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A Síndrome de Menem – Políticos argentinos evitariam Copa do Mundo do Brasil

Ariel Palacios

sexta-feira 06/06/14

O então presidente Carlos Menem e o então jogador Diego Armando Maradona – grandes amigos – posam juntos durante um jogo em estádio em Buenos Aires. Menem gostava de exibir supostos dotes esportivos. Maradona apreciava a paparicação de Menem, sobre quem tecia elogios rasgados. As lideranças políticas da Argentina, tanto do governo como da oposição, [...]

O então presidente Carlos Menem e o então jogador Diego Armando Maradona – grandes amigos – posam juntos durante um jogo em estádio em Buenos Aires. Menem gostava de exibir supostos dotes esportivos. Maradona apreciava a paparicação de Menem, sobre quem tecia elogios rasgados.

As lideranças políticas da Argentina, tanto do governo como da oposição, embora sejam predominantemente entusiastas do futebol, não estarão presentes – a princípio – nos jogos da Copa do Mundo no Brasil. Uma delas é a presidente Cristina Kirchner, que foi convidada para ir ao Brasil para ver de perto o torneio mundial. No entanto, a Casa Rosada nunca emitiu respostas sobre o assunto. Cristina – declarada fã desse esporte – ficaria na Argentina e assistiria os jogos desde a residência presidencial de Olivos ou desde sua mansão no vilarejo de El Calafate, nos confins da Patagônia, que costuma frequentar em vários fins de semana.

No âmbito político fontes indicam que por trás desta decisão estaria a “síndrome de Menem”, alusão à fama de pé-frio do ex-presidente Carlos Menem (1989-99), que viajou à Itália em 1990, para presenciar o jogo de abertura da Copa, no qual a Argentina – considerada a favorita na época – enfrentava a seleção de Camarões no estádio Giuseppe Meazza de Milão. Aquele jogo terminou com a derrota argentina por um a zero (graças a um gol feito cinco minutos antes do encerramento do jogo).

Na ocasião, a fama de Menem como fonte de azar espalhou-se na opinião pública a tal ponto que o presidente – semanas depois – não compareceu à final dessa Copa, na qual a Argentina confrontou-se com a Alemanha. Menem, fanático pelo futebol, optou por enviar seu irmão, o senador Eduardo Menem. O resultado estendeu a fama de pé-frio à toda a família Menem: Alemanha campeã mundial, Argentina vice.

Desta forma, no último quarto de século, por via das dúvidas, nenhum presidente argentino jamais voltou a estar presente em uma Copa do Mundo.

Em 2010 a presidente Cristina Kirchner e os ministros de seu gabinete optaram por não colocar seus pés na África do Sul nas primeiras fases da Copa, embora a Argentina estivesse entre as favoritas, o técnico fosse Diego Armando Maradona e as transmissões dos jogos, estatizadas em 2009, contassem com publicidades somente destinadas a elogiar a administração Kirchner. O casal presidencial temia ficar vinculado a uma eventual derrota da seleção nacional.

VIZINHO - A proximidade geográfica com o Brasil (que permitiria viajar para ver um jogo e voltar no mesmo dia), além dos laços com sócio do Mercosul, não entusiasmaram líderes da oposição e aliados do governo, inclusive potenciais presidenciáveis como o deputado Sergio Massa (líder da ala peronista “Frente Renovadora”) e o governador bonaerense Daniel Scioli (virtual candidato de Cristina no ano que vem) não irão à Copa.

Scioli se resignaria somente a despedir-se da seleção argentina, que fará um amistoso antes de partir para o Brasil na capital bonaerense, La Plata, contra a Eslovênia. Seu rival Massa, por enquanto, nada confirma sobre uma eventual viagem ao Brasil, embora admita que conta com entradas que ganhou de um amigo para ver o jogo contra a Nigéria, em Porto Alegre.

O único que prometeu ir ao Brasil é o prefeito portenho Maurício Macri, do partido Proposta Republicana (PRO), de oposição, que foi presidente do Boca Juniors no passado. Fanático pelo futebol, Macri não se importou com a “Síndrome de Menem” e assistirá o Argentina-Bósnia do dia 15 de junho, sentado ao lado de seu amigo Eduardo Paes. O prefeito também irá a Belo Horizonte para ver o embate contra o Irã, no dia 21 de junho.

Enquanto o prefeito viaja, seus assessores montarão em Buenos Aires mega-telões em diversas praças e parques para que os portenhos assistam ao ar livre os jogos da seleção.

MINI-DICIONÁRIO

“Mufa”: Gíria argentina pra dizer que alguém é um mega-pé-frio.

“Jetattore”: Palavra napolitana, mas adotada pelos argentinos, para indicar que alguém dá um baita azar por mau-olhado. Com frequência utiliza-se uma versão abreviada, “Yeta”. Exemplo: “Carlitos es yeta. Guarda, eh!” (Carlinhos dá um baita azar. Fica de olho, hein!)

…Mais detalhes sobre as superstições futebolísticas argentinas, no livro que o Guga Chacra e eu lançamos em maio, “Os Hermanos e nós”, da Editora Contexto.

E, para encerrar esta noite, o tango “Mala suerte” (Azar), na versão da orquestra de Francisco Canaro. Canta Ernesto Fama:


hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

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