A cidade de Mercedes não quer Videla nem morto. Na foto acima, o então general na época em que protagonizou o golpe de março de 1976. Videla turbinou o modus operandi de torturas e assassinatos que outros ditadores estavam usando na região.
Ele era o “Senhor da vida e da morte” quando estava vivo e era o ditador da Argentina (entre 1976 e 1981), época na qual definiu o destino de milhares de civis, sequestrados, torturados e assassinados nos centros clandestinos do regime militar. Mas morto, o ex-general Jorge Rafael Videla não consegue um lugar onde repousar pela eternidade. Em sua cidade natal, Mercedes, na região agrícola da província de Buenos Aires, grupos de moradores repudiaram a eventual futura presença dos restos mortais de Videla no cemitério local.
Em protesto contra o eventual funeral, a Secretaria de Direitos Humanos do município colocou placas ao lado dos portões do cemitério com os nomes dos 22 desaparecidos da ditadura originários dessa cidade. Caso o féretro de Videla seja ali instalado, terá antes que passar ao lado dos nomes das pessoas que mandou assassinar.
O corpo do ex-ditador foi liberado ontem na terça-feira pelo Instituto Médico Legal de Buenos Aires. No fim de semana, um documento do serviço penitenciário revelou que Videla, com as calças do pijama arriadas e sem o aprumo militar que o caracterizava, morreu sentado no vaso sanitário de sua cela na manhã da sexta-feira. Na véspera havia tido uma queda enquanto tomava banho. O acidente, somado o fato que de o ex-militar ingeria um remédio anticoagulante, causou uma hemorragia interna que horas depois provocou sua morte.
A família do ex-ditador comunicou às autoridades que o corpo não será cremado. Os Videla contrataram na segunda-feira uma agência funerária de Mercedes, fato que aumenta as chances do funeral no cemitério local, onde estão enterrados seus pais Rafael Videla Bengolea e Maria Olga Redondo Ojea.
Nesta quarta-feira, às 19:00 horas, representantes de partidos políticos de Mercedes manifestaram-se na praça principal para repudiar Videla e a ditadura.
Ossos de desaparecidos da ditadura militar argentina encontrados pela Equipe Forense de Antropologia da Argentina nos anos 90.
A tradição fúnebre argentina, especialmente no interior do país, é a de enterrar os mortos no mausoléu familiar. Ou, como alternativa, em um túmulo próximo aos pais e parentes.
Na câmara de vereadores, os representantes dos partidos afirmam que não querem que o corpo de Videla altere a calma da cidade. José Luis Pisano, do partido Socialista, declarou que não deseja que Mercedes “se transforme em um ponto de peregrinação da direita fascista, e menos ainda que ele seja enterrado ao lado de companheiros que perderam suas vidas durante a ditadura”.
As autoridades admitem que, apesar de repudiar Videla, não podem proibir que sua família enterre seu cadáver ali. “A família possui um mausoléu e túmulos privados. Não está dentro de nosso alcance impedir esse enterro”, indicou o secretário de direitos humanos Marcelo Melo.
Integrantes das organizações de defesa dos direitos humanos afirmam que Videla, ao esconder os corpos dos desaparecidos, impediu que seus parentes possam chorar seus mortos na frente de seus túmulos. “Não podemos fazer a mesma coisa que ele fez com os 30 mil desaparecidos. Ele tem que ter seu lugar”, afirma Diana Manos, da Comissão de Parentes de Detidos e Desaparecidos de Mercedes.
Gravura de Franciscus Carpensus, “Isagogae Breves”, de 1523, Bologna.
DITADOR & FAMÍLIA (OS SOBRINHOS DESAPARECIDOS) - Dois dos nomes nas placas nas portas do cemitério – os de Ignácio e Esteban Ojea Quintana – possuem um vínculo especial com Videla: eram seus sobrinhos, detidos pela Marinha em 1977 por serem militantes da esquerda. Seu tio, apesar de ser o todo-poderoso líder do país, nada fez para salvá-los da morte. Os jovens tinham, respectivamente, 21 e 19 anos. Seus corpos nunca foram localizados.
Outro nome nas placas é o de Carlos Agosti, sobrinho do brigadeiro Orlando Agosti, chefe da Aeronáutica e integrante da Junta Militar de Videla. Carlos foi sequestrado e assassinado em dezembro de 1976. Seu corpo está enterrado a poucos metros do mausoléu dos Videla.
O militar esteve rodeado pela morte toda sua vida. Ele foi batizado como “Jorge Rafael” em homenagem a seus dois irmãos mais velhos, gêmeos – Jorge e Rafael – que morreram de sarampo em 1923, dois anos antes do nascimento do futuro ditador.
A poucos metros do mausoléu familiar em Mercedes estão enterrados três padres da ordem Palotina que foram assassinados em 1976 por ordem da ditadura de Videla.
Videla reza durante uma cerimônia religiosa quando era ditador da Argentina
EFEMÉRIDE – A revista satírica “Barcelona” instaurou há meia década o dia 2 de agosto como o “Dia Nacional do Filho da P…”. A data foi escolhida por ser o aniversário de nascimento do ex-ditador Videla, considerado pelos integrantes da redação dessa publicação como o “filho da p… por excelência da História argentina”.
Esqueleto ‘rezando’: “Osteographia”, de William Cheselden, de 1733
Hoje completam-se 200 anos do nascimento de Richard Wagner. Aqui embaixo, a abertura de Parsifal:






PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Low profile e direto, novo papa – que até ser o novo pontífice pegava metrô em Buenos Aires – é portenho do bairro de Flores, leitor de Dostoyevski, fã de Jorge Luis Borges e torcedor do time San Lorenzo de Almagro
“Low profile”, “calado”, “sóbrio” e “frugal” são alguns dos adjetivos usados por seus mais fiéis colaboradores. Seus inimigos, no entanto, preferem defini-lo como “calculista”, “frio”, “traiçoeiro” e “autoritário”. Mas, para a maioria dos argentinos, o cardeal Jorge Mario Bergoglio era simplesmente um mistério. No entanto, em 2005 ele saiu de seu semi-anonimato para virar um dos homens mais comentados do país, já que o arcebispo portenho passou a ser um dos papáveis da América Latina. Mas, na ocasião Bergoglio ficou em segundo lugar, com 40 votos, sendo superado por Joseph Ratzinger, que foi entronizado Bento XVI.
Nos últimos anos, antes de deixar de ser primaz da Argentina, Bergoglio sofreu um duro revés político quando o Parlamento argentino aprovou um projeto de lei do Partido Socialista (mas respaldado pelo governo da peronista Cristina Kirchner) de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Bergoglio, na véspera da votação, deixou de lado seu estilo sóbrio e, perdendo as estribeiras de uma forma ostensiva (o conservador jornal “La Nación” até criticou o ato do cardeal) desferiu um furioso sermão contra o projeto, que foi aprovado com ampla maioria. Muitos integrantes do clero acharam que esta derrota implicaria na perda de pontos como “papável” em um seguinte conclave.
Ontem (quarta-feira), ao tornar-se Francisco I, Bergoglio, além de se tornar o primeiro latino-americano (e habitante de todas as Américas) a ocupar o trono de São Pedro, também quebrou a restrição – implícita – de que um jesuíta seja transformado em papa. Desde que foi criada, há quase cinco séculos, a outrora poderosa Companhia de Jesus jamais conseguiu que um representante chegasse a líder da Igreja Católica, principalmente pela oposição de outras congregações que temiam seu crescimento.
Homem afável, mas de poucas – embora certeiras – palavras, o ex-primaz da Argentina sempre fez questão de manter um profundo silêncio sobre sua vida.
Aqueles que o conhecem bem sustentam que só mostra intensa paixão quando fala de Fiodor Dostoyevski, seu escritor preferido. “É um jesuíta até a medula. Ele fala pouco. Ouve o dobro do que fala. E pensa o triplo do que ouve”, me disse em 2005 um ex-embaixador argentino em Roma, que completa dizendo que jamais desejaria ter Bergoglio como inimigo. Com ironia, explica: “Quem vive, como Bergoglio, só à base de frango cozido e verduras, só pode ser um cara perigoso”.
Fiódor Dostoyevski, escritor russo, é o autor preferido do novo papa.
Filho de imigrantes italianos (seu pai era ferroviário e sua mãe, dona de casa), Bergoglio nasceu no dia 17 de dezembro de 1936 no bairro de classe média de Flores, em Buenos Aires.
Desde criança, foi torcedor fanático do time de San Lorenzo, fundado por um padre no início do século. Mas nunca pôde aspirar a jogar futebol além da praça do bairro. Seu físico, quando adolescente, era franzino. Aos 20 anos, passou por uma grave operação para a retirada de um de seus pulmões.
Após se formar como técnico químico e encerrar o namoro com uma vizinha, Bergoglio entrou para a Companhia de Jesus, ordem caracterizada por sua obediência e disciplina ascética que historiadores preferem definir como militar.
Ordenado sacerdote aos 33 anos, aos 36 já era o comandante dos jesuítas na Argentina. Nos anos que se seguiram – as décadas de 1970 e 1980 –, paira uma nebulosa sobre a vida de Bergoglio. O jornalista investigativo argentino Horacio Verbitsky, do jornal ”Página 12″, sustenta que ele colaborou ativamente com a última ditadura (1976-83), delatando os jovens sacerdotes, que foram seqüestrados pelos militares.
Nos anos 80, Bergoglio migrou ao setor mais conservador da Companhia de Jesus e passou por um obscuro ostracismo na Alemanha. Ao voltar à Argentina, foi posto em cargos de baixa importância. Esse período só terminou quando, em 1992, o poderoso cardeal Antonio Quarracino o convocou para ser seu bispo auxiliar em Buenos Aires. “É um jesuíta sereno e preciso. Ele tem uma capacidade e uma velocidade mental fora do comum”, comentou.
O salto internacional de Bergoglio ocorreu em 2001, quando ocupou o posto de relator-geral do Sínodo dos Bispos em Roma. Bergoglio é idolatrado pelo clero jovem e, até poucos anos atrás, só se deslocava pela cidade em metrô ou ônibus. Seus admiradores afirmam que o fazia “para estar perto do povo”. Os críticos sustentam que era “puro populismo”.
Os parlamentares da esquerda, que se confrontaram com freqüência com Bergoglio por questões como a legalização do aborto, o definem como “o pior dos inimigos, porque é um inimigo muito inteligente”. No entanto, o cardeal também os desconcerta ao realizar furiosos ataques contra o neoliberalismo.
Esta é a segunda vez que a Argentina conta com um papável. O anterior foi o arcebispo de Mar del Plata, cardeal Eduardo Pironio, morto em 1996, que nos dois conclaves de 1978 despontava como o principal papável sul-americano.
METRÔ – No ano 2001 participei de um café da manhã com o então cardeal Bergoglio na sede de uma ONG em Buenos Aires para uma conversa em estrito off. Éramos oito jornalistas estrangeiros reunidos com o primaz da Argentina. O papo durou duas horas. Bergoglio foi cordial e expôs sua visão sobre a crise econômica que assolava o país. Tomou café com leite e comeu uma “medialuna de grasa”. Foi meu primeiro encontro com o clérigo.
Seis anos depois, em uma manhã de sábado, minha mulher e eu caminhávamos por uma rua do bairro de Monserrat quando repentinamente, ao virar a esquina, vimos o cardeal. Vestindo o clergyman, Bergoglio caminhava sozinho, carregando uma valise.
O cumprimentamos e conversamos durante um quarteirão e meio. Bergoglio se despediu de nós amavalmente e entrou na estação do metrô Moreno, na avenida Nueve de Julio. O futuro papa pegaria uma das mais congestionadas linhas do “subte” de Buenos Aires.
ATEUS ULTRAPASSAM CATÓLICOS PRATICANTES NA ARGENTINA
Segundo pesquisas realizadas em 2009 e 2011, 76% dos argentinos foram originalmente batizados católicos. Mas, apenas 6% são praticantes. Enquanto isso, a totalidade das igrejas evangélicas na Argentina não reúne mais de 10% da população. Mas, ao contrário dos católicos, o grupo evangélico é totalmente praticante. Os evangélicos argentinos não possuem uma bancada que os represente no Parlamento, e sequer contam com redes de televisão.
Os ateus, no entanto, segundo a pesquisa, ultrapassam católicos e evangélicos praticantes, representando 11,3% da população.
O país conta com a maior comunidade judaica da América Latina – calculada entre 300 mil e 500 mil pessoas – além de uma presença muçulmana (estimada em 500 mil pessoas) nas províncias do norte e noroeste.
CRISTINA PRIVILEGIOU IGREJA CATÓLICA COM LEI DE MÍDIA
A Lei de Midia, aprovada em 2009 pelo Parlamento argentino, implicou em grandes benefícios para a Igreja Católica argentina. Menina dos olhos da presidente Cristina Kirchner – e principal aríete na batalha de seu governo contra o Grupo Clarín – a lei determina em seu artigo número 37 que a Igreja Católica equipara-se aos privilégios que somente serão ostentados pelo Estado argentino e as Universidades federais: apenas estas três entidades poderão estar presentes em todo o território nacional.
As empresas privadas terão que resignar-se a operar em uma área restrita a apenas 24 municípios. O país é laico…mas a Igreja Católica será a única entidade religiosa que terá direito a canais de TV e e estações de rádio sem necessidade de autorizações prévias ou licitações.
Esse ponto gerou grande irritação entre os evangélicos deste país, além de outros grupos religiosos da sociedade argentina, que consideram que são discriminados pelo governo Kirchner.
Oficialmente, a Argentina possui um Estado laico, embora a presidente Cristina Kirchner cite Deus com freqüência e o marido defunto (sempre) em seus discursos.
A decisão do governo de privilegiar a Igreja na Lei de Mídia constrange os militantes kirchneristas. O próprio Martín Sabbatella, diretor da Autoridade Federal de Serviços de Comunicação (Afsca), além de deputados, evitam falar sobre o assunto.
Coincidentemente, a alta hierarquia do clero em Buenos Aires – que havia desferido duras críticas contra os Kirchners durante vários anos – desde a aprovação da lei de mídia, embora pronuncie alguma eventual crítica, manteve um perfil mais baixo e evitou participar das controvérsias sobre a norma que limitará a atuação das empresas privadas na área de jornalismo.
E já que o papa é portenho, aqui vai um tango com temática religiosa. Na realidade, ironicamente religiosa, já que o protagonista aproveita a missa das onze para flertar com uma bela cordeiro de Deus: “Misa de once” (Missa das onze), com Carlos Gardel.
E hoje, quinta-feira dia 14, lanço meu livro “Os Argentinos” em Brasília upon-the-Paranoá! E neste embalo vaticanista, destaco que o livro – que é um “manual” sobre a Argentina e os argentinos – tem uma parte que explica a posição da Igreja Católica na Argentina. E também uma parte na qual conto sobre o dia em que o papa (há 100 anos) abençoou o tango.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. Neste sábado dia 9 completaram-se dois meses desde o desembarque do presidente Hugo Chávez em Havana, Cuba, para preparar-se para sua 4ª. cirurgia para extirpar o câncer que o assolava. Nesta segunda-feira dia 11 completam-se dois meses de sua operação. De lá para cá nunca mais os venezuelanos e o resto do planeta puderam ver uma imagem nova de Chávez, sequer ouvir sua voz em um áudio recente. Neste período, o vice-presidente Nicolás Maduro somente mostrou documentos que estavam, segundo sustentou, assinados por seu chefe.
Na semana passada, para demonstrar que o documento havia sido realmente assinado por Chávez, mostrou a pasta de cartolina onde estava o papel, com o escudo presidencial. “Vejam só, é a pasta presidencial”, ilustrou Maduro, indicando que exibia uma prova irrefutável da permanência de Chávez com vida. “E tem o escudo presidencial”, ressaltou.
O cenário dos últimos dois meses foi radicalmente diferente do panorama anterior, já que durante os anteriores 13 anos a presença midiática de Chávez foi praticamente onipresente na Venezuela.
“Mejor que decir es hacer” (Melhor do que dizer é fazer). A frase é um dos top ten dos epigramas do general e presidente argentino Juan Domingo Perón. No entanto, o laconismo que Perón pregava não foi seguido por seus admiradores (se bem que o próprio fundador do peronismo tampouco seguia o que dizia). Um deles, declarado peronista em versão caribenha é o presidente venezuelano Hugo Chávez, fez da atividade midiática permanente sua marca de governo.
A verborragia do líder bolivariano foi pesquisada detalhadamente por seu compatriota, o sociólogo Andrés Cañizales. No livro “A presidência midiática” o acadêmico cita como exemplo o discurso de 10 horas que Chávez fez no dia 13 de janeiro de 2012 perante o Parlamento venezuelano. Nesse monólogo – o mais longo de um presidente na História desse país perante os deputados – Chávez pronunciou a palavra “eu” um total de 586 vezes.
Do total de vezes em que Chávez fez referências sobre políticas pública, falou sobre si próprio em terceira pessoa 75% das vezes
Chávez fala sobre si próprio, mas em 3a pessoa, na maior parte de seus discursos em rede nacional de TV
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) fez uma medição dos discursos que Chávez proferiu nos primeiros dez anos de seu governo, entre 1999 e 2009. Ao longo dessa década os canais de TV e estações de rádio venezuelanos transmitiram 1.992 redes nacionais de TV e rádio protagonizadas por Chávez.
O total equivale a 1.252 horas e 41 minutos.
Se por acaso Chávez pudesse ter concentrado todos seus discursos em rede nacional, para falar de forma corrida, essas horas equivaleriam a 52 dias seguidos. Isto é: seria como ter alguém em casa sem parar de falar durante quase dois meses de forma ininterrrupta.
Os líderes da oposição venezuelana não poupavam críticas sobre a presença ostensiva de Chávez e acusavam o presidente de tentar uma virtual onipresença midiática. Enquanto Chávez estava presente dicursando de forma constante não faltaram irônicas alusões ao “Grande Irmão”, o personagem do livro “1984”, do britânico George Orwell, que estava de forma quase permanente nas telas dos habitantes de Oceania, um país ditatorial.
Segundo Cañizales, Chávez aplicou durante seu governo (e possivelmente continuaria aplicando, em um virtual e hipotético retorno) o “decisionismo midiático”, já que muitas decisões governamentais – estatizações, acordos internacionais, entre outros – eram tomadas na hora, ao vivo para toda a nação, para surpresa dos próprios ministros, ocasionalmente.
O planeta Marte - com teorias sobre o fim de sua suposta vida - também entrou nos discursos presidenciais venezuelanos em tom de “blame it on Adam Smith”.
POEMAS & HIGIENE. E MARTE - O presidente Chávez dissertava sobre os mais variados assuntos em seus speeches.
O líder bolivariano dedicava tempo para intercalar piadas durante sua fala e conversa com o público (quase um monólogo, pois dificilmente dá para ouvir as breves respostas das pessoas na audiência).
Chávez também cantava e declamava poesias durante suas falas em rede nacional de TV. Além disso, dava ordens sobre o modus operandi no qual seus compatriotas devem proceder com a higiene em 2009 quando a Venezuela estava em crise energética: “há pessoas que cantam no banheiro meia hora. Ora, mas que comunismo é esse? Eu contei o tempo: três minutos é mais do que suficiente, não fiquei fedendo. Um minuto para se molhar, outro para ensaboar. E um terceuro para enxaguar. O resto do tempo é um desperdício”.
Polifacético, o tenente-coronel das brigadas para-quedistas que chegou à presidência venezuelana, também fazia peculiares alusões político-astronômicas, tal como na ocasião em que avaliou que existiu vida no planeta Marte, mas que esta teria acabado pela ação do capitalismo marciano.
Mas apesar da verborragia, existem assuntos que Chávez esquiva. No discurso em janeiro do ano passado no Parlamento – que conteve 60 mil palavras – ele citou a expressão “falta de segurança” somente duas vezes, enquanto que “desemprego” foi dita apenas uma vez.
A ausência dos discursos de Chávez nos últimos dois meses está sendo parcialmente coberta pela presença constante do vice-presidente Nicolas Maduro na mídia, bem como o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, além do genro de Chávez, o ministro do Poder Popular para a Ciência, Jorge Arreaza, e o ministro do Poder Popular da Informação, Ernesto Villegas.
Nenhum deles conta com o carisma e a verbe de Chávez, embora Maduro, nos últimos discursos, tenha se esforçado em copiar seu líder convalecente, emitindo frases com tom exaltado e declarações nacionalistas.
O mise-em-scène não eximiu o vice de recorrer a alguns momentos de efeito, como o de, no 10 de janeiro, dia da virtual posse de Chávez sem Chávez, após anunciar a permanência das medidas revolucionárias, Maduro recorreu a outras medidas, impactantes, de 90-63-90 centímetros de busto, cintura e quadril da curvilínea miss Mundo de 2011, a venezuelana Ivian Lunasol Sarcos, estudante de Relações Internacionais e ativa militante chavista, que subiu no palanque para declarar seu respaldo ao governo em meio a aplausos e “fiu-fius”.
A partir do minuto 1:00, até 1:42, a estonteante miss saúda e dá uma voltinha:
E para embalar este fim de semana, um pouco de off-Momo com Scheherazade (a esperta moça que todas as noites enrolava o rei com um novo conto…e assim passaram 1001 noites) de Никола́й Андре́евич Ри́мский-Ко́рсаков (Nikolái Andréyevich Rimski-Kórsakov). Na batuta o genial Valeri Gergiev.
E embaixo, o caríssimo Rimski-Kórsakov. O quadro é de Valentin Serow, de 1898.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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Mães, pais, irmãos, irmãs, filhos, sobrinhos, tios, primos, amigos das 194 pessoas mortas da tragédia da Discoteca República Cromañón em silenciosa manifestação. Cada vela representa uma pessoa morta na maior tragédia não-natural da História argentina ocorrida em um lugar fechado. Foto da Wikipedia.
Na noite do 30 de dezembro de 2004, a discoteca República Cromañón – em uma área informalmente chamada de “Once” do bairro de Balvanera – foi o cenário da maior tragédia não-natural da História da Argentina. Na ocasião, um incêndio com características similares à tragédia de Santa Maria (RS) – provocado por um sinalizador disparado dentro do salão principal da casa de shows – provocou a morte 194 pessoas, a maior parte das quais asfixiadas. Outras 1.432 pessoas ficaram feridas no incêndio.
A tragédia teve forte impacto político e cultural na capital argentina. O prefeito de Buenos Aires na época do incêndio, Aníbal Ibarra, foi alvo de um processo de impeachment e destituído dois anos depois. Ele foi acusado de não ter feito a fiscalização necessária no setor de casas noturnas. A carreira política de Ibarra, que despontava como uma forte liderança do setor progressista, implodiu com esta tragédia. O então prefeito, que era figura cotada para uma eventual sucessão presidencial é atualmente deputado estadual pelo distrito federal.
Na calçada onde estava a discoteca os parentes das vítimas montaram um santuário para homenagear os mortos. Os parentes, durante meia década, realizaram frequentes marchas para exigir justiça pelos jovens que morreram na discoteca.
Na época, o então presidente Néstor Kirchner foi intensamente criticado por ter estado em silêncio público sobre o assunto durante cinco dias, sem sequer dar os pêsames às famílias das vítimas do incêndio.
Uma multidão indignada de amigos e parentes dos mortos foi à frente da Casa Rosada protestar. Ali gritaram que Kirchner “mais do que um pingüim (em alusão ao apelido do presidente, “El Pingüino) é um avestruz”.
Cinco dias após a tragédia, Kirchner voltou de seu descanso de Reveillon na Patagônia para reunir-se com um grupo de pais dos mortos. O presidente expressou suas condolências e prometeu que a justiça seria aplicada.
Na ocasião Kirchner disse que não havia comunicado os pêsames nos dias anteriores para “evitar gestos de exibicionismo”.
O nome da discoteca fazia alusão ao homem de Cro-magnon, nosso antepassado pré-histórico. O quadro acima, de 1883, que mostra homens e mulheres cro-magnon, é o “Idade da Pedra: A festa”, de Viktor Vasnetsov (1848-1926).
SINALIZADOR - O incêndio da Cromañón iniciou quando um dos fãs do grupo de rock “Callejeros” disparou um sinalizador dentro da discoteca, atingindo o forro do salão, que era inflamável.
O “Callejeros” costumava incentivar o uso de pirotecnia nos shows que realizava em estádios e parques. Ao iniciar a apresentação daquela noite, os integrantes do grupo pediram – embora sem insistir – que os espectadores não disparassem os costumeiros fogos nesse lugar, já que era um recinto fechado. No entanto, uma das pessoas na platéia disparou um sinalizador, iniciando o incêndio.
A vida noturna portenha sofreu uma drástica guinada, já que várias discotecas foram fechadas pela fiscalização municipal nos meses seguintes à tragédia de Cromañón. Diversas pesquisas na época indicaram que os portenhos estavam com medo de entrar em lugares de divertimento fechados e optaram por mais shows em parques e outros lugares ao ar livre.
O setor cultural underground foi o mais atingido, já que suas pequenas e improvisadas casas de show não tinham dinheiro para instalar as medidas de segurança previstas pela legislação local. Nos anos seguintes as grandes discotecas fizeram modificações para evitar incêndios. No entanto, os especialistas afirmam que estas mudanças foram mais de “maquiagem” do que reais.
Chabán, durante seu julgamento em Buenos Aires.
EMPRESÁRIO - Na noite da tragédia, o dono do estabelecimento, o empresário Omar Chabán, um personagem histórico da noite portenha, havia autorizado a venda de entradas em um número três vezes superior à capacidade da Cromañón. Além disso, Chabán e seus sócios costumavam deixar as portas de emergência fechadas, para evitar – segundo argumentaram posteriormente – que entrassem “penetras” durante o show. Desta forma, quando o fogo começou a se espalhar, as pessoas acotoveladas dentro da discoteca tentaram sair e depararam-se com as portas de emergência trancadas com cadeados. Diversos cadáveres foram encontrados amontoados nas portas, nas horas seguintes à tragédia.
Muitas jovens, fãs dos “Callejeros” eram mães adolescentes haviam levado seus bebês à discoteca, onde montaram uma creche improvisada. Vários bebês morreram asfixiados ali.
Chabán foi uma das primeiras pessoas a sair do lugar quando o incêndio começou. Ficou olhando, desde a calçada da frente durante minutos, até que foi reconhecido por uma garota, que lhe deu um tapa na cara. O empresário saiu correndo e permaneceu vários dias escondido na casa de amigos.
Chabán foi transferido diversas vezes de prisão e até permaneceu um período em detenção domiciliária. O julgamento oral e público começou em 2008. Um ano depois foi condenado a 20 anos de prisão. No entanto, o empresário apelou à Justiça, que revisou a pena dada anteriormente. O novo tribunal emitiu uma nova pena, desta vez de dez anos e nove meses de prisão.
ADVOGADO - Famoso por ser prepotente, Chabán – um empresário excêntrico que andava de triciclo pela cidade acompanhado de seu animal de estimação, um sapo – sequer contava na época em que foi detido com a simpatia de seu próprio advogado, Pedro D’Attoli. Na época, o profissional admitiu que seu cliente tinha motivos “para estar preso”.
De Samuel Barber, seu “Adagio para cordas”:
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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William Rufus Devane King: sua posse extraterritorial foi usada como justificativa por uma suprema corte de maioria chavista
A presidente do Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela, Luisa Estela Morales, justificou nesta quarta-feira a sui generis situação do presidente Hugo R. Chávez, ausente de Caracas nesta quinta-feira dia 10 de janeiro para a posse de seu quarto mandato presidencial. Uma das justificativas é que Chávez foi “reeleito” e não “eleito”, e portanto, há uma continuidade do poder. E desta forma, não precisa estar presente agora ou nos próximos dias. Segundo ela, a posse poderá ser no futuro, quando Chávez possa.
A outra justificativa implicou em arquivar temporariamente as posições anti-americanas (pelo menos, na área discursiva) do chavismo para recorrer a um exemplo yankee para defender um eventual juramento do presidente Chávez no futuro fora da Venezuela (neste caso, perante os juízes do Supremo). Coincidentemente, neste caso, na ilha de Cuba.
“Nos Estados Unidos, por exemplo, poderíamos citar que há muito tempo um governante americano tomou posse fora de seu país, William King, o décimo-terceiro presidente americano William King”, disse a juíza.
No entanto, King não era presidente. Era o vice-presidente. O presidente era Franklin Pierce, que tomou posse normalmente em Washington.
Segundo a juíza, “sequer existe ausência temporária” de Chávez, que desde o dia 11 de dezembro está internado em um hospital em Havana.
WILLIAM KING - Em 1852 o Partido Democrata escolheu William Rufus King para ser o vice na chapa de Frankilin Pierce. A dupla venceu as eleições presidenciais de novembro daquele ano. Mas, os problemas pulmonares de King – que na campanha havia ficado evidentes – agravaram-se. Em dezembro foi descrito por amigos seus como um “esqueleto”. No fim do mês decidiu passar o inverno no clima tropical de Cuba para ver se podia recuperar sua abalada saúde.
Em fevereiro, já em Cuba, King percebeu que não conseguiria enfrentar a viagem até Washington para a posse do dia 4 de março.
O Congresso, informado do agravamento da saúde do vice eleito, tomou uma medida inédita – e jamais repetida – de aprovar uma lei especial, de exceção, que permitiria que King tomasse posse em solo estrangeiro, alegando que o veterano político havia prestado “importantes serviços à pátria”.
A decisão também tinha um quê de compaixão, afirmam historiadores, já que os integrantes do Congresso sabiam que King estava em estado terminal e nunca seria o vice.
Desta forma, King tornou-se a figura de maior hierarquia institucional na História dos EUA a prestar juramento em solo estrangeiro. Mais especificamente, foi em uma fazenda perto de Matanzas, nas proximidade de Havana. O vice não conseguia nem ficar em pé para o juramento.
King continuou piorando e partiu de Cuba rumo aos EUA, mais especificamente, Alabama. Desembarcou em Mobile e chegou a ao vilarejo de Selma no dia 17 de abril de 1853. King morreu um dia depois, aos 67 anos, em sua fazenda.
El Cid, morto, embora cavalgando o fiel Babieca, sai da fortaleza cercada para dar sopapos nos inimigos. Ou, pelo menos fazer de conta que está no comando do ataque ibérico. Neste caso, o que importa é o que parece ser.
MANOBRA EL CID – Segundo a teoria do Supremo venezuelano, sempre que a Assembléia Nacional renove a licença de saúde a Chávez, poderia teoricamente existir um cenário no qual ele poderia permanecer em licença ao longo dos próximos seis anos (isto é, permanecendo na UTI em Havana), disputar a eleição de 2019, e, no caso de ser reeleito, prescindir novamente da – digamos assim – “formalidade” da posse.
Essa eventual manobra, somada aos rumores de que o presidente Chávez poderia estar morto ou em coma (Ariel Sharon, em Israel, esteve em coma grande parte do tempo desde 2006, embora agora esteja em estado semi-vegetal) gera um clima de grande desconfiança, já que não aparece uma imagem pública do líder bolivariano desde o dia 11 de dezembro. De quebra, o governo não fornece detalhes sobre a doença. Os integrantes do gabinete nunca explicaram qual é tipo de câncer e onde está o tumor (ou tumores).
Desta forma, na internet e nas conversas entre os venezuelanos abundam alusões – de forma positiva ou de forma negativa – comparando Chávez a “El Cid”, o medieval super-guerreiro espanhol que morreu em Valência em 1099.
Uma lenda (tardia, surgida bem depois de sua morte) indica que seus aliados preferiram ocultar durante um tempo que El Cid havia partido para o além e colocaram seu cadáver sentado em cima de seu cavalo. Na sequência, o soltaram para colocar em pânico seus inimigos mouros. E, assim morto, ganhou sua última batalha.
Esta versão ficou definitivamente imortalizada no celulóide em “El Cid”, protagonizada por Charlton Heston e Sofia Loren (a atriz italiana está um pitéu neste clássico da Sétima Arte…bom, quando não esteve esplêndida?)
Aqui, a cena na qual El Cid é vestido com a armadura e colocado com barras de ferro firme em sua sela. E, finalmente Babieca – seu cavalo – sai cavalgando para fora dos muros da cidade, levando El Cid na frente de suas tropas, como se estivesse vivo.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
O rei Pedro II Karageorgevich (ou Petar II Karađorđević ou ainda Пеtар II Карађорђевић) da Iugoslávia (1923-1970)
O presidente da Assembleia Nacional, o parlamento venezuelano, Diosdado Cabello, afirma que o presidente Hugo Chávez não necessariamente tem que tomar posse em Caracas, capital do país, no dia 10 de janeiro. Segundo ele, a ausência de posse nesse dia não determina a ausência absoluta.
Cabello diz que a constituição deixa claro que, se o presidente não pode comparecer à Assembleia no dia da posse, ele pode prestar juramento no Tribunal Supremo de Justiça.
Essa tese também foi defendida pelo vice-presidente Nicolas Maduro, ex-líder sindical do metrô de Caracas, que em dezembro, antes da partida do líder bolivariano para sua 4ª operação em Cuba, foi designado por Chávez seu virtual delfim político.
Segundo Cabello e Maduro, as normas não especificam nem quando nem onde deveria ser essa posse perante os integrantes do Supremo.
Isto é, ambos deixaram o caminho aberto para os rumores que indicam que Chávez, se estivesse relativamente bem para sair do hospital, poderia ir até a embaixada da Venezuela em Havana e juramento na representação diplomática, já que trata-se de solo venezuelano encravado em território cubano.
Mas, digamos que Chávez não possa prestar juramento na embaixada, porque poderia ser difícil para que o convalescente líder bolivariano saia do hospital. Nesta hipótese, uma alternativa seria usar a UTI do Centro de Investigaciones Médico Quirúrgicas (CIMEQ), o hospital em Havana.
No entanto, nem a UTI nem o resto do Cimeq são território venezuelano.
Neste caso, poderia ser usado um precedente peculiar para isto, a “Manobra Karageorgevich”, com a qual poderiam transformar a sala do hospital temporariamente em território venezuelano em Cuba.
O rei Pedro e sua mulher, a rainha Alexandra, com bebê/príncipe herdeiro Alexandre, nascido no menor encrave que a Iugoslávia já teve…na Inglaterra.
O MENOR E MAIS EFÊMERO ENCRAVE DO MUNDO: Em 1945 o rei Pedro II Karageorgevich da Iugoslávia, que estava exilado em Londres desde 1940 por causa da invasão nazista a seu país, estava em um dilema. Sua mulher, a rainha Alexandra, com a qual havia casado em 1944, estava a ponto de dar a luz.
Mas, segundo a lei dinástica de seu reino, se o príncipe herdeiro não nascesse em território nacional iugoslavo, perderia o direito à coroa.
O rei Pedro não podia voltar a seu país. Ele estava em uma sinuca e tentava encontrar uma solução na suíte 212 do Hotel Claridge, em Londres, onde residia no exílio.
A Grã-Bretanha, aliada do Reino da Iugoslávia, decidiu não deixar o rei Pedro na mão.
O rei Jorge VI, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill e o rei Pedro assinaram um acordo pelo qual a soberania da suíte 212 do Hotel Claridge seria cedida por 24 horas à Iugoslávia, para logo em seguida voltar à Grã-Bretanha. Ali seria o parto real.
A lenda diz que os empregados do hotel espalharam terra especialmente levada da Iugoslávia para que o herdeiro nascesse – literalmente – sobre solo iugoslavo, e não somente sobre os macios tapetes transitoriamente “iugoslavizados”.
Desta forma, a suíte 212 do Claridge foi o menor encrave territorial de toda a História mundial, além de ser o mais efêmero de todos. Uma espécie de Bálcãs em pleno coração de Londres.
No entanto, o príncipe Alexandre, ali nascido, nunca conseguiu ser rei. Mas, por outro motivo: a Iugoslávia foi governada a partir do fim da guerra pelo líder comunista Josep Brioz Tito, que aboliu a monarquia. E, nos anos 90, a Iugoslávia deixou de existir, dividindo-se entre vários países independentes.
Baseado neste precedente, uma alternativa é que o presidente de Cuba, Raúl Castro, ceda à Venezuela o território da UTI durante 24 horas, transformando-o em um minúsculo encrave venezuelano na ilha de José Martí, Bola de Nieve e Ernesto Lecuona. Assim, Chávez poderia prestar juramento em território venezuelano.
O elegante hotel Claridge, em Londres. Sua suíte 212 foi uma mini-Iugoslávia por 24 horas.
E falando em Cuba, um pouco de Ernesto Lecuona, “Vals de los mares”:
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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TV Pro Nobis: Amplos privilégios para a Igreja Católica no novo mapa da mídia. Evangélicos reclamam disso. O Estado argentino é laico…pero no mucho. O quadro acima, de Francisco de Zurbarán (1598-1664), mostra o bispo Aurelius Ambrosius (mais conhecido como Santo Ambrósio), um dos principais doutores da Igreja Católica. Foi pintado entre 1626 e 1627. Está no Museu Provincial de Belas Artes em Sevilha, Andaluzia.
A Lei de Midia, aprovada em 2009 pelo Parlamento argentino – e que entrará em plena vigência a partir da meia-noite desta sexta-feira – está gerando grande irritação entre os evangélicos deste país, além de outros grupos religiosos da sociedade argentina. O pivô dessa irritação é que a lei – a menina dos olhos da presidente Cristina Kirchner – determina em seu artigo número 37 que a Igreja Católica será a única entidade religiosa que terá direito a canais de TV e e estações de rádio sem necessidade de autorizações prévias ou licitações.
Gastón Bruno, vice-presidente de relações externas da Aliança Cristã de Igrejas Evangélicas da Argentina (ACIERA), afirmou que a entidade defende “a igualdade religiosa” na Argentina. “Não estamos contra credo algum. Simplesmente queremos tratamento igualitário”, afirma Bruno, lamentando a exclusão das igrejas evangélicas da lei de mídia. “Nós representamos 5 milhões de pessoas”, afirma.
“Para o Estado argentino as igrejas evangélicas são entidades civis e não uma fé. E isto ocorre 200 anos depois da independência do país, momento no qual se produz a igualdade de vários direitos de vários setores. Mas nós, embora sejamos uma minoria crescente e dinâmica, não somos tratados de forma igualitária”, explica.
O Conselho Nacional Cristão Evangélico (CNCE) da Argentina sustenta que lei de mídia gera “uma dolorosa e inexplicável discriminação religiosa”.
As outras entidades religiosas, entre elas, as vinculadas comunidade judaica (a maior da América Latina) e a muçulmana, também ficam de fora desses privilégios que a presidente Cristina Kirchner – que cita Deus e o marido morto em seus discursos – concedeu à Igreja Católica. Oficialmente, a Argentina possui um Estado laico.
A decisão do governo de privilegiar a Igreja Católica constrange os militantes kirchneristas. O próprio Martín Sabbatella, diretor da Autoridade Federal de Serviços de Comunicação (Afsca), além de deputados, evitam falar sobre o assunto. No máximo alegam que a Igreja Católica possui um status legal especial, já que é uma entidade pré-existente ao próprio Estado argentino. Isto é: existia Igreja Católica antes da Argentina ser independente. “Se for por isso, as igrejas protestantes também existiam aqui antes da independência”, afirma Bruno. “Inclusive, vários evangélicos lutaram nas guerras da independência”.
Coincidentemente, a alta hierarquia do clero em Buenos Aires – que havia desferido duras críticas contra os Kirchners durante vários anos – desde a aprovação da lei de mídia, embora pronuncie alguma eventual crítica, manteve um perfil mais baixo e evitou participar das controvérsias sobre a norma que limitará a atuação das empresas privadas na área de jornalismo.
EM TEMPO: O Estado argentino, por uma lei da ditadura (a de número 21.950), paga os salários dos bispos e dos padres da Igreja Católica. Também subsidia seminaristas. O governo Kirchner nunca disse nada sobre este assunto. Quem quiser ver uma lista de algumas leis que beneficiam com exclusividade o setor citado, aqui há um link oficial, do Ministério das Relações Exteriores e Culto (assuntos burocráticos relativos à religião são tratados pela chancelaria): http://www.culto.gov.ar/dircatolico_normativa.php
Cristina Kirchner, em reunião com altos representantes da Igreja Católica na Casa Rosada. Presidente argentina tem relação de tensões e tréguas com o Vaticano. Mas, durante polêmicas da Lei de Mídia a Igreja ficou em silêncio (e, em alguns casos, a elogiou). Na foto acima, o bispo José María Arancedo, líder da Igreja Católica na Argentina, que no final do ano passado substituiu o cardeal Jorge Bergoglio. Na reunião Cristina reforçou sua posição contra o aborto (na contra-mão de diversos setores de seu partido e de grupos da oposição que pedem sua descriminalização).
MAIORIA ATEIA - Segundo uma pesquisa realizada em 2009 pelo governo, 76% dos argentinos foram originalmente batizados católicos. Mas, apenas 6% são praticantes.
A totalidade das igrejas evangélicas na Argentina não reúne mais de 10% da população. Mas, ao contrário dos católicos, o grupo evangélico é totalmente praticante. Os evangélicos argentinos não possuem uma bancada que os represente no Parlamento, e tampouco contam com redes de televisão.
Os ateus, no entanto, segundo a pesquisa, ultrapassam católicos e evangélicos praticantes, representando 11,3% da população.
O país conta com a maior comunidade judaica da América Latina – calculada entre 300 mil e 500 mil pessoas – além de uma presença muçulmana (estimada em 500 mil pessoas) nas províncias do norte e noroeste.
Até a reforma constitucional de 1994 a Carta Magna determinava que somente poderia ser presidente um católico apostólico romano. A reforma excluiu essa restrição.
Trecho do filme “Habemus Papa”, do diretor italiano Nanni Moretti, no qual os cardeais clausurados para um conclave ouvem repentinamente o “Todo cambia” da argentina Mercedes Sosa. Uma saborosa cena, digna de antologia:
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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A maior parte dos canais de TV do país pertecem a empresários alinhados com o atual governo. Na foto acima, a presidente C.E.F.deKirchner discursa na frente do quadro de JD Perón e Ma.Eva D.dePerón no Museu do Bicentenário.
“Do total de seis canais de TV de presença nacional destinados à transmissão de notícias por cabo, somente um não está sob o controle direto ou indireto do governo da presidente Cristina Kirchner”. A afirmação é do jornalista José Crettaz, catedrático de economia da mídia na Universidade Argentina da Empresa (Uade), e um dos principais especialistas do país sobre a Lei de Mídia. “Dos cinco canais de TV abertos da cidade de Buenos Aires, cujo conteúdo é distribuído para todo o país, apenas um permanece fora da órbita do kirchnerismo”, afirma Crettaz ao Estado.
Segundo ele, o controle direto ou indireto sobre a mídia por parte dos Kirchners começou nos primórdios da carreira política do casal, quando Nestor Kirchner foi prefeito de Rio Gallegos (1987-91) e governador da província de Santa Cruz (1991-2003), onde conseguiu um sistema de mídia local totalmente alinhado com sua administração.
“O AMIGOPÓLIO” - O governo Kirchner costumeiramente afirma que enfrenta um “monopólio midiático”, em alusão ao Grupo Clarín, dono de vários jornais, estações de rádio e canais de TV. Mas, a oposição retruca e sustenta que nos últimos anos o casal Kirchner armou seu próprio “monopólio” de meios de comunicação aliados. Os meios aliados receberam substanciais volumes de publicidade oficial, enquanto que os meios não alinhados recebem porções mínimas.
Além do Grupo Szpolski, os Kirchners contam com o respaldo midiático (em maior ou menor intensidade) do jornal “Página 12”, do canal “C5N”, do “Canal 9”, e do canal “Telefé” (o de maior audiência do país).
No caso da Telefé, pertencente à Telefônica da Espanha, conta como colunista com o senador Aníbal Fernández, braço-direito de Cristina na Câmara Alta.
Outro caso é o do canal Nueve, pertencente ao empresário mexicano Remígio González-González, que conta com vários programas de explícito respaldo à administração Kirchner.
Tanto o Telefé como o Nueve não poderia continuar existindo, já que seus donos são estrangeiros, algo que está proibida pela Lei de Mídia. No entanto, o governo Kirchner alega com malabarismos jurídicos que os dois canais são “argentinos”.
Além disso, o governo Kirchner possui uma grande rede estatal nacional de TV e rádio (a TV Pública e a Rádio Nacional, entre outras). A deputada Alicia Argumendo, do partido de esquerda Projeto Sul, de oposição, ironiza e chama os meios de comunicação alinhados com os Kirchners de “amigopólios”.
DEPENDÊNCIA - Diversas estimativas indicam que pelo menos 80% das estações de rádio e canais de TV dependem do governo. Estes canais foram cooptados das mais diversas formas, tanto pela compra dos canais realizados por empresários amigos, enormes quantidades de publicidade oficial, concessões regulatórias em troca de acompanhamento editorial, licenças provisórias de TV digital somente para os aliados incondicionais. Em vez de democratização dos meios de comunicação, o cenário tende para hegemonia.
Jorge Liotti, professor de relações internacionais da Universidade Católica Argentina (UCA) e especialista em meios de comunicação, afirmou ao Estado que “a falta de proporção no destino de verbas da publicidade oficial para os jornais é uma constante na política do governo Kirchner. Desde a volta da democracia, em 1983, nunca houve nada assim. É a primeira vez que um governo aplica sanções pela modalidade da distribuição da publicidade oficial. E isso é feito de forma explícita. Não há respeito pelas proporções das quantidades de leitores e vendas. É um critério totalmente arbitrário”.
E para embalar este crepúsculo de 5afeira, o “L’après-midi d’un faune”,de nosso querido gaulês Claude Debussy. Na batuta o batutésimo Georges Prêtre com a Orchestre National de France. O genial Philippe Pierlot sapeca na flauta:
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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A frigideira-power foi usada contra Allende, contra Pinochet, contra Menem, contra De la Rúa, contra Cristina Kirchner…Nesta noite de quinta-feira os panelaços direcionam-se novamente contra ”La Pinguina”.
“El Cacerolazo” (O Panelaço): Denominação da barulhenta modalidade de protesto que consiste em bater de forma rítmica utensílios metálicos de cozinha, principalmente as “cacerolas” (panelas).
A História dos panelaços mostra que os utensílios de cozinha não possuem ideologia política, já que os primeiros panelaços surgiram no Chile para protestar contra o presidente socialista Salvador Allende em 1973. No entanto, em 1986 e 1989 os panelaços chilenos foram direcionados contra o ditador de extrema direita, o general Augusto Pinochet.
Em 1996 foi a vez da Argentina tornar-se o cenário de panelaços acompanhados por apagões para protestar contra a política do presidente Carlos Menem. Em 2001 e 2002 essa modalidade de protesto teve seu apogeu de forma quase diária contra os presidentes Fernando De La Rua, Adolfo Rodríguez Sáa e Eduardo Duhalde. Na época os panelaços argentinos obtiveram fama mundial.
A retomada do crescimento econômico, em 2003, com o presidente Nestor Kirchner fez os panelaços desaparecerem. Mas este modus operandi de protestar contra o governo de plantão voltou quando a presidente Cristina Kirchner teve o conflito com o setor ruralista em 2008.
Os panelaços retornaram mais uma vez neste com o crescimento dos problemas econômicos, especialmente a disparada da inflação, além dos escândalos de corrupção. De quebra, segundo afirmou ao Estado a analista de opinião pública Mariel Fornoni, o tom agressivo dos últimos discursos da presidente Cristina irritou diversos setores da população, servindo de combustível para os panelaços, especialmente o último, no dia 13 de setembro.
Para um “instant cacerolazo”, ver este site chileno, aqui. ![]()

UTENSÍLIOS DE COZINHA E IRRITAÇÃO POPULAR - Um panelaço é uma modalidade de protesto que consiste em bater utensílios de cozinha metálicos para gerar um barulho que pretende ser interpretado como o som da “irritação popular”.
Na crise de 2001-2002, um empresário portenho percebeu a existência de um nicho de mercado e criou um panelaço semi-automático, já que consistia em uma panela com uma manivela que mexia a tampa desse utensílio.
Nos últimos panelaços portenhos foi utilizada de forma intensa a garrafa de plástico, que produz um som seco também adequado para expressar irritação. A vantagem das garrafas é que não estraga as panelas de casa, além de ser mais leve.
MÁQUINA E JOGO - No início de 2002 um inventor portenho criou a “máquina de panelaço”, que consistia em uma panela com uma manivela que na ponta tinha a tampa do utensílio doméstico. Ao girar a manivela, a tampa batia na panela ritmicamente, propiciando um menor esforço por parte do “cacerolero” (“panelaceiro”?). Na ocasião, vendeu várias centenas de unidades. Mas, a recuperação econômica de meados de 2002 acabou com seu incipiente business.
Na mesma época, embora com um sucesso um pouco mais prolongado, o empresário Gustavo Federico Gómez lançou no mercado o jogo “Cacerolazo” (Panelaço), que consistia em conseguir as melhores condiçõesde vida para a população de uma província. No meio do tabuleiro do estilo do “banco imobiliário” existiam obstáculos como os sindicatos, empresas, o governo federal, partidos políticos, o FMI, bancos, a polícia, o jornalismo, a igreja. Se uma das cartas indicava tempos ruins pela frente, o jogador podia revidar acudindo a um panelaço de protesto.
Pensando em panela lembrei deste jazz do genial Fats Waller, “All that meat and no potatoes” (Toda essa carne e sem batatas):






PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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Banheiro-gate: Felisa Miceli, ex-ministra dos Kirchners é a primeira a sentar no banco dos réus por dinheiro encontrado no retrete ministerial. Miceli não justifica dinheiro encontrado em uma sacola em seu banheiro privado. Acima, ilustração que mostra papel-higiênico vitoriano. Na segunda metade inferior da postagem, nossa homenagem ao emérito sir John Harrington, que nunca – suponho – imaginaria que sua criação seria cenário de escândalo de corrupção e de gasto oficial.
Felisa Miceli, ex-ministra da Economia, tornou-se nesta segunda-feira a primeira integrante do governo Kirchner a sentar no banco dos réus para um julgamento oral e público de um escândalo de corrupção, o denominado “Caso do Banheiro”. Miceli é acusada de encobrimento da uma operação financeira ilícita e da destruição de documentos oficiais. O caso veio à tona em 2007, quando os guardas da Brigada de Explosivos do Ministério da Economia encontraram no banheiro privado da ministra uma sacola de papelão com notas de pesos argentinos e dólares de origens misteriosas.
Entre 2005 e 2007 Miceli foi a primeira mulher na História da Argentina a ocupar a pasta da Economia.
Felisa Miceli, ainda ministra, antes do affaire do retrete
Na época, Miceli, que era ministra do governo de Néstor Kirchner, forneceu uma série de confusas explicações sobre a origem do dinheiro dentro da sacola de papelão, onde estavam guardados 100 mil pesos (na época cotados a US$ 35 mil), além de outros US$ 31 mil em cédulas americanas. Miceli alegou que o dinheiro era seu, e que havia sido guardado no banheiro para realizar uma operação imobiliária para sua filha. Mas, dias depois, afirmou que o dinheiro era de um de seus dois irmãos, Horácio Miceli. No entanto, posteriormente argumentou que os pesos e os dólares eram de outro irmão, José Rubén.
Após o surgimento de pistas que indicavam que o dinheiro havia saído de forma irregular do Banco Central, a ministra renunciou ao cargo.
A investigação jornalística original do jornal “Perfil” que trouxe à tona o escândalo havia revelado que a quantia encontrada na sacola de papelão consistia em US$ 140 mil, 50 mil euros e 100 mil pesos.
Este é o primeiro escândalo de corrupção do país que teve como cenário um toilette.
Breve interlúdio pictórico:

“La toilette”, do pintor francês Henri de Toulouse-Lautrec. O quadro, de 1896, está no Museu D’Orsay, Paris.
Voltamos à nossa programação normal:
Anos depois Miceli começou a trabalhar na Fundação das Mães da Praça de Mayo, onde envolveu-se em um novo escândalo. Desta vez, em um fundo fiduciário irregular para a construção de casas populares.
Miceli – que atualmente afirma que é inocente e que tudo não passou de uma “armadilha” contra sua pessoa e o governo Kirchner – também é acusada pela Justiça de ter subtraído e destruído a ata policial que registrou a descoberta do dinheiro. Se for considerada culpada pelo tribunal, Miceli poderia ser condenada à uma pena de até seis anos de prisão.
O julgamento, que contará com o depoimento de 60 testemunhas, se prolongará até meados de dezembro.
Contribuintes na Argentina pagarão o equivalente a RS$ 1 milhão para que andar onde trabalha a presidente Cristina conte com um banheiro com mármore de carrara e iluminação computadorizada. E espaço para quadros. Acima, a presidente Cristina na semana passada, enquanto recebia o cantor de boleros (e antes pop) Luis Miguel na Casa Rosada.
VALIOSO RETRETE: REFORMA DE BANHEIRO DA CASA ROSADA CUSTARÁ RS$ 1 MILHÃO
O palácio presidencial argentino terá em breve um banheiro cuja remodelação, segundo o próprio Diário Oficial, custará RS$ 1 milhão, com piso de mármore de carrara, iluminação computadorizada e um espaço para pendurar quadros. O banheiro, cuja remodelação será feita pela empresa Kir, estará no mesmo andar onde está o escritório da presidente Cristina Kirchner, embora o anúncio oficial não indique se o toilette será usado pela chefe do Poder Executivo.
A revelação dos custos para o retrete oficial gerou grande polêmica em Buenos Aires. No entanto, o secretário da presidência, Oscar Parrilli, afirmou que esses fundos não estão somente destinados para o lavabo, mas também para mudar de lugar a cozinha presidencial instalada no segundo andar da Casa Rosada embora no Diário Oficial a quantia está exclusivamente destinada para o toilette.
Segundo Parrilli, os cozinheiros – quando batiam com os martelos nas milanesas – não deixavam a presidente trabalhar em calma. Os cozinheiros, explicou o secretário, estavam em cima do escritório da presidente.
Milanesas são um dos pratos preferidos dos argentinos. Presidente Cristina não conseguia trabalhar bem por causa dos martelinhos utilizados na elaboração do quitute bovino empanado.
E se a coisa é luxo, nada melhor do que “Nothing but the best”, com nosso amigo Chico Sinatra:
EFEMÉRIDE DO GLORIOSO RETRETE MODERNO
Sir John Harrington, inventor do vaso sanitário moderno morreu há 400 anos, no dia 20 de novembro de 1612. Escritor, inventor, Sir John propiciou a bilhões de Homo Sapiens-sapiens um lugar para a reflexão. Harrington também é lembrado por um cínico epigrama: “a traição nunca prospera. E por qual razão? É que se prospera, não é chamada de traição”.
O vaso sanitário moderno foi criado por Sir John Harrington, que nasceu no dia 4 de agosto de 1561 e morreu no 20 de novembro de 1612. Poeta, escritor e inventor inglês, em 1590 descreveu sua idéia – que despertava o interesse do público – na “Metamorfose de Ájax”.
Nessa obra, Harrington fala sobre o vaso sanitário, embora com algumas alusões escatológicas e anatômicas que a moral da época considerou de mau gosto.
Capa do livro de Harrington: “Metamorfose de Ájax”.
A rainha Elisabeth I, madrinha de Harrington, ficou furiosa com a repercussão e suspendeu a construção do aparelhos dentro das residências (era o plano comercial de Harrington).
Mas, a monarca manteve um retrete para ela própria e permitu que seu sobrinho tivesse um também.
O emérito Sir John até aparece como fantasma em seu vaso sanitário em um episódio do escatológico “South Park”. Aqui.
Fotograma do vídeo no qual sir John aparece no minuto 1:19.
Antes de Harrington existiam vasos sanitários primitivos. Mas, apesar da falta de high-tech, esses vasos primitivos tiveram crucial importância na vida da humanidade.
Esse foi o caso de Martinho Lutero, que em 1517 escreveu suas emblemáticas 95 teses em um retrete de pedra que estava instalado na parede de sua casa em Wittenberg.
Ali sentado, onde passou longas horas construtivas, rabiscando o texto no qual condenava as indulgências promovida pelo papa Leão X para financiar a construção da Basílica de São Pedro, Lutero – que sofria de pertinaz constipação – deparou-se (assim ele disse) com Satanás, que tentava desviá-lo de seus planos. E ali mesmo nesse water-closet de pedra, conseguiu expulsar o tinhoso.
O famoso retrete que deu início a uma verdadeira revolução que colocou a Europa, segundo historiadores, no caminho da Era Moderna, foi finalmente descoberto em 2004.
Diagrama do harringtoniano toilette em “Metamorfose de Ajax”
DENOMINAÇÕES RETRETAIS NA AMÉRICA LATINA
Retrete: A palavra significa “pequeno retiro”. Isto é, o pequeno espaço geralmente destinado ao ambiente onde está o vaso sanitário.
Escusado ou excusado: Termo usado em toda região, decorrente de uma “excusa”, uma “desculpa”. Uma frase do livro “Fiesta”, do Nobel Mario Vargas Llosa sobre o assunto: «Se echó talco en las partes pudendas y la entrepierna, y, sentado en el excusado, esperó a Sinforoso»
Poceta: Na Venezuela é o termo usado como referência ao antigo sistema, um poço.
Váter: Esta expressão é comum na Espanha, em referência ao water-closet, com a voluntária má vontade ou involuntária incapacidade de pronunciar o “w” como corresponde.
Servicio: A expressão é usada na Espanha. Mas também em áreas da América Central.
Sanitário: O termo é usado na Colômbia
Governos do casal Kirchner acumulam diversos casos de corrupção, vários dos quais com peculiaridades. Um dos mais famosos é o caso da maleta. Acima, durante um discurso em rede nacional de TV a presidente Cristina exibe “Cristinita”, a boneca que a homenageia. A boneca vende-se na lojinha do Museu Bicentenario.
ANEXO AO TOILLETE-GATE: ANTOLOGIA DOS CASOS DE CORRUPÇÃO DOS KIRCHNERS
Fundos de Santa Cruz (desde 2003): Nos anos 90 o então governador de Santa Cruz, Néstor Kirchner, enviou US$ 500 milhões para o exterior. Com o dinheiro fora do país, a província salvou-se do “corralito” (confisco bancário) de 2001 e a crise financeira de 2002. Kirchner prometeu que, quando fosse eleito presidente, o dinheiro voltaria ao país. Ele tomou posse em 2003. Mas os fundos somente voltaram entre 2007 e 2009. A oposição afirma que existem outros US$ 500 milhões em juros sobre os quais nada se fala e que não voltaram ao país.
Caso Skanska (2005): Escândalo que envolve empreiteiras argentinas e estrangeiras, entre elas a sueca Skanska, no superfaturamento das obras de dois mega-gasodutos no sul e norte da Argentina. O principal suspeito do affaire é o Ministro do Planejamento Julio De Vido. As denúncias indicam subornos pelo valor de US$ 5 milhões.
Trem-bala (2006): A Oposição acusa os Kirchners de graves irregularidades no contrato que o governo assinou com a empresa francesa Alstom para a construção do controvertido trem-bala argentino. O governo diz que o custo da obra seria de 2,5 bilhões de euros. Mas, a Oposição afirma que os contratos, da forma como foram elaborados, implicam em um custo três vezes superior ao orçamento oficial. O projeto foi suspenso.
“Valijagate” (Maleta-gate) ou o “Caso da Mala” (2007): Suposto envio de fundos de Chávez para a campanha eleitoral de Cristina Kirchner em 2007. Existem pistas sobre o envio de pelo menos US$ 5 milhões.
Enriquecimento ilícito (desde 2008): A oposição, advogados independentes e a mídia acusam os Kirchners de enriquecimento ilícito. Eles afirmam que o crescimento de mais de 900% do patrimônio presidencial desde 2003 não tem justificativas contábeis lógicas. A presidente Cristina argumenta que seu enriquecimento deve-se aos investimentos em imóveis o fato de ter sido “uma advogada de sucesso”.
“Embaixada paralela” (2010): O ex-embaixador argentino em Caracas, Eduardo Sadous, denunciou na Justiça que integrantes do governo da Venezuela e da Argentina durante vários anos exigiram a empresários exportadores de ambos países o pagamento de propinas de 15% a 20% para não causar obstáculos em suas operações de comércio bilateral. Segundo o embaixador as pessoas envolvidas na exigência da propina referiam-se a ela como um “pedágio”.
Caso Ciccone (2011): A Companhia Sul-Americana de Valores, a ex-Ciccone, tornou-se o foco do escândalo em dezembro passado quando investigações jornalísticas, posteriormente aprofundadas pela Justiça, revelaram pistas que indicariam que o vice-presidente Amado Boudou teria favorecido amigos seus na compra da gráfica, que há poucos anos estava a ponto de falir. Depois, Boudou teria ajudado os amigos a obter o contrato de impressão de notas de 100 pesos. Boudou tornou-se suspeito de enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro e negociações incompatíveis com a figura de funcionário público.
Mais uma vez, sir John Harrington, excelsa figura pouco reconhecida no século XXI. No dia 20 de novembro – sua efeméride – estaremos pensando nele.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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