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Ariel Palacios

Alguns generais morrem em campo de batalha. Outros falecem no leito doméstico, pronunciado supostas frases patrióticas. Alguns morrem assassinados em revoluções, golpes e complôs. Outros caíram do cavalo (sem metáforas) e fraturaram o pescoço. Mas, até agora, não havia registros de um ex-ditado/general sul-americano que tenha morrido sentado no vaso sanitário, ao lado do prosaico rolinho de papel higiênico. J.R.Videla encerrou sua carreira desta última forma, com um óbito digno de entrar nos anais da História.

O “senhor da vida e da morte” durante a última ditadura militar argentina (1976-83), o ex-general Jorge Rafael Videla, morreu na manhã da sexta-feira sentado no vaso sanitário de sua cela na prisão de Marcos Paz. O ex-ditador, que havia tido disenteria na véspera, acordou após uma noite com problemas estomacais e intestinais e sentou-se no vaso. Ali, nesse âmbito, ocorreria o desenlace.

Às 6:40 da manhã, um dos guardas da prisão, em sua recontagem de presos, viu pelo visor da cela que Videla estava sentado no vaso.

Mas, em uma segunda ronda, tempos depois, o guarda percebeu que Videla permanecia sobre o vaso, embora reclinado para a frente. Imediatamente, o guarda chamou um médico. Os dois entraram na sala e perceberam que Videla não tinha pulso. Suas pupilas não reagiam.

Com as calças de seu pijama arriadas, sem o aprumo militar que o caracterizou durante décadas, o todo-poderoso homem da ditadura militar argentina encerrou sua carreira.

Cecilia Pando, esposa de um ex-militar e líder de um pequeno grupo de extrema direita que reivindica a ditadura argentina, havia divulgado na sexta-feira a informação de que Videla havia morrido placidamente na cama de sua cela. Pando, amiga de Videla, tentava evitar uma imagem escatológica no final da vida de seu ídolo. No entanto, as autoridades penitenciárias confirmaram no fim de semana que sua morte ocorreu em um cenário mais sui generis. Eventos assim não abundam. Um óbito para entrar nos anais da História.

Documento que indica a forma como Videla foi encontrado em seus primeiros momentos póstumos.

Videla havia sido condenado em 2010 à pena de prisão perpétua pelo assassinato de civis. No ano passado acumulou uma pena de 50 anos pelo sequestro de 35 bebês, filhos das desaparecidas políticas. Na ocasião, em declarações nos tribunais, admitiu pela primeira vez na História as mortes dos desaparecidos políticos. No entanto, deixou claro que não se arrependia dos fuzilamentos.

O ex-ditador – que comandou o país nos primeiros cinco anos de um total de sete da ditadura militar – não receberá qualquer tipo de honra militar durante seu enterro, já que, além de ter sido destituído de seu grau militar, desde 2009 está em vigência uma resolução que proíbe a realização de honras militares nos funerais de ex-integrantes das Juntas Militares.

A líder da organização das Avós da Praça de Mayo, Estela de Carlotto, declarou que Videla era “um ser desprezível que deixou este mundo”. Carlotto destacou que o ex-ditador “nunca se arrependeu do genocídio que cometeu”.

O deputado Horacio Pietragalla, que foi sequestrado pelos militares quando era um bebê de oito meses em 1976, declarou que Videla morreu “da forma como tinha que ser: preso e condenado”. No entanto, lamentou que “nunca se arrependeu” dos assassinatos que ordenou. Pietragalla recuperou sua verdadeira identidade quando tinha 25 anos.

Segundo Pietragalla, “os crimes de Videla nos recordam a que ponto tão sinistro a Humanidade pode chegar”.

Sua ditadura teve o saldo de 30 mil civis sequestrados, torturados e mortos, além de 300 mil exilados.

Além disso, a ditadura roubou 500 bebês, filhos das desaparecidas. Deste total, as Avós da Praça de Mayo conseguiram nas últimas três décadas e meia devolver a identidade a 108 jovens que eram crianças recém-nascidas na época da ditadura.

Videla organizou o golpe de 24 de março de 1976 que derrubou a presidente María Estela Martínez de Perón, mais conhecida como “Isabelita”. Na época o general batizou o novo regime de “Processo de Reorganização Nacional”, popularmente conhecido como “El Proceso”. Ele governou a Argentina durante cinco anos (do total de sete da ditadura).

CARREIRA - Descendente de uma tradicional família do interior da Argentina, Jorge Rafael Videla nasceu em 1925 na cidade de Mercedes, província de Buenos Aires. Filho de um coronel do Exército, seguiu a carreira do pai. O jovem Videla formou-se na Academia Militar em 1942 com o grau de subtenente da infantaria. Aluno destacado, foi o sexto colocado de um total de 196 cadetes. Sua ascenção foi constante. Em 1971, designado general de brigada, tornou-se o diretor do Colégio Militar. Em agosto de 1975 a então presidente Isabelita Perón colocou Videla no posto de Comandante em chefe do Exército.

Poucos meses depois, no dia 24 de março de 1976, Videla liderou o golpe de Estado que derrubou Isabelita. O general – que foi presidente de facto da Argentina até março de 1981 – comandou o período de maior repressão da ditadura.

Apesar da violência de seu governo, era considerado a ala “suave” dos líderes militares.

JULGAMENTOS - A ditadura acabou em dezembro de 1983, quando Videla estava na reserva. Com a volta da democracia, começaram as investigações sobre os crimes do ex-ditador. Ele foi condenado à prisão perpétua pela primeira vez em 1985, durante o julgamento das juntas militares – denominado de “Nuremberg argentino”. Mas, em 1990 foi anistiado pelo presidente Carlos Menem.

Em 1998, os organismos de defesa dos direitos humanos driblaram as leis de perdão aos militares e conseguiram a detenção de Videla pelos sequestro de crianças, crime que não havia sido incluído no indulto presidencial.

Em 2007, com a anulação dos indultos, declarados inconstitucionais, Videla tornou-se alvo de uma série de processos na Justiça relativos aos assassinatos ordenados por ele durante a ditadura.

Em um dos julgamentos, em 2010, Videla fez uma prolongada defesa das ações do regime militar e alegou a “necessária crueldade” da ditadura. O ex-ditador também sugeriu que a “sociedade argentina” havia sido cúmplice da ditadura, já que, segundo ele, “não existiam vozes contrárias” ao regime militar. Videla também disse que sua sentença seria “injusta” e que ele era um “bode expiatório”.

Ex-ditador tentou argumentar – citando Santo Tomás de Aquino – que a ditadura havia feito uma “guerra justa”. Na foto, Videla – acompanhado por uma freira – em visita ao Chile, país na época comandado pelo general Augusto Ramón Pinochet. Nessa época, 1978, a ditadura argentina já havia matado 20 mil do total 30 mil desaparecidos em todo o período do regime militar, além de implantar 540 campos de detenção e tortura (dos mais diversos tamanhos) em todo o país. Paralelamente, Videla ia à missa todas as manhãs.

MISSA E MORTOS - Videla diferenciou-se dos outros líderes de regimes militares da América Latina pela aplicação de um plano de apropriação sistemática de bebês e o ocultamento de sua identidades. Os bebês, filhos das prisioneiras políticas, nasciam no cativeiro de suas mães, nos centros clandestinos de detenção e tortura da ditadura. Após os partos eram entregues a famílias de militares e policiais estéreis. Na sequência, as mães biológicas eram assassinadas e seus corpos “desapareciam”.

Em um dos julgamentos, em 2010, Videla fez uma prolongada defesa das ações do regime militar e alegou a “necessária crueldade” da ditadura. O ex-ditador também sugeriu que a “sociedade argentina” havia sido cúmplice da ditadura, já que, segundo ele, “não existiam vozes contrárias” ao regime militar.

Videla também disse que sua sentença seria “injusta” e que ele era um “bode expiatório”.

María Seoane, que com Vicente Muleiro escreveu “O Ditador”, uma detalhada biografia não-autorizada do ex-general, me disse que “Videla não se arrepende de nada, pois voltaria a matar todos aqueles que matou. Não há nenhum rastro de arrependimento nele. É o mal em estado puro!”

Segundo Seoane, “Videla reunia-se com o chefe de inteligência antes de ir à missa de manhã cedo. Nessas reuniões informava-se sobre quantos inimigos o regime havia assassinado no dia anterior e como estavam funcionando os 500 campos de concentração da ditadura”.

APELIDO – Durante a ditadura Videla foi apelidado de “a pantera cor de rosa”, por dois motivos:

a) sua sorte em escapar de vários atentados enquanto era ditador, tal como a pantera do desenho animado.

b) Era magro e tinha o mesmo caminhar cadenciado da pantera cor de rosa.

Caronte e seu ferry boat que faz a travessia do Aqueronte. O barqueiro do Inferno de Dante Alighieri foi brilhantemente retratado por Gustavo Doré no século XIX para ilustrar “A Divina Comédia”.

 E aqui, uma cronologia e um fait-divers sobre a ditadura e seu modus operandi:

CRONOLOGIA DA DITADURA E ASSUNTOS RELATIVOS

1976-1983 – Ditadura Militar

1983 – Volta à democracia

1985 – Início dos julgamentos aos militares

1986 – Rebeliões militares. Primeira lei do perdão, a ‘Ponto Final’

1987 – Mais rebeliões militares. Segunda lei do perdão, a ‘Obediência Devida’

1990 – A última rebelião militar. Indulto às cúpulas militares

1998-99 – Abertura dos processos por sequestros de crianças, crime não incluído nos julgamentos dos anos 80

2005-2007 – Revogação das Leis do Perdão e abertura de novos julgamentos.

MODALIDADES DE TORTURAS DA DITADURA DE VIDELA

- Picana elétrica: criada nos anos 30 na Argentina por Leopoldo Lugones Hijo, filho do escritor Leopoldo Lugones. Era o instrumento para assustar o gado com choques elétricos. Aplicado a seres humanos, tornou-se no instrumento preferido de tortura na Argentina.

- Submarino molhado: afundar a cabeça de uma pessoa em uma tina d’água. Ocasionalmente a tina também estava cheia de excrementos humanos.

- Submarino seco: colocar a cabeça de uma pessoa dentro de um saco de plástico e esperar que ela ficasse quase asfixiada.

- O rato no cólon: colocação de um rato, faminto, no cólon de um homem. Nas mulheres, o rato era colocado na vagina.

Diversas testemunhas indicam que os torturadores argentinos ouviam marchas militares do Terceiro Reich e discursos de Adolf Hitler enquanto torturavam.

OS MORTOS DA DITADURA

- Durante a Ditadura, militares e policiais argentinos assassinaram ao redor de 30 mil civis (segundo organismos de defesa dos Direitos Humanos argentinos e organizações internacionais), a maioria dos quais sem militância na guerrilha.

- Vários militares afirmam que assassinaram “somente” 8 mil civis. Esse é o número que o general e ex-ditador Reynaldo Bignone, declarou à TV francesa. Videla, no ano passado, citou mais de 7 mil.

- Segundo os próprios militares, a guerrilha e grupos terroristas assassinaram 900 pessoas, a maioria dos quais militares e policiais.

BEBÊS SEQUESTRADOS

- Durante a Ditadura 500 bebês foram sequestrados, filhos das desaparecidas (segundo dados das Avós da Praça de Mayo)

- 108 crianças desaparecidas foram recuperadas ou identificadas por suas famílias biológicas

FRACASSOS ECONÔMICOS E MILITARES: Além de ter sido a mais sanguinária Ditadura foi um fracasso tanto na área militar como na esfera econômica.

Fiascos Militares:

- Entre 1976 e 1978 a Ditadura colocou quase a totalidade das Forças Armadas para perseguir uma guerrilha que já estava praticamente desmantelada desde antes do golpe, em 1975. Analistas militares destacam que este desvio das Forças Armadas argentinas (que havia iniciado no final dos anos 60 mas intensificou-se a partir do golpe) reduziu drásticamente o profissionalismo dos militares.

- Em 1978, a Junta Militar argentina levou o país a uma escalada armamentista contra o Chile. Em dezembro daquele ano, a invasão argentina do território chileno foi detida graças à intermediação papal. O custo da corrida armamentista colocou o país em graves problemas financeiros.

- Em 1982, perante uma crise social, perda de sustentabilidade política e problemas econômicos, o então ditador Leopoldo Fortunato Galtieri – famoso por seu intenso approach ao scotch – decidiu invadir as ilhas Malvinas para distrair a atenção da população. Resultado: após um breve período de combate, os oficiais do ditador renderam-se às tropas britânicas.

Desastres econômicos:

- Em sete anos de Ditadura, a dívida externa subiu de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões.

- A inflação do governo civil derrubado pela Ditadura, que era considerada um índice “absurdo alto” pelos militares havia sido de 182% anual. Mas, este índice foi superado pela política econômica caótica da Ditadura, que encerrou sua administração com 343% anual.

- A pobreza disparou de 5% da população argentina para 28%

- A participação da indústria no PIB caiu de 37,5% para 25%, o que equivaleu a um retrocesso dos níveis dos anos 60.

- Além disso, a Ditadura criou uma ciranda financeira, conhecida como “la plata dulce”, ou, “o doce dinheiro”.

- Ao mesmo tempo em que tomavam medidas neoliberais, como a abertura irrestrita das importações, os militares continuavam mantendo imensas estruturas nas empresas estatais, que transformaram-se em cabides de emprego de generais, coronéis e seus parentes.

- Os militares também estatizaram US$ 15 bilhões de dívidas das principais empresas privadas do país (além das filiais argentinas de empresas estrangeiras).

- No meio desse caos econômico, os militares provocaram um déficit fiscal de 15% do PIB.

- A repressão provocou um êxodo de centenas de milhares de profissionais do país. Os militares, em cargos burocráticos, exacerbaram a corrupção na máquina estatal.

Paradoxos: A Ditadura tinha um discurso anticomunista mas continuou vendendo trigo para a URSS e não aderiu ao boicote americano contra as Olimpíadas de Moscou em 1980.

‘GUERRA’ OU REBELIÃO LOCALIZADA? – Os militares deram o golpe e instauraram a ditadura mais sanguinária da História da América do Sul (América do Sul, não América Latina) com o argumento (um dos vários) de que a guerrilha controlava grande parte do país. Segundo os ex-integrantes da ditadura, os militares argentinos implementaram uma “guerra”.

No entanto, trata-se de um exagero para justificar os massacres cometidos durante a ditadura.

A pequena guerrilha argentina, mais especificamente o ERP, dominava às duras penas uma pequena porcentagem da província de Tucumán, a menor província da Argentina.

A magnificação da guerrilha foi útil para os militares e também para o prestígio dos guerrilheiros. A nenhum dos dois lados era conveniente admitir a realidade, de que a área controlada pela guerrilha era ínfima.

Os militares e os setores civis que apoiaram o golpe (e os saudosistas daqueles tempos) afirmavam (e ainda afirmam) que o país estava em guerra civil nos nos 70.

Mas, “guerra civil”, rigorosamente, seriam conflitos de proporções mais substanciais, tais como a Guerra da Secessão dos EUA, a Guerra Civil Espanhola, a Guerra Civil Russa logo após a proclamação do Estado Soviético, a Guerra das Duas Rosas (Lancasters versus Yorks, na Inglaterra) ou a Guerra Civil da Grécia após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Ainda: a Guerra Civil da Nicarágua, e a de El Salvador. Isto é: bombardeios de cidades, grandes êxodos de refugiados, centenas de milhares de mortos, uma boa parte de um país controlado por um dos lados, e outra parte controlada por outro lado. Isso não ocorreu na Argentina nos anos 70.

JR Videla e sua troupe em discurso durante a ditadura militar argentina. Seu governo, além de protagonizar um massacre de civis, foi um fracasso econômico e militar.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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 A morte do general Jorge Rafael Videla, ocorrida nesta sexta-feira dia 17 de maio, salvou o ex-ditador de ser julgado neste ano por “genocídio cultural”, uma nova figura jurídica que debutaria no julgamento que transcorreria na cidade de Rosário, província de Santa Fe.

Videla, de 87 anos,condenado em 2010 à prisão perpétua por torturas, sequestros e assassinatos durante a ditadura militar (1976-83), também estava sendo acusado de ser o responsável pelo saque e queima dos 80 mil livros da Biblioteca Popular Constancio Vigil no dia 25 de agosto de 1977 em Rosario.

Grande parte dos livros dessa biblioteca – que valeria hoje US$ 40 milhões – foram queimados por serem considerados “subversivos” pelos militares. Outra parte foi roubada e revendida pelos oficiais. O caso desta biblioteca também foi enquadrada na área de delitos econômicos da ditadura. “O ataque foi pensado e planejado para destruir a obra educativa e cultural, e atrás disso estava também a intenção de negociatas”, afirmou o promotor Gonzalo Stara.

O julgamento estava marcado para meados neste ano, embora não tenha uma data definida, segundo fontes da Assembleia Permamente de Direitos Humanos de Rosario. Outros envolvidos no caso da destruição da biblioteca serão levados ao banco dos réus.

Videla, Jorge Rafael: nesta sexta-feira ele morreu de uma parada cardíaca em sua cela na prisão de Marcos Paz, onde cumpria pena por torturas, sequestros e assassinatos de civis. O curriculum vitae do ex-general também incluía sequestros de bebês. Ele estava a ponto de ser julgado por “genocídio cultural”. Mas, Caronte o salvou dessa.

PIROMANÍACO - O ex-ditador, além de piromaníaco, foi uma espécie de serial killer com cargo presidencial. Protagonista do golpe que em março de 1976 implantou a ditadura militar mais sanguinária da História da América do Sul, seu regime teve um saldo de 30 mil civis assassinados nos centros clandestinos de detenção. A ditadura também sequestrou 500 bebês, dos quais somente 108 recuperaram sua identidade até hoje.

A ditadura protagonizou várias incinerações de livros em diversas cidades do país. O general Luciano Benjamin Menédez – com a autorização de Videla – transformou-se em um dos principais protagonistas das queimas, para as quais organizava solenidades que presidia e que imitavam as queimas de livros feitas pela Inquisição e o nazismo.

“Da mesma forma como destruímos pelo fogo a documentação perniciosa que afeta o intelecto e nossa maneira cristã de ser, serão destruídos os inimigos da alma argentina”, disse Menéndez em abril de 1976.

Em junho de 1980 a ditadura queimou 24 toneladas de livros confiscados do Centro Editor América Latina.

Na lista de autores suspeitos dos militares estavam escritores como Gabriel García Márquez, passando por Julio Cortázar, Sigmund Freud e até Marcel Proust.

O regime proibiu o ensino da teoria matemática dos conjuntos, por considerar que era “subversiva”. A palavra “vetor” também foi proibida nas escolas, já que os militares consideravam que era utilizada na terminologia marxista.

Soldados chilenos queimam livros após o golpe de 11 de setembro de 1973, que instaurou a ditadura do general Augusto Ramón Pinochet.

INTELIGÊNCIA MILITAR - Em setembro de 1980 as autoridades da ditadura de Videla proibiram o uso do livro “O pequeno príncipe”, do francês Antoine de Saint-Éxupery, nas escolas, por considerá-lo “subversivo”.

As autoridades também proibiram um livro de engenharia elétrica, o “Cuba electrolítica” (isto é, ‘célula eletrolítica’). Os censores acreditaram que o ‘cuba’ referia-se à ilha caribenha, controlada pelo regime comunista de Fidel Castro.

O general Ramón Camps, o chefe da polícia da província de Buenos Aires, que instalou dezenas de centros de detenção e tortura e era declarado admirador de Adolf Hitler. Camps defendia o sequestro de bebês, filhos das desaparecidas políticas, alegando que a subversão era “genética” e que era necessário combatê-la criando as crianças em “lares cristãos”.

LÉXICO

Biblioclasmo ou Livrocídio: Denominações das práticas de destruir – em alguns casos, com cerimônias incluídas – livros e outros tipos de material escrito.

A queima de livros é uma forma clássica de regimes opressivos que pretendem censurar ou silenciar algum aspecto da cultura de uma nação.

Na ilustração acima, a queima de livros protagonizadas pelos nazistas no dia 11 de maio de 1933 na Praça da Ópera em Berlim (foto dos Arquivos Gerais da Alemanha).

Heinrich Heine, poeta alemão, escreveu em 1821: “ali, onde queimam-se livros, depois acabam queimando seres humanos”.

Sigmund Freud, pai da psicanálise, quando ficou sabendo que os nazistas haviam queimado livros seus, comentou com um misto de ironia e estupefação: “como o mundo avançou…na Idade Média teriam me queimado” (pouco tempo depois da morte de Freud o Terceiro Reich começaria a queimar pessoas nos campos de concentração)

Lista de bibliotecas destruídas ao longo da História mundial: http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_destroyed_libraries

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William Rufus Devane King: sua posse extraterritorial foi usada como justificativa por uma suprema corte de maioria chavista 

A presidente do Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela, Luisa Estela Morales, justificou nesta quarta-feira a sui generis situação do presidente Hugo R. Chávez, ausente de Caracas nesta quinta-feira dia 10 de janeiro para a posse de seu quarto mandato presidencial. Uma das justificativas é que Chávez foi “reeleito” e não “eleito”, e portanto, há uma continuidade do poder. E desta forma, não precisa estar presente agora ou nos próximos dias. Segundo ela, a posse poderá ser no futuro, quando Chávez possa.

A outra justificativa implicou em arquivar temporariamente as posições anti-americanas (pelo menos, na área discursiva) do chavismo para recorrer a um exemplo yankee para defender um eventual juramento do presidente Chávez no futuro fora da Venezuela (neste caso, perante os juízes do Supremo). Coincidentemente, neste caso, na ilha de Cuba.

“Nos Estados Unidos, por exemplo, poderíamos citar que há muito tempo um governante americano tomou posse fora de seu país, William King, o décimo-terceiro presidente americano William King”, disse a juíza.

No entanto, King não era presidente. Era o vice-presidente. O presidente era Franklin Pierce, que tomou posse normalmente em Washington.

Segundo a juíza, “sequer existe ausência temporária” de Chávez, que desde o dia 11 de dezembro está internado em um hospital em Havana.

WILLIAM KING - Em 1852 o Partido Democrata escolheu William Rufus King para ser o vice na chapa de Frankilin Pierce. A dupla venceu as eleições presidenciais de novembro daquele ano. Mas, os problemas pulmonares de King – que na campanha havia ficado evidentes – agravaram-se. Em dezembro foi descrito por amigos seus como um “esqueleto”. No fim do mês decidiu passar o inverno no clima tropical de Cuba para ver se podia recuperar sua abalada saúde.

Em fevereiro, já em Cuba, King percebeu que não conseguiria enfrentar a viagem até Washington para a posse do dia 4 de março.

O Congresso, informado do agravamento da saúde do vice eleito, tomou uma medida inédita – e jamais repetida – de aprovar uma lei especial, de exceção, que permitiria que King tomasse posse em solo estrangeiro, alegando que o veterano político havia prestado “importantes serviços à pátria”.

A decisão também tinha um quê de compaixão, afirmam historiadores, já que os integrantes do Congresso sabiam que King estava em estado terminal e nunca seria o vice.

Desta forma, King tornou-se a figura de maior hierarquia institucional na História dos EUA a prestar juramento em solo estrangeiro. Mais especificamente, foi em uma fazenda perto de Matanzas, nas proximidade de Havana. O vice não conseguia nem ficar em pé para o juramento.

King continuou piorando e partiu de Cuba rumo aos EUA, mais especificamente, Alabama. Desembarcou em Mobile e chegou a ao vilarejo de Selma no dia 17 de abril de 1853. King morreu um dia depois, aos 67 anos, em sua fazenda.

El Cid, morto, embora cavalgando o fiel Babieca, sai da fortaleza cercada para dar sopapos nos inimigos. Ou, pelo menos fazer de conta que está no comando do ataque ibérico. Neste caso, o que importa é o que parece ser.

MANOBRA EL CID – Segundo a teoria do Supremo venezuelano, sempre que a Assembléia Nacional renove a licença de saúde a Chávez, poderia teoricamente existir um cenário no qual ele poderia permanecer em licença ao longo dos próximos seis anos (isto é, permanecendo na UTI em Havana), disputar a eleição de 2019, e, no caso de ser reeleito, prescindir novamente da – digamos assim – “formalidade” da posse.

Essa eventual manobra, somada aos rumores de que o presidente Chávez poderia estar morto ou em coma (Ariel Sharon, em Israel, esteve em coma grande parte do tempo desde 2006, embora agora esteja em estado semi-vegetal) gera um clima de grande desconfiança, já que não aparece uma imagem pública do líder bolivariano desde o dia 11 de dezembro. De quebra, o governo não fornece detalhes sobre a doença. Os integrantes do gabinete nunca explicaram qual é tipo de câncer e onde está o tumor (ou tumores).

Desta forma, na internet e nas conversas entre os venezuelanos abundam alusões – de forma positiva ou de forma negativa – comparando Chávez a “El Cid”, o medieval super-guerreiro espanhol que morreu em Valência em 1099.

Uma lenda (tardia, surgida bem depois de sua morte) indica que seus aliados preferiram ocultar durante um tempo que El Cid havia partido para o além e colocaram seu cadáver sentado em cima de seu cavalo. Na sequência, o soltaram para colocar em pânico seus inimigos mouros. E, assim morto, ganhou sua última batalha.

Esta versão ficou definitivamente imortalizada no celulóide em “El Cid”, protagonizada por Charlton Heston e Sofia Loren (a atriz italiana está um pitéu neste clássico da Sétima Arte…bom, quando não esteve esplêndida?)

Aqui, a cena na qual El Cid é vestido com a armadura e colocado com barras de ferro firme em sua sela. E, finalmente Babieca – seu cavalo – sai cavalgando para fora dos muros da cidade, levando El Cid na frente de suas tropas, como se estivesse vivo.

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O rei Pedro II Karageorgevich (ou Petar II Karađorđević ou ainda Пеtар II Карађорђевић) da Iugoslávia (1923-1970)

O presidente da Assembleia Nacional, o parlamento venezuelano, Diosdado Cabello, afirma que o presidente Hugo Chávez não necessariamente tem que tomar posse em Caracas, capital do país, no dia 10 de janeiro. Segundo ele, a ausência de posse nesse dia não determina a ausência absoluta.

Cabello diz que a constituição deixa claro que, se o presidente não pode comparecer à Assembleia no dia da posse, ele pode prestar juramento no Tribunal Supremo de Justiça.

Essa tese também foi defendida pelo vice-presidente Nicolas Maduro, ex-líder sindical do metrô de Caracas, que em dezembro, antes da partida do líder bolivariano para sua 4ª operação em Cuba, foi designado por Chávez seu virtual delfim político.

Segundo Cabello e Maduro, as normas não especificam nem quando nem onde deveria ser essa posse perante os integrantes do Supremo.

Isto é, ambos deixaram o caminho aberto para os rumores que indicam que Chávez, se estivesse relativamente bem para sair do hospital, poderia ir até a embaixada da Venezuela em Havana e juramento na representação diplomática, já que trata-se de solo venezuelano encravado em território cubano.

Mas, digamos que Chávez não possa prestar juramento na embaixada, porque poderia ser difícil para que o convalescente líder bolivariano saia do hospital. Nesta hipótese, uma alternativa seria usar a UTI do Centro de Investigaciones Médico Quirúrgicas (CIMEQ), o hospital em Havana.

No entanto, nem a UTI nem o resto do Cimeq são território venezuelano.

Neste caso, poderia ser usado um precedente peculiar para isto, a “Manobra Karageorgevich”, com a qual poderiam transformar a sala do hospital temporariamente em território venezuelano em Cuba.

 

O rei Pedro e sua mulher, a rainha Alexandra, com bebê/príncipe herdeiro Alexandre, nascido no menor encrave que a Iugoslávia já teve…na Inglaterra.

O MENOR E MAIS EFÊMERO ENCRAVE DO MUNDO: Em 1945 o rei Pedro II Karageorgevich da Iugoslávia, que estava exilado em Londres desde 1940 por causa da invasão nazista a seu país, estava em um dilema. Sua mulher, a rainha Alexandra, com a qual havia casado em 1944, estava a ponto de dar a luz.

Mas, segundo a lei dinástica de seu reino, se o príncipe herdeiro não nascesse em território nacional iugoslavo, perderia o direito à coroa.

O rei Pedro não podia voltar a seu país. Ele estava em uma sinuca e tentava encontrar uma solução na suíte 212 do Hotel Claridge, em Londres, onde residia no exílio.

A Grã-Bretanha, aliada do Reino da Iugoslávia, decidiu não deixar o rei Pedro na mão.

O rei Jorge VI, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill e o rei Pedro assinaram um acordo pelo qual a soberania da suíte 212 do Hotel Claridge seria cedida por 24 horas à Iugoslávia, para logo em seguida voltar à Grã-Bretanha. Ali seria o parto real.

A lenda diz que os empregados do hotel espalharam terra especialmente levada da Iugoslávia para que o herdeiro nascesse – literalmente – sobre solo iugoslavo, e não somente sobre os macios tapetes transitoriamente “iugoslavizados”.

Desta forma, a suíte 212 do Claridge foi o menor encrave territorial de toda a História mundial, além de ser o mais efêmero de todos. Uma espécie de Bálcãs em pleno coração de Londres.

No entanto, o príncipe Alexandre, ali nascido, nunca conseguiu ser rei. Mas, por outro motivo: a Iugoslávia foi governada a partir do fim da guerra pelo líder comunista Josep Brioz Tito, que aboliu a monarquia. E, nos anos 90, a Iugoslávia deixou de existir, dividindo-se entre vários países independentes.

Baseado neste precedente, uma alternativa é que o presidente de Cuba, Raúl Castro, ceda à Venezuela o território da UTI durante 24 horas, transformando-o em um minúsculo encrave venezuelano na ilha de José Martí, Bola de Nieve e Ernesto Lecuona. Assim, Chávez poderia prestar juramento em território venezuelano.

 

O elegante hotel Claridge, em Londres. Sua suíte 212 foi uma mini-Iugoslávia por 24 horas.

E falando em Cuba, um pouco de Ernesto Lecuona, “Vals de los mares”:


hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Entre o final dos anos 40 e início dos 50 o então presidente Juan Domingo Perón tinha o controle da maior parte da mídia argentina. Poucos persistiam em criticar suas políticas. Um deles, o “La Prensa”, foi alvo de uma intensa guerra desatada pelo governo, que tentou asfixiar o jornal por intermédio de ações do fisco, denúncias sanitárias, boicote ao periódico, redução na venda de papel de jornal, entre outras medidas. Acima, o casal Juan Domingo Perón e Eva Duarte de Perón em pose de gala. O quadro está atualmente no Museu do Bicentenário, atrás da Casa Rosada. Detalhe interessante: por causa do amplo sorriso do carismático Perón, o militar que tornou-se presidente quando era coronel, era chamado de “Coronel Kolynos”.

Fui derrubado do governo quando tinha todos os meios de comunicação a favor…e ganhei as eleições quanto tinha todos os meios contra mim!”. A frase foi pronunciada pelo presidente Juan Domingo Perón em 1974, pouco antes de morrer. O septuagenário caudilho, que fazia um balanço sobre sua relação com a mídia, referia-se à sua queda em 1955 – quando ostentava um controle sem precedentes da maioria dos meios de comunicação – e de sua vitoriosa eleição, em 1973 – que bateu recordes de votação – quando a mídia era majoritariamente contrária ao fundador do peronismo.

Perón foi intensamente recordado nos últimos três anos, desde a aprovação da Lei de Mídia, já que – segundo os analistas políticos – a presidente Cristina Kirchner, em vez de ter a atitude de tolerância dos derradeiros anos de Perón, reprisa a ambição de ter o controle total da mídia que havia caracterizado o fundador do peronismo no início da carreira, nos anos 40 e 50.

Da mesma forma que Cristina tenta atualmente destruir o poder do Grupo Clarín, a principal holding multimídia argentino, Perón colocou uma bateria de restrições à mídia privada e armou uma superestrutura de meios de comunicação estatais, além de redes privadas de empresários “amigáveis”.

Perón, em seus primeiros dois governos (1946-55), contava com uma ampla rede de comunicação que divulgava as notícias favoráveis à sua administração e omitia os assuntos inconvenientes. Ele contava com o Alea S.A., um monopólio estatal criado em 1951 que tinha o respaldo de três grupos que eram nominalmente privados mas que estavam diretamente comandados pelo governo: a editora Heynes, a Associação Promotores de Teleradiodifusão e a editora La Razón (que publicava um dos principais jornais do país, o “La Razón”).

Segundo o historiador Eduardo Lazzari, a primeira estratégia de Perón em relação aos meios de comunicação foi a de defender-se das críticas. No entanto, pouco tempo depois de chegar ao poder o fundador do peronismo concluiu que a defesa não era suficiente. Desta forma, começou a pressionar os donos de meios de comunicação a vender seus jornais, revistas e estações de rádio.

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No início dos anos 50 Perón abraça efusivamente o ditador do Paraguai, Alfredo Stroessner. Quando foi derrubado, em 1955, Perón buscou refúgio em Assunção, capital do país do amigo presidente paraguaio. E embaixo, em 1974, cumprimenta o recém-empossado ditador/general chileno Augusto R. Pinochet. O “R” é de “Ramón”.

Boa parte das pressões eram realizadas pela Comissão Bicameral Investigadora de Atividades Anti-argentinas. comandada pelo ultra-peronista deputado Emilio Visca, que vasculhava os livros de contabilidade dos jornais não alinhados com Perón para ter argumentos para seu fechamento, confisco ou intervenção.

Tal como o governo da presidente Cristina Kirchner fez com o jornal “Clarín” ao realizar uma blitz de insólitas proporções da Afip (a receita federal argentina) – as companhias jornalísticas que resistiam ao assédio de Perón eram pressionadas com o Fisco. Algumas eram alvo da vigilância sanitária: se os vasos sanitários dos banheiros dos funcionários apresentassem alguma irregularidade ou sujeira maior à costumeira, podiam ser fechados.

Em alguns casos, se os empresários mostrassem obediência, podiam ser designados como diretores de suas ex-empresas, agora estatizadas, de forma a camuflar a compra compulsória realizada pelo governo. O modus operandi era o de destinar os fundos necessários para essas compras eram provenientes do Instituto Argentina para o Estímulo ao Intercâmbio (Iapi), comandado por Miguel Miranda, um gênio da contabilidade criativa.

O antigo edifício do La Prensa, na avenida de Mayo. Atualmente é a Secretaria de Cultura da capital argentina

LA PRENSA – A “mãe de todas as batalhas” de Perón na mídia foi o combate contra o “La Prensa”, jornal da aristocrática família Paz, definido pela revista americana “Time” como um dos mais respeitados periódicos do mundo na época. O “La Prensa”, cuja tiragem era de 480 mil exemplares, tornou-se alvo de uma campanha do governo a partir de 1947.

O “La Prensa” foi atacado pelas rádios aliadas do governo e enfrentou uma campanha oficial que promovia o boicote da compra de seus exemplares. Os anunciantes eram pressionados para não colocar publicidade nas páginas do “La Prensa”. O racionamento de papel encolheu o jornal das 40 páginas costumeiras a apenas 12. Mas, o jornal, apesar das pressões, continuava saindo às ruas.

Tal como o “Clarín” atualmente, o “La Prensa” era alvo de blitze sem justificativas do fisco argentino.

Em 1950, o governo confiscou as novas rotativas importadas e as destinou para o “Democracia”, jornal editado pelo próprio Estado argentino. Em 1951 o sindicato dos jornaleiros ameaçou não distribuir mais o periódico. O “La Prensa” sobreviveu vendendo os exemplares em sua sede aos leitores que iam até o centro portenho comprar o jornal.

O “La Prensa” estava disposto a resistir, apesar da guerra desatada por Perón. Sem conseguir colocar o jornal de joelhos, Perón, com a aprovação do Parlamento – no qual o peronismo era maioria – ordenou o confisco do “La Prensa”, que foi entregue à Confederação Geral do Trabalho (CGT), a única central sindical autorizada por Perón. O líder do bloco peronista na Câmara, John William Cooke, afirmou que o governo estava contra “La Prensa” porque, segundo ele, o jornal “estava contra os operários e contra os peronistas”.

O historiador Luis Alberto Romero afirmou ao Estado que a liberdade de expressão nos tempos de Perón sofria um amplo leque de problemas, indo desde o “fechamento de jornais, passando pelo confisco e estatização dos meios de comunicação, até a auto-censura”. Romero relata que seu pai, o historiador José Luis Romero, que era colaborador do jornal “La Nación”, às vezes dizia ao filho que o estilo jornalístico desse periódico estava “muito imbricado”.

“Mas essa era única forma de conseguir dizer certas coisas, por intermédio de elipses, evitando ser explícito, para driblar problemas com o governo de Perón, que já havia demonstrado sua determinação em anular meios críticos fechando o ‘La Prensa’”.

Perón e Evita assistem uma parada militar na frente do Congresso Nacional

Jornais como “La Nación” – que já enfrentava o racionamento de papel de jornal, controlado pelo governo – tiveram que moderar suas críticas ao presidente Perón, para evitar correr destino similar ao “La Prensa”.

Com a queda de Perón em 1955, o “La Prensa” voltou às mãos de seus donos originais. No entanto, o jornal nunca mais foi o mesmo, já que durante a intervenção iniciou uma fase de decadência que foi aproveitada por um periódico que começava seus primeiros passos, o “Clarín”, que teve apoio de Perón e que é o leitmotiv da política da presidente Cristina Kirchner.

E, para encerrar esta noite, a “Lacrimosa”, do Réquiem de Wolfgang Amadeus Mozart. Rege Hebert von Karajan:

 

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Aproveitamos este 11 de setembro, data do bombardeio do Palácio de La Moneda por ordens do general (e na sequência, ditador) Augusto Ramón Pinochet em 1973, para recordar esta postagem sobre a lenda que ainda perdura sobre esse edifício em Santiago e outro prédio no Rio.

Entre Santiago do Chile e o Rio de Janeiro aparece ocasionalmente a versão de que o Palácio de La Moneda – o palácio presidencial chileno – na verdade teria que ser a Casa da Moeda – o atual Arquivo Nacional – do Rio de Janeiro. E a mesma versão sustenta que a Casa da Moeda da ex-capital brasileira teria que ter sido o palácio presidencial do Chile.

A lenda é saborosa e indica que os projetos de um edifício e do outro, supostamente importados da Europa (algumas versões indicam que os projetos vinham da Inglaterra), teriam sido trocados no navio que descia da Europa rumo à América do Sul.

Segundo a lenda, os rolos de papel com os detalhes do palácio presidencial chileno, por confusão, teriam desembarcado na primeira escala, o Rio de Janeiro.

E, os planos destinados à construção da Casa da Moeda do imperial Rio dos Habsburgos & Bragança teriam virado pelo Cabo Horn, desembarcado em Valparaíso e finalmente levados até Santiago do Chile.

Mas, a lenda – apesar de divertida – não tem justificativas, já que os dois prédios são de épocas totalmente diferentes. A realidade, infelizmente, foi bem mais prosaica.

Os planos não foram encomendados à Europa. Foram feitos aqui mesmo na América do Sul (se bem que no caso do Chile, o arquiteto era um italiano que passou o resto de sua vida em Santiago e havia chegado anos antes para outras obras em Santiago).

 
O Palácio de La Moneda, Santiago Chile. Construído para ser uma casa da moeda, foi primeiro casa da moeda, depois foi simultaneamente palácio presidencial e casa da moeda…até finalmente ser exclusivamente palácio presidencial
 
As obras do prédio do chileno Palácio de La Moneda começaram em 1786…enquanto que a ordem para construção do novo prédio (o tal da lenda) da Casa da Moeda no Rio de Janeiro é de 1853. As obras deste prédio carioca concluíram em 1868.

O Palácio de la Moneda foi construído para ser a Casa da Moeda em Santiago, no Chile colonial.

As obras começaram em 1786 e terminou em 1812 . O projeto é do italiano Gioacchino Toesca (que espanholizou seu nome para Joaquín Todesca). No entanto, ele não fez o projeto à distância. Toesca havia desembarcado em Santiago seis anos antes de iniciar a obra de La Moneda, para concluir a construção da catedral da cidade.

 

Gioacchino, aliás, Joaquín; Toesca, aliás, Todesca

A construção do prédio terminou no meio do rocambolesco mix de guerras de independência do Chile e dos outros países da região. Nesse prédio, em 1814 foram cunhadas as primeiras moedas do Chile independente.

Em 1845 a imensa construção começou a ser utilizada também como sede do governo da República e residência dos presidentes chilenos (antes disso, desde 1817, a sede do governo havia sido o edifício da Real Audiência, na Praça de Armas de Santiago, hoje transformada no Museu Histórico Nacional).

A Casa da Moeda funcionou – junto com os escritórios presidenciais – no Palácio de La Moneda até 1924. Isto é, durante quase um século foi simultaneamente palácio presidencial e casa da moeda chilena.

Nesse ano a função de cunhar moedas passou para outro edifício. E o Palácio de La Moneda ficou somente como palácio presidencial. Mas manteve o nome da função original.

O La Moneda sob bombardeio em pleno centro de Santiago, em 1973

Em 1973 o Palácio de La Moneda foi bombardeado pelas forças do general (e depois do golpe, ditador também) Augusto Ramón Pinochet. Os foguetes lançados pelos aviões Hawker Hunter e os canhões do Exército destruíram grande parte do palácio e destruíram obras de arte, além da ata da independência chilena, documento que foi destruído pelas bombas de Pinochet.

O estilo do palácio em Santiago é o neoclássico italiano puro.

 

A antiga Casa da Moeda, na ex-imperial Rio de Janeiro. Foi a casa da moeda praticamente durante toda sua existência. Agora é o Arquivo Nacional. Nunca foi pensada para ser palácio presidencial ou imperial. Nem no Rio de Janeiro, muito menos na distante Santiago do Chile

O prédio da Casa da Moeda no Rio de Janeiro – situada na antiga Praça de Aclamação, atual Praça de República – é obra dos engenheiros Teodoro de Oliveira (geralmente o mais citado) e Antonio Francisco Guimarães Pinheiro (quase sempre esquecido).

Seu estilo é um neoclássico adaptado ao Brasil…um estilo denominado de “Imperial Brasileiro”.

A Casa da Moeda esteve nesse palacete até 1983, ano em que foi removida para o Parque Industrial Santa Cruz. Hoje é a sede do Arquivo Nacional.

O prédio no Rio parecia mais palácio presidencial do que o Palácio de La Moneda em Santiago. Este tem mais physique du rôle de uma grande caixa de sapatos (uma excelente caixa de sapatos, segundo opinião de vários chilenos conhecidos) do que de qualquer outra coisa. Isso, evidentemente, alimentou a lenda da troca de projetos entre o Rio de Janeiro e Santiago do Chile.

De quebra, o edifício carioca possui colunas dóricas no andar de baixo e jônicas no andar de cima. E, além disso, uma imponente escadaria.

O edifício parecia mais imponente quando o bairro estava vazio no final do século XIX, então chamado Campo de Santana.

 

A antiga Casa da Moeda no Rio. Nunca esteve pensada para ser construída do outro lado da Cordilheira dos Andes

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Dia da Indústria na Argentina – o 2 de setembro – celebra a primeira exportação de manufaturados Made in (futura) Argentina em 1587. Mas, por trás dessa primeira operação comercial bilateral, havia uma operação de contrabando encoberta com cúmplices no Brasil. O autor da maracutaia bilateral: o bispo Francisco de Vitoria (fazemos um remake deste post de 2 anos atrás para recordar esta data histórica).

Na quarta-feira dia 2 de setembro de 1587 zarpou de Buenos Aires a caravela San Antonio, sob o comando do capitão Antonio Pereyra. O destino da nave era Salvador, Bahia.

O carregamento oficial consistia em farinha de trigo, tecidos (colchas, faixas, ponchos, lençóis, entre outras) manufaturados nas cidades de Soconcho (província de Córdoba) e Manogasta (província de Santiago del Estero), além de chapéus, sinos e outros produtos feitos de ferro feitos na cidade de Santiago del Estero, uma das mais prósperas na região na época.

Era a primeira exportação realizada por cidades instaladas na terra que atualmente é a Argentina (na época a Argentina não existia, pois era a província do Rio da Prata, que pertencia ao Vice-reinado do Peru, cuja sede era a cidade de Lima).

O empresário por trás da operação comercial era o bispo de Tucumán, Francisco de Vitoria, um dominicano hábil em todo tipo de ‘trades’.

Na época, tanto Buenos Aires, como Santiago del Estero e Salvador estavam governados pelo mesmo monarca, o rei espanhol Felipe II. Sete anos antes a Espanha havia tomado Portugal graças a problemas dinásticos. As colônias, embora administradas separadamente, puderam realizar certo intercâmbio comercial (antes proibido). Neste cenário, entre uma missa e outra, o bispo Vitoria aproveitou a oportunidade.

Desde 1940 a data é celebrada na Argentina como o “Dia da Indústria Nacional”, já que a venda ao exterior era integrada por produtos manufaturados. Ontem foi o dia. Mas hoje à noite as principais associações empresariais do país celebrararam a data em um jantar com toda pompa comandado pela presidente Cristina Kirchner.

Mas, diversos historiadores, entre eles, Felipe Pigna, autor “Mitos da Argentina” ressaltam que a data não é exatamente motivo de celebração. “Devem existir poucos países no mundo que para homenagear sua indústria nacional escolhem um delito, concretamente, um episódio de contrabando”, afirma Pigna.

 

Entre uma missa e outra, atividades comerciais non sanctas. Francisco de Vitoria: o sacerdote de Deus na ilustração acima, no apogeu de sua influência comercial proto-mercosulina lá pros cafundós cronológicos do final dos 1500

ATIVIDADES NON SANCTAS - “Sua vida não é de prelado, mas sim, de mercador”, afirmava o governador de Tucumán, Ramírez de Velasco, em carta ao rei, enquanto o bispo dedicava-se ao business de export-import.

“Ele já me excomungou duas vezes. Todo seu negócio são tratos e contratos…”, ressaltava o governador.

Mas, o clérigo tinha costas quentes. Vitoria, além de ter em seu curriculum vitae um passado de integrante da Santa Inquisição na Espanha, era recomendado pelo Conselho de Índias como “bom letrado e pregador”.

Mas, enquanto o clérigo esperava os lucros que proviriam das exportações, o governador denunciava o bispo, indicando que dentro dos sacos de farinha iam camuflados quilos e quilos de barras de prata que Vitoria havia trazido das minas de Potosí (atual Bolívia).

As exportações de prata estavam categoricamente proibidas. Isto é, as primeiras exportações realizadas desde a Argentina para o Brasil encobriam um ato de contrabando. E, evidentemente, Vitoria tinha um parceiro nesta empreitada non sancta, já que o destinatário desta encomenda especial era o governador do Brasil, Manuel Telles Barreto (1583-1587).

Minas de Potosí, onde milhares de índios eram submetidos a intermináveis horas de trabalho escravo.

EXPORT & IMPORT - Vitoria, que no norte da Argentina possuía 20 mil índios escravos, aproveitou a viagem de volta da caravela San Antonio para trazer produtos para a Argentina (o bispo foi o primeiro exportador e também o primeiro importador).

Entre os produtos encomendados por Vitoria a seus colegas em Salvador estavam 120 passageiros ‘involuntários’, isto é, escravos africanos (que seriam enviados às minas de prata de Potosí).

No entanto, metade destes escravos africanos, que haviam trabalhado como escravos no Brasil, nunca chegaram à Buenos Aires.

No meio do caminho, o navio que transportava os produtos importados pelo bispo Vitoria foi atacado – com sucesso – pelo pirata inglês Thomas Cavendish (1560-1592).

O pirata abordou a caravela e levou toda a mercadoria de Vitoria, além de metade dos escravos.

Cavendish, um dos piratas que assolavam as costas do continente americano no século XVI e sapecou as mercadorias do bispo Vitoria.

VELHO DITADO - Um ano depois, Vitoria – com o dinheiro obtido da venda dos 60 escravos africanos em Potosí – tentou de novo fazer a operação comercial. Mais uma vez, levou lingotes de prata de contrabando rumo ao Brasil.

Mas, um temporal virou o navio, que afundou. Os tripulantes tiveram tempo de salvar parte da prata e chegaram até a praia.

No entanto, o dinheiro não voltou ao bispo, já que em Buenos Aires, o governador Torres de Navarrete aplicou o velho ditado “ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão”, e ficou com um terço da prata de Vitoria. Os outros dois terços o governador Navarrete distribuiu entre os moradores de Buenos Aires.

Vitoria e seu entourage tiveram que voltar, sem um vintém, para Tucumán, a pé. Nem uma mula sequer puderam adquirir.

Posteriormente, Vitoria perdeu influência e poder e foi removido do cargo. Em 1590 voltou para a Espanha, onde faleceu.

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Caricaturistas, humoristas e imitadores retratavam De la Rúa com uma de suas principais marcas: a sonolência e lerdeza de seu governo. Esta escultura, feita pelos artistas plásticos Jorge Maculán e Pablo Bach, foi exposta em uma divertida mostra chamada “Reino de Bolonquia” no ano passado em Buenos Aires, que mostrava os diversos presidentes argentinos. A versão de Cristina Kirchner era uma rainha Nefertiti. Menem aparecia como Luis XIV.

O ex-presidente Fernando De la Rúa (1999-2001) sentou ontem, terça-feira, no banco dos réus no Tribunal Oral Federal Número 3 pela acusação de ter pago subornos a um grupo de pelo menos seis senadores do Partido Justicialista (Peronista) no ano 2000 para conseguir a aprovação da lei de reforma trabalhista. De la Rúa teria pago US$ 5 milhões para aprovar a reforma, exigida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). A presidente Cristina Kirchner, que na época do escândalo era senadora – e votou contra a lei de De la Rúa – foi convocada para prestar depoimento. No entanto, enviaria suas declarações por escrito ao tribunal. Além dela, outras 338 testemunhas também foram convocadas pela Justiça.

Também sentaram no banco dos réus o ex-diretor da Secretaria de Inteligência do Estado (Side), Fernando de Santibáñes, o ex-ministro do Trabalho Alberto Flamarique, o ex-pró-secretário parlamentar Mario Pontaquarto. Outros seis senadores estavam indiciados. Mas, somente participaram quatro, já que um deles não comparecerá por sofrer de Alzheimer, enquanto que outro – José Genoud – estará inexoravelmente ausente: suicidou-se há quatro anos com um tiro no coração.

Outro senador ficou misteriosamente “esquecido” e fora deste julgamento: o peronista José Luis Gioja, atual governador da província de San Juan.

Do total dos US$ 5 milhões, US$ 4,3 milhões teriam sido distribuídos aos senadores peronistas. Os restantes US$ 700 mil foram divididos entre Genoud e Flamarique.

Ontem, o ex-presidente, por intermédio de seus advogados, afirmou que Pontaquarto não passa de um “mitômano” e que as acusações que enfrenta são “absurdas e cheias de contradições”. Pontaquarto retrucou: “as mentiras de De la Rúa foram uma constante neste tempo todo”.

De la Rúa transforma-se no segundo presidente civil argentino a ser julgado por corrupção. O primeiro foi Carlos Menem (1989-99), acusado de liderar uma quadrilha que realizou o contrabando de armas para a Croácia e o Equador entre 1991 e 1994. Menem, que há três anos tornou-se aliado da presidente Cristina Kirchner, foi inesperadamente absolvido no ano passado por juízes designados pelo kirchneirsmo.

Se for considerado culpado no término deste julgamento, que poderia concluir daqui a seis meses, De la Rúa poderia receber uma condenação de até seis anos de prisão.

SUBORNOS - O escândalo veio à tona quando o ministro Flamarique disse em abril de 2000 em tom desafiante ao líder sindical Hugo Moyano que conseguiria a aprovação da lei com os senadores graças à “Banelco”, nome de um cartão de débito utilizado na Argentina na época, em alusão ao eventual suborno aos parlamentares.

Poucos meses depois, o vice-presidente Carlos “Chacho” Álvarez, renunciou, indignado com a falta de esclarecimentos. “A política deve deixar de estar associada ao delito”, disse no discurso de renúncia.

Na ocasião, De la Rúa defendeu-se argumentando que tudo não passava de uma intriga da imprensa. Nos meses seguintes o affaire dos subornos foi engavetado por “falta de provas”. Depois, De la Rúa arrematou: “aqui não há crise”.

Álvarez renunciou mas deixou todo seu partido, a Frepaso, no governo. E estes frepasistas ficaram até o último dia com De la Rúa (inclusive, vários integrantes frepasistas do gabinete delarruista hoje estão no governo da presidente Cristina).

No entanto, a saída de Álvarez gerou incertezas sobre o futuro político da Argentina. E, como neste país isso sempre está amarrado à economia, a renúncia do vice acelerou uma disparada na taxa de risco da Argentina, a perda de poder político para De la Rúa, uma fuga de divisas sem precedentes na História do país, saques aos comércios e finalmente a queda do próprio presidente, que fugiu da Casa Rosada em um helicóptero em dezembro de 2001.

Em 2003 o caso dos subornos aos parlamentares ressurgiu quando o ex-pró-secretário parlamentar do Senado, Mario Pontaquarto, afirmando-se “arrependido”, decidiu “contar tudo”. Esse “tudo” consistia no pagamento que ele próprio teria entregue por ordem do governo De la Rúa a um grupo de senadores para que estes aprovassem a impopular reforma trabalhista.

Segundo ele, o suborno contava com a aprovação de De la Rúa, que ordenou que fosse encontrar-se com o então chefe do Serviço Secreto do Estado (Side), o banqueiro Fernando De Santibáñez para que este lhe desse o dinheiro. Agindo como um motoboy, Pontarquato levou os US$ 5 milhões em duas valises para onze senadores do Peronismo e da UCR. Ele sustenta que apesar de ter feito o “serviço” não recebeu um centavo sequer.

Livro no qual De la Rúa explica sua versão sobre o escândalo do Senado foi sucesso de encalhamento nas estantes das livrarias

‘INOCENTE’ – Em 2006, meia década depois do abrupto fim de seu governo, De la Rúa lançou o livro “Operação Política”, no qual denunciava as supostas manobras da oposição realizadas contra ele. A obra, fracasso de crítica e de público, rapidamente encalhou nas livrarias.

Em dezembro do ano passado, quando completaram-se dez anos de sua queda, De la Rúa afirmou ao Estado que desejava a realização deste julgamento, já que tem “pressa” em demonstrar sua “inocência”: “este processo tem como base falsidades, baseadas em meros rumores. Querem envolver um presidente em algo que não é sério. É como a acusação de compra de votos que foi feita sobre Fernando Henrique Cardoso na votação para reformar a constituição que permitiu a reeleição. Naquele caso e no meu, não há nada sério”.

DE LA RÚA, DO ESTILINGUE AO OSTRACISMO POLÍTICO

Seu primeiro cargo público foi o de presidente do CPE (Caça de Pássaros com Estilingue). Tinha somente nove anos, mas ao tomar posse, o cordobês Fernando De la Rúa, nascido em 1937, redigiu uma declaração de princípios, preparou um estatuto e uma mensalidade a ser paga pelos sócios. Sua fama de chato começou nessa época.

Formado em Direito, entrou na política. Em 1973, o líder histórico líder da União Cívica Radical (UCR), Ricardo Balbín, o convidou para ser seu candidato a vice, contra Juan Domingo Perón, que os derrotou. Em 1983, integrante da linha conservadora do partido, disputou a candidatura da UCR à presidência do país contra seu colega Raúl Alfonsín, para quem perdeu. Posteriormente foi senador, deputado e em 1996, tornou-se o primeiro prefeito eleito da capital argentina.

Cédula eleitoral da Aliança UCR-Frepaso de 1999. Vários dos integrantes desse governo que colapsou estão em altos postos da administração atual.

Em 1999 – com uma campanha com o slogan “dizem que sou um tédio” (para diferenciar-se do festivo e frívolo menemismo) – este amante da ornitologia e da jardinagem foi eleito presidente da República. O candidato peronista derrotado, Eduardo Duhalde, definiu seu vitorioso rival: “é um medíocre com sorte”.

Mas a sorte foi breve, já que seu governo da coalizão UCR-Frepaso durou dois anos e dez dias. Os abalos sofridos pelo escândalo do Senado e a renúncia de seu vice Carlos “Chacho” Alvarez, foram coroados por uma fuga de divisas recorde que levou a economia ao colapso. Em dezembro de 2001 decretou o “corralito”, um confisco bancário sem precedentes no país que gerou a pior crise social, econômica e política da História argentina. Na época foi acusado de “relapso” e “esclerosado”. O caricaturistas o retratavam vestido com um pijama.

Desprezado por seus próprios correligionários da UCR, De la Rúa – fora da presidência – teve nulo poder político nos últimos dez anos. Analistas políticos sustentam, sem sutilezas: “De la Rúa não existe mais”.

 

Ad hoc com postagens sobre corrupção e desvio de fundos, o tango “Chorra!” (Ladra!), com Carlos Gardel:

   

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Capa desta semana da revista satírica “Barcelona”, retratando Evita como a “Mulher Maravilha”. Na tiara, o escudo peronista.

Hoje completam-se 60 anos da “passagem à imortalidade de Eva Perón” (essa é a expressão usada, inclusive oficialmente, pelos peronistas para referir-se à morte de Evita). A denominada “Porta-estandarte dos humildes” morreu no dia 26 de julho de 1952, às 20:25 horas. Seis décadas depois de sua morte ela é usada como símbolo político pela direita e a esquerda. Veremos aqui uma série de mitos e fatos sobre a primeira-dama mais famosa da História da Argentina.

NASCIMENTO

- Evita dizia, quando estava viva, que havia nascido no dia 7 de maio de 1922.

- Mas, a partir dos anos 70, historiadores peronistas descobriram que ela havia nascido, na realidade, no dia 7 de maio de 1919.

MORTE

Evita morreu oficialmente às 20:25 horas do dia 26 de julho de 1952 no Palácio Unzúe, a residência presidencial, localizada no bairro da Recoleta, onde hoje está a Biblioteca Nacional. Durante muitos anos os argentinos acreditaram que ela havia morrido com 30 anos. Mas, na realidade, morreu com 33.

TÚMULO

Evita está enterrada desde 1976 no cemitério da Recoleta, no mausoléu da família. Na realidade, o mausoléu pertencia a um cunhado seu, o major Arrieta. Ali, além de Evita e sua mãe, estão Arrieta e outros cinco parentes. Além desses caixões, duas urnas funerárias com as cinzas de duas empregadas da família.

NOMES

Eva Maria Ibarguren: nome de nascimento de Evita, com o nome de solteira de sua mãe.

Maria Eva Duarte: nome da certidão da nascimento falsa que ela forjou em 1945, poucos dias antes de casar com Perón (os historiadores peronistas confirmam), onde aparece o nome do pai, que nunca a reconheceu.

Maria Eva Duarte de Perón: o nome que passou a usar depois do casamento com Juan Domingo Perón.

APELIDOS oficiais usado pelo governo de Perón na época

- “Mãe dos pobres”.

- “Protetora dos trabalhadores”

- “Porta-estandarte dos humildes”

- “Mãe espiritual da pátria”

APELIDOS não-oficiais

“Evita” – Nome com o qual era chamada carinhosamente

“La Señora” – A senhora. Forma como era chamada pelos integrantes do governo

“Esa Mujer” – Essa mulher. Forma despectiva como era chamada por seus críticos

“La Yegua” – A égua. Forma despectiva como era chamada por seus críticos

“La Perona” – Forma como era chamada por seus críticos. No entanto, na Espanha essa expressão tinha um tom positivo sobre Evita.

 MITOS

Ao longo da vida de Evita Perón – e especialmente após sua morte – surgiram uma série de lendas sobre a “Porta-estandarte dos humildes”. Além dos próprios militantes, os principais mitos foram divulgados por intermédio do musical de Andrew Lloyd Weber e Tim Rice, sucesso na Broadway a partir de 1976 que transformou-se em filme de Hollywood. Entre as principais falhas e lendas estão…

1 – Classe social: A lenda mostra Evita como uma menina de uma família que vivia na miséria. Ao contrário, a mãe de Eva tinha um pensionato na cidade de Junín e eram integrantes de uma austera classe média.

2 – Partida para a cidade grande, na cara e na coragem: Aos 15 anos Evita partiu dali rumo à cidade grande, Buenos Aires. Mas, ao contrário do filme, não foi nem com o cantor Agustín Magaldi e sequer transformou-se em sua amante. Magaldi, que era solteiro, nunca havia visto Evita. A jovem foi à capital com sua mãe e foi morar com seu irmão mais velho, Juan.

3 – Expulsa do velório: Evita era filha extramatrimonial de Juan Duarte. Mas, quando morreu em 1926, não foi expulsa do velório do pai por sua viúva oficial, Estela Grisolía, já que a mulher havia morrido em 1922. A sobrinha-neta de Evita, Cristina Álvarez, presidente da Fundação Evita, desmentiu o tal mito no ano passado. Segundo o historiador Pablo Vázquez, chefe do Arquivo do Museu Evita (que concentra a maior documentação no mundo sobre a defunta primeira-dama), as duas famílias – a oficial e a paralela – “se davam bastante bem. Não houve expulsão alguma do velório”.

4 – Líder revolucionária: Outra falha do musical e do filme é mostrar Evita como a pessoa que liderou os trabalhadores para liberar seu namorado – e posterior marido – Juan Domigo Perón. Ao contrário, Evita saiu de Buenos Aires e foi pra casa da mãe, em Junín. Só depois da liberação de Perón é que ela voltou à capital. Ela não tinha protagonismo político na época. Só com a posse de Perón como presidente no ano seguinte, ela começou a ter uma acelerada atividade política, transformando-se no braço-direito do marido.

5 – Che Guevara, pé de valsa: Outro erro é o de colocar Ernesto “Che” Guevara como narrador da História. Che Guevara, na época em que Evita chegou ao poder tinha 18 anos e estava iniciando seus estudos de Medicina. E o Che – que jamais encontrou-se com Eva ou com Perón – considerava Evita e seu marido uns “representantes do fascismo”. E, evidentemente, nunca ocorreu a cena de Evita dançando com o Che Guevara. Ele, que a partir de 1956 foi um dos protagonistas da guerra de guerrilhas na Sierra Maestra contra o regime de Batista, admitia que dançava péssimo.

6 – As pichações “Viva o câncer”: A lenda diz que os inimigos de Evita picharam os muros de Buenos Aires – e da própria residência presidencial – com os dizeres “Viva o câncer” quando ela agonizava com um devastador câncer de útero. No entanto, isso nunca teria passado de uma única parede no bairro da Recoleta com a frase supracitada. “Só temos o registro da existência de uma. Seria quase impossível fazer uma pichação do gênero nas redondezas da residência presidencial, com toda a segurança da época”, explica Vázquez.

 

Eva Perón visita o ditador espanhol Francisco Franco em Madri. O respaldo dado pelo casal Perón ao “generalíssimo” permitiu a sobrevivência de seu regime autoritário. Quando Perón teve que fugir para o exílio, depois de passar pelo Paraguai de Alfredo Stroessner, o Panamá e a Venezuela, foi à Madri, onde ficou até 1973. Um dos braços-direitos de Perón, John  William Cooke, propôs a Perón em 1960 que fosse à Havana, Cuba, onde Fidel Castro havia tomado o poder, derrubando Batista. No entanto, entre Fidel e Franco, Perón optou por Franco, com quem tinha mais afinidade.

POSIÇÕES POLÍTICAS, MEDIDAS, ATITUDES

- Evita sempre detestou a esquerda e o marxismo. Ela perseguiu os militantes do partido Comunista e expulsou os sindicalistas comunistas

- Evita respaldou ativamente o regime do ditador espanhol Francisco Franco. O respaldo foi político e também em alimentos, que permitiram que o generalíssimo conseguisse driblar o bloqueio feito pelos aliados. Assim, sua ditadura que prolongou-se por mais tempo.

- Evita usava vestidos da Casa Dior, que importava – em avião – direto de Paris. Segundo Dior, “a única rainha que vesti em minha vida foi Evita”.

- Evita promoveu o voto feminino

- Evita opunha-se ao divórcio

- Evita dizia que as feministas eram “feias e ressentidas”

- Evita colaborou ativamente com Perón, especialmente em sua viagem à Europa, na entrada de milhares de criminosos de guerra nazistas. Nesta vinda dos nazistas participou o Vaticano, na época comandado pelo papa Pio XII, com quem Evita se reuniu em Roma.

 

El Descamisado: o funéreo e anabolizado mega-mausoléu onde seria colocado o corpo de Evita. O plano de Perón começou a ser executado…mas suas obras foram paralisadas quando ele foi derrubado por um golpe.

CORPO

- Morre, passa por um tratamento de embalsamamento inicial e é levada ao Ministério do Trabalho, atual Assembléia Legislativa de Buenos Aires.

- Depois, é levada o Congresso Nacional, onde é velada por 14 dias. Dois milhões de pessoas dão seu últimos adeus.

- Na seqüência é levada à sede da central sindical CGT, onde continua com o tratamento de embalsamamento realizado pelo doutor Pedro Ara.

- Em 1955 Perón é derrubado. Os militares seqüestram o corpo.

- Até 1957 peregrina por vários lugares do exército e a casa de oficiais.

- Em 1957 é levado pelo governo de Aramburu, em conjunto com o Vaticano para Milão, onde é enterrado no Cemitério Maior com o nome de Maria Maggi de Magistiris.

- Em 1971, depois de um acordo entre o ditador argentino Alejandro Lanusse e Perón, que estava no exílio, o corpo é exumado: dia 1 de setembro. No dia 3 de setembro o caixão vai a Madri. Ali, fica na casa de Perón no bairro de Puerta de Hierro.

- O corpo é levado a Buenos Aires no dia 17 de novembro de 1974. Evita é colocada em uma sala na residência presidencial de Olivos ao lado do corpo de Perón.

- Quando o general Videla derruba Isabelita Perón (a última esposa de Perón, que havia assumido a presidência depois da morte do marido e presidente), os dois corpos são separados. Evita é enviada ao cemitério da Recoleta, onde um cunhado seu, o Major Arrieta, tinha um mausoléu. Nesse lugar estão enterrados Arrieta, a mãe de Evita, a própria Evita, e outros cinco parentes, além de duas urnas com cinzas de duas empregadas da família.

O DESCAMISADO - Quarenta e cinco metros mais alto que a Estátua da Liberdade, três vezes maior que o Cristo Redentor. Assim teria sido “El Descamisado”, um anabolizado funéreo monumento que contaria com um total de 137 metros de altura, divididos entre 70 metros da colossal base e 67 metros da estátua que representaria um operário peronista.

Seria uma espécie de “Colosso de Rodes” que em vez de estar à beira do mar Egeu, seria instalado à beira do Rio da Prata. Seu objetivo, que variou ao longo de anos de projetos e idas e vindas, foi o de ser o lugar de descanso do sarcófago de Evita, feito com 400 quilos de prata.

Seria um misto de pirâmide de Quéops com altura quase equivalente à Catedral de Notre Dame. Tudo isso com um look característico das esculturas fascistas na moda na Europa dos anos 30 e 40.

No entanto, todos os verbos relativos ao “Descamisado” ficaram no condicional. Este monumento começou a ser construído mas nunca passou de suas bases de concreto no bairro da Recoleta, em Buenos Aires.

“Voltarei e serei milhões”. Espártaco, de Howard Fast (e Evita Perón, supostamente). Aqui, Kirk Douglas interpreta o ex-escravo de Roma, na hora em que é crucificado, no fim do filme.

FRASES

“Gracias por existir” (Obrigado por existir): A suposta frase teria sido pronunciada em 1944 durante o encontro de Eva e Perón no Luna Park em um festival para arrecadar fundos para as vítimas do terremoto de San Juan. Mas, na realidade, foi inventada pelo escritor Tomás Eloy Martinez, que a colocou na boca de Evita no romance “Santa Evita”. A cena: Evita, uma atriz de rádio e cinema, foi apresentada a Perón e disse como forma de impactá-lo a frase “Obrigado por existir”. “Nos últimos três anos, essa frase piegas foi aceita como verdade. Mas Eu a inventei”, me explicou Martinez em 1999. “Mas quando expliquei isso, alguns sindicatos não acreditaram que era falsa. Protestaram, me perguntando como ousava macular a memória de Eva Perón…”, disse rindo.

“Volveré y seré millones” (Voltarei e serei milhões) foi a apócrifa frase de Eva Duarte de Perón – chamada de “Evita” pelo povo – supostamente pronunciada poucos minutos antes de sua morte, ocorrida na noite do dia 26 de julho de 1952. A lenda sustenta que Evita, que estava morrendo por um devastador câncer de útero, indicava com essa frase que voltaria da morte como milhões de trabalhadores “descamisados” para tomar o poder total. Mas, na realidade, é uma frase posteriormente atribuída a ela. A oração é parte de um poema do peronista Castiñeira de Dios e também era uma das frases pronunciadas pelo personagem de Espártaco quando é crucificado. O livro é de Howard Fast, de 1951, um anos antes de Evita morrer. 

Best-seller na primeira metade dos anos 5o, tornou-se leitura obrigatória para estar por dentro das máximas de Eva Perón

LIVROS

“La Razón de mi Vida”: livro que é uma espécie de apologia ao governo de Perón. Publicado postumamente em setembro de 1951. A 1ª tiragem foi de 300 mil exemplares.

“Mi Mensaje”: este livro parecia que era apócrifo. Suas irmãs diziam que era falso. Mas, recentemente – depois de um processo de dez anos – a Justiça considerou que era mesmo de autoria de Evita. É uma segunda parte de “La razón de mi vida”

Um exemplo de ego-cartografia. Neste mapa, de 1953, La Plata aparece como “Eva Perón”. Mas, em 1955 os ‘evaperonenses’ voltaram a ser chamados de ‘platenses’

TOPOGRAFIA

Onde morou:

- Los Toldos, quando era bebê

- Junín, quando era criança e adolescente

-Buenos Aires,fim da adolescência e vida adulta

Onde trabalhou, como primeira-dama (sem posto oficial no governo):

- 1946-48 Palácio de Correios, 4ª andar, e em um escritório no Ministério da Economia

- Em 1948, no prédio da Assembléia Legislativa. Ali ela tinha os escritórios da Fundação Eva Perón

- Mas, o edifício oficial da Fundação, na avenida Paseo Colón, onde atualmente está uma das duas faculdades de engenharia da UBA, ainda não havia sido totalmente concluído quando ela morreu.

Ciudad Evita, na zona oeste da Grande Buenos Aires, ao lado do caminho entre Ezeiza e a capital argentina. O bairro foi construído com o perfil da Mãe dos Pobres. 

A ego-cartografia

- Ciudad Evita é um distrito do município de Ezeiza, na Grande Buenos Aires. Vista de cima, a área (criada originalmente como um bairro-modelo operário) é uma reprodução proposital do perfil de Eva Perón, incluindo seu tradicional coque. “Nos encontramos no nariz?” pode ser uma pergunta ali no bairro. “Não, antes tenho que passar pelo coque para ver minha tia”, poderia ser a resposta.

- Deputados da província de La Pampa, nas últimas semanas de vida de Evita em 1952, decidiram homenageá-la com a modificação do nome para “província Eva Perón”.

- Na época de sua morte, a capital da província de Buenos Aires, La Plata, transformou-se em “Ciudad Eva Perón”. A cidade, após a queda de Perón, em 1955, voltou a ser La Plata.

La Pampa, no centro do país, passou a ser Provincia Eva Perón em 1955. Depois, voltou a ter seu nome histórico de La Pampa.

   

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Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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 J.D.Perón faz o gesto famoso com suas mãos para o alto. Charge de El Niño Rodríguez. Seu site: http://www.elninorodriguez.com/

Uma manhã de julho de 1987 o zelador do Cemitério de Chacarita percebeu que o pequeno e modesto mausoléu onde estava enterrado o mais polêmico e poderoso político da História argentina do século XX – o general e presidente Juan Domingo Perón – havia sido violado. Lá dentro, o corpo do fundador do Peronismo jazia dentro de seu uniforme de gala. Mas, suas mãos – as mais famosas extremidades da História do país, que haviam transformado-se em um símbolo com as quais saudava o povo desde o emblemático balcão da Casa Rosada – não estavam ali. Elas haviam sido decepadas e roubadas. Até hoje seu paradeiro é desconhecido. Também ignora-se o autor da profanação. Misteriosamente, nos últimos 25 anos, jamais ocorreram reivindicações do atentado.

As especulações sobre o motivo do roubo das mãos foram amplas. Algumas versões sustentam que foi um grupo de fanáticos ocultistas pertencentes a alguma misteriosa logia integrada por políticos peronistas que precisavam um pedaço do cadáver de Perón para realizar um críptico ritual.

Outras especulações indicam que as mãos eram necessárias para abrir – com suas impressões digitais – uma caixa forte com a lendária fortuna nunca encontrada de Perón, supostamente guardada na Suíça.

De quebra, não faltaram versões que sustentavam que tratava-se de uma vendetta de opositores históricos de Perón pela profanação de mortos rivais realizada nos anos 70 pelos simpatizantes do defunto general.

A profanação do túmulo de Perón é apenas um dos capítulos da intrincada e sui generis relação dos argentinos com os mortos.

“A necromania é coisa típica dos argentinos, tal como o doce de leite”. A frase, do falecido escritor Tomás Eloy Martínez, ilustra uma das obsessões que tomam conta dos habitantes deste país nos últimos 200 anos. A necromania – (a obsessão pelos cadáveres) – que segundo Eloy Martínez é uma “doença costumeira” de seus compatriotas, não somente está presente na cultura e no cotidiano, mas também paira de forma ostensiva sobre a política nativa.

Os especialistas afirmam que no país predomina a “necromania” e a “necrolatria” (a adoração dos corpos dos mortos). De forma geral não ocorreram grandes casos de “necrofilia” (refere-se à relações sexuais com mortos).

Para um presidente, líder sindical ou governador, o corpo de um morto pode ser um capital político de incomparável peso na Argentina.

Perón saúda seus militantes, logo após voltar à Argentina em 1973.

Dezenove anos depois, o corpo de Perón foi objeto de novas turbulências. No final de 2006, um grupo de políticos peronistas (mas com base de poder da província de Buenos Aires) decidiram levar o corpo de Perón a um novo mausoléu, de grandes dimensões.

O lugar: a chácara de San Vicente, na Grande Buenos Aires.

O argumento: uma figura da magnitude de Perón merecia um mausoléu comme il faut.

Além disso, afirmavam que o desejo do defunto caudilho era o de ser enterrado na província de Buenos Aires, e não na cidade de Buenos Aires.

Nas semanas anteriores ao segundo funeral de Perón começaram os problemas. Uma ex-cantora de ópera, Martha Holgado, que reivindicava ser filha de Perón, queria retirar uma mostra do corpo para realizar um exame de ADN. Para complicar, também havia disputas entre os diferentes sub-grupos peronistas que queriam carregar o caixão de Perón.

Desta forma, no dia 17 de outubro – a data peronista par excellence – o féretro foi levado da Chacarita à sede da Confederação Geral do Trabalho (CGT), onde realizou-se uma cerimônia de homenagem. Dezenas de milhares de velhos militantes peronistas acotovelaram-se ao redor da CGT para – pela segunda vez na História – dar adeus a Perón.

Mas, sete horas depois de um início carregado de emoção, o funeral encerrava-se mergulhado no fracasso. Na chácara de San Vicente, ao chegar o féretro, grupos rivais – que pretendiam carregar o caixão – começaram um desenfreado tiroteio, enquanto a histórica banda do Corpo de Granaderos tentava – sem sucesso – apaziguar os ânimos tocando o Hino Nacional.

O cenário era delirante. Enquanto parte da multidão corria apavorada e outro setor dedicava-se a espancar os rivais, um padre dava a bênção aos presentes. Às pressas, o caixão de Perón foi colocado dentro do mausoléu. O histórico sabre e seu quepe de general desapareceram no meio da confusão.

Perón – o morto mais influente da política argentina – 32 anos após seu falecimento e primeiro funeral, continuava causando intensa polêmica e violência entre seus seguidores.

Corpo de Perón após o misterioso atentado. Governos peronistas posteriores (Menem, Duhalde e Kirchners) não quiseram aprofundar as investigações sobre o caso.

CRONOLOGIA DE PERÓN COMO CADÁVER

- Juan Domingo Perón morre aos 78 anos no dia 1 de julho de 1974

- Após três dias de velório no Congresso Nacional, é levado à residência oficial de Olivos, e colocado em um salão, ao lado do corpo de Eva Duarte de Perón. Sua esposa, que era sua vice e que assume como presidente, María Estela Martínez de Perón (mais conhecida como Isabelita) decide deixar os corpos ali enquanto planeja a construção de um monumento megalomaníaco, três vezes maior que a estátua da Liberdade, em pleno bairro de Palermo.

- Março de 1976: um golpe militar derruba Isabelita e começa a pensar o que fazer com os dois corpos. No mesmo ano o corpo de Evita é devolvido à família Duarte, e colocado no cemitério da Recoleta. O corpo de Perón é colocado secretamente, no dia 13 de janeiro de 1977, no modesto mausoléu de seu avô, no cemitério de La Chacarita.

- Em 1987 o túmulo de Perón é violado. Suas mãos, cortadas, nunca mais apareceram. Nenhum grupo atribuiu-se esse atentado.

- Em 2002 o então presidente Duhalde e outros líderes peronistas planejam a construção do Mausoléu em San Vicente.

- Em 2006 Perón teve seu segundo – e tumultuado – funeral. De lá pra cá ainda está lá enterrado. Por enquanto…

NECROMANIA MARCA POLÍTICA ARGENTINA

A “necromania” (obsessão por cadáveres, enquanto que “necrofilia” refere-se à relações sexuais com mortos) perdura na política argentina há quase 200 anos. Sabendo dessa obsessão no eleitorado, diversos presidentes usaram os corpos dos mortos ilustres para fazer propaganda política.

Esse foi o caso de Carlos Menem, que em 1990 causou polêmica ao trazer à Argentina o corpo do caudilho Juan Manuel de Rosas (tirano para uns; grande nacionalista para outros), enterrado na Inglaterra. Mesmo morto 113 anos antes, Rosas causou ásperos debates e pancadarias. Menem usou Rosas como troféu político.

O cadáver embalsamado de Eva Perón, falecida em 1952, esteve na sede da CGT até que em 1955 foi seqüestrado pelos militares que derrubaram o governo de seu viúvo. Os militares urinaram em cima de Evita e violaram o cadáver. O corpo – que era alvo de adoração pelo operariado – foi levado clandestinamente à Itália. Só foi devolvido a Perón em 1971, após um acordo político. A rocambolesca e trágica história gerou o livro “Santa Evita”, de Tomás Eloy Martínez. Segundo ele, a necromania é “coisa típica dos argentinos, tal como o doce de leite”.

DATAS NECRÔMANAS

O historiador Daniel Balmaceda afirma que grande parte das datas comemorativas argentinas estão vinculadas às mortes de pessoas vinculadas com os fatos. “Esse é um costume iniciado no final do século dezenove, época na qual as datas nacionais começaram a ser marcadas pelos dias fúnebres. Por exemplo, o ex-presidente Domingo Sarmiento (que implantou o ensino público gratuito) morreu em um dia 11 de setembro. Essa data virou dia do professor. E, o dia em que seu corpo chegou em Buenos Aires para o funeral de Estado, um dia 21 de setembro, transformou-se no dia do estudante! No caso do general Manuel Belgrano, que criou a bandeira argentina, o dia de sua morte, 20 de junho, foi usado para o dia da bandeira”, ilustra o historiador.
Segundo Balmaceda, “a morte de um político importante, na Argentina é considerado o momento em que ele ‘passa à imortalidade’. Isto é, o dia que entrou na glória. Essa pessoa deixa de ser como nós… passa a ser uma espécie de ‘imortal’!”. Desta forma, ao contrário de outros países, nos quais o dia do nascimento de uma pessoa é o foco da celebração, na Argentina o fato está conectado à morte. Outro exemplo: Evita é lembrada no dia de sua morte…e não do nascimento.

A terceira autópsia de Bolívar: cenas da exumação feita com toda pompa em 2010 por ordens de H.R.Chávez F.

BOLIVARIANO CADÁVER – Em 2010, o presidente da Venezuela, Hugo R. Chávez F., exumou o cadáver do herói nacional, Simon Bolívar, para fazer uma autópsia e assim poder verificar se o principal protagonista da independência venezuelana havia sido assassinado com arsênico, tal como um punhado de historiadores suspeitavam. Segundo Chávez, a “oligarquia” havia assassinado Bolívar.

A exumação foi transmitida ao vivo, pela TV, durante 19 horas. Na ocasião, Chávez até disse que sentia as “chamas” do esqueleto “glorioso” de Bolívar.

No mesmo fim de semana da exumação de Bolívar, operação à qual estavam dedicados full time 50 cientistas, a cidade de Caracas registrou 40 assassinatos. Mais de 90% desses crimes ficaram impunes, já que a Justiça venezuelana comum não tinha o dinheiro nem as pessoas para fazer os exames feitos no corpo de Bolívar, falecido em 1830.

Simon Bolívar já havia passado por outras duas autópsias: em 1830 e 1842.

Em 2011, Chávez admitiu que os resultados da autópsia não propiciavam indícios de assassinato. Mas, apesar disso, afirmou categórico: “sei que o mataram!”

E já que estamos em ritmo funéreo, o bolero “Esperame en el cielo” (Me espera no céu), do portorriquenho Francisco López Vidal (1908-994), com Antonio Machín:

E a letra:

Espérame en el cielo corazón,
si es que te vas primero;
espérame que pronto yo me iré
allí donde tu estés.
Espérame en el cielo corazón,
si es que te vas primero;
espérame en el cielo corazón
para empezar de nuevo.
Nuestro amor es tan grande
y tan grande, que nunca termina
y la vida es tan corta
y no basta para nuestro idilio
Por eso yo te pido, por favor,
me esperes en el cielo
y ahí, entre mil nubes de algodón
haremos nuestro nido.
Espérame en el cielo corazón,
si es que te vas primero
espérame en el cielo corazón,
para empezar de nuevo.
Nuestro amor es tan grande
y tan grande, que nunca termina
y la vida es tan corta
y no basta para nuestro idilio.
Por eso yo te pido, por favor,
me esperes en el cielo
y ahí, entre mil nubes de algodón
haremos nuestro nido.

   

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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