Cinco presidentes em 13 dias. Assim foi o carrossel presidencial argentino entre o 20 de dezembro de 2001 e o 2 de janeiro de 2002.
Milhões de argentinos surpreenderam-se no dia 21 de dezembro do ano 2000 quando viram – ao vivo – que o sisudo presidente Fernando De la Rúa, que participava de um programa de auditório de TV como convidado especial para tentar melhorar sua imagem pública, era segurado drasticamente pela gravata e na lapela do terno por um jovem militante de esquerda, Ernesto Belli, que havia invadido o palco. Estupefatos, os guarda-costas de De la Rúa ficaram imóveis enquanto o presidente era sacudido. De la Rúa – que tampouco conseguiu reagir – foi salvo pelo “Tamanduá Arturo”, um boneco de cor lilás simulando ser um tamanduá, do programa de auditório do apresentador Marcelo Tinelli.
Após a constrangedora cena, De la Rúa – embora nervoso – conseguiu manter a pose e conversou durante alguns minutos sobre política com Tinelli. Depois, cumprimentou seu imitador, Freddy Villareal, que havia popularizado a sarcástica imagem de um De la Rúa em constante estado de distração. Na sequência, o presidente pareceu emular sua paródia: sem saber por onde sair, caminhou erraticamente pelo palco, até encontrar a saída do palco. De la Rúa superava De la Rúa.
O tamanduá Arturo, guarda-costas involuntário do presidente da República Argentina em dezembro de 2000.
Neste vídeo do Youtube, parte dos peculiares incidentes do programa de Tinelli há 11 anos.
Nos 364 dias seguintes a agonia da imagem presidencial agravou-se de forma acelerada, até levar à renúncia de De la Rúa.
Em apenas 13 dias – entre o 20 de dezembro de 2001 e o 2 de janeiro de 2002 – o “sillón de Rivadavia” (a “cadeira de Rivadavia”, denominação da cadeira presidencial) teve cinco ocupantes: o próprio De la Rúa, em seu último dia no poder, o presidente do Senado Ramón Puerta, o governador de San Luis Adolfo Rodríguez Saá, o presidente da Câmara de Deputados Eduardo Camaño e o senador Eduardo Duhalde. Essa sequência acelerada de sucessores enfraqueceu mais ainda a já debilitada figura presidencial.
De la Rúa e suas trapalhadas, além da permanente distração, eram um prato cheio para os caricaturistas. Nik, o autor da charge acima, enfurecia De la Rúa (enquanto os leitores deliciavam-se).
SCHWARZENEGGER – Ele interpretou inúmeros personagens que, sem temor, podiam enfrentar um destacamento soviético completo até um irascível monstro do espaço sideral. Mas a dimensão da crise argentina chamou a atenção do ator austro-americano Arnold Schwarzenegger, que declarou-se impressionado com o caos que imperava neste país.
Durante uma entrevista do programa “Siempre Listos” (“Sempre prontos”) do Canal 13, de Buenos Aires, o ex–mister Olímpia deixou de lado o anúncio de seu novo filme e comentou inesperadamente: “aah…Argentina, país confuso, não? É ali que toda hora vocês mudam de presidente?”.
Com a confirmação constrangida do entrevistador e depois de perguntar se já havia um outro novo presidente, em relação aos quatro homens que passaram pela Casa Rosada desde a renúncia de Fernando De la Rúa a meados de dezembro, Schwarzengger emendou: “ali, quando um presidente vai tomar posse, em seu discurso já anuncia que está ali vindo o próximo para ocupar o cargo”.
Falando em Argentina e Schwarzenegger, o ex-Mister Olympia dança um tango, o “Por uma cabeza”. Schwarzenegger pode ser péssimo dançarino, mas a curvilínea Tia Carrere, havaiana descendente de chineses, filipinos e espanhóis vale a cena. A cena do tango, aqui.
A RECUPERAÇÃO DO PODER PRESIDENCIAL - Em maio de 2003 Kirchner foi eleito com apenas 22% dos votos, o nível mais baixo em toda a História argentina. Os cientistas políticos na época destacavam que a figura presidencial estava irremediavelmente comprometida. No entanto, em poucos meses o hiperativo Kirchner começou a reconstituir o poder presidencial. Quatro anos depois colocou sua própria mulher, Cristina, como candidata à sucessão. Em outubro passado a presidente obteve sua reeleição.
“Será um hiperpresidencialismo exacerbado, com o agravante de que a oposição não a enfrenta”, afirma Marcos Novaro, sociólogo e pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet), analisando o cenário que desponta no segundo mandato de Cristina Kirchner.
“O casal Kirchner possui o mérito de ter fortalecido a figura presidencial, que estava muito desgastada. Mas, evidentemente, foram além do previsto e hoje a presidente Cristina tende à hegemonia. A oposição, enquanto isso, está atomizada”, afirmou ao Estado o analista Silvio Santamarina, colunista da revista “Notícias”.
Tamanduá, em gravura de 1902.
MESMOS POLÍTICOS, CARGOS DIFERENTES – “Que se vayan todos!” (Que todos vão embora!) era o grito das manifestações de dezembro de 2001 e nos primeiros meses de 2002, quando a população pedia a remoção total dos integrantes da classe política da época. Um punhado de senadores e deputados viram suas carreiras afundar em meio às marchas de protesto e nunca mais se recuperaram. Um dos políticos que afundou totalmente foi De la Rúa, de nula influência política há uma década.
No entanto, a maioria da classe política permaneceu a mesma. As únicas modificações foram as trocas de postos: senadores na época que agora são deputados, prefeitos que tornaram-se governadores; governadores que foram eleitos senadores. O gabinete da presidente Cristina Kirchner – senadora e esposa de governador na época de “El Colapso” – é composto, em sua imensa maioria, por pessoas que já estavam na política antes da crise.
“A maior parte da classe política continua a mesma. Não houve uma grande renovação, tal como pedia a população. E nesse grupo dos políticos de sempre está o caso do próprio casal Kirchner, que até promoveu uma reforma constitucional em sua província, Santa Cruz, para permitir a reeleição indefinida de governador”, afirmou ao Estado a senadora socialista Norma Morandini, um dos poucos casos de políticos atuais que iniciaram sua carreira após a crise de 2001.
E a versão de “Por una cabeza” com Carlos Gardel, em filme da Paramount, aqui.
Osvaldo Pugliese, um dos emblemas do tango argentino.
E saímos da crise de 2001-2002 para lembrar que ontem, sexta-feira, o compositor Osvaldo Pugliese teria soprando 106 velinhas.
Mas Pugliese – Made in Villa Crespo – infelizmente partiu há 11 anos.
Ateu e militante do Partido Comunista, dirigia uma orquestra musicalmente impecável, na qual todos os músicos tinham o mesmo salário (ele dizia que “o trabalho deve ser uma dignidade pessoal e não um castigo”). Pugliese, em contrapartida, exigia um rígido código dentro do grupo, que estabelecia horários firmes nos horários e ensaios.
Atualmente Pugliese uma espécie de amuleto popular.
Sua imagem é usada como “santinho” para proteger do mau-olhado, etc. Ele transformou-se em “San Pugliese”.
Os músicos, especialmente, o usam para obter boa sorte. Outros artistas idem. Nos camarins, sua imagem é freqüente.
Alguns, antes de um show, diziam “merde”. Nos últimos anos também dizem “Pugliese, Pugliese”.
Quem quiser, pode imprimir a imagem abaixo e colocar em algum lugar que sirva para essa função.
Aqui, mais detalhes da vida de Pugliese: http://es.wikipedia.org/wiki/Osvaldo_Pugliese
E uma de suas composições mais famosas, “La Yumba”, aqui.
E sua interpretação da valsa “Desde el alma”, aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
Em meio à crise, favelados argentinos – vários dos quais ex-integrantes da classe média – tiveram que recorrer a ratos, gatos e cavalos para evitar a fome.
“Fica melhor se condimentado com alho”. Este foi o comentário gastronômico pronunciado perante o Estado nos primeiros dias de maio de 2002 na periferia da cidade de Quilmes sobre a forma de tornar a carne de gato mais saborosa. Além disso, recomendaram que a carne felina requeria uma hora de fogo baixo para tornar-se “mastigável”. Nas favelas dessa cidade na zona sul da Grande Buenos Aires os habitantes chegaram ao ponto de caçar ratos para alimentação. Para evitar doenças, os roedores eram lavados com água sanitária. Na mesma semana, 400 quilômetros dali, na cidade de Rosário, um caminhão capotou com um carregamento de vacas. A população de uma recém-criada favela – a maioria ex-integrantes da classe média – atacou o caminhão, esquartejando as reses no lugar. A Argentina, país que outrora havia sido caracterizado pela opulência alimentícia, estava arruinada. Sua população – que havia integrado o antigamente denominado “Paraíso da classe média latino-americana” – estava empobrecida.
Na próxima quinta-feira os argentinos recordarão com amargura uma década dessa crise que costumeiramente é chamada de “El Colapso” (O Colapso), quando o PIB despencou 10%. Dez anos depois – enquanto assistem pela TV as cenas dos protestos sociais na terra dos antepassados, a Europa – os argentinos poderão relembrar os tempos sombrios enquanto saboreiam um “bife de chorizo” (embora menos suculento do que décadas atrás). A economia, nos últimos oito anos, cresceu a um ritmo de 7,6% em média anualmente. As perspectivas, para o ano que vem, embora menos otimistas por causa do contexto internacional, não são catastrofistas.
Enquanto que em 1991, dez anos antes do colapso, somente 4% dos argentinos tinham fome crônica, a proporção disparou para 28% em 2002, em plena crise.
“Atualmente a fome atinge 5% da população, isto é, 2 milhões de pessoas”, afirma ao Estado Artemio López, sociólogo e diretor daconsultoria Equis, especializada na análise da pobreza e desemprego.
Segundo o analista, a fome foi reduzida em grande parte graças aos planos de assistência social dos governos do ex-presidente Nestor Kirchner(2003-2007) e de sua viúva e sucessora, a presidente Cristina Kirchner.“Atualmente, os planos fazem que pobreza não esteja na faixa 28%. E a indigência, sem a ajuda estatal, estaria em 10%”.
A pobreza que era de 10% em 1991, uma década antes da crise, atingiu picos históricos em 2002, quando afetou 54% dos argentinos. Segundo López, a pobreza despencou nos últimos oito anos e atualmente assola 20,1% dos argentinos, embora o governo – cujos índices oficiais são questionados – afirme que a proporção de pobres não passa dos 10%.
Em 1991 o desemprego estava em 5%. Ao longo da década foi subindo gradualmente. Na véspera da crise, em outubro de 2001, 18% dos argentinos não tinham trabalho. Mas, com o colapso, disparou para 24% em 2002. Atualmente está em 7%. “É interessante ver que Kirchner, em 2003, assumiu o governo com 22% dos votos, isto é, dois pontos percentuais a menos que a proporção de desempregados”, afirma López.
CORRALITO - A economia argentina ia aos trancos e barrancos desde que a crise mexicana de 1994 atingiu o país. Mas, no ano 2000, a renúncia do vice-presidente Carlos “Chacho” Alvarez disparou a desconfiança no país, cuja taxa de risco do país começou a crescer aceleradamente. Falidas, 14 das 24 províncias argentinas – em rebelião aberta com o governo federal – começaram a emitir “moedas paralelas”, sem lastro, para poder pagar funcionários públicos e fornecedores.
O governo do presidente Fernando De la Rúa, atingido por fuga de divisas e uma corrida bancária, desesperado em conter a conversibilidade econômica (que determinava a paridade um a um entre o dólar e o peso), decretou o “corralito”, denominação do mega-confisco bancário implementado no dia 1 de dezembro de 2001.
A medida, em vez de acalmar os ânimos, levou milhões de argentinos às ruas para protestar contra o governo. No dia 20 de dezembro daquele ano milhares de pessoas – aos gritos – pediram a renúncia de De la Rúa, que deixou o governo na mesma noite.
Nas portas dos bancos – todos os dias, durante meses – centenas de milhares de correntistas batiam panelas para exigir a devolução de seu dinheiro. Apesar da recuperação da economia, os argentinos nunca mais voltaram a confiar plenamente nos bancos e nos governos.
As violentas manifestações de 2001-2002 – cujo principal modus operandi eram os piquetes – não ocorrem mais. Mas, os piquetes, embora pacíficos, consagraram-se como a modalidade par excellence de expressão social dos argentinos.
DESCONFIANÇA - Segundo o economista Fausto Spotorno, da consultoria Orlando Ferreres e Associados, a bancarização argentina em 2001, baixa em comparação com outros países da América Latina, tinha depósitos que representavam 18% do PIB. Dez anos depois do corralito, os depósitos equivalem a apenas 7% do PIB. “Não é somente a desconfiança, é também pela inflação”, sustenta Spotorno, que destaca que o combate à escalada inflacionária é uma das batalhas que o governo da presidente Cristina Kirchner deixou pendente.
A dolarização da economia argentina, uma característica histórica, acentuou-se na década que transcorreu desde a crise. Enquanto que os argentinos possuíam US$ 81 bilhões no exterior, em caixas de segurança ou no prosaico – mas confiável – colchão doméstico, atualmente escondem fora da fiscalização governamental e das contas correntes um total de US$ 150 bilhões, segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).
Spotorno sustenta que o lado positivo dos últimos anos é o crescimento econômico, a proporção mais baixa da dívida pública em relação ao PIB,e a balança comercial como mundo, superavitária. Mas, considera que a pobreza ainda permanece em níveis elevados, inferiores aos tempos da crise embora maiores do que há duas décadas, e corre o risco de tornar-se estrutural.
Além disso, afirma que o governo precisará tomar medidas urgentes para combater a crise energética. “Também ocorre uma baixa entrada de capitais estrangeiros, e de quebra, falta acesso aos mercados internacionais de crédito e um gasto público excessivo”.
CALOTE - Vinte e três dias depois do corralito – quando tomou posse o terceiro sucessor de De la Rúa, o presidente provisório Adolfo Rodríguez Saá– a situação agravou-se com a declaração de calote dos títulos da dívida pública com os credores privados. A Argentina, além de arruinada, protagonizava o maior default da História mundial e tornava-se paria dos mercados internacionais de crédito.
Nos meses seguintes o país passou por momentos surrealistas, entre os quais o dia em que a província de San Luis especulou declarar a independência para livrar-se dos problemas nacionais argentinos. Na mesma época, credores japoneses pediram a representantes doministério da Economiaquea Argentina vendesse parte da Patagônia para pagar as dívidas.
“Não gosto de lembrar daqueles tempos”, afirma ao Estado com voz angustiada Graciela Rossi. Ela, durante a crise, perdeu seu trabalho de professora de jardim de infância em uma escola portenha. “Meu marido teve que fechar a microempresa que tinha. Viramos ‘cartoneros’ (catadores de papel). Levamos dois anos para sair do fundo do poço”. Quando termina a frase, Graciela – atualmente atendente em uma loja de roupas no bairro de classe média de Caballito – seca duas lágrimas que escorrem por suas bochechas e arremata: “só quero pensar em coisas boas daqui para a frente. Aquilo foi o inferno”.
GLOSSÁRIO DA CRISE ARGENTINA DE 2001
PANELAÇO: O “cacerolazo” (panelaço) é barulhenta modalidade de protesto que embalou as manifestações populares em 2001, 2002 e 2008 nas principais cidades do país. O protesto consiste em bater de forma rítmica utensílios metálicos de cozinha, principalmente as “cacerolas” (panelas). No início de 2002 um inventor portenho criou a “máquina de panelaço”, que consistia em uma panela com uma manivela que na ponta tinha a tampa do utensílio doméstico. Ao girar a manivela, a tampa batia na panela ritmicamente, propiciando um menor esforço por parte do “cacerolero” (“panelaceiro”?). Na ocasião, vendeu várias centenas de unidades. Mas, a recuperação econômica de meados de 2002 acabou com seu incipiente business. Na mesma época, embora com um sucesso um pouco mais prolongado, o empresário Gustavo Federico Gómez lançou no mercado o jogo “Cacerolazo” (Panelaço), que consistia em conseguir as melhores condiçõesde vida para a população de uma província. No meio do tabuleiro do estilo do “banco imobiliário” existiam obstáculos como os sindicatos, empresas, o governo federal, partidos políticos, o FMI, bancos, a polícia, o jornalismo, a igreja. Se uma das cartas indicava tempos ruins pela frente, o jogador podia revidar acudindo a um panelaço de protesto.
Para um “instant cacerolazo”, ver este site chileno, aqui.
Chilenos foram os criadores mundiais dos primeiros panelaços, em 1973. Mas, a utilização desse protesto em grande escala - e diariamente, ao longo de mais de um ano - pode ser atribuído aos argentinos.
PIQUETE: Bloqueio de avenidas, ruas e estradas por grupo de pessoas como modus operandi de protesto. No início, quando eram poucos, os piqueteiros bloqueavam com pneus em chamas e escombros. Atualmente, com excedente de manifestantes, os bloqueios são feitos com “barreiras humanas”. Acessórios dos piqueteiros: lenços cobrindo parte do rosto, que podem ser úteis na hora do gás lacrimogêneo (e também para proteger sua identidade das forças policiais). Há dez anos eram comuns varas de madeira, barras de ferro, canos de PVC com cimento dentro, utilizados tantopara a defesa pessoal, para o ataque, ou simplesmente para intimidar. No interior do país eram frequentes os estilingues. Mas, atualmente são raras as manifestações com estes objetos. Os piquetes possuem o acompanhamento musical dos bumbos (instrumento originário das mobilizações do Peronismo). Atualmente os piquetes são utilizados por todas as classes sociais, desde a baixa à alta. Esse modus operandi já foi utilizado por militantes trotskitas que exigiam o fechamento das lanchonetes McDonald’s até por militantes da ala radical da Igreja Católica que queriam fechar uma exposição do artista plástico León Ferrari.
CORRALITO: Literalmente, “curralzinho”, expressão também usada para o cercadinho de bebês. Denominação irônica do congelamento de depósitos bancários implantado em dezembro de 2001 pelo governo De la Rúa. O corralito desatou a fúria dos argentinos com o governo e os bancos.
CORRALÓN: Confisco dos depósitos a prazo fixo e cadernetas de poupança em dólares. Foi implementado pelo presidenteEduardo Duhalde em janeiro de 2002.
ESCRACHO: É um protesto personalizado, realizado na frente das residências das pessoas-alvo da manifestação. A modalidade, além de incluir gritos contra as pessoas “escrachadas” contempla o arremesso de objetos contundentes sobre a residência da pessoa. Ou, em uma versão mais light, o arremesso de tinta ou lama contra as janelas e paredes da residência. Os alvos dos escrachos em 2001 e 2002 eram primordialmente os integrantes da equipe econômica, governadores, prefeitos e parlamentares.
PLANOS TRABALHAR: Denominação genérica dos subsídios-desemprego fornecidos pelos governos Duhalde e do casal Kirchner.
TRUEQUE: Os “clubs del trueque” (clubes de escambo) foram em 2002 o âmbito onde os falidos argentinos trocavam produtos ou serviços por outros objetos. Desta forma, uma cabeleireira cortava o cabelo do farmacêutico em troca de determinado remédio. Os clubes surgiram primeiro na periferia. Mas, no meio da crise, o escambo até desembarcou no antes seleto bairro da Recoleta.
PATACONES: As “moedas paralelas” foram a peculiar forma de dinheiro utilizada intensamente durante a crise financeira, econômica e social de 2001-2002. Na ocasião, 14 das 24 províncias argentinas tiveram que recorrer à emissão dessas moedas. “Patacones”, “Lecops” e “Cecacors” foram os nomes de algumas das catorze “moedas paralelas” – também chamada de “quase-moedas” – emitidas na época pelos falidos governos provinciais para pagar salários de funcionários e fornecedores. Entre 2001 e 2003 as “quase-moedas” constituíram 38% do circulante da Argentina. Os “patacones” foram os mais populares.
DADOS SOBRE A ECONOMIA ARGENTINA ENTRE 2001 E 2011
NÚMERO DE PIQUETES NA ARGENTINA (calculado pelo Centro de Estudos Nueva Mayoría)
2001 – 2336 piquetes
2002 – 1278
2003 – 1278
2004 – 1881
2005 – 1199
2006 – 817
2007 – 608
2008 – 5.608
2009 – 1399
2010 – 754
2011 (primeiro semestre) – 875
DÍVIDA PÚBLICA (dados do Ministério da Economia e consultorias econômicas)
2001 – US$ 144 bilhões
2002 – US$ 137 bilhões
2003 – US$ 179 bilhões
2004 – US$ 191 bilhões
2005 – US$ 129 bilhões
2006 – US$ 137 bilhões
2007 – US$ 145 bilhões
2008 – US$ 146 bilhões
2009 – US$ 147 bilhões
2010 – US$ 164 bilhões
PARTICIPAÇÃO DA DÍVIDA NO PIB
2001: 53,8%
2002: 134%
2003: 139%
2004: 125%
2005: 70,7%
2006: 64,2%
2007: 55,5%
2008: 44,9%
2009: 49,4%
2010: 44%
2011: 39,7% (estimativa)
PIB (dados do Ministério da Economia, Indec e dados próprios da consultoria Orlando Ferreres e Associados)
2001 – US$ 268 bilhões
2002 – US$ 102 bilhões
2003 – US$ 127 bilhões
2004 – US$ 151 bilhões
2005 – US$ 181 bilhões
2006 – US$ 212 bilhões
2007 – US$ 260 bilhões
2008 – US$ 324 bilhões
2009 – US$ 297 bilhões
2010 – US$ 372 bilhões
2011 – US$ 448 bilhões (estimativa)
VARIAÇÃO DO PIB (dados do Ministério da Economia e consultorias econômicas)
2001: -4,4%
2002: -10,9%
2003: 8,8%
2004: 9%
2005: 9,2%
2006: 8,5%
2007: 8,7%
2008: 6,8%
2009: 0,9%
2010: 9,2%
2011: 8% (estimativa)
INFLAÇÃO (a partir de 2006 começam divergências entre cálculo oficial e extra-oficial)
2001: 4%
2002: 41%
2003: 3,7%
2004: 6,1%
2005: 12,3%
2006: 9,8% (mas, para economistas independentes foi de 10,7%.)
2007: 8,5% (mas, para economistas independentes foi de 25,7%.)
2008: 8,6% (mas, para economistas independentes foi de 28%.)
2009: 7,7% (mas, para economistas independentes foi de 25%.)
2010: 10,9% (mas, para economistas independentes foi de 26%)
RESERVAS DO BANCO CENTRAL (Dados do BC argentino)
2001: De US$ 36 bilhões (janeiro) caiu para US$ 15 bilhões (dezembro)
2002: US$ 10,4 bilhões
2003: US$ 14 bilhões
2004: US$ 19 bilhões
2005: US$ 28 bilhões
2006: US$ 32 bilhões
2007: US$ 46,1 bilhões
2008: US$ 46,3 bilhões
2009: US$ 47,9 bilhões
2010: US$ 52 bilhões
2011: US$ 47 bilhões
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
Uma nota de dois patacones, mais ou menos equivalente à nota de 2 pesos. Na época eram símbolo da crise argentina. Atualmente são objeto de colecionadores numismáticos.
Durante quase três anos – de 2001 a 2003, no meio da pior crise financeira, social e econômica da Argentina – o país teve 14 “moedas paralelas”, ou “pseudo-moedas”, além do próprio peso, a moeda nacional (e, de quebra, o dólar, cujo intenso uso transformou a Argentina no país com maior número de dólares nas mãos da população depois dos EUA e a Rússia). Emitidas pelos governos provinciais, eram usadas como se fossem dinheiro normal. Elas foram a alternativa encontrada pelas províncias para poder escapar da falência total em que estavam mergulhadas.
As “moedas paralelas” são personagens antigas no cenário argentino. Nos anos 80, Carlos Menem, na época governador da província de La Rioja, emitiu bônus com a efígie do cruel caudilho Facundo Quiroga, a quem admirava.
No entanto, este tipo de emissões monetárias provinciais somente adquiriram proporções fora do costumeiro quando, a meados de 2001 – no meio da falência generalizada – mais da metade das províncias começaram a imprimir suas próprias moedas. Geralmente, não contavam com respaldo financeiro algum.
Na época, além dos pesos oficiais, até o governo federal teve que emitir uma moeda paralela própria, o denominado “Lecop”, com o qual pagava os funcionários públicos federais, os fornecedores do Estado, além de realizar envios de fundos às províncias.
Rápidamente, as “moedas paralelas” tornaram-se em mais de um terço do total de circulante monetário na Argentina. Várias delas eram aceitas em todo o território argentino, principalmente o “patacón” (da província de Buenos Aires) e o “lecor” (de Córdoba).
O Fundo Monetário Internacional (FMI) foi um feroz crítico das “pseudo-moedas”, alegando que as províncias estavam esquivando a realização dos ajustes fiscais que o organismo financeiro exigia. No final de 2001, quando colapsava o governo do então presidente Fernando De la Rúa (1999-2001) elas constituíam 15,8% do circulante monetário na Argentina. Ao longo do ano 2002, apesar das pressões do FMI, estas emissões continuaram se espalhando. A meados desse ano, representavam 38% do circulante. Em 2003, elas equivaliam 31% do total.
Muitas delas, emitidas por governos sem credibilidade, valiam até 50% menos do que sua denominação numérica. Os “patacones”, graças ao peso que a província de Buenos Aires possuía na economia nacional, conseguiram manter uma paridade de um a um com o peso (e durante um tempo, até superou a moeda nacional).
As emissões dos bonaerenses “Patacones” chegaram a um valor equivalente a US$ 900 milhões.
Córdoba emitiu os “Lecor” em dezembro de 2001. A moeda circulou até 2003, quando foi resgatada pelo governo provincial. Ao longo de dois anos, circularam Lecors com valor equivalente a US$ 300 milhões.
No entanto, os “Cecacor”, da empobrecida província de Corrientes, não chegavam à metade de seu valor numérico. Um funcionário público provincial que ganhasse 1.000 “cecacors” mensais, na verdade tinha nas mãos nada mais do que pouco mais de 450 pesos. Na pior fase da crise, os cecacors somente valiam na prática ao redor de 33% de seu valor numérico.
Moeda paralela emitida pelo próprio Estado argentino.
A própria União, falida, teve que emitir os Lecops. O total desta moeda paralela equivaleu a US$ 1,06 bilhão.
Em 2003, o governo do então presidente Eduardo Duhalde implementou o Programa de Unificação Monetária, que realizou o resgate das pseudo-moedas. Desta forma, o peso voltou a ser a única moeda em circulação no país.
Um exemplar de Cecacor, a moeda paralela da província (arruinadíssima) de Corrientes. Esta era uma das menos valorizadas moedas paralelas argentinas.
PARADOXOS – As “moedas paralelas” ou “pseudo-moedas” eram desprezadas ou olhadas como párias ou bastardas. Mas, uma destas moedas, os bônus “Patacones”, tornou-se logo após o corralito e o corralón na nova diva do circulante monetário argentino.
O motivo para esta mudança de status quo foi o congelamento dos depósitos bancários, que deixou fora do páreo cotidiano uma ampla circulação de pesos e dólares, as moedas fortes do país.
O fato é que na categoria de “pseudo-moedas”, os bônus não entraram dentro do confisco, já que somente podiam ser “custodiados”, e não “depositados” nos bancos. O resultado foi que na província de Buenos Aires a cotação do Patacón subiu para 1,10 peso. E diversos comércios anunciavam descontos para quem pagasse em patacones.
Estes bônus circularam com maior liberdade que os movimentos realizados através de cartões de crédito, cheques ou cartões eletrônicos de débito. Sua vantagem era que os patacones estavam isentos de impostos, algo que não ocorria com os cheques.
No entanto, os patacones estiveram sempre à beira do precipício. A segunda emissão de notas – a seria B – tinha qualidade menor de papel e de tinta, fato que desagradava os argentinos, já que parecia “menos dinheiro” do que já era. Uma terceira emissão de patacones esteve a ponto de ser lançada em meados de 2002. O governo bonaerense havia anunciado que, por falta de dinheiro, somente poderia imprimir um lado da nota. Mas, perante a reação negativa que gerou, o projeto foi arquivado.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
Dez anos depois da crise: o ex-presidente De la Rúa acusa oposição de ter levado o país à crise de 2001-2002. Foto de Ariel Palacios.
Fernando De la Rúa (1999-2001) foi um dos mais breves presidentes civis da Argentina. Seu governo, da coalizão UCR-Frepaso, durou dois anos e 10 dias. Mas, ficou marcado na História como o presidente que levou a Argentina à pior crise social, econômica e política de seus quase 200 anos de vida independente. Na época foi acusado de “relapso” e “esclerosado”. O caricaturistas o retratavam vestido com um pijama.
No entanto, uma década depois do colapso argentino, De la Rúa, aos 74 anos, retruca, e afirma que sua queda foi provocada pelo partido Justicialista (Peronista), de oposição.
Em entrevista exclusiva ao Estado no modesto escritório de um amigo seu no centro portenho (onde havia uma foto dedicada de Juan Domingo Perón), De la Rúa acusou o ex-presidente Duhalde (2002-2003) de ter conspirado para derrubá-lo. Nessa confabulação, sustenta, o Fundo Monetário Internacional (FMI) teve um papel crucial. “Fui derrubado por uma conspiração peronista e do FMI”, diz.
Estado – Costuma dizer que o fim de seu governo foi o resultado de uma conspiração…
De la Rúa – Sim, claramente houve uma conspiração preparada por líderes do Partido Justicialista (Peronista). O então senador Eduardo Duhalde estava por trás disso. A conspiração foi preparada muitos meses antes. Em outubro de 2001 o Peronismo venceu as eleições parlamentares de outubro. Tentei contatos com os peronistas para tentar um governo de união nacional. Tive respostas favoráveis, inclusive de Duhalde. Propus um gabinete com integrantes do peronismo. Mas, eles concluíram que deveriam ter todo o poder. (O ex-presidente Raúl) Alfonsín me disse na época que havia tido uma reunião com Duhalde, e que este lhe havia dito que o mandato presidencial deveria ser concluído pela Aliança UCR-Frepaso. Mas, com o detalhe de que deveria ser outro o presidente, e não eu. Isto é, Duhalde já estava nessa atitude de Deus ex-machina. José Maria Aznar me disse um dia que Duhalde havia telefonado para ele em Madri, explicando que assumiria a presidência da Argentina e que por isso precisava de ajuda. Isso foi uns três meses antes do fim de meu governo. Aznar respondeu-lhe que na Argentina havia um presidente – isto é, eu – e que era meu amigo. Os peronistas, no dia 20 de dezembro, enviaram pessoas para realizar desordens. Essa foi uma jornada penosa, trágica, que a recordo com dor. Insisto que meu governo nunca deu ordens de matar os manifestantes.
Estado – Arrepende-se de alguma coisa de seus dois anos de governo? O corralito agravou a crise e levou milhões de argentinos à pobreza…
De la Rúa – Mais do que me arrepender, destaco as coisas que me doeram. Me doeu o corralito, pois já me doía a corrida bancária. Tentar lidar com o déficit zero foi doloroso, pois implicava em menos dinheiro para os funcionários públicos. Às vezes me pergunto…(sua voz treme) se por acaso poderíamos ter tentado o caminho de auto-financiar-nos internamente. Emitindo bônus, por exemplo. Mas isso seria uma medida muito perigosa, pois poderia ter acelerado a inflação e agravado a crise. Com certeza o FMI teria dito que não eram suas políticas, mas sim erros nossos. Mas foi o FMI, e sua presidente Anne Krueger, que quis nos afundar. Os objetivos do FMI e de Duhalde eram os mesmos.
Há dez anos, em plena crise: no fim da tarde do dia 20 de dezembro de 2001 De la Rúa saiu às pressas da Casa Rosada no helicóptero presidencial. O aparelho não podia pousar em cima do frágil terraço do palácio. Portanto, pairou sobre a área e De la Rúa foi erguido até a porta do helicóptero.
Estado – Na mesma época, outros países da região estavam com problemas. Um deles era o Uruguai, mergulhado na crise desde 1999, que só piorou com o contágio da crise argentina. Mas ali o presidente não teve que renunciar…
De la Rúa – É que nos outros países da região existia uma oposição responsável. No caso do Uruguai, o então líder da oposição, o socialista Tabaré Vázquez (eleito presidente em 2004) declarou respaldo ao presidente Jorge Batlle. E mesmo no Brasil, onde a situação de dívida era parecido à nossa, houve uma transição construtiva entre Fernando Henrique e Lula.
Estado – O Brasil, naquele período, conseguiu evitar uma grande crise…
De la Rúa – O Brasil teve uma vantagem adicional, pois o FMI – que perseguia a Argentina – temia o contágio da economia brasileira, e aí o Fundo forneceu créditos de contingência ao país vizinho, para prevenir qualquer perigo. Eu me queixo do fato do Brasil não ter nos alertado do propósito do Fundo Monetário de derrubar a Argentina. Mas, compreendo os brasileiros, pois sentiam a necessidade de salvar-se. E o resultado é que o Brasil evitou o calote da dívida e hoje em dia é o destino de enormes investimentos internacionais. Mas, a Argentina teve o calote, declarado por aqueles que vieram depois de mim. E deu no que deu. Ainda temos problemas de credibilidade, o país é um paria internacional.
Estado – Os governos do ex-presidente Nestor Kirchner e da presidente Cristina Kirchner mantiveram uma relação tensa com o FMI…
De la Rúa – Reconheço no presidente Kirchner uma boa atitude, de ter denunciado publicamente aquilo que o FMI fez com a Argentina. E além disso, Kirchner rompeu relações com o Fundo.
Estado – Concorda com o casal Kirchner somente nesse ponto ou possui mais convergências com ambos?
De la Rúa – Tenho uma imagem positiva deles. O problema são os abusos de concentração de poder. O confronto permanente. Os excessos. Além disso, a falta de medidas para adotar em épocas de crise econômica. Eles se acostumaram a ver “vento de popa” da economia internacional na maior parte do tempo. E agora deve vir um tempo de ajuste perigoso. Mas, a linha geral está bem, especialmente o fato de terem recuperado o poder da presidência da República.
Estado – Em breve começará seu julgamento sobre seu suposto envolvimento no denominado “Caso Banelco”, o escândalo de pagamento de subornos para a aprovação da lei trabalhista no ano 2000, que os sindicatos rejeitavam…
De la Rúa – Tenho pressa em mostrar que sou inocente. Este processo tem como base falsidades, baseadas em meros rumores. Querem envolver um presidente em algo que não é sério. É como a acusação de compra de votos que foi feita sobre Fernando Henrique Cardoso na votação para reformar a constituição que permitiu a reeleição. Naquele caso e no meu, não há nada sério.
Estado – Como acha que a História o recordará?
De la Rúa – É muito difícil saber. A verdade é que não acredito que lembrarão de mim. Foi um período muito ruim. Se servir para algo, será para extrair uma experiência de como tentar lidar com uma crise.
Estado – Em dezembro de 2001 teve que sair a Casa Rosada em um helicóptero. As pessoas na Praça de Mayo estavam furiosas com a política econômica. Sua imagem pública era a pior de um presidente desde a volta da democracia. Dez anos depois, como as pessoas o tratam na rua?
De la Rúa – Bem, me tratam bem, com respeito. De vez em quando alguma pessoa me gritava algo. Mas isso não acontece há tempo. Atualmente existe mais compreensão das coisas que aconteceram naquela época.
Estado – É verdade que foi vítima da crise, do ponto de vista das finanças pessoais? Foi pego pelo “corralón” feito pelo governo Duhalde?
De la Rúa (com voz grave) – Sim, mas é uma coisa que não saio comentando.
Estado – Logo, a crise também o afetou…
De la Rúa (murmurando) – Foi assim.
Estado – Antes me disse que o fim de seu governo “doeu” muito. Por acaso deprimiu-se ao sair do poder?
De la Rúa – Na vida aprendi que devemos ser sempre os mesmos tanto quando estamos em cima, em altas posições, como nos momentos em que a gente está lá embaixo. Mas me dói pensar que poderia ter conseguido outros objetivos. Se tivesse tido um pouco mais de tempo…só de pensar que quase um ano depois de minha renúncia o país começou a melhorar, até pela alta do preço da soja!
Estado – Por acaso precisou recorrer a algo muito frequente na Argentina, a psicanálise?
De la Rúa – Não, nunca precisei de análise. Tenho uma grande capacidade interior para refletir. Mas, quem sabe, talvez esteja errado e a psicanálise seria uma ajuda…
Ex-presidente é ocasionalmente relembrado pelos cartunistas argentinos. Nos últimos tempos, houve referências a De la Rúa por causa da crise europeia. Acima, charge de Rudy e de Daniel Paz sobre o ex-presidente e a conjuntura internacional atual.
DE LA RÚA PERDEU TODA INFLUÊNCIA POLÍTICA
Na noite do dia 20 de dezembro de 2001 Fernando De la Rúa dormiu na residência presidencial de Olivos. No dia seguinte passou pela Casa Rosada para buscar seus pertences, que havia esquecido na correria da partida no helicóptero desde o telhado do palácio presidencial. Apesar do conselho de vários amigos que diziam que deveria mudar-se para o exterior até que os ânimos da população se apaziguassem, De la Rúa optou por ficar no país, refugiando-se em sua chácara no município de Pilar.
Desprezado por seu partido, a União Cívica Radical (UCR), abandonado por seus antigos ministros, De la Rúa dedicou-se à jardinagem e à família, enquanto permaneceu afastado da política ao longo da última década. Sua influência política nestes dez anos foi nula. O ex-presidente até evita comparecer às pacatas reuniões da UCR. “Abandonei a política”, disse ao Estado. Analistas políticos sustentam, sem sutilezas: “De la Rúa não existe mais”.
Em 2006 – meia década depois da crise – tornou-se novamente notícia quando lançou o livro “Operação Política”, no qual denunciava as supostas manobras da oposição realizadas contra ele. A obra, fracasso de crítica e de público, rapidamente encalhou nas livrarias.
Ocasionalmente De la Rúa participa de algum evento diplomático, tal como no coquetel do 7 de setembro de 2010 na embaixada do Brasil em Buenos Aires. No entanto, na ocasião, passou boa parte do tempo sozinho. Nesse mesmo evento os convivas preferiram acotovelar-se ao redor do octogenário ex-presidente Carlos Menem (1989-99).
PECULIARIDADES: No dia da entrevista fui até a rua de trás do edifício da Corte Suprema. Fiz um pouco de hora, pois havia chegado uns 20 minutos antes. Tomei um café no bar da esquina e sucumbi perante um muffin de chocolate.
Terminei e fui até o prédio. Chamei pelo interfone. Ouvi a voz de De la Rúa, dizendo “suba”.
“Ele próprio atendeu?” pensei, achando estranho isso. Nos dias prévios alguns colegas argentinos me haviam dito que De la Rúa estava sem secretário (e pelo visto, quase sem ninguém, de forma geral…ao sair da entrevista, 40 minutos depois, passei por um quiosco na esquina para comprar uma água mineral. O “quiosquero” conversava com um zelador da área. Aí, perguntei se viam De la Rúa com freqüência entrando e saindo dali. Os dois me responderam com ácido humor portenho: “De la Rúa? Está más solo que Adán en el dia de la Madre!”
Voltando ao encontro:
Lá em cima, a porta do escritório foi aberta por um secretário (ou equivalente) com um fortíssimo sotaque de La Rioja. Parecia uma paródia do ex-presidente Menem. Mas não era. Tratava-se de um riojano “leggggggítimo” (recordando o bordão de Jô Soares).
O secretário (ou equivalente) – que parecia Nathan Lane com bigode (e com sotaque riojano) – me pediu que sentasse e esperasse o ex-presidente. “El doctor De la Rúa ya viene”.
Sentei ao lado de uma grande mesa de reuniões e esperei a entrada de De la Rúa. Mas, levantei logo, ao ver que do outro lado da sala havia uma foto de Perón em uma moldura. Olhei de perto e vi que a foto estava autografada, embora a dedicatória não fosse muito legível.
Nesse momento entrou De la Rúa. O cumprimentei e apontei para a foto, dizendo, surpreso: “Uau! O sr. tem uma foto autografada de Perón? Foi da época (1973) em que o sr era senador e ele havia voltado do exílio e eleito presidente?”
De la Rúa respondeu: “nããooo..quem dera! Infelizmente não tenho uma foto autografada de Perón. O conheci, brevemente, quando era senador. Mas não é uma foto dedicara para mim. É uma foto para um amigo, que tem este escritório”.
Então percebi que, dez anos depois de deixar a presidência, De la Rúa estava em um escritório emprestado. E de um amigo peronista.
Na rua o calor era insuportável. Ali dentro, apesar do ventilador, o verão portenho (embora seja ainda primavera) já era exasperante. De la Rúa estava de camisa e gravata. Eu, como sempre, estava de terno, seja lá qual for o entrevistado (exceto na cobertura do terremoto no Chile).
De la Rúa, amavelmente, sugeriu que tirasse o paletó. Agradeci, mas declinei a oferta. Nunca fico de camisa na frente de um entrevistado. Anos atrás entrevistei o roqueiro Fito Paez, de terno. Meia década depois, fiz uma nova entrevista com ele. Quando me viu sentado, esperando, me disse: “ei, usted (você formal) já me entrevistou antes… é do Brasil, não é?”. Eu respondi: “Sim! Nossa, que memória, sr. Paez, faz cinco anos!”. E o sr. Adolfo Paez, a.k.a. “Fito”, me disse: “é que foi a única pessoa em toda minha vida que me entrevistou de terno. Aprecio isso. E também foi a única pessoa que não me ‘tuteó’ (tratar de tu ou você). Não tem idéia como não suporto que as pessoas me tratem como se fosse um velho conhecido de toda a vida. E alguns até colocam os pés em cima da mesa, enquanto fazem as perguntas! Ora, acham que porque sou roqueiro posso que ser tratado de qualquer jeito?”. Concordei com ele, evidentemente.
Voltando a De la Rúa: na hora de fazer as foto, colocou o paletó. Durante a entrevista, havia estado sério e circunspecto. Mas, depois da parte formal, enquanto preparava a câmera, lhe perguntei se era realidade que seu primeiro posto institucional havia sido o de presidente do Comitê de Caça com Estilingue, em Córdoba, quando tinha 10 anos. Ele confirmou e riu. De la Rúa, criança, havia até preparado os estatutos do clube. Na sequência, quis confirmar se a primeira vez que ele havia tido um encontro com sua futura namorada e esposa, Inés Pertiné, havia sido em um restaurante “El Vómito Negro”. De la Rúa confirmou também, e sorriu. Mas, logo ressaltou que esse era o nome informal do estabelecimento. “No entanto, não lembro do nome real…”.
Desta forma, nas fotos De la Rúa aparece sorrindo, na contra-mão do conteúdo da conversa, que relata o caos da crise de 2001.
E um vídeo da Internacional do Portal do Estadão com um comentário sobre a queda de De la Rúa. Aqui.
PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.
Em 2009 “Os Hermanos“ recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).
Acompanhe-nos no Twitter, aqui.
…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui.
2012
2011
2010
2009