Cervejas peronistas-kirchneristas. Pack das quatro ‘birras’ que exibe o escudo do Partido Justicialista (Peronista) e os pinguins ad hoc do kirchnerismo. Foto feita por Ariel Palacios em cima de sua estante.
Ficar embriagado com o peronismo não é mais uma metáfora. Isso agora é possível – etilicamente falando – graças à variedade de quatro cervejas peronistas-kirchneristas, lançadas oficialmente há poucos dias na capital argentina, que fazem referência às principais figuras do movimento político que chegou ao poder em 1946 e governou o país na metade desse tempo desde então transcorrido. Desta forma, o peronismo, presente em todo tipo de âmbitos da sociedade argentina, desde estátuas, murais monumentais e a toponímia das vias públicas, agora também terá presença na área dos fermentados que evocam o presidente Juan Domingo Perón (1946-55 e 1973-74), sua segunda mulher Evita Perón, além do ex-presidente Nestor Kirchner (2003-2007) e a presidente Cristina Kirchner.
O autor da ideia é o empresário Daniel Narezo, militante peronista e sócio do restaurante “Perón-Perón” (um homenagem ao peronismo de esquerda dos anos 70), que lançou quatro variedades de cervejas que possuem características etílicas com referências políticas. Uma delas é a “Evita”, cerveja “loira”, tal como a “Protetora dos Humildes”, que ostentava cabelos quase platinados, embora tingidos. Esta variedade, uma “Golden ale” pretende, tal como Evita – a “chefe espiritual dos peronistas” – “um corpo leve mas firme” que sacia a sede.
Outra, a “17 de Outubro”, é uma cerveja malzbier robusta, homenageia a data peronista por excelência (o 17 de outubro de 1945), quando Perón foi liberado da prisão. Esta cerveja energética ea escura é uma referência à multidão composta pelos “cabecitas negras” (denominação dos trabalhadores mestiços de indígenas, provenientes do norte do país) que aclamou Perón na Praça de Mayo.
A terceira cerveja é a “Montonera”, em alusão à guerrilha da organização Montoneros, grupo cristão-nacionalista do peronismo que organizou atos de guerrilha urbana no país nos anos 70, e de onde saíram vários dos integrantes do governo de Carlos Menem e do casal Kirchner. Esta cerveja é uma “pale ale” com toques de frutos patagônios que dão um tom avermelhado-revolucionário.
Para arrematar, em homenagem ao casal Nestor Kirchner e Cristina Kirchner, a seleção etílica peronista conta com a “Dupla K”, cerveja scotch extra-forte, com sete graus de álcool e tons avermelhados. Narezo sustenta que a “Dupla K” é “poderosa” e “recarregada”, já que tem a ver com a “conjunção dos dois Kirchners”.
O resto-bar “Perón Perón” (cujo nome é uma referência ao estribilho da marcha “Los muchachos peronistas” que diz “Perón, Perón, que grande você é”) tornou-se desde sua inauguração em um dos principais centros de reunião da militância intelectual kirchnerista, além de point dos jovens do governo que estão no comando de estatais. Além disso, é frequentado por diversos ministros e secretários do gabinete da presidente Cristina.
O menu do resto-bar, relacionado com a temática peronista, conta com pitadas de humor negro. Esse é o caso do prato de frios “General Pedro Eugenio Aramburu”, em referência ao autor do plano de esconder o corpo de Evita Perón em 1955. Em 1970 a guerrilha montonera sequestrou e executou o militar, transformando-o, segundo a gíria portenha, em um “fiambre”, palavra usada para referir-se ao corpo de um morto (“presunto”, no Brasil).
VINHO – Além desta série de cervejas, o panteão dos etílicos fermentados peronistas também conta com o vinho “O Justicialista” (O Peronista), lançado em março passado pelo empresário Helmut Ditsch, que também é o artista plástico argentino mais cotado atualmente, da corrente hiper-realista. O lançamento contou com a presença do ministro da Economia, Amado Boudou, vice-presidente eleito.
Os produtores do vinho afirmam que “O Justicialista”, produzido em Mendoza, possui um definido sabor de “militante e popular”. Mas, na realidade, este vinho é um blend sofisticado de Bonarda, Cabernet Sauvignon, Sangiovese e Syrah.
Os vinhos e as cervejas peronistas-kirchneristas estão sendo vendidas nos bares temáticos peronistas espalhados na cidade.
BARES E CAFÉS TEMÁTICOS PERONISTAS:
- “Perón Perón”: rua Carranza 2225 (Palermo). Telefone: (54 11) 4777 6194
- “El General”: avenida Belgrano, 350 (Monserrat). Telefone: (54 11) 4343 7601
- “Un café com Perón”: calle Áustria, 2601 (Recoleta). Telefone: (54 11) 4802 8010
TANGOS E PORRES:
“Tomo y obligo”, com Carlos Gardel, aqui.
“Esta noche me emborracho”, com Carlos Gardel, aqui.
“La ultima copa”, com Carlos Gardel, aqui.
“Champagne”, com a orquestra de José Luchesi, aqui.
E este tango não é de temática etílica, o “Cachirulo”, mas é interpretado pelo emblemático Aníbal Troilo, gênio do tango, chegado – chegadíssimo – em uma birita. Aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
Carlos V do Sacro Império, a.k.a. Carlos I da Espanha, big boss de Juan Ramírez de Velazco (o fundador de La Rioja). Acima, o imperador – em cujas extensas terras “o sol nunca se põe” – faz pose equestre para o pintor Tiziano. A obra está exposta no Museu do Prado, Madri. La Rioja (a xará argentina) começou a ser colonizada durante seu reinado.
Naquela manhã ensolarada de 20 de maio de 1591, ao fundar um vilarejo como o nome de Todos los Santos de La Nueva Rioja, Juan Ramírez de Velazco não imaginou que estava colocando a semente de uma disputa feroz entre a La Rioja argentina e sua homônima na Espanha, a quem o conquistador quis homenagear. Mais de quatro séculos depois, as duas La Rioja disputaram ferozmente no âmbito diplomático e na Justiça a denominação de origem de seus respectivos vinhos.
La Rioja espanhola argumentou que ela é a única que pode utilizar a denominação de origem “La Rioja”. Mas ao longo da prolongada briga, deslanchada em 1976, a xará argentina defendeu-se afirmando que foi o próprio Estado espanhol dos tempos coloniais que colocou esse nome na versão sul-americana da província, e que por isso, os espanhóis deveriam se resignar.
Além disso, os argentinos afirmam que utilizam a denominação “La Rioja Argentina”, para diferenciar-se da homônima na península ibérica. De quebra, sustentam que os vinhos das duas La Rioja são diferentes, já que na Rioja espanhola a variedade principal é o Tempranillo, enquanto que na província argentina o vinho mais famoso é o Torrontés, além do Bonarda.
Dias atrás, o Tribunal de Justiça Administrativa Federal de Buenos Aires rejeitou a demanda do Conselho de Denominação de Origem Qualificada Rioja da Espanha contra os produtores vinícolas de La Rioja da Argentina.
A Justiça em Buenos Aires indicou que os vinhos riojanos argentinos usam o termo “Argentina” junto, palavra que o tribunal considera que é um “eficaz diferenciador”. Portanto, considera que não existe indução ao erro dos consumidores. Isto é, esses vinhos possuem uma espécie de nome e sobrenome: “La Rioja Argentina”.
O ministro de Produção da argentina La Rioja, Javier Tineo, celebrou a decisão dos tribunais. “É uma grande notícia”, disse ao Estado. “Se formos ver a História, a culpa deste imbróglio é dos próprios espanhóis, que colocaram esse nome nesta província. E eles também foram os que nos trouxeram essa tradição vinícola. No fim das contas, eles são como a cobra que morde o próprio rabo…”.
O diretor de Comercio Exterior de La Rioja, Carlos Sant, afirmou ao Estado que a produção vinícola em 2010 foi de 60 milhões de litros. O total exportado no ano passado rendeu US$ 14 milhões.
OLIVEIRA - Esta é a segunda oportunidade em que a Espanha pretendia remover do caminho a concorrência de La Rioja. Em 1770, na época da colônia, a ordenança real de Carlos IV, determinava o corte de todas as oliveiras de La Rioja argentina, pois competiam com os de La Rioja da Espanha.
Mas nem todas as oliveiras foram eliminadas. Apenas uma sobreviveu, graças à heroína riojana Doña Expectación de Avila, que cobriu um broto de oliveira com uma tigela de madeira, para escondê-la. Aquele broto foi o pai da variedade Arauco, que tem 239 anos. Hoje, La Rioja é a principal produtora de azeitonas da Argentina, que conta com um amplo mercado no Brasil.
O blog espanhol “El Estafador”, que exibe uma série de ácidas e saborosamente ultrajantes charges sobre o vinho. Aqui.
Curiosidade 1: Carlos IV, o das oliveiras, tem Facebook, aqui.
Curiosidade 2: Como a famosa oliveira está conectada com Menem e a ditadura militar. Aqui.
E de brinde “pascoal”…
Nada como Chico Zé Haydn para embalar este feriado. O concerto de cello, aqui.
E o italiano Ottorino Respighi, com o “Tríptico de Boticelli”, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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Suculentas uvas da variedade Malbec
No dia 17 de abril a Wines of Argentina, entidade privada que reúne as adegas argentinas, celebrará pela primeira vez o “Dia Mundial do Malbec” em trinta países com a realização de eventos de degustação, promoções em restaurantes e até brindes – nas alturas – em balões aerostáticos. O objetivo das adegas é o de consolidar a Argentina como o “país do Malbec”, já que esta variedade de uva, que foi parcialmente devastada por geadas há seis décadas na França – sua pátria-mãe – sobreviveu e espalhou-se na Argentina, transformando-se, praticamente, no “vinho nacional” deste país.
Atualmente, adegas francesas – inclusive as de Cahors, região original desta uva na França – importam esse vinho da Argentina, considerado pelos enólogos como o melhor Malbec do mundo.
Segundo dados da Caucasia Wine Thinking, desde 2002 as exportações argentinas de Malbec passaram de 850 mil caixas de 9 litros para 8,6 milhões de caixas em 2010, volume que implica em um aumento de 916%. No mesmo período, o volume de dólares FOB passou de US$ 23,1 milhões para US$ 306 milhões, equivalente a um aumento de 1.220%.
Atualmente, do total de vinho exportado pela Argentina, 47% correspondem às vendas de Malbec para o exterior.
Com o Malbec World Day as adegas argentinas pretendem que o país seja automaticamente identificado com esta variedade. Em Nova York, a Biblioteca Pública Nacional será iluminada com a cor do Malbec, enquanto o edifício alberga uma série de atividades, que irão de palestras às degustações.
A Wines of Argentina organizará em Londres e Toronto sessões especiais nas quais os convidados poderão pisar as uvas nos tonéis.
Os eventos internacionais serão acompanhados por substanciais churrascos com carne argentina, shows de tango e reuniões empresariais.
As principais celebrações ocorrerão em Mendoza, no oeste da Argentina, onde estão as adegas mais importantes do país. Ali, 200 convidados VIP brindarão em balões, a 30 metros de altura sobre os vinhedos.
O Brasil, um dos grandes mercados do vinho argentino, terá uma data diferenciada, já que será no dia 18, segunda-feira, na cidade de São Paulo.
A indústria vinícola argentina vive um boom sem precedentes em toda sua História. O setor exportou US$ 741,4 milhões em 2010, equivalente a 16,44% a mais do que em 2009.
TÉDIO – No entanto, nem todos consideram que o boom do Malbec chegou para ficar. Segundo Gerard Basset, melhor sommelier do mundo em 2010, durante a recente cerimônia do Argentina Wine Awards, causou polêmica ao afirmar que “o Malbec vai passar de moda”. Segundo ele, o público consumidor “vai entediar-se”, já que “sempre procura coisas novas”.
Basset alertou para uma eventual “malbec-dependência” e sustentou que as adegas argentinas “deveriam experimentar coisas novas, não somente o Malbec”.
O especialista também sustentou que ainda não existem vinhos que sejam “embaixadores” da Argentina no exterior: “há marcas respeitadas.. mas não verdadeiros ícones”.
Alberto Arizu, presidente da Wines of Argentina, considera que o “furor” pelo Malbec continuará “por muitos anos”. No entanto, destacou que “a Argentina não é somente este varietal. Temos muito potencial com o Cabernet Sauvignon, Bonarda, Syrah e Torrontés”.
“Uva emblema pode ser uma casta de dois gumes”, texto do Luiz Horta sobre os vinhos portugueses, com breve referência sobre o Malbec, aqui.
E FALANDO EM VINHO… EXPRESSÕES PORTENHAS RELATIVAS A BEBER E COMER
CHUPAR: Beber abundantemente. Álcool, evidentemente (acho que em lugar algum no mundo há gírias para referir-se ao ato de beber água mineral com gás). Entornar. Quem “chupa” muito fica “mamado” (bêbado) ou “curda” (bêbado). O mesmo verbo no espanhol da Argentina – tal como no idioma de Eça de Queirós e Sidney Magal – também pode ser usado para a prática do fellatio.
ESCABIO: Bebida alcoólica. Vem de uma antiga palavra italiana, ‘scabi’, usada para referir-se ao vinho.
ESCABIAR: Ingerir generosas quantias de destilados e fermentados.
BORRACHO: Palavra em espanhol para bêbado. Não é à toa que os hispano-falantes riem quando leem nas estradas brasileiras a placa “borracharia”.
A borracharia, isto é, o lugar ad hoc para pneus e serviços relativos, denomina-se “gomería” nos países do Cone Sul.
BEODO: Gíria (fina) para bêbado. Não confundir com “Boedo”, o bairro vizinho a Almagro.
CURDA: Gíria para bebedeira substancial.
Anibal Troilo, intérprete de tangos que discorriam sobre bebedeiras
“La última curda” (A última bebedeira), tango de Aníbal Troilo, letra de Cátulo Castillo. O cantor, nesta ocasião, é Roberto Goyeneche. Aqui.
Outra versão de “La última curda”, com o roqueiro Fito Páez, aqui.
MORFI Y CHUPI: Forma ligeiramente abreviada para referir-se ao conjunto de “comida” e “bebida”. Exemplo: “Vamos al cóctel que el diputado Troesma Piola de Prepo ofrece a la artista plástica Amnésia de Souza-Naves! Hay morfi y chupi!” (Vamos no coquetel que o deputado Troesma Piola de Prepo oferece à artista plástica Amnésia de Souza-Naves! Há comes e bebes)
MORFAR: Comer. Comer para valer, com voracidade pantagruélica. Exemplo: “me morfé tres platos de ñoquis!” (comi – para valer – tres pratos de nhoques). A palavra origina-se do termo “morfellier” que no ‘argot’ (a gíria francesa) do final do século XIX e começo do XX significava “comer”. Séculos antes disso, François Rabelais, o autor de “Pantagruel”, o anti-anoréxico personagem, usava o verbo “morfiailler” em suas obras.
MORFÓN: glutão.
ZAPÁN: “Pança”, mas ao contrário. É um exemplo do “vesre”, a forma do lunfardo de falar ao contrário. Os parisienses possuem uma forma equivalente, o “verlan” (o contrário fonético de ‘l’envers’, ‘o contrário’ em francês).
E de novo Aníbal Troilo, com um emblemático tango, o “Quejas de bandoneón” Aqui.
…E um epílogo musical com a “Valse Triste”, do finlandês Jean Sibelius, com a batuta do batuta Herbert Von Karajan. Aqui.
Na foto acima, Sibelius em 1913
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