“A volta do filho pródigo”, de Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669). Pintado entre 1663 e 1665, está exposto no Museu Hermitage, em São Petersburgo. O retorno do Paraguai seria assim ou com outro formato?
O chanceler Antonio Patriota afirmou nesta quinta-feira que o momento para a reincorporação do Paraguai de forma plena ao Mercosul será avaliado na reunião dos chefes de Estado da União das Nações Sul-americanas (Unasul), marcada para o dia 30 de novembro na capital do Peru, Lima. O assunto voltará a ser analisado uma semana depois na cúpula do Mercosul em Brasília no dia 7 de dezembro.
“Quando houver plena vigência democrática no Paraguai, o país será reincorporado. Não é uma referência a eleições propriamente dita nessas decisões”, explicou Patriota aos correspondentes brasileiros em Buenos Aires ao sair do Palácio San Martín, sede da chancelaria argentina, após uma reunião com seu colega Hector Timerman.
Em junho, poucos dias depois do impeachment do presidente Fernando Lugo, que foi substituído por seu vice, Federico Franco, o Paraguai foi suspenso das reuniões do Mercosul temporariamente.
Os presidentes dos outros países-sócios do bloco determinaram que o Paraguai – o parceiro mais pobre do bloco do Cone Sul – somente seria reintegrado com plenos direitos quando “a ordem democrática” seja restituída no Paraguai. Os presidentes do Mercosul afirmaram que a remoção – feita pelo Senado eleito com o próprio Lugo em 2008 – foi irregular.
No entanto, o bloco depara-se com um inusitado problema burocrático, já que na cúpula de Brasília o Brasil teria que passar a presidência pro-tempore do Mercosul – atualmente nas mãos brasileiras – ao Paraguai, tal como ocorre há 20 anos. Mas, se a suspensão dos paraguaios persistir até a realização da cúpula, a presidência pro-tempore teria que ser entregue a outro país.
Perguntado se em dezembro a presidência pro-tempore passaria ao próximo país da lista (que é por ordem alfabética), o Uruguai, Patriota respondeu: “é uma pergunta hipotética…temos que ver o que os presidentes decidem em Lima”.
Patriota esteve menos de 24 horas em Buenos Aires, onde reuniu-se com o chanceler Timerman para analisar a agenda bilateral, além do caso paraguaio.
O Mercosul tinha quatro integrantes: Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai. O Paraguai foi suspenso desse balé político-comercial temporariamente. Em seu lugar entrou outro dançarino para seguir com a coreografia: a Venezuela. Mas, a coisa não termina como em “O Pato” de João Gilberto em que “o quarteto ficará muito bom, muito bem”, pois quando o Paraguai retorne plenamente, o grupo virará quinteto. Na ilustração acima, “O Lago dos cisnes” (Лебединое озеро), balé de Pyotr Ilyich Tchaikovsky. Mais especificamente, a parte dos quatro pequenos cisnes.
Na cúpula de Mendoza, onde o Paraguai foi suspenso do bloco, os presidentes dos outros países, isto é, o Brasil, Argentina e Uruguai, indicaram que o país só voltaria ao seio mercosulino plenamente quando a ordem democrática fosse reestabelecida.
Mas, em nenhum momento os presidentes indicaram rigorosamente quando poderiam considerar que a democracia estava reestabelecida. As declarações foram genéricas.
Perguntas/hipóteses sobre como o Mercosul poderia classificar o retorno à “vigência democrática”
1 - Para o Mercosul, a democracia volta no dia das novas eleições presidenciais paraguaias, marcadas para o dia 21 de abril de 2013?
2 – Para o Mercosul, a democracia no Paraguai só volta no dia da posse do novo presidente, dia 15 de agosto de 2013?
3 - Ou para o Mercosul a realização das convenções partidárias em dezembro deste ano no Paraguai seriam suficientes para considerar que o processo democrático está em andamento?
4 - Ou para o Mercosul a manutenção do calendário eleitoral, o funcionamento do Parlamento uruguaio e das liberdades cívicas atualmente abrem alguma espécie de brecha diplomática para permtir que os governos Mujica, Dilma, Kirchner e Chávez considerem que existe democracia neste momento no Paraguai?
5 - Ou alguma outra hipótese?
Paraguai senta à mesa do almoço familiar, mas fica no canto isolado por um semestre? Acima, Alberto Sordi em “Un americano a Roma”, de 1954, devora a pastasciutta.
Hipóteses sobre como fica a presidência pró-tempore do Mercosul no 1º semestre de 2013
1 - Caso o Mercosul não reincorpore o sócio agora em dezembro e “pule” a presidência pro-tempore do Paraguai, que país recebe essa missão? O Uruguai?
2 - Poderia o Mercosul topar a reincorporação do Paraguai em dezembro, mas deixar seu governo em uma espécie de “freezer político-diplomático” (na forma, embora não na prática) até a chegada de um novo governo, eleito nas urnas em abril do ano que vem?
Isto é, um “freezer” que apenas contemplasse a realização de reuniões de segundo escalão, somente com secretários e sub-secretários dos países-sócios? Os ‘Big Shots’, nesta hipótese, só reapareceriam quando o novo governo tomar posse. Existem chances para uma modalidade assim? Quem sabe? A própria suspensão do Paraguai também foi inédita. Portanto, nada exime que o bloco tome uma atitude sui generis.
Digamos assim: poderia algo parecido quando em um almoço familiar dominical convida-se por obrigação o parente inconveniente, o cara come a macarronada, experimenta a sobremesa mas ninguém fala com ele…a não ser o mínimo, para manter a formalidade. E, agem o mínimo…por exemplo, passar o saleiro quando o parente em questão pede. Mas daí a abrir a garrafa de licor de murici pra ele, nem pensar.
3 - Nesta hipótese de “reincorporação-com-freezer-adjunto”, com as eleições paraguaias realizadas, o Mercosul faria a cúpula em junho ou julho em Assunção?
4 - Ou o Mercosul atrasaria a cúpula de Assunção para o dia 16 de agosto, isto é, um dia depois da posse do novo presidente no dia da Assunção (15 de agosto)?
Isto é, seria uma espécie de formalidade para não ter que fazer a cúpula em Assunção com o presidente Federico Franco (que, especialmente os argentinos, encaram como um “usurpador”), mas sim com um presidente novinho-em-folha.
E, quem sabe, a conveniente presença de Lugo, possivelmente eleito como senador, para abençoar a reentrée do Paraguai no bloco?
O “abençoar” em questão é um caso de “bênção” política por parte do ex-presidente, e não religiosa, embora seja um ex-monsenhor. Mas, nestas coisas de política e religião, nunca se sabe…
As presidências pro-tempore no Mercosul são em sequência alfabética.
Isto é: Argentina – Brasil – Paraguai - Uruguai (A, B, P e U)
Em Mendoza foi a vez da Argentina. Em dezembro será no Brasil. Nos anos anteriores, antes da crise paraguaia, as cúpulas em Assunção eram em junho (às vezes foi em julho). E em Montevidéu, Uruguai, eram em dezembro.
A Venezuela, que entrou no Mercosul em julho, transformando o quarteto em quinteto, seria anfitriã depois da vez do Uruguai (A, B, P, U e V).
E para encerrar, os pequenos cisnes do balé Tchaikovsky, na versão do American Ballet Theatre, 2005. Bom fim de semana a todos!
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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O autor do best-seller “O Príncipe”, retratado pelo pintor Santi di Tito em 1500. Segundo analistas, no Paraguai, o astuto florentino não teria passado de um aprendiz.
Caras e caros, já que o Paraguai novamente está nas manchetes internacionais, aqui segue um breve vocabulário político paraguaio. Os termos estão em guarani, idioma no qual os paraguaios preferem expressar as complexidades da intrincada política local.
O guarani é uma das duas línguas oficiais desse fascinante – e geralmente turbulento – país (que em guarani seria “Tetã Paraguai”).
Os analistas afirmam que se o florentino Niccolò Machiavelli – o Maquiavel (1469-1527) – tivesse conhecido o Paraguai, sentir-se-ia um aprendiz.
ATENÇÃO: O vocabulário paraguaio bem serviria para aplicação em outros países da região…
Pokaré – Ipsis literis, significa “mão retorcida”. Mas, segundo o falecido sociólogo paraguaio Helio Vera, o termo é utilizado para indicar um comportamento de lideranças políticas que consiste na mistura de astúcia, descaro, cinismo e traição.Vera explicava que o ‘pokaré’ é a valorização da esperteza (em vez da coragem).“Sobrevivente por instinto, o paraguaio preferirá sempre os sigilos da raposa do que os ferozes rugidos do tigre”, dizia Vera.
Exemplo dessa esperteza maquiavélica: Nicanor Duarte Frutos, quando era presidente – segundo dizia a oposição na época da reta final de seu mandato – teria realizado um brilhante exercício de ‘pokaré’ ao colocar um inimigo seu, o general Lino Oviedo, fora da prisão (onde cumpria pena por tentar um golpe de Estado) só para tentar roubar parte do eleitorado do então ex-bispo Fernando Lugo (que finalmente foi eleito presidente).
Yvytuísmo – ‘Yvytu’ significa “vento”. O termo ‘yvytuísmo’ indica “estar a favor do vento que sopra”. É aplicado sobre os políticos que mudam de posição de acordo com a conveniência, mesmo que isso implique em trair os colegas. Vira-casaca.
“Tudo é questão de aderir fervorosamente à corrente eólica predominante”, ironizava Vera.
Desta forma, um político que ontem à noite podia ser um frenético liberal, hoje de manhã poderia acordar e logo em seguida alardear ser o mais fervoroso colorado. Os analistas afirmam que “geralmente, no politico paraguaio é difícil definir uma posiçao ideológica. A mimetizaçao política é um esporte”.
Aájata aju - “Vou embora para vir”. A frase indica que o retorno de um político (a seu partido original, por exemplo) não fica comprometido.
Che ruvicha - “Meu chefe”. Expressão muito útil para demonstrar obediência.
O general Stroessner – que governou o país durante 25 anos – era o “ruvicha” que adorava muito “mongele’e”. Na foto acima, o presidente e general argentino Juan Domingo Perón abraça Stroessner efusivamente.
Mongele’e – A lisonja rasgada. O elogio exultante que os políticos de segundo escalão realizam aos donos do poder. “Aqueles elogios barrocos que Odorico Paraguassu fazia em ‘O Bem-Amado’ são amadores perto daqueles que fazem aqui”, me explicou um veterano diplomata paraguaio que conheceu bem o Brasil nos anos 80.
Ijapú - “Mentiroso”.
O Paraguai teve um genial compositor erudito, Agustín Pio Barrios, também conhecido como “Nitsuga Mangoré”. Ele nasceu em 1885 e faleceu em 1944.
Ele apresentou-se nos anos 20 e 30 na Europa e EUA. A imprensa o chamou de “o Paganini do violão das florestas paraguaias”.
Aqui, com o supimpa John Williams, de Agustín P.Barrios, “Maxixe”:
E “Sueño en la floresta”,
E aqui, “Villancico de Navidad”:
E aqui, a imagem do artista:
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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Espermatozóides aguardam na sala de espera, à espreita de entrar em ação na hora do orgasmo de seu dono. Cena do filme “Tudo o que você queria saber sobre sexo…” do cineasta Woddy Allen.
A vitalidade espermática do ex-monsenhor e presidente do Paraguai Fernando Armindo Lugo Méndez voltou a ocupar o espaço na mídia e nos comentários populares no Paraguai e nos países vizinhos.
Nesta terça-feira, o advogado do presidente, Marcos Fariña, anunciou que Lugo havia reconhecido que era o pai de um garoto de 10 anos de idade.
O menino foi o resultado de uma cópula há 11 anos com a enfermeira Narcisa de la Cruz Zárate, atualmente com 42 anos.
Segundo Fariña, o presidente – que era bispo católico na época do cruzamento de gametas com uma das integrantes de seu rebanho de fiéis – entrará em contato com Narcisa para que esta anule a paternidade concedida por seu esposo à criança.
Desta forma, Ángel (nome do garoto) deixará de usar o sobrenome Zárate, do pai que – embora não seja o biológico – o criou. Assim, passará a ostentar o sobrenome Lugo.
“Viu só, mamãe? Papai gosta de mim”, disse Ángel a Narcisa, depois de ser informado que seu pai finalmente o reconheceria legalmente.
Narcisa relatou que conheceu Lugo na cidade de San Pedro, onde era bispo. Ela aproximou-se do monsenhor para pedir conselhos, já que tinha problemas conjugais com seu marido. Lugo a aconselhou. Coincidentemente, também a engravidou.
Presidente Lugo segura firme seu bastão presidencial.
Este é o segundo filho que Lugo reconhece oficialmente. O primeiro foi Guillermo Armindo, reconhecido em 2009, depois de um escândalo suscitado por sua mãe, Viviana Carrillo, que apresentou na Justiça uma demanda por “paternidade irresponsável”. Na época, o menino tinha 3 anos de idade.
Outras duas mulheres entraram há anos com processos na Justiça, alegando que são mães de filhos de Lugo. Outras denúncias pairam sobre o presidente, embora sem processos nos tribunais.
A ministra da saúde, Esperanza Martínez, pré-candidata à presidência por um setor da esquerda, parebenizou Lugo por sua decisão (embora com 10 anos de demora) de reconhecer a criança. “Lamentavelmente neste país existem muitas crianças que não possuem reconhecimento paterno”, lamentou.
DEDUÇÕES E DÚVIDAS CARTESIANO-ESPERMÁTICAS:
1 - Lugo, bispo na época dos coitos, teria seguido as ordens do Vaticano, que indicavam que os católicos não deveriam usar métodos anticoncepcionais, entre eles, o condenado preservativo.
2 - Lugo teria usado preservativos, na contra-mão das ordens do Vaticano? Nesta hipótese, os preservativos teriam furado (nas duas ocasiões, com duas mulheres diferentes)?
3- Lugo seguiu as diretrizes do Vaticano de não abortar (nenhuma das mulheres envolvidas indicou que o então bispo sugeriu a interrupção da gravidez).
EVERY SPERM IS SACRED
Para continuar no embaldo espermático, recomendamos o ritmo divertido e ilustrativo deste sketch do filme “O sentido da vida”, do britânico grupo Monty Pyhton: Every sperm is sacred.
CAMISETAS
Na época do primeiro filho de Lugo floresceram as camisetas com dizeres irônicos sobre a paternidade do ex-bispo (quando ainda era bispo).
- “Papai Lugo, me reconheça”
- “Papai, don Fernando Lugo Méndez”
- “Filhos meus!”
Outra camiseta, também alusivas aos coitos desprotegidos do presidente paraguaio, ostentava os versos de uma canção do grupo paraguaio “Los Ángeles” que indicava que “Lugo tiene corazón pero no usa condón” (isto é, “Lugo tem coração” – em alusão a seu slogan de campanha – “pero no usa condón”, não usa preservativos). Outras t-shirts estavam destinadas ao nicho de mercado de pessoas que não consideram que o ex-monsenhor seja seu progenitor: “Não sou filho de Lugo”.
No Facebook também proliferaram grupos com alusões ao presidente do Paraguai
- “Sou filho de Lugo, e daí?”
- “Eu também tive um filho com Lugo”
- “Lugo, semental paraguaio”
Sem a high-tech do Facebook, muitos os paraguaios expressaram suas satíricas opiniões sobre seu próprio ex-celibatário líder com prosaicos – mas incisivos – grafitos de banheiro.
Os top five dos mictórios em Assunção na época do primeiro filho eram:
- O semental do Paraguai (esta, reproduzida aos montes depois que a terceira mulher, Damiana Hortensia Morán, indicou que Lugo, como homem, era “um fenômeno”)
- Pai de todos os paraguaios
- Super-pai
- Também quero ser bispo. Onde é que eu me inscrevo?
- Tem certeza de que seus filhos…são seus filhos?
Por qual motivo caras como este acima não contam com estátuas? Além de Gregory Pinkus, um dos criadores da pílula anticoncepcional, outra figura relativamente esquecida é Gabriele Falloppio, um dos mais importantes anatomistas do século XVI. Ele descreveu as trompas que levam os óvulos do ovário para o útero e que ostentam seu sobrenome. Mas o que o signore Falloppio tem a ver com o assunto desta postagem? Ele foi o criador do primeiro preservativo masculino devidamente documentado, no ano da graça de 1564. O médico defendia o uso desta proteção como forma de combater o flagelo daqueles tempos, a sífilis. E deu certo, segundo ele próprio escreveu: “convenci 1.100 homens a usar (o preservativo). E convoco Deus imortal para testemunhar que nenhum deles foi infectado”. O versátil Fallopio também cunhou a mundialmente famosa palavra “vagina” (e também criou o termo ‘placenta’). Falloppio nasceu em 1523. Deixou de existir 39 anos depois.
PÓS-COITO
Em tempo 1: O falecido general e ditador Alfredo Stroessner era o suposto pai de 20 filhos extra-matrimoniais. Outro defunto presidente paraguaio, Bernardino Caballero, teria gerado 77 crianças, segundo historiadores.
Em tempo 2: O Paraguai não é o único país da região onde costumam acontecer estas coisas.
Em tempo 3: Em entrevista que fiz com Lugo para o Estado em 2008, horas antes de sua eleição, o então candidato me disse que pretendia voltar à vida clerical assim que concluísse seu mandato presidencial. “Almejo uma vida monástica”, afirmou.
Charles II da Inglaterra (1630-1685), representante da dinastia Stuart, era enfático adepto do uso do preservativo, elemento contraceptivo desprezado pelo ex-bispo e atual presidente paraguaio Fernando Lugo (Charles II, retratado por Sir Peter Ley)
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
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E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. Jorge Luis Borges e María Kodama durante uma viagem no início dos anos 70. Nesta semana completaram-se 25 anos da morto do escritor na cidade de Genebra, Suíça, no dia 14 de junho de 1986. Esta postagem é parte da “Semana Borgiana” de nosso blog.
O lugar do derradeiro descanso do escritor argentino Jorge Luis Borges foi objeto de intensa polêmica ao longo do último quarto de século. A discussão começou meses antes da morte do escritor – que estava com um câncer terminal – quando seus amigos descobriram que sua secretária, Maria Kodama, havia levado Borges embora da Argentina e casado com ele por procuração por intermédio de Gustavo Grament Berres, que apresentava-se como cônsul paraguaio em Genebra.
A saída de Buenos Aires foi às pressas, e Borges mal pode se despedir de seus amigos, de quem Kodama já o estava isolando nos últimos meses.
O suposto cônsul registrou o casamento no desconhecido vilarejo de Colonia Rojas Silva, Paraguai. Mas, a trama tornou-se intrincadamente borgiana quando jornalistas argentinos que investigavam o misterioso casamento descobriram que o nome original do ex-cônsul era Benjamin Levi Avzarradel. Ele teria nascido na Argentina, mas havia sido adotado por um casal de uruguaios na tardia idade de 29 anos.
Para complicar, o governo paraguaio não reconhecia Grament Berres nem como cônsul nem como cidadão paraguaio. “É uma coisa estranha…Kodama apresenta-se atualmente, para qualquer tipo de documentação, como ‘solteira’ e não como viúva”, afirmou Alejandro Vaccaro, biógrafo de Borges e presidente da Sociedade Argentina de Escritores, enquanto – sentado em um café no bairro da Recoleta – levantava na minha frente uma sobrancelha em sinal de sutil desconfiança sobre a ex-aluna do escritor.
Mas apesar de casados, no testamento Borges definia Kodama somente como “a boa amiga”.
Antes de morrer, o escritor preparou um novo testamento, modificando radicalmente o anterior. Na versão antiga, Borges que não teve filhos, deixava quase tudo à sua irmã e sobrinhos e a Fani Uveda, sua fiel governanta durante quatro décadas. Na nova versão, Kodama transformou-se na única herdeira, a quem foi destinada todo o dinheiro, direitos de autor, objetos de arte e manuscritos.
Sobre as supostas irregularidades do casamento Borges-Kodama há um interessante artigo publicado pelo jornalista argentino Juan Gasparini, que reside na Suíça desde os tempos da ditadura argentina. O artigo, aqui.
Os falecidos ditadores Stroessner e Franco. No meio, Gramont Berres. Ou, Benjamin Levi Avzarradel
CASAMENTO – As suspeitas sobre o casamento dos dois aumentam quando se conhece o passado do cônsul. Gramont Berres sustenta que foi designado embaixador especial pelo ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner em 1983. No entanto, não possui qualquer documentação que prove que teve formalmente esse cargo.
Em 1991 foi detido nos EUA acusado de falsificação de documentos, e, à pedido da Suíça, foi extraditado para ali. O governo paraguaio sustenta que o problema não é com ele, já que não reconhece Grament Berres nem como cônsul nem como cidadão. No entanto, ao cônsul não lhe faltam fotos em roupas de gala com o ex-ditador Stroessner e o falecido caudilho espanhol Francisco Franco.
Gramont Berres voltou às páginas dos jornais ao longo da última meia década. Não em Buenos Aires ou Genebra, mas sim em Assunção, Paraguai, onde o governo do país o acusa de ter vendido no Velho Continente títulos da dívida nacional emitidos de forma fraudulenta. O Paraguai rechaça usar os cofres públicos para pagar uma dívida de US$ 85 milhões contraída por Gramont Berres. O caso foi levado à Justiça internacional e ainda percorre os tribunais europeus.
Voltando à Buenos Aires: a possibilidade de que o casamento de Borges e Kodama tenha sido falso soma-se à possibilidade de que possa ser anulado: o escritor casou-se nos final dos anos 60 com Elsa Astete. O casamento durou três penosos anos, e, como até fins dos anos 80 o divórcio não existia na Argentina (foi aprovado pelo Parlamento argentino em 1987, um ano após sua morte), Borges somente pode obter a separação de corpos e bens.
Este é um link para uma matéria do jornalista Jorge Camarassa sobre Astete, aqui.
Uma cópia da polêmica certidão de casamento feita no interior do Paraguai
Elsa nada pode opinar sobre isso entre o final dos anos 90 e a virada do século, já que estava esclerosada, internada em um asilo. Ou seja: o casamento com Kodama não é reconhecido pela lei argentina, e dependendo da veracidade do casamento via Gramont Berres, correria o risco de tampouco ser reconhecido pela lei do Paraguai e Suíça.
Se por acaso Borges e sua ex-aluna nunca se casaram (ou se o casamento não é válido), que direito teria Kodama de decidir o enterro em Genebra e insistir na permanência do autor de “O Aleph” nessa cidade?
Neste último quarto de século os “direitos” de Kodama sobre Borges foram discutidos em todos os aspectos, mesmo o da vida íntima. Segundo diversas testemunhas, Kodama nunca viveu na mesma casa de Borges em Buenos Aires, e nas inúmeras viagens que realizavam, sempre dormiam em quartos separados. Uma dedução generalizada é que Borges, sozinho e com medo de morrer dependendo de outros para suas necessidades mais básicas, aceitava tudo o que Kodama lhe impunha.
Túmulo de Borges em Genebra, Suíça. A lápide ostenta uma parafernália de símbolos, tal como uma nave viking, guerreiros com lanças, uma cruz de Gales, seu nome completo, além de uma legenda em anglo-saxão. Segundo me disse Maria Ester Vázquez, amiga e biógrafa de Borges, a legenda do túmulo genebrino “And ne forhtedon na” (“E não deverias temer”) é uma fútil recomendação para alguém como Borges”. Segundo ela, o desejo do escritor, expresso em seus versos “Só peço as duas abstratas datas e o esquecimento”, não foi levado em conta. “É uma lápide curiosa e complicada. A única coisa que falta ali…é uma frase da Mafalda!”, dispara com ironia.
MORTE - No dia 14 de junho de 1986, em Genebra, Borges faleceu de um câncer no fígado. Por determinação de Kodama o escritor foi enterrado no cemitério de Plainpalais, na vizinhança dos túmulos do líder presbiteriano João Calvino e do filósofo Erasmo de Rotterdam (décadas depois, ali seria a morada eterna do diplomata brasileiro Sergio Vieira de Melo). No entanto, Borges nunca escreveu uma linha que ratificasse um hipotético desejo de ali ser enterrado.
Durante as duas e meia últimas décadas os amigos de Borges, em uníssono, afirmam que Georgie – como o chamavam carinhosamente – queria ser enterrado em Buenos Aires, mais especificamente, no histórico cemitério da Recoleta, no mausoléu de sua família.
“Borges nunca quis ser enterrado fora de Buenos Aires”, me disse em entrevista em 1999 o escritor Adolfo Bioy Casaras, seu amigo por meio século.
Fani Uveda, empregada dos Borges durante décadas, concordou com Bioy em uma conversa comigo em 2005, poucos meses antes de morrer. “O senhor Borges queria ser enterrado na Recoleta”, disse.
Além dos amigos, os acadêmicos destacam que Borges, em vários de seus poemas deixou claro que pretendia passar o repouso eterno na Recoleta. Os especialistas citam o poema “O Fazedor”, no qual Borges refere-se a seu futuro descanso em Buenos Aires: “Quando eu esteja guardado na Recoleta / em uma casa cor de cimento”. Em “Fervor de Buenos Aires”, Borges indica: “Estas coisas pensei sobre a Recoleta / o lugar de minhas cinzas”.
Outro fator que reforça a teoria de que Borges pretendia ser enterrado na Argentina é que em 1982 deu uma procuração à sua amiga Sara Kriner para proceder com sua cremação após sua morte. Um ano antes de morrer Borges chamou o zelador do cemitério para que lhe fizesse um orçamento para preparar o mausoléu na Recoleta para um lugar para suas cinzas.
Kodama defende-se afirmando que Borges, antes de morrer, expressou que desejava ser enterrado “na neutra Suíça”.
Vaccaro não descarta que um dia o corpo de Borges retorne ao país: “talvez ele volte quando a passagem do tempo faça que estas paixões se acalmem. A Argentina tem uma forte tradição de repatriar seus homens célebres, como Carlos Gardel e o general José de San Martín, mortos no exterior”.
Túmulo da família Borges na Recoleta. Este lugar foi objeto de diversos poemas de J.L.Borges.
OS INCORRIGÍVEIS E O ENTERRO PORTENHO
“Os peronistas são são bons, nem ruins…são incorrigíveis”. A frase é de Borges, que tinha com os seguidores do general e presidente Juan Domingo Perón uma relação de elevada tensão. Em 1946, para humilhá-lo – e tentar calar sua refinada ironia com o novo governo – os peronistas removeram Borges de seu posto de diretor de biblioteca e o designaram “inspetor de galinhas e ovos” em feiras públicas. Nos anos seguintes, o Peronismo colocou sua irmã e mãe na cadeia.
Mas, no início de 2007, décadas após esses eventos, um grupo de parlamentares peronistas anunciou que pretendia trazer o corpo do escritor – enterrado em Genebra – para realizar um funeral em Buenos Aires.
O projeto da deputada María Beatriz Lenz, aliada da peronista presidente Cristina Kirchner, causou intensa polêmica no âmbito acadêmico. O projeto de lei contou na ocasião com o respaldo da Sociedade Argentina de Escritores (Sade), presidida por Alejandro Vaccaro.
Kodama enfureceu-se na ocasião: “ninguém me consultou sobre isso. É uma falta de respeito”.
“Borges é um ícone dos argentinos. Trazer o corpo de Borges é algo que devemos fazer pelos argentinos e também pelo próprio Borges”, afirmou Vaccaro na época. Ele argumenta que o desejo do escritor era ser enterrado na Recoleta, no mausoléu de sua família.
Para isso, os defensores de um funeral portenho para o escritor citam poemas como “A Recoleta”, onde dizia: “O anterior, escutado, lido, meditado, o realizei na Recoleta, ao lado do próprio lugar onde hão de me enterrar”.
Os peronistas eram incorrigíveis, embora pragmáticos. Os colunistas das páginas culturais destacaram que os peronistas preferiram esquecer as velhas rixas de lado e apostar no colossal business que é ter Borges, ícone da literatura, enterrado em Buenos Aires.
Borges e sua mãe, Leonor, em Londres em 1963. Ela foi seus olhos, secretária e respaldo permanente até sua morte, em meados dos anos 70, aos 99 anos. Kodama entrou no vácuo deixado pela forte personalidade de Leonor Acevedo de Borges.
“SOU UM CALEIDOSCÓPIO” (entrevista que fiz em 1995 com Maria Kodama para o Caderno 2 do Estadão )
Maria Kodama é suave e áspera ao mesmo tempo, um misto de delicadeza do nô e da agressividade do tango. Controlada, com total conhecimento de sua imagem, Kodama evita que se calcule sua idade. Por isso foge de perguntas capciosas como “qual é seu signo no horóscopo chinês?”. Depois de enfrentar as críticas de amigos de Jorge Luis Borges, que a viam como uma aproveitadora por seu casamento com o escritor, muito mais velho do que ela, finalmente conseguiu inaugurar em Buenos Aires a Fundação Internacional que leva o nome do escritor que nunca recebeu o Nobel.
- Foi difícil conseguir implantar a Fundação? O governo argentino não colaborou…
- Não, mas eu não pedi nada. É uma questão minha, de princípios. Recebi uma educação japonesa, tenho que lutar para conseguir as coisas. O importante é o esforço pessoal.
- Seu pai era japonês?
- Não falo muito sobre minha família…
- No Brasil a colônia japonesa é a maior do mundo. Gostariam de saber mais sobre a sra., conhecida por ser a única figura da intelectualidade argentina de origem nipônica…
- Hummm…Bem…meu pai era da região de Tóquio. Pensava ir aos EUA depois que seus pais haviam falecido. Um amigo perguntou porque não ia para a Argentina. Ele veio para cá, e em uma reunião conheceu minha mãe. Ela o viu e disse “vou me casar com ele”.
- Em que ano seu pai veio? (tentando descobrir a idade de M.K.)
- Não sei, nem se fala sobre isso.
- Logo em seguida ele se casou com sua mãe?
- Meu pai era muito boa-pinta. Separaram-se quando era muito pequena. Coisas das paixões fulminantes…
- Quando conheceu Borges?
- O conheci quando criança, desde os 16. Estava no colegial e me dava aulas introdutórias de anglo-saxão. Depois ditava algumas de suas coisas e lia para mim. Era algo na categoria de amiga, de aluna, de discípula. Nunca fui secretária de Borges, como a imprensa insiste em dizer. Depois quando cresci dava aulas de castelhano, ganhava bem e isso me permitia adequar os horários para ter tempo com Borges. Ad honorem, por prazer.
- Seu pai foi uma espécie de mentor intelectual?
- Meu pai era químico, mas me iniciou no amor pela literatura e a música. Borges dizia que meu pai me tinha educado para ele. Quando começamos a viajar, descobri que Borges tinha um conhecimento pictórico enorme. Descrevia as paisagens e fruíamos isso através de uma recordação comum, o que meu pai me havia ensinado e o que Borges havia visto antes da cegueira.
- Seu pai conheceu Borges?
- Quando terminei o colegial quis me levar para o Japão. Não falava o japonês, não queria ir. Borges o convenceu para que me deixasse aqui.
- Borges lhe dava aulas no colegial?
- Era meu professor particular. O conheci por meio de um amigo de meu pai, quando tinha 12 anos. Este senhor pensou que se conhecia alguém como Borges seria importante para minha educação.
- Esta foi a primeira vez que ouviu falar de Borges?
- Quando tinha cinco anos leram para mim “Caesar and Cleopatra”. Gostava de seu amor e paixão. A figura de César era avassaladora, o conquistador, o gênio. Na mesma época me leram um poema de Borges. Era “Two English Poems” . A linha que ficou para sempre é “I am trying to bribe you…”
- …“With danger, with uncertainty, with defeat” (estou tentando te enganar, com perigo, incerteza, com derrota). É meu verso preferido também.
- (Ri) Impresionou-me como essa pessoa podia ser todo o contrário de César. Um, o conquistador; o outro, oferecendo à mulher amada a incerteza…
- Que dizia Borges de su predileção por este verso?
- Borges tinha ciúmes (ri). Dizia que era apaixonada por César. Não gosto de Bernard Shaw . “Você, María, está paixonada por Shaw”, dizia Borges. “O que a levou a sentir atração por Julio César não foi outra coisa que as palavras de Shaw en J.C”.
- Borges era ciumento?
- Era ciumento à sua forma. Éramos verdadeiros personagens.
- Borges foi o amor de sua vida?
- Creio que sim, ele é a minha vida.
- E a senhora, a dele…
- Não sei, mas suponho que sim. Suponho que essas coisas são eternas.
- Em “Siete Noches”, Borges fala da sonoridade do inglês e cita um verso, “I will love you for ever and a day”. Sente isso?
- “…Para sempre e ainda um dia depois”. Era uma citação de Keats, creio….Sim, é o que sinto.
- Gosta do tango como Borges gostava?
- Não gosto. Borges dizia que eu pertencia a uma geração que não escutava tango. Gosto, como ele, das milongas, pois possuem um ritmo alegre, ágil.
- Rock. O que Borges pensava?
- Gostava dos Beatles e dos Rolling Stones. No Palace de Madrid encontramos Mick Jagger, que se aproximou para lhe dizer que o admirava. “Quem é o senhor?” perguntou Borges. “Sou Mick Jagger”, disse o cantor. “Ah…o dos Rolling Stones”, disse Borges. Jagger quase desmaiou.
- Porque nunca publicou seus próprios relatos e poemas em forma de livro?
- Escrevo contos, publicados em revistas literárias. Livros, ainda não. Mas o farei, quando fique em liberdade.
- E porque nunca publicou livro algum?
- Porque ao estilo japonês, nunca quis publicar durante a vida de Borges. Isso teria produzido un conflito.
- Seus contos são borgianos?
- Quando publiquei meu primeiro conto a reação de Borges foi de encantamento: “Todos esperavam um conto em meu estilo e foi diferente”.
- Enfrentou preconceitos com seu casamento com Borges?
- Não, caso contrário não estaria aqui. Houve reação por parte de senhoras abandonadas, viúvas, deseperadas. Parecia que era a primeira mulher na Argentina que se casava com um homem separado.
- Nunca sentiu racismo na sociedade argentina?
- Nunca, a primeira vez que o senti isso foi em um escritor que me chamava “a japonesa”. O embaixador do Japão chegou a me perguntar se havia nascido lá. Quem disse isso era uma pessoa com ressentimentos.
- Na cabeceira de Borges estavam Blake, Donne e Kipling. Quem tem em seu criado-mudo?
- Gosto muito de Blake, Donne…
- Qual Donne, o da fase mais erótica ou da religiosa?
- …Ambas. Adoro essa mudança. Gosto da Ilíada, um livro extraordinário com o qual pode-se aprender muitas coisas sobre a conduta humana.
- Como se definiria a si mesma, sra. Kodama?
- Eu não sei como sou. Em geral definimos aos outros. Sou como um caleidoscópio; de acordo com o olho e o desenho interior, vou mudando.
Borges ouve e Kodama lê.
O ETERNO RETORNO DAS REEDIÇÕES (matéria publicada em 1995)
Quase dez anos após a morte de Jorge Luis Borges, a reedição de obras que ele não desejava ver republicadas torna-se realidade. Como Max Brod, amigo de Kafka que trai sua promessa no leito de morte do amigo e postumamente publica a obra do escritor tcheco, Maria Kodama reedita um Borges secreto. A pergunta que paira no âmbito intelectual de Buenos Aires é “até onde é válida a vontade póstuma dos escritores?”.
Primeiro foi a publicação de “El Idioma de los Argentinos”, obra da juventude que Borges havia repudiado. Kodama, sua viúva, autorizou sua reedição. Poucos exemplares da edição original restavam. A fome por esse livro era tanta que poucos repudiaram o ato de Kodama, que ia contra a vontade de Borges.
Depois veio a publicação de “Borges en Revista Multicolor”. A obra recolhe relatos, resenhas e traduções que o autor de “Ficciones” e “El Aleph” escreveu durante sua estadia no suplemento cultural do jornal “Crítica”: a “Revista Multicolor de los Sábados”.
A colaboração borgiana durou pouco mais de um ano, o período de vida da publicação. O jornal exigia qualidade, mas dentro de uma linha editorial que pudesse interessar ao grande público. Borges começou como secretário. Logo chegou a co-diretor. Sua participação é esteticamente antípoda ao resto de sua obra. O jornal era sensacionalista e Borges, que precisava sustentar a família (seu pai havia falecido pouco antes) se dispunha a fazer qualquer coisa. Ele mesmo diria anos depois: “Nunca pensei reunir esses trabalhos em um só volume. Esses artigos iam destinados ao consumo popular através das páginas de “Crítica” e eram tremendamente pitorescos”.
Nessa época Borges era desconhecido da imesa maioria dos leitores argentinos. Só os seus amigos sabiam de seu valor. Quando a revista fechou foi organizado um banquete para comemorar: Borges não teria mais que escrever “lixo”.
O autor de “O Aleph”e “Ficciones”, segundo o jornalista Marcos Mayer, “sempre teve muito presente o marco e o suporte em que publicava. Soube encontrar o tom e imaginar um leitor com o qual podia chegar a sintonizar. Talvez a mesma atitude de seu tão criticado acesso aos meios. Borges amava tanto os livros como para supor que sua paixão por Stevenson ou Chesterton ou Cervantes tinha que ser compartilhada pelos outros”.
Mayer, estudioso do tema borgiano sustenta que “ele não recusava nem aceitava a lógica que lhe ofereciam os diversos meios em que trabalhou. Propunha uma nova versão desse meios para que suas paixões – que supunha universais, sem mais argumentos que suas leituras – encontrassem algum ponto de encontro possível. Para que isto não acontecesse não podia pensar em termos de cultura alta e baixa. Borges soube falar dos paradoxos do pensamento para o sensacionalista e populista jornal “Crítica” e sobre dizeres nos para-choques de caminhões para a elitista ‘Sur”.
A FAVOR
“Inteligência e força”. Assim Maria Kodama, viúva do escritor, define a característica principal dos textos publicados. Mais do que recusa em reeditar, Borges teria sido indiferente com estes livros. Eles circulavam por meio de fotocópias e as manipulações que a crítica fazia com estas obras. No próprio prólogo do livro Kodama sustenta que “alguém que se aproxima a um livro é o suficientemente sensível e inteligente para encontrar seu autor em liberdade. Creio que qualquer leitor, apesar dos defeitos de estilo destas obras – estilo que Borges repudiou depois -, pode sentir a força, a inteligência com que o autor trata estes temas que serão aperfeiçoados, refutados ou aprofundados em sua obra, esculpida ao longo do tempo com uma perfeição incrível”.
CONTRA
“De forma alguma”. Determinado em defender a vontade do seu grande amigo, o escritor Adolfo Bioy Casares, autor de “La Invención de Morel” e co-autor com Borges de “Seis Problemas para Don Isidoro Parodi” considera que os herdeiros devem respeitar a decisão e não publicá-los sob nenhum ponto de vista e por motivo algum. Para os estudiosos de Historia da Literatura podem ser atrativos. Para o leitor comum, não.
Fani, a fiel criada dos Borges
BENFEITOR SALVA GOVERNANTA DE BORGES DA MISÉRIA (entrevista que fiz em 1999 com Fani Uveda, a governanta da família Borges)
Um pequeno altar, com fotos de Jorge Luis Borges, é a única coisa que restou do autor de “Ficções” a Epifanía Uveda, 77 anos, governanta dos Borges durante mais da metade de sua vida. “Fani”, como era chamada carinhosamente, passou de cuidar dos detalhes mínimos da vida de Borges, a estar sem uma casa própria e na miséria.
Pouco antes de falecer em Genebra, Borges modificou seu testamento. Na versão anterior, Fani herdaria metade de seus bens e ficaria com o famoso apartamento da rua Maipú, onde havia cuidado da mãe de Borges e do próprio durante 40 anos. A outra metade, seria dos sobrinhos de Borges e de Maria Kodama.
Misteriosamente, oito dias antes de morrer, modificou seu testamento, tornando Kodama única herdeira. A ex-aluna e ex-secretária transformada em viúva expulsou a ex-governanta, cobrando-lhe até o condomínio dos cinco meses passados desde a partida para a Suíça. Anos depois, a ponto de ir morar em uma favela, Fani colocou uns sapatinhos da infância de Borges à venda. Um colecionador, Alejandro Vaccaro, soube disso, e se dispôs a ajudá-la: colocou Fani na sede de uma associação vinculada ao Clube Boca Juniors. Ali ela limpa o lugar e tem casa e comida.
Vaccaro fica indignado quando fala sobre o caso: “Kodama foi nojenta com Fani”, disse ao Estado. E especula sobre uma possibilidade: “vou dizer algo que nunca disse. Se Fani tivesse sido um pouco mais inteligente, Borges teria se casado com ela. Como aconteceu com Proust e sua governanta Celeste. Se Fani não tivesse sido a mulher simples e honesta que sempre foi, teria feito isso”.
Na casa decorada com bandeiras do time do Boca, ela falou ao Estado, e sustentou, da mesma forma que Bioy Casares afirmava, que Borges não queria partir para a Suíça com Kodama.
No dia que ia viajar, Fani foi avisá-lo que o carro que ia levá-lo ao aeroporto havia chegado. “Não quero ir, Fani”, disse Borges. “Se eu for, morrerei por lá”. Nesse momento, Fani sustenta que entrou Kodama, que ao ouvi-lo, ameaçou: “eu vou embora e não volto mais”. Assustado, Borges concordou, e foi colocado às pressas dentro do carro. “Foi embora sem me dar adeus. Isso vai me doer por toda a vida”, diz.
Segundo ela, Borges tentou o suicídio um dia que Kodama bateu a porta de casa dizendo que nunca mais o veria. Borges encheu a banheira de água fervendo, e pretendeu matar-se entrando ali. Foi só colocar os pés, e desistiu. “Coitado, ficou cheio de bolhas e sentindo-se ridículo”, diz.
Falando sobre Borges como se estivesse vivo, ela sustenta que “ele se apaixona sempre”. E aproveita para contar uma anedota sobre Borges e as mulheres: “após a cerimônia de casamento com Elsa Astete foram na casa da mãe de Borges. Nessa mesma noite, haviam ocorrido protestos nas ruas da cidade. A mãe pediu que eles ficassem e dormissem ali. Elsa negou-se. Como ia passar sua noite de núpcias na casa da sogra? Ela e Borges discutiram e Elsa foi embora sozinha. Mesmo casado, Borges ficou essa primeira noite na casa da mãe.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
Hoje, sábado, 14 de maio, o Paraguai celebra seu bicentenário de independência. E, que melhor forma de homenagear um país do que mostrar um de seus emblemas culturais, isto é, o escritor Augusto Roa Bastos (1917-2005)? Bom, então aproveito e coloco aqui a íntegra da entrevista que fiz com o autor de “Yo, el supremo” em dezembro de 1995, após uma conferência sua no Instituto Cultural da Espanha em Buenos Aires. Na época, Roa Bastos havia acabado de lançar seu livro “Madame Sui”. A conversa durou quase uma hora. Seus assessores queriam levá-lo para jantar. Mas, este gentleman das letras paraguaias preferiu ficar batendo papo.
“Os mitos se esgotam, como o poder” afirma pausadamente Augusto Roa Bastos, o mais importante escritor paraguaio deste século, que acaba de lançar seu último livro: “Madame Sui”, a história de uma amante do todo-poderosos ditador paraguaio Alfredo Stroessner entre 1954 e 1989.
Pouco conhecido no Brasil, este colossal senhor de pouco mais de um metro e meio de altura já ganhou em terras paulistanas o prêmio Letras do Memorial da América Latina. Na terra do Quixote recebeu o prêmio Cervantes, o mais cobiçado reconhecimento aos escritores de língua espanhola. Recentemente recebeu o Prêmio Nacional de Literatura de seu país. Suas histórias mesclam vidas reais com tradições guaranis, salpicados com a fina ironia que marca sua obra.
Veterano da Guerra do Chaco (1935-36), Augusto Roa Bastos passou logo para outro campo de batalha: o europeu. O mundo definia seu futuro nos campos da Rússia e nas praias francesas e o jovem paraguaio foi para cobri-la. Ao voltar para seu país, em 1949, assistiu os primórdios do regime autoritário, que em 1954 se tornaria a ditadura de Stroessner.
Ele, que havia sobrevivido a duas décadas de tiroteios, percebeu que uma ditadura pode ser mais cruel que uma trincheira. Roa Bastos chegou à conclusão de que, para continuar vivo, era mais adequada a dura estrada do auto-exílio.
O escritor partiu rio abaixo em direção a Buenos Aires, onde viveu até 1976, quando outro coup d’état o obrigou mais uma vez ao caminho do exílio. Desta vez foi para a capital de todos os refugiados: Paris.
Mas Roa Bastos sustenta: “como dizia Northop, o shakespereano personagem de Ricardo III, não há pior exílio que o exílio do idioma”. Roa Bastos sabe disso com proficiência. Cidadão de um país onde o guarani e o espanhol travam um contínuo embate – e ocasionalmente se cruzam – considera que “a língua viva é a oral. A língua morta é a oficial”.
Em “Madame Sui” Roa Bastos conta a história da uma amante de um ditador. A dedução é que o general em questão é Stroessner, embora o escritor não o mencione diretamente: “A tirania que serve de moldura a esta história, inspirada nas ideologias do nazismo e do fascismo e continuadora daqueles regimes de força, ao final da Segunda Guerra Mundial, foi a mais longa e cruel das que assolam neste século a América do Sul”, diz.
Madame Sui foi a favorita desse estranho e cruel ditador de origem teutônico, que parecia mudo de tão calado (mas que reduziu ao silêncio uma sociedade durante mais de três décadas e meia). A curva de transformação da garota primitiva, quase selvagem, em cortesã refinada e culta do final de sua evolução, não alterou o destino de Madame Sui. Ela o viveu de uma forma espontânea, talvez inconsciente, de rebelião”.
Com voz pausada e gestos finos, Roa Bastos falou ao Estado sobre os mitos, a mulher e “Madame Sui”.
Estado – Sua obra parece se basear sempre em fatos históricos…
Roa Bastos – A literatura sempre se apresentou para mim como uma forma de viver literariamente a realidade da História. A realidade dos mitos e das formas históricas penetram profundamente na superfície do destino humano.
Estado – Essa dualidade que há no Paraguai, entre o espanhol e o guarani, como se reflete na literatura?
Roa Bastos – Não são problemas puramente literários. São problemas de vida, de História…são problemas de pessoas que levam em cima o destino de um país, que sempre esteve encurralado e assediado pela fatalidade. As leis dessa fatalidade são inescrutáveis. E isto também se reflete na palavra escrita. Ela, ao ser escrita, perde a vibração natural da palavra oral, que é a palavra da cultura paraguaia, em sua origem, em seu desenvolvimento. Também a presença permanente destas figuras simbólicas contribuem a definir o destino de toda uma coletividade. Há mitos centrais que correspondem à todas as culturas. Acho que eles definem a condição humana. A forma de ser mais universal é se ancorar no natal, nas raízes que penetram muito fundo em uma realidade cultural, histórica.
Estado – Por exemplo?
Roa Bastos – Para não falar em abstrações: há uns mitos centrais na cultura guarani, por exemplo, o mito de origem dos guaranis, é o da “Terra Intocada” ou a terra sem mal, não contaminada pela culpa humana.
Estado – Como o Éden, no cristianismo…
Roa Bastos – E não só esse exemplo. Os mitos recolhem isso que está submerso no magma da condição humana. Existe também o mito dos “Paus Cruzados”, que é o símbolo da cruz, que chegou muito depois ao Paraguai. Há evidentemente uma similitude antropológica, apesar das diferentes raças que há no mundo. Na mitologia e na cosmologia dos guaranis, os “Paus Cruzados” eram simplesmente as fundações do Cosmo. A Terra seria sustentada por estes paus cruzados. Curiosamente, mais tarde seria o símbolo do cristianismo … Como a suástica, que de origem hindu, serviu de símbolo a uns dos poderes ditatoriais mais terríveis que se abateram sobre a espécie humana. Há muitas coincidências nos mitos dos povos que habitam a Terra. Isso não é fortuito. Deve-se a estrutura de nossa condição humana, binária.
Estado – Como assim?
Roa Bastos – Vemos o mundo desde um ângulo que tem o olhar de um binóculo. Dois olhos que veem em uma mesma direção, depois juntam as imagens e assim têm uma projeção estereoscópica, de relevo. Os dois lóbulos parietais no cérebro também são testemunhas da condição binária. Não é uma condição de duplicidade, mas a condição bipolar das energias que residem no ser humano. Por isso a mulher é superior ao homem.
Estado – Isso é uma galanteria ao belo sexo, sr. Roa Bastos (ao lado, durante a entrevista, um grupo de intelectuais portenhas ouvia com atenção o escritor)…
Roa Bastos – Não (ri, e olha para elas)…Elas tem dois lóbulos interiores, os dois ovários, que fazem possível a gestação do ser humano. Não estou querendo fazer uma declaração de fé na mulher, mas é que o Paraguai, país que foi devastado pela hecatombe do século passado (a Guerra do Paraguai, onde morreram três quartos da população do país) foi reconstruído pelas mulheres. Este é um exemplo épico, estóico, o da mulher paraguaia. A submissão das mulheres não é a forma mais adequada para o desenvolvimento da espécie humana.
O ditador & general Alfredo Stroessner Matiauda – que controlou o Paraguai com mão de ferro durante três décadas e meia – passeia pelas ruas de Madri ao lado do anfitrião e congênere espanhol, o generlíssimo (por la gracia de Dios, como costumava dizer) Francisco Franco Bahamonde. Stroessner e sua ditadura seriam o alvo de diversas obras de Roa Bastos.
Estado – O sr. conta a história do ponto de vista de uma mulher. Para um homem, talvez, escrever do ponto de vista feminino não deve ser fácil…
Roa Bastos – A protagonista da obra, Madame Sui, é uma adolescente, que morre muito cedo e passa pelas piores vissicitudes que podem ocorrer ao ser humano, concretamente, a uma mulher. Isso me levou à necessidade de investigar de até onde o ser humano pode manter sua inocência nata, passar por todas estas provas e manter o calor de seu coração. Madame Sui não tinha consciência de culpa, sentimento muito ligado à religião. Ela era um ser livre, um “animalzinho vital”. Um dos personagens, que também narra a história, lhe coloca o apelido de “cabritinha doida”. Ela se suicida por esse amor profundo por este personagem que não tem nome, que chama de “Ele”. Ela não tem outro remédio senão refugiar-se na morte. Essa mulher, que cometeu as maiores aberrações do ponto de vista sexual, manteve intacta em si, uma dignidade profunda e sua inocência nata, que acredito que existe no ser humano mais culpado.
Estado – Mas como foi o processo de escritura desde o ponto de vista de uma mulher?
Roa Bastos – Utilizando um recurso de mimetismo disse “gostaria de escrever esta história como a teria escrito uma mulher”. Somente uma mulher pode escrever sobre uma mulher. Meu esforço, mais que literário, da construção de uma história, foi o fato que se possa assimilar esse estilo profundo que tem a mulher escritora. Sei que fracassei e o fracasso às vezes se constitui em suecesso se o reconhecemos….Li neste dois último anos obras escritas por mulheres, querendo mimetizar esse estilo. Bernard Shaw dizia que um autor deve ser tão malvado ou tão bondoso como o mais maldito seus personagens, e também como o mais valorizado. Se um escritor não pode alcançar na altura nem o bem nem o mal como seus personagens, tampouco pode escrever sobre eles. Esta obra pelo menos tem a intenção da noção de mundo, a sensibilidade, essa prodigiosa capacidade de intuição que a mulher tem mais de que o homem e está negada a ele. Admito meu fracasso, mas tentei essa possibilidade.
Estado – Há outra madame famosa na história paraguaia, a madame Lynch, mulher do ditador Solano López. O Paraguai parece pródigo em mulheres fortes…
Roa Bastos – A tendência da protagonista do livro é se apoiar em alguns mitos. Neste caso, com a madame Lynch, uma mulher legendária à qual madame Sui queria se parecer. Ela é um avatar de outro personagem. No livro “Filho de homem” ela se chama Lágrimas González. Não a transformei, mas lhe dei outro destino, fazendo-a mestiça de paraguaio e japonesa. Mas os mitos se esgotam, como o poder. Então ela se aferra a outro mito mais próximo. Por coincidência, sob a lei da casualidade, que é uma das mais rigorosas que existem no mundo e na vida humana, cai em suas mãos o livro de Eva Perón, “A razão de minha vida”. O mito de madame Lynch se transforma. Agora ela quer ser como Evita. E provavelmente um de seus sonhos, quando aceita ser a hetaira, a concubina do Ditador, é que este lhe dê poder e assim possa imitar Eva Perón e o que esta fez pelos descamisados na Argentina, fazendo o mesmo pelos pobres no Paraguai. Todos este mitos se diluem com o tempo e o que fica é a total solidão do ser humano diante do mistério da vida e essa fenda intransponível que é a morte. Eu, como escritor, já esqueci um pouco do que escrevi. Acho que ela se auto-sacrifica para compensar esse declínio que se produz em seu ser com a perda do amor que ela considerou eterno.
Estado – Os escritores exilados parecem ser os que melhor entendem sua pátria, disse Vargas Llosa. O sr. que colocaria nessa categoria?
Roa Bastos – Absolutamente, não. Corre-se o risco de dar uma imagem falsa de seu país. A perspectiva aumenta os excessos da imaginação. Mas os que ficaram no Paraguai não se sentiram estimulados para escrever. Todos aqueles que escrevíamos, por essa imensa carga de conceitos que a palavra leva, fomos embora. Assim surgiu uma literatura ausente. Acho que a maioria dos escritores da América Latina começaram a escrever durante o exílio talvez por um impulso desencadeado de não perder a língua nativa ao se ver em terras estrangeiras.
Estado – As ditaduras da América Latina deram esse tom diferente à literatura do continente?
Roa Bastos – Influiu muito. A palavra sempre carrega um sentido, o famoso significado do qual falavam os estruturalistas. Há uma espécie de fascinação pelo poder na qual é inevitável cair. É difícil para a literatura escapar à repressão. É mais fácil para a música ou a pintura se esquivarem da perseguição política. O poder não lê. Como não faz isso, manda preparar relatórios. E os relatórios são tão sucintos e resumidos que vão tachando as obras como perigosas para o regime. Além disso há o problema que essa literatura perseguida corre o risco de ser panfletária. Sempre resisti a essa noção da literatura engajada. A literatura mais comprometida não é aquela que dá sinais de compromisso, mas a que o pratica.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Paul e Maradona? Não, trata-se do incrível polvo que os tripulantes e passageiros observavam desde o elegante salão principal do submarino Nautilus, do capitão Nemo, da obra do genial escritor francês Jules Verne. A nacionalidade desse polvo anônimo era desconhecida, bem como a nacionalidade do capitão Nemo. A gravura é do ilustrador preferido de Verne, o francês Édouard Riou (1833-1900), discípulo de outro batuta artista, Gustave Doré (1832-1883)
PAUL E JORGE, ORÁCULOS RIVAIS – Nunca antes na História da Argentina um polvo foi alvo de tantos comentários como Paul, o octópode residente do aquário da cidade alemã de Oberhausen. O cefalópode, nascido na Inglaterra mas criado na Alemanha, vaticinou – à sua maneira ‘polvesca’ – que a Argentina vai ficar de fora da Copa do Mundo.
Os setores da torcida argentina que se aferram a superstições acompanharam preocupados os acertos anteriores de Paul.
Longe da fumaceira que saia de rachaduras no chão no Oráculo de Delfos para que a pitonisa de plantão emitisse suas predições, o modus operandi do polvo Paul para vislumbrar o futuro futebolístico é o de escolher a comida que está em um dos dois recipientes que seus donos humanos lhe colocam.
O polvo, até agora, concentrou-se apenas nos jogos nos quais a seleção alemã participa (não avaliou jogos nos quais o teutão time não esteve presente). Todos os resultados previstos pelo octópode foram corretos, até o momento.
E, para desacreditar os críticos que só enxergam uma manipulação nacionalista de seus tentáculos, o polvo, como prova de neutralidade, no embate Alemanha-Sérvia escolheu o recipiente sérvio.
Desta forma, dias antes do jogo vaticinou a vitória da seleção balcânica, posteriormente confirmada no estádio.
No caso do embate Argentina versus Alemanha, o polvo Paul demorou mais do que o costumeiro em escolher a comida. Paul levou aproximadamente uma hora até comer o mexilhão que estava no frasco com a bandeira alemã. Interpretação dos especialistas: a Alemanha vencerá, mas com grandes dificuldades.

O polvo na antiguidade: aqui, aparece no escudo de um guerreiro grego em um vaso de cerâmica.
Fanáticos em Buenos Aires propõem que o octópode anglo-germânico seja transformado em uma paella. O jornal “El Dia”, da cidade de Quilmes, avaliando o tamanho de Paul, indicou que para prepará-lo como ‘polvo à galega’ seriam necessárias quatro batatas de tamanho médio, azeite de oliva a gosto, além de umas boas pitadas de pimentão. O jornal também indica que o polvo pode ser preparado ao escabeche ou na grelha. As recomendações culinárias-futebolísticas do “El Día”, aqui.
Outros, sem intenções de acabar com a vida do cefalópode transformado em pitonisa, anunciaram que a Argentina conta com seus próprios oráculos animais.
Esse é o caso da tartaruga Jorge, que reside em um aquário da cidade de Mendoza, no sopé da Cordilheira dos Andes.
Jorge foi colocado na frente de uma bandeira da Alemanha e de outra da Argentina. O quelônio em questão optou por ficar embaixo da bandeira argentina, atitude que foi interpretada pelos funcionários do aquário como um sinal de que a Argentina vencerá neste sábado.
Na Alemanha, como contraponto às propostas argentinas de transformar Paul em componente de paella, apareceram sugestões para que Jorge vire Schildkrötensuppe. Isto é, no idioma de Johann Wolfgang von Goethe e Heidi Klum, ‘sopa de tartaruga’.
Jorge possui 70 anos e pesa 100 quilos. Ele está no aquário de Mendoza desde 1984. Ao longo desse período o quelônio não havia exibido sinais de apreciar esse britânico sport.
Mas, para reforçar o vaticínio de Jorge os torcedores imediatamente recorreram a outros oráculos animais. Esse foi o caso de Sayco, um golfinho do aquário do balneário argentino de Mar del Plata, que também profetizou a vitória argentina, na interpretação de seus treinadores.
O modus operandi de Sayco foi do de pular quatro metros e bater com a ponta de sua boca uma bola com as cores da Argentina. O mamífero não escolheu a outra bola pendurada, decorada com as cores da Alemanha.
O problema, segundo os especialistas no vasto universo dos oráculos, é que nem Jorge e Sayco possuem experiência prévia como profetas, ao contrário de Paul, que iniciou sua nova profissão semanas atrás, quando a Copa do Mundo começou.
Com ironia, nesta sexta-feira, o sóbrio jornal “La Nación” estampou em sua edição online a notícia de que Paul havia acertado o resultado. No entanto, em outro jogo … a notícia, aqui.

Na antiguidade, muitas culturas acreditavam que o mundo estava instalado acima de uma tartaruga. Agora, muitos acreditam que a Copa do mundo depende de um quelônio.
SUPERSTIÇÕES MARADONIANAS – E já que o universo da Copa do Mundo permite as mais delirantes especulações, teorias, análises e crenças, incluiremos aqui uma lista das superstições do técnico Diego Armando Maradona.
“El Diez” (O Dez) pratica uma série de rituais com a certeza de que isso lhe possibilitará obter a vitória na Copa do Mundo.
Aqui seguem algumas das várias superstições maradonianas:
a) No dia dos jogos fala com suas filhas por telefone. É sine qua non. Não pode ser pessoalmente. Tem que ser por telefone, com as duas.
b) No estádio, os parentes devem sentar na primeira fila. Todos.
c) Maradona não usa pijama. Dorme com a camiseta da seleção. Com o número 10 nas costas.
d) Maradona sempre dá uma coletiva de imprensa antes dos jogos no estádio em Pretoria. No entanto, neste sábado isso não será possível. Terá que ser na cidade do Cabo. Maradona não gostou de ter que ‘quebrar’ essa tradição.
e) Maradona sempre sai do quarto uma hora e meia antes dos jogos, Exatamente uma hora e meia antes.
f) O técnico, antes de cada jogo, aproxima-se de um grupo de torcedores que sempre lhe entrega algum objeto com representações pictóricas da copa de 1986 (a que ele venceu): um jornal, uma revista, uma foto daquela copa.
Mais tartarugas: gravura japonesa do período Edo (1603-1868)
TEOLOGIA E COPA, NO PARAGUAI: O presidente do Paraguai, Fernando Lugo, recorreu a seu know-how sobre teologia dos tempos em que foi bispo da Igreja Católica (ele deixou o sacerdócio – e alguns filhos extra-batina pelo meio do caminho – poucos meses antes de assumir a presidência da República) e afirmou que Deus, em sua “Justiça Divina” fará que um dos países do Mercosul chegue à final da Copa do Mundo.
Lugo, famoso por seu apreço pelo futebol, sustentou que “Deus fará Justiça. Pelo menos vai querer que alguma seleção do Mercosul esteja na final”.
Segundo Lugo, o fato de que todas as seleções do bloco do Cone Sul ainda permaneçam dentro da Copa é uma demonstração da Justiça de Deus.
Além de indicar que o Ser Supremo interromperia seus afazeres cósmicos para definir um evento esportivo organizado pela FIFA, o ex-bispo e presidente também interpretou o recente comportamento de Joseph Blatter (presidente da FIFA) – de pedir desculpas pelos problemas que as seleções da Inglaterra e do México tiveram com os árbitros – como uma intervenção divina nos assuntos da Copa do Mundo.
“Por esse motivo (isto é, Deus) Blatter pediu perdão pela má atuação de alguns árbitros”, afirmou o ex-bispo, categórico.

Detalhe da obra “Criação do Sol e da Lua”, na Capela Sistina, Vaticano, 1511. A face divina na a concepção de Michelangelo Buonarroti. Segundo Lugo, o Ser Supremo está de olho nesta Copa.

Detalhe mais amplo, da mesma obra de Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (nascido em Caprese, 1475; falecido em Roma, em 1564). Não são bolas de futebol ou jabulanis nas duas extremidades… do lado esquerdo, o Sol. Do lado direito, a Lua.
VUVUZELAS E POLÍTICA, NO PARAGUAI: As vuvuzelas, ou, pelo menos, as mini-vuvuzelas chegaram também ao âmbito político paraguaio. O début desse instrumento de sopro ocorreu no Parlamento do Paraguai, em Assunção, quando o senador Alfredo Jeaggli – que também ostentava um gorro frígio, vermelho, comme il faut – empunhou uma versão ‘mini’ do instrumento sul-africano para interromper o discurso do presidente Fernando Lugo.
Jaeggli explicou sua atitude: “este governo é um circo, e em um circo sempre existem palhaços”.
O senador, intensamente influenciado pelo clima de Copa do Mundo, gritou no meio do discurso presidencial: “o povo tem que se respeitado!”. Na sequência, como se fosse um árbitro, exibiu um cartão vermelho, em sinal de falta do presidente Lugo no “jogo da política” paraguaia.
COPA E COMÉRCIO EXTERIOR UNIÃO EUROPEIA-MERCOSUL: Na terça-feira as delegações dos países do Mercosul e da União Europeia retomaram as conversas suspensas desde 2004 para tentar conseguir um eventual Tratado de Livre Comércio.
As conversas iniciaram na terça-feira e foram encerradas nesta sexta-feira.
No entanto, as cruciais discussões para definir o futuro dos bilionários fluxos comerciais foram interrompidas em diversas ocasiões para que os negociadores pudessem ver os jogos da Copa.
As discussões entre os dois blocos comerciais terminaram de forma apressada nesta sexta-feira de manhã, já que quase todos os participantes das negociações – pagos pelos contribuintes de seus respectivos países – queriam ver os jogos da jornada.
MIX INSTRUMENTAL PARA RIVALIZAR COM AS VUVUZELAS
Bumbo peronista, ideal para infernizar tímpanos alheios
- Uma alternativa para rivalizar com as vuvuzelas nas próximas copas poderia ser a criação de um mix instrumental que unisse as gaitas de foles (parada militar escocesa, aqui) com os bumbos peronistas, também usados nos estádios argentinos (os hooligans da “12”, a torcida ‘barrabrava’ do Boca Juniors, aqui)
Gaitas de foles eram usadas nos campos de batalha. Motivos deveriam existir para isso…
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários.
Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
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Fernando Lugo, ex-bispo, atual presidente do Paraguai, teme um golpe contra seu governo
Os líderes dos partidos da oposição no Paraguai dispararam intensas críticas contra as declarações que o presidente Fernando Lugo fez sobre supostas tentativas de armar um golpe de Estado contra seu governo. As declarações, segundo informações extraoficiais, teriam sido feitas pelo presidente paraguaio a seus colegas sul-americanos durante a reunião de cúpula da União de Nações Sul-americanas (Unasul), realizada na semana passada em Cardales, a 70 quilômetros de Buenos Aires. Na cúpula, o ex-presidente argentino Néstor Kirchner (2003-2007), eleito para o posto de secretário-geral da Unasul, teria prometido assumir como própria “a causa do Paraguai”. Kirchner, segundo as informações publicadas pelo jornal portenho “Ámbito Financiero”, destacou que Lugo sofre um “sério conflito com seu vice-presidente, Federico Franco”.
Lugo chegou ao poder em 2008, após derrotar o partido Colorado, que havia estado 61 anos ininterruptos no poder. Mas, para chegar ao Palácio de López, o palácio presidencial, Lugo – que não contava com uma estrutura partidária de peso própria – pactuou uma turbulenta aliança com o conservador Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), além de partidos de esquerda.
O PLRA – que propiciou a Lugo mais de 60% dos votos que a coalizão teve nas eleições presidenciais – é representado pelo vice Federico Franco, com o qual o presidente mantém uma tensa relação desde antes da própria posse. Franco sempre criticou Lugo por ter colocado poucos representantes do PLRA no gabinete presidencial.
O ex-presidente Nicanor Duarte Frutos (2003-2008), representante do partido Colorado, de oposição, afirmou ao jornal “ABC Color” que as declarações de Lugo a seus colegas da região sobre um complô “é um relato farsante”. Segundo Duarte Frutos, “Lugo tem uma enorme fraqueza por sua falta de capacidade de construir consensos políticos básicos. Por causa dessa fraqueza tenta instalar no imaginário internacional o relato farsante de conspiração golpista”.
O analista político Bernardino Cano Radil disse ao Estado que “um golpe de Estado é absolutamente inviável no Paraguai. Nem as Forças Armadas, nem os partidos políticos estão pensando nisso. É apenas propaganda do governo para justificar sua incapacidade de poder negociar. O presidente não quer sentar para conversar com as principais forças do Parlamento, sequer com seu vice”.
GUERRILHA – O foco mais recente da crise entre Lugo e Franco foi gerado pela suposta guerrilha do autodenominado Exército do Povo Paraguaio (EPP), responsável por uma série de sequestros e roubos na região norte do país nos últimos dois anos. Lugo, para combater o EPP, declarou estado de exceção em cinco departamentos (equivalentes a estados) e enviou tropas do Exército para perseguir e deter os integrantes da suposta guerrilha.
No entanto, o vice-presidente Franco afirmou que a declaração de estado de exceção era um exagero que constituía um “show midiático”.
O ministro do Interior do Paraguai, Rafael Filizzola, em entrevista ao Estado na sexta-feira à noite em Buenos Aires, afirmou que o EPP “não é uma guerrilha…é um grupo de criminosos. São pessoas armadas, perigosas. Mas, não é nem um exército nem uma guerrilha. Não são capazes nem de desestabilizar o país, nem muito menos de atentar contra as instituições democráticas. Mas, repito que não é um problema que deva ser minimizado, pois são pessoas muito bem treinadas, que já roubaram, sequestraram e assassinaram”.
Filizzola, que pertence ao pequeno Partido Democrático Progressista, que integra a coalizão de Lugo, criticou setores “que estão perdendo seus privilégios” (em alusão ao partido Colorado) que estão utilizando o surgimento do EPP para “aproveitar-se da situação”: “precisamos colocar este problema em um contexto histórico. Estamos superando uma História de décadas de hegemonia de um partido político. Isso significou que pessoas que por muito tempo desfrutaram de privilégios políticos que agora os estão perdendo. O EPP e outros assuntos são usados para fazer ataques políticos ao governo Lugo. O EPP como tal não tem possibilidade de colocar em risco a vigência das instituições democráticas. Mas, sim, existem setores radicalizados que estão perdendo seus privilégios e estão aproveitando-se da situação”.

Uma viúva: “Valentina de Milão, chorando pela morte de seu marido Louis de Orléans” (ao redor de 1802). Obra no Museu Hermitage, em São Petersburgo. Quadro de François Fleury-Richard (1777-1852).
‘TER VICE É COMO DORMIR COM A VÍUVA’
“Ter um vice é como dormir com a própria viúva” é uma das definições existentes sobre o cargo de vice-presidente, em alusão à pessoa que só adquirirá a herança política – isto é, o cargo máximo de uma república – quando o presidente falece, renuncia ou é removido. No Paraguai, no entanto, o posto de vice-presidente foi costumeiramente denominado de “vaso de flores”, já que considera-se que sua função é meramente decorativa.
O país não teve vice-presidente durante toda a ditadura do general Alfredo Stroessner (de 1954 a 1989), além da primeira presidência com a volta da democracia, a de Andrés Rodríguez (1989-93), que desconfiado dos vices, tal como seu antecessor, preferiu não implantar o cargo. A partir de 1994 o Paraguai passou a contar com o posto.
Um vice, Luis María Argaña, terminou seus dias de forma trágica, já que foi assassinado com o corpo cravejado de balas, em 1999, quando estava há menos de um ano no posto. Sua morte ainda está submersa em especulações, já que existem diversas teorias para o crime. No entanto, todas possuem um ponto em comum, o de que a trágica morte de Argaña servia para desestabilizar o governo do presidente Raul Cubas Grau, que teve que abandonar o cargo – e o país – poucos dias após o assassinato.
VICE ARGENTINO – No entanto, na Argentina os vices tiveram maior protagonismo em crises. Esse foi o caso de Isabelita Perón, vice de seu próprio marido, o presidente Juan Domingo Perón, que assumiu a presidência do país quando este faleceu em 1974. Seu governo foi caótico e acabou com o golpe de Estado de 1976.
Após a volta da democracia vários presidentes tiveram relações conturbadas com seus vices. Esse foi o caso de Carlos ‘Chacho’ Álvarez, vice do presidente Fernando De la Rúa, que no ano 2000 renunciou depois que este não demonstrou interesse em avançar com as investigações sobre um escândalo no Senado. Sua renúncia deu início à desconfiança dos mercados sobre o país, que em pouco mais de um ano afundou na pior crise de sua História, a de 2001-2002.
O atual vice argentino, Julio Cobos, integrante da União Cívica Radical (UCR), foi o escolhido pelo casal Kirchner para ser o vice na chapa de Cristina Kirchner em 2007. No entanto, em julho de 2008 ele rompeu com os Kirchners ao declarar respaldo aos ruralistas, que estavam em conflito com o governo. De lá para cá, a popularidade de Cobos cresceu de forma exponencial. Para irritação dos Kirchners, o outrora pacato vice atualmente é um dos presidenciáveis mais cotados para as eleições de 2011.

Cena de “A Viúva Alegre”, do compositor austro-húngaro Franz Léhar. Ali vemos Hanna Glawari, a personagem protagonista, intensamente paparicada. E já que estamos em ritmo de opereta, um link do Youtube para uma famosa cena desta obra, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
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Lugo violou o voto de castidade da Igreja Católica. Mas, ao mesmo tempo seguiu ao pé da letra a recomendação do Sumo Pontífice de não usar preservativos. Lugo, em foto da Wikipedia (com casaco que recorda intensamente o clergyman, faixa presidencial e bastão)

O ex-monsenhor e atual presidente do Paraguai, Fernando Lugo, teria uma suposta nova filha, segundo denúncias realizadas por sua própria sobrinha, Mirtha Maidana. O escândalo sobre a suposta existência de uma nova descendente do presidente paraguaio, nascida quando Lugo ainda era sacerdote da Igreja Católica, e portanto, teoricamente casto, está provocando novas turbulências políticas ontem em Assunção.
Nos últimos meses o presidente reconheceu a existência de um filho, Guillermo Armindo, e foi acusado de ser o pai de duas crianças adicionais.
Os assessores de Lugo negaram enfaticamente as declarações da sobrinha do presidente. Representantes dos partidos da oposição aproveitaram o novo escândalo – o quarto relativo à prole do ex-bispo – para especular com um eventual pedido de impeachment de Lugo.
O prolífico ex-clérigo, que dois anos atrás ainda exercia as funções de bispo, teria tido um affaire há mais de duas décadas com Teresita de María Rojas, atualmente com 55 anos. O fruto desse romance teria sido Fátima Rojas, de 22 anos.
SOBRINHA, A VERDADEIRA..E A SUPOSTA
Mirtha Maidana é a filha da poderosa Mercedes Lugo, irmã do presidente Lugo. Pela condição de solteiro de seu irmão presidente, Mercedes ocupou as funções de primeira-dama. Mas, sua sobrinha Mirtha afastou-se do tio em agosto passado, quando o presidente lamentou em público: “os parentes a gente não escolhe!”.
O novo imbroglio de Lugo é apimentado pelas denúncias complementares da imprensa em Assunção, que indicam que o hipotético genro de Lugo, Luis Paciello – sua suposta filha Fátima casou-se há uma semana – foi designado assessor da hidrelétrica de Yaciretá sem realizar concurso.
A celebração do casamento de Fátima foi definida pelos colunistas sociais como uma “festa de arromba”. Lugo participou do casamento como convidado especial.
Na ocasião, a oposição denunciou o luxo excessivo de um casamento de uma suposta sobrinha de Lugo. Mas, a verdadeira sobrinha Mirtha Maidana provocou o escândalo ao afirmar que não possuía uma hipotética prima, já que Fátima era, na realidade, filha do ex-padre.
Segundo Mirtha, quando Fátima era uma criança brincava com seus filhos. “Sempre houve uma relação muito familiar. A verdade é que era um ‘segredo conhecido’, não somente na família Lugo Méndez, mas também na família dessa jovem”. Mirtha indicou à imprensa paraguaia que a mãe de Fátima, Teresa, “sempre acompanhou” Lugo.
Depois, ironizou: “não sei se dá para acreditar em uma amizade assim entre um homem e uma mulher…”. De quebra, disparou críticas contra o tio: “ele deixou filhos por todos os lados…e não os reconheceu”.
Além disso, desafiou: “que ele faça um exame de DNA. Se não for filha dele, me apresento perante a Justiça para cumprir uma pena de difamação e calúnia”.
A semana está sendo turbulenta para Lugo, já que na terça-feira seus assessores também iniciaram os trâmites na Justiça para rejeitar a demanda sobre o terceiro suposto filho, Juan Pablo, de dois anos, filho de Hortensia Morán, de 40 anos. Morán quer que seu filho possa utilizar o sobrenome do presidente.
Além disso, Benigna Leguizamón, mãe de um menino de sete anos, suposto filho de Lugo e autora da segunda denúncia (Lugo somente reconheceu a criança da primeira denúncia, seu filho Guillermo Armindo) de paternidade do ex-bispo disse que ela também sabia que Fátima Rojas era filha de seu ex-amante.
LUGÔMETRO
O surgimento de uma eventual nova filha desatou em Assunção uma onda de piadas sobre a capacidade reprodutiva de Lugo. A denúncia sobre a suposta paternidade de Fátima também foi alvo de sarcasmos em outras capitais do Cone Sul, especialmente em Buenos Aires, onde o jornal “Perfil” criou meses atrás o “Lugômetro”, um indicador do surgimento de novos supostos filhos do ex-clérigo que transformou-se no chefe do Poder Executivo.
Na terça-feira o “Perfil” atualizou o “Lugômetro” com o surgimento de Fátima Rojas como a eventual primogênita do ex-monsenhor.

Link para o “Lugômetro”:
http://especiales.perfil.com/lugometro/
Mais espermatozóides indômitos:
EL TURCO E LA ANACONDA – Ou, as supostas vantagens políticas de um filho avantajado

Em junho de 2007 a imagem do ex-presidente Carlos Menem foi abalada quando a revista chilena “SPQ” publicou uma seqüência de fotos que mostravam a ex-miss Universo Cecilia Bolocco em relaxado topless ao lado de um empresário italiano – Luciano Maroccino – de ostensiva fama de playboy.
O problema era que a longilínea Bolocco, uma loira chilena de 41 anos na época, estava casada desde o ano 2000 com Menem, político que ao longo de sua carreira fez questão de alardear sobre sua “macheza”.
As fotos retratavam Boloco deitada em uma espreguiçadeira à beira de uma piscina em Miami ao lado de um italiano alto, de 52 anos (duas décadas mais novo que Menem), representante da Organização Miss Universo em Nova York.

Charge de Nik, no jornal ‘La Nación’, sobre a nudez de Bolocco…e sobre como Menem havia deixado os argentinos ‘nus’.
Três anos após seu casamento com Mene, Bolocco deu à luz a Máximo Menem.
Do casamento com Zulema Yoma, sua primeira esposa, Menem teve dois filhos: Carlos Junior, falecido em um misterioso acidente em1995 e Zulemita, que nunca aceitou seu casamento com a ex-miss.
Em 2005, os sinais de desgaste do casal começaram a aparecer.
Na ocasião, Bolocco reclamou em público que Menem estava mais dedicado à política do que à sua esposa.
Menem – também indicava Bolocco – passava tempo demais jogando golfe (e não era metáfora…era golfe mesmo).
E 2006, Bolocco, durante uma programa de TV, aplicou uma cálida e prolongada “bicota” no galã espanhol Miguel Bosé. Nos seguintes meses apareceu em vários shows com vestidos decotados e transparentes.
Em junho, após a publicação de duas séries de fotos ardentes com o playboy italiano, Menem anunciou a separação da ex-miss.

Eunectes murinus, ‘anaconda’ para os amigos: o réptil tropical que inspirou apelido de membro viril de filho de Menem
LA ANACONDA
Enquanto Menem se separava, seu filho ilegítimo, Carlos Nair Meza – fruto de amores extramatrimoniais de “El Turco” ocorridos em 1981 – entrava no programa “Big Brother Famosos” (que reuniu uma série de “celebridades” de terceiro escalão). No início do programa o rapaz lamentava que seu pai não o reconhecia como filho.
A rejeição vinha de longa data. Em 1997 Menem, na época presidente, negou que o menino fosse seu filho, tal como havia publicado a revista “Notícias”.
Além disso, processou a revista por “calúnias”, alegando que a história sobre seu suposto filho extra-matrimonial não passava de “mentira”.
Em junho de 2007, o tímido Carlos Nair começava a ficar famoso graças ao Big Brother. Mas Menem, mais uma vez, negou sua paternidade perante a imprensa.
No entanto, a fama do rapaz cresceu em disparada quando uma colega da casa abaixou seus calções enquanto dormia, mostrando às câmaras uma colossal credencial de anatomia viril.
As dimensões de Carlos Nair desataram exaltadas exclamações de admiração das outras participantes, além de comentários de profunda inveja dos integrantes masculinos da casa do Big Brother.
A partir dali, Carlos Nair foi conhecido pelo apelido de “Anaconda” (em alusão à gigantesca cobra tropical).
Ao sair da casa de Big Brother, o jovem tornou-se assunto dos principais programas de TV e rádio. Carlos Nair passou a ocupar mais espaço na mídia que seu pai.
Imediatamente, Menem voltou atrás e começou a fazer alarde que o bem-dotado Carlos Nair era seu filho. Em entrevista ao canal “Telefé”, afirmou: “É meu filho, sim. É inegável. É meu retrato, mas sem cabelos brancos. Ele herdou muitas características minhas…”.
Dias depois, na reta final da campanha eleitoral (para a renovação do Parlamento, em outubro de 2007) em La Rioja, Menem convocou Carlos Nair para ajudá-lo na campanha.
Sua ajuda, apesar da bem-dotada fama, não foi suficiente para vencer nas urnas. Isto é, a genitália de grandes dimensões não se traduziu em votos.
Resultado: Menem sofreu a mais fragorosa derrota de sua longa carreira política.
“El Turco” ficou em terceiro lugar nas eleições realizadas ontem em sua província natal, La Rioja.
Menem somente conseguiu 22% dos votos na província que havia controlado com mão de ferro por três décadas.
O primeiro colocado, um aliado do então presidente Néstor Kirchner, foi Luis Beder Herrera, o atual governador, reeleito com 39% dos votos.
O segundo colocado foi Ricardo Quintela, com 25%, que também era um aliado de Kirchner.
Menem, ao ser informado da derrota, comentou carrancudo: “as urnas falaram. Nós, democratas, temos que saber ouvi-las”.
Horas antes, ele havia alardeado que ganharia “de goleada”.
Os analistas afirmam que essa eleição marcou o fim de uma era. Segundo eles, é irreversível o declínio político de Menem, caudilho que marcou a política argentina nos anos 80 e 90. Os analistas afirmam que Menem é atualmente um “fantasma” político.
Seu poder se reduz ao respaldo de um prefeito em sua própria província natal e três parlamentares. Um deles é um sobrino; a outra, uma deputada amiga. O terceiro é o próprio Menem, senador.

Menem: testosterona, danças e presidência
ASCENSÃO E QUEDA
Menem começou a carreira política nos anos 60. Em 1973 foi eleito governador. Em 1976 o golpe militar o cassou. Em 1983, com a volta da democracia foi eleito novamente governador. Seis anos depois, em 1989, chegava à presidência da República. Em 1994 alterou a Constituição, de forma a permitir a reeleição presidencial. Um ano depois, vencia novamente nas urnas.
Em 1999 tentou alterar novamente a Constituição, para permitir um terceiro mandato consecutivo.
No entanto, a opinião pública rejeitou essa possibilidade. Nesse ano deixou a presidência, envolvido em uma série de escândalos de corrupção.
Os dez anos e meio nos quais controlou a Argentina foram conhecidos como “Pizza com champanhe”. Ou seja, segundo a “menemóloga” Silvina Walger, “o brega tentando ser chique”.
No ano 2001 foi preso durante cinco meses, acusado de contrabando internacional de armas.
No entanto, a Corte Suprema, onde tinha vários – e declarados amigos – o absolveu.
Em 2003 disputou as eleições presidenciais. Venceu o primeiro turno com 24% dos votos.
No entanto, desistiu da segunda fase quando soube que as pesquisas indicavam, se forma unânime, que seu rival, Néstor Kirchner, o derrotaria com mais de 70% dos votos no segundo turno.
A desistência de Menem desagradou vastas parcelas de seu eleitorado, que consideraram sua atitude uma “covardia”.
Desde 2003 Menem passou grande parte do tempo jogando golfe em La Rioja, enquanto sua esposa Cecilia Bolocco – chilena residente em Santiago do Chile, do outro lado da Cordilheira dos Andes – reclamava que seu marido lhe dedicava pouco tempo.
Em 2005 disputou a eleição para o Senado. Na ocasião, sua província lhe deu o primeiro sinal de ausência de poder.
Entre as duas vagas para senador, Menem conseguiu a segunda. O primeiro lugar foi arrebatado por um ex-discípulo, Angel Maza.
De lá para cá, os vestígios de poder de Menem terminaram de esfacelar-se.

Mais víboras do que anacondas
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Lugômetro do jornal Perfil: http://especiales.perfil.com/lugometro/
A vitalidade espermática do ex-monsenhor e presidente do Paraguai Fernando Armindo Lugo Méndez – notícia que em seu país está provocando uma grave crise política – suscitou em todo o Cone Sul uma onda de piadas.
O jornal portenho “Perfil” instalou em seu site o “Lugômetro”, que medirá o número de crianças reconhecidas pelo fértil ex-bipo, além das denúncias dos filhos que supostamente ele gerou.
A ironia portenha também produziu uma série de camisetas que – vendidas pela internet (e também nas ruas do centro) – ostentam os seguintes dizeres:
- “Papai Lugo, me reconheça”
- “Papai, don Fernando Lugo Méndez”
- “Filhos meus!”

E também está à venda a camiseta estampada com os versos do grupo paraguaio “Los Ángeles” que imortalizou o desdém do então bispo pela invenção de um dos médicos (de nome verdadeiro desconhecido, embora lendariamente chamado de “O Conde de Condom”) da corte do rei Charles II da Inglaterra , que indica que “Lugo tiene corazón pero no usa condón” (isto é, “Lugo tem coração” – em alusão a seu slogan de campanha – “pero no usa condón”, não usa preservativos)
As camisetas com os dizeres relativos à inesperada prole e os coitos desprotegidos do presidente Lugo custam, cada uma, em média, US$ 13 em Buenos Aires.
E também há camisetas para o nicho de mercado de pessoas que não consideram que o ex-monsenhor seja seu progenitor
- “Não sou filho de Lugo”

No Facebook também proliferam grupos com alusões ao presidente do Paraguai
- “Sou filho de Lugo, e daí?”
- “Eu também tive um filho com Lugo”
- “Lugo, semental paraguaio”
Com menos tecnologia do que o Facebook, os paraguaios expressaram suas satíricas opiniões sobre seu próprio ex-celibatário líder com prosaicos – mas incisivos – grafitos de banheiro.
Os top five dos mictórios em Assunção eram:
- O semental do Paraguai (esta, reproduzida aos montes depois que a terceira mulher, Damiana Hortensia Morán, indicou que Lugo, como homem, era “um fenômeno”)
- Pai de todos os paraguaios
- Super-pai
- Também quero ser bispo. Onde é que eu me inscrevo?
- Tem certeza de que seus filhos…são seus filhos?

Charles II da Inglaterra (1630-1685), representante da dinastia Stuart, era enfático adepto do uso do preservativo, elemento contraceptivo desprezado pelo ex-bispo e atual presidente paraguaio Fernando Lugo (Charles II, retratado por Sir Peter Ley)
Alfredo Boccia Paz, um dos melhores analistas políticos de Assunção, escreveu a coluna “Quantos filhos suporta um governo” no jornal paraguaio “Última Hora”. Este é o link da coluna:
http://www.ultimahora.com/home/index.php…
Este outro link pode parecer piada, mas é a notícia das declarações de um ex-colega de profissão de Lugo, o bispo da Diocese de Caacupé, Claudio Giménez, que aconselhou que Lugo case com uma das três mulheres que asseguram que tiveram um filho com o atual presidente nos tempos em que supostamente era celibatário. “Assim ele vai se tranquilizar”, explicou o bispo.
Este é o link:
http://www.ultimahora.com/notas/216957-O…
COITOS DE IMPLICÂNCIAS PARLAMENTARES - A Oposição, enquanto isso, delicia-se com novos boatos sobre eventuais rebentos adicionais do ex-bispo.
Os líderes opositores calculam os votos necessários para um eventual impeachment de Lugo, que seria gerado pela falsidade ideológica (a negativa, durante a campanha, da existência de filhos).
A outra alternativa seria a de tentar remover o presidente pela acusação de estupro.
Esta hipótese estava sendo especulada intensamente há duas semanas, decorrente das afirmações da primeira denunciante, Viviana Carrillo Cañete (mãe da criança que Lugo reconheceu) que afirmava que havia tido relações com o então bispo quando ela tinha 16 anos (na lei paraguaia, é considerado estupro se um homem maior de idade tiver relações sexuais com uma mulher de 14 a 16 anos).
No entanto, nesta terça-feira, Viviana – em depoimento à Justiça – reconfigurou a idade do primeiro contato sexual com Lugo, e disse que ocorreu aos 23 anos (fato que desmonta a hipótese de estupro por uma questão de idade).
Além disso, Viviana disse que esperava ainda casar com o pai de seu filho, isto é, Lugo.
De todas formas, os analistas destacam que para iniciar um julgamento político de Lugo, a Oposição necessitaria metade dos votos do Partido Liberal Radical Auténtico (PLRA), o partido do vice-presidente de Lugo, Federico Franco. Este, por enquanto, continua aliado do presidente. Mas, avisou dias atrás: “Lugo, você já perdeu um amigo….não perca seu vice!”.
Em tempo: O falecido general e ditador Alfredo Stroessner era o suposto pai de 20 filhos extra-matrimoniais. Outro defunto presidente paraguaio, Bernardino Caballero, teria gerado 77 crianças, segundo historiadores.
Em tempo 2: O Paraguai não é o único país da região onde costumam acontecer estas coisas…
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão.
E, acima de tudo, serão cortadas frases de comentaristas que façam apologia do delito.

O autor do best-seller “O Príncipe”, retratado pelo pintor Santi di Tito em 1500. Segundo analistas, no Paraguai, o astuto florentino não teria passado de um aprendiz
Entender o Paraguai é crucial para o Brasil. Motivos existem de sobra. Alguns deles: a hidrelétrica de Itaipu, sua participação como um dos quatro sócios plenos do Mercosul, a produção de soja dos fazendeiros brasileiros que ali investiram intensamente recentemente, além dos brasiguaios que nesse país residem há mais de 40 anos (estimados – de acordo com os mais variados cálculos – entre 250 mil a 600 mil pessoas).
Apesar de todos esses fatores, o Paraguai ainda é pouco conhecido – e escassamente compreendido – no Brasil.
Nesta segunda-feira completa-se um ano da vitória do ex-monsenhor Fernando Armindo Lugo Méndez nas eleições presidenciais paraguaias. Na ocasião o ex-clérigo obteve 40,3% dos votos, derrotando Blanca Ovelar, a candidata do Partido Colorado, organização política que havia estado 61 anos ininterruptos no poder.
Lugo, cuja carreira política foi meteórica após deixar o púlpito, chegou ao poder com o respaldo da coalizão Aliança Patriótica para a Mudança (APC), uma colcha de retalhos de partidos de extrema esquerda, grupos de sem-terra, associações de camponeses, movimentos indígenas, mas também empresários e políticos de centro e de centro-direita (estes últimos, sua base real no Parlamento).
Para tentar explicar um pouco mais sobre esse fascinante país, aqui segue um pequeno glossário da política paraguaia.
Os verbetes estão em guarani, idioma no qual os paraguaios preferem expressar as complexidades da intrincada política local.
Os analistas afirmam que se o florentino Niccolò Machiavelli – o Maquiavel (1469-1527) – tivesse conhecido o Paraguai, sentir-se-ia um aprendiz.
ATENÇÃO: O vocabulário paraguaio bem serviria para aplicação em outros países da região…
Pokaré – Ipsis literis, significa “mão retorcida”. Mas, segundo o falecido sociólogo paraguaio Helio Vera, o termo é utilizado para indicar um comportamento de lideranças políticas que consiste na mistura de astúcia, descaro, cinismo e traição.
Vera explicava que o ‘pokaré’ é a valorização da esperteza (em vez da coragem).
“Sobrevivente por instinto, o paraguaio preferirá sempre os sigilos da raposa do que os ferozes rugidos do tigre”, dizia Vera.
Exemplo dessa esperteza maquiavélica: Nicanor Duarte Frutos, quando era presidente – segundo dizia a Oposição na época da reta final de seu mandato – teria realizado um brilhante exercício de ‘pokaré’ ao colocar um inimigo seu, o general Lino Oviedo, fora da prisão (onde cumpria pena por tentar um golpe de Estado) só para tentar roubar parte do eleitorado do então ex-bispo Fernando Lugo (que finalmente foi eleito presidente).
Segundo o politólogo José María Costa “na campanha eleitoral de 2008, que envolvia uma feroz disputa, o pokaré esteve muito presente”.
Yvytuísmo – ‘Yvytu’ significa “vento”. O termo ‘yvytuísmo’ indica “estar a favor do vento que sopra”. É aplicado sobre os políticos que mudam de posição de acordo com a conveniência, mesmo que isso implique em trair os colegas. Vira-casaca.
“Tudo é questão de aderir fervorosamente à corrente eólica predominante”, ironizava Vera.
Desta forma, um político que ontem à noite podia ser um frenético liberal, hoje de manhã poderia acordar e logo em seguida alardear ser o mais fervoroso colorado. Segundo Costa, “geralmente, no politico paraguaio é difícil definir uma posiçao ideológica. A mimetizaçao política é um esporte”.
Aájata aju - “Vou embora para vir”. A frase indica que o retorno de um político (ao partido, por exemplo) não fica comprometida.
Che ruvicha - “Meu chefe”. Expressão muito útil para demonstrar obediência.

O general Stroessner – que governou o país durante 25 anos – era o “ruvicha” que adorava muito “mongele’e”
Mongele’e – A lisonja rasgada. O elogio exultante que os políticos de segundo escalão realizam aos donos do poder.
“Aqueles elogios barrocos que Odorico Paraguassu fazia em ‘O Bem-Amado’ são amadores perto daqueles que fazem aqui”, me explicou no ano passado um veterano diplomata paraguaio que conheceu bem o Brasil nos anos 80.
Ijapú - “Mentiroso”. Era uma das palavras preferidas da Oposição para referir-se a Nicanor Duarte Frutos quando governava. Atualmente, alguns integrantes da Oposição atual aplicam o mesmo adjetivo ao presidente Lugo.

“Lugo Ijapú”, dizem os críticos do atual presidente paraguaio, depois que descobriu-se que o ex-bispo, que havia feito voto de celibato, era pai de um menino – Guillermo Armindo – de dois anos. Os aliados de Lugo retrucam e afirmam que muitos opositores do presidente ex-monsenhor não podem jogar a primeira pedra
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Para aqueles que quiserem conhecer mais a literatura paraguaia, recomendo o livro “Yo el Supremo” (Eu, o Supremo), do escritor paraguaio Augusto Roa Bastos, Prêmio Cervantes. A saborosa obra trata da vida do primeiro grande ditador paraguaio, José Gaspar Rodríguez de Francia.
http://es.wikipedia.org/wiki/Yo_el_supre…
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