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A elegante cidade dos mortos: o cemitério da Recoleta

Ariel Palacios

08 outubro 2009 | 00:13

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Cemitério da Recoleta é um ‘museu ao ar livre’ por sua quantidade de estátuas. Estes são os anjos que decoram o mausoléu da família Indart (foto de Ariel Palacios)

A estética e a ostentação são duas marcas do cemitério da Recoleta, localizada ao lado do centro portenho. A grosso modo, poderia ser definido como o “Père Lachaise portenho”, já que ali, tal como no cemitério parisiense, estão enterradas as principais figuras da História do país, entre heróis da independência, presidentes, intelectuais e cientistas. Seria o equivalente a um cemitério que no Brasil reunisse no mesmo lugar figuras como Dom Pedro I (que está enterrado em São Paulo), Dom Pedro II (em Petrópolis), Machado de Assis (que está no Rio), ou o marechal Castelo Branco (em Fortaleza) e Juscelino Kubistcheck (em Brasília).

Este lugar de repouso eterno da elite argentina foi criado em 1822. Paradoxalmente, seu criador, o presidente Bernardino Rivadavia, que morreu no exílio na Espanha, está em um mausoléu construído na Praça Miserere, no bairro de Balvanera (uma área popularmente conhecida como “Once”).

No século XIX e início do século XX, as famílias da aristocracia exibiam sua riqueza nos túmulos. Nos fins de semana, faziam piqueniques ali, para ficar perto de seus antepassados.

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Felino portenho aproveita a hora da siesta para relax funéreo sobre tumba de humanos (foto de Ariel Palacios)

Com 6 mil sepulcros e 70 mausoléus familiares – e uma área equivalente a de quatro quarteirões – esse cemitério é costumeiramente definido como “uma cidade miniatura com um quê de labirinto”.

Ele está rodeado ao sul por bares, por um complexo de cinemas no lado oeste, por um centro cultural e um shopping do lado leste, e motéis verticais no lado norte.

O mais famoso túmulo no cemitério da Recoleta é o de Eva Duarte de Perón, mais conhecida como “Evita”, ou, “a mãe dos descamisados”. Segunda esposa do general Juan Domingo Perón, Evita mobilizou as massas populares para seu marido, que governou o país entre 1946 e 1955. Em 1952 morreu de câncer. Perón ordenou seu embalsamamento e expôs o corpo da sede da maior central sindical. Mas, em 1955 o viúvo foi derrubado por um golpe e partiu em exílio.

Os militares sequestraram o corpo de Evita e levado para a Itália, onde foi enterrada com nome falso. Em 1973, Perón, que estava a ponto de voltar depois de 18 anos de exílio, fez um acordo com os militares, que lhe devolveram o corpo. No ano seguinte, foi a vez do viúvo morrer.

Durante dois anos os corpos repousaram na residência oficial de Olivos. Nesse intervalo, o país foi governado pela terceira esposa de Perón, María Estela Martínez de Perón, mais conhecida como “Isabelita”.

Isabelita morria de inveja do carisma de sua antecessora. Por esse motivo, seu braço direito, o ministro José López Rega, um astrólogo conhecido como “El Brujo” (O Bruxo), fazia que Isabelita deitasse em cima do caixão de Evita para obter desta os “fluidos energéticos”. O golpe militar de 1976 interrompeu estas tentativas esotéricas.

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Túmulo de Eva ‘Evita’ Duarte de Perón. Uma amostragem informal sempre mostra que a maior parte das pessoas que visitam este túmulo são estrangeiras (foto de Ariel Palacios)

Perón foi levado para o cemitério de La Chacarita (há poucos anos ele foi levado para um mausoléu no município de San Vicente), enquanto que Evita foi enterrada na Recoleta, onde suas irmãs haviam comprado um túmulo para a família. Enterrada definitivamente no meio de um regime militar visceralmente anti-peronista, o túmulo de Evita evitou a monumentalidade que seus fanáticos teriam sonhado.

Ela descansa em um dos túmulos mais simples, rodeada pelos corpos da aristocracia que a detestou. E vice-versa (se bem que ela ostentava caríssimos vestidos e jóias, imitando a elite que ela afirmava que abominava).

Ironia do destino, Evita descansa a 100 metros do túmulo do general Pedro Eugenio Aramburu, autor do plano de esconder seu corpo, e um dos principais inimigos de seu marido. O próprio corpo de Aramburu foi sequestrado de seu túmulo pela guerrilha peronista em 1971.

Quando foi recuperado, a família ordenou a construção de um mausoléu a prova de novas profanações. O general repousa hoje sob toneladas de cimento. Atrás dele, em um elegante túmulo está o presidente Carlos Pellegrini, que governou o país no fim do século XIX.

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Em primeiro plano o baixo túmulo de Aramburu, a prova de guerrilheiros. Atrás, com menos temores e mais charme, Pellegrini (foto de Ariel Palacios)

Outro presidente que descansa na Recoleta é Manuel Quintana, que comandou o país na primeira década do século, quando Buenos Aires era a “Paris da América do Sul”. Quintana, considerado um dos mais elegantes presidentes que o país teve, é retratado com uma estátua em bronze que o mostra vestido a rigor, como se estivesse fazendo uma breve “siesta”.

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Quintana descansa. Pra valer. Deitado no caixão, deitado em sua estátua (foto de Ariel Palacios)

Nos fundos do cemitério um panteão do centenário partido União Cívica Radical (UCR) alberga os corpos de três presidentes: Hipólito Yrigoyen, Arturo Frondizi e Arturo Illía.

A poucos metros dali está o peculiar mausoléu de um casal que se detestava: o primeiro vice-presidente constitucional da Argentina, Salvador del Carril e sua esposa Tibúrcia. Del Carril recusou-se a pagar as dívidas de sua mulher e publicou um anúncio nos jornais na época avisando que não deveriam esperar que ele arcasse os gastos da gastadeira cônjuge. Ela nunca mais lhe dirigiu a palavra.

Há um século e meio descansam no mesmo lugar, mas, cada um olhando para a eternidade em diferentes direções. Ele, sentado em uma cadeira, olha para um lado. O busto dela, de costas, na parte de trás do mausoléu, para outro.

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Tibúrcia, shopaholic decimonônica e seu marido e vice-presidente Salvador. De costas, pela eternidade (foto de Ariel Palacios)

A elegância predomina nos túmulos da Recoleta. Isso pode ser visto no mausoléu da família Leloir, famosa por Federico Leloir, prêmio Nobel da Química. O mausoléu possui enormes colunas que sustentam uma cúpula verde decorada com um mosaico. Outro exemplo, ali próximo, são as estátuas dos anjos que decoram o túmulo da família Indart.

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Mausoléu da família Leloir. Federico, o mais brilante de todos, foi Nobel, além de inventor do molho ‘Golf’ (foto de Ariel Palacios)

Nas vizinhanças também está o túmulo de Pierre Benoit, um cultíssimo e misterioso francês que chegou à Buenos Aires no início do século XIX. Ele é indicado como o “delfim”, o filho herdeiro de Luis XVI, que – segundo a lenda, contrariando o que indica a História oficial – não teria morrido em Paris durante a Revolução Francesa. Benoit, que morreu em 1833, foi um arquiteto importante na Argentina. Ele teve um filho que seguiu seus passos e está no mesmo túmulo.

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Pierre Benoit ou Luis XVII? (foto de Ariel Palacios)

O escritor Jorge Luis Borges, em vários poemas, indicou que descansaria na Recoleta, tal como seus antepassados. Mas, no último ano de vida, 1986, residiu em Genebra, Suíça, onde mudou de ideia, pedindo para ali ser enterrado. No entanto, diversos intelectuais argentinos pedem que seu corpo seja repatriado e colocado no mausoléu da família de seu avô, o coronel Isidoro Suárez, imortalizado nos poemas e relatos do neto.

A Recoleta também tem suas histórias de fantasmas. A mais famosa relaciona-se com o túmulo de Rufina Cambaceres, filha de uma família aristocrática, morta no dia de seu décimo-nono aniversário, em 1903.

Enterrada às pressas, por causa da dor de seus pais, ela teria ainda estado viva no momento do funeral (sofreria de catalepsia), já que dias depois, por desconfiança de um deslocamento da terra acima, seu caixão foi aberto e encontraram o corpo da jovem fora da posição original.

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Aqui tenta descansar Rufina Cambaceres, ‘la dama de blanco’

A tampa do féretro de Rufina, do lado interno, tinha as marcas de suas unhas, mostrando sua desesperada tentativa de sair. A lenda indica que ela é a “dama de branco” que vaga ao redor do cemitério durante algumas noites.

Um dos túmulos mais pungentes da Recoleta – relativamente novo, de 1970 – alberga os restos de Ana Crociatti, uma jovem que morreu em sua lua de mel no meio de uma avalanche. Seus pais erigiram-lhe uma estátua que a representa, ao lado do cachorro que amava, Sabu. A placa, em bronze, registra a imensa tristeza dos pais, que ali perguntam, em italiano, “perché, perché…? (porquê, porquê?).

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‘Perché, perché’, perguntavam-se os Crociatti. Ana ao lado do fiel Sabu (foto de Ariel Palacios)

MORTOS ILUSTRES TAMBÉM ESTÃO EM PRAÇAS, IGREJAS E CHÁCARAS
O criador da Recoleta, o presidente Bernardino Rivadavia, que morreu no exílio na Espanha, paradoxalmente não descansa no cemitério que inaugurou, mas sim, a 24 quarteirões dali, no meio da Praça Miserere, em um monumental mausoléu que passa despercebido da imensa maioria dos portenhos por causa dos camelôs que circulam a seu redor.

Rivadavia havia deixado instruções explícitas para não ser enterrado nem em Buenos Aires ou Montevidéu ou “em qualquer outra cidade à beira do rio da Prata”.

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Mausoléu de Rivadavia, primeiro presidente da Argentina. Camelô vendendo saborosos sanduíches. Fila para os sanduíches incluída

Mas, em 1857 seu corpo foi levado à capital argentina, no meio de uma cerimônia fúnebre apoteótica que reuniu 60 mil pessoas, mais da metade da população da cidade na época. Desde 1932 ele descansa, contra sua vontade, no mausoléu rodeado pelas barraquinhas de cachorro-quente e pipoca.

O general Manuel Belgrano, criador da bandeira argentina, está enterrado sob um monumento localizado na frente da Basílica do Santíssimo Rosario, nas esquinas da avenida Belgrano e da rua Defensa, no bairro de Monserrat, ao lado do turístico bairro de San Telmo.

Belgrano estava enterrado dentro da igreja, mas em 1897, o governo decidiu construir um túmulo mais destacado para o herói nacional. Durante a transferência, o caixão foi aberto pelas autoridades. Diversos ministros surrupiaram dentes do defunto criador da bandeira, a modo de souvenirs, fato que transformou-se em um escândalo. Quase todos os dentes foram devolvidos. Quase todos.

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Túmulo do criador da bandeira, na frente de igreja no centro portenho. Ministros tentaram surrupiar dentes do defunto para tê-los como souvernirs (foto de Ariel Palacios)

Outra figura da História argentina que tampouco está presente em um cemitério é o herói da independência, o general José de San Martín, que descansa em um “puxado” da catedral de Buenos Aires, na frente da Praça de Mayo. Por ser maçom, o general não podia repousar no terreno da catedral.

Mas, a esperteza portenha encontrou uma saída, a de aderira ao corpo central do edifício um anexo onde as cinzas de San Martín descansariam pela eternidade. O cofre com os restos do herói são protegidos durante o dia por uma dupla de granaderos, o corpo especial do Exército criado pelo general.

Longe do centro de Buenos Aires descansa outro general, a figura mais emblemática da política argentina no século XX, o general Juan Domingo Perón. Ao morrer, em 1974, ficou provisoriamente em uma sala da residência de Olivos.

Mas, com o golpe de 1976, Raquel Hartridge, esposa do ditador Jorge Rafael Videla, foi morar em Olivos. Ela indicou rapidamente ao marido que não pretendia morar sob o mesmo teto de dois defuntos, mais ainda, porque eram dois mortos que abominava, Perón e Evita.

Evita foi colocada no cemitério da Recoleta e Perón ficou até 2006 no cemitério de La Chacarita. Nesse ano ele foi transferido para um mausoléu construído na antiga chácara no município de San Vicente, na Grande Buenos Aires, que possuía quando era presidente.

Lideranças peronistas tentaram convencer a família de Evita a permitir o traslado de seu corpo para San Vicente. Mas, suas irmãs recusaram a proposta. A alternativa foi a de realizar um novo enterro para Perón, que continuaria descansando sem a companhia da esposa.

O segundo funeral de Perón foi conturbado, já que facções antagônicas do Peronismo confrontaram-se aos tiros no dia do enterro, ao lado do caixão, que foi depositado no mausoléu às pressas. As lideranças peronistas levaram um ano para eliminar vestígios da destruição realizada durante os confrontos.

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Fotos de outros túmulos na Recoleta (fotos de Ariel Palacios)

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Túmulo da família Poli

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Túmulo da família Borges

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Túmulo do presidente Julio A.Roca

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Túmulo dos Alvear

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Túmulo do boxeador Luis A. Firpo

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Túmulo de um imigrante italiano que fez a ‘América’

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Túmulo do general Luis María Campos

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Túmulo de soldados argentinos, uruguaios e brasileiros mortos na Guerra do Paraguai

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Túmulo do presidente Mitre

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