ir para o conteúdo
 • 

Ariel Palacios

 

“A gente começa a envelhecer no dia que não temos mais projetos”, diz o monstro sagrado do teatro platino

Breve vídeo do Youtube para explicar o protagonismo da yorkshire Lucrécia na entrevista com a atriz China Zorrilla. Embaixo, no texto, a mesma explicação, com um pouco mais de detalhes. E depois, a entrevista com a atriz.

China Zorrilla, “monstro sagrado” do teatro, cinema e TV do Rio da Prata, completa 90 anos nesta quarta-feira. Aqui segue uma entrevista feita com a atriz em janeiro do ano passado, publicada no Caderno 2. Mas, nesta postagem, coloco a entrevista na íntegra.

Mas, antes de começar, tenho que explicar algo, além de dar uns agradecimentos ao “melhor amigo do homem”. Ou, neste caso, à “melhor amiga do homem”, uma cachorrinha, Lucrécia, que foi crucial para conseguir essa entrevista.

Em 2002 mudei para um apartamento na rua Uruguai. Um ano depois compramos uma cachorrinha, uma Yorkshire, a Lucrécia. Um dia, depois de tentar tosar a cachorra de forma improvisada em casa, decidimos buscar alguém que fizesse isso direito. E assim, uma tarde, caminhando com a Lucrecia pelo quarteirão, vimos uma mulher que estava com uma yorkie impecável, chamada Flor. Perguntamos onde é que ela era tosada. A mulher passou o telefone da pessoa, o Leonardo Fusaro, que havia estudado veterinária e tinha um programa de rádio.

Bom, Lucrecia começou a ser tosada pelo Leonardo. Poucos meses depois, viajamos de férias, para a China. Quem tomou conta da Lucrecia durante nossa viagem foi o Leonardo. Um dia, Leonardo tinha que tosar a Flor, que, coincidentemente, morava em um prédio na calçada da frente.

A Flor era a cachorra da China Zorrilla. Desta forma, Flor – que era mais velha – e Lucrecia viraram amigas. Durante a viagem, Leonardo levou Lucrecia várias vezes à casa de China Zorrilla.

Quando voltamos da viagem, o Leonardo nos contou toda a história. Achamos engraçado. Ele disse “vou ligar à China Zorrilla, para ver se ela está e levo a Lucrecia ali uns minutos”. Mas, a atriz estava ocupada. Leonardo foi embora. Uns 10 minutos depois, o porteiro eletrônico tocou.

“Sim”, disse eu.

“Bom dia, o Leonardo ainda está?”

“Não, ele já foi embora”, disse

“Ahhhh…que pena…queria ver a Lucrécia”

“Mas quem fala?”, perguntei.

“China…sou China Zorrilla”

“Claro! Pode subir”, disse surpreso.

Segundos depois, China Zorrilla estava na sala de estar de nosso apartamento. Lucrecia pulava de alegria.

China Zorrilla sentou no sofá. Aí, olhou pela janela e viu a sacada e a área central do quarteirão (era um quarteirão com muitas árvores e passarinhos no meio, algo que os argentinos chamam de “pulmón de manzana”, isto é, pulmão de quarteirão). Levantou rápido e disse “este é o melhor pulmón de manzana de Buenos Aires…olhe (apontou com o dedo)…antigamente eu morava ali…e na frente, do outro lado, morava a Nini Marshall (outra famosa atriz cômica argentina)”.

Na seqüência, depois de explicar que com freqüência elas falavam aos gritos, de cada janela através do “pulmón”, fez um “diálogo” sozinha, como se estivesse falando com a amiga (colocava as mãos na frente da boca, como quem vai gritar e precisa amplificar):

- Ninííííí….

- Queeee fooooi, China?

- Eu e as amigas estamos aqui e vamos jogar cartas! Quer vir pra cá?

- Não pooooosssoooo, China! Tenho que ensaiar esta peça!

- Ta beeeeemmm! Fica pra próximaaa!

- Tchaaaaaaaaaauuu Chinaaa!

- Tchauu Niníí!

(Miriam e eu olhávamos estarrecidos…China Zorrilla estava interpretando ali, na nossa frente, movendo-se para a direita ou a esquerda, de acordo com quem interpretava…sua amiga Niní ou ela própria)

Depois, virou pra gente, e disse: “mas vocês, onde estavam nesses dias?”

- China (respondi)

- Sim? (disse ela)

- China (voltei a dizer)

- Sim? (disse ela, de novo)

- China…não a Zorrilla…a China de Mao!

- Aaaahhhh! Deve ser um país fascinante. Hahahha…e essa moça, que bonita! Foi modelo (disse, olhando para a Miriam)?

- Não, jornalista, do Brasil. Eu também.

- Ah, um prazer conhecê-los. Mandem a Lucrecia de vez em quando lá pra casa!

Na seqüência, pegou sua bengala, despediu-se e foi embora.

Nos meses seguintes, sempre que a víamos na rua, nos cumprimentava. Se estivéssemos com a Lucrecia. Se estávamos sem a cachorra, ela não nos reconhecia.

E foi assim que muitos anos depois, pedi uma entrevista. Mas China estava muito ocupada, de apresentação em apresentação. Não havia jeito mesmo. “Estou muito cansada, ocupada”, dizia. A secretária dela me disse “fale que traz a Lucrecia, que ela te dá a entrevista na hora”. E assim foi. Levei a Lucrecia e a Carlota (a outra yorkie que entrou na nossa vida em 2006). E desta forma, tive a entrevista com China Zorrilla.

Lucrécia, devo agradecer, “conseguiu” várias entrevistas para mim, especialmente nas caminhadas dominicais. Deputadas, economistas, literatos, ficam encantados com a elegante yorkie e começam a puxar papo. Um dos casos de ajuda canina foi com um sociólogo que tentei entrevistar ao longo de anos e o cara nunca respondia meus telefonemas. Mas um dia, levando a Lucrecia para passear pela avenida Pueyrredón, subitamente encontrei o septuagenário estudioso das ciências sociais, que ficou fascinado com a cachorrinha. “Gostaria de fazer uma entrevista com o sr”, disse, depois de responder qual era o nome da yorkie. “Pode me ligar quando quiser”, disse ele, enquanto afagava a nuca da Lucrecia, que movia o rabo. “Mas sempre que ligo, o sr. nunca responde!”, retruquei. “Desta vez diga que é o pai da Lucrécia, que atenderei”, respondeu. E assim foi…

 

China Zorrilla e Lucrecia, minha quadrúpede assessora de imprensa

Concepción Zorrilla de San Martín Muñoz, popularmente conhecida como China Zorrilla, monstro sagrado do teatro platino – pois é considerada a atriz mais emblemática da Argentina e do Uruguai – celebra 90 anos de vida. O peso dos anos não impede a grande dama do teatro platino de permanecer em plena atividade e elaborar novos projetos. Hoje, quarta-feira, será homenageada à noite no Teatro Cervantes.

Filha do principal escultor uruguaio, José Zorrilla de San Martín, e neta do poeta nacional Juan Zorrilla de San Martín – passou parte da infância em Paris e na juventude estudou em Londres. De volta a seu país protagonizou as principais obras teatrais – de comédias a dramas – fez montagens de óperas e estrelou filmes argentinos e espanhóis.

Com uma trajetória de 68 anos nos palcos sul-americanos, China Zorrilla foi a protagonista de diversos filmes, entre eles, “Elsa e Fred”, exibido no Brasil há poucos anos.

Atualmente ela realiza um ciclo de “teatro lido”, isto é, a leitura de obras de teatro em diversos centros culturais portenhos onde o público acotovela-se para assistir a lendária atriz.

Entre uma apresentação e outra, além dos convites que constantemente recebe para conferências, Zorrilla – acompanhada por Flor, sua inseparável cachorra yorkshire – recebeu o Estado em sua casa no bairro da Recoleta para falar sobre sua paixão pela dramaturgia, sua experiência no cinema e a velhice .

Estado – Vittorio Gassman disse uma vez que atuar era “quase como um vício ou uma doença”. É assim mesmo?

Zorrilla – Que boa frase! Que boa frase! Quando Gassman esteve em Montevidéu fiquei fascinada. Fiz amizade com ele. Um dia lhe perguntei se queria ver o atelier de meu pai, que era escultor (o famoso José Zorrilla de San Martín). Meu pai fazia muitas esculturas em Buenos Aires. Bom, o atelier dele em Montevidéu era uma espécie de demonstração de que minha família era atípica. Em minha casa era comum ver estátuas de pessoas nuas. E, quando minhas amiguinhas da escola de freiras vinham me visitar (no final da década de 20 e no início dos anos 30), ficavam horrorizadas. Eu dizia a elas que homens e mulheres posavam nus para meu pai, de forma que as estátuas fossem iguaizinhas às pessoas.

Estado – Voltando à frase de Gassman…

Zorrilla – Sim! Seja mímico, cantor ou ator… o que acontece em cima de um palco é mágico. As pessoas me perguntam se não me canso do teatro, de fazer sempre a mesma coisa. Bom, eu não me canso nunca disso. Ora, eu pergunto para elas: “vocês se cansam de beber café com leite todas as manhãs?”. Não. Eu não canso. Estou encantada de fazer o que faço.

 

Gassman, um dos gênios do teatro e do cinema da Itália da segunda metade do século XX. Acima, durante a preparação do “A Armada Brancaleone”. A cômica música-tema do filme, aqui.

Estado – Em 1975 dirigiu “O Barbeiro de Sevilha”, uma ópera. Como foi essa mudança de atividade para a senhora?

Zorrilla – Quando era criança tocava piano. Queria apertar um dedo sobre algum instrumento e que pudesse ouvir algo. É preciso cantar bem, contando uma história. E quando leio um livro, às vezes penso: “que pena que não há uma canção para este relato”. Isto é, o texto teatral não é somente texto. É texto e música. Isso sempre me divertiu. Cada vez que vejo uma comédia musical, de Broadway, ah! (suspira). É continuidade do texto com a música (interrompe a explicação e começa a cantar uma ária de La Bohème, de Giacomo Puccini) “Che gelida manina, se la lasci riscaldar (que fria mãozinha, deixe-me esquentá-la)”. Que coisa divina!

Estado – Como é o trabalho de composição de um personagem? Há atores que são capazes de mudar para um hospital psiquiátrico para ver como uma pessoa com uma perturbação mental age…

Zorrilla – Não. Eu não sou muito analítica para estas coisas. Olha, se estou fazendo, digamos assim, o papel para um filme de uma princesa russa que está exilada em Paris, e paralelamente te contratam para fazer uma peça de teatro que transcorre no Pampa argentino, eu não páro para pensar “puxa, são dois papéis diferentes!”. Não. É como colocar um vestido e depois trocar de roupa. Não fico me perguntando se o vestido essa passado ou se é bonito. Simplesmente penso: “preciso usar esse vestido”. E aí coloco esse vestido. É assim, você já está “vestida” com esse vestido.

 

China Zorrilla, durante a interpretação da obra de teatro sobre a vida da escritora Emily Dickinson em 1980.

Estado – Pensa em aposentar-se?

Zorrilla – Não sou rica. Teria que ser rica, mas o dinheiro me incomoda. Fui uma administradora desastrosa de minhas economias. Se fosse rica faria teatro de vez em quando. Mas, não sou rica. Vivo do teatro. E minha sorte é que gosto muito do teatro.

Estado – O que acha do “teatro lido” que está protagonizando atualmente?

Zorrilla – Em 2099 sugeri às autoridades da área cultural um grande ciclo de teatro lido. Começamos ano passado e continuamos neste (a peça atual é “As da frente”, comédia de costume de Federico Mertens, apresentada em diversos centros culturais portenhos a cada mês durante 2011 e 2012). Pode parecer estranho. É como ver uma ópera sem orquestra. Mas, acho importante, para que o público fique mais de olho naquilo que o texto diz. O importante, neste ciclo, é ouvir. Maravilhoso.

Estado – Quando apresenta uma nova obra o teatro sempre fica lotado…

Zorrilla – No teatro não existe uma lógica. Não há uma fórmula para lotar um teatro. Volta e meia um diretor reúne um ator estupendo e um autor genial e o espetáculo é fantástico. Mas, o teatro pode ficar vazio. É mesmo um mistério.

Estado – “Elsa e Fred”, de 2005, é uma história de amor…

Zorrilla – Quando tinha 82 anos, Marcos Carnevale me telefonou. Me disse que queria que trabalhasse com ele em um filme de amor. Eu perguntei: “estupendo! Vou fazer o papel da avó de quem?”. Aí ele me explicou: “não China, não será avó… você será a protagonista dessa história de amor!”.

Estado – A senhora fez teatro shakespeareano, cinema, novelas de televisão…onde sentiu-se mais à vontade?

Zorrilla – Gosto de estar em cima de um cenário, que as pessoas chorem ou riam, aplaudem, e aí vou dormir tranquila e satisfeita. Cada vez gosto mais disso. O pranto, a risada, o aplauso, é uma música para o ator. Quando fazia em Montevidéu, Bodas de sangue, de García Lorca, com Margarita Xirgú, gostava da obra. Mas eu queria fazer as pessoas rirem. No entanto, não ia dizer isso à um monstro sagrado como Xirgú. Mas, essa era a verdade. Fazer drama e comédia… é uma ginástica!

Estado – Em suas declarações a senhora dá muito ênfase ao teatro, mas sua participação no cinema, desde seu primeiro filme, em 1971 (“Um guapo do 900”), já fez 35 obras cinematográficas. O último filme do qual participou foi em 2009, “Sangue do pacífico”, do ator e diretor Boy Olmi…

Zorrilla – É que o cinema entrou na minha vida de forma tardia. O cinema é tão diferente do teatro! O cinema magnifica aquelas palavras que a gente pronuncia no palco. Sempre que faço cinema tento conter a forma exuberante de ser do teatro. Mas depois, sempre, percebo que isso não importa.

Estado – Seu próximo projeto?

Zorrilla – A gente envelhece no dia em que não temos mais projetos. O próximo, eu gostaria, é o de fazer um clássico do teatro. As pessoas acham normalmente que esse gênero é uma chateação… mas, ao contrário, os clássicos são muito divertidos!

Estado – Como gostaria de encerrar a carreira?

Zorrilla – Gostaria me despedir do mundo fazendo uma comédia. Esse gênero tem um coisa muito química… é preciso dizer certas frases naquela décima de segundo exata para que as pessoas riam. Se você a diz depois… é tarde.

Estado – Uma vez quase tentou falar com Greta Garbo. Como foi o desenlace?

Zorrilla – Quando morei em Nova York nos anos 60, um dia procurei o nome de Greta Garbo na lista telefônica. Sabia que o sobrenome verdadeiro dela era Gustafsson. E na lista estava “Gustafsson G”. Liguei. E atendeu ela. “Hallo. Hallo!”, disse Garbo. Eu ouvi a voz dela mas nada disse e desliguei. Imagine só! Greta Garbo já estava aposentada… e não tinha mais de … Ela havia se aposentado aos 36 anos pois pensou que já não era mais jovem, e que já havia filmado o que considerava suficiente. Percebe isso? E eu, que tenho 89 e cá estou?

Estado – Como é envelhecer?

Zorrilla – É uma coisa difícil de explicar. Quando era uma menina eu me perguntava, filosoficamente, como seria chegar aos 50 anos. Um dia cheguei lá e não aconteceu coisa alguma. Também me perguntava como seria quando teria seios. Bom, um dia tive seios, e tudo bem. Minha mãe tinha 95 anos. Estava lúcida e não estava doente. Mas percebeu que havia chegado a hora de morrer. Ela me disse: “agora é iminente minha passagem ao outro mundo. O medo deixou espaço para a curiosidade”.

Estado – ….

Zorrilla (ela faz uma pausa, congela o gesto com as mãos e olha com o canto dos olhos de forma oblíqua para o chão, para o lado esquerdo e conclui, em referência às palavras da mãe) – …Uau! Que frase! (faz outra pausa)…Bom, eu sinto medo e curiosidade.

China Zorrilla com Flor, sua cachorra yorkshire, que faleceu em dezembro passado, aos 14 anos. Flor a acompanhava em todas suas apresentações de teatro e nos sets da rodagem dos filmes. Em algumas peças, ela até contracenou com sua dona.

CACHORROS

Estado – Fora do teatro, possui algum projeto?

Zorrilla – Quero convencer o pessoal do governo que façam mudanças no sistema penitenciário. Acho que os cães podem mudar a vida de alguns presidiários. Imaginemos um minuto…esse homem que está preso, sabe que durante um momento, que na hora de sair ao pátio ele poderá estar com um amigo… terá um cachorro. Descobri sabiamente que os cachorros podem ser muito úteis em uma prisão. Talvez está um preso, detido na cela, pois matou uma pessoa. Este Juan Pérez está ali, e dedica uns carinhos ao cachorro. O cachorro não estará sozinho e o preso não estará mais sozinho. Esse homem terá um amigo. Como no filme sobre o preso de Alcatraz, com Burt Lancaster, que criava passarinhos. Quando era criança, eu e minhas irmãs brincávamos de bonecas. Até que um dia meu pai apareceu com o cachorro. E mudou nossa vida. Descobri tudo o que um cachorro pode fazer por um ser humano. O cachorro mais sujo, mais vagabundo da rua sempre vai querer um amigo que lhe faça um carinho. Estou sem óculos…esta aqui embaixo quem é?

Estado – Lucrécia.

Zorrilla – É divina. Sempre bonita. E a pequena, que não conhecia?

Estado – Carlota.

Zorrilla – Bom, lá vão elas (Lucrécia e Flor saem correndo para o fundo do apartamento. Carlota fica no meio da sala, tímida com o lugar desconhecido). Ei, Leonardo, quem é essa atriz que se maquia muito? É muito pequena….uma atriz, sempre estava com Armando Bo. Ah, Isabel Sarli (na seqüência, vira para mim).. Mas quem chora?

Estado – É a Carlota

Zorrilla – Como rompe las pelotas, che!

  

A ária que China Zorrilla cita no início da entrevista, “Che gelida manina”, de G.Puccini em “La Bohème”:

 

   

O ALÉM CANINO

Estado – Na hipótese de que após a morte exista um Céu…esse Paraíso terá cachorros?

Zorrilla – Se não houver cachorros lá, não é paraíso…

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

E, the last but not the least, siga o @inter_estadão, o Twitter da editoria de Internacional do estadão.com.br .
Conheça também os blogs da equipe de Internacional do portal correspondentes, colunistas e repórteres. 
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. 
.………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Não é permitido postar links de vídeos. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comente!

 

Juan María Bordaberry, ex-presidente/ditador uruguaio, morreu neste domingo de madrugada em Montevidéu. Foi enterrado no mesmo dia, sem honras de Estado, já que apesar de ser um ex-presidente, havia violado a Constituição do Uruguai. Sua principal contribuição ao país e ao mundo foi o neologismo de ciência política “bordaberrização”. Por coincidência, no dia seguinte, segunda-feira, os uruguaios celebravam o aniversário da Constituição Nacional. A foto acima mostra o ditador em seu apogeu. A foto abaixo mostra o ex-ditador em seu momento de prisão.

Juan Maria Bordaberry, um civil integrante do partido conservador Colorado, foi eleito presidente em 1971 nas urnas, no meio da  crise econômica e da intensificação da guerrilha dos Tupamaros. Em 1972 tomou posse. Em 1973, apesar da guerrilha já estar praticamente derrotada, decidiu dar um auto-golpe que inaugurou uma ditadura que duraria 12 anos.

Ele dissolveu o Congresso, eliminou as liberdades civis e colocou militares nos principais postos do gabinete. No entanto, seu governo ditatorial foi caótico, pois a crise econômica agravou-se e as tensões políticas dentro de seu governo aumentaram. Em 1975 propôs aos militares a substituição total dos partidos políticos por corporações. Bordaberry, fã do ditador espanhol Francisco Franco, queria criar um Estado inspirado no falangismo e no fascismo.

A idéia extrema deixou os próprios militares golpistas preocupados, pois eles pretendiam fazer uma transição ordenada para uma democracia tutelada no futuro, mas com a existência de partidos. Os militares consideravam que tentar acabar com todos os partidos era uma jogada muito arriscada para a permanência do poder militar.

 

Bordaberry era fã de Franco, que autodenominava-se de “generalíssimo da Espanha, pela graça de Deus”. Acima, Franco em uma pintura um tanto quanto apologética.

BORDABERRIZAÇÃO E BORDABERRIZADOS - A ditadura criada por Bordaberry duraria uma dúzia de anos. No entanto, ele durou menos no poder, já que em 1976 foi deposto pelos próprios militares. Bordaberry e seu modelo de poder inspiraram a criação de um termo ocasionalmente utilizado na política internacional, a “bordaberrização”.

O neologismo designava um presidente civil que é títere de militares – que seriam os verdadeiros donos do poder – e que transformam um regime democrático em uma ditadura encoberta, com rosto civil.

Segundo o Prêmio Nobel Mario Vargas Llosa, o presidente peruano Alberto Fujimori, “bordaberrizou” seu governo em 1992 quando deu um autogolpe. Mais detalhes sobre o golpe de “El Chino”, aqui.

Bordaberry foi substituído por outro civil, o “bordaberrizado” Alberto Demicheli, que ocupava na época a presidência do Conselho de Estado. Demicheli durou dois meses e meio. Outro civil bordaberrizado, Aparício Méndez, o sucedeu, durando até 1981. Nesse ano, os militares que decidiram continuar o regime de fato sem intermediários ou figuras decorativas. Na ocasião, foi designado presidenteo general Gregório Alvarez.

Bordaberry junto com seu colega chileno, Augusto Ramón Pinochet

PRESO E CONDENADO - Bordaberry estava detido desde novembro de 2006, quando foi colocado na prisão por acusações de graves violações aos Direitos Humanos. Na época, o juiz Roberto Timbal o acusou de coautoria de homicídio agravado dos senadores Zelmar Michelini (na época, um dos principais líderes da oposição) e Héctor Gutiérrez Ruiz, além dos tupamaros Rosario Barredo e William Whitelaw.

Os assassinatos ocorreram em Buenos Aires,dentro do “Plano Cóndor” (plano de cooperação entre as Ditaduras do Cone Sul).

Os militares e policiais que cometeram violações aos Direitos Humanos durante a Ditadura (1973-85) foram beneficiados em 1989 com a Lei de Caducidade Punitiva do Estado (lei de anistia). No entanto, ela não contemplava os crimes cometidos por militares no exterior (vários oficiais foram extraditados por crimes no Chile, enquanto que outros aguardam a extradição por crimes realizados na Argentina) nem pelos civis, que era o caso de Bordaberry.

O ex-ditador ficou vários meses na Prisão Central de Montevidéu. Mas, finalmente, em 2007, foi transferido para sua casa para cumprir prisão domiciliar sob a alegação de problemas de saúde.

Em 2010 Bordaberry, que era acusado de crimes de contra a Humanidade (pelos casos de torturas e assassinatos), foi condenado por crimes contra a nação, pena sem antecedentes na História uruguaia, já que tinha como base a violação da Constituição por parte do ex-ditador. Na ocasião Bordaberry recebeu uma pena de 30 anos de prisão (a maior pena prevista pela lei uruguaia, já que o país não conta com pena de prisão perpétua).

Isto é: Bordaberry, que teria que cumprir a pena até 2040. Ou seja, ele sairia da prisão quando tivesse 112 anos. Mas, morreu muito antes, aos 83. O déficit que surge dessa contabilidade é de 29 anos.

NECROLÓGICAS – Com a morte de Bordaberry neste ano – e as do general AugustoPinochet e de Alfredo Stroessner em 2006 – do grupo de ex-ditadores “top” dos anos 70 no Cone Sul que participaram do Plano Condor, fica apenas vivo o general Jorge Rafael Videla.

 

Caronte, o piloto do ferry-boat que cruza o Aqueronte, o rio que leva as almas direto para o Inferno, segundo a mitologia grega. Na obra de Dante Alighieri, “A Divina Comédia”, a via fluvial em questão era a beirada do Inferno, ou, o hall do Inferno. A ilustração é de nosso genial francês Gustave Doré.

FUJIMORIZAÇÃO NÃO-BORDABERRIZADA - O general peruano Edgardo Mercado Jarrin discorda de Vargas Llosa, e indica que muitas pessoas compararam o golpe peruano com o governo de Bordaberry no Uruguai em 1973. Mas, ele sustenta que existem grandes diferentas e que na verdade, no Peru houvre “fujimorização”: “Bordaberry fue un presidente uruguayo civil puesto por los militares para que en realidad gobiernen los militares. En Perú ha habido una cosa atípica porque fue un golpe pensado y organizado por el presidente civil, que contó con el apoyo de las fuerzas armadas. Esto fue un golpe donde las fuerzas armadas no buscaron una injerencia política. La prueba es que aquí no hay ministros militares. Cada vez más las decisiones fundamentales son tomadas exclusivamente por Fujimori. Aquí no hubo una “bordaberrización” sino una “fujimorización”, y eso es porque las propias fuerzas armadas han aceptado darle ese caríz”.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (17)| Comente!

  

Rudolf Kametovich Nureyev (Рудо́льф Хаме́тович Нуре́ев) dá uma cabriola durante um balé em Londres. Paulo Bernardo, ministro, protagonizou uma cabriola no corredor da chancelaria uruguaia em Montevidéu.

A visita da presidente Dilma Rousseff a Montevidéu, para cinco horas de reunião com o presidente José “Pepe” Mujica, teve alguns pontos pitorescos nesta segunda-feira. Aqui segue uma coletânea dos highlights (para mais notícias sobre a visita, ver a edição do jornal ou aqui e aqui também).

AMOR E ALMOÇO – No final da declaração de imprensa, pouco antes das 15:00 horas, Mujica, famoso por seu estilo simples e espontâneo, apoiou as mãos na mesa da sala de conferências e, preparando-se para ficar em pé, exclamou com cara de fome: “en este momento del día lo que más importa es el almuerzo (neste momento do dia o que mais importa é o almoço).

No entanto, a seu lado, Dilma entendeu que “en este momento del día lo que más importa es el amor” (o que mais importa é o amor), já que depois do comentário do esfaimado presidente uruguaio – que costuma almoçar cedo – a presidente brasileira acrescentou com um sorriso: “o amor é lindo!”

.

PATRIOTA, VERSÃO CERVANTES – O chanceler Antonio Patriota, perguntado pela imprensa brasileira sobre o estado das relações Brasil-Argentina no atual contexto de guerra comercial entre os dois países suscitada pela aplicação de barreiras protecionistas em ambos lados da fronteira, optou por responder em espanhol: “muy buena, muy buena” (muito boa, muito boa).

Mas, na sequência, quando foi questionado sobre a visita que a ministra da Indústria da Argentina, Debora Giorgi fará a Brasília para discutir as divergências bilaterais nesta quinta-feira, olhou fixo para os jornalistas, arregalou os olhos, virou de  costas e resguardou-se rapidamente em um providencial elevador que o afastou do assédio da mídia.

Mikhail Baryshnikov dá uma cabriola fenomenal

A CABRIOLA NUREYÉVNICA DE BERNARDO - O ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, foi o único que deteve-se no caminho rumo ao almoço para conversar com a imprensa. Ele defendeu o ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, argumentando que o caso protagonizado pelo colega de gabinete “é muita fumaça e pouca fagulha”.

Cardozo, questionado se considerava que a crise que envolve Palocci estava ficando diluída, respondeu: “eu nunca achei que ela (crise) ficou complexa”.

O ministro garantiu que “da parte do governo não existe nenhuma investigação” sobre este caso.

Apesar da consideração, Eduardo Cardozo disse que as informações solicitadas pelo Ministério Público Federal do Distrito Federal (MPF-DF) ao ministro serão prestadas. “O MP pediu informações do ponto de vista cível e elas serão prestadas”, reiterou.

O MPF-DF abriu um procedimento de investigação cível contra Palocci para apuração do imbróglio. A ação, assinada pelo procurador Paulo José Rocha Junior, solicita que sejam apresentados comprovantes e justificativas para os elevados valores recebidos pelo ministro-chefe da Casa Civil.

Mas, ao contrário de Cardoso, o ministro das Comunicações Paulo Bernardo optou por driblar comentários sobre seu colega Palocci.

Bernardo, ao ouvir que os jornalistas que se aproximavam perguntavam-lhe sobre os escândalos do chefe da casa civil – e não sobre os memorandos e convênios assinados na área de cooperação tecnológica com o Uruguai – respondeu apressadamente à certeira pergunta de Tatiana Farah, enviada especial de O Globo: “se a agenda de vocês é o Palocci, eu não tenho nada a comentar. Estou com fome e vou almoçar”.

Na sequência, atravessou céleremente o cerco jornalístico e dirigiu-se por um corredor rumo ao salão do almoço. No entanto, ao escapar rapidamente da imprensa, protagonizou um monumental tropeção em um emaranhado de cabos que estavam no chão.

Mas, exibindo agilidade, deu uma complexa cabriola no ar – ao melhor estilo de Rudolf Nureyev (ou de Mikhail Baryshnikov) – e caiu em pé. Sem titubear, continuou caminhando velozmente para o salão.

Segundo a enciclopédia online Wikipedia, a cabriola “é um passo de dança clássica que o bailarino executa apoiado numa perna ao mesmo tempo que a outra se estende para o lado, para trás e para a frente. A posição das pernas cai alternando”.

E, aproveitando que estamos falando sobre ballet, um link para ver o dançarino argentino Julio Bocca, um dos melhores da América Latina nos anos 90. Neste vídeo, uma variação do Basílio do ballet Quixote. A qualidade de som está “ni fu ni fa”. Mas vale para ver a técnica de Bocca. Aqui.

E aqui, mais Bocca, no Pas de Deux do Quixote, supimpa, durante um show na avenida 9 de Julio. Ela é Tâmara Rojo, brilhante. A qualidade deste e dos outros vídeos é boa. Aqui.

E neste, Bocca no Pas de Deux do Lago dos Cisnes, de nosso querido russo  Pyotr Ilyich Tchaikovsky. Aqui.

E falando no Pas de Deux, dupliquemos: o emblemático Pas de Quatre do Lago dos Cisnes. Aqui.

Embaixo, o grande Tchaikovsky.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (17)| Comente!

 

A Câmara de Deputados do Uruguai rejeitou na madrugada desta sexta-feira a anulação da Lei de Caducidade Punitiva do Estado, denominação da lei de anistia aplicada aos ex-integrantes da ditadura militar (1973-85) que foram responsáveis por torturas, sequestros e assassinatos de civis.

Os debates foram intensos: ao longo de 14 horas, 50 do total de 99 deputados pronunciaram discursos defendendo e atacando a anulação do perdão aos militares.

O resultado foi um empate. 49 a 49 votos,

Isso implicou na rejeição automática do projeto de lei.

Do lado de fora do edifício do Parlamento, entre 3 mil e 4 mil pessoas acotovelavam-se para esperar o resultado. Muitas delas estavam em vigília desde a véspera. Minutos após o encerramento da sessão, o clima era de frustração nas ruas ao redor do Parlamento.

A Frente Ampla, a coalizão de centro-esquerda do governo do presidente José Mujica, contava com uma maioria ajustada para vencer a votação, já que possui 50 do total de 99 deputados.

No entanto, foi um parlamentar do próprio governo, Victor Semproni – líder sindical e guerrilheiro nos anos 70, que foi torturado pelos militares – que permitiu o empate.

Durante os debates Semproni argumentou que a anulação da anistia “pisoteava os dois plebiscitos (de 1989 e 2009)” que confirmaram a aplicação do perdão aos ex-integrantes da ditadura. Semproni havia anunciado na semana passada que votaria contra a anulação do perdão.

O empate implica na rejeição do projeto de lei. Mas, pelo fato de ter sido previamente aprovado pelo Senado em abril, o projeto terá que ser submetido à Assembléia Geral (a reunião extraordinária da Câmara com o Senado).

No entanto, a Frente Ampla não teria condições de aprová-lo, já que isso requer dois terços dos votos (87 de um total de 130), proporção que não possui.

PLEBISCITOS – O foco dos debates que agitaram o âmbito político do país foram a relevância (ou não) e a legitimidade (ou não, de acordo com alguns setores) dos dois plebiscitos realizados em duas décadas que confirmaram a anistia.

No primeiro plebiscito, em 1989, o respaldo à lei de anistia, aprovada pelo Parlamento em 1986, contou com 57% dos votos. No segundo, em 2009, 53% dos uruguaios votaram a favor da permanência do perdão aos ex-integrantes da ditadura.

OBJETIVO - A iniciativa de anulação do perdão aos militares – com o objetivo de permitir a investigação dos crimes da ditadura e o julgamento dos responsáveis – foi da autoria de grande parte da Frente Ampla.

POLÊMICAS - Mas, a idéia suscitou polêmicas dentro da coalizão desde o começo, já que diversos integrantes – entre eles o presidente José Mujica (ele próprio, um ex-guerrilheiro tupamaro torturado pela ditadura) – argumentavam que a Frente Ampla não podia ignorar os resultados de dois plebiscitos realizados nas últimas duas décadas.

Mujica deixou claro que não respaldava a iniciativa e que era preciso “olhar para o futuro”. Na quarta-feira, véspera da votação na Câmara, durante as celebrações do dia do Exército, Mujica afirmou que “existem mães que choram pelos ossos de seus filhos, muita dor e injustiça. Mas, não podemos transferir às novas gerações de militares as frustrações de nossa geração”.

Dias antes, o ex-guerrilheiro tupamaro havia alertado para o risco de que a Frente Ampla, com sua insistência na aprovação da anulação do perdão, “fabrique uma esplêndida espada para que a oposição nos decapite”.

No entanto, Mujica também declarou que não vetaria a anulação, caso tivesse sido aprovada.

A polêmica começou a ficar intensa em abril, quando o Senado aprovou o fim do perdão por 17 votos contra 16.

Na ocasião surgiram as primeiras dissidências quando o senador frenteamplista Aparício Saravia não respaldou o projeto, enquanto que o ex-líder guerrilheiro e senador Eleutério Fernández Huidobro, torturado durante o regime militar, votou a favor da anulação por fidelidade partidária. No entanto, minutos depois renunciou à sua vaga. “Esta anulação é um erro garrafal da esquerda”, disse Huidobro.

Nos últimos anos, diversos setores políticos alegaram que a lei de anistia de 1986 era “ambígua”, pois impedia o julgamento dos militares, mas não a investigação sobre seus crimes.

O deputado Felipe Michelini, da Frente Ampla, filho do senador Zelmar Michelini, assassinado em Buenos Aires em 1976 por um comando argentino-uruguaio que agia dentro do Plano Condor, afirmou que “é preciso eliminar essa lei definitivamente do ordenamento jurídico uruguaio”. Michelini argumenta que anulação da anistia implica no “fim da impunidade”. Segundo ele, levar os militares envolvidos nos crimes ao banco dos réus está relacionado com o respeito dos “direitos da vida das pessoas, direitos humanos intransferíveis”.

 Bordaberry, em 1973. O ditador civil, de direita, é o que está na extrema-esquerda da foto.

DADOS, NÚMEROS E NEOLOGISMOS DA DITADURA URUGUAIA

Torturados – A ditadura torturou 4.700 civis ao longo de doze anos de ditadura, iniciada em 1973.

Suicidas – Dos prisioneiros torturados, oito presos suicidaram-se para evitar a continuação da tortura.

Assassinados em solo uruguaio - Os militares teriam sido responsáveis pelo assassinato de 34 civis dentro do território uruguaio.

Assassinados no exterior - Dentro do “Plano Cóndor”, denominação do esquema de colaboração das ditaduras do Cone Sul, os militares participaram dos assassinatos de outros 106 uruguaios fora do território do país, a maior parte dos quais na Argentina.

Lei de Caducidade Punitiva do Estado - Em 1986, um ano após a volta da democracia, pressionado pelos militares, que ameaçavam levantes nos quartéis, o presidente Julio Maria Sanguinetti (1985-90) encaminhou o projeto da Lei de Caducidade Punitiva do Estado ao Parlamento, onde foi aprovada. A lei – que amparava somente s crimes da ditadura cometidos dentro do país – foi confirmada por plebiscitos em 1989 e 2009.

Dribles à lei de Caducidade Punitiva do Estado - Ao longo da última meia década, parentes das vítimas conseguiram driblar a lei de anistia levando ex-integrantes da ditadura ao bancos dos réus pelos crimes cometidos fora do país, que não estavam contemplados no perdão aos militares. Esse foi o caso dos ex-presidentes Juan María Bordaberry e Gregorio Alvarez. Ambos foram colocados na prisão por envolvimento nos casos de uruguaios assassinados no exterior.

Bordaberrização - O fazendeiro Juan María Bordaberry foi eleito nas urnas em 1972 pelo partido Colorado. Em 1973, as forças armadas deram um golpe mas mantiveram o civil Bordaberry no posto. Ele foi removido do cargo em 1976, um ano antes do final formal de seu mandato, previsto para 1977.

Embora breve no poder, Bordaberry conseguiu emplacar seu sobrenome como um termo das ciências políticas, já que “bordaberrização” refere-se a uma ditadura militar que pretende ter aparência democrática e para isso deixa (ou coloca) um presidente civil no cargo formal da presidência.

No dia 28 de abril o ex-espião Enrique Arancibia Clavel foi encontrado morto em seu apartamento no centro portenho. No dia seguinte foi impossível publicar a postagem sobre o caso, já que morreu o escritor Ernesto Sábato. Mas, aproveitando que o assunto hoje são ditaduras, recupero o material que estava preparado desde aquela manhã na qual faleceu o autor de “Sobre heróis e tumbas”.

COM 20 PUNHALADAS, MORRE EX-ESPIÃO DE PINOCHET

  

Arancibia Clavel, que havia assassinado dois chefes do exército chileno, foi morto em Buenos Aires

Vinte profundas punhaladas no peito, mandíbula, pescoço e nas costas acabaram com a vida de Enrique Arancibia Clavel, ex-assassino e ex-espião do governo do ex-ditador chileno Augusto RampíPinochet (1973-90). O corpo do ex-integrante da Dina – o serviço secreto da ditadura chilena – foi encontrado coberto de sangue ressecada em seu apartamento na rua Lavalle, em pleno centro de Buenos Aires. A primeira pessoa em encontrar o cadáver do protagonista de diversos atos terroristas foi seu namorado, um jovem de vinte e poucos anos. Nas horas seguintes, o assassinato do ex-torturador era o assunto preferido dos vizinhos do prédio e de todo o quarteirão. Um deles pontificou: “a la pucha… o chileno tinha mais facadas do que furos em um coador de macarrão”.

Muitos anos antes de ser comparado com um utensílio de cozinha, Arancibia Clavel foi o organizador do atentado que em 1974 na rua Malabia, no bairro de Palermo, matou o general Carlos Prats, ex-chefe do Exército do Chile durante o governo do presidente socialista Salvador Allende (1970-74), e sua esposa, Sofia Cuthbert. A bomba que matou o casal exilado em Buenos Aires havia sido colocada sob o veículo dos Prats pelo americano Michael Townley, agente da CIA que nos anos 80 delatou perante a Justiça dos EUA seu ex-colega chileno. A explosão espalhou os pedaços dos corpos dos Prats em um raio de 50 metros.

Arancibia Clavel também havia sido o autor do assassinato do anterior comandante em chefe do exército chileno, o general René Schneider, em 1970, em Santiago do Chile. Schneider havia resistido às pressões para protagonizar um golpe de Estado que impedisse a posse de Salvador Allende.

 

Fotos do atentado contra Prats

Quatro anos após o assassinato de Prats, Arancibia Clavel – um dos espiões preferidos de Pinochet – recebeu a missão de descobrir detalhes dos planos militares das forças armadas argentinas, que estavam prestes a entrar em guerra com o Chile por causa da disputa do canal de Beagle.

Descoberto em 1978 Buenos Aires, foi preso. No entanto, poucos anos depois foi beneficiado com uma anistia. A partir dali, Arancibia Clavel optou por permanecer em Buenos Aires.

No entanto, em 1996, foi detido pela Justiça argentina pelo crime cometido 22 anos antes em Buenos. Pelo assassinato de Prats e sua esposa foi condenado à prisão perpétua. Na época, o caso estabeleceu precedentes jurídicos para a reabertura de processos contra ex-integrantes da ditadura na região, já que a Corte Suprema argentina determinou que o assassinato fora um crime contra a Humanidade, e portanto, não prescrevia.

No entanto, em 2007 conseguiu a liberdade condicional. De lá para cá, vivia da renda do aluguel de três veículos que havia transformado em táxis e morava em um quarteirão famoso por estar coalhado de pequenos escritórios de empresas-fantasma e de estabelecimentos de prestação de serviços sexuais.

A polícia em Buenos Aires deteve dois “táxi-boys”, isto é, “garotos de programa”, suspeitos de terem assassinado o ex-espião, que constantemente requeria serviços sexuais masculinos em seu apartamento. Tudo indica que os dois rapazes teriam roubado US$ 40 mil do autor da morte do general Prats.

 

Retrato do torturador quando jovem: Arancibia nos anos 70

REPERCUSSÕES – No dia seguinte à notícia, no Chile, a filha do general Prats, Cecília, afirmou que a família não falará sobre o assassinato do assassino de seu pai. No entanto, disse que estava “impactada” pela morte do ex-espião.

Mireya García, da organização Parentes de Detidos-desaparecidos, de defesa dos Direitos Humanos, ressaltou que, “paradoxalmente, queremos que os violadores dos Direitos Humanos vivam muitos anos para que tenham tempo de pagar suas culpas perante a Justiça”. Segundo ela, “é sempre um revés quando os responsáveis dos crimes não estão mais aqui, já que as investigações não podem continuar avançando”.

O NETO, O ESCARRO E O OUTRO DEFUNTO - Francisco Quadrado Prats, neto do general Prats, ficou famoso em dezembro de 2006 quando foi ao velório do general Pinochet e escarrou sobre o rosto do mandante do assassinato de seu avô. Após cuspir sobre o corpo do ex-ditador que também havia ordenado a morte de 3 mil civis e a tortura de outros 30 mil, o neto de Prats foi atacado por uma multidão furiosa de simpatizantes pinochetistas e teve que sair protegido pela guarda militar.

O jovem argumentou que o objetivo de sua cuspida foi o de “mostrar desprezo pelo assassino de meus avós. Além disso, foi porque fiquei chocado ao ver todas as honrarias que ele recebeu por parte do Exército. E esta era minha última oportunidade de passar diante de Pinochet”.  

AMIGOS DE PINOCHET: O general A.Ramón Pinochet possuía uma troupe de amigos peculiares. Um deles foi o alemão Paul Schaefer, que ostentava os títulos de nazista e pedófilo. Para mais detalhes, veja esta postagem do ano passado, aqui. 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (15)| Comente!

Edifício do Congresso Nacional do Uruguai. Ali, no plenário do Senado, na noite da terça-feira, a Lei de Anistia aos militares foi anulada. A próxima etapa será a Câmara de Deputados, dia 4 de maio. Foto da Wikipedia.

Por 17 votos a 16 o Senado do Uruguai aprovou no final da noite desta terça-feira a anulação da “Lei de Caducidade Punitiva do Estado”, denominação aplicada à anistia concedida em 1986 aos militares que sequestraram, torturaram e assassinaram civis durante a ditadura que governou o Uruguai entre 1973 e 1985. A anulação da lei ainda precisa passar pela Câmara de Deputados no dia 4 de maio. Mas, ali, tudo indica, será aprovada graças à maioria confortável da Frente Ampla, a coalizão de centro-esquerda que governa o Uruguai desde 2005.

O fim da lei do perdão aos ex-integrantes da ditadura permitirá o julgamento dos oficiais envolvidos nos crimes da ditadura.

No entanto, essa aprovação está provocando polêmicas na sociedade e fissuras graves na coalizão de governo.

A Lei de Caducidade foi aprovada em 1986 pelo Parlamento sob fortes pressões dos militares, que ameaçavam realizar novos levantes nos quartéis.

Nos anos seguintes a pressão e o poder dos militares encolheu. Em 1989, com a democracia consolidada, a anistia foi confirmada em um plebiscito. Em 2009, de forma simultânea às eleições presidenciais, o eleitorado voltou a confirmar a aplicação da anistia.

O plebiscito em 2009 foi um balde de água fria nos organismos de defesa dos direitos humanos. No entanto, os parlamentares da Frente Ampla, nos últimos meses, mobilizaram-se novamente para tentar a anulação da anistia no plenário do Congresso Nacional.

Esta mobilização foi reforçada há poucas semanas quando a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Uruguai por não esclarecer um dos mais famosos casos de desaparecidos políticos, o do sequestro de um bebê e a morte de sua mãe, a uruguaia María Claudia García Irureta de Gelman, nora do poeta argentino Juan Gelman.

Um dos principais homens da Frente Ampla, o deputado Felipe Michelini, sustenta que levar os militares envolvidos nos crimes ao banco dos réus está relacionado com o respeito dos “direitos da vida das pessoas, direitos humanos intransferíveis”. Ele é filho do senador Zelmar Michelini, assassinado em Buenos Aires em 1976 por um comando argentino-uruguaio.

DIVERGÊNCIAS – A votação foi agitada, especialmente pela dissidência de dois veteranos, figuras emblemáticas da esquerda. 

Um deles, o senador Aparício Saravia, foi o único parlamentar do Frente Amplo que não respaldou o projeto de lei. Saravia foi punido com a expulsão do Espaço 609, grupo partidário que integra a Frente Ampla.

O outro foi o senador Eleutério Fernández Huidobro – preso e torturado durante os treze anos da ditadura – que votou a favor da anulação da anistia. Mas, na sequência, renunciou à sua vaga no Senado.

Huidobro, o único integrante do trio fundador nos anos 60 do grupo guerrilheiro “Tupamaros”, indicou que havia votado a favor somente por “disciplina partidária”.

Mas, ressaltou, a aprovação da anulação da anistia violava o “sagrado o respeito à soberania popular”, em referência aos dois plebiscitos que nas últimas duas décadas e meia indicaram que a população respaldava a permanência da anistia aos militares.

O presidente José Mujica anunciou nesta quarta-feira que não vetará o projeto de anulação da anistia. Segundo ele, o Parlamento é “a máxima representação” dos uruguaios, e portanto, seguirá sua decisão. “Sou contra os vetos presidenciais, por princípios”, disse Mujica, que argumentou que seria “um excesso vetar uma decisão do Parlamento, goste ou não goste”.

 

Manifestação em Montevidéu a favor da anulação da Lei de Caducidade, denominação da Lei de Anistia aos militares de 1986. Foto da Wikipedia.

SALVOS, ATÉ AGORA – Ao contrário dos militares que participaram de crimes contra a Humanidade durante a Ditadura na Argentina (1976-83), a maioria dos oficiais envolvidos com torturas e assassinatos no Uruguai não foram julgados por seus crimes.

No entanto, os organismos de defesa dos Direitos Humanos conseguiram driblar a lei em diversos casos, e – desde 2006 – puderam levar ao banco dos réus alguns militares e civis, entre os quais os ex-presidentes Juan María Bordaberry e Gregorio Alvarez. Ambos foram colocados na prisão por envolvimento nos casos de uruguaios assassinados no exterior. Esses casos específicos não estavam previstos pela lei de anistia, que contemplava somente os crimes cometidos dentro do território uruguaio.

Também foram extraditados para a Argentina e o Chile militares uruguaios que participaram de crimes nesses países dentro do Plano Condor.

FATOS E NÚMEROS DA DITADURA URUGUAIA

- Ditadura, que começou com um presidente civil títere, respaldado pelos militares, durou de 1973 a 1985.

- Ditadura foi implantada apesar do fim da guerrilha dos tupamaros em 1972. Os próprios militares anunciaram que a guerrilha havia sido “liquidada” um ano antes do golpe.

- Estimativas indicam que militares uruguaios torturaram 4.700 civis. A imensa maioria das vítimas não tinham vínculos com a guerrilha.

- Dentro do Uruguai militares assassinaram 34 pessoas. Outras 8 suicidaram-se para evitar a continuação da tortura.

- Militares uruguaios assassinaram 106 civis de seu país no exterior, principalmente na Argentina.

- Entre os desaparecidos existem seis crianças, das quais três nasceram durante o cativeiro das mães.

- Estimativas conservadoras afirmam que por causa da Ditadura, 250 mil uruguaios partiram em exílio. Outras estimativas sustentam que o êxodo chegou a 400 mil exilados. Em 1973, ano do golpe, o Uruguai tinha 2,8 milhões de habitantes.

MODALIDADE URUGUAIA: Comparada com outras ditaduras da região – como a Argentina, onde foram torturados e assassinados 30 mil civis (algumas lideranças militares, ex-integrantes da ditadura admitem o assassinato de 8 mil), ou o Chile, com 3.197 pessoas mortas pelos militares (de 27 mil torturados) – o massacre no Uruguai foi numericamente menor.  

No entanto, a ditadura uruguaia foi caracterizada por um elevado número de pessoas torturadas em comparação com os assassinados (mais de 4.700 pessoas sofreram torturas), além de períodos mais prolongados de cativeiro.

A ditadura torturou até o final do regime, já que em abril de 1984, sete meses das eleições que levariam o país novamente à democracia, foi registrada a última morte, a de Vladimir Roslik, na mesa de torturas.

Mais de 10 mil uruguaios foram presos por motivos políticos sem julgamento ou condenação durante o regime militar.

Um dos casos de prisões prolongadas é o do próprio presidente do Uruguai, José Mujica, que ficou preso em duras condições durante 13 anos, grande parte do quais na solitária. Mujica saiu da prisão com graves problemas renais que ainda hoje afetam sua saúde.

 

Bordaberry, o ditador civil que virou neologismo político

DITADURA E NEOLOGISMO – A “BORDABERRIZAÇÃO”: O presidente civil do início da ditadura uruguaia, Juan María Bordaberry, entrou para a História por gerar a criação, nos anos 70, de um termo da ciência política, a “Bordaberrização”. A palavra refere-se a uma ditadura militar que pretende ter aparência civil e para isso deixa (ou coloca) um presidente civil no cargo formal da presidência. 

Bordaberry havia sido eleito nas urnas em 1972 pelo partido Colorado. Em 1973, as forças armadas deram um golpe mas mantiveram Bordaberry no posto. Ele foi removido do cargo em 1976, um ano antes do final formal de seu mandato, previsto para 1977.

A ditadura no Uruguai foi encerrada no dia 1 de março de 1985. Quatorze dias depois, terminava a ditadura militar no Brasil.

 

Mujica, ao sair da prisão, em 1985

DA GUERRILHA AO PODER PELAS URNAS – Nascido em 1935 no seio de uma família de classe média austera, Mujica aderiu na juventude ao conservador Partido Nacional (Blanco). Mas, nos anos 60 passaria para a esquerda e fundaria, junto com outros colegas de origens comunistas e anarquistas, o Movimento de Liberação Nacional-Tupamaros. Ali conheceu Lucia Topolanski, uma bela militante que transformou-se em senadora e sua esposa.

Em 1972 foi detido no meio de um confronto com as forças de segurança. Foi ferido com seis balas, várias das quais ainda estão dentro de seu corpo. Sua prisão foi prolongada. Um total de 14 anos, ao longo dos quais foi torturado físicamente com intensidade pelos militares no final do governo civil e ao longo da Ditadura.

Sua psique também foi alvo de terrorismo.

Mujica, nos dias de bom humor dos guardas, só podia ir ao banheiro uma vez a cada 24 horas. Mas, com um capuz na cabeça que o impedia ver e com as mãos algemadas. Nos dias de má vontade de seus carcereiros, Mujica não podia ir no banheiro. Sem alternativa, suas fezes e urina escorriam pelas pernas.

Seu colega de guerrilha, Eleuterio Fernández Huidobro, indicou que Mujica, em diversas ocasiões, quando os guardas passavam dias sem lhe dar água, precisou recorrer ao próprios fluídos corporais. “Talvez tenhamos pela primeira vez um presidente que teve que beber sua urina”, ilustrou.

Em 1985, com a volta da democracia, Mujica recuperou a liberdade. Adaptado aos novos tempos, deixou de pregar a luta armada e transformou o grupo de ex-guerrilheiros em um coeso partido político que integra a coalizão Frente Ampla. Eleito senador, posteriormente, no governo do socialista Tabaré Vázquez, foi designado ministro da Agricultura.

Ali, começou a planejar sua conquista da presidência. Para não assustar a classe média e alta, indicou – com uma metáfora bovina – que não pretendia mais combater a burguesia: “não quero mais esmagá-la. Não. Eu quero é ordenhar a burguesia!”.

Em novembro de 2009 foi eleito. Tomou posse em março do ano passado.

Atualmente é considerado pelos empresários uruguaios um presidente “market-friendly”.

Mujica, em foto atual.

     

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (27)| Comente!

 

Antes do massacre realizado em Realengo nesta quinta-feira, a Argentina havia ostentado a triste marca do principal chacina de estudantes protagonizado dentro de uma escola na América do Sul (fora de um contexto de repressão de ditaduras militares). O fato ocorreu em 2004, na então pacata cidade patagônica de Carmen de Patagones.

“Hoje será um lindo dia”. A frase foi pronunciada pelo costumeiramente taciturno Rafael Soldich, de 15 anos, ao entrar às 7:45 horas da manhã do dia 28 de setembro de 2004 na sala de aula da escola pública “Malvinas Argentinas”, no centro de Carmen de Patagones. No entanto, Rafael não se referia ao clima ensolarado da primavera naquela pacata cidade patagônica. A sarcástica frase foi o prelúdio de um massacre, já que após fechar os lábios, o adolescente desajeitado sacou uma pistola 9 milímetros da jaqueta e começou a disparar.

Desta forma, Rafael protagonizou o maior massacre realizado por um estudante secundarista dentro de um escola na Argentina.

Após matar três colegas – duas meninas e um menino, assassinados com certeiros tiros no estômago – trocou o pente de balas e iniciou uma nova rodada de disparos, ferindo cinco outros estudantes.

No entanto, quando o segundo pente ficou travado, Rafael, disposto a continuar a matança por qualquer meio, tirou de um bolso do colete militar que ostentava uma faca “estilo Rambo”. Mas, logo em seguida, sentou em um banquinho e começou a chorar. Minutos depois, em meio à choro das crianças, o barulho das sirenes das ambulâncias e aos gritos dos policiais, entregou-se às forças de segurança.

Horas depois, o pai de Rafael, um suboficial da Patrulha Marítima, de quem seu filho roubou a arma com a qual cometeu o massacre, estava emocionalmente perturbado. Aos prantos, pedia perdão pelos assassinatos. “Ele chorava sem parar”, relatou na época o prefeito da cidade, Ricardo Curetti.

Carmen de Patagones, na fronteira norte da desolada Patagônia, era uma cidade de 25 mil habitantes que dificilmente aparecia na mídia argentina.

Na ocasião, o ministro da Educação, Daniel Filmus, alertou: “é preciso evitar que as armas fiquem ao alcance das crianças. Existem 1,5 milhão de lares neste país nos quais existem armas, por diferentes motivos”.

Um dia após os assassinatos na Patagônia, Rick Cosmun, porta-voz da Columbine High Scholl, nos EUA, recomendou aos pais dos alunos da escola de Carmen de Patagones que era preciso voltar à normalidade. Segundo Cosmun, “é preciso retornar às aulas rapidamente, por mais doloroso que seja”.

A Columbine High Scholl ficou famosa anos atrás pelo massacre realizado por dois estudantes de tendências neonazistas. A dupla assassinou doze colegas e depois cometeu suicídio. O caso foi imortalizado no cinema pelo documentário “Bowling for Columbine”, do cineasta Michael Moore.

Anos depois, quando Rafael chegou à maioridade, a Justiça arquivou o caso e declarou a inimputabilidade do jovem. Depois de passar por uma série de centros psiquiátricos na periferia de Buenos Aires, Rafael desapareceu. Especulações indicam que assumiu uma nova identidade e perdeu-se no meio dos milhões de pessoas da metrópole portenha. Os parentes das vítimas em Carmen de Patagones continuam pedindo justiça.

O massacre em Carmen de Patagones foi definido pelos meios de comunicação argentinos como uma “matança à americana”, em alusão aos freqüentes assassinatos do gênero que ocorrem nos Estados Unidos.

Na época de Patagones a mídia argentina também recordou o caso de Javier Romero, um adolescente que no ano 2000 assassinou a tiros um colega da escola e feriu gravemente outro. Javier era o alvo de gozações dos estudantes, que o chamavam de “Pantriste” (Pão-triste), em referência a um personagem de desenhos animados que tinha uma permanente cara de fracassado. Ao disparar, Javier gritou: “agora vocês vão me respeitar!”.

ASSASSINO ERA ‘TÍMIDO’ E NÃO GOSTAVA DOS APELIDOS: Rafael Soldich, o autor da matança de Carmen de Patagones, era considerado um rapaz “tímido” por seus colegas e professores.

Carlos Diego, o delegado local, afirmou que nunca havia imaginado que no meio de sua carreira policial se depararia com um massacre de tal magnitude entre estudantes. Segundo o delegado, o jovem disparou 13 tiros, dos quais nove atingiram seus colegas.

Ele e os outros policiais também ficaram estarrecidos ao ver que a carteira de Rafael, na sala de aula, tinha as seguintes frases, escritas com sua esferográfica: “caso alguém encontre o sentido da vida, que o escreva aqui” e “a coisa mais sensata que a Humanidade pode fazer é o suicídio”.

Os colegas de Rafael e seus professores informaram que era um rapaz “introspectivo” e que nunca havia tido qualquer tipo de atitude violenta. Seus pais, afirmam, estavam no meio de um divórcio que o deprimia. Seus colegas costumavam gozá-lo, chamando-o de “tragalibros” (um “caxias”). Nos últimos tempos, o jovem vestia-se com roupas de cor preta. Segundo seus colegas, um dos estudantes, definido como “o gozador da turma”, colocou-lhe o apelidos de “dark”, fato que teria irritado Rafael.

Poucos meses antes do massacre Rafael fez um trabalho escolar, que, com o título “Terrorismo Escolar”, era baseado no documentário “Bowling in Columbine”. O rapaz conseguiu uma nota “9” por seu detalhado trabalho.

     

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (29)| Comente!

 

Teatro Solís, um marco na Ciudad Vieja de Montevidéu (foto de Ariel Palacios)

San Felipe y Santiago de Montevideo foi fundada em 1726 pelos espanhóis para proteger suas colônias do Rio da Prata dos portugueses. A meados do século XIX expandiu-se além das muralhas que durante longos anos a defendeu sucessivamente dos invasores lusitanos, dos ingleses, argentinos e brasileiros, além de servir de proteção nas inúmeras guerras civis que este país padeceu antes de transformar-se na pacata “Suíça latino-americana”. A cidade conseguiu crescer dentro de uma escala humana, sem perder a orgulhosa identidade.

Fascinada por ela, a Prêmio Nobel de 1945, a poetisa chilena Gabriela Mistral, resumiu o espírito de Montevidéu: “existe nas Américas um pequeno país – o Uruguai – que todos aceitaríamos por pátria, porque tem um quê de mãe perfeita. Os melhores homens das Américas, quando olham para ali, encontram pelo menos alguma das coisa que amam. A liberdade, o sentido da democracia, a cultura. Se, em algum momento, a América Latina se tornasse uma unidade, talvez fosse Montevidéu, a capital escolhida por todo nós, sem ciúmes ou vacilações”.

Meio século após as definição de Mistral, Montevidéu mantém o mesmo charme e clima cálido. O ambiente acolhedor é sentido principalmente na pequena Ciudad Vieja, a Cidade Velha, onde atualmente misturam-se moradores das mais diversas classes sociais – desde remanescentes da aristocracia uruguaia até trabalhadores do porto – junto com ministérios, os principais bancos do setor financeiro uruguaio e edifícios históricos. A área está sendo intensamente reciclada, o que permitiu-lhe que recuperasse o velho charme, após décadas de estancamento.

Das velhas muralhas, que formavam os limites da Ciudad Vieja, só restam a Porta da Cidadela, no ponto no qual a rua Sarandí encontra a Praça Independencia; além de pequenos bastiões na avenida beira-mar. O maior de todos é o que está na rambla Gran Bretaña, na frente do Hotel NH.

Ali também está a peculiar Catedral da Santíssima Trindade (www.uruguay.anglican.org, tel: 5982 – 915 4626), a única igreja anglicana da capital uruguaia, de estilo neo-clássico (com um interior com elementos vitorianos) onde nos domingos pode-se desfrutar de música religiosa (órgão e coro) de alta qualidade.

A poucos metros da porta da Cidadela está o teatro Solís (www.teatrosolis.org.uy, calle Buenos Aires, sem número; tel 5982 – 915 9770), fundado em 1856 com a Ópera Ernani, de Giusseppe Verdi). O teatro foi reformado durante vários anos e reinaugurado em 2005. O resultado foi impecável, e tornou o Solís novamente em uma escala das grandes companhias operísticas, de balé e orquestras sinfônicas, além de cantores populares latino-americanos e europeus.

Voltando para a rua Sarandí está o museu Torres García (www.torresgarcia.org.uy, calle Sarandí 683, tel: 5982 – 916 2663) que reúne parte da obra do pintor mais celebrado pelos uruguaios, Joquín Torres García (1874-1949), fundador do “universalismo construtivo”. Sua obra mais emblemática é um mapa da América invertida, no qual a América do Sul transforma-se na América do Norte.

Obra de Torres García, de 1932.

Caminhando pela Sarandí, na esquina com a rua Juan c. Gómez, está o Cabildo, concluído no começo do século XIX, que foi a sede do poder colonial espanhol em seus últimos anos de domínio.

Cabildo de Montevidéu (foto de Ariel Palacios)

Na frente está a praça da Constituição, onde realiza-se diariamente uma pequena feira de antigüidade e a Catedral.

La Pasiva, point dos chopps em Montevidéu.

Na outra esquina está “La Pasiva”, um tradicional bar e ponto de encontro, ideal para saborear uma cerveja no fim da tarde e os “frankfurters” (uma espécie de cachorro quente) com a mostarda à moda de La Pasiva (feita com um pouquinho de cerveja).

O miolo da Cidadela possui vários marcos arquitetônicos, entre eles o da praça Zabala, com o palácio Taranco, edifício usado pelo governo uruguaio para recepções oficiais.

Praça Zabala. Os vizinhos, todas as semanas, ensaiam o candombe com seus atabaques nessa praça que possui marcos do art-déco de Montevidéu (Foto de Ariel Palacios)

Nos arredores existem vários edifícios art-déco, estilo arquitetônico que em Montevidéu possui um grande número de exemplares. Entre os edifícios interessantes estão a Câmara de Vereadores, em estilo Tudor, nas esquinas das ruas 25 de Mayo e Juan C. Gómez; o Banco de la República; um antigo edifício de escritórios nas esquinas das ruas Cerrito e Bartolomé Mitre; o imponente Clube Uruguaio, na frente da praça Constituição, entre outros.

 

Arquiterura do centro de Montevidéu possui grande variedade de estilos.

Em uma das beiradas da Ciudad Vieja, na rambla 25 de Agosto, está “el Mercado del Puerto” (o Mercado do Porto), que durante mais de um século foi o mercado que vendia peixes, frutas e verduras. Feito em ferro e vidro (foi fabricado na Inglaterra em 1868), o lugar atualmente concentra restaurantes e bares, especializados em pratos de carne bovina. O ambiente é descontraído. Os cozinheiros e garçons fazem o possível para atrair os clientes a seus respectivos estabelecimentos.

Mercado del Puerto. Um lugar emblemático para um repasto carnívoro: morcillas, bifes, chorizos, entre outros produtos. Tudo o que a vaca propicia ao Homo Sapiens (menos o couro e os ossos) ali aparece em cima de um prato.  E do prato rapidamente desaparece para ir à ‘busarda’ (pança) dos clientes.

A higiene – em vários estabelecimentos – não é das melhores, mas comida é saborosa. Nos sábados o mercado é geralmente embalado por música típica, entre eles o “candombe”, um ritmo de origens afro.

As ruas Juncal e Bartolomé Mitre, que atravessam a Sarandí, transformaram-se no ponto de agito dos jovens montevideanos ao longo da última meia década. Os bares ficam entupidos até as 4:00 da madrugada.

Os dias mais agitados são a quinta (uma espécie de “pré-fim de semana”), sexta-feira e sábado. Os bares também são freqüentados por jovens estrangeiros que estudam no Uruguai ou que estão de férias na capital uruguaia. Apesar da multidão que circula na área, são raros os casos de bebedeira misturada com violência. O jovem uruguaio costuma desfrutar a diversão em paz.

O general Artigas, herói da independência uruguaia, está por todos os lados. Aqui, na frente do Banco Central, em pose plácida. Embaixo, na frente do palácio presidencial, na praça Independencia, em pose heróica, a cavalo. Mas, como bom uruguaio, embora a pose seja heróica, é sóbria. Isto é, ao contrário de outros heróis na região, o cavalo não está empinado e o general citado não ostenta o sabre em riste.

MONTEVIDÉU INSPIRA A NOSTALGIA

“Deteve-se no tempo” é uma expressão usada, de forma geral, com tom depreciativo. No entanto, quando os montevideanos ouvem essa expressão, em referência à capital do país, enchem-se de orgulho. “Sim, não é fantástico?”, exclamam a modo de resposta. A cidade manteve o ar dos anos 40, 50 e 60. Até os cartazes das lojas permanecem inalterados pela passagem dos anos. Os portenhos – que passam por ali a caminho do balneário de Punta del Este – costumam dizer que ir à Montevidéu é como entrar em uma máquina do tempo e retroceder quase meio século. As ruas são calmas, os engarrafamentos são uma raridade, embora seja uma cidade de 1,5 milhão de habitantes (metade dos uruguaios reside ali).

Não é uma cidade adequada para as pessoas que desfrutam a modernidade e o agito. Tampouco é cidade para o show off. Os vaidosos e ostensivos abstenham-se. Os uruguaios – que apreciam cores creme e cinzentas tanto na arquitetura como na vestimenta – costumam abominar a ostentação.

A sobriedade é um orgulho nacional. Por esse motivo, costumam olhar com desprezo as hordas de novos ricos e socialites brasileiras e argentinas que entopem Punta del Este no verão.

Montevidéu é para os calmos, que gostam de caminhar e da vida sem estresse. Os montevideanos, ao contrário dos portenhos, desfrutam o rio da Prata como se essa larga via fluvial fosse o próprio mar. Durante todo o dia, milhares de pessoas fazem footing, correm ou tomam sol nas avenidas beira-mar, chamadas “ramblas”. A própria arquitetura de Montevidéu inclui amplos janelões, tal como uma cidade à beira-mar.

Os bairros que mais desfrutam da condição praieira são o de Pocitos, Buceo e Carrasco. Pocitos, no século XIX era o bairro onde as empregadas lavavam as roupas. No século XX já era conhecido como a “Biarritz uruguaia”. Ainda hoje tem um clima de dolce vita que o torna incomparável. Os cafés sobre a orla fluvial embalam os happy hours.

Palácio Salvo, o irmão do portenho Pasaje Barolo. Para ver detalhes sobre o peculiar parente que está em B.Aires, clique aqui.

Longe do rio, no interior da cidade, todos os domingos, os montevideanos e turistas passeiam pela feira de Tristán Narvaja, onde encontram-se desde alimentos artesanais, quinquilharias, livros, antigüidades e até os atabaques utilizados no “candombe” uruguaio. O carnaval uruguaio, com características próprias, que o diferenciam parcialmente do brasileiro, é geralmente festejado no bairro de Palermo, quase ao lado do edifício da Secretaria do Mercosul, um antigo hotel transformado na sede burocrática do Cone Sul, sobre a rambla República Argentina. Ao lado está o parque Rodó, que entre suas peculiaridades, conta com a única estátua do filósofo chinês Confúcio na América Latina.

Entre os edifícios públicos de interesse para o turista está o Parlamento, no final da avenida Libertador Lavalleja; o antigo palácio presidencial, na praça Independencia, e, para os fanáticos do futebol, o estádio Centenário, cenário da primeira Copa do Mundo (1930). No extremo oeste da cidade, sob o morro de Montevidéu, está a fortaleza da cidade. No trajeto, desde o centro, até o sopé do morro, ao passar pelo bairro de La Teja, o turista se deparará com as instalações da estatal ANCAP, que além de produzir cimento, cuidar da distribuição de combustíveis, elabora o único uísque estatal da América do Sul, o Mac Pay.

Café Brasileiro: ponto de reunião de intelectuais. Eduardo Galeano é habitué.

BARES SURGIRAM JUNTO COM FUNDAÇÃO DE MONTEVIDÉU

No interior do Brasil um ditado popular indicava anos atrás que toda cidade, quando era fundada, logo no início tinha que ter, como condição sine qua non uma igreja, a Casa Pernambucanas e a zona de meretrício. Montevidéu, quando foi fundada, foi sui generis, pois contou imediatamente com uma fortaleza e um bar. O boteco, que não era da esquina, pois a cidade não contava com ruas formais, teve primeiro a denominação formal de “armazém de produtos gerais”.

O primeiro bar já desapareceu. Mas um bar quase contemporâneo dele, também do século XVIII é o “Almacén del Hacha” (Armazém do Machado), está na rua Buenos Aires 202.

O nome do estabelecimento recorda que naquele bar, em 1794 (tempos em que as discussões sobre mulheres ou um jogo de cartas eram argumentadas de forma drástica) um dos clientes, Domingo Gambini, enviou para o além um dos empregados, Bernardo Paniagua, utilizando um afiado machado.

Hoje em dia, o ambiente do bar é muito mais saudável.

Perto dali está o Café Bacacay (www.bacacay.com.uy, tel: 5982 – 916 6074) , na frente do Teatro Solís. O lugar é point de pessoas da área teatral e musical. Jornalistas e escritores também costumam reunir-se ali.

Outro ponto de reunião de intelectuais, especialmente da velha guarda, é o Café Brasilero (Ituzaingó, 1447), fundado em 1877 e redecorado em 1920. É o lugar ideal para estar sentado nas tradicionais cadeiras Thonet, bebericar um café, saborear a torta de ricota com passas, enquanto olha pela vidraça o tempo passar.

Perto dali, na esquina das ruas Misiones e 25 de Mayo está o “Las Misiones”. O bar vale mais a pena pelo lado de fora do que de dentro. Seu revestimento externo é ímpar, similar ao dos pubs da cidade inglesa de Manchester.

Outro bar de impreterível visita é o clássico “Fun Fun”, na rua Ciudadela 1229 (tel 5982 – 915 80 05). É moda há décadas ir nos fins de semana ali para beber grapa com limão. Ou, também provar a emblemática “uvita”, um adocicada bebida de composição misteriosa (sua fórmula é um segredo centenário), mas que os montevideanos bebem há gerações sem perguntar a estrutura do milagre. 

Oro del Rhin, emblemática confeitaria de Montevidéu. Uma das especialidade é a torta-árbol (bolo-árvore). Um festival de wagnerianas calorias.

WAGNERIANAS CALORIAS -  E entre as confeitarias está minha preferida, a “Oro del Rhin” (Ouro do Reno), o mesmo nome da ópera de Richard Wagner, teutônico compositor. Esta agradável confeitaria, cuja clientela é de todas as idades, embora predomine a terceira, está na rua Convención, 1413. Telefone: 902 2832.

Ideal para um chá no fim da tarde. E um chá ao meio-dia. E também o café da manhã…bom, confesso, é ideal para qualquer momento. Um paraíso de sanduíches, doces… um perigo para dilatar o ventre e outras partes adiposas do corpo. Uma verdadeira ópera wagneriana calórica. Ao sair dali vai parecer um integrante da ópera Der Fliegende Holländer (“O holandês voador”). Não o capitão Daland, protagonista desta emblemática obra lírica, mas sim o próprio bojudo navio…

E para encerrar, o cantor uruguaio Rubén Rada, cantando “Muriendo de plena”. Aqui. 

E nada a ver com o Uruguai, “La Folia”, de Arcangelo Corelli (1653-1713), aqui.

E, diria, melhor ainda, esta outra de Corelli, o “Concerto Grosso”. Aqui.

E outra coisa, já que falamos no Holandês Voador, a abertura, aqui.

 E, como hoje – 8 de dezembro – é o aniversário de Lucien Freud (nascido em 1922), um de meus pintores preferidos (e neto de Sigmund Freud), aqui seguem dois quadros deste genial artista germano-britânico.

Primeiro, seu auto-retrato.

 

E aqui, um detalhe da face.

 

E este outro ilustra um assunto frequente na obra de Lucien Freud: os cachorros. Um quadro que retrata uma estupenda modorra canino-humana.

 

MOMENTO SENTIMENTAL -  Nada a ver com Montevidéu, Freud e o rio da Prata, é o momento de parabenizar Londrina, minha cidade, por seu aniversário, hoje, dia 10 de dezembro. A cidade, desde sua fundação sempre aberta a pessoas de todo o Brasil e de todo o planeta, completa 76 anos.

O hino da cidade, uma apologia ao recebimento dos imigrantes, aqui.

Bom fim de semana a todos!

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 ...E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………..
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

………………………………………………………………………………………………………………………………. 

Comentários (36)| Comente!

blogmujicafusca

Mujica, o espartano presidente do Uruguai em seu veículo pessoal (e único patrimônio). No Uruguai, bem como em vários outros países de língua espanhola (não em todos), o fusca é chamado de ‘escarabajo’ (escaravelho). Nos países anglo-saxões, de ‘beetle’ (escaravelho). O termo ‘fusca’ é uma corruptela de ‘Volks’ (por Volkswagen).

blog1dedo3Um escangalhado fusca modelo 1987 com valor estimado em US$ 1.900 é o único patrimônio do presidente do Uruguai, José ‘Pepe’ Mujica, segundo indica sua declaração oficial de bens apresentada à Junta de Transparência e Ética Pública. O espartano ex-guerrilheiro tupamaro, ex-senador, ex-ministro e floricultor comprou o fusca em 2004. Até esse ano – durante duas décadas – ele utilizou uma lambreta para deslocar-se em Montevidéu.

O uso desse pequeno veículo causou surpresa em 1994, quando foi eleito deputado federal. Na ocasião, um guarda do estacionamento do Senado viu que um senhor de aspecto desalinhado, com  capacete, que descia da lambreta e aproximou-se dele e disse: “aqui não pode estacionar, não. ..por acaso o sr. pretende ficar aí muito tempo?”. Mujica (que havia estado 13 anos preso e torturado durante a ditadura militar), removeu o capacete (só então foi reconhecido pelo guarda) e disse em tom brincalhão: “bom, se os milicos não me tiram daqui, penso ficar pelo menos cinco anos…”. 

A chácara onde Mujica mora, em Rincón del Cerro, no lado oeste de Montevidéu, está no nome de sua esposa, a senadora Lucia Topolansky.

A senadora, também uma ex-guerrilheira, ressaltou que nem ela nem seu esposo possuem cartões de crédito nem contas bancárias: “somos antiquados”.

O salário que Mujica – um socialista de 75 anos definido de “amigável” com os mercados – recebe como presidente, de US$ 11.545, por decisão pessoal é destinada em sua maior parte a obras sociais. Essa é uma política em prática desde os anos 90 por parte dos parlamentares e ministros que integram a coalizão de governo Frente Ampla, de centro-esquerda. 

Neste caso, Mujica doa 70% de seu salário de presidente para o Plano de Moradias Populares.

Mujica, nas horas livres, sobe no trator e prepara a terra da chácara, onde planta flores e hortaliças, a principal fonte de rende

Mais sobre Mujica (mais especificamente sobre seu sucesso com o empresariado) aqui. E, sobre sua vitória eleitoral no ano passado, aqui.

blogmujicavespa2

Mujica e Lucia Topolansky, nos anos 90, na intrépida vespa

blog1vinheta78

SEXO ANAL: EM CASO DE VITÓRIA DA SELEÇÃO DE MARADONA

 blogsexoanalwarren_cup2

Promessa de manager da seleção acrescenta-se à de Maradona, que jura que correrá nu ao redor do Obelisco.  Na ilustração, a famosa Taça Warren, uma peça romana de prata do primeiro século desta era, que ilustra a cópula anal. A peça foi encontrada pelos arquélogos perto de Bittir, Israel. Está no museu britânico.

blog1dedo2b Do outro lado do rio da Prata, enquanto isso, o assunto não são as declarações de bens presidenciais, mas sim as declarações de Carlos Salvador Bilardo, manager da seleção argentina, que prometeu publicamente que, em caso de vitória de seu país na Copa do Mundo na África do Sul, está disposto a ter sexo anal.

Bilardo, o segundo homem na hierarquia da seleção argentina depois do técnico Diego Armando Maradona, indicou que aceitará que o jogador protagonista do gol da hipotética vitória argentina seja o encarregado de praticar-lhe sexo anal. As declarações de Bilardo foram realizadas no canal de TV “Telefé” ao apresentador Matías Martín, no programa “Vértigo” (Vertigem).

“Se a Argentina for campeão, não me importa”, explicou Bilardo, para ressaltar que considera mais importante a obtenção da Copa do que a oferta de seu esfíncter anal.

Perante o olhar estupefato de Martín, que o entrevistava, Bilardo – médico de profissão e ex-técnico da seleção argentina de 1986 e 1990 – aprofundou sua explicação indicando que estava consciente que o sexo anal poderia implicar em dor. “Mas como o senhor sabe disso?”, inquiriu Martín. “Sei porque fazíamos retoscopias…e não sabe como os jogadores gritavam!”, ilustrou Bilardo, impassível.

POSIÇÕES APTAS PARA A COPA - Bilardo também recomendou aos jogadores argentinos que, na hora de manter relações sexuais, optem na posição de baixo. “Que eles deixem que as moças fiquem em cima. Elas são jovens, e portanto, que elas façam o trabalho”, ressaltou, para justificar a coreografia sexual que considera mais adequada para os tempos de Copa do Mundo.

Há duas semanas o técnico da seleção, Diego Armando Maradona, prometeu que em caso de conquistar o troféu da FIFA retirará sua vestimenta e correrá “en bolas” (expressão da gíria hispano-americana para referir-se à nudez) ao redor do Obelisco, o monumento-símbolo da cidade de Buenos Aires.

A série de promessas também expandiu-se mais além dos envolvidos de forma direta com o futebol. Esse foi o caso de uma das principais sex symbols do país, a modelo e playmate Luciana Salazar, que comprometeu-se a posar totalmente nua na frente do Obelisco em caso de vitória da Argentina na África do Sul.

blogbilardo1986-b

Bilardo (o do sexo anal), com D.A.Maradona (o do sexo oral), em 1986, durante a Copa do México

SEXO ORAL – Bilardo fez referências ao sexo anal nesta semana. Mas, no ano passado, foi a vez do técnico DA Maradona de gerar polêmica com sua proposta de sexo oral aos jornalistas que cobriam o decisivo jogo da seleção argentina contra o Uruguai.

“Podem me chupar…e continuar chupando”, disse Maradona em frase direcionada aos jornalistas argentinos, que nos últimos meses desferiram intensas críticas contra a forma como Maradona treinava os “muchachos” da seleção.

Depois, reiterou o convite: “que a mamem” (“mamar” é a expressão usada em alguns países hispano-falantes, entre eles a Argentina, para designar a prática do sexo oral).

Em menos de uma hora, Maradona repetiu três vezes sua proposta de fellatio com os jornalistas, aos quais também chamou de “filhos da p…”.

De quebra, ao ser consultado por um jornalista de Buenos Aires, Maradona, antes de responder a pergunta, observou com outra referência sexual: “você tem uma dentro”.

blogfellatiomoche2

Representação de fellatio em vaso de cerâmica da cultura Moche (civilização do norte peruano que floresceu entre o ano 100 a.C e o ano 800 d.C). Peça arqueológica exibida no Museu Larco, em Lima. A obra é do ano 300 de nossa era.
Fellatio provém do latim fellātus, particípio passado do verbo ‘fellāre’, isto é, ’sugar’.

E embaixo, outra escultura moche, desta vez, representando o sexo anal

blogsexoanalmoche

Para mais detalhes sobre Maradona e o fellatio, aqui.

XXXXXXvinhetas7

blog1dedo2bCLARÍN COM LOOK RENOVADO – O jornal Clarín renovou na semana passada seu look no site na web. Com a reforma, o www.clarin.com  coloca (ao contrário da versão anterior) as notícias em ordem de importância (antes, pesava mais a ordem cronológica, fato que fazia que os leitores não vissem logo de cara as notícias que importavam).

Os blogs também foram renovados, com um look mais organizado.

Entre os meus preferidos está o de Juan Pablo Meneses. É imperdível a série que fez no ano passado sobre as vacas (isso mesmo, o emblemático quadrúpede mamífero que tantas alegrias propicia para a economia e a gastronomia local). O link para seu blog, aqui.

Outro blog, de tons mais literários, é o do jornalista Miguel Wiñazki, aqui (e é o pai de Nicolás Wiñazki, um jovem jornalista da área política, dono de impecável texto, que por enquanto – infelizmente – não possui um blog no jornal):

Em matéria de sites, ainda prefiro o do “La Nación”, que considero melhor organizado ( www.lanacion.com.ar ).

E está o site do jornal “Infobae” (www.infobae.com ), que embora cultive um peculiar sensacionalismo (e tem um mix de tom de direita, ao mesmo tempo que respalda enfaticamente o governo da presidente Cristina Kirchner), possui o mérito de ser o mais veloz de todos para atualizar as notícias.

Outros sites recomendados sobre notícias da Argentina, Uruguai e Paraguai estão do lado direito deste blog, na lista de links.

E aqui, lhes deixo os links de uns geniais cartunistas argentinos:

Niño Rodríguez: http://www.elninorodriguez.com/

Lucas Varela: http://lucasvarela.blogspot.com/

Liniers: http://www.porliniers.com/

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

blog1vinhetalendonewsstand3 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão 

Gustavo Chacra (Nova York): http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/ 
Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/ 
Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trevisan/ 
Adriana Carranca (Pelo Mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carranca/ 

……………………………………………………………………………………………………
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários.
Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico
).

……………………………………………………………………………………………….. 

Comentários (38)| Comente!

mujicajovenpresidente4

Mujica, nos tempos em que era um guerrilheiro (na foto da esquerda) e quando havia sido preso e torturado pela Ditadura Militar uruguaia (na foto da direita). Hoje é presidente eleito da República e tomará posse dia 1 de março. Há 40 anos se esgueirava pelos esgotos de Montevidéu para escapar das forças armadas. Nesta quarta-feira, reuniu-se com a nata do empresariado uruguaio e argentino, além de empresários americanos, europeus, asiáticos e brasileiros, no Hotel Conrad, o lugar VIP da elitista Punta del Este.
Aliás, V.I.P., isto é, o acrônimo de Very Important Person, na verdade tem sua origem não nos EUA ou Inglaterra, mas na Rússia dos tzares Romanov, onde existiam salões para os ВИП, isto é, os весьма именитая персона (“vesima imenitaya persona”), isto é, as pessoas muito importantes. A expressão ficou comum no ocidente a partir dos anos 40.

maomenorparabaixo2
mujicamicrofone

handrts “Pode vir para cá investir. Aqui não vão te desapropriar nem te carregarão as costas com impostos, nem confiscarão teu dinheiro”. Essa promessa, ouvida por 1.500 empresários no V.I.P. Hotel Conrad, na elitista Punta del Este, Uruguai, não foi pronunciada por um expoente do neoliberalismo, mas sim, pelo ex-guerrilheiro tupamaro e floricultor José Mujica, presidente eleito do Uruguai, de esquerda, que tomará posse no dia 1 de março.

O almoço de Mujica com os empresários realizado nesta quarta-feira no Conrad teria sido uma imagem considerada “delirante” há exatamente 40 anos. Na época Mujica vivia na clandestinidade, assaltando bancos para financiar a guerrilha do Movimento Tupamaros, que pretendia tomar o poder para implantar uma sociedade socialista.
No entanto, quatro décadas depois do período em que Mujica se esgueirava pelos esgotos de Montevidéu para fugir das tropas do Exército que o caçavam, o ex-guerrilheiro acena com “segurança das regras do jogo”, elemento que tornou-se escasso na região.
De quebra, a reunião foi em Punta del Este, balneário que há quatro décadas foi alvo da “Operação Verão Quente”, um dos diversos ataques da guerrilha tupamara.

Além de empresários uruguaios ali estavam americanos, europeus, brasileiros e um contingente de 400 empresários argentinos, interessados no Uruguai, país que tornou-se um dos pontos mais “previsíveis” da região ao longo dos últimos anos.

mandrake
Mujica afirma que não recorrerá a soluções ‘mágicas’, tal como o mago Mandrake, que era hábil em criar ilusões com a hipnose. Na ilustração, Mandrake faz uma mocinha levitar. “Mandrake the Magician”, a tirinha, foi criada por Lee Falk (autor de ‘The Phantom’) y Phil Davis en 1934.

MANDRAKE E A GALINHA
“Estamos pedindo que apostem no Uruguai. Não estamos dizendo isso de forma desinteressada. Ao contrário! Estamos profundamente interessados! Não somos o Mandrake…não somos ricos”, ilustrou Mujica, de 74 anos, com sua folclórica ironia.

“Quanto mais aumentam os investimentos, mais aumenta a arrecadação tributária para os grandes investimentos sociais que queremos fazer”. Segundo Mujica, aumentar os impostos sobre a riqueza seria um ato kamikaze: “se fizermos isso, estamos fritos, pois estaríamos matando a galinha dos ovos de ouro”.

A galinha já está colocando ovos há um certo tempo no Uruguai, país onde o investimento externo cresceu de apenas US$ 200 milhões que foram colocados no país no ano 2000 para US$ 2 bilhões que desembarcaram em 2008.

No próprio dia da posse Mujica se reunirá com diretores da Tata Motors, o gigante automotivo da Índia, empresa que quer transformar o Uruguai em uma plataforma para seus produtos em toda a região.

kirchnersorri

Mujica faz questão de diferenciar-se de Kirchner e Chávez, aos quais trata como amigos. Mas, amigos, amigos, negócios à parte

chaveztanque

O discurso de Mujica – que planeja juntar prosperidade econômica com equidade social – foi interpretado como uma diferenciação expressiva de vários de seus colegas da região.
O trecho “Aqui não vão te desapropriar” foi encarado como uma clara alusão ao presidente Hugo Chávez da Venezuela, país onde atualmente investir constitui em um elevado risco.
Outro trecho, “nem te carregarão as costas com impostos” foi entendida como uma referência ao governo do casal Kirchner, na Argentina, que nos últimos anos aplicaram inéditos tributos para as exportações de diversos setores, especialmente o agrícola.

“Senhores empresários, estamos pedindo a vocês que apostem no Uruguai e joguem junto com o Uruguai. Não podemos gerar riquezas com decisões parlamentares. A riqueza é filha do circuito do trabalho”, disse o presidente eleito. Segundo Mujica, eleito no segundo turno em novembro, a característica mais negativa do Uruguai foi “a baixíssima taxa de investimentos”.

O presidente eleito também afirmou que “as regras serão claras e não vamos confiscar seu dinheiro”. Além disso, sustentou que investir no Uruguai “não é uma aposta no escuro”. E de quebra, afirmou que é o país onde “é mais fácil conviver”. E concluiu com um convite: “venham investir…mas também venham viver aqui!”

mujica
Mujica, de todos os presidentes sul-americanos no poder, foi o único selvagemente torturado e preso por longo período de tempo (possui sequelas no organismo decorrentes daquela época). Ele ficou na prisão durante 13 anos seguidos (e outro ano adicional antes dessa fase, mas conseguiu fugir para ficar uns meses em liberdade antes de ser novamente preso). É também o único presidente que participou de uma guerrilha de forma ativa.

Mujica esperava reunir não mais de 500 empresários no almoço. Mas, nas últimas semanas, os pedidos de lugares extras continuaram aparecendo em grande quantidade. Finalmente, 1.500 empresários – interessados em ver Mujica de perto e ouvir seus projetos – compareceram ao repasto no Conrad.

Os mais de 400 empresários argentinos que participavam do evento (quase um terço do total) ovacionaram Mujica no final do discurso.

O empresário italiano Cristiano Ratazzi, presidente da Fiat Argentina, indicou que o Uruguai tem o desejo de “ter uma continuidade institucional e constitucional. Seguir uma linha, ao contrário da Argentina, que a cada dez anos joga fora tudo e vem alguém novo dizendo que tudo o que foi feito atrás foi um desastre, que eles são os criadores de um novo país, e que nessa função podem passar por cima da Constituição e dos contratos”.

O encontro ostentou o nome de “Os empresários no Projeto Nacional: desenvolvimento e redução da pobreza”.

Após o discurso, Mujica recebeu 150 propostas de investimento por parte dos empresários que participaram do almoço.

Além de Mujica, respaldando o evento também estiveram os líderes dos partidos da oposição, entre eles os ex-presidente Julio María Sanguinetti (do Partido Colorado) e Luis Alberto Lacalle (candidato derrotado na eleição contra Mujica, representante do Partido Nacional, também conhecido como “Blanco”).

mujicatabare
Mujica e o presidente Tabaré Vázquez, que lhe passará o poder no dia 1 de março.

PRAGMÁTICO E VEGETARIANO IDEOLÓGICO
“Pragmático, mas sem perder o idealismo”, tal como ele me disse, definindo a si próprio, durante a campanha eleitoral no ano passado, Mujica comandará um governo composto por vários ex-guerrilheiros e socialistas. No entanto, seus sexagenários e septuagenários colegas, boa parte dos quais padeceram 13 anos de cárcere em condições infra-humanas e sob constantes torturas, consideram que é possível conviver com os mercados.

“Vegetariano ideológico” foi outra expressão usada por Mujica para explicar suas atuais posturas.

Nos últimos cinco anos, durante a administração do presidente Tabaré Vázquez, um socialista diet e médico oncologista, o PIB uruguaio cresceu 40% acumulado e a pobreza caiu de 32% para 22%. Os investimentos externos cresceram 68%.

Mujica foi ministro da Agropecuária durante o governo Vázquez. Outro ministro de Vázquez foi o vice de Mujica, o economista Danilo Astori, um socialista “market friendly”.

Além de ambicionar atrair mais os capitais estrangeiros, Mujica pretende manter o sigilo bancário (o grande sex appeal dos bancos do Uruguai) e fazer acordos comerciais com os Estados Unidos e a China.
De olho no gigante asiático, Mujica escolheu seu principal especialista no assunto, o embaixador do Uruguai em Pequim, Luis Almagro, e o transformou em seu chanceler.

vinhetas6flores

vinhetamarca23sCACHORRO E COLEIRA
Mujica recorre aos ditados populares uruguaios e afirma que seu futuro governo manterá o mesmo clima aberto aos investidores e a previsibilidade na política econômica que a administração Vázquez.

“Será o mesmo cachorro com a mesma coleira”, afirma Mujica, citando o provérbio popular do interior do Uruguai, para ilustrar que seu governo continuará com a política econômica de Vázquez.

Para demonstrar que o provérbio será levado à sério, Mujica também ressalta que seu vice, o economista Danilo Astori, é a pessoa que se ocupará das questões econômicas. Astori, em quatro dos cinco anos de governo Vázquez, foi o ministro da Economia. Além disso, Astori definiu a nova equipe econômica, que, em sua grande maioria está composta por moderados economistas de sua extrema confiança.

vinhetamarfcosEX-GUERRILHEIRO E A PRINCESA
O repasto de Mujica com os empresários foi regado com vinho e champagne fornecido gratuitamente pela mais famosa aristocrata que reside no Uruguai, a princesa Laetita D’Arenberg, dona da Lapataia, fábrica que produz um supimpa doce de leite (aos visitantes do Uruguai sempre recomendo que experimentem o doce de leite Lapataia ou o Conaprole. Neste caso, o ‘Conaprole com creme’, dignos de ilustrar o verbete ‘Gula’ em uma enciclopédia).

darenberg
Princesa da aristocracia europeia radicada no Uruguai foi uma das principais entusiastas da reunião de Mujica com empresários. D’Arenberg é a dona da Lapataia, uma das mais prestigiadas marcas de ‘dulce de leche’ no Cone Sul

vinheta5ss

………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (49)| Comente!

cordero
Longe de ser um pacato ‘Ovis aries’, Manuel Cordero era uma das estrelas das sessões de tortura de Automotores Orletti

Manuel Cordero Piacentini, coronel da reserva do Exército do Uruguai, extraditado pelo Brasil no sábado para a Argentina, vai na contra-mão de seu ovino sobrenome. Longe de ser bisonho e manso, o militar uruguaio era uma exímio torturador e uma das principais figuras operacionais da Operação Cóndor, o sistema de coordenação entre as ditaduras do Cone Sul na segunda metade dos anos 70 e início dos 80.

Agente de inteligência em Montevidéu,onde operou nos centros de torturas conhecidos pelos ilustrativos nomes de “Infierno Chico” (Inferno Pequeno) e “Infierno Grande” (Inferno Grande), o oficial instalou-se em Buenos Aires em 1976 para encarregar-se da caça a uruguaios em território argentino.

Cordero torturava sem máscaras e sem cobrir os olhos dos torturados com um capuz. Ele pronunciava claramente seu próprio nome para intimidar as vítimas.

No Uruguai, entre várias denúncias, foi acusado de ter estuprado uma prisioneira na frente de outro prisioneiro para extorqui-los por dinheiro.

Na Argentina o oficial é acusado de pelo menos ter torturado 32 civis (27 uruguaios e cinco argentinos), e de ter sequestrado onze pessoas, cujos corpos permanecem desaparecidos até hoje, além de ter sequestrado um bebê.

Entre os mortos com cadáveres localizados está o senador uruguaio Zelmar Michelini, brutalmente assassinado em 1976 em Buenos Aires. O corpo do parlamentar, que despontava como líder da oposição ao regime militar do Uruguai, foi encontrado dentro de um carro à beira do rio da Prata.

orletti
Edifício onde estava o “Automotores Orletti”

ORLETTI, CENTRO DO CÓNDOR
O epicentro destes crimes foi o “Automotores Orletti”, um centro clandestino de detenção e tortura da ditadura militar argentina (1976-83) localizado no bairro portenho de Floresta. Ali, Cordero foi um dos principais protagonistas. Segundo depoimentos de sobreviventes, Cordero torturava com especial sanha seus compatriotas.

Mais de 300 pessoas sequestradas foram levadas a esse centro. A maioria delas foi torturada e assassinada. Calcula-se que menos de 40 pessoas sobreviveram.

Ex-oficina mecânica, o “Automotores Orletti”, foi o principal centro da Operação Cóndor, denominação do plano de coordenação dos regimes militares do Cone Sul nos anos 70 e início dos 80. Ali foram presos, torturados e assassinados civis uruguaios, chilenos, bolivianos, paraguaios, além de argentinos.

Dois diplomáticos cubanos, apesar de sua imunidade, também foram torturados ali. O interrogatório – segundo declarou anos atrás o general chileno Juan Manuel Contreras, um dos braços direitos do ditador Augusto Pinochet – teria contado com a presença de homens da CIA.

Os gritos dos torturados eram abafados pela passagem constante de trens na linha férrea que passava ao lado da oficina mecânica e pela música altíssima que os torturadores colocavam na hora das sessões. O sino da escola vizinha, a Mauro Fernández, junto com o barulho das crianças brincando no recreio e na saída das aulas colaboravam para que os gritos dos prisioneiros não fossem ouvidos na rua.

videlapino
Os generais e ditadores Jorge Rafael Videla e Augusto Ramón Pinochet, que junto com outros colegas da região criaram a Operação Cóndor

CHASSIS E TORTURADOS
O centro clandestino possuía apenas dois andares. Mas, concentrava uma lotação de 30 prisioneiros (que ia sendo “renovada” com os assassinatos e transferências para outros centros) que contavam com um único vaso sanitário.

Nas diferentes áreas do centro acumulavam-se chassis de automóveis, além de carros roubados pelo grupo de militares e policiais do Automotores Orletti.

cordero23
Cordero, fugido do Uruguai, detido no Brasil, agora espera comparecer perante o juiz Oyarbide em Buenos Aires. Cordero teve a chance de um tribunal, algo que seus prisioneiros não tiveram.

No primeiro andar estava a área de torturas onde os militares haviam colocado um grande tanque d’água com uma roldana acima de onde eram pendurados os prisioneiros para a sessão de “submarino molhado” (afundar uma pessoa em um tanque de água, ocasionalmente também cheio de excrementos humanos).

ABRE-TE SÉSAMO
O comandante formal do centro era o general Otto Paladino. Mas, o chefe direto era o argentino Aníbal Gordon, um paramilitar que havia sido um dos homens de confiança de José López Rega, conhecido como “El Brujo” (O Bruxo), eminência parda da ex-presidente Isabelita Perón (1974-76), que havia criado a Tríplice A, organização dedicada a atentados e assassinatos de pessoas consideradas “esquerdistas” ou “subversivas”. A Tríplice A também sequestrava empresários para conseguir resgates que eram divididos entre os participantes.

A maior parte dos homens de Gordon eram integrantes da Side, o serviço secreto argentino.

Para entrar nas instalações de “Automotores Orletti” os militares e policiais aproximavam-se da persiana metálica da frente do lugar e pronunciavam a contrassenha: “Operação Sésamo”.

A expressão, uma irônica alusão ao “Abre-te Sésamo” da fábula de Ali Babá e os 40 ladrões, tinha motivos de ser, já que os integrantes do centro clandestino, além de sequestrar e torturar civis, também dedicavam-se a roubar os bens dos desaparecidos.

Dinheiro, joias, móveis e obras de arte eram levados até o Automotores Orletti como fruto do saque das casas dos desaparecidos. O butim era reunido no centro clandestino e era repartido entre os participantes. Com ironia, eles chamavam o resultado do saque de “Morgan”, em referência ao pirata Henry Morgan, que no século XVII assolou o Caribe.

FARDOS
Entre os colegas argentinos do uruguaio Cordero estava Luis Porcio, chefe de segurança da Side, conhecido pelo apelido de “Enfardador”, já que apreciava amarrar cadáveres com arames, como se fossem fardos, para posteriormente queimá-los.
Outro integrante desse entourage era Osvaldo “Paqui” Forese. “Paqui” era a abreviação de “Paquiderme”, já que Forese costumava derrubar sozinho as portas das casas dos civis que sequestravam. Em diversas ocasiões, “Paqui” divertia-se a submeter a pessoa detida a um “submarino” na banheira de sua própria casa.

miche
Senador Michelini: segundo Justiça argentina, uma das vítimas de Cordero

CURRICULUM VITAE
Após o fim da ditadura uruguaia, em 1985, Cordero ficou em seu país, onde foi beneficiado pela lei de anistia aos ex-integrantes do regime militar. No entanto, em 2003, Cordero fez apologia da tortura em declarações à mídia em Montevidéu, causando intensa polêmica. Procurado pela Justiça uruguaia, o militar refugiou-se no Brasil, na cidade de Santana do Livramento.

Em 2006 a Justiça argentina solicitou ao Brasil sua extradição, para julgamento em Buenos Aires, pelos crimes cometidos durante a ditadura no país.

De lá para cá, em diversas ocasiões, Cordero alegou problemas de saúde, como forma de tentar permanecer no Brasil e evitar a extradição pedida pela Argentina.

Cordero passou por uma cirurgia cardiovascular há poucos anos. No entanto, foi flagrado meses atrás pelo Canal 12, a TV uruguaia, fumando e bebendo em bares de Santana do Livramento, violando sua prisão domiciliar.

Finalmente, após várias idas e vindas, as autoridades brasileiras enviaram Cordero à fronteira com a Argentina.

No sábado, Cordero, de 71 anos, que estava internado em Santana do Livramento por problemas cardíacos, foi levado até Uruguaiana. Nessa cidade na fronteira com a Argentina passou por um novo exame médico.

Depois, foi levado em uma ambulância até o meio da ponte internacional que liga Uruguaiana com a argentina Paso de los Libres. Ali, foi entregue às autoridades argentinas, que o levaram em outra ambulância.

As autoridades argentinas comprometeram-se em continuar o tratamento cardíaco de Cordero em Buenos Aires. Este compromisso foi crucial para a permissão para a transferência de Cordeiro de Santana do Livramento para Argentina.

MUDO NO TRIBUNAL
Nesta terça-feira, já em Buenos Aires, Cordero recusou-se a responder ao inquérito do juiz federal argentino Norberto Oyarbide nos tribunais do bairro de Retiro em Buenos Aires.
O militar foi levado ao banco dos réus sob a acusação de sequestro e desaparecimento de onze pessoas em Buenos Aires entre abril e setembro de 1976.

Uma das pessoas desaparecidas é Claudia Irureta de Gelman, nora de um dos mais importantes poetas uruguaios, Juan Gelman.

A Justiça argentina o considera responsável pela tortura de 32 civis durante a ditadura argentina e o sequestro e desaparecimento de outras onze pessoas, além do sequestro de um bebê.

No entanto, em Buenos Aires ele somente será julgado pelo sequestro do grupo de onze pessoas. Essa foi a condição do Brasil para extraditar o ex-torturador, pois o sequestro trata-se de um delito que não prescreve (já que a pessoa sequestrada ainda não reapareceu).

Em Buenos Aires Cordero passou por uma série de exames médicos, já que o militar padece problemas cardíacos.

Segundo fontes do tribunal comandado pelo juiz Oyarbide, Cordero ficará temporariamente internado no Hospital Militar, no portenho bairro de Palermo, que possui instalações especializadas no tratamento de casos cardíacos graves.

Posteriormente, o oficial uruguaio seria transferido para o quartel militar de Campo de Mayo, na província de Buenos Aires, que também conta com instalações hospitalares de alto nível. Ali estará na companhia de outro preso famoso, o ex-ditador e general Jorge Rafael Videla, um dos criadores da “Operação Condor”.

Dependendo das circunstâncias de saúde de Cordero no futuro, o oficial poderia ser removido para a penitenciária de Marcos Paz.

A expectativa, segundo as fontes do tribunal, é que o julgamento oral e público de Cordero comece ainda neste ano.

corederlobo
Oficial extraditado estava mais para lobo do que para o cordeiro. Gravura do século XIX das fábulas de Jean de La Fontaine

manos
Atenção!
RT @estadao Estreamos agora a nova home de Twitters do @estadao. Arraste, solte. Deixe como você quiser: http://migre.me/hzZk

manocimas

………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (33)| Comente!

Arquivo

..Revistas satíricas da Argentina

Blogs do Estadão