ir para o conteúdo
 • 

Ariel Palacios

A escritora argentina Samanta Schweblin: de Boedo para o mundo

A crítica argentina a considera “herdeira da literatura de realismo fantástico” de Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Julio Cortázar. No entanto, Samanta Schweblin recusa o rótulo, agradece a lisonja, mas afirma que seus contos são “muito realistas, embora as situações sejam anormais”. Vencedora do Prêmio Casa de las Américas de 2008, Schweblin – que foi eleita em 2010 pela revista britânica Granta como uma dos 22 melhores escritores da língua espanhola da nova geração – será conhecida pelo público brasileiro nos próximos dias com o lançamento de seu livro “Pájaros em la boca”, traduzido como “Pássaros na boca”, que será publicado pela editora Benvirá.

Os contos de Schweblin, que participará da Primeira Bienal do Livro de Brasília no dia 14 de abril, possuem como marca os elementos perturbadores, que a escritora relata com precisão e contundência. “As certezas e a serenidade ficam de lado” quando alguém lê um conto de Schweblin, diz a crítica portenha. A crítica também destaca que os contos da autora de 34 anos “levam o verossímil a um extremo fora do comum, mas com muita naturalidade”.

A escritora, depois de formar-se em cinema, montou uma agência de design. “Meu plano A era o de escrever. Mas, para concretizar o plano A precisava de um plano B que me desse um retorno financeiro. No entanto, a agência crescu muito rápido e me aniquilava o tempo para o plano A. Por isso, quando recebi uma bolsa do governo mexicano em Oaxava, ‘baixei a persiana’, deixei a agência para meus empregados e decidi que só ficaria com o plano A. É difícil viver de escrever, mas dá para viver dando aulas de literatura. Minha vida agora é mais austera, menos estressante e com mais tempo livre. E estas são três coisas importantes para o espaço da escritura!”, explica a autora.

Schweblin conversou com o Estado em um dos velhos redutos do tango, o café Homero Manzi, no pacato bairro de Boedo, onde reside. Ali, sentada contra a janela enquanto bebe um café, faz uma defesa da velocidade nos contos: “a ‘velocidade’, ao contrário do que acredita-se por aí, não é ‘superficialidade’. Não é mesmo. Velocidade é precisão. E é sutileza. Mas, acima de tudo, é retirar metade da história do papel impresso e colocá-la na cabeça do leitor”.

Estado – Seus contos poderiam ser facilmente transportados ao cinema ou TV, pois possuem um lado visual forte…

Schweblin – Eu venho da carreira de cinema, e não de letras, ao contrário do costumeiro para quem quer ser escritor. Mas, ter esquivado letras foi uma decisão inteligente, pois minha intenção era a de escrever histórias. E a carreira de letras aqui é muito acadêmica. Ia aprender muito sobre a literatura espanhola do século treze, mas não a contar histórias. O fato é que aprendi a ‘contar’ histórias na ilha de edição, vendo como cortar uma cena ou juntá-la com outra. No entanto, não tive na escola o background que teria tido se tivesse feito letras. Esse background tive que conseguir de forma autodidata e improvisada. O lado visual tem um peso importantíssimo em minha geração.

Estado – Os pouquíssimos contos de Jorge Luis Borges transpostos ao cinema são os mais evidentes e menos reflexivos…

Schweblin – Borges é alucinante. Mas meu grande amor foi Adolfo Bioy Casares. Bioy, no entanto, é mais visual. O escritor mostra e o leitor conclui e entende. O entendimento não está em todas as páginas. O entendimento está na cabeça do leitor.

 

Adolfo Bioy Casares, um dos emblemas do realismo fantástico argentino. O autor preferido de Samanta Schweblin.

Estado – Seria algo interativo?

Schweblin – Sim! E nesse caso, tiro o chapéu para Clarice Lispector, pois, a respeito muitíssimo…e dou os parabéns aos brasileiros por tê-la. Ela sofria com a não-palavra. A palavra mais citada não pode estar no texto…tem que estar na cabeça do leitor! Também gosto muito de Bernardo Carvalho e Daniel Galera, de quem li “Mãos de cavalo”, que adorei.

Estado – Se o conto complementa-se com a ação do leitores, quando termina um conto, o mostra a amigos, colegas, leitores comuns?

Schweblin – Não fiz a carreira de letras. Mas fiz muitas oficinas de escrita. E dali fiquei com o costume de mostrar os textos aos colegas. As datas de reuniões com eles nos obrigam a fechar, concluir algo, e polir o texto. Mesmo se não estou de acordo com a outra pessoa sobre meu conto, o olhar dessa outra pessoa é importantíssimo, pois vejo as coisas no conto que não funciona, o que não se entende. Essa instância de leitura com os outros é fundamental.

Estado – Os críticos, colegas ou leitores tentam encontrar alegorias em seus textos?

Schweblin – (sorri) Sim! E em grande parte das vezes, em coisas que não tem nada a ver. Uma vez, um editor inglês me explicou – a mim, a escritora! – que meu conto “matar um cachorro” falava, na realidade, sobre a ditadura argentina… E ele tinha tanta certeza disso (ri)! Mas, há um lado positivo, que é a universalidade da literatura, pois a partir do momento em que alguém tenta explicar um conto de uma única forma, perde.

Estado – De onde saem as ideias para os contos?

Schweblin – “Irman”, do “Pássaros na boca”, veio em parte de algo que aconteceu com um casal de amigos que estavam na estrada, com muita fome, e decidiram para em um bar de um posto de gasolina. Mas, ninguém vinha atendê-los. Finalmente apareceu o garçom, que estava atrapalhado porque sua mulher havia desmaiado no meio da cozinha. E juntei isso com uma cena que vi em uma loja, na qual os dois donos haviam encontrado uma carteira de um homem que a havia perdido. Dentro havia uma foto velha, uma bala de menta toda amassada. Tudo estava gasto e velho. Mas essa pessoa a mantinha ali na carteira por algum motivo…deveria ter um grande valor para esse senhor. Mas os dois caras jogaram fora essa carteira. Juntei estas duas ideias para o conto.

Estado – seus contos possuem ritmo rápido….

Schweblin – A velocidade é algo que me interessa muito. Existe certa ideia de que a leitura veloz é leitura superficial. E eu penso o contrário. Acho que a velocidade na leitura é concedida pela profundidade nas palavras. Por exemplo, se eu digo, “lá fora faz frio e chove”, você, como leitor, entende que “lá fora faz frio e chove”. E nada mais do que isso. Como leitor, você está entendendo a mesma frase. Mas, se por acaso, escrevo “um homem sem mãos bate à minha porta para me vender uma fotografia de minha casa”, eu, a escritora, coloquei apenas uma frase. Mas, na cabeça do leitor pulam um monte de coisas: “quem é esse homem?”, “como ele bate na porta se não tem mãos?, “por qual motivo ele fez uma foto de minha casa… e porque ele quer me vender essa foto?”. E ainda pergunta-se “e como ele fez a foto, se não tem mãos???” Isso me fascina. E por isso gosto tanto da tradição americana, que é a de escrever o máximo possível em uma única frase. Gosto disso, o que ocorre dentro da cabeça do leitor. Velocidade é profundidade, não é superficialidade.

Estado – E esse estilo é útil para segurar o leitor, em um mundo de internet e de rapidez no cotidiano?

Schweblin – É por isso que acredito que é mais fundamental do que nunca ser visual. E além disso, temos que deixar que o leitor participe. Mas, é preciso explicar uma coisa sobre isto, pois normalmente quando falamos em participação do leitor, as pessoas acham que trata-se de deixar um final aberto. Ou um final que não seja totalmente claro. Mas não é isso. É exatamente o contrário. Acho que o final deve ser fechado. Gosto de ter o controle total do texto. Mas, o escritor tem que avançar nessa história, tête-a-tête, par a par com o leitor. Na hora em que não damos espaço ao leitor, a história perde…

Estado – Os contos são um gênero literário atualmente meio desprezados, apesar da grande tradição de escritores como Jorge Luis Borges, Julio Cortazar ou Edgar Allan Poe nessa área…

Schweblin – Às vezes, quando alguém me pergunta o que faço, quando ouvem minha resposta, a de que escrevo contos, exclamam “ah, você faz contos infantis?”. E dentro do meio literário, o clima é similar. Tenho a sensação de que meus editores tem fé em mim, pois parece que eles acham que não sou uma contista…acham que sou uma potencial novelista! Devem achar que uma hora vou “tomar vergonha na cara” e começar a escrever novelas. Mas eu sou uma contista nata! No entanto, não sou uma militante do conto. Escrevo contos porque acho que minhas ideias funcionam em contos. Caso algum dia eu tenha uma ideia que funciona em uma novela, escreverei uma novela, sem problemas. Não quero usar uma ideia que é adequada para a um conto, esticando-a para uma novela.

Estado – Lhe interessa o gênero da ficção-científica?

Schweblin – Sim, em o “Núcleo do distúrbio” houve alguns contos do gênero. Mas hoje em dia não escreveria sobre isso. No entanto, tive muita influência de Ray Bradbury e Ursula K. Le Guin….

Estado – Se o rótulo é inevitável, pelo menos para ajudar os livreiros na hora de colocar os livros nas estantes, como gostaria de ser catalogada dentro do amplo leque literário? É uma escritora de realismo fantástico, tal como vários críticos a enquadram?

Schweblin – “Realismo fantástico” é uma expressão estranha. Exceto um ou dois casos em “Pássaros na boca”, a maior parte são contos realistas, embora estejam concentrados em situações anormais. Poderão ser anormais…mas são super-realistas. Não é literatura fantástica, que é um gênero que deixa o leitor em um lugar mais confortável, pois, por exemplo, Frankenstein, uma criatura que viveu há mais de um século e morreu. Eu me sinto segura ao ler Frankenstein. Mas, nestes contos super-realistas, os problemas poderiam ocorrer ao próprio leitor. Mas, nada contra a literatura fantástica, que é um gênero que amo!

Estado – Você tem fascínio pelos elementos perturbadores…

Schweblin – Isso é o que coloca em andamento meu desejo de escrever. Se não encontro nada perturbador, não me interessa narrar. Sem o elemento perturbador, não posso armar o conto.

Estado – Quando começou a escrever contos, a internet já era um fato consumado. Seu processo de escritura ou sua obra tem influência da internet?

Schweblin – Muitos leitores me disseram que compraram livros meus porque viram contos na internet. No entanto, não acho que tenha um reflexo direto na literatura. No entanto, nossa geração de escritores está conseguindo coisas muito interessantes que não teriam sido possíveis sem a internet. Por exemplo: há pouco tempo li um texto do brasileiro Santiago Nazarian, que ainda não está publicado. Como era antigamente? Ora, um escritor em Montevidéu publicava algo no Uruguai. Se a venda era boa, dois anos depois chamava a atenção de editoras da Espanha. E, se tinha boa repercussão em Madri, uns dois ou três anos depois chegava à Buenos Aires. Entre uma coisa e outra, às vezes eu só podia ler um autor uruguaio uma década depois que havia escrito o livro. Agora a coisa é diferente, pois é “ao vivo”. Os integrantes desta geração, graças à internet, nutrem-se mais entre si do que outras gerações, quando os escritores estavam mais isolados. E a internet permite um contato mais estilístico do que geográfico. Ocasionalmente posso ter mais contato por afinidades com um escritor mexicano do que com um argentino que também mora, tal como eu, neste bairro, Boedo.

Estado – Como é seu processo de escritura?

Schweblin – Gosto de sentar para escrever com a ideia na cabeça. Para mim, é importante escrever o conto na menor quantidade possível de “sentadas”. Se escrevo de uma vez só, o texto tem uma energia intensa. E a maioria dos contos são feitos em uma ou duas sentadas. No máximo, três. Não acho que devo esperar pela inspiração. É preciso trabalhar na obra.

Estado – Borges dizia que, quando começava a escrever um conto, tinha claro em sua mente o começo e o final. Desta forma, ocupava-se em escrever o miolo. Como é teu sistema?

Schweblin – Às vezes tenho uma imagem que fica, fica e fica em minha cabeça…e tento não sentar para escrever até que não tenha o conto totalmente claro. Eu prefiro que o conto seja direto. Não gosto de bifurcações. Alguns escritores possuem facilidade em corrigir. Não é meu caso. Para mim não é fácil. Quando sento para escrever, preciso saber bem para onde vou. Eu escrevo quando tenho um final. O final é o conto.

OS RECOMENDADOS DA AUTORA

Estado – Quais seus contos preferidos?

Schweblin – De Borges, “O sul”; de Bioy Casares, “O outro céu”. E de Cortázar, “Axolotl”

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

E, the last but not the least, siga o @inter_estadão, o Twitter da editoria de Internacional do estadão.com.br .
Conheça também os blogs da equipe de Internacional do portal correspondentes, colunistas e repórteres. 
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. 
.………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Não é permitido postar links de vídeos. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

 

Comente!

  

Encomendar um livro pela Amazon – ou qualquer outra companhia de venda de livros pela internet – e esperar sua entrega proveniente do exterior no conforto do lar, tornou-se algo impossível na Argentina. Quem encomendar um livro, terá que pegar o carro – ou um transporte público – e ir até o aeroporto de Ezeiza, a 40 quilômetros do centro da capital argentina. Ali, terá que caminhar até o setor de cargas e retirar a encomenda no guichê para pessoas físicas.

Além dos compradores particulares, o novo sistema, imposto pelo secretário de Comércio Exterior, Guillermo Moreno – que foi colocado em vigência no dia 12 deste mês – também afetará as editoras ou livrarias que até agora usavam o sistema de courier para trazer livros do exterior. Moreno é o principal protagonista da cruzada anti-importações deslancahada pelo governo da presidente Cristina Kirchner.

Editoras e livrarias, até a implantação destas medidas, podiam trazer por courier do exterior encomendas de livros que pesavam menos de 50 quilos e com valor inferior a US$ 1.000,00. Mas, estas empresas, a partir de agora, precisarão recorrer aos serviços de um despachante alfandegário. Depois, terão que entregar uma declaração no Departamento de Comércio Interior no qual o comprador jura que os livros não possuem mais de 0,06% de chumbo na tinta com o qual estão impressos.

Na sequência, terá que apresentar uma declaração juramentada perante a Administração Federal de Ingressos Públicos (Afip, sigla da receita federal argentina). Depois de ter realizado o trâmite, deverão esperar para ver se a Afip autoriza – ou não – a importação.

Por courier ou em containers, a entrada de livros na Argentina tornou-se uma via crucis desde a aplicação da disposição número 26 de 2012 da Secretaria de Comércio Interior. A entrada em vigência desta disposição, publicada no diário oficial no dia 28 de fevereiro, estava prevista para daqui a 180 dias. No entanto, entrou inesperadamente em vigência no dia 12 de março.

Cartaz “Entreguem os livros” feito pelos estudantes franceses que participaram do Maio de 1968.

POLUENTE ESTRANGEIRO E POLUENTE NACIONAL - A medida impede a entrada de todo tipo de produtos editoriais que não cumpram com as restrições ambientais de conteúdo de chumbo no papel em que estão impressas. Segundo o governo, a medida foi tomada para “proteger a segurança da população”, eliminando os perigos de altos conteúdos de chumbo estrangeiro.

No entanto, as normas publicadas no Diário Oficial indicam que os fabricantes nacionais não serão limitados pelo volume de chumbo no papel dos livros que editem dentro de território argentino.

O presidente da Câmara Argentina do Livro, Isaac Rubinzal, protestou contra a medida: “os livros não deveriam ter restrição alguma” para entrar no país. “Um livro é um saber universal. Se preciso um livro mexicano, ele teria que entrar”.

IDIOMAS, BARRADOS - Também sofrem problemas para obter a liberação na alfândega os livros didáticos de idiomas. A britânica e tradicional editora Oxford University Press não consegue colocar um único exemplar no país há meses.

Também padecem a escassez os livros de ficção em português para os alunos argentinos do idioma lusitano.

MAFALDA BARRADA NA FRONTEIRA - O setor editorial sofre pressões de Moreno desde o ano passado, quando o secretário impediu durante semanas a entrada de todo tipo de livro proveniente do exterior. As barreiras impediram a entrada de um milhão de livros, que só foram liberados após o escândalo que surgiu quando tornou-se pública a proibição para um carregamento de livros das tirinhas Mafalda, a emblemática personagem dos quadrinhos argentinos criada pelo cartunista Quino.

Os livros haviam sido impressos no Uruguai por encomenada da Ediciones de La Flor, a histórica editora argentina que enfrentou diversos governos militares.

A cruzada anti-importações deslanchada pelo governo da presidente Cristina Kirchner em 2009 – que intensificou-se no segundo semestre do ano passado – atinge um amplo leque de produtos, desde a carne suína brasileira, bonecas Barbie Made in China, remédios oncológicos americanos, têxteis peruanos, entre milhares de outras mercadorias.

O autor das medidas protecionistas é Guillermo Moreno, considerado pelos empresários e políticos como o verdadeiro homem-forte do comércio exterior argentino.

   

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

E, the last but not the least, siga o @inter_estadão, o Twitter da editoria de Internacional do estadão.com.br .
Conheça também os blogs da equipe de Internacional do portal correspondentes, colunistas e repórteres. 
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. 
.………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Não é permitido postar links de vídeos. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comente!

Stefan Zweig, best-seller nos anos 20 e 30, suicidou-se há exatamente 70 anos em Petrópolis. Uma de suas amigas era Gabriela Mistral, que após a morte do autor, escreveu uma carta relatando seu encontro com o cadáver do amigo. O texto íntegro da carta publicada na Argentina pela Nobel chilena sobre o escritor austríaco foi resgatada pelo brasileiro Alberto Dines.

“Finalmente entrei no quarto de dormir e estive ali não sei por quanto tempo sem levantar a cabeça. Eu não podia ou não queria ver. Em duas pequenas camas unidas estava o mestre, com sua formosa cabeça somente alterada pela palidez. A morte violenta não lhe deixou violência alguma. Dormia sem seu eterno sorriso, mas sim com uma doçura enorme e com uma serenidade maior ainda”.

Desta forma, a escritora e diplomata chilena Gabriela Mistral (futura Prêmio Nobel de 1945) descreveu o momento em que entrou no quarto da casa do escritor austríaco Stefan Zweig em Petrópolis (RJ), horas após o suicídio do autor de “Novela de xadrez”, “Maria Stuart” e “Brasil, um país do futuro”.

O relato em forma de carta foi destinada a Eduardo Mallea, escritor argentino, que na época comandava o suplemento literário do jornal portenho “La Nación”. O conteúdo integral dessa epístola, publicada originalmente no dia 3 de março de 1942, ficou esquecido durante décadas, até que a carta – da qual só se conheciam trechos esparsos – foi resgatada em sua totalidade há poucos anos pelo jornalista brasileiro Alberto Dines, diretor do Observatório da Imprensa e autor de “Morte no paraíso”.

 O jovem Alberto Dines, com cara marota, marcado com o círculo preto. O escritor Stefan Zweig, acompanhado de Lotte, no canto inferior direito. A foto foi feita na Escola Israelita-Brasileira Scholem Aleichem, Vila Isabel, Rio. Naquele momento Zweig colhia material para o “Brasil, um pais do futuro”. Um mês depois embarcou para uma série de conferências na Argentina (Buenos Aires, Cordoba, Rosário, Santa Fé, La Plata).

A quarta edição de ”Morte no paraíso” – uma das principais escritas sobre o suicídio de Zweig – será lançada no final de março e conterá a íntegra da carta de Mistral, entre outros detalhes sobre a vida do escritor.

“O texto da carta de Gabriela Mistral está carregado de emoção”, disse Dines ao Estado. sobre a carta, reproduzida pelo “La Nación” na sexta-feira passada. O jornal recordou que o interesse original de Zweig em conhecer a América do Sul era a Argentina. No entanto, depois de viajar à Buenos Aires nos anos 30, e de fazer uma escala no Brasil, ficou fascinado pelo afeto com o qual foi tratado pelos brasileiros (e havia ficado incomodado com o áspero clima político em Buenos Aires). Desta forma, em 1940, quando partiu da Europa, Zweig – em vez da Argentina – foi para o Brasil, instalando-se em Petrópolis.

Ali preparou um livro cujo título tornaria-se um slogan informal de sua terra de asilo: “Brasil, país do futuro”. Segundo Zweig, “se o Paraíso existe em algum lado do planeta, não poderia estar longe daqui”.

 

 O pacifista Zweig temia que a guerra, que estava arrasando as cidades da Europa, chegaria finalmente à América do Sul (acima, leitores buscam ávidos material de leitura em meio à Segunda Guerra Mundial). Em fevereiro de 1942 – quando Zweig deixou voluntariamente de viver – o Terceiro Reich parecia invencível. Apenas oito meses depois Hitler começaria a quebrar a cara com os ingleses nas areias do Sahara em El Alamein e com os russos nas gélidas planícies onde localizava-se Stalingrado.

AFUNDAMENTO E SUICÍDIO – O dia em que Mistral viu seu amigo deitado placidamente sobre o leito, sem vida, era o 23 de fevereiro de 1942. Menos de uma semana antes, Zweig havia sido informado sobre o afundamento do “Buarque”, navio brasileiro afundado por um submarino do Terceiro Reich. O escritor austríaco, judeu, refugiado na América do Sul para escapar do avanço do nazismo na Europa, considerou que o fim estava próximo, já que a guerra estava atingindo um país sul-americano.

Nas primeiras horas daquele dia Stefan Zweig, autor de sucesso em todo o mundo, havia cometido suicídio. A seu lado estava “Lotte”, apelido de Charlotte Altman, secretária e virtual esposa de Zweig. “Parece que ele morreu antes do que ela”, conjetura Mistral na carta a Mallea. “Sua mulher, que havia visto seu fim, segurava sua cabeça com o braço direito e toda sua cara estava apoiada na dele, Ao ser separada de seu corpo, ela ficou com o braço e a mão tortos e rígidos, e será necessário dar um jeito nesse pobrezinho corpo para colocá-la no ataúde. O rosto dela estava muito parecido (ao de Zweig). Não haverá nada que poderá dissolver em mim esta visão”.

“Nunca se soube o que foi o que ele ingeriu. Possivelmente morfina”, disse Dines ao Estado.

 Foto publicada no dia 28 de fevereiro de 1942 pela revista A Semana. Stefan e Lotte em um abraço eterno.

“Foi um livro importante para o Brasil. Mas na época foi muito esculhambado pela imprensa, por razões maliciosas, pois achavam que Zweig havia vendido-se ao Estado Novo de Getúlio Vargas. E, como Vargas não podia ser criticado diretamente, criticavam o Zweig”, explica Dines, que viu o escritor de perto quando tinha oito anos, em 1940, durante uma visita do autor de “Amok” à escola de seu futuro biógrafo. “Ele posou para uma foto com uma centena de alunos e os professores. Naquele dia não tivemos aula. Foi um dia que não esquecerei”, diz.

 

Morte no paraíso, de Alberto Dines. Nova edição ampliada terá mais detalhes sobre a vida e obra do escritor austríaco.

ATUALIDADE DE ZWEIG - “A efeméride destes 70 anos de sua morte é muito interessante, pois Zweig era, desde o início, um europeu, muito antes de que existisse uma concepção de uma Europa unida”, sustenta o biógrafo. Segundo Dines, “Zweig não morreu. Está vivo. pois continua sendo reeditado e reaproveitado. No ano passado o diretor Bernard Attal preparou um filme baseado em ‘A coleção invisível’, do Zweig, que talvez seja o único livro de ficção na literatura que está centralizada na inflação”.

A carta, na íntegra, de Gabriela Mistral publicada no jornal La Nación no dia 3 de março de 1942:

Eduardo Mallea: van adjuntas unas letras de hace días, donde hallará usted un recado de nuestroStefan Zweig. Yo no podía mandárselas hoy, 24 de febrero, sin añadirles unas palabras sobre el horrible día 23. Salí hacia Petrópolis a las once y media; mi bus ha debido pasar por la casa de nuestro amigo a mediodía: a esa hora él y su mujer agonizaban, allí, solos, sin que nadie supiese esa agonía. La criada tenía costumbre de que sus patrones durmiesen hasta las 10; no le extrañó mucho, al acercarse a la puerta hacia las 12, oír “la respiración del señor Zweig”. Pero la pobre mujer solamente a las cuatro se decidió a abrir la puerta. Avisó a la policía; andaba tan trastornada que al recibir a un arquitecto francés que venía de visita, le contestó: “Sí, allí están; pero están muertos”. La policía llamó al presidente del PEN Club, Dr. [Cláudio] De Souza, a quien estaba dirigida la carta del maestro para sus amigos y que tal vez usted ya ha leído. El doctor fue a comunicar personalmente la tragedia al presidente -quien ordenó hacer las exequias por cuenta del Estado- y avisó a la prensa de Río. Nosotros supimos la desventura por un telefonazo de M. Dominique Braga, a las nueve de la noche. Yo estaba recogida y oía sin entender este diálogo: “No puedo oírle, señor Braga; hable usted más alto. El teléfono está mal. No le oigo todavía. No le puedo oír”. Y después: “¡Qué cosa tan horrible!” y el llanto no dejaba hablar a Connie [Saleva, secretária de G.M.], lo mismo que a M. Braga. Creí que se tratase de un accidente de auto y busqué entre mis amigos de Petrópolis. A cualquiera hallaba menos a ellos. Porque hacían la vida más quieta del mundo, y la más dulce en la apariencia y la más linda de ver.

Tenía tanto miedo de saber, amigo mío, tanto temor, que no quería preguntar. Connie subió llorando como un niño. Aquí los tres teníamos, más que el cariño, la ternura de ese hombre llano como una criatura, tierno en la amistad como no sé decirlo, y realmente adorable. Usted sabe con cuánta frecuencia nos veíamos, ¡ay! Con menos de la necesaria para haber sabido el secreto de ellos y haberlos ayudado, si dable era ayudarles, ¡Dios mío!

Salimos hacia Petrópolis con una sensación de sonámbulos que hacen cosas absurdas: saberlos muertos no era posible para nosotros, y muertos por suicidio, menos. La pequeña casa de columnetas, a media colina, a cuya puerta nos esperaba siempre, subiendo lentamente las escaleras, estaba guardada por la policía. Arriba hallamos al doctor De Souza y a su buena mujer, al presidente de la Academia de Petrópolis, a un grupo de hebreos, al editor brasileño de Zweig y a los consabidos corresponsales de la prensa nacional y extranjera. Nosotros seguíamos hablando y oyéndolo todo como sonámbulos.

Al fin entré en el dormitorio y estuve allí no sé cuánto tiempo sin levantar la cabeza. Yo no podía o no quería ver. En dos pequeños lechos juntos estaba el maestro, con su hermosa cabeza solamente alterada por la palidez. La muerte violenta no le dejó violencia alguna. Dormía sin su eterna sonrisa, pero con una dulzura grande y una serenidad mayor todavía. Parece que él murió antes que ella. Su mujer, que habrá visto ese acabamiento, le retenía la cabeza con el brazo derecho, y toda su cara estaba echada sobre la suya. Al ser separada de su cuerpo, ella quedó con brazo y mano torcidos y rígidos, y habrá que desgobernar el pobrecito cuerpo al ponerla en el ataúd. El rostro de ella estaba muy parecido. No habrá nada que me disuelva esta visión.

Tenía él 61 años; ella, 33. El decía siempre: “En años, soy más que su padre”. Ella supo irse con él, dejando atrás la vida entera. La miré mucho rato en el ademán y en el prodigioso enflaquecimiento del veneno o de la angustia de la última hora: la de verlo muerto a su lado. Mantengo todo mi concepto cristiano sobre el suicidio, amigo mío, pero creo que él no me prohíbe sentir este desgarramiento por el amor de esa mujer hacia un hombre viejo a quien quiso con pasión y amistad. Lo cuidaba con un celo tal que no estaba lejos de él diez minutos: del aire frío, del mucho escribir, del mucho andar -que era su vicio único-, del desaliento: de todo lo guardaba. En mi país yo hubiese rogado que los sepultasen juntos, como a los Berthelot. Zweig dormía sin sueños, aliviado para siempre del tiempo y el mundo vergonzosos que fueron la ración de su vejez.

Mi asombro y el de cuantos lo tratamos aquí es inmenso. Hoy sólo puedo contarle nuestro penúltimo encuentro. Nos invitó a almorzar, añadiendo a nosotros tres a Hortensia Río Branco, que estaba en casa. Lo encontré un poco desmejorado, pero en un ánimo más alegre que otras veces. Le di la noticia de la venida de Waldo Frank, anunciada en la carta suya, y le participé mi proposición de que el amigo viniese a casa, a Petrópolis, para escapar del calor. Entonces ambos me dijeron que compartiríamos a Frank, quien podía pasar días con ellos, días conmigo. Así lo convinimos.

Contó riendo que él había dispuesto un almuerzo austríaco, desde la sopa hasta el postre. Y él lo sirvió, con su linda manera, que nunca se sabía si era de uno muy viejo o muy niño. Habló un poco de Bélgica con doña Hortensia, residente de media vida en ese país.

Luego salimos hacia la terraza, donde a él le gustaba trabajar, pero me detuvo al pasar por su escritorio para leerme una preciosa carta de Martin du Gard, el novelista. Leía y repetía frases y frases, haciéndome sentir el perfecto, el hermoso estado de espíritu de esta otra alma en prueba. Salimos a la terraza hablando de las gentes que están viviendo su tragedia sin la pérdida de una pizca de decoro y de elegancia en la conducta. Entonces me dijo, mirándome de un modo particular y recalcándome las palabras: “Habría que decir lo peligroso que es en América comenzar una persecución de los alemanes; sé que hay algunos signos de eso, y me alarman mucho”. Lo tranquilicé, asegurándole que no habrá inquisición, ni cosas parecidas a las débauches sangrientas de Europa, en nuestros pueblos. Y entramos en una larguísima conversación sobre el indio, el negro y las gentes cruzadas. Le oí una alabanza conmovida de los misioneros portugueses. Yo había procurado antes interesarlo en los misioneros del Continente como asunto para un libro suyo que podría ayudar mucho a nuestros indios. Celebró la bondad del negro, “que es una sola cosa -dijo- con su alegría”. Añadió lindas observaciones del temperamento brasileño en la piedad y el equilibrio pasional. De la gente pasó a la tierra, y me pidió caminar con él por los alrededores de nuestra ciudad, lo cual le prometí. Él me creía entendida en plantas, sólo por haberme visto cultivar un pedazo de jardín de la casa? “Gabriela Mistral -me dijo-, yo tengo este deseo que me va a conceder. Conversaremos mejor de todo esto andando por la tierra rural.”

Hace unos diez días de todo esto: trato de recordar con mucha precisión la parte referente a Frank y la última, porque son dos compromisos que él se hacía y que nadie le había solicitado. Estoy cierta de que no me engañaba -¡para qué!- y de que no pensaba matarse.

Poco después me habló por teléfono para preguntarme si yo iría a una recepción oficial de la Prefectura (o Gobernación) de Petrópolis, pues él tenía la invitación, pero no la compañía. Allá fuimos y estuvo a gusto, a pesar de lo poco que le agradaba la vida mundana.

No creo en las conjeturas que se hacen sobre la situación económica del maestro Zweig. Su editor las desmintió rotundamente anoche, a dos pasos del muerto. Las grandes ediciones suyas lanzadas por la mayor editorial yanqui, más algunos artículos pedidos de los Estados Unidos, podían asegurarle a lo menos unos años de un bienestar modesto, pero suficiente. Por otra parte, no puede ni imaginarse un momento de extravío o de locura: escritor más sensato, más dueño de su alma, menos delirante (a pesar de haber descripto como nadie el delirio), no puede tal vez encontrarse en nuestra generación. Pienso, sin pretensión de adivinar, que las últimas noticias de la guerra lo deprimieron horriblemente y en especial el comienzo de la guerra en el Caribe, el hundimiento de barcos sudamericanos. ¡Ay! ¡Había visto llegar así la guerra a tantas costas! Habrá que añadir su última información: la de los sucesos del Uruguay. También eso se parecía de un modo tremendo a lo visto en Europa, duela o no duela confesarlo. Estaba harto de horror, no podía ya más.

Amigo mío: ya sé que los fáciles dirán para condenar -y hasta algunos estoicos- que Zweig se debía a nosotros y que su escapada de la tragedia común es una gran flaqueza. Y mucho más se dirá. Hablarán de su falta de fe en lo sobrenatural y acaso de la famosa cobardía israelita.

Yo me quedo esperando su autobiografía, escrita aquí mismo, en nuestro Petrópolis, que él amaba tanto como yo. Porque no sabemos todo lo que este hombre padeció desde hace unos siete años, desde que el escritor alemán fiel a la libertad pasó a ser bestia de cacería. Su sensibilidad superaba a la mostrada en sus libros: era una sensibilidad femenina, en el mejor sentido del vocablo; habría que decir “inefable”. Cuando hablábamos de la guerra, yo seguía en su cara, punto a punto, su corazón en carne viva e iba midiendo lo que yo podía decir, lo cual no me ha ocurrido con ningún hombre de letras. Y no era que perdiese en momento alguno su control riguroso; era que los hechos brutales, o simplemente penosos, no parecían ser oídos, sino tocados por él en el mismo instante en que los escuchaba y le caía al rostro una tristeza sin límites que lo envejecía de golpe. (Usted recuerda la juventud de su aspecto; toda ella desaparecía en cayendo la guerra en la conversación.) Su repugnancia de la violencia era no sólo veraz; era absoluta.

Le importaban todos los pueblos y se había apegado muchísimo a los nuestros. Estuvo a punto de irse a Chile, por una invitación de Agustín Edwards; se quedó en Brasil y lo sirvió con un libro ejemplar sobre territorio, historia y pueblo. Halló los Estados Unidos demasiado recios o duros, no sé. Prefería el sur porque, además, necesitaba de mucha dulzura de clima el hombre de sesenta años.

Su melancolía más visible era la pérdida de la lengua materna. En su primera visita a esta casa me dijo que nada del mundo podría consolarlo de no volver a oír en torno suyo el habla de su infancia. “Esto -dijo- es lo único irremediable.” Él esperaba entonces con certidumbre cabal la caída del hitlerismo; pero ya había comprado una casa en Inglaterra y posiblemente, como muchos desterrados, pensaba que al regresar llevaría las heridas de un dictador, y además las de los seudo amigos que traicionan o que consienten. Su sobriedad para juzgar a su patria me pareció completa; jamás un denuesto, ni siquiera un vocablo castigador; su continencia verbal formaba parte de su hidalguía. (El tipo de nariz no era judío; mejor recordaba al español, inglés o francés).

No pudimos hacer nada por él, aparte de quererle en esta casa los tres, porque era lo más natural del mundo el tenerle no sólo admiración, sino una ternura conmovida.

¡Ay! Que no remuevan los creyentes estos huesos de doble fugitivo y renuncien al ejercicio fácil de dar una lección sobre un muerto que deja empobrecida a la humanidad, y en todo caso a los mejores. En él había miel de Isaías, también llama paulista, también ambrosía de Ruth.

Adiós. G. M..

 Stefan Zweig e Charlotte Altmann.

   

Para mais detalhes sobre Gabriela Mistral, aqui.

Para mais detalhes sobre Stefan Zweig, aqui. E também aqui.

   

E aqui, a versão completa de “Die schweigsame Frau” (A mulher silenciosa), ópera de Richard Strauss, cujo libreto é de Stefan Zweig:

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

E, the last but not the least, siga o @inter_estadão, o Twitter da editoria de Internacional do estadão.com.br .
Conheça também os blogs da equipe de Internacional do portal correspondentes, colunistas e repórteres. 
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. 
.………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Não é permitido postar links de vídeos. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comente!

“Uma das razões para ter tido uma vida feliz é a dele ter sido meu amigo. Todas as noites ele jantava nesta casa”, me disse Bioy Casares em uma entrevista publicada no final dos anos 90.  Acima, o risonho Borges. Embaixo, uma fotomontagem que reúne Borges e Bioy como “Biorges”.

Caras e caros,

Estou em uma semana de extrema correria de trabalho e assuntos familiares. Mas, não podia deixar de postar algo, mesmo que fosse mínimo, sobre Jorge Luis Borges, que hoje (quarta-feira), estaria assoprando 112 velinhas.

Reproduzo aqui uma das três entrevistas que fiz ao longo de vários anos com Adolfo Bioy Casares, concentrada na relação de amizade com seu amigo “Georgie” (amizade surgida graças aos lactobacilos).  Esta foi uma entrevista feita parcialmente na casa de Bioy e no restaurante Lola em 1996.

Esta entrevista, perceberão os leitores mais antigos do blog, já foi publicada há uns dois anos neste mesmo lugar. Mas, na pressa desta semana atribulada, e seguindo as indicações do emblemático e há séculos defunto Antoine-Laurent de Lavoisier, repito a conversa com o autor de “A invenção de Morel” e reciclo o material acrescentando um bônus track no pé da postagem. Sexta-feira estarei com a vida em ordem para responder comentários, inclusive os atrasados das postagens anteriores. E, além disso, qual melhor forma de celebrar com Borges seu 112 aniversário do que acompanhar o relato de seu querido amigo Bioy Casares? Para participar da borgiana festa de aniversário, aqui segue a postagem.

Um abajur quebrado levou a um folheto sobre iogurtes. O texto comercial sobre lactobacilos levou à uma das camaradagens mais frutíferas da história da literatura. Parece estranho, mas este foi o modo como duas privilegiadas mentes argentinas do século XX se uniram: Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares.

Tudo começou com uma reunião na casa de Victoria Ocampo, a rabugenta – e brilhante – dublê de Gertrude Stein da Argentina do anos 30, 40 e 50. Bioy Casares, casado com Silvina Ocampo, estava presente na tertúlia por temor às repreensões da cunhada. Victoria recebia um escritor estrangeiro com um cocktail.

Por acaso, Bioy sentou-se ao ladode Jorge Luis Borges. “No meio da festa começamos a conversar animadamente. Victoria nos interrompeu: ‘não sejam uns merdas. Falem com o convidado’. Borges levantou-se assustado e derrubou um abajur. Foi um opróbrio. Ele continuou falando comigo e ficamos amigos para toda a vida”.

A amizade os uniria para sempre. Bioy, sobrinho e filho e sobrinhode empresários do setor de laticínios, foi contratado pela própria família para escrever um folheto cultural “e comercial” sobre o iogurte. “Chamei Borges e ficamosdias na fazenda pensando no folheto. Mais do que trabalhar no tema, acabávamos criando personagens. Assim escrevemos “Seis Problemas para Don Isidro Parodi”. Queríamos escrever contos onde houvesse um enigma e uma solução clara. Mas fazíamos brincadeiras e nos perdíamos nelas. “Que faremos com este personagem?”, perguntávamos rindo.

Antes de partir para a Europa, o autor de “A invenção de Morel” e “Diário da Guerra do Porco” e inseparável partner de Borges, falou para o Estado sobre sua amizade com o autor de “Ficciones”:

Estado – Honorio Bustos Domecq, o imaginário autor de “Seis Problemas para Don Isidro Parodi” era uma criação com os sobrenomes dos avós…

Bioy Casares – Bustos era do lado de Borges. Domecq era minha avó paterna. A Editorialera “Oportet et Jerezes, convém que haja hereges”.

Estado – Como escreviam a quatro mãos?

Bioy – A gente sempre escrevia de noite. Borges sempre vinha em casa jantar. E depois de jantar conversávamos sobre uma ideia relativa a um assunto. Eu sentava na frente da máquina de escrever e começávamos….um de nós dois propunha a primeira frase…e assim vinham a segunda, terceira frases. Os dois íamos falando ao mesmo tempo. De vez em quando Borges dizia ‘não, acho melhor a gente enveredar por outro lado’…ou eu dizia ‘espera..acho que já temos demasiadas piadas juntas aqui’..e assim íamos escrevendo!.

Estado – Os srs. eram muito diferentes. Borges, quase um calvinista, o sr. era…

Bioy Casares – (rindo) Borges era incapaz de andar a cavalo. Eu percorria até250 km. Borges se apaixonava profundamente por cada mulher. Eu tive muito amores e a sorte de que minhas ex-amantes são muito boas amigas até hoje.

Estado – Qual influência o sr. teve em Borges e ele no sr.?

Bioy Casares – Ele, com Paul Valèry, me retiraram do surrealismo. Recebi grandes dicas, conduzidas pela inteligência. Combatiem Borgeso estilo em que cada frase tinha um efeito de surpresa no final. O ajudei, onde ele chegaria sem minha ajuda, a chegar no que era um estilo mais clássico.

Estado – Como foi publicar a revista Destiempo”, junto com Borges?

Bioy Casares – Estavámos muito contentes com isso. Saímos da gráfica com duas caixas das revistas e fizemos uma fotografia para uma histórica posteridade. A fotografia desapareceu. Nunca a recuperamos. Todos os exemplares do número um da revista desapareceram. O estúdio onde fizemos a foto também sumiu. Não era possível fazer uma revista sem dinheiro. Os colaboradores demoravam semanas para entregar os textos ea revista morreu…

Borges também virou comic. Aqui, o escritor na HQ “Perramus”, desenhada por Alberto Breccia

Estado – Como foi seu primeiro encontro com Borges?

Bioy Casares – Victoria Ocampo estava convidando alguns estrangeiros ilustres por alguns dias. Muito autoritária, quando convidava alguém, tinha que ir, porque senão ouviria repreensões pelo resto da vida. Ali estava o convidado ilustre, mas Borges, que estava sentado a meu lado começou a conversar comigo. Começamos a conversar animadamente no meio da festa. Mas Victoria nos interrompeu: ‘não sejam uns merdas. Falem com o convidado’. Borges levantou-se assustado e derrubou um abajur. Foi um opróbrio. Ele continuou falando comigo e ficamos amigos para toda a vida. Naquela noite, fomos embora logo da festa. O levei em meu carro a suacasa e fomos todo o trajeto conversando.

Estado – Os senhores eram como uma dupla de filme…

Bioy Casares – (ri) Não o vejo assim, mas foi uma amizade maravilhosa. Um dia me encarregaram um folheto pseudocientífico e eficazmente comercial sobre o iogurte. Como pagavam muito, convidei Borges para que escrevesse comigo. Fomos até a fazenda de meu pai. Como nos entediávamos, pensamos que seria bom se escrevêssemos contos juntos.

Estado – O que acha das obras que Borges não quis reeditar, que foram recentemente reeditadas (“O Idioma dos Argentinos” e “Borges en Revista Multicolor”)?

Bioy Casares – Sinto-me muito identificado com ele, pois espero que quando morrer, nunca reeditem meus primeiros livros. Quando fomos compilar minhas “Obras Completas” minha editora me disse que seria uma mentira chamá-las assim. Eu disse que eram livros antes de que me convertesse em um escritor consciente.

Estado – Entre a poesia e a prosa de Borges, qual prefere?

Bioy Casares – Prefiro a prosa, mas gosto muito da poesia dos últimos anos. Não gosto de seu tempo de surrealismo.

Estado – Como foram suas incursões no mundo dos roteiros cinematográficos?

Bioy Casares – Quando começamos ainda não sabíamos fazer roteiros. Depois aprendemos um pouco…

Estado – Borges tornou o sr. um dos mais conhecidos personagens da literatura fantástica. Em “Tlön, Uqbar e Orbis Tertius” o sr. é o personagem que faz a trama começar, com a citação “abomino os espelhos e a cópula, porque multiplicam a espécie humana”…

Bioy Casares – Ele me faz dizer coisas que nunca disse (ri). Gosto muito de espelhos, os acho misteriosíssimos. Para mim são uma fonte de inspiração. Era só uma brincadeira de Borges. Para ele, os espelhos eram atrozes. Nunca compreendi o porquê, mas ele tinha uma repulsão, talvez mais intelectual do que físico, pois não me parece que alguém possa ter uma repulsão física por algo tão bonito como um espelho.

O gato Beppo refestela-se no chão. Sentado na cadeira, com a indefectível bengala, o escritor Jorge Luis Borges. Beppo e seu amigo humano posam para a foto no apartamento do escritor na calle Maipú. Beppo foi enterrado na Praça San Martín. Borges, em Genebra.

Estado – O sr. teme a morte?

Bioy Casares – Diria que não, mas me impressiona. Me parece espantoso morrer.Borges e eufalávamos muito sobre isso. O coitado poderia agora me dizer o que se sente. Eu sigo com temor e com horror. É algo que me desgosta. Não gostaria que acontecesse.

Estado – O sr. viu Borges partir, sabendo que não o veria mais…

Bioy Casares – É horrível morrer. Sua morte foi dolorosa, penso eu. Antes de partir para Genebra, lhe perguntei se não era melhor ficar aqui, já que os médicos o haviam desenganado. Me respondeu: “para morrer, dá no mesmo estar em qualquer lugar…”. Uma frase literariamente eficaz, que me calou.

 

“Quando vinha um estrangeiro que nos parecia inteligente, Borges e eu o levávamos à Ponte Alsina, na zona sul de Buenos Aires. Não havia nada de destaque no lugar. Quando chegávamos no local, o visitante não entendia porque diabos o havíamos levado até ali. Mas Borges e eu gostávamos do lugar…”. Acima, na foto, a Puente Alsina.

BENGALA, UM TERCEIRO AUTOR E GARGALHADAS

Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares fizeram, desfrutando – e muito – um trabalho conjunto, deixando seus egos de lado. Não tentaram impor um ao outro suas ideias e palavras. Foi uma dupla simbiótica, que foi mais além da colaboração, já que Bustos Domecq tinha um estilo diferente ao dos dois escritores de carne e osso.

Honorio Bustos Domecq surgiu primeiro como F.Bustos, nome com o qual Borges publicou a primeira história de ficção de sua carreira, “O homem da esquina rosada”. Quando apareceu a parceria entre Borges e Bioy Casares o nome do escritor-fantasma foi trocado para Honorio Bustos Domecq.

Bustos era o sobrenome de um bisavôde Borges, enquanto que Domecq era o bisavô de Bioy.

H. Bustos Domecq começou sua carreira com “Seis problemas para Isidro Parodi”, de 1942. Em 1946 lançaram “Duas fantasias memoráveis”.

Bustos Domecq se tornou um “autor” de sucesso. A Argentina pensava que existia de verdade e chegaram a lhe oferecer prêmios literários. Mas H. Bustos Domecq nunca aparecia para receber as honras. Borges e Bioy Casares davam gargalhadas.

De quebra, também criaram um segundo autor-fantasma, Benito Suárez Lynch (também utilizando os sobrenomes de outros antepassadosde Borges e Bioy). Com este pseudônimo publicaram “Um modelo para a morte”.

Com os anos, Bioy foi-se parecendo a Borges, seu indefectível partner: a bengala, a fragilidade causada pela morte dos seres queridos, o desejo de viver muito mais. Unidos por causa de um abajur quebrado e um folheto sobre iogurtes, esta dupla produziu obras que integram a lista de clássicos da literatura do século XX. Borges era um potencial calvinista, tímido com as mulheres. Bioy se envolvia com as sobrinhas de sua esposa. O primeiro exercia o estilo mais erudito, o segundo primava pela simplicidade. Borges abandonou o planeta há dez anos. Bioy Casares continua aqui, aos 82 (a entrevista, lembrem, foi em 1996…Bioy Casares morreu menos de três anos depois).

E aqui embaixo, alguns dos melhores trechos do diário que Bioy Casares escreveu sobre o dia a dia de sua amizade com Borges (no original, em espanhol):

1950
Miércoles, 28 de junio. Borges llegó ayer de Tucumán. Contó que, recorriendo la ciudad con unos profesores, llegaron a un triste barrio de ranchos de paja [...] Uno de los profesores dijo: “Este barrio es muy peligroso. Hay muchos malevos [malhechores] y aclaró que no había verdadero peligro de ser atacado por ladrones o asesinos, sino por homosexuales. “Todos los malevos son homosexuales.”

1952
Martes, 6 de mayo. Borges me habló de un artículo que hace años Francisco Romero publicó en “Sur”; en él nuestro mayor filósofo llegaba a la conclusión de que las dos operaciones esenciales y tal vez únicas de la actividad humana eran unir y separar. Borges comentó: “Es un presocrático. Tiene todo el pasado por delante”.

Viernes, 30 de mayo. Habló de Flaubert: “A pesar de lo mucho que se esforzaba por escribir, las frases no le salían bien. Cae, como Lugones, en un estilo burocrático que apaga el interés del lector. No trata de ser interesante; la impresión que da no es de impulso, sino de insistencia en una materia ingrata. Después de leer La tentación de San Antonio a sus amigos, le dijeron que debía dejarse de asuntos grandilocuentes, que debía buscar una historia chata. Para contestar a esos amigos escribió Madame Bovary. Qué idea de la literatura y del arte. Llegó hasta a buscar la casa donde habían vivido Bouvard y Pécuchet. Qué diferencia con Henry James. Cuando a James le contaban una historia que le parecía que le daba tema para un cuento, una vez que había oído lo esencial acallaba a los narradores: no quería oír demasiadas explicaciones ni detalles; con lo esencial trabajaba su mente y un tiempo después producía un cuento. Un método más lúcido que el de Flaubert”.

1953
Domingo, 30 de agosto. Hablamos de Shakespeare. Dice que en literatura fue un amateur, the divine amateur; lo compara con Dante, verdadero literato. Recordó que las piezas de teatro no se consideraban literatura: las escribían de cualquier modo, con argumentos ajenos y hasta confusísimos. [...] Bioy: “Tal vez si se hubiera cultivado y esmerado, quizá habría perdido esa inflamada y feliz elocuencia, que es probablemente la mejor de sus virtudes. Cuando quiere ser un escritor, en los sonetos, se pierde en antítesis y en sutilezas fútiles”.

Domingo, 10 de noviembre. Hablo con Borges. Ayer estuvo en casa de Ricardo Rojas, con la comisión de la Sociedad de Escritores; había allí mucha gente, que iba a saludar a Rojas, porque se cumple el cincuentenario de la publicación de su primer libro. Borges: “La casa parece un museo: un museo dedicado a él mismo [...] Aquello era muy oscuro. Le di la mano y comprendí que había cometido una gaffe. Había que abrazarlo. ¿Te das cuenta? Abrazarlo porque hace cincuenta años que publicó un libro del que debería avergonzarse. ¿Viste los sonetos que publicó hoy en “La Nación”? Son pési-
mos. La gente dice que son malos porque son grandilocuentes. Es difícil ser grandilocuente: hay que saber serlo. éste lo es del modo más sonso”.

1954
Martes, 7 de diciembre. [Borges] Comenta: “La gente dice que la Historia de la filosofía (o el Diccionario) de Ferrater Mora es bueno porque figuran en él las filosofías de España y de la América latina. Es una idea muy casera. Buscan a Francisco Romero y lo encuentran. Es como si se alegraran de encontrar en una enciclopedia de medicina a la Madre María… La gente que elogia ciertas Historias de la literatura en diez tomos, diciendo “todo está” y “el autor lo sabe todo”, suelen señalar, en la misma frase, que hay un volumen suplementario sobre la literatura nacional, escrito por [Roberto] Giusti u otra autoridad indígena. Es como una fotografía a la que le pegaran un pedazo para añadir personas que no salieron, o un cuadro alegórico al que se le agregara, para exponerlo en Buenos Aires, las figuras de San Martín y de Belgrano. Ha de haber una edición bantú, con un tomo sobre la literatura bantú, firmado por una autoridad caníbal, desnuda y retinta”.

1955
Martes, 14 de junio. Hablamos de Proust. Yo le dije que lo que me parecía muy acertado en Proust era la inseguridad de la posición -social, económica- de la gente. “En la primera parte de una frase -exageré- se insiste sobre la solidez de una persona; en la segunda parte, se muestra un precipicio por el que esa per-
sona puede desmoronarse. Se muestra la fragilidad de las fortunas, de las posiciones sociales”. Borges: “Sí, está muy bien. Muestra los seres dependiendo unos de otros. Describe una sociedad en la que todo tiene importancia, en la que los seres pueden progresar o hundirse por acciones aparentemente intrascendentes. Pero la describe con perspicacia”. Bioy: “Una sociedad horrible frecuentemente es el tema de los novelistas franceses actuales, pero estos libros modernos dan una impresión de sordidez; Proust, no”. Borges: “En Proust siempre hay sol, hay luz, hay matices, hay sentido estético, hay alegría de vivir”.

Jueves, 15 de diciembre. Comen en casa los Mallea, Gustavo Casares, Alicia Jurado, Borges. Gustavo ponderó a España: “Qué lujo. Y qué miseria. En la iglesia de no sé qué pueblito, había que ver la plata del altar y las diademas de la virgen y uno salía ¡y qué miseria! La gente no había cambiado: era la misma del tiempo del Greco. Había un cura flaco, vestido de negro, y seguido de otro cura, de colorado, y de no sé cuántos monaguillos. Y estaban -están por todas partes en España- los enanos y las meninas de Velázquez: los quasimodos más horrorosos. El dominio de la iglesia es impresionante: tienen a la gente en un puño, se meten en todo y embuchan el dinero”. Borges: “Enumera horrores como si fueran ventajas y virtudes”. Helenita Mallea: “A María Elena Walsh la corrieron porque bajó de pantalones. Qué maravilla un pueblo que conserva así la manera de ser”. Borges: “Entre los esquimales encontrará aún más prejuicios”. Helenita: “No me hable de esquimales: viven en lugares fríos y a mí el frío -brrrrr- me horroriza”. Hablaron de lugares en donde uno viviría; yo mencioné Inglaterra, Francia, Italia, Suiza, España; Borges estaba de acuerdo: Inglaterra, Suiza, España le gustaban para vivir, pero “¿quién puede vivir fuera de Buenos Aires?”, agregó.

1956
Sábado, 18 de agosto. Comen en casa Borges y [José] Bianco. Borges comenta el discurso de Aramburu, en Salta. Dice que lo aplaudieron mucho cuando declaró que los militares no debían gobernar. Borges: “Este aplauso: ¿no es una gaffe? ¿Cómo aplaudir su opinión sin sugerir que él, como militar, no debe estar en el gobierno? Evidentemente, el lenguaje de los aplausos es demasiado tosco para expresar tales matices”. Le conté que los bolivianos (según la fama) responden los vivas o mueras con el grito de “¿Por qué no?”. Borges se rió mucho y propuso otras fórmulas para muchedumbres: “Tal vez” o “Hipótesis atendible”. También dijo: “Parece que un general, que estaba conspirando, se alegró mucho cuando un general lo arrestó. Aspiraba a ir a la presidencia; ahora va a la cárcel, muy contento porque tuvieron la atención de mandarle un general. Qué suerte que sea un imbécil”. En el Buenos Aires Herald dicen que este fiero general estaba borracho cuando lo apresaron; alguien, que lo conocía, observó: “Ha de ser cierto. Se emborrachó para sacarse el miedo”. Borges: “A lo mejor va a seguir contento cuando lo fusilen. Aunque no lo fusilarán: esos fusilamientos han puesto tan triste a todo el mundo. Antes no se fusilaba, solamente se torturaba”.

Miércoles, 18 de julio. Me habla la madre de Borges: Martínez Estrada atacó a Borges, llamándolo “turiferario, vendido y envilecido”, porque ha elogiado al gobierno. él se queja, con orgullo, de su pobreza, que le impide fumar… Parece que Borges piensa contestar impersonalmente, con respeto por el escritor. ¿Por qué esa ficción, si sabe que es un hombre equivocado y tortuoso?

Domingo, 22 de julio. Borges: “En una reunión el conde pederasta y escritorzuelo Witold Gombrowicz declara: Yo voy a decir un poema. Si en cinco minutos nadie propone otro tendrán que reconocer que soy el más gran poeta de Buenos Aires”. Recita:
Chip Chip llamo a la chiva
(Scherzo, no desprovisto de ironía, porque chip chip se usa para llamar a las gallinas)
mientras copiaba yo al viejo rico
(parte descriptiva. No significa -aclara Borges- “remedaba yo al viejo rico” sino “copiaba a máquina lo que el viejo rico dictaba”).
Oh rey de Inglaterra ¡viva!
(Castañeteos. Exaltación patriótica)
El nombre de tu esposo es Federico.
(Dénouement aristotélico).
Córdova Iturburu trató de leer algo, pero no encontró las papeletas. Gombrowicz se declaró rey de los poetas.

Miércoles, 12 de diciembre. Habló de Roberto Arlt: “Era muy ingenuo. Se dejaba engañar por cualquier plan, por descabellado que fuera, para ganar mucha plata, a condición de que hubiera en él algo deshonesto. Por ejemplo se interesó en el proyecto de instalar una feria para rematar caballos, en Avellaneda. El verdadero negocio consistiría en que clandestinamente cortarían las colas de los caballos, venderían la cerda y ganarían millones. Era comunista: se entusiasmó con la idea de organizar una gran cadena nacional de prostíbulos, que cos tearían la revolución social. Era un malevo desagradable, extraordinariamente inculto. No sabía hacer absolutamente nada. Me explicaron que sólo en El Mundo supieron aprovecharlo. Le encargaban cualquier cosa y después daban las páginas a otro para que las reescribiera. Dicen que reuniendo sus aguafuertes porteñas, que son trescientas y pico, podría hacerse un libro extraordinario. Imaginate lo que será eso. Las escribía todos los días, sobre lo primero que se le presentaba. Menos mal que algún otro las reescribió. Me aseguran que después se cultivó, leyó a Faulkner y todo eso lo demostró en un artículo de dos páginas, algo magnífico, en que estaba todo. “Sobre la crisis de la novela”: qué título. Ya te podés imaginar la idiotez que sería eso. Lo que pasa, según Arlt, es que la gente no comprende lo que es la novela, por eso hay crisis de novelas. En la novela cada personaje debe tener un destino claro, como el destino del tigre es matar. ¿Te das cuenta? Tiene que valerse de un animal para significar la sencillez del destino. Más que personajes describiría muñecos”. De Ricardo Molinari dijo: “Amenazó con no seguir escribiendo si no le daban el premio de poesía. Si no le daban el premio, ya verían, él se declararía en huelga y todo el mundo saldría perjudicado”. De Guillermo de Torre dijo: “Recorrió América. No trae de todo el viaje una experiencia memorable, una frase quotable [citable]. Mero énfasis. ¿Se interesó por el papiamento? No. Visitó la Casa de España y el centro de Profesores. únicamente trajo esta observación sobre [Alfonso] Reyes, no sé si memorable: Se ha dejado crecer la barba. Como es de estatura tan baja, parece un gnomo”.

1957
Viernes, 14 de junio. Borges me refiere: “Durante la comida, continuamente Mujica Láinez venía de su asiento a nuestra parte de la mesa. El propósito de estos viajes, que Mujica no ocultó, era tocar la nuca de un muchacho que lo emocionaba. “Se parece a Belgrano”, exclamó Mujica Láinez. “¿Usted, Manucho, admira a Belgrano?”, preguntó Wally Zenner. “¿Cómo no voy a admirarlo? -replicó-: con esos muslos y con esas caderas”. Borges comentó: “Va Ma-
nucho al Museo de Luján y todas las antiguallas reviven. Manucho no mira los cuadros fríamente; es un contemporáneo de lo que está mirando”.

Lunes, 2 de septiembre. Me refiere que Miguel, su sobrino, compró en estos días una segunda biografía de Gardel, de quien es muy devoto. “Ay -exclamó Miguel-, qué golpe. Se llamaba Gardez y había nacido en Provenza”. Borges: “Le contesté que hubiera sido peor que fuera bávaro, o belga, o suizo; que uno pudiera preguntarle: ¿De qué cantón es usted?”. Bioy: “Sin duda il roulait les erres” (en alusión a cómo pronuncian la erre en el sur de Francia). Borges: “Nunca lo vi. Una vez fui con Mastronardi a un cinematógrafo, a ver La batida, con George Bancroft; anunciaron que Gardel iba a cantar al final: nos fuimos sin oírlo, porque no queríamos que el efecto del film se nos arruinara”. Yo dije, y mi padre confirmó, que durante mucho tiempo Gardel cantó vestido de gaucho. Era la época de Gardel-Razzano. Mi padre: “De aspecto, Razzano, a pesar de las dos zetas, era un poco mejor”. Borges: “La cara de Gardel era la típica cara del otario. Malevo, sí, pero malevo sonso. Quien tenía ese mismo tipo de cara, estúpida y abundante, era Florencio Sánchez. Una vez, por cuestiones políticas, detuvieron a un grupo de personas, entre las que estaba Florencio Sánchez. El vigilante lo miró y le dijo: “Vos no. Tenés demasiada cara de otario”. Bioy: “A mí, Gardel nunca me gustó mucho como cantor de tangos. Lo vi y no me dejó ningún buen recuerdo; más me gustaron Azucena Maizani, Sofía Bozán, Rosita Quiroga. De los cantores de antes me gustaba Alberto Vila: cantaba admirablemente “Agua florida”. Hablamos de la posibilidad de hacer una biografía de Gardel, en la que se dijera cosas inconvenientes, como sin darse cuenta (que era provenzal, un troubadour, que se llamaba Gardez, que era el zorzal francouruguayo, etcétera). [...]

Miércoles, 25 de septiembre. Borges me dice que el actor [Francisco] Petrone le ha propuesto que hagamos un libreto para filmar el Martín Fierro. Borges: “Tenemos que escribir hacia el tema, no desde. Hay que empezar con algo que muestre que no seguimos el libro, para que el espectador no haga comparaciones. No podemos mantener los versos, porque si no el film parecerá una ópera. Tal vez al final pueden ponerse algunos versos”. Bioy: “Casi fuera del film. Casi a Hernández, en su hotel. Que el film se acepte como la vida de Martín Fierro, que luego versificó Hernández. Nadie cree que esa vida, de ser real, pudo transcurrir en verso”.

Borges: “Es mejor esto que si nos proponen Don Segundo. En Don Segundo todo se reduce a movimientos de hacienda, de acá para allá. Y después está esa relación desagradable entre don Segundo y el relator… Si aceptamos la proposición vamos a tener que trabajar en serio”. Bioy: “Desde luego. No como para los cuentos de Bustos Domecq, últimamente, que trabajábamos muertos de sueño, una noche por mes”. Borges: “Podríamos ir a tu estancia. Podría tal vez filmarse allá algunas tomas. Es mejor describir el campo por fotografías que por frases. Se muestra un ombú y no debe uno escribir la palabra”. Bioy: “No debemos parecernos a Dávalos”. Borges: “Es una lástima que no podamos limitarnos a la Ida”.

Jueves, 26 de septiembre. Hablamos del film sobre Martín Fierro. Borges: “Podríamos empezar un poco antes que el poema”. Bioy: “Las escenas de felicidad, con la china, y cada cual levantándose de mañana a buscar su caballo, en un film nacional, pueden ser muy tontas”. Borges: “Los versos son lindos, pero la escena… es casi la granja modelo. Una solución, serían los dibujos animados”. Mi padre: “Es claro: “Venía la carne con cuero,/ la sabrosa carbonada” y se la ve avanzar por sus propios medios”. Borges: “Se ve a Fierro como un gallo montado en un chancho. Otro problema son los indios”. Bioy: “Aunque el país está lleno de gente aindiada, en nuestro film se les verá el tizne”. Borges: “Petrone dijo: ‘Hay que mostrarlos como sombras’”. Bioy: “La vida en la frontera, será, entonces, una vida ociosa”. Borges: “O si no podemos sugerir que todo lo importante ocurre en los márgenes de la pantalla. ‘Voy a pelear con los indios’. ‘Vengo de pelear con los indios’”. Silvina: “Para indio tienen a Susana Bombal. Martínez Estrada sirve para Martín Fierro”.

Borges: “Para Cruz no sabríamos por quién decidirnos. ¿[Los editores Gonzalo] Losada o [de Sudamericana, Antoni] López Llausás?”. Bioy: “Podrían aprovecharse los pieles rojas de una película norteamericana”. Borges: “Es claro. Hacer una suerte de centón. Tal vez convendrían más los esquimales, porque la gente no los reconocería como pieles rojas. Para el Viejo Vizcacha -el personaje filosófico que interesa a Petrone, ¡qué idea de la filosofía!- habrá algún putito de la sade. Y con Sábato, ¿qué hacemos? Me han dicho que está pobrísimo. Traté de compadecerlo pero no puedo: es difícil compadecerse de Sábato”. Silvina: “¿Y qué tal es, como persona, Petrone? ¿Es antipático?”. Borges: “Antipático, no, pero la conversación con él está llena de desencuentros. En realidad, va a ser muy difícil de hacer el film. Pensá: cuando se vea el ejército, la bandera argentina, y la gente tratando de huir para que no la enganchen. Va a parecer un ataque contra el ejército, en favor del Descamisado…”.

Bioy: “La posibilidad está en el libro”. Borges: “Habría que mostrarlo a Fierro como a un hombre a quien el azar de las circunstancias va convirtiendo en criminal y después se le descorre el velo, comprende lo atroz de su destino y habla. Un personaje de Bernard Shaw es nuestra única posibilidad. Los consejos que da, entonces, deben ser verdaderos, no como los que da el libro, tan de ocasión. De todos modos, no veo cómo vamos a evitar que se vea ese destino como el de un peronista perseguido por la sociedad y el ejército: se verá al ejército en un mal papel y se pensará que es un ataque al ejército de hoy”. Bioy: “Habría que mostrarlo en un mundo tan duro que no se tome como metáfora de otro”. Borges: “Sería un mundo muy duro”. Bioy: “Mostrar un destino individual. Como en las novelas de Faulkner”. Borges: “Sí, hechos que ocurrieron una sola vez; esa sola vez”.

1958
Sábado, 2 de julio: Leemos cuentos para el concurso. Borges: “Cuántas formas del error”. De un cuento: “Con qué minuciosidad y complejidad explica cosas desprovistas de toda importancia”.

1960
Domingo, 6 de noviembre. Come en casa Borges. [...] Dice: “Strindberg es pésimo. ¿Cómo pueden compararlo con Ibsen? Una vez, Strindberg publicó la descripción de un almuerzo; su anfitrión, desesperado por el retrato que de él se presentaba, se suicidó. Es que un artista no se resigna a contar exactamente cómo fue un almuerzo en una casa burguesa. Inventa algo”.
Octavio Paz envió a “Sur” un poema de amor, con el verso
tus pedos estallan y se disipan.
Borges: “Se verá a sí mismo como un conquistador de nuevas regiones para la poesía… Qué regiones”. Bioy: “Menos mal que se disipan”. Borges: “Si no, serían esos pedos sin ruido y sin olor, de que hablan los chicos; la idea abstracta… Mejores son los versos de Quevedo

La voz del culo que se llama pedo

Poesía didáctica. Versos de tono explicativo. O aquello de el pedo, ruiseñor de los putos.
¿Vos creés que Quevedo sabía tan poco de putos que imaginaba que para ellos el pedo era una suerte de reclamo, que usaban para llamarse unos a otros? ¿O en las calles se oyen fusilerías de pedos, reclamos de putos llamando a putos? O más bien quiso indicar que eran una voz dulcísima, pronunciada por la parte que les interesaba… On ne peut pas y aller plus loin en vulgarité (no se puede llegar más lejos en la vulgaridad). Una palabra tan noble como ruiseñor, perdida entre pedo y putos. Está escrito con mucha rabia, contra alguien. Les tendría rabia a los putos… Qué bien que una cosa pueda elogiarse por su fealdad. Sin duda la línea es superior al contexto. Quevedo llamaba al culo sima barbada”.

Sábado, 31 de diciembre. Come en casa Borges. Brindamos con champagne. Después de comer, Borges y yo vamos a la ventana de la sala de Silvina, a esperar las doce. Borges: “Esperamos algo que no sabemos bien en qué consiste”. Miro los árboles y los senderos de la plaza, la estatua de Alvear y pienso en la máquina del tiempo de Wells y en que todos somos unas máquinas de tiempo de vuelo de ave de corral. “Qué raro -comenta Borges- que en tantos años como viví no hubiera un momento en que yo haya estado más adelante en el futuro que ahora”.

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

E, the last but not the least, siga o @inter_estadão, o Twitter da editoria de Internacional do estadão.com.br .
Conheça também os blogs da equipe de Internacional do portal correspondentes, colunistas e repórteres.
 
 ………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

 

Comentários (11)| Comente!

 

Tirinha do genial, sarcástico e ácido – e delirante – cartunista argentino Gustavo Sala, que ilustra o suposto rendez-vous Borges/Jagger. Nela, o roqueiro encontra casualmente Borges no hall de um hotel e diz: “Mestre! Que maravilha encontra-lo aqui. Li toda sua obra e o admire profundamente… Sou Mick Jagger, dos Rolling Stones”. Borges responde sorrindo: “Adoro os Rolling Stones! Principalmente ao canção Yellow Submarine”. Jagger fica fulo da vida e retruca: “Yellow Submarine é dos Beatles. No fim das contas, você, Bioy Casares, é meio panaca”. Agora é Borges que fica furioso com a confusão com Bioy e responde: “Eu sou Borges! Ta de gozação, cabeça de cacete?”. Jagger se afasta dizendo “Velho forro (gíria chula para preservativo, mas neste caso com equivalência para “imbecil”)!”. Borges resmunga: “Careta!”. O blog do cartunista, aqui.

Caras e caros,

Estava pendente há semanas a última postagem da “Semana borgiana de Os Hermanos” (para recordar os 25 anos do falecimento do escritor Jorge Luis Borges). Mas, por causa da cobertura da cúpula do Mercosul em Assunção, da crise do River Plate, do lançamento oficial da candidatura de Cristina Kirchner à reeleição presidencial, e do início da Copa América (acompanhada de forte conteúdo político), o epílogo da semana borgiana foi adiada e novamente adiada.

O escritor Jorge Luis Borges admirava o roqueiro Mick Jagger, líder dos Rolling Stones?

Pelo menos isso é o que Maria Kodama, ex-aluna e ex-secretária do escritor, que casou-se com ele meses antes da morte de Borges em junho de 1986, me disse em uma entrevista no final de 1995, poucos meses depois que desembarquei em Buenos Aires.

Anos depois Kodama explicou a um jornal europeu que Borges preferia Pink Floyd e que sabia os diálogos de “The Wall” de memória. “Ele gostava muito de sua música, pois dizia que tinha uma força especial e que o fazia sentir-se bem”. Segundo Kodama, nos aniversários de Borges não cantavam o tradicional “parabéns pra você”, mas sim “The Wall”.

O assunto roqueiro ficou fora da agenda de Kodama até poucos anos atrás, quando ela voltou a falar sobre a conexão O Aleph-Satisfaction.

Desta vez, ela ampliou a versão do rendez-vous entre a eminência da literatura e o bardo do rock, afirmando que ela e o escritor estavam sentados no hall de um hotel na Europa quando entrou Mick Jagger.

O roqueiro vê Borges, e deleitado pelo encontro, ajoelha-se na frente de Borges e diz: “mestre, que maravilha encontrá-lo, o senhor não sabe quando o admiro. Li toda sua obra”.

Borges, que já estava cego, pergunta: “e o sr, quem é?”

O roqueiro responde: “Mick Jagger”.

Borges exclama: “Mick Jagger! Um dos Rolling Stones”.

Segundo Kodama, a conversa continuou assim:

- Mas como, mestre, o sr, me conhece?

- Sim, sim, o conheço através de Maria, que permitiu que eu o descobrisse.

A afirmação de Kodama sempre me chamou a atenção. Mais ainda depois da entrevista que fiz com ela após ter desembarcado em Buenos Aires em 1995. E mais ainda depois de ficar sabendo as peculiares circunstâncias de seu casamento feito por um cônsul paraguaio … que não era cônsul nem paraguaio (para mais detalhes, ver a anterior postagem sobre Borges, aqui). Ao longo destes anos, em todas as ocasiões nas quais entrevistava amigos de Borges ou seus estudiosos, perguntava se esta história tinha sentido.

A afirmação de Kodama sempre me chamou a atenção. Mais ainda depois da entrevista que fiz com ela após ter desembarcado em Buenos Aires em 1995. E mais ainda depois de ficar sabendo as peculiares circunstâncias de seu casamento feito por um cônsul paraguaio … que não era cônsul nem paraguaio (para mais detalhes, ver a anterior postagem sobre Borges, aqui). Ao longo destes anos, em todas as ocasiões nas quais entrevistava amigos de Borges ou seus estudiosos, perguntava se esta história tinha sentido.

O primeiro foi seu amigo e escritor Adolfo Bioy Casares, que riu quando lhe perguntei se Borges apreciava o rock. Bioy me disse que a tinha a sensação de que Kodama estava tentando fazer o escritor parecer “juvenil”.

“Ele não ouvia rock, posso garantir”, afirmou.

Anos depois, ao terminar uma entrevista com Fani Uveda, empregada da família Borges durante mais de quatro décadas, também fiz a pergunta sobre Jagger e seu gênero musical.

Fani, que tinha poucos anos de vida pela frente, levantou as sobrancelhas, surpreendida pela pergunta. “Não, o senhor Borges não ouvia rock. Nunca”, disse categórica. “Ele nem sabia quais eram os cantores de rock”, arrematou.

Há poucas semanas entrevistei Maria Esther Vázquez, biógrafa e amiga de Borges, fiz a pergunta clássica que fiz nestes anos todos a amigos e conhecidos de Borges. A resposta foi: “Besteira”.

“Borges não gostava de rock. Mas gostava dos blues, dos tristes spirituals. E além disso, Borges não tinha ouvido musical algum. Cantava o hino nacional com a mesma melodia que podia cantar o tango El Pollito (O Franguinho)”.

O Tango “El pollito”, aqui.

E também aqui.

E aqui.

E para encerrar este galináceo tango, na versão da Orquestra Típica Budapest, aqui.

Segundo Vázquez, “Borges gostava das milongas (versão mais rápida do tango, menos sofisticadas). E gostava dos primeiros tangos, sem letras. No entanto, uma vez, nos EUA, estávamos em um auditório quando tocaram o tango “Nostalgias”. Subitamente, ouvi alguém chorando. Olhei para o lado, e vi que era Borges. Emocionara-se pela música, que a estava ouvindo tão longe de sua terra”.

Alejandro Vaccaro, presidente da Sociedade Argentina de Escritores (Sade), ri quando ouve a consulta sobre Borges-Jagger: “É um disparate. As pessoas tem o direito de dizer qualquer coisa que quiserem. Mas essa história dos Rolling Stones é um disparate”.

“Além disso, Borges não tinha sequer rádio em sua casa, nem TV. E nem um toca-fita ou tocadisco”, explica Vaccaro. “Parece que uma vez, na Europa, os dois se viram em um hotel. Jagger o cumprimentou. Ele era um admirador de Borges. Jagger havia participado de um filme, Performance, no qual lia um trecho de um conto de Borges. Talvez Borges, por cortesia, disse que gostava dele. Mas só isso. Borges, com certeza, não ouvia os Rolling Stones”.

Filme com Robert Redford e Jane Fonda, “Descalços no parque”, tem um quê do não-borgiano poema de Nadine Stair/Strain

INSTANTES

Outro mito sobre Borges é suposta poesia “Instantes”, que tece uma longa lista de atividades que a pessoa que o escreve diz que gostaria de ter feito antes de morrer. Nesse poema, em tom de “auto-ajuda”, a pessoa indica que possui 85 anos e que desejaria ter comido mais sorvete, caminhar sob a chuva, etc. A confusão começou imediatamente após a morte do escritor, quando foi divulgado em todo o mundo um poema que celeremente pipocou em posters em quartos de repúblicas estudantis, cartões de parabéns, marcadores de livros e nos cadernos de colegiais.

Muitos leitores consideraram automaticamente que este era um real poema de Borges, mais ainda porque o autor cita a idade de 85 anos no texto (Borges morreu aos 86, em 1986). Isto é, como se fosse um texto que Borges teria preparado pouco antes de morrer.

Talvez tenha sido o poema “de Borges” mais conhecido em todo o planeta. Mas, na realidade era da poetisa Nadine Stair, de Louisville, Kentucky, EUA. Essa peça foi publicada em 1978.

Bom, o problema é que não existe nenhuma Nadine Stair…

Existia sim, uma Nadine Strain na mesma cidade.

E, quando o texto de Stair/Strain foi publicado, ela tinha 85 anos, a idade citada no poema.

Este é o poema da polêmica, em espanhol:

Si pudiera vivir nuevamente mi vida.
En la próxima trataría de cometer más errores.
No intentaría ser tan perfecto, me relajaría más.
Sería más tonto de lo que he sido, de hecho
tomaría muy pocas cosas con seriedad.
Sería menos higiénico.
Correría más riesgos, haría más viajes, contemplaría
más atardeceres, subiría más montañas, nadaría más ríos.
Iría a más lugares adonde nunca he ido, comería
más helados y menos habas, tendría más problemas
reales y menos imaginarios.
Yo fui una de esas personas que vivió sensata y prolíficamente
cada minuto de su vida; claro que tuve momentos de alegría.
Pero si pudiera volver atrás trataría de tener
solamente buenos momentos.
Por si no lo saben, de eso está hecha la vida, sólo de momentos;
no te pierdas el ahora.
Yo era uno de esos que nunca iban a ninguna parte sin termómetro,
una bolsa de agua caliente, un paraguas y un paracaídas;
Si pudiera volver a vivir, viajaría más liviano.
Si pudiera volver a vivir comenzaría a andar descalzo a principios
de la primavera y seguiría así hasta concluir el otoño.
Daría más vueltas en calesita, contemplaría más amaneceres
y jugaría con más niños, si tuviera otra vez la vida por delante.
Pero ya tengo 85 años y sé que me estoy muriendo.
 

O suposto poema borgiano espalhou-se pelo mundo, levando o próprio integrante do U-2, o irlandês Bono, a falar sobre o poema durante o programa Teleton, na TV mexicana em 2005, citando Borges como o autor real. Pior: disse que Borges era um escritor chileno….

A própria escritora mexicana Elena Poniatowska, uma das mais respeitadas intelectuais de seu país, também caiu na armadilha de Stair/Strain (mas ela sabia que Borges era argentino).

Caricatura do cartunista (e poeta nas horas vagas) americano Don Herold, autor da – eventual – primeira versão do polêmico “Instantes”

E, quando a coisa parece saborosa…a história fica mais interessante! Acontece que o caricaturista Don Herold havia escrito no distante 1953 o poema “If I had my life to live over”, publicado no Reader’s Digest de outubro daquele ano, que é, praticamente, a base do poema de Stair/Strain-Borges:

I had my life to live over, I would try to make more mistakes. I would relax. I would be sillier than I have been this trip. I know of very few things that I would take seriously. I would be less hygienic. I would go more places. I would climb more mountains and swim more rivers. I would eat more ice cream and less bran. 

Mais detalhes sobre Stair/Strain e Herold, aqui.

E aqui.

EPITÁFIO

E agora, para encerrar, lhes deixo um artigo do amigo e escritor colombiano Hector Abad Faciolince, que trata de uns poemas supostamente atribuídos a Borges… mas que seriam, na realidade, poemas de Borges. De Jorge Luis Borges, mesmo.

Desta forma, estes poemas fazem o caminho contrário de Nadine Stair/Strain, que foram encarados primeiro como textos verdadeiramente borgianos para serem posteriormente desmascarados.

Neste caso da pesquisa feita por Faciolince os poemas foram inicialmente considerados de Borges e posteriormente foram tachados de falsos… mas, anos depois, o escritor colombiano e outros intelectuais chegaram à conclusão que eram da pena do autor de “O Aleph”.

O poema, intitulado “Epitáfio”, era este:

Ya somos el olvido que seremos.

El polvo elemental que nos ignora

y que fue el rojo Adán y que es ahora

todos los hombres, y que no veremos.

Ya somos en la tumba las dos fechas

del principio y el término. La caja,

la obscena corrupción y la mortaja,

los ritos de la muerte, y las endechas.

No soy el insensato que se aferra

al mágico sonido de su nombre.

Pienso, con esperanza, en aquel hombre

que no sabrá que fui sobre la tierra.

Bajo el indiferente azul del cielo

esta meditación es un consuelo.

Faciolince o encontrou no bolso de seu pai, um médico sanitarista que trabalhava com políticas públicas, assassinado em um atentado na violenta Medellín em agosto de 1987. O escritor colocou as linhas do poema achado no bolso e atribuído a Borges na lápide de seu pai.

Mais detalhes, aqui.

e aqui.

E mais, aqui.

EPÍLOGO

Na conversa com Vaccaro, o biógrafo e colecionador de Borges me disse que está trabalhando em outro projeto – “Borges, textos secretos e as falsas atribuições” – que reunirá, além de pequenas obras quase desconhecidas (ou esquecidas), os “falsos Borges”. No caso da pesquisa de Faciolince, Vaccaro considera que é uma investigação séria e que os poemas são verdadeiros.

“Durante muitos anos juntei textos pouco conhecidos de Borges, como o famoso folheto sobre a leite coalhada que fez com Bioy Casares”, disse. No entanto, ainda não há prazo para que essa obre chegue às livrarias: “não trabalho com datas nem pressa”.

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (34)| Comente!

Jorge Luis Borges e María Kodama durante uma viagem no início dos anos 70.  Nesta semana completaram-se 25 anos da morto do escritor na cidade de Genebra, Suíça, no dia 14 de junho de 1986. Esta postagem é parte da “Semana Borgiana” de nosso blog.

O lugar do derradeiro descanso do escritor argentino Jorge Luis Borges foi objeto de intensa polêmica ao longo do último quarto de século. A discussão começou meses antes da morte do escritor – que estava com um câncer terminal – quando seus amigos descobriram que sua secretária, Maria Kodama, havia levado Borges embora da Argentina e casado com ele por procuração por intermédio de Gustavo Grament Berres, que apresentava-se como cônsul paraguaio em Genebra.

A saída de Buenos Aires foi às pressas, e Borges mal pode se despedir de seus amigos, de quem Kodama já o estava isolando nos últimos meses.

O suposto cônsul registrou o casamento no desconhecido vilarejo de Colonia Rojas Silva, Paraguai. Mas, a trama tornou-se intrincadamente borgiana quando jornalistas argentinos que investigavam o misterioso casamento descobriram que o nome original do ex-cônsul era Benjamin Levi Avzarradel. Ele teria nascido na Argentina, mas havia sido adotado por um casal de uruguaios na tardia idade de 29 anos.

Para complicar, o governo paraguaio não reconhecia Grament Berres nem como cônsul nem como cidadão paraguaio. “É uma coisa estranha…Kodama apresenta-se atualmente, para qualquer tipo de documentação, como ‘solteira’ e não como viúva”, afirmou Alejandro Vaccaro, biógrafo de Borges e presidente da Sociedade Argentina de Escritores, enquanto – sentado em um café no bairro da Recoleta – levantava na minha frente uma sobrancelha em sinal de sutil desconfiança sobre a ex-aluna do escritor.

Mas apesar de casados, no testamento Borges definia Kodama somente como “a boa amiga”.

Antes de morrer, o escritor preparou um novo testamento, modificando radicalmente o anterior. Na versão antiga, Borges que não teve filhos, deixava quase tudo à sua irmã e sobrinhos e a Fani Uveda, sua fiel governanta durante quatro décadas. Na nova versão, Kodama transformou-se na única herdeira, a quem foi destinada todo o dinheiro, direitos de autor, objetos de arte e manuscritos. 

Sobre as supostas irregularidades do casamento Borges-Kodama há um interessante artigo publicado pelo jornalista argentino Juan Gasparini, que reside na Suíça desde os tempos da ditadura argentina. O artigo, aqui.

Os falecidos ditadores Stroessner e Franco. No meio, Gramont Berres. Ou, Benjamin Levi Avzarradel

CASAMENTO – As suspeitas sobre o casamento dos dois aumentam quando se conhece o passado do cônsul. Gramont Berres sustenta que foi designado embaixador especial pelo ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner em 1983. No entanto, não possui qualquer documentação que prove que teve formalmente esse cargo.

Em 1991 foi detido nos EUA acusado de falsificação de documentos, e, à pedido da Suíça, foi extraditado para ali. O governo paraguaio sustenta que o problema não é com ele, já que não reconhece Grament Berres nem como cônsul nem como cidadão. No entanto, ao cônsul não lhe faltam fotos em roupas de gala com o ex-ditador Stroessner e o falecido caudilho espanhol Francisco Franco.

Gramont Berres voltou às páginas dos jornais ao longo da última meia década. Não em Buenos Aires ou Genebra, mas sim em Assunção, Paraguai, onde o governo do país o acusa de ter vendido no Velho Continente títulos da dívida nacional emitidos de forma fraudulenta. O Paraguai rechaça usar os cofres públicos para pagar uma dívida de US$ 85 milhões contraída por Gramont Berres. O caso foi levado à Justiça internacional e ainda percorre os tribunais europeus.

Voltando à Buenos Aires: a possibilidade de que o casamento de Borges e Kodama tenha sido falso soma-se à possibilidade de que possa ser anulado: o escritor casou-se nos final dos anos 60 com Elsa Astete. O casamento durou três penosos anos, e, como até fins dos anos 80 o divórcio não existia na Argentina (foi aprovado pelo Parlamento argentino em 1987, um ano após sua morte), Borges somente pode obter a separação de corpos e bens.

Este é um link para uma matéria do jornalista Jorge Camarassa sobre Astete, aqui.

Uma cópia da polêmica certidão de casamento feita no interior do Paraguai

Elsa nada pode opinar sobre isso entre o final dos anos 90 e a virada do século, já que estava esclerosada, internada em um asilo. Ou seja: o casamento com Kodama não é reconhecido pela lei argentina, e dependendo da veracidade do casamento via Gramont Berres, correria o risco de tampouco ser reconhecido pela lei do Paraguai e Suíça.

Se por acaso Borges e sua ex-aluna nunca se casaram (ou se o casamento não é válido), que direito teria Kodama de decidir o enterro em Genebra e insistir na permanência do autor de “O Aleph” nessa cidade?

Neste último quarto de século os “direitos” de Kodama sobre Borges foram discutidos em todos os aspectos, mesmo o da vida íntima. Segundo diversas testemunhas, Kodama nunca viveu na mesma casa de Borges em Buenos Aires, e nas inúmeras viagens que realizavam, sempre dormiam em quartos separados. Uma dedução generalizada é que Borges, sozinho e com medo de morrer dependendo de outros para suas necessidades mais básicas, aceitava tudo o que Kodama lhe impunha.

Túmulo de Borges em Genebra, Suíça. A lápide ostenta uma parafernália de símbolos, tal como uma nave viking, guerreiros com lanças, uma cruz de Gales, seu nome completo, além de uma legenda em anglo-saxão. Segundo me disse Maria Ester Vázquez, amiga e biógrafa de Borges, a legenda do túmulo genebrino And ne forhtedon na” (“E não deverias temer”) é uma fútil recomendação para alguém como Borges”. Segundo ela, o desejo do escritor, expresso em seus versos “Só peço as duas abstratas datas e o esquecimento”, não foi levado em conta. “É uma lápide curiosa e complicada. A única coisa que falta ali…é uma frase da Mafalda!”, dispara com ironia.

MORTE - No dia 14 de junho de 1986, em Genebra, Borges faleceu de um câncer no fígado. Por determinação de Kodama o escritor foi enterrado no cemitério de Plainpalais, na vizinhança dos túmulos do líder presbiteriano João Calvino e do filósofo Erasmo de Rotterdam (décadas depois, ali seria a morada eterna do diplomata brasileiro Sergio Vieira de Melo). No entanto, Borges nunca escreveu uma linha que ratificasse um hipotético desejo de ali ser enterrado.

Durante as duas e meia últimas décadas os amigos de Borges, em uníssono, afirmam que Georgie – como o chamavam carinhosamente – queria ser enterrado em Buenos Aires, mais especificamente, no histórico cemitério da Recoleta, no mausoléu de sua família.

“Borges nunca quis ser enterrado fora de Buenos Aires”, me disse em entrevista em 1999 o escritor Adolfo Bioy Casaras, seu amigo por meio século.

Fani Uveda, empregada dos Borges durante décadas, concordou com Bioy em uma conversa comigo em 2005, poucos meses antes de morrer. “O senhor Borges queria ser enterrado na Recoleta”, disse.

Além dos amigos, os acadêmicos destacam que Borges, em vários de seus poemas deixou claro que pretendia passar o repouso eterno na Recoleta. Os especialistas citam o poema “O Fazedor”, no qual Borges refere-se a seu futuro descanso em Buenos Aires: “Quando eu esteja guardado na Recoleta / em uma casa cor de cimento”. Em “Fervor de Buenos Aires”, Borges indica: “Estas coisas pensei sobre a Recoleta / o lugar de minhas cinzas”.

Outro fator que reforça a teoria de que Borges pretendia ser enterrado na Argentina é que em 1982 deu uma procuração à sua amiga Sara Kriner para proceder com sua cremação após sua morte. Um ano antes de morrer Borges chamou o zelador do cemitério para que lhe fizesse um orçamento para preparar o mausoléu na Recoleta para um lugar para suas cinzas.

Kodama defende-se afirmando que Borges, antes de morrer, expressou que desejava ser enterrado “na neutra Suíça”.

Vaccaro não descarta que um dia o corpo de Borges retorne ao país: “talvez ele volte quando a passagem do tempo faça que estas paixões se acalmem. A Argentina tem uma forte tradição de repatriar seus homens célebres, como Carlos Gardel e o general José de San Martín, mortos no exterior”

Túmulo da família Borges na Recoleta. Este lugar foi objeto de diversos poemas de J.L.Borges.

OS INCORRIGÍVEIS E O ENTERRO PORTENHO

“Os peronistas são são bons, nem ruins…são incorrigíveis”. A frase é de Borges, que tinha com os seguidores do general e presidente Juan Domingo Perón uma relação de elevada tensão. Em 1946, para humilhá-lo – e tentar calar sua refinada ironia com o novo governo – os peronistas removeram Borges de seu posto de diretor de biblioteca e o designaram “inspetor de galinhas e ovos” em feiras públicas. Nos anos seguintes, o Peronismo colocou sua irmã e mãe na cadeia.  

Mas, no início de 2007, décadas após esses eventos, um grupo de parlamentares peronistas anunciou que pretendia trazer o corpo do escritor – enterrado em Genebra – para realizar um funeral em Buenos Aires.

 O projeto da deputada María Beatriz Lenz, aliada da peronista presidente Cristina Kirchner, causou intensa polêmica no âmbito acadêmico. O projeto de lei contou na ocasião com o respaldo da Sociedade Argentina de Escritores (Sade), presidida por Alejandro Vaccaro.

Kodama enfureceu-se na ocasião: “ninguém me consultou sobre isso. É uma falta de respeito”.

“Borges é um ícone dos argentinos. Trazer o corpo de Borges é algo que devemos fazer pelos argentinos e também pelo próprio Borges”, afirmou Vaccaro na época. Ele argumenta que o desejo do escritor era ser enterrado na Recoleta, no mausoléu de sua família.

 Para isso, os defensores de um funeral portenho para o escritor citam poemas como “A Recoleta”, onde dizia: “O anterior, escutado, lido, meditado, o realizei na Recoleta, ao lado do próprio lugar onde hão de me enterrar”.

Os peronistas eram incorrigíveis, embora pragmáticos. Os colunistas das páginas culturais destacaram que os peronistas preferiram esquecer as velhas rixas de lado e apostar no colossal business que é ter Borges, ícone da literatura, enterrado em Buenos Aires.

Borges e sua mãe, Leonor, em Londres em 1963. Ela foi seus olhos, secretária e respaldo permanente até sua morte, em meados dos anos 70, aos 99 anos. Kodama entrou no vácuo deixado pela forte personalidade de Leonor Acevedo de Borges.

“SOU UM CALEIDOSCÓPIO” (entrevista que fiz em 1995 com Maria Kodama para o Caderno 2 do Estadão )

Maria Kodama é suave e áspera ao mesmo tempo, um misto de delicadeza do nô e da agressividade do tango. Controlada, com total conhecimento de sua imagem, Kodama evita que se calcule sua idade. Por isso foge de perguntas capciosas como “qual é seu signo no horóscopo chinês?”. Depois de enfrentar as críticas de amigos de Jorge Luis Borges, que a viam como uma aproveitadora por seu casamento com o escritor, muito mais velho do que ela, finalmente conseguiu inaugurar  em Buenos Aires a Fundação Internacional que leva o nome do escritor que nunca recebeu o Nobel.

- Foi difícil conseguir implantar a Fundação? O governo argentino não colaborou…

- Não,  mas eu não pedi nada. É uma questão minha, de princípios. Recebi uma educação japonesa, tenho que lutar para conseguir as coisas. O importante é o esforço pessoal.

- Seu pai era japonês?

- Não falo muito sobre minha família…

- No Brasil a colônia japonesa é a maior do mundo. Gostariam de saber mais sobre a sra., conhecida por ser a única figura da intelectualidade argentina de origem nipônica…

- Hummm…Bem…meu pai era da região de Tóquio. Pensava ir aos EUA depois que seus pais haviam falecido. Um amigo perguntou porque não ia para a Argentina. Ele veio para cá, e em uma reunião conheceu minha mãe. Ela o viu e disse “vou me casar com ele”.

- Em que ano seu pai veio? (tentando descobrir a idade de M.K.)

- Não sei, nem se fala sobre isso.

- Logo em seguida ele se casou com sua mãe?

- Meu pai era muito boa-pinta. Separaram-se quando era muito pequena. Coisas das paixões fulminantes…

- Quando conheceu Borges?

- O conheci quando criança, desde os 16. Estava no colegial e me dava aulas introdutórias de anglo-saxão. Depois ditava algumas de suas coisas e lia para mim. Era algo na categoria de amiga, de aluna, de discípula. Nunca fui secretária de Borges, como a imprensa insiste em dizer. Depois quando cresci dava aulas de castelhano, ganhava bem e isso me permitia adequar os horários para ter tempo com Borges. Ad honorem, por prazer.

- Seu pai foi uma espécie de mentor intelectual?

- Meu pai era químico, mas me iniciou no amor pela literatura e a música. Borges dizia que meu pai me tinha educado para ele. Quando começamos a viajar, descobri que Borges tinha um conhecimento pictórico enorme. Descrevia as paisagens e fruíamos isso através de uma recordação comum, o que meu pai me havia ensinado e o que Borges havia visto antes da cegueira.

- Seu pai conheceu Borges?

- Quando terminei o colegial quis me levar para o Japão. Não falava o japonês, não queria ir. Borges o convenceu para que me deixasse aqui.

- Borges lhe dava aulas no colegial?

- Era meu professor particular. O conheci por meio de um amigo de meu pai, quando tinha 12 anos. Este senhor pensou que se conhecia alguém como Borges seria importante para minha educação.

- Esta foi a primeira vez que ouviu falar de Borges?

- Quando tinha cinco anos leram para mim “Caesar and Cleopatra”. Gostava de seu amor e paixão. A figura de César era avassaladora, o conquistador, o gênio. Na mesma época me leram um poema de Borges. Era “Two English Poems” . A linha que ficou para sempre é “I am trying to bribe you…”

- …“With danger, with uncertainty, with defeat” (estou tentando te enganar, com perigo, incerteza, com derrota). É meu verso preferido também.

-  (Ri) Impresionou-me como essa pessoa podia ser todo o contrário de César. Um, o conquistador; o outro, oferecendo à mulher amada a incerteza…

- Que dizia Borges de su predileção por este verso?

- Borges tinha ciúmes (ri). Dizia que era apaixonada por César. Não gosto de Bernard Shaw . “Você, María, está paixonada por Shaw”, dizia Borges. “O que a levou a sentir atração por Julio César não foi outra coisa que as palavras de Shaw en J.C”.

- Borges era ciumento?

- Era ciumento à sua forma. Éramos verdadeiros personagens.

- Borges foi o amor de sua vida?

- Creio que sim, ele é a minha vida.

- E a senhora, a dele…

- Não sei, mas suponho que sim. Suponho que essas coisas são eternas.

- Em “Siete Noches”, Borges fala da sonoridade do inglês e cita um verso, “I will love you for ever and a day”. Sente isso?

- “…Para sempre e ainda um dia depois”. Era uma citação de Keats, creio….Sim, é o que sinto.

- Gosta do tango como Borges gostava?

- Não gosto. Borges dizia que eu pertencia a uma geração que não escutava tango. Gosto, como ele, das milongas, pois possuem um ritmo alegre, ágil.

- Rock. O que Borges pensava?

- Gostava dos Beatles e dos Rolling Stones. No Palace de Madrid encontramos Mick Jagger, que se aproximou para lhe dizer que o admirava. “Quem é o senhor?” perguntou Borges. “Sou Mick Jagger”, disse o cantor. “Ah…o dos Rolling Stones”, disse Borges. Jagger quase desmaiou.

- Porque nunca publicou seus próprios relatos e poemas em forma de livro?

- Escrevo contos, publicados em revistas literárias. Livros, ainda não. Mas o farei, quando fique em liberdade.

- E porque nunca publicou livro algum?

- Porque ao estilo japonês, nunca quis publicar durante a vida de Borges. Isso teria produzido un conflito.

- Seus contos são borgianos?

- Quando publiquei meu primeiro conto a reação de Borges foi de encantamento: “Todos esperavam um conto em meu estilo e foi diferente”.

- Enfrentou preconceitos com seu casamento com Borges?

- Não, caso contrário não estaria aqui. Houve reação por parte de senhoras abandonadas, viúvas, deseperadas. Parecia que era a primeira mulher na Argentina que se casava com um homem separado.

- Nunca sentiu racismo na sociedade argentina?

- Nunca, a primeira vez que o senti isso foi em um escritor que me chamava “a japonesa”. O embaixador do Japão chegou a me perguntar se havia nascido lá. Quem disse isso era uma pessoa com ressentimentos.

- Na cabeceira de Borges estavam Blake, Donne e Kipling. Quem tem em seu criado-mudo?

- Gosto muito de Blake, Donne…

- Qual Donne, o da fase mais erótica ou da religiosa?

- …Ambas. Adoro essa mudança. Gosto da Ilíada, um livro extraordinário com o qual pode-se aprender muitas coisas sobre a conduta humana.

- Como se definiria a si mesma, sra. Kodama?

- Eu não sei como sou. Em geral definimos aos outros. Sou como um caleidoscópio; de acordo com o olho e o desenho interior, vou mudando.

Borges ouve e Kodama lê.

O ETERNO RETORNO DAS REEDIÇÕES (matéria publicada em 1995)

Quase dez anos após a morte de Jorge Luis Borges, a reedição de obras que ele não desejava ver republicadas torna-se realidade. Como Max Brod, amigo de Kafka que trai sua promessa no leito de morte do amigo e postumamente publica a obra do escritor tcheco, Maria Kodama reedita um Borges secreto. A pergunta que paira no âmbito intelectual de Buenos Aires é “até onde é válida a vontade póstuma dos escritores?”.

Primeiro foi a publicação de “El Idioma de los Argentinos”, obra da juventude que Borges havia repudiado. Kodama, sua viúva, autorizou sua reedição. Poucos exemplares da edição original restavam. A fome por esse livro era tanta que poucos repudiaram o ato de Kodama, que ia contra a vontade de Borges.

Depois veio a publicação de “Borges en Revista Multicolor”. A obra recolhe relatos, resenhas e traduções que o autor de “Ficciones” e “El Aleph” escreveu durante sua estadia no suplemento cultural do jornal “Crítica”: a “Revista Multicolor de los Sábados”.

A colaboração borgiana durou pouco mais de um ano, o período de vida da publicação. O jornal exigia qualidade, mas dentro de uma linha editorial que pudesse interessar ao grande público. Borges começou como secretário. Logo chegou a co-diretor. Sua participação é esteticamente antípoda ao resto de sua obra. O jornal era sensacionalista e Borges, que precisava sustentar a família (seu pai havia falecido pouco antes) se dispunha a fazer qualquer coisa. Ele mesmo diria anos depois: “Nunca pensei reunir esses trabalhos em um só volume. Esses artigos iam destinados ao consumo popular através das páginas de “Crítica” e eram tremendamente pitorescos”.

Nessa época Borges era desconhecido da imesa maioria dos leitores argentinos. Só os seus amigos sabiam de seu valor. Quando a revista fechou foi organizado um banquete para comemorar: Borges não teria mais que escrever “lixo”.

O autor de “O Aleph”e “Ficciones”, segundo o jornalista Marcos Mayer, “sempre teve muito presente o marco e o suporte em que publicava. Soube encontrar o tom e imaginar um leitor com o qual podia chegar a sintonizar. Talvez a mesma atitude de seu tão criticado acesso aos meios. Borges amava tanto os livros como para supor que sua paixão por Stevenson ou Chesterton ou Cervantes tinha que ser compartilhada pelos outros”.

Mayer, estudioso do tema borgiano sustenta que “ele não recusava nem aceitava a lógica que lhe ofereciam os diversos meios em que trabalhou. Propunha uma nova versão desse meios para que suas paixões – que supunha universais, sem mais argumentos que suas leituras – encontrassem algum ponto de encontro possível. Para que isto não acontecesse não podia pensar em termos de cultura alta e baixa. Borges soube falar dos paradoxos do pensamento para o sensacionalista e populista jornal “Crítica” e sobre dizeres nos para-choques de caminhões para a elitista ‘Sur”.

A FAVOR

“Inteligência e força”. Assim Maria Kodama, viúva do escritor, define a característica principal dos textos publicados. Mais do que recusa em reeditar, Borges teria sido indiferente com estes livros. Eles circulavam por meio de fotocópias e as manipulações que a crítica fazia com estas obras. No próprio prólogo do livro Kodama sustenta que “alguém que se aproxima a um livro é o suficientemente sensível e inteligente para encontrar seu autor em liberdade. Creio que qualquer leitor, apesar dos defeitos de estilo destas obras – estilo que Borges repudiou depois -, pode sentir a força, a inteligência com que o autor trata estes temas que serão aperfeiçoados, refutados ou aprofundados em sua obra, esculpida ao longo do tempo com uma perfeição incrível”. 

CONTRA

“De forma alguma”. Determinado em defender a vontade do seu grande amigo, o escritor Adolfo Bioy Casares, autor de “La Invención de Morel” e co-autor com Borges de “Seis Problemas para Don Isidoro Parodi” considera que os herdeiros devem respeitar a decisão e não publicá-los sob nenhum ponto de vista e por motivo algum. Para os estudiosos de Historia da Literatura podem ser atrativos. Para o leitor comum, não.

Fani, a fiel criada dos Borges

BENFEITOR SALVA GOVERNANTA DE BORGES DA MISÉRIA (entrevista que fiz em 1999 com Fani Uveda, a governanta da família Borges)

Um pequeno altar, com fotos de Jorge Luis Borges, é a única coisa que restou do autor de “Ficções” a Epifanía Uveda, 77 anos, governanta dos Borges durante mais da metade de sua vida. “Fani”, como era chamada carinhosamente, passou de cuidar dos detalhes mínimos da vida de Borges, a estar sem uma casa própria e na miséria.

Pouco antes de falecer em Genebra, Borges modificou seu testamento. Na versão anterior, Fani herdaria metade de seus bens e ficaria com o famoso apartamento da rua Maipú, onde havia cuidado da mãe de Borges e do próprio durante 40 anos. A outra metade, seria dos sobrinhos de Borges e de Maria Kodama.

Misteriosamente, oito dias antes de morrer, modificou seu testamento, tornando Kodama única herdeira. A ex-aluna e ex-secretária transformada em viúva expulsou a ex-governanta, cobrando-lhe até o condomínio dos cinco meses passados desde a partida para a Suíça. Anos depois, a ponto de ir morar em uma favela, Fani colocou uns sapatinhos da infância de Borges à venda. Um colecionador, Alejandro Vaccaro, soube disso, e se dispôs a ajudá-la: colocou Fani na sede de uma associação vinculada ao Clube Boca Juniors. Ali ela limpa o lugar e tem casa e comida.

Vaccaro fica indignado quando fala sobre o caso: “Kodama foi nojenta com Fani”, disse ao Estado. E especula sobre uma possibilidade: “vou dizer algo que nunca disse. Se Fani tivesse sido um pouco mais inteligente, Borges teria se casado com ela. Como aconteceu com Proust e sua governanta Celeste. Se Fani não tivesse sido a mulher simples e honesta que sempre foi, teria feito isso”.

Na casa decorada com bandeiras do time do Boca, ela falou ao Estado, e sustentou, da mesma forma que Bioy Casares afirmava, que Borges não queria partir para a Suíça com Kodama.

No dia que ia viajar, Fani foi avisá-lo que o carro que ia levá-lo ao aeroporto havia chegado. “Não quero ir, Fani”, disse Borges. “Se eu for, morrerei por lá”. Nesse momento, Fani sustenta que entrou Kodama, que ao ouvi-lo, ameaçou: “eu vou embora e não volto mais”. Assustado, Borges concordou, e foi colocado às pressas dentro do carro. “Foi embora sem me dar adeus. Isso vai me doer por toda a vida”, diz.

Segundo ela, Borges tentou o suicídio um dia que Kodama bateu a porta de casa dizendo que nunca mais o veria. Borges encheu a banheira de água fervendo, e pretendeu matar-se entrando ali. Foi só colocar os pés, e desistiu. “Coitado, ficou cheio de bolhas e sentindo-se ridículo”, diz.

Falando sobre Borges como se estivesse vivo, ela sustenta que “ele se apaixona sempre”. E aproveita para contar uma anedota sobre Borges e as mulheres: “após a cerimônia de casamento com Elsa Astete foram na casa da mãe de Borges. Nessa mesma noite, haviam ocorrido protestos nas ruas da cidade. A mãe pediu que eles ficassem e dormissem ali. Elsa negou-se. Como ia passar sua noite de núpcias na casa da sogra? Ela e Borges discutiram e Elsa foi embora sozinha. Mesmo casado, Borges ficou essa primeira noite na casa da mãe.

  

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (13)| Comente!

 

Borges, desenhado pelo genial uruguaio Alberto Breccia

“Sou um anarquista à moda de Spencer” era a forma como o escritor Jorge Luis Borges costuma explicar suas posições políticas, referindo-se a Herbert Spencer, filósofo britânico do século dezenove que pregava uma peculiar forma de “anarquismo individualista”. No entanto, o autor de “O informe de Brodie” começou sua carreira literária flertando com a Revolução Russa, ocorrida quando ele tinha 18 anos. Nos anos seguintes Borges publicou um livro de poemas, “Os ritmos vermelhos”, nos quais faz uma apologia da revolta que pregava a igualdade entre os homens.

Rapidamente desencantado com o socialismo, Borges entusiasmou-se com a União Cívica Radical (UCR), partido argentino que nos anos 20 representava a classe média e era comandada por Hipólito Yrigoyen. “Borges até escreveu um poema, no qual declarava sua admiração pelo líder radical”, afirmou ao Estado Maria Esther Vázquez, escritora, ex-colaboradora e amiga de Borges.

Nos anos 30 Borges escreveu um artigo que causou intensa polêmica, o “Sou Judeu”, no qual criticava o nazismo e o fascismo e defendia os judeus, reivindicando sua contribuição cultural para o mundo. A publicação do texto provocou a ira dos setores nacionalistas e pró-eixo da sociedade argentina, marcada pelo antisemitismo.

Novamente Borges provocaria polêmica a partir de 1946, quando o então coronel – posteriormente general – Juan Domingo Perón chegou ao poder. Considerado representante da oligarquia, Borges foi humilhado publicamente pelo peronismo ao ser removido do posto de bibliotecário municipal para ser colocado no cargo de inspetor de aves vendidas em feiras públicas. Borges pediu demissão, iniciando um confronto com o peronismo que o levaria a cunhar uma frase usada frequentemente na política argentina: “os peronistas não são bons nem ruins… são incorrigíveis”.

A decisão política do governo peronista também teve o efeito de levar Borges à procura de fontes de renda alternativa. Desta forma, começou sua carreira de conferencista.

A escritora Maria Esther Vázquez afirmou ao Estado que durante o período em que foi perseguido pelo peronismo Borges recebeu a proposta de dar aulas em uma universidade dos Estados Unidos. “Mas, era a época do macartismo. E, quando os americanos souberam que ele havia havia escrito poemas elogiando a revolução russa na juventude, o descartaram por comunista”.

Em 1955 Perón foi derrubado por um golpe militar. Meses depois, quando o novo regime precisava um diretor para a Biblioteca Nacional, a mecenas Victoria Ocampo recomendou que Borges fosse colocado no posto. Desta forma, o escritor chegou à centenária instituição que tornou famosa em todo o mundo.

Na mesma época, por uma brincadeira com um amigo, Borges afiliou-se ao Partido Conservador. “Essa inscrição dele no partido não passava de uma forma de Borges dizer que não acreditava na política”, afirmou ao Estado Alejandro Vaccaro, autor de “Georgie 1899-1930”, biografia que disseca a infância e juventude do autor.

Em 1976 Borges foi novamente o foco de polêmica quando participou de um almoço com o novo ditador argentino, o general Jorge Rafael Videla. “Ernesto Sábato também foi ao almoço. O problema de Borges foi que, ao sair, disse que Videla era um cavalheiro. E meses depois foi a uma conferência no Chile, governado pelo ditador Augusto Pinochet”, explica Vaccaro. O próprio Borges explicou na época: “a comenda é do povo chileno, não do general Pinochet”.

“Mas, rapidamente mudou de idéia sobre a ditadura argentina. Ele foi um dos poucos intelectuais que assinaram o primeiro abaixoassinado contra os militares, pedindo o paradeiro de milhares de desaparecidos políticos da ditadura. Além disso, foi um intenso crítico da Guerra das Malvinas, protagonizada pelo regime militar”, diz.

Outro Borges de Breccia

O respaldo inicial à ditadura teria sido o motivo para que a academia sueca negasse a Borges o Nobel de Literatura, que não levou em conta as críticas que fez na sequência contra o regime militar.

Os amigos de Borges sustentam que isso não é um problema: “desta forma, ele está acompanhado por Marcel Proust e James Joyce, que nunca receberam o prêmio”.

Um de seus amigos, Esteban Peicovich, autor de diversas antologias dos “causos” borgianos, disse recentemente que “Borges não era um ‘gorila’ (gíria para designar um fanático anti-peronista) nem era de direita. Ele está por cima de toda as baixezas humanas. É uma das grandes flores da espécie, como Kafka”.

SOBRE O PERONISMO, BORGES DIXIT:

- Os peronistas são pessoas que se fazem passar por peronistas para tirar vantagem.

- Olhe, eu detesto os comunistas. Mas, eles, pelo menos, possuem uma teoria. No entanto, os peronistas são uns esnobes.

- O peronismo é algo inverossímil.

SOBRE A DEMOCRACIA:

- A democracia é um abuso da estatística…

 

Jorge Luis e Juan Domingo

O DIA EM QUE BORGES ENCONTROU PERÓN

Os encontros inacreditáveis voltam ocasionalmente à moda na literatura e no cinema. No celulóide Sigmund Freud já encontrou Sherlock Holmes, e Indiana Jones deu de cara com A.Hitler.

Mas, mais complicado teria sido juntar dois homens e carne e osso como Borges e o general Juan Domingo Perón, que governou a Argentina entre 1946 e 1955 e novamente entre 1973 e 1974.

Perón destituiu Borges de um cargo secundário em uma biblioteca de bairro em Buenos Aires para colocá-lo como inspetor de galinhas em feiras livres. Borges não representava perigo para o militar, já que nos anos 40 era apenas conhecido por um restrito círculo de leitores. Mas o escritor fazia ácidas críticas aos sistemas ditatoriais em seus textos.

Borges demitiu-se do emprego de inspetor e aí nasceu uma rivalidade que iria até a morte dos dois. O mundialmente famoso escritor sempre comparou Perón a Rosas, um ditador do século XIX.

Os dois nunca se encontraram na vida real. Mas, reuniram-se na literatura. Esse é o caso de “Borges & Perón, entrevista secreta”, do autor uruguaio Enrique Estrázulas, que trata deste imaginário rendez-vous. Na obra, um tranqüilo Borges recebe a notícia inesperada de sua secretária:

“Secretária: Borges…ali fora está o general Perón.

Borges: É uma notícia ruim ou uma piada?

Secretária: É Perón, que pede desculpa por não ter solicitado uma audiência…ele diz que não leve a mal, e se for o caso, volta outro dia.”

No decorrer da obra, escritor e presidente falam sobre a ficção, a política e a relação conflitiva entre os dois.

Na vida real, Borges chegou a dizer que cada vez mais odiava Gardel “porque parecia Perón”. Perón nunca falou publicamente sobre Borges, embora deixasse clara sua opinião sobre o escritor através das ameaças que seus seguidores faziam ao autor de “O Aleph”.

Estrázulas considera que o encontro não seria tão impossível, já que Perón “possuía um alto nível cultural, embora as massas ignorassem isso, ou ele fazia com que elas ignorassem esse detalhe”.

O livro de Estrázulas foi lançado em 1996. A peça de teatro baseada na obra foi aos palcos poucos meses depois, coincidindo com a estréia de “Evita”, de Alan Parker.

…E falando em encontros impossíveis (aí, por um caso de cronologia), um divertido exemplo é o filme “O dia em que Maradona conheceu Gardel”, de 1996. Com o subtítulo de “Uma fábula de heróis”, tratava de um pacto entre o Diabo e o cantor que imortalizou o Tango. Gardel deveria cantar por toda a eternidade para o “Tinhoso”. Para salvar Carlos Gardel, era necessário um mito da mesma magnitude. O escolhido foi alguém que já desceu várias vezes ao Inferno, mas com intenções diferentes às de Dante: Diego Armando Maradona.

 

A literatura e o teatro uniram as duas irreconciliáveis figuras para uma agradável tertúlia. Jean Pierre Noher interpreta o autor de “O Aleph”, enquanto que Victor Laplace faz o papel de “El Conductor”.

RECONHECIMENTO REVOLUCIONÁRIO - E antes que esqueça, é interessante destacar que a esquerda latino-americana está mudando seu ponto de vista sobre Borges.

Um dos emblemas da esquerda revolucionária da região, o líder sandinista Tomás Borge Martinez (fundador, em 1960, com Carlos Fonseca Amador e Silvio Mayorga, da Frente Sandinista de Liberação Nacional da Nicarágua), no ano passado, durante o Foro de São Paulo realizado em Buenos Aires, definiu o escritor Jorge Luis Borges como um dos “gloriosos arquétipos desse extraordinário país (a Argentina), junto com Ernesto Che Guevara, Juan Domingo Perón, Julio Cortazar e Carlos Gardel”.

Foto do Bundesarchiv de Tomas Borge, líder sandinista, revolucionário latino-americano… e admirador de Borges, Jorge Luis.

   

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (4)| Comente!

Jorge Luis Borges. Ou “Georgie”, segundo era chamado pelos amigos e parentes. Há exatos 25 anos ele partia deste mundo para tornar-se tal como em seu poema sobre sua amada Buenos Aires em “eterno como a água e o ar”. 

Há um quarto de século o escritor argentino – ou universal, segundo vários críticos – Jorge Luis Borges, falecia em Genebra aos 86 anos. Hoje relembramos o autor de “O Aleph”, “O Informe de Brodie”, “Ficções” e “O Livro de Areia” com uma variada postagem.

Começamos por seus “causos” e depois passaremos à cartografia borgiana. Amanhã, 4afeira, teremos postagem sobre polêmica sobre o lugar de enterro e o destino de seu corpo. Na 5afeira veremos as posições políticas peculiares deste homem que definia-se como “um anarquista à moda de Spencer” e finalmente algo sobre Borges e as mulheres e os mitos sobre sua obra (Mick Jagger de lambuja).

CAVALHEIRISMO E SUICÍDIO – Borges preparou um pequeno conto para o jornal “La Nación” em 1977 no qual ele próprio era protagonista. No relato ele explicava que sonhava consigo mesmo e via como suicidava-se no dia 24 de agosto de 1983, data na qual completaria 84 anos. Os anos passaram. Enquanto isso, muitas pessoas estavam preocupadas por um eventual suicídio real do escritor na data marcada. Borges – que viveria ainda outros três anos – comentou na ocasião: “o que faço? Me comporto como um cavalheiro e transformo em realidade essa ficção para não decepcionar as pessoas? Ou eu faço de conta que estou distraído e deixo a data passar?”

MORTE PREMATURA – Anos antes da morte de Borges em 1986 na Suíça, os jornais franceses, além do New York Times, publicaram a notícia de que ele havia morrido. Preocupado, o ensaísta Ulysses Petit de Murat tentou entrar em contato Borges, até que conseguiu encontrá-lo e confirmar que estava vivo. Murat expressou a Borges seu desagrado pela “notícia apócrifa de sua morte”. Borges corrigiu: “apócrifa não…somente prematura”.

FUNERAL NÃO-DECIMAL - Aos 99 anos, em 1975, morreu Leonor Acevedo de Borges, mãe do escritor, que nos 20 anos anteriores, por causa da cegueira do filho, havia servido de secretária para os textos que ele lhe ditava. No velório, uma mulher lhe deu os pêsames e disse “coitada de dona Leonor, morrer tão pouco antes de fazer 100 anos. Se tivesse esperado um pouquinho mais…”. Borges lhe respondeu: “percebo, minha senhora, que é uma devota do sistema decimal!”.

SER OU NÃO SER - Borges caminhava pela rua, sozinho, quando uns rapazes que passavam de carro lhe perguntam “Mestre! Quer que o levemos? Para onde vai?”. Borges lhes responde “para minha casa, na rua Maipú”. Já dentro do carro, a ponto de chegar, o escritor pergunta: “Como é que vocês perceberam que era eu? Ah, claro, porque sou Borges….”.

MEDIOCRIDADE - Nos anos 80, na França, Borges estava sendo entrevistado para a TV, quando o jornalista lhe perguntou se percebia que era um dos grandes escritores deste século. Com sua habitual elegância para escapar das lisonjas, Borges respondeu: “é que este foi um século muito medíocre”.

METAFORICÍDIO – Borges um dia foi ao banco, onde uma funcionária lhe disse: “embora eu saiba (de memória) qual é seu saldo bancário, vou verificá-lo, pois não gostaria de dizer uma coisa e que seja outra”. Borges depois relatou ao amigo Esteban Peicovich: “essa senhorita acabou de assassinar a metáfora”.

UM BLEFE, EMBORA INVOLUNTÁRIO – Nos anos 60 Borges realizava uma série de conferências em várias universidades americanas. Em uma delas, uma pessoa na platéia levanta-se e grita: “Borges, o senhor é um blefe”. Borges respondeu com voz suave: “sim, mas leve em conta que é involuntário…”.

Em outra conferência um estudante contestador grita ao escritor: “você, Borges, está morto!”. Borges retrucou: “é verdade, só existe um erro nas datas”.

A TRADICIONAL ESCADA – Borges está um dia, nos anos 60, na espera do elevador na Biblioteca Nacional, da qual era diretor. Depois de esperar muito tempo, impaciente comenta para a pessoa que o acompanhava: “não prefere que a gente suba pela escada, que já está totalmente inventada?”

AMEAÇAS E AMEAÇADOS – No início dos anos 70 Borges havia realizado duras declarações contra o Peronismo e críticas sobre Evita Perón. Imediatamente o escritor começou a receber telefonemas de simpatizantes peronistas que o ameaçavam de morte. No entanto, os anônimos autores das ameaças depararam-se com a sra Leonor, a mãe do escritor, que morava com ele no pequeno apartamento da rua Maipú. A nonagenária dama indicava aos simpatizantes peronistas que não seria difícil matar seu filho, já que ele era cego, e portanto, não existiam riscos para seu assassino, já que dificilmente ele se defenderia. O próprio Borges colaborava com os autores da ameaça, passando o endereço exato de sua residência. “O sr. não tem como errar. Na porta existe uma placa na qual está escrito ‘Borges’. E quem abre a porta sou eu”.

SINCERIDADE E ESTADO – Durante uma entrevista à revista portenha “Siete Días” em 1973 o jornalista conversava com Borges sobre as modalidades de Estados.

- Que tipo de Estado desejaria?

- Um Estado mínimo, que não fosse notado. Morei na Suíça cinco anos e ali ninguém sabia o nome do presidente.

- A abolição do Estado que o senhor propõe tem muito a ver com o anarquismo.

- Sim, exato, com o anarquismo de Spencer, por exemplo. Mas não sei se somos suficientemente civilizados para chegar ali.

- Acredita seriamente, sr. Borges, que tal Estado é factível?

- Evidentemente. Mas, uma coisa é verdade: será preciso esperar 200 ou 300 anos.

- E enquanto isso?

- Enquanto isso a gente se f…

DEUS E SUA SUBALTERNA MÃE – O editor polonês-americano Walter Bara, da editora McGraw-Hill conta a Borges que havia estado em um avião que quase estatelou-se no chão porque um de seus motores havia desprendido da fuselagem. No entanto, depois de uma vertiginosa queda, o piloto conseguiu equilibrar o avião e aterrissar. Bara cumprimentou o piloto efusivamente. Mas, os outros passageiros ficaram zangados com ele, já que atribuíam a salvação de suas vidas à uma medalhinha da Virgem Maria que uma das passageiras pegou em sua maleta quando o avião caía. Borges ouviu o relato e comentou: “isto é, Deus havia ordenado que o motor se soltasse e que eles morressem. Mas, graças a um apelo à Virgem, intervém um subalterno de Deus (a Virgem em questão) e muda os planos. Como alguém pode pensar assim?”.

DEUS E SEU GOSTO POLÍTICO – Nos anos 70 Borges comenta uma peculiar teogonia: “As pessoas diziam que Deus era peronista. Que gosto Deus tem! Mas, bom, isso não me surpreende…” 

REVOLUÇÃO - Em outubro de 1967 um estudante interrompeu a aula de literatura inglesa proferida por Borges na faculdade anunciando que as aulas teriam que ser imediatamente interrompidas pela recém-ocorrida morte de Che Guevara. Borges diz ao estudante que terminará sua aula, e que depois os alunos poderão prestar a homenagem. O estudante grita que tem que ser nesse instante e que Borges terá que ir embora. O escritor replica: “Não vou embora. Se você for tão valente, venha em tirar daqui”. O aluno ameaça apagar a luz da sala. E Borges responde: “Eu já tomei a precaução de ser cego esperando este momento…”.

COPO D’ÁGUA - Borges está sentado, pronto para dar uma conferência no Hotel Bauen, em Buenos Aires. Na sala, o público conversa sem parar. A organizadora, Silvia Gherghi, lhe pregunta se pede silêncio para que ele possa começar a conferência. Borges lhe pergunta se em cima da mesa há um copo d’água e uma jarra, como ele pediu. A organizadora diz que sim, e ele então comenta com um sorriso maroto: “então não peça silêncio. Eu vou fazer de conta que procuro o copo, lentamente, como se não pudesse encontrá-lo. Isso faz as pessoas se calarem rapidamente”.

DE SHAKESPEARE A CERVANTES – Borges aprendeu o inglês com sua avó britânica Frances Haslam. E foi no idioma de Shakespeare que escreveu seu primeiro conto, quando era criança. Apesar de ter recuperado expressões típicas do interior da Argentina e o uso de gíria, o suposto peso do idioma inglês na literatura de Borges criou o mito de que o escritor primeiro escrevia em inglês para depois passar seus textos ao espanhol.

Cansado de ser perguntado frequentemente pelos jornalistas sobre o assunto, Borges comentou com ironia, citando um argentiníssimo poema seu: “outra pergunta que me repetem sempre é se tudo o que eu escrevo primeiro o faço em inglês e depois o traduzo ao espanhol. Eu digo que sim, e que, por exemplo, ao ler os versos “Siempre el coraje es mejor/ nunca la esperanza es vana/ vaya pues esta milonga,/ para Jacinto Chiclana” (Sempre a coragem é melhor/ nunca a esperanza é vã/ vai, pois, esta milonga/ para Jacinto Chiclana) dá para perceber que foram pensados em inglês. E, dá para perceber, inclusive, os vacilos do tradutor…”.

ÓCULOS E A AUSÊNCIA DOS MESMOS – No início dos anos 80 Borges estava reunido com seu amigo e escritor Adolfo Bioy Casares.

Bioy comenta sobre seus problemas de vista: “que coisa incômoda é não ver sem os óculos”.

Borges, que estava cego há quase três décadas, replica: “que coisa incômoda é não ver com os óculos”.

Borges era admirado por escritores de ficção científica como James Graham Ballard (1930-2009), britânico-chinês (nasceu em Shanghai). Nesta foto, à esquerda o autor de “História Universal da Infâmia”; à direita o autor de “O mundo submerso” e de “O Império do Sol”

UM FUTURO OBITUÁRIO ENCICLOPÉDICO – Uma década antes de morrer Borges também escreveu uma peculiar biografia de si próprio, imaginando como os enciclopedistas do futuro fariam referências sobre ele e sua obra. As auto-ironias abundam, começando por seu nome errado no verbete (Isidoro era seu avô paterno). Esta biografia – futuramente publicada em Santiago do Chile (!!!) – aparece no epílogo das “Obras Completas”, publicada pela Emecé Editores,

Para vocês, no idioma original, para sentir melhor o sabor:

 A riesgo de cometer un anacronismo, delito no previsto por el código penal, pero condenado por el cálculo de probabilidades y por el uso, transcribiremos una nota de la Enciclopedia Sudamericana, que se publicará en Santiago de Chile, el año 2074. Hemos omitido algún párrafo que puede resultar ofensivo y hemos anticuado la ortografía, que no se ajusta siempre a las exigencias del moderno lector. Reza así el texto: 

BORGES, JOSÉ FRANCISCO ISIDORO LUIS: Autor y autodidacta, nacido en la ciudad de Buenos Aires, a la sazón capital de la Argentina, en 1899. La fecha de su muerte se ignora, ya que los periódicos, género literario de la época, desaparecieron durante los magnos conflictos que los historiadores locales ahora compendían. Su padre era profesor de psicología. Fue hermano de Norah Borges (q. v.). Sus preferencias fueron la literatura, la filosofía y la ética. Prueba de lo primero es lo que nos ha llegado de su labor, que sin embargo deja entrever ciertas incurables limitaciones. Por ejemplo, no acabó nunca de gustar de las letras hispánicas, pese al hábito de Quevedo. Fue partidario de la tesis de su amigo Luis Rosales, que argüía que el autor de los inexplicables Trabajos de Persiles y Segismunda no pudo haber escrito el Quijote. Esta novela, por lo demás, fue una de las pocas que merecieron la indulgencia de Borges; otras fueron las de Voltaire, las de Stevenson, las de Conrad y las de Eça de Queiroz. Se complacía en los cuentos, rasgo que no recuerda el fallo de Poe, “There is no such thing as a long poem”, que confirman los usos de la poesía de ciertas naciones orientales. En lo que se refiere a la metafísica, bástenos recordar cierta Clave de Baruch Spinoza, 1975. Dictó cátedras en las universidades de Buenos Aires, de Texas y de Harvard, sin otro título oficial que un vago bachillerato ginebrino que la crítica sigue pesquisando. Fue doctor honoris causa de Cuyo y de Oxford. Una tradición repite que en los exámenes no formuló jamás una pregunta y que invitaba a los alumnos a elegir y considerar un aspecto cualquiera del tema. No exigía fecha, alegando que él mismo las ignoraba. Abominaba de la bibliografía, que aleja de las fuentes al estudiante.

“Le agradaba pertenecer a la burguesía, atestiguada por su nombre. La plebe y la aristocracia, devotas del dinero, del juego, de los deportes, del nacionalismo, del éxito y de la publicidad, le parecían casi idénticas. Hacia 1960 se afilió al Partido Conservador, por que (decía) ‘es indudablemente el único que no puede suscitar fanatismos’. “El renombre de que Borges gozó durante su vida, documentado por un cúmulo de monografías y de polémicas, no deja de asombrarnos ahora. Nos consta que el primer asombrado fue él y que siempre temió que lo declararan un impostor o un chapucero o una singular mezcla de ambos. Indagaremos las razones de ese renombre, que hoy nos resulta misterioso…

BREVE CARTOGRAFIA BORGIANA

Jorge Luis Borges amava sua cidade natal, Buenos Aires, da qual uma vez disse que a considerava “tão eterna quanto a água e o ar”. O guia mais completo sobre a relação do escritor com a cidade é “A Buenos Aires de Borges”, do jornalista Carlos Zito, que em entrevista ao Estado fez um panorama da geografia borgiana.

“Borges recriou Buenos Aires de acordo com uma imaginação profícua capaz de envolver o bairro de Palermo em um paradoxo metafísico, uma esquina de San Telmo em um pesadelo e a Praça Once em um incomparável inferno”, sustenta. 

Na seqüência, algumas dicas da cartografia borgiana de Zito misturadas com outras minhas:

AS CASAS DA INFÂNCIA - Borges nasceu em uma casa da rua Tucumán, 840. A residência não existe mais, embora a edificação substituta ostente uma placa de bronze comemorativa. Dois anos depois, sua família mudou-se ao bairro de Palermo, na rua Serrano, 2147, onde moraria até os 13 anos, quando partiria para a Europa. Segundo Zito, ali, passou os anos mais felizes de sua vida, especialmente na biblioteca de seu pai.

“De fato, às vezes penso que nunca saí dela. Ainda posso vê-la”, escreveu Borges anos depois. O bairro onde estava, Palermo, seria o palco de inúmeros contos e ensaios. Na sua juventude era um subúrbio relativamente rude, onde ainda sobreviviam alguns tipos que serviriam para seus relatos: bandidos, jogadores de cartas, músicos e assassinos.

O bairro estava povoado por homens cujo sentido da honra estava tão vinculado à coragem física que pareciam saídos de uma saga medieval. Nas ruas de Palermo, Borges teve seus primeiros contatos com o tango e a milonga, e o vasto material para sua mitologia de Buenos Aires.

Georgie e sua irmã Norah

APARTAMENTO DA CALLE MAIPÚ – No mesmo ano em que publica “Ficções”, em 1944, os Borges se mudam à rua Maipú, 994, apartamento 6B. Ali, o escritor morará durante 41 anos. O apartamento era mínimo: um exíguo hall, uma sala de visitas que se prolongava na sala de jantar, o quarto da mãe de Borges, que faleceu nos anos 70, e o quarto de Epifanía Uveda (conhecida como “Fani”), a eterna e fidelíssima governanta da família. Zito conta que Borges dormia na sala, protegendo sua intimidade com um biombo. Com a morte de sua mãe, o escritor, já septuagenário, conseguiu ter um quarto próprio.

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, que o visitou em 1981, descreveu seu quarto como “uma cela: estreito, com uma cama tão frágil que parece de criança, e uma pequena estante cheia de livros anglo-saxões”. O quarto também possuía uma velha cadeira cinza com o estofado pintado com uma “Dame à la Licorne” de autoria de sua irmã Norah, duas aquarelas de Xul Solar. Também havia uma emblemática gravura de Piranesi, ilustrando um labirinto. Nesse apartamento Borges ditou à sua mãe suas principais obras: “O Aleph”, “Outras Inquisições”, “O Informe de Brodie”, “Os Conjurados”, entre outros.

BIBLIOTECA NACIONAL - Quando o Peronismo chegou ao poder, Borges foi afastado de seu cargo em uma biblioteca, e colocado como “inspetor de galinhas nas feiras públicas”. Com a queda do presidente general Juan Domingo Perón em 1955, Borges foi redimido, e nomeado diretor da Biblioteca Nacional, situada até o começo desta década na rua México 564.

O novo trabalho recuperou para Borges um velho e esquecido prazer: frequentar a zona sul da cidade. No começo, Borges ainda podia enxergar e ler os títulos dos livros.

Mas, três anos depois, já não via nada. E assim, escreveu o “Poema dos dons”: “Ninguém rebaixe à lágrima ou acusação/ esta declaração do poder/ de Deus, que com magnífica ironia/ me deu ao mesmo tempos os livros e a noite”.

Em “O Livro de Areia”, Borges, personagem ele mesmo de um conto seu, esconde o perverso livro de páginas infinitas que perturbava sua mente. À sua amiga Maria Esther Vázquez uma vez confessou : “em qualquer lugar do mundo onde esteja, sonho com a Biblioteca Nacional…ela é infinita e me pertence”.  

CEMITÉRIO DA RECOLETA - Neste aristocrático cemitério, no mausoléu da família, Borges esperava passar a eternidade. No entanto, hoje repousa em Genebra. “Aqui está a recatada morte portenha”, disse o escritor de La Recoleta. Borges gostava de passear pelo cemitério, onde estão enterrados os principais nomes da História do país.

Em “Fervor de Buenos Aires”, escreveu: “Belos são os sepulcros, /o nu latim e as travadas datas fatais, / a conjunção do mármore e da flor / e as pracinhas com frescor de pátio/ e os muitos ontens da História / hoje detida e única”.

PUENTE ALSINA - Borges e seu inseparável amigo e escritor Adolfo Bioy Casares apreciavam a desolação da ponte Alsina, na zona sul de Buenos Aires (que liga a capital com o município de Lanús). Eles se deleitavam com a fama de bairro de malandros e pessoas armadas de facões.

Um ano antes de morrer, Bioy Casares me disse que “as vezes levávamos algum intelectual recém-chegado da Europa a Ponte Alsina. Sempre perguntavam ‘E agora ?’. ‘E agora nada’, respondíamos. ‘É isto aqui’, explicávamos. Gostávamos dali, não sei porquê…Durante um ano, fomos todas as noites até ali”.

 Ponte Alsina. “E agora?”… “E agora, nada”.

   

E, para encerrar a jornada – sem nada a ver com Borges – um pouco de Giuseppe Torelli (1658 – 1709), aqui.

Mas, agora, tudo a ver com Georgie, aqui vai a Milonga de Jacinto Chiclana, recitada pelo próprio Borges. Aqui.

A mesma milonga, agora cantada pelo supimpa Edmundo Rivero. A música é de outro emblema do tango argentino, Astor Piazzolla. Aqui.

   

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (48)| Comente!

Hoje, sábado, 14 de maio, o Paraguai celebra seu bicentenário de independência. E, que melhor forma de homenagear um país do que mostrar um de seus emblemas culturais, isto é, o escritor Augusto Roa Bastos (1917-2005)? Bom, então aproveito e coloco aqui a íntegra da entrevista que fiz com o autor de “Yo, el supremo” em dezembro de 1995, após uma conferência sua no Instituto Cultural da Espanha em Buenos Aires. Na época, Roa Bastos havia acabado de lançar seu livro “Madame Sui”. A conversa durou quase uma hora. Seus assessores queriam levá-lo para jantar. Mas, este gentleman das letras paraguaias preferiu ficar batendo papo.

“Os mitos se esgotam, como o poder” afirma pausadamente Augusto Roa Bastos, o mais importante escritor paraguaio deste século, que acaba de lançar seu último livro: “Madame Sui”, a história de uma amante do todo-poderosos ditador paraguaio Alfredo Stroessner entre 1954 e 1989.

Pouco conhecido no Brasil, este colossal senhor de pouco mais de um metro e meio de altura já ganhou em terras paulistanas o prêmio Letras do Memorial da América Latina. Na terra do Quixote recebeu o prêmio Cervantes, o mais cobiçado reconhecimento aos escritores de língua espanhola. Recentemente recebeu o Prêmio Nacional de Literatura de seu país. Suas histórias mesclam vidas reais com tradições guaranis, salpicados com a fina ironia que marca sua obra.

Veterano da Guerra do Chaco (1935-36), Augusto Roa Bastos passou logo para outro campo de batalha: o europeu. O mundo definia seu futuro nos campos da Rússia e nas praias francesas e o jovem paraguaio foi para cobri-la. Ao voltar para seu país, em 1949, assistiu os primórdios do regime autoritário, que em 1954 se tornaria a ditadura de Stroessner.

Ele, que havia sobrevivido a duas décadas de tiroteios, percebeu que uma ditadura pode ser mais cruel que uma trincheira. Roa Bastos chegou à conclusão de que, para continuar vivo, era mais adequada a dura estrada do auto-exílio.

O escritor partiu rio abaixo em direção a Buenos Aires, onde viveu até 1976, quando outro coup d’état o obrigou mais uma vez ao caminho do exílio. Desta vez foi para a capital de todos os refugiados: Paris.

Mas Roa Bastos sustenta: “como dizia Northop, o shakespereano personagem de Ricardo III, não há pior exílio que o exílio do idioma”. Roa Bastos sabe disso com proficiência. Cidadão de um país onde o guarani e o espanhol travam um contínuo embate – e ocasionalmente se cruzam – considera que “a língua viva é a oral. A língua morta é a oficial”.

Em “Madame Sui” Roa Bastos conta a história da uma amante de um ditador. A dedução é que o general em questão é Stroessner, embora o escritor não o mencione diretamente: “A tirania que serve de moldura a esta história, inspirada nas ideologias do nazismo e do fascismo e continuadora daqueles regimes de força, ao final da Segunda Guerra Mundial, foi a mais longa e cruel das que assolam neste século a América do Sul”, diz.

Madame Sui foi a favorita desse estranho e cruel ditador de origem teutônico, que parecia mudo de tão calado (mas que reduziu ao silêncio uma sociedade durante mais de três décadas e meia). A curva de transformação da garota primitiva, quase selvagem, em cortesã refinada e culta do final de sua evolução, não alterou o destino de Madame Sui. Ela o viveu de uma forma espontânea, talvez inconsciente, de rebelião”.

Com voz pausada e gestos finos, Roa Bastos falou ao Estado sobre os mitos, a mulher e “Madame Sui”.

Estado – Sua obra parece se basear sempre em fatos históricos…

Roa Bastos – A literatura sempre se apresentou para mim como uma forma de viver literariamente a realidade da História. A realidade dos mitos e das formas históricas penetram profundamente na superfície do destino humano.

Estado – Essa dualidade que há no Paraguai, entre o espanhol e o guarani, como se reflete na literatura?

Roa Bastos – Não são problemas puramente literários. São problemas de vida, de História…são problemas de pessoas que levam em cima o destino de um país, que sempre esteve encurralado e assediado pela fatalidade. As leis dessa fatalidade são inescrutáveis. E isto também se reflete na palavra escrita. Ela, ao ser escrita, perde a vibração natural da palavra oral, que é a palavra da cultura paraguaia, em sua origem, em seu desenvolvimento. Também a presença permanente destas figuras simbólicas contribuem a definir o destino de toda uma coletividade. Há mitos centrais que correspondem à todas as culturas. Acho que eles definem a condição humana. A forma de ser mais universal é se ancorar no natal, nas raízes que penetram muito fundo em uma realidade cultural, histórica.

Estado – Por exemplo?

Roa Bastos – Para não falar em abstrações: há uns mitos centrais na cultura guarani, por exemplo, o mito de origem dos guaranis, é o da “Terra Intocada” ou a terra sem mal, não contaminada pela culpa humana.

Estado – Como o Éden, no cristianismo…

Roa Bastos – E não só esse exemplo. Os mitos recolhem isso que está submerso no magma da condição humana. Existe também o mito dos “Paus Cruzados”, que é o símbolo da cruz, que chegou muito depois ao Paraguai. Há evidentemente uma similitude antropológica, apesar das diferentes raças que há no mundo. Na mitologia e na cosmologia dos guaranis, os “Paus Cruzados” eram simplesmente as fundações do Cosmo. A Terra seria sustentada por estes paus cruzados. Curiosamente, mais tarde seria o símbolo do cristianismo … Como a suástica, que de origem hindu, serviu de símbolo a uns dos poderes ditatoriais mais terríveis que se abateram sobre a espécie humana. Há muitas coincidências nos mitos dos povos que habitam a Terra. Isso não é fortuito. Deve-se a estrutura de nossa condição humana, binária.

Estado – Como assim?

Roa Bastos – Vemos o mundo desde um ângulo que tem o olhar de um binóculo. Dois olhos que veem em uma mesma direção, depois juntam as imagens e assim têm uma projeção estereoscópica, de relevo. Os dois lóbulos parietais no cérebro também são testemunhas da condição binária. Não é uma condição de duplicidade, mas a condição bipolar das energias que residem no ser humano. Por isso a mulher é superior ao homem.

Estado – Isso é uma galanteria ao belo sexo, sr. Roa Bastos (ao lado, durante a entrevista, um grupo de intelectuais portenhas ouvia com atenção o escritor)…

Roa Bastos – Não (ri, e olha para elas)…Elas tem dois lóbulos interiores, os dois ovários, que fazem possível a gestação do ser humano. Não estou querendo fazer uma declaração de fé na mulher, mas é que o Paraguai, país que foi devastado pela hecatombe do século passado (a Guerra do Paraguai, onde morreram três quartos da população do país) foi reconstruído pelas mulheres. Este é um exemplo épico, estóico, o da mulher paraguaia. A submissão das mulheres não é a forma mais adequada para o desenvolvimento da espécie humana.

O ditador & general Alfredo Stroessner Matiauda – que controlou o Paraguai com mão de ferro durante três décadas e meia – passeia pelas ruas de Madri ao lado do anfitrião e congênere espanhol, o generlíssimo (por la gracia de Dios, como costumava dizer) Francisco Franco Bahamonde. Stroessner e sua ditadura seriam o alvo de diversas obras de Roa Bastos.

Estado – O sr. conta a história do ponto de vista de uma mulher. Para um homem, talvez, escrever do ponto de vista feminino não deve ser fácil…

Roa Bastos – A protagonista da obra, Madame Sui, é uma adolescente, que morre muito cedo e passa pelas piores vissicitudes que podem ocorrer ao ser humano, concretamente, a uma mulher. Isso me levou à necessidade de investigar de até onde o ser humano pode manter sua inocência nata, passar por todas estas provas e manter o calor de seu coração. Madame Sui não tinha consciência de culpa, sentimento muito ligado à religião. Ela era um ser livre, um “animalzinho vital”. Um dos personagens, que também narra a história, lhe coloca o apelido de “cabritinha doida”. Ela se suicida por esse amor profundo por este personagem que não tem nome, que chama de “Ele”. Ela não tem outro remédio senão refugiar-se na morte. Essa mulher, que cometeu as maiores aberrações do ponto de vista sexual, manteve intacta em si, uma dignidade profunda e sua inocência nata, que acredito que existe no ser humano mais culpado.

Estado – Mas como foi o processo de escritura desde o ponto de vista de uma mulher?

Roa Bastos – Utilizando um recurso de mimetismo disse “gostaria de escrever esta história como a teria escrito uma mulher”. Somente uma mulher pode escrever sobre uma mulher. Meu esforço, mais que literário, da construção de uma história, foi o fato que se possa assimilar esse estilo profundo que tem a mulher escritora. Sei que fracassei e o fracasso às vezes se constitui em suecesso se o reconhecemos….Li neste dois último anos obras escritas por mulheres, querendo mimetizar esse estilo. Bernard Shaw dizia que um autor deve ser tão malvado ou tão bondoso como o mais maldito seus personagens, e também como o mais valorizado. Se um escritor não pode alcançar na altura nem o bem nem o mal como seus personagens, tampouco pode escrever sobre eles. Esta obra pelo menos tem a intenção da noção de mundo, a sensibilidade, essa prodigiosa capacidade de intuição que a mulher tem mais de que o homem e está negada a ele. Admito meu fracasso, mas tentei essa possibilidade.

Estado – Há outra madame famosa na história paraguaia, a madame Lynch, mulher do ditador Solano López. O Paraguai parece pródigo em mulheres fortes…

Roa Bastos – A tendência da protagonista do livro é se apoiar em alguns mitos. Neste caso, com a madame Lynch, uma mulher legendária à qual madame Sui queria se parecer. Ela é um avatar de outro personagem. No livro “Filho de homem” ela se chama Lágrimas González. Não a transformei, mas lhe dei outro destino, fazendo-a mestiça de paraguaio e japonesa. Mas os mitos se esgotam, como o poder. Então ela se aferra a outro mito mais próximo. Por coincidência, sob a lei da casualidade, que é uma das mais rigorosas que existem no mundo e na vida humana, cai em suas mãos o livro de Eva Perón, “A razão de minha vida”. O mito de madame Lynch se transforma. Agora ela quer ser como Evita. E provavelmente um de seus sonhos, quando aceita ser a hetaira, a concubina do Ditador, é que este lhe dê poder e assim possa imitar Eva Perón e o que esta fez pelos descamisados na Argentina, fazendo o mesmo pelos pobres no Paraguai. Todos este mitos se diluem com o tempo e o que fica é a total solidão do ser humano diante do mistério da vida e essa fenda intransponível que é a morte. Eu, como escritor, já esqueci um pouco do que escrevi. Acho que ela se auto-sacrifica para compensar esse declínio que se produz em seu ser com a perda do amor que ela considerou eterno.

Estado – Os escritores exilados parecem ser os que melhor entendem sua pátria, disse Vargas Llosa. O sr. que colocaria nessa categoria?

Roa Bastos – Absolutamente, não. Corre-se o risco de dar uma imagem falsa de seu país. A perspectiva aumenta os excessos da imaginação. Mas os que ficaram no Paraguai não se sentiram estimulados para escrever. Todos aqueles que escrevíamos, por essa imensa carga de conceitos que a palavra leva, fomos embora. Assim surgiu uma literatura ausente. Acho que a maioria dos escritores da América Latina começaram a escrever durante o exílio talvez por um impulso desencadeado de não perder a língua nativa ao se ver em terras estrangeiras.

Estado – As ditaduras da América Latina deram esse tom diferente à literatura do continente?

Roa Bastos – Influiu muito. A palavra sempre carrega um sentido, o famoso significado do qual falavam os estruturalistas. Há uma espécie de fascinação pelo poder na qual é inevitável cair. É difícil para a literatura escapar à repressão. É mais fácil para a música ou a pintura se esquivarem da perseguição política. O poder não lê. Como não faz isso, manda preparar relatórios. E os relatórios são tão sucintos e resumidos que vão tachando as obras como perigosas para o regime. Além disso há o problema que essa literatura perseguida corre o risco de ser panfletária. Sempre resisti a essa noção da literatura engajada. A literatura mais comprometida não é aquela que dá sinais de compromisso, mas a que o pratica.

.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (25)| Comente!

 

Lástima que cuando uno empieza a aprender el oficio de vivir ya hay que morir (pena que, quando a gente começa a aprender o ofício de viver já é preciso morrer). Sabato, que era marcado pelo intenso pessimismo, planejou o suicídio duas vezes. Mas, no fim das contas, prevaleceu sua vontade de viver. Morrer, dizia, é algo triste.

“Que horror é o mundo!”. O autor destas palavras, o escritor argentino Ernesto Sábato, morreu neste sábado de madrugada aos 99 anos de idade. No dia 24 de junho teria completado um século de existência. O criador de obras como “O túnel”, “Sobre heróis e tumbas” e “Um e o universo”, embora fosse um seguidor de um humanismo social como o de Bertrand Russel e Bernard Shaw, tendia à depressão ao estilo de Vincent Van Gogh e Antonin Artaud, também enfaticamente admirados pelo argentino.

O escritor – cuja profissão original foi a de físico nuclear – teve a marca do pessimismo nas últimas décadas de sua vida. No entanto, indicava que o planeta ainda tinha “chances”: “este século é atroz e terminará de forma atroz. A única forma de salvá-lo é pensar poeticamente”.

Com sua morte encerra-se a plêiade de escritores argentinos de fama internacional do século vinte como Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Julio Cortázar.

Sábato, vencedor do Prêmio Cervantes em 1984, estava há cinco anos praticamente recluso em sua casa no distrito de Santos Lugares, na zona noroeste da Grande Buenos Aires, onde residia há décadas.

Segundo sua secretária e amiga pessoal Elvira González de Fraga, há 15 dias uma bronquite complicou seu estado de saúde. “E essas coisas, nessa idade, são algo terrível”, lamentou ontem de manhã.

Coincidentemente neste domingo à noite, o autor de “Abadón, o exterminador”, que havia nascido na cidade de Rojas, na província de Buenos Aires em 1911, seria homenageado em uma conferência na Feira do Livro de Buenos Aires com a exibição de um documentário feito por seu filho, o cineasta Mario Sábato.

Uma de suas últimas aparições em público foi em 2004 no Congresso da Língua na cidade de Rosário. Ali, o português José Saramago, o definiu de “autor trágico e eminentemente lúcido ao mesmo tempo”. Sábato ficou mudo, chorou e depois abraçou Saramago.

Ontem de manhã, ao saber da morte de seu amigo, a escritora Maria Rosa Lojo destacou que Sábato “foi uma grande influência, que ia mais além da literatura”. A ensaísta María Ester Vázquez, biógrafa de Jorge Luis Borges e amiga de Sábato, afirmou que sua obra mais transcendente foi “Sobre heróis e tumbas”.

O escritor também era um especialista na História do tango. Segundo ele,“somente um gringo pode fazer a palhaçada de aproveitar um tango para conversar e se divertir”. Segundo o autor, “um napolitano dança a tarantela para se divertir. O portenho dança um tango para meditar sobre seu destino”. 

Ilustração de Alberto Breccia para o comic baseado em “Informe sobre ciegos”

RABUGENTO – Sabato, além da fama de pessimista, era conhecido por sua imagem de homem que reclamava sempre de tudo. Sobre o fato de ser rabugento, ele próprio deixou uma mensagem a respeito que seu filho Mario Sabato, cineasta, leu neste sábado.

“Quero ser lembrado pelos vizinhos de seu bairro em Santos Lugares como um ocasional cascarrabias (rabugento) mas, um bom sujeito. É tudo que eu aspiro”.

MILITÂNCIA, FÍSICA, SURREALISMO E LITERATURA - Homem preocupado por seus semelhantes, Sábato foi anarquista e comunista na juventude e início da vida adulta. Sua militância política o levou à clandestinidade e posteriormente à Europa, onde rompeu com o comunismo, dominado pelos stalinistas. Ali deu uma guinada radical, dedicando-se nos anos 30 ao estudo da física no Instituto Curie em Paris. Na seqüência, com a guerra ameaçando a capital francesa, partiu para os EUA, onde estudou raios cósmicos em Massachussets.

Embora fosse considerado um dos mais prometedores físicos da nova geração, Sábato abandonou a ciência e iniciou sua atividade literária em 1945 com “Um e o universo”, um compêndio de mini-ensaios filosóficos. Na sequência, apadrinhado pela mecenas literária argentina mais emblemática da primeira metade do século vinte, Victoria Ocampo, Sábato entrou no mundo das novelas, com “O túnel” (1948), “Sobre heróis e tumbas” (1961) e “Abadón e o exterminador” (1974).

Grande parte de seus primeiros escritos foram salvos das fogueiras que o escritor fazia no quintal da casa por sua mulher, Matilde Kunmisky.

A política, no entanto, nunca deixou a vida do escritor, junto com suas contradições.

O ditador Videla com Borges e Sabato em 1976.

 Sábato lamentou durante décadas que a política foi a causa do fim da amizade entre ele e o escritor Jorge Luis Borges (este último, um ferrenho anti-peronista). Sábato não era peronista, mas sustentava que com o peronismo, pela primeira vez na Argentina surgiram condições humanas para os trabalhadores. Ele condenava o autoritarismo do peronismo e criticava a expulsão dos professores que divergiam do governo (entre esses, o próprio Sábato).

Sábato confessava que do convívio com Borges ficaram as saudades das intermináveis conversas sobre Platão e Heráclito de Éfeso.

Em 1955 Sabato apoiou o golpe militar contra Juan Domingo Perón. O novo regime o designou interventor da revista “Mundo Argentino”. Mas, um ano depois renunciou em protesto pela repressão e a censura aos peronistas após o golpe.

Anos depois, em 1976, ocorreu um novo golpe militar. Sabato e Borges foram convidados para participar de um almoço com o general Jorge Rafael Videla. Ao sair da Casa Rosada, Sabato comentou sobre o ditador: “um homem culto, modesto e inteligente”. Mas, posteriormente, tal como Borges, arrependeu-se do apoio inicial à ditadura.

Desta forma, em 1984 o então presidente Raúl Alfonsín (1983-1989) encomendou-lhe a tarefa de presidir a Comissão Nacional sobre Desaparecimento de Pessoas (Conadep) que redigiu o “Relatório Sábato”, que depois, a pedido do próprio escritor, teve o título modificado para “Nunca mais”. O relatório detalhou os sequestros, torturas e assassinatos de civis por parte da ditadura militar argentina (1976-83).

Sabato, depois de entregar o relatório sobre os horrores da ditadura de 1976-83.

ÚLTIMA FASE - Sábato passou quase duas décadas sem publicar nada, desde “Apologias e Rechaços”, de 1979. Em 1992 confessou que havia estado à beira do suicídio duas vezes. “A arte me salvou. E por isso minha arte é trágica”, explicou Sábato, cujo exacerbado pessimismo tornou-se até folclórico para os argentinos.

Mas, em 1999 – depois da morte de sua esposa Matilde, com quem estava casado durante mais de 60 anos – lançou “Antes do fim”, livro que entrelaça lembranças dos principais momentos de sua vida com reflexões.

Na obra, após um encadeamento de sombrias previsões para o mundo, conclui com uma mensagem de esperança para os jovens, a quem chama de “herdeiros do abismo”.

No ano 2000 Sábato escreveu “A resistência”. A obra, que seguiu a temática de “Antes do fim”, exaltava os “valores do passado” e criticava a informática, “que afasta o homem do mundo que o rodeia”. Paradoxalmente, foi o primeiro livro argentino que foi primeiro lançado na internet antes da edição impressa.

A crítica celebrou suas principais obras, escritas antes de 1979, além de destacar sua participação na defesa dos Direitos Humanos nos anos 80. Mas, lamentava que seus derradeiros livros estavam distantes do ensaísta ou narrador que cuidava de forma elaborada sua estilística. A crítica indicava que seus últimos livros não passavam de um obsessivo retrato das implicâncias do escritor.

Sabato admirava os surrealistas. Mas, considerava que Salvador Dali era um “farsante”. No livro “Um e o universo” desfere diversas críticas contra o pintor catalão. Acima, um dos vários quadros de Dali sobre o tempo.

ANTES DO FIM, UM SABATO POR SABATO - “Antes do fim” começa quase pedindo desculpas por ter sido escrito. Sábato mantém o tom de que escreveu o livro contra sua vontade, mas ressalta que finalmente o fez porque muitos lhe pediam para dar uma mensagem de esperança. Escrito sem cuidado estilístico, a obra parece uma conversa onde a informalidade é tão grande que às vezes não lhe faltam toques piegas. Além disso, sua amargura se evidencia mesmo quando responde à uma imaginária pergunta sobre sugestões de leitura: “leiam aquilo que os apaixona, porque será a única coisa que os ajudará a suportar a existência”.

A infância é o refúgio dourado de suas lembranças. Dessa época, o escritor relembra os irmãos, a mãe e o pai, de quem lamenta só ter valorizado diversos atos só anos depois: “freqüentemente a vida é um permanente desencontro”, diz. Segundo Sábato, “coisas fundamentais ficaram sem dizer entre nós. Então, descobrimos a última solidão: a da amante sem o amado, os filhos sem os pais, os pais sem os filhos”.

Sobre sua própria obra, o escritor conta que o único livro que quis publicar foi “O Túnel”.

Em “Antes do fim”, Sábato relata as dificuldades que teve para publicar “O Túnel” e como foi necessário o empréstimo de um amigo para consegui-lo. Ele também relembra a ajuda de Albert Camus, que estimulou sua tradução ao francês no ano seguinte.

Sábato sustenta que nunca considerou-se um escritor profissional, “desses que publicam um livro anualmente”. Ao contrário, explica como queimava às tardes aquilo que havia escrito pelas manhã.

Na virada do século, afirmava que se arrepende de ter levado à fogueira algumas obras que nunca veremos, como “O homem dos pássaros” e uma novela que escreveu em seu período surrealista, “A fonte muda”.

Passando de um análise da própria vida, Sábato analisava o mundo de 1999: “vejo as notícias e corroboro que é inadmissível acreditar na idéia de que o mundo superará a crise que atravessa”.

Sábato acusava o desenvolvimento facilitado pela tecnologia de “conseqüências funestas para a humanidade”. O escritor argentino considerava que “essa criatura (o homem) começou a devorar a si mesma”, e cita Hannah Arendt que nos anos 50 afirmava que “a crueldade deste século seria insuperável”.

Sábato dedica um capítulo a outro cético como ele: Cioran. Sábato, no entanto, surpreendeu-se com o filósofo romeno: “não era um ermitão e sempre estava sorrindo”. Em outro capítulo Sábato fala de seu filho Jorge Federico, falecido em um acidente de automóvel e que junto com a morte de Matilde foram os grandes golpes que sofreu nesta década.

No livro Sabato relatou que em uma reunião da casa de Hilda Schiller (filha do arqueólogo que descrobriu Tróia, o alemão Walter Schiller), conheceu Matilde, na época uma adolescente que por ele se apaixonou.

Ernesto e Matilde, em 1937, pouco antes de partir para Paris.

MATILDE - Sobre sua falecida esposa, em “Antes do fim”, faz um profundo mea-culpa, e acusa-se a si próprio das diversas penúrias que lhe fez passar. Entre elas, a surpreendente revelação de ter fugido com uma condessa russa em Paris, deixando Matilde e seu filho, ainda bebê, sozinhos no porto. No capítulo sobre Matilde, confessa outros dois vínculos profundos com mulheres, e explica o porquê: “sempre precisei que me apoiassem, como uma casa velha ou mal-construída que precisa umas estacas”.

Matilde Kuminsky-Richter havia conhecido Sabato em 1933 na casa de Hilda Schiller, em La Plata, onde Sabato dava um curso sobre marxismo.

Nos anos 50, Matilde, cansada das aventuras amorosas de Sabato, decidiu – segundo duas fontes íntimas me contaram – aceitar os avanços sedutores de Adolfo Bioy Casares, emérito casanova do âmbito literário portenho. A relação entre os dois ficou séria e Bioy esteva a ponto de uma ruptura com sua esposa, Silvina Ocampo. Neste contexto, Matilde um dia decidiu fazer as malas e deixar Sabato. Este, arrependido, teria prometido endireitar-se e nunca mais ter relações extraconjugais. Matilde, no meio da escada da casa, aceitou as promessas de Sabato, que chorava descontrolado. Dali para a frente Sabato nunca mais dirigiu a palavra a Bioy Casares.

Coincidências da vida: o primeiro trabalho literário de Sabato (escrito na revista “Teseo” de La Plata) em 1941, foi um ensaio sobre o livro “A invenção de Morel”, de Bioy Casares.

Matilde e Ernesto em 1979, atrás das grades da janela de sua casa em Santos Lugares, onde o casal residia desde 1945.

ESPERANÇA – O epílogo de “Antes do fim”, titulado “Pacto entre derrotados”, é uma carta direta aos jovens, alertando que mesmo os filhos dos poderosos não têm o futuro garantido. Mas em vez de mergulhar totalmente na depressão, Sábato convoca à ação e à defesa da solidariedade e da vida. “A esperança sempre foi maior que o desespero. Os jovens devem se arriscar pelos outros”.

Sabato lê o começo de “Sobre heróis e tumbas”. Aqui.

Sabato fala sobre a Buenos Aires “que não existe mais”. Aqui.

Sábato com o mestre do violão, Eduardo Falú. O músico e cantor entoa versos sobre o texto de Sabato “Romance de Juan Lavalle”. Aqui.  

Mais Breccia e Sabato

Algumas frases de Sabato: 

Un buen escritor expresa grandes cosas con pequeñas palabras; a la inversa del mal escritor, que dice cosas insignificantes con palabras grandiosas”. (Heterodoxia, 1953)
 

“Hay una sola forma de alcanzar la universalidad y la eternidad: escribiendo sobre el hombre de hoy y aquí. Pero eso no significa que se haga literatura social: Dostoievsky no ha pasado a la historia porque haya escrito las costumbres de la clase media rusa ni los problemas de los mujiks, sino porque, a través de esos problema, fue capaz de descender hasta el infierno ultimo del alma humana”. (“Una sola universidad, la de la vida” Reportagem sobre a Universidade, 1960)

Sabato como pintor: Na ilustração acima, um quadro do escritor-pintor que mostra Fiódor Dostoyevski (Ѳеодоръ Достоевскій)  em um terraço com varal.

E o link para um trecho do livro “Diálogos: Borges/Sabato”, do jornalista Orlando Barone, que entrevistou os dois escritores ao longo de diversas jornadas entre o 14 de dezembro de 1974 e o 15 de dezembro de 1975. Para ver essa saborosa conversa, clique aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários (39)| Comente!

Arquivo

..Revistas satíricas da Argentina

Blogs do Estadão