantes espanhóis. Isto é, imigrantes, no fim das contas.

E, outra interessante coluna que este economista escreveu sobre este assunto, ao recordar que Buenos Aires foi fundada definitivamente, em 1586, por um pequeno grupo de espanhóis comandados por um basco e um grande grupo de paraguaios que desceram de Assunção pelo rio Paraná até o rio da Prata.

Na época, B.Aires dependia de Assunção. E Assunção dependia do comando das autoridades espanholas na área, Lima, no Peru. Aqui. 

DADOS

- Alguns setores contrários à entrada de imigrantes no país alegam que a cidade de Buenos Aires cresceu de forma excessiva nos últimos anos, que está “entupida” e que não há lugar para mais ninguém. Esse, inclusive, é o argumento de vários integrantes do governo municipal. Mas, a realidade é que a cidade “encolheu”.

Dentro de suas fronteiras – a avenida General Paz (uma espécie de “Avenida Marginal” portenha) e o rio Riachuelo – a cidade passou de 3,2 milhões em 1945 para 2,7 milhões no ano 2000.

- Esses setores também costumam afirmar que a maior parte dos crimes são cometidos por imigrantes. No entanto, diversas estatísticas desde os anos 90 indicam que os imigrantes possuem – proporcionalmente – uma menor porcentagem de incidência do que os nativos no contexto geral da criminalidade. 

 E, para encerrar, um pouco de civilização: o segundo movimento da Sinfonia Número 7 de Ludwig van Beethoven, com a Filarmônica de Berlim. Aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………..
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

………………………………………………………………………………………………………………………………. 

Comentários (44)| Comente!

 

‘Dragão’ da inflação preocupa cidadãos argentinos. Ilustração mostra dragão japonês, mas da escola chinesa. Século XIX. Bibliothèque des Arts décoratifs, Paris.

Assustados com a escalada de preços, os argentinos acreditam que a inflação acumulada dos próximos doze meses será de 33,7%. Isso é o que indica uma pesquisa feita pela Universidade Di Tella, que investigou as expectativas de inflação da população. A proporção mostra um aumento desde o mês passado, quando a expectativa de inflação para os seguintes doze meses era de 31,4%.

Mas, enquanto a população angustia-se com a persistente alta de preços – que tornou a Argentina o país com a segunda maior inflação do mundo (atrás da Venezuela) – o governo da presidente Cristina Kirchner nega a escalada inflacionária. Segundo o ministro da Economia, Amado Boudou, os alertas sobre a inflação não passam de “conspirações” dos partidos da oposição.

O Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) anunciou na sexta-feira que o índice de inflação de setembro foi de 0,7%. Mas, economistas independentes e organizações de defesa dos consumidores consideram que a inflação oficial está “maquiada” e que o índice “real” é de pelo menos o dobro, já que oscilaria entre 1,6% a 1,8%.

A inflação acumulada desde janeiro, de acordo com os dados do governo, seria de 8,3%. No entanto, para a consultoria Ecolatina a inflação real acumulada nos primeiros nove meses deste ano chegaria a 19,6%.

Dragão que havia sequestrado donzela (a moça da esquerda que está com as mãos amarradas) leva bolachas a granel de santo tolerância zero.  Obra de Paolo Uccello, “São Jorge em luta contra o dragão”, de 1470. Quadro exposto na National Gallery, Londres.

  Economistas independentes afirmam que 2010 será encerrado com uma inflação que oscilará entre 25% e 30%. Mas, o governo calcula que será no máximo de 9,9%.

No entanto, nas recentes negociações salariais feitas com empresas pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), a maior central sindical do país, alinhada com a administração Kirchner, os sindicalistas exigiram (e obtiveram) altas salariais de 25% a 30%, proporção mais próxima aos cálculos de inflação das consultorias econômicas independentes do que do índice elaborado pelo Indec.

São Miguel, celestial cabra destemido, depois de uns bons sopapos em um dragão (não era o dragão da inflação) prepara-se para abotoar o paletó de madeira do dito cujo monstro com sua afiada peixeira medieval. Quadro de Raffaello Sanzio (1483-1520). Mais detalhes sobre esta obra genial, aqui.

 Em 2006, o governo do presidente Néstor Kirchner tentou conter a inflação com o congelamento de preços. Mas, com o fracasso dessa política, em dezembro desse ano iniciou a manipulação de dados. Segundo o jornalista  Jorge Lanata, o casal presidencial “não gostava da febre da inflação…por isso, a saída que os Kirchners encontraram foi conseguir um termômetro que indicasse só a febre que eles querem”.

Desde janeiro de 2007 a medição da inflação do Indec, organismo sob férrea – e controvertida – intervenção do governo Kirchner, é alvo de acusações de “maquiagem” por parte de empresários, associações de consumidores, economistas e a própria população, que diariamente depara-se nos comércios com substanciais aumentos de preços e serviços.

Ao longo destes três anos e meio a inflação “maquiada” oscilou entre metade e um terço da inflação calculada por diversos economistas e associações de defesa do consumidor.

Segundo o governo, em 2006 a inflação foi de 9,8%. Mas, de acordo com vários economistas, o índice sofreu uma leve manipulação em dezembro daquele ano. A inflação real teria sido de 10,7%.

Em 2007, com a intervenção intensa do Indec o índice oficial foi de apenas 8,5%. Segundo diversos cálculos de ex-integrantes do Indec, economistas e associações de consumidores, a inflação real esteve ao redor de 25% a 27%.

Em 2008, a inflação, segundo o Indec, foi menor ainda, de 7,2%. Mas, os economistas indicam que estes ao redor de 25%.

Em 2009 o governo disse que a inflação foi de 7,7%. Mas, os economistas afirmam que foi de 14% a 18%.

 A “camuflagem” da escalada inflacionária argentina também preocupa a Organização Internacional do Trabalho (OIT), que em setembro anunciou que reconhece a falta de credibilidade do Indec.

O organismo está sob o controle do polêmico secretário de Comércio, Guillermo Moreno, considerado o homem que “faz o trabalho sujo” dos Kirchners na área.

 

Quase Kirchner…Kircher. Athanasius Kircher, intelectual jesuíta, autor de “A História natural dos dragões”. Acima, “o grande dragão da ilha de Rodes”, que ilustra a obra do clérigo polivalente. E para mais detalhes sobre Kircher, aqui.  E melhor ainda, aqui.

 

Tal como a inflação no cotidiano argentino… A serpente-dragão Quetzalcoatl deglute um asteca desprevenido. No  Códice Telleriano-Remensis, que está Bibliothèque nationale de France, em Paris.

ATENÇÃO! Nenhum dragão verdadeiro foi ferido ou prejudicado no decorrer da preparação e publicação desta postagem.

    

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

……………………………………………………………………………………………………
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

…………………………………………………………………………………………………..

Comentários (43)| Comente!

Arquivo

..Revistas satíricas da Argentina

Blogs do Estadão