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Ariel Palacios

 

A Câmara de Deputados do Uruguai rejeitou na madrugada desta sexta-feira a anulação da Lei de Caducidade Punitiva do Estado, denominação da lei de anistia aplicada aos ex-integrantes da ditadura militar (1973-85) que foram responsáveis por torturas, sequestros e assassinatos de civis.

Os debates foram intensos: ao longo de 14 horas, 50 do total de 99 deputados pronunciaram discursos defendendo e atacando a anulação do perdão aos militares.

O resultado foi um empate. 49 a 49 votos,

Isso implicou na rejeição automática do projeto de lei.

Do lado de fora do edifício do Parlamento, entre 3 mil e 4 mil pessoas acotovelavam-se para esperar o resultado. Muitas delas estavam em vigília desde a véspera. Minutos após o encerramento da sessão, o clima era de frustração nas ruas ao redor do Parlamento.

A Frente Ampla, a coalizão de centro-esquerda do governo do presidente José Mujica, contava com uma maioria ajustada para vencer a votação, já que possui 50 do total de 99 deputados.

No entanto, foi um parlamentar do próprio governo, Victor Semproni – líder sindical e guerrilheiro nos anos 70, que foi torturado pelos militares – que permitiu o empate.

Durante os debates Semproni argumentou que a anulação da anistia “pisoteava os dois plebiscitos (de 1989 e 2009)” que confirmaram a aplicação do perdão aos ex-integrantes da ditadura. Semproni havia anunciado na semana passada que votaria contra a anulação do perdão.

O empate implica na rejeição do projeto de lei. Mas, pelo fato de ter sido previamente aprovado pelo Senado em abril, o projeto terá que ser submetido à Assembléia Geral (a reunião extraordinária da Câmara com o Senado).

No entanto, a Frente Ampla não teria condições de aprová-lo, já que isso requer dois terços dos votos (87 de um total de 130), proporção que não possui.

PLEBISCITOS – O foco dos debates que agitaram o âmbito político do país foram a relevância (ou não) e a legitimidade (ou não, de acordo com alguns setores) dos dois plebiscitos realizados em duas décadas que confirmaram a anistia.

No primeiro plebiscito, em 1989, o respaldo à lei de anistia, aprovada pelo Parlamento em 1986, contou com 57% dos votos. No segundo, em 2009, 53% dos uruguaios votaram a favor da permanência do perdão aos ex-integrantes da ditadura.

OBJETIVO - A iniciativa de anulação do perdão aos militares – com o objetivo de permitir a investigação dos crimes da ditadura e o julgamento dos responsáveis – foi da autoria de grande parte da Frente Ampla.

POLÊMICAS - Mas, a idéia suscitou polêmicas dentro da coalizão desde o começo, já que diversos integrantes – entre eles o presidente José Mujica (ele próprio, um ex-guerrilheiro tupamaro torturado pela ditadura) – argumentavam que a Frente Ampla não podia ignorar os resultados de dois plebiscitos realizados nas últimas duas décadas.

Mujica deixou claro que não respaldava a iniciativa e que era preciso “olhar para o futuro”. Na quarta-feira, véspera da votação na Câmara, durante as celebrações do dia do Exército, Mujica afirmou que “existem mães que choram pelos ossos de seus filhos, muita dor e injustiça. Mas, não podemos transferir às novas gerações de militares as frustrações de nossa geração”.

Dias antes, o ex-guerrilheiro tupamaro havia alertado para o risco de que a Frente Ampla, com sua insistência na aprovação da anulação do perdão, “fabrique uma esplêndida espada para que a oposição nos decapite”.

No entanto, Mujica também declarou que não vetaria a anulação, caso tivesse sido aprovada.

A polêmica começou a ficar intensa em abril, quando o Senado aprovou o fim do perdão por 17 votos contra 16.

Na ocasião surgiram as primeiras dissidências quando o senador frenteamplista Aparício Saravia não respaldou o projeto, enquanto que o ex-líder guerrilheiro e senador Eleutério Fernández Huidobro, torturado durante o regime militar, votou a favor da anulação por fidelidade partidária. No entanto, minutos depois renunciou à sua vaga. “Esta anulação é um erro garrafal da esquerda”, disse Huidobro.

Nos últimos anos, diversos setores políticos alegaram que a lei de anistia de 1986 era “ambígua”, pois impedia o julgamento dos militares, mas não a investigação sobre seus crimes.

O deputado Felipe Michelini, da Frente Ampla, filho do senador Zelmar Michelini, assassinado em Buenos Aires em 1976 por um comando argentino-uruguaio que agia dentro do Plano Condor, afirmou que “é preciso eliminar essa lei definitivamente do ordenamento jurídico uruguaio”. Michelini argumenta que anulação da anistia implica no “fim da impunidade”. Segundo ele, levar os militares envolvidos nos crimes ao banco dos réus está relacionado com o respeito dos “direitos da vida das pessoas, direitos humanos intransferíveis”.

 Bordaberry, em 1973. O ditador civil, de direita, é o que está na extrema-esquerda da foto.

DADOS, NÚMEROS E NEOLOGISMOS DA DITADURA URUGUAIA

Torturados – A ditadura torturou 4.700 civis ao longo de doze anos de ditadura, iniciada em 1973.

Suicidas – Dos prisioneiros torturados, oito presos suicidaram-se para evitar a continuação da tortura.

Assassinados em solo uruguaio - Os militares teriam sido responsáveis pelo assassinato de 34 civis dentro do território uruguaio.

Assassinados no exterior - Dentro do “Plano Cóndor”, denominação do esquema de colaboração das ditaduras do Cone Sul, os militares participaram dos assassinatos de outros 106 uruguaios fora do território do país, a maior parte dos quais na Argentina.

Lei de Caducidade Punitiva do Estado - Em 1986, um ano após a volta da democracia, pressionado pelos militares, que ameaçavam levantes nos quartéis, o presidente Julio Maria Sanguinetti (1985-90) encaminhou o projeto da Lei de Caducidade Punitiva do Estado ao Parlamento, onde foi aprovada. A lei – que amparava somente s crimes da ditadura cometidos dentro do país – foi confirmada por plebiscitos em 1989 e 2009.

Dribles à lei de Caducidade Punitiva do Estado - Ao longo da última meia década, parentes das vítimas conseguiram driblar a lei de anistia levando ex-integrantes da ditadura ao bancos dos réus pelos crimes cometidos fora do país, que não estavam contemplados no perdão aos militares. Esse foi o caso dos ex-presidentes Juan María Bordaberry e Gregorio Alvarez. Ambos foram colocados na prisão por envolvimento nos casos de uruguaios assassinados no exterior.

Bordaberrização - O fazendeiro Juan María Bordaberry foi eleito nas urnas em 1972 pelo partido Colorado. Em 1973, as forças armadas deram um golpe mas mantiveram o civil Bordaberry no posto. Ele foi removido do cargo em 1976, um ano antes do final formal de seu mandato, previsto para 1977.

Embora breve no poder, Bordaberry conseguiu emplacar seu sobrenome como um termo das ciências políticas, já que “bordaberrização” refere-se a uma ditadura militar que pretende ter aparência democrática e para isso deixa (ou coloca) um presidente civil no cargo formal da presidência.

No dia 28 de abril o ex-espião Enrique Arancibia Clavel foi encontrado morto em seu apartamento no centro portenho. No dia seguinte foi impossível publicar a postagem sobre o caso, já que morreu o escritor Ernesto Sábato. Mas, aproveitando que o assunto hoje são ditaduras, recupero o material que estava preparado desde aquela manhã na qual faleceu o autor de “Sobre heróis e tumbas”.

COM 20 PUNHALADAS, MORRE EX-ESPIÃO DE PINOCHET

  

Arancibia Clavel, que havia assassinado dois chefes do exército chileno, foi morto em Buenos Aires

Vinte profundas punhaladas no peito, mandíbula, pescoço e nas costas acabaram com a vida de Enrique Arancibia Clavel, ex-assassino e ex-espião do governo do ex-ditador chileno Augusto RampíPinochet (1973-90). O corpo do ex-integrante da Dina – o serviço secreto da ditadura chilena – foi encontrado coberto de sangue ressecada em seu apartamento na rua Lavalle, em pleno centro de Buenos Aires. A primeira pessoa em encontrar o cadáver do protagonista de diversos atos terroristas foi seu namorado, um jovem de vinte e poucos anos. Nas horas seguintes, o assassinato do ex-torturador era o assunto preferido dos vizinhos do prédio e de todo o quarteirão. Um deles pontificou: “a la pucha… o chileno tinha mais facadas do que furos em um coador de macarrão”.

Muitos anos antes de ser comparado com um utensílio de cozinha, Arancibia Clavel foi o organizador do atentado que em 1974 na rua Malabia, no bairro de Palermo, matou o general Carlos Prats, ex-chefe do Exército do Chile durante o governo do presidente socialista Salvador Allende (1970-74), e sua esposa, Sofia Cuthbert. A bomba que matou o casal exilado em Buenos Aires havia sido colocada sob o veículo dos Prats pelo americano Michael Townley, agente da CIA que nos anos 80 delatou perante a Justiça dos EUA seu ex-colega chileno. A explosão espalhou os pedaços dos corpos dos Prats em um raio de 50 metros.

Arancibia Clavel também havia sido o autor do assassinato do anterior comandante em chefe do exército chileno, o general René Schneider, em 1970, em Santiago do Chile. Schneider havia resistido às pressões para protagonizar um golpe de Estado que impedisse a posse de Salvador Allende.

 

Fotos do atentado contra Prats

Quatro anos após o assassinato de Prats, Arancibia Clavel – um dos espiões preferidos de Pinochet – recebeu a missão de descobrir detalhes dos planos militares das forças armadas argentinas, que estavam prestes a entrar em guerra com o Chile por causa da disputa do canal de Beagle.

Descoberto em 1978 Buenos Aires, foi preso. No entanto, poucos anos depois foi beneficiado com uma anistia. A partir dali, Arancibia Clavel optou por permanecer em Buenos Aires.

No entanto, em 1996, foi detido pela Justiça argentina pelo crime cometido 22 anos antes em Buenos. Pelo assassinato de Prats e sua esposa foi condenado à prisão perpétua. Na época, o caso estabeleceu precedentes jurídicos para a reabertura de processos contra ex-integrantes da ditadura na região, já que a Corte Suprema argentina determinou que o assassinato fora um crime contra a Humanidade, e portanto, não prescrevia.

No entanto, em 2007 conseguiu a liberdade condicional. De lá para cá, vivia da renda do aluguel de três veículos que havia transformado em táxis e morava em um quarteirão famoso por estar coalhado de pequenos escritórios de empresas-fantasma e de estabelecimentos de prestação de serviços sexuais.

A polícia em Buenos Aires deteve dois “táxi-boys”, isto é, “garotos de programa”, suspeitos de terem assassinado o ex-espião, que constantemente requeria serviços sexuais masculinos em seu apartamento. Tudo indica que os dois rapazes teriam roubado US$ 40 mil do autor da morte do general Prats.

 

Retrato do torturador quando jovem: Arancibia nos anos 70

REPERCUSSÕES – No dia seguinte à notícia, no Chile, a filha do general Prats, Cecília, afirmou que a família não falará sobre o assassinato do assassino de seu pai. No entanto, disse que estava “impactada” pela morte do ex-espião.

Mireya García, da organização Parentes de Detidos-desaparecidos, de defesa dos Direitos Humanos, ressaltou que, “paradoxalmente, queremos que os violadores dos Direitos Humanos vivam muitos anos para que tenham tempo de pagar suas culpas perante a Justiça”. Segundo ela, “é sempre um revés quando os responsáveis dos crimes não estão mais aqui, já que as investigações não podem continuar avançando”.

O NETO, O ESCARRO E O OUTRO DEFUNTO - Francisco Quadrado Prats, neto do general Prats, ficou famoso em dezembro de 2006 quando foi ao velório do general Pinochet e escarrou sobre o rosto do mandante do assassinato de seu avô. Após cuspir sobre o corpo do ex-ditador que também havia ordenado a morte de 3 mil civis e a tortura de outros 30 mil, o neto de Prats foi atacado por uma multidão furiosa de simpatizantes pinochetistas e teve que sair protegido pela guarda militar.

O jovem argumentou que o objetivo de sua cuspida foi o de “mostrar desprezo pelo assassino de meus avós. Além disso, foi porque fiquei chocado ao ver todas as honrarias que ele recebeu por parte do Exército. E esta era minha última oportunidade de passar diante de Pinochet”.  

AMIGOS DE PINOCHET: O general A.Ramón Pinochet possuía uma troupe de amigos peculiares. Um deles foi o alemão Paul Schaefer, que ostentava os títulos de nazista e pedófilo. Para mais detalhes, veja esta postagem do ano passado, aqui. 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Paul Schaefer, com permanente enigmático meio-sorriso, foi o líder político e espiritual absoluto da Colônia Dignidade durante três décadas

blog1hand-prawo2Paul Schaefer foi enterrado ontem, segunda-feira, em um túmulo sem nome no cemitério Parque Recuerdo de Puente Alto, depois que os habitantes de Villa Baviera, que ele fundou e administrou durante três décadas e meia, recusaram-se a albergar seu corpo para o descanso eterno em suas terras.

Somente cinco pessoas acompanharam seu féretro em Puente Alto, que ao sair da casa funerária Lar de Cristo precisou esquivar uma multidão que lhe arremessou .

Motivos para que Schaefer fosse considerado persona non grata havia de sobra, já que possuía um currículo controvertido. Esse ex-cabo do exército do Terceiro Reich, além de declaradas simpatias (e militância) nazista, era pedófilo. De quebra, participou de torturas a prisioneiros políticos da ditadura militar chilena, com a qual colaborou ativamente com a “Colônia Dignidade”, uma fazenda de 17 mil hectares, que serviu de centro de detenção clandestino. E, além disso, era declarado amigo do general Augusto Pinochet.

Schaefer, que morreu no sábado no hospital da ex-penitenciária de Santiago do Chile, estava preso desde 2005, quando foi detido na Argentina, para onde havia fugido em 1997.

Durante oito anos esteve escondido em território argentino.O motivo: fugir da Justiça chilena, que o havia condenado a 7 anos de prisão por homicídio, a 3 anos por posse ilegal de armamento, outros 3 anos pela aplicação de torturas, além de 20 anos por abusos sexuais a meninos.

 A carreira de Schaefer começou em Sieburg, um vilarejo à beira do Reno, próximo a Bonn. Ali, entrou para o partido nacional-socialista de Adolf Hitler. Na sequência, alistou-se nas tropas nazistas que invadiram a França.

Com a derrota germânica em 1945, Schaefer entrou em uma igreja batista na Alemanha. No final dos anos 50, decidiu criar sua própria instituição social, a “Missão Social Privada”. Ali comandava sessões de leituras bíblicas nas quais seus seguidores começaram a acreditar que ele possuía “características divinas”. Mas, o que poucos sabiam é que Schaefer sodomizava os menores de idade levados pelos pais à instituição do ex-cabo nazista.

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Entrada da Colônia Dignidade

Em 1961, foi denunciado. Schaefer decidiu fugir para o distante Chile. Ali, acompanhado por dezenas de seguidores, criou a “Sociedade Beneficente Dignidade” na região de Maule.

Schaefer fez da “Colônia Dignidade” seu feudo pessoal, um espécie de pequeno país-igreja que continha em suas 17 mil hectares uma escola, padaria, refeitórios, um hospital, moradias, áreas de plantação, cinco empresas (que funcionou fora da legislação trabalhista e tributária do Chile durante décadas), além de uma rede secreta de túneis e bunkers. A colônia, protegida por cercas de arame farpado, havia ficado de fora de todos os censos realizados no Chile. Os habitantes tinham um contato mínimo com o exterior e eram doutrinados constantemente. Todos os colonos provenientes da Alemanha eram proibidos de manter contato com seus parentes na terra natal.

Schaefer determinou que as famílias que residiam na Colônia deveriam ser separadas. Desta forma, sob ordens de seu líder, os pais não podiam falar com seus próprios filhos. As crianças não sabiam que tinham irmãos. As relações sentimentais estavam controladas por Schaefer e só podiam acontecer após sua autorização.

Crianças dos camponeses da área de fora da Colônia eram entregues a Schaefer, que prometia a seus pais que seus filhos teriam “educação gratuita”. Schaefer gostava de ser chamado de “tio permanente” de Dignidade.

A maior parte dos habitantes da Colônia – boa parte deles imigrantes alemães e camponeses chilenos – trabalharam durante anos de graça para Schaefer. “Era um Estado dentro do Estado”, afirmaram juristas, sociólogos e políticos chilenos nos anos 90, quando o funcionamento da sinistra estrutura tornou-se público.

A SERVIÇO DE PINOCHET

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O general Augusto Pinochet, acompanhado por sua esposa Lucía, em visita à Colônia Dignidade, centro onde Schaefer praticava a pedofilia sem impedimentos do governo militar

blog1hand-prawo2A partir do golpe de 1973, protagonizado pelo general Augusto Pinochet, a Colônia Dignidade transformou-se também em um centro clandestino da DINA (o serviço secreto do regime de Pinochet). Ali foram detidas e torturadas centenas de prisioneiros do regime.

O estabelecimento de Schaefer também foi usado para a fabricação clandestina de gás sarin, que a ditadura utilizava em pequenas doses para realizar atentados contra exilados políticos no exterior.

O lugar também transformou-se em um estabelecimento de produção de armas. Um dos túneis da colônia os homens de Schaefer copiaram uma sub-metralhadora israelense e a produziram de forma clandestina.

A colônia começou a chamar a atenção em 1985, quando o acadêmico americano Bris Weisfeiler, judeu nascido na Rússia, desapareceu quando estava acampando nas proximidades do feudo de Schaefer. Weisfeiler, cujo corpo jamais foi encontrado, teria sido detido e torturado por Schaefer e outros nazistas do lugar durante três anos, segundo indicam relatórios do Departamento de Estado dos EUA.

Pouco tempo depois foi a vez do turista holandês Marteen Visser, um belo jovem de 18 anos de cabelos loiros encaracolados que teria sido usado por Schaefer para satisfazer seus instintos pederastas. Marteen nunca foi localizado. Mas, diversas testemunhas afirmam que foi prisioneiro de Schaefer durante anos.

Diversas denúncias sobre abusos sexual de crianças e adolescentes foram realizadas na Alemanha ao longo dos anos 80. No entanto, o governo Pinochet ignorou todos os pedidos de investigações.

FIM DE SCHAEFER

blog1hand-prawo2Em 1990 o governo Pinochet acabou. A proteção de Schaefer estava terminada.

Entre 1991 e 1994 a Justiça pressionou Schaefer, que ainda contava com respaldos de setores políticos civis alinhados com o ex-ditador.

Com a volta da democracia começaram a aparecer denúncias contra o líder da Colônia, indicando que havia abusado sexualmente de dezenas de crianças.

Em 1997 a Justiça chilena entrou na Colônia Dignidade para prender Schaefer, o líder da comunidade havia desaparecido. Escondido nos túneis secretos da colônia, ali permaneceu até que conseguiu fugir para a Argentina com a ajuda de velhos amigos ex-integrantes das ditaduras de ambos países.

A Justiça encontrou os restos de diversos automóveis enterrados nos terrenos da Colônia Dignidade. Os carros pertenciam a opositores políticos do regime de Pinochet que haviam sido assassinados.

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Schaefer foi detido na Argentina em março de 2005 graças à uma investigação jornalística do Canal Trece, do Grupo Clarín. Sua filha adotiva, Rebeca, foi sua permanente companheira Schafer nunca explicou em quais circunstâncias havia adotado a filha.

Nesse mesmo ano o presidente Ricardo Lagos envia um interventor à Colônia Dignidade. As autoridades chilenas descobrem um colossal arsenal no lugar, incluindo lança-mísseis, granadas, além de armas leves automáticas.

Simultaneamente, centenas de ex-colonos retornam para a Alemanha, enquanto que os 200 habitantes que ficam iniciam uma revisão coletiva do sinistro passado. Com o respaldo da embaixada da Alemanha, os habitantes remanescentes são ajudados por uma equipe de psicólogos.

Segundo um dos psiquiatras, Niels Biederman, somente Schaefer praticava a pedofilia. “Somente ele, mais ninguém…”.

Com o fim do reinado de Schaefer, Colônia Dignidade foi rebatizada de “Vila Baviera”.

Em 2008, a comunidade de Vila Baviera divulgou uma carta aberta na qual expressa o repúdio ao passado do estabelecimento e sobre a “perversidade” de Schaefer e sua intenção de inserir-se na sociedade chilena.

Atualmente, Vila Baviera vive do turismo, dos trekkings, e mantém um dos melhores restaurantes da região, especializado em gastronomia alemã.

Vídeo sobre a Colonia Dignidade, aqui. 

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O general Augusto Pinochet, protetor de Paul Schaefer

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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Prédio da rua Padre Hurtado caiu com quase 80 pessoas dentro. Mais de 70 salvaram-se.  Enquanto os bombeiros tentavam resgatar as pessoas sob os escombros, no quarteirão do lado centenas saqueavam um hiper-mercado

Queridas e queridos leitores-comentaristas; antes de tudo, peço desculpas por não ter podido atualizar o blog desde o sábado passado, quando apareceram as primeiras notícias sobre o terrível terremoto do Chile, ocorrido naquela madrugada

A partir dali, foi tudo uma correria: escrevi duas retrancas prévias sobre o terremoto, enquanto tentava descobrir qual era a melhor forma de chegar até a área da cataclisma.

SAINDO DE BUENOS AIRES - Por um lado, os aeroportos chilenos estavam totalmente fechados. Uma alternativa seria ir até a argentina cidade de Mendoza e dali atravessar em carro ou ônibus a Cordilheira dos Andes e chegar a Santiago, capital do Chile. Dali, em carro até a área mais atingida: Concepción, Talcahuano e Constitución.

Mas, essa travessia era impossível, já que pedras haviam desabado sobre o passo na cordilheira em Mendoza.

A alternativa era a de viajar à Bariloche e dali sair carro rumo ao norte.

Essa foi a alternativa escolhida. Às 11:00 tive a confirmação da viagem. O avião partia às 12:15.

Saí sem tomar banho, com a barba por fazer e sem ter tomado o café da manhã.

No aeroporto encontrei Carmen De Carlos e Joan Biosca, respectivamente correspondentes do jornal ABC de Madri e da Rádio Catalunia, de Barcelona.

NA ESTRADA PARA CONCEPCIÓN - Juntos, tomamos o avião para Bariloche. Mas ali chegando, nenhuma agência queria alugar um carro, por medo ao desastre natural do outro lado da fronteira. A saída foi convencer um motorista que em troca de oportunos honorários, se dispôs a nos levar até Temuco, no centro-sul do Chile, e uma das cidades mais meridionais da área atingida pelo terremoto.

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No final da tarde atravessamos o passo Cardeal Samoré. Percorremos uma estrada praticamente deserta (e sem lugares abertos no meio do caminho para uma refeição). No final da noite chegamos em Temuco, onde havia energia elétrica mas inexistia o abastecimento de água.

Chegar era uma coisa. A outra era encontrar um hotel.

Finalmente, encontramos um lugar que estava aberto, o único da cidade. “Comida? Não temos nada!”, afirmou o gerente, quando lhe perguntei sobre a possibilidade de comer algo, já que somente havia podido comer uma das atuais modalidades de “refeições” da maioria das companhias aéreas, isto é, algo com um formato que se assemelha a umas bolachas feitas de algum material misterioso sobre o qual é preferível manter a ignorância.

Após cinco horas de sono partimos rumo à Concepción. Nesse trecho, os sinais do terremoto eram mais expressivos: pontes caídas, estradas rachadas, fissuras.

EM CONCEPCIÓN, EM MEIO DOS SAQUES - Chegamos em Concepción ao redor das 11:30 e entramos direto no centro da cidade.

 

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Ali, tudo parecia organizado segundo uma infernal coreografia: saques a granel, com grupos que iam desde cinco pessoas até formações de saqueadores com duas centenas de integrantes.

Diversos comércios que foram saqueados, posteriormente arderam em chamas ateadas pelos seguintes grupos de saqueadores que ficaram furiosos que os primeiros saqueadores haviam levado tudo.

A presença militar nos três primeiros dias foi mínima.

Os poucos soldados presentes ficavam parados, olhando os saques, sem animar-se a enfrentar as multidões.

Os primeiros saques começaram duas horas depois do terremoto, que havia sido às 3:30 da madrugada de sábado. Isto é, os primeiros ataques aos comércios iniciaram ao redor das 5:30, 6:00 horas, quando o sol raiava.

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Barco de pesca estacionado pelo tsunami na avenida beira-mar

ONDE DORMIR - Na sequência, a prioridade era a de encontrar um hotel ou qualquer coisa equivalente onde pudéssemos deixar em segurança nossos equipamentos. Encontramos um, o Aurélio, que não tinha energia elétrica, nem água, nem comida. Mas, contava com a simpatia e a boa vontade de seu dono, Cristián Prado, que fez todos os esforços para que a estadia tivesse um quê de confortável.

Ele só tinha um quarto, com uma única cama. Nossa colega Carmen dormiu ali. Joan e eu dormíamos no chão.

Ao longo de vários dias ficamos sem água. Desta forma, não tínhamos como tomar banho.

No entanto, o mau cheiro era generalizado. Os habitantes masculinos de Concepción – menos os sortudos imberbes – ostentavam uma diariamente crescente barba provocada pela ausência de água. Um dia, cansado da irritação das partes de baixo da barba, que avançava por meu pescoço, peguei uma lata amassada de Coca Cola morna e a usei para me barbear. Resultado fantástico. Na próxima catástrofe da natureza voltarei a recorrer ao gaseificado líquido escuro para esse fim.

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Com os vasos sanitários fora de funcionamento, os habitantes da cidade, no terceiro dia – com o sistema entupido de excrementos – começavam a recorrer aos quintas, calçadas e praças da cidade, que transformaram-se em um involuntário banheiro coletivo.

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OS SAQUES, SEGUNDO OS PRÓPRIOS CHILENOS - Os saques, enquanto isso, continuavam. Pobres atacavam comércios e levavam os produtos, desde alimentos até requintados elementos eletrônicos. Mas, a classe média também dedicou-se ao saque. Com desatado vandalismo, pessoas bem-vestidas desciam de camionetes importadas e saqueavam comércios.

“Os saques não foram exclusividade de uma classe social. Neste caso, os saques são protagonizados por todos”, me disse com os olhos molhados a prefeita de Concepción, Jacqueline van Rysselberghe. “Não sei o que está acontecendo…nós, chilenos, éramos solidários…não éramos assim!”.

“Nos transformamos em animais”, afirmou Juan Iibuni, técnico metalúrgico, que recusou-se a saquear. “Não darei esse exemplo a meus filhos”.

Seu sogro, Ragnier Salazar, chorava quando recordava a reação solidária das pessoas nos outros dois terremotos de porte que havia passado, os de 1939 e o de 1960 (este, o pior da História mundial): “das outras vezes, após a catástrofe, um vizinho ajudava o outro…agora, cada um quer roubar o outro. Não sei o que aconteceu aos chilenos”.

O governo da presidente Michelle Bachelet permanecia imóvel. As cidades de Concepción e Constitución, além de Talcahuano, entre outras, estavam sendo saqueadas. Mas a presidente hesitava em declarar o Estado de Sítio.

A imagem da presidente estava em queda entre os “penquistas” (habitantes de Concepción), que ressaltavam que sua demora em enviar tropas, médicos e alimentos estava intensificando a destruição provocada pelo terremoto.

“Aqui houve um terremoto geológico…mas agora há um terremoto social”, afirmou Piero Mosciatti, diretor da Radio Bio-Bio, a única na região que permaneceu em funcionamento – às duras penas – durante os primeiros dias.

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Estátua de Bernardo O’Higgins, herói da independência, jazia no chão após terremoto

GATO POR LEBRE - Outras pessoas consultadas pelo Estado destacavam que a imagem do Chile, transmitida ao exterior como um modelo econômico a seguir pelos vizinhos da região não passava de uma fraude. “Nós somos subdesenvolvidos. Somos terceiro-mundo”, disse-me o médico oncologista Claudio Missarelli, um eleitor da centro-direita. “É mentira essa história de que o Chile é um ‘tigre’ da América Latina. Não somos nada disso. E este terremoto mostrou bem a realidade!”.

Missarelli chorava enquanto falava. O médico, residente em Valdívia, havia ido exclusivamente até Pelluhue, a 600 kms de distância, para ajudar os habitantes do vilarejo, destruído pelo terremoto e arrasado pelo posterior tsunami (um tsunami que a presidente Bachelet demorou dois dias em admitir).

Mas, ao mesmo tempo que o vandalismo desatado expandia-se, muitas pessoas tentavam ajudar as outras.

PESSOAS SOLIDÁRIAS - O terremoto me permitiu conhecer pessoas incríveis, como Juan Iubini. No primeiro dia, cansado e sem conseguir uma tomada para transmitir desde meu blackberry, sentei-me junto com a Carmen e o Joan na porta de uma casa. Pouco depois, enquanto corríamos para escrever as matérias nos blackberries, apareceu a família que morava na casa.

Joan: Perdão por incomodá-los, mas estamos escrevendo umas matérias e daqui a pouco já saímos daqui.

Iubini: Não há problema, podem continuar aqui.

Aí, eu fiz a pergunta que iniciou a amizade:

- Perdão eu tenho uma dúvida ortográfica-histórica…o nome do herói da independência do Chile se escreve O’Higgins ou O’Higgings?

Juan Iubini me respondeu a versão correta (a primeira) e começou a conversar animadamente com a gente.

Posteriormente, graças a ele conseguimos entrar na empresa telefônica que estava na calçada da frente da casa dele, e convencer o mal-humorado porteiro a que nos deixasse carregar nossos aparelhos na tomada (o lugar contava com um gerador).

No dia seguinte, Juan nos levou à Talcahuano para ver a destruição.

E nos dias posteriores, transformou-se em motorista do grupo. Também o ajudávamos a conseguir água e combustível.

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 Esta era uma área cheia de casas para veraneio

CENAS

Em Talcahuano vi como o tsunami – que a presidente dizia que não havia ocorrido – havia arrasado uma faixa de cinco quarteirões de largura por 20 de comprimento na frente do mar. Cavalos cortados ao meio, com as vísceras saltando sobre o barro acumulado em cima do asfalto, carros esmagados, containers arrastados pelo mar e incrustados em edifícios…esse era o cenário dantesco desse outrora importante porto chileno.

 

Em Dichato vi como, na quarta-feira, uma multidão saía em pânico da cidade balneária por causa de um boato de um novo tsunami. Os habitantes saíram correndo do centro da cidade. Mas, pararam quase todos a uma distância de três quarteirões do centro, no início de uma leve colina, olhando para o mar, que permaneceu plácido.

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Em Constitución, arrasada pelo terrometo e devastada pelo tsunami, a família Villarroel tentava levantar o ânimo dos vizinhos com uma bandeira. “Temos que nos reerguer”, diziam.

Em Pelluhe, mais de 80% da pequena cidade foi levada impiedosamente pelo tsunami ocorrido no sábado na costa centro-sul do Chile.

Naquela madrugada, o temor a um tsunami levou os nativos da pequena cidade à procurar as áreas mais altas de Pelluhue.

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Rua de Talcahuano ficou bloqueada pelo container. Originalmente, o container estava a mais de cinco quarteirões dali

E para encerrar este relato sobre o terremoto do Chile, lhes deixo o depoimento de Mario Concha, 31 anos, assistente de educação, que trabalhava na escola interna do vilarejo. As ondas detiveram-se a 50 metros de sua casa. Mas, por medo a novos tsunamis, dormiram nos seguintes dias na hospedaria de seu pai, em um vilarejo vizinho, ironicamente chamado Pueblo Hundido (Povoado Afundado).

“Os turistas que ali passavam seu ultimo fim de semana reagiram tarde”, disse-me Mario, que assistiu a catástrofe a poucos quarteirões de distância, sem nada poder fazer.

“Primeiro ficaram na frente de suas casas de veraneio sem saber o que fazer. Depois, quando viram que todos os nativos do vilarejo haviam ido embora entraram em pânico e tentaram fugir em seus carros”, explicou.

“Mas, todos tentaram fugir ao mesmo tempo. Aí houve um engarrafamento. E a onda chegou nesse instante. Dezenas de carros buzinavam ao mesmo tempo e piscavam as luzes. As águas começaram a levá-los…gradualmente, as luzes dos carros se apagaram. E também as buzinas”, disse, enquanto com os olhos marejados tentava dissimular suas lágrimas simulando estar concentrado em beber uma xícara de chá fumegante, o primeiro líquido quente que ingeria desde o terremoto.

“Na terça e quarta-feira o mar devolveu vários corpos ao mar ontem mesmo apareceu um corpo de um menino de uns sete anos”.

 

DADOS SOBRE O TERREMOTO DO CHILE:

- A intensidade do terremoto foi de 8,8 graus na escala de Richter.

- A duração foi de 2 minutos e 50 segundos. Nos dias seguintes houve 150 réplicas de intensidade superior a 5 graus Richter.

- O maior terremoto da Historia foi en 1960 em Valdívia, sul do Chile: 9,5. Na ocasião, após o terremoto veio um tsunami com ondas de 25 metros .

- No sábado, o arquipélago de Juan Fernández foi parcialmente arrasado por ondas que chegaram a 15 metros de altura.

- Os saques em Concepción foram seguidos de incêndios dos comércios

- Em Talcahuano a polícia recuperou pelo menos 15 toneladas de produtos que os saqueadores haviam levado.

- O governo Bachelet enviou 600 militares à área da devastação no primeiro dia, no sábado. 600 militares para lidar com um cenário complicado onde morava 1,5 milhão de pessoas. Somente na quarta-feira o governo enviou outros 7 mil militares. Mas, nesse dia, já não ficava quase comércio algum de Concepción que não tivesse sido arrasado pelos saques.

- Na cidade de Santiago existem 480 edifícios e casas que deverão ser demolidos, já que foram duramente abalados pelo terremoto.

- Os custos do terremoto equivalem a US$ 30 bilhões, isto é, 15% do PIB do Chile.

- O país levaria de três a quatro anos para concluir a fase de reconstrução.

FRASES 

“Rezemos pelos malvados que saquearam” (padre Luis Figueroa, nas missas que realizou na frente da semidestruída catedral de Concepción).

“Aqui há vítimas e pessoas que vitimizam…o que eu me pergunto é por qual motivo existem mais pessoas que vitimizam!” (Piero Mosciatti, diretor da Radio Bío-Bío). 

“No Haiti os saques em grande escala começaram três dias depois do terremoto..aqui começaram duas horas depois. Tudo aquilo que o terremoto e o tsunami não arrasaram foi destruído pelas pessoas nos dias seguintes” (Piero Mosciatti, diretor da Radio Bío-Bío). 

CENA INSÓLITA (pelo menos, para mim)

Estávamos cansados, empoeirados e perdidos no meio da área rural do vilarejo de Chanco, que havia sido abalado pelo terremoto, tentando encontrar a estrada de macadame para Pelluhe, que havia sido devastada pelo tsunami…quando de repente quebrando o silêncio do campo, no início do crepúsculo, apareceu um homem em bicicleta assobiando a suave canção “Y nos dieron las diez” do roqueiro espanhol Joaquín Sabina. Passou por nós, sem nos olhar, e continuou pedalando pela estrada.

O link do Youtube com Sabina, aqui.

 

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Estatua de Pedro de Valdivia, fundador de Concepción, a ponto de cair

 

blog1vinhetas5AVISO: Nem bem cheguei do Chile…já começo minhas férias, que estavam programadas desde dezembro. Desde este domingo estou em férias. Por isso, ao longo deste mês, o ritmo do blog será lento. Deixei uma postagem pronta para amanhã, celebrando o primeiro aniversário do Blog. 

Tentarei colocar os comentários de vocês a cada 4 ou 5 dias. E, na medida do possível, irei respondendo.

Agradeço a vários comentaristas a preocupação que expressaram durante minha cobertura do terremoto no Chile!

Abraços a todos!

Ariel

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Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

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O Palácio de La Moneda, Santiago Chile. Construído para ser uma casa da moeda, foi primeiro casa da moeda, depois foi simultaneamente palácio presidencial e casa da moeda…até finalmente ser exclusivamente palácio presidencial

De presente de Natal para os leitores comentaristas hoje e nos próximos dias teremos uma série de postagens que estavam prometidas há meses para algumas pessoas (depois continuaremos com a sequência dos “suicidados” sui generis).
Martha Argel, que queria saber se a Casa da Moeda do Rio de Janeiro e o Palácio de La Moneda no Chile eram planos “trocados”; Laerte Carmelo, que desejava uma postagem sobre os santos populares argentinos; o Mané, que estava curioso sobre os risonhos sóis das bandeiras da Argentina e do Uruguai.
Hoje começaremos pela lenda da troca de projetos da Casa da Moeda e o Palácio de La Moneda.

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A antiga Casa da Moeda, na ex-imperial Rio de Janeiro. Foi a casa da moeda praticamente durante toda sua existência. Agora é o Arquivo Nacional. Nunca foi pensada para ser palácio presidencial ou imperial. Nem no Rio de Janeiro, muito menos na distante Santiago do Chile

A INEXISTENTE CONEXÃO SANTIAGO-RIO
indicandos Entre Santiago do Chile e o Rio de Janeiro aparece ocasionalmente a versão de que o Palácio de La Moneda – o palácio presidencial chileno – na verdade teria que ser a Casa da Moeda – o atual Arquivo Nacional – do Rio de Janeiro. E que a Casa da Moeda da ex-capital brasileira seria o palácio presidencial do Chile.

A lenda é saborosa e indica que os projetos de um edifício e do outro, supostamente importados da Europa (algumas versões indicam que os projetos vinham da Inglaterra), teriam sido trocados no navio que descia da Europa rumo à América do Sul.

Segundo a lenda, os rolos de papel com os detalhes do palácio presidencial chileno, por confusão, teriam desembarcado no Rio de Janeiro.

…E os planos destinados à construção da Casa da Moeda do imperial Rio dos Habaurgos e Bragança teriam virado pelo Cabo Horn, desembarcado em Valparaíso e finalmente levados até Santiago do Chile.

Mas, a lenda – apesar de divertida – não tem justificativas, já que os dois prédios são de épocas totalmente diferentes. A realidade, infelizmente, foi bem mais prosaica.
Os planos não foram encomendados à Europa. Foram feitos aqui mesmo na América do Sul (se bem que no caso do Chile, o arquiteto era um italiano que passou o resto de sua vida em Santiago e havia chegado anos antes para outras obras na cidade).

As obras do prédio do chileno Palácio de La Moneda começaram em 1786…enquanto que a ordem para construção do novo prédio (o tal da lenda) da Casa da Moeda no Rio de Janeiro é de 1853. As obras deste prédio carioca concluíram em 1868.

O Palácio de la Moneda foi construído para ser a Casa da Moeda em Santiago, no Chile colonial.

As obras começaram em 1786 e terminaram em 1812 . O projeto é do italiano Gioacchino Toesca (que espanholizou seu nome para Joaquín Todesca). No entanto, ele não fez o projeto à distância. Toesca havia desembarcado em Santiago seis anos antes de iniciar a obra de La Moneda, para concluir a construção da catedral da cidade.

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Gioacchino, aliás, Joaquín; Toesca, aliás, Todesca

A construção do prédio terminou no meio do conjunto de guerras de independência do Chile e dos outros países da região. Nesse prédio, em 1814 foram cunhadas as primeiras moedas do Chile independente.

Em 1845 a imensa construção começou a ser utilizada também como sede do governo da República e residência dos presidentes chilenos (antes disso, desde 1817, a sede do governo havia sido o edifício da Real Audiência, na Praça de Armas de Santiago, hoje transformada no Museu Histórico Nacional).

A Casa da Moeda funcionou – junto com os escritórios presidenciais – no Palácio de La Moneda até 1924. Isto é, durante quase um século foi simultaneamente palácio presidencial e casa da moeda chilena.
Nesse ano a função de cunhar moedas passou para outro edifício. E o Palácio de La Moneda ficou somente como palácio presidencial.

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O La Moneda sob bombardeio em pleno centro de Santiago, em 1973

Em 1973 o Palácio de La Moneda foi bombardeado pelas forças do general (e depois do golpe, ditador também) Augusto Pinochet. Os foguetes lançados pelos aviões Hawker Hunter e os canhões do Exército destruíram grande parte do palácio e destruíram obras de arte, além da ata da independência chilena, documento que foi destruído pelas bombas de Pinochet.

O estilo do palácio em Santiago é o neoclássico italiano puro.

O prédio da Casa da Moeda no Rio de Janeiro – situada na antiga Praça de Aclamação, atual Praça de República – é obra dos engenheiros Teodoro de Oliveira (geralmente o mais citado) e Antonio Francisco Guimarães Pinheiro (quase sempre esquecido).

Seu estilo é um neoclássico adaptado ao Brasil…um estilo denominado de “Imperial Brasileiro”.

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A antiga Casa da Moeda no Rio. Nunca esteve pensada para ser construída do outro lado da Cordilheira dos Andes

A Casa da Moeda esteve nesse palacete até 1983, ano em que foi removida para o Parque Industrial Santa Cruz. Hoje é a sede do Arquivo Nacional.

O prédio no Rio parecia mais palácio presidencial do que o Palácio de La Moneda em Santiago. Este tem mais physique du rôle de uma grande caixa de sapatos (uma excelente caixa de sapatos, segundo opinião de vários chilenos conhecidos) do que de qualquer outra coisa. Isso, evidentemente, alimentou a lenda da troca de projetos entre o Rio de Janeiro e Santiago do Chile.

De quebra, o edifício carioca possui colunas dóricas no andar de baixo e jônicas no andar de cima. E, além disso, uma imponente escadaria.

O edifício parecia mais imponente ainda quando o bairro estava vazio no final do século XIX, então chamado Campo de Santana.

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